segunda-feira, agosto 07, 2017

INIMIGOS


“Persegui os inimigos e os alcancei, os esmaguei e 
os pisoteei e nunca mais se levantaram!” (Sl  18.37-38)

A mocidade de nossa igreja cantava este coro com veemência e animação e por dentro eu me encolhia de vergonha. Certo que era baseado em versículos bíblicos (Salmo 18.37-38), verdade que o cristão tem lutas e, consequentemente, inimigos contra quem luta, mas a exaltação guerreira parecia totalmente contrária ao que Jesus Cristo, Príncipe da Paz, nos ensinou. “Eu não tenho inimigos,” eu achava. “Haja paz na terra a começar em mim”, cantei no coração.

A belicosidade de muitos crentes por toda história humana é pedra no sapato em nossa caminhada com Deus, e pedra de tropeço para muitos que observam o nosso caminhar. Mas tenho de admitir que a Bíblia relata muitas inimizades ferrenhas. Olhe o que diz a Palavra de Deus sobre inimigos.

A primeira referência a inimizade ocorre na Queda, e foi uma declaração de Deus à Serpente:
Porei inimizade entre ti e a mulher, entre atua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar (Gn 3.15).

Até os dias atuais, existe inimizade entre o descendente da Humanidade e o descendente da serpente, aquele cobra safado chamado diabo. Inimigos atacam o povo de Deus por todo lado (Ex 15.6, Lv 26.8, Js  7.12 , Jz 5.31- Js  7.12 , Jz 5.31).

Quando pediram (e coroaram) um rei, Saul, Samuel relata a história passada de Israel, lembrando que foi sempre o Senhor que era seu rei (1 Sm 12.11 – 12) e os livrava dos inimigos. Davi, um rei segundo o coração de Deus, teve uma oportunidade singular de acabar com seu arquinimigo, mas não ousou levantar a mão contra o ungido do Senhor, mesmo que este o tivesse enganado e tentado assassiná-lo várias vezes. Perguntou: “Quem há que, encontrando o inimigo, o deixa ir por bom caminho?” A história é resumida em 1 Samuel 24. Quem sabe ele mesmo ensinou seu filho Salomão, compilador de provérbios, que “Sendo o caminho dos homens agradável ao Senhor, este reconcilia com eles os seus inimigos,” (Pv 16.7) e
Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e não se regozije o teu coração quando ele tropeçar; para que o Senhor não veja isso, e lhe desagrade, e desvie dele a sua ira. Não te aflijas por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos perversos, porque o maligno não terá bom futuro, e a lâmpada dos perversos se apagará (Pv 24.17-20).

Jesus, o Príncipe da Paz, citou o Salmo 110: “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te a minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés” (Mt 22.44; Marcos 12.36; Lucas 20.43); Pedro o citou em seu magnífico sermão estréia (At 2.35); Paulo em sua explanação sobre a ressurreição (1Co 15.25) e o autor de Hebreus em sua majestosa introdução à epístola que apresenta Jesus como sacerdote, profeta e rei ( Hb 1.13). Em sua morte sobre a cruz, Jesus, o Descendente da mulher, pisou a cabeça da serpente dando início à destruição de toda inimizade, e mostrando que os inimigos de Deus serão estrado dos seus pés. Desde o inicio de seu ministério terreno, Jesus ensinou: “Ouvistes o que foi dito, Amaras o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu porem vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5.43-45; Lc 6.27-35). A palavra aconselha: Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer (Rm 12.20). Contando a parábola do Semeador, Jesus incluiu na narrativa o fato de que haveria um inimigo que veio e semeou joio Mt 13.25, 28. Ele tinha inimigos, admitindo que os inimigos do homem seriam os da própria casa ((Mq 7.6, Mt 10.36). Antes de sua paixão e morte, Jesus chorou sobre Jerusalém, dizendo que seria destruída (Sobre ti virão dias em que teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados te apertarão o cerco, e te arrastarão e a teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o dia de tua visitação - Lc 19.41-44). Na Páscoa em que o traidor comia com ele à mesa junto com os outros discípulos, horas mais tarde, Jesus remiria seus inimigos e os reconciliaria com Deus. Em Cristo Jesus, nós que estávamos longe,
fomos aproximados pelo seu sangue. Ele é a nossa paz... de ambos fez um, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade, aboliu a lei dos mandamentos em forma de ordenanças, para que dos dois criasse,em si mesmo, um novo homem, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade (Ef 2.13-17).

Existem inimigos da cruz de Cristo, cujo destino é a perdição, e o deus deles o ventre, a glória deles é infâmia, visto que só se preocupam com coisas terrenas (Fp 3.18). São inimigos no entendimento (Cl 1.21). Paulo definiu essa inimizade como “o pendor da carne”, ou inimizade contra Deus (Rm 8.7), uma das obras da carne (...prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a essas – Gl 5.19-21) que militam contra o fruto do Espírito.

Nossa luta, contudo, “não é contra o sangue e a carne, e sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes” (Ef 6.12), e para tais inimigos, temos de nos revestir com as armas que Deus oferece (Ef 6.10-18).

Em sua carta aos Romanos, Paulo fala que quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho... de quem recebemos, agora, o ministério da reconciliação 5.10-11). Advertindo os crentes de Tessalônica, Paulo disse
Caso alguém não preste obediência... notai-o; nem  vos associeis com ele, para que fique envergonhado. Todavia, não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão. Ora, o Senhor da paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias. O Senhor seja com todos vós (2Ts 3.15-16).

Entre as qualidades imprescindíveis do bispo está ser inimigo de contendas (1Tm 3.3). Nos últimos tempos os seres humanos serão egoístas (e uma série de pecados comuns hoje em dia)... inimigos do bem (2Tm 3.1) e Tiago lembra que a amizade do mundo é inimiga de Deus (Tg 4.4-6).

Diante de tantos trechos sobre o que Deus pensa de inimizades, fico estarrecida ao observar comentários na mídia quanto à política, nas redes sociais, nas igrejas cristãs (tanto as mais ortodoxas como também as apóstatas!), no trabalho e nas famílias. Numa família que conheço, as filhas acusaram a mãe de insano malfeito; noutra família um irmão processa sua irmã e cunhado porque seu filho quebrou o braço brincando com o primo no pula-pula. Este irmão (que é pastor) defende que só os processou para acessar o seguro de indenização, mas o casal que foi processado (o esposo também pastor) ficou tão ferido que recusa qualquer contato com o irmão ou com a mãe que não teve nada a ver com o assunto, nem com outro irmão que está com câncer terminal e o recebeu em casa. Numa igreja, uma mulher que encantava com sua voz no culto, engana quatro ou cinco casais a fazer um investimento de todas as suas economias num esquema fraudulento, e depois “some” da igreja e da cidade, deixando os irmãos em Cristo feridos e sem recursos. Casais brigam, divorciam, juntam-se a outros e querem ser reconhecidos como inculpáveis na igreja e fora dela. Pessoas casam-se, enganando aquela com quem casou e assumindo uma relação ou série de casos homossexuais. Há inimizades de todo tipo e muitos abismos parecem intransponíveis. Na terra sob domínio de Satanás, será assim até que o último inimigo, a morte, seja vencido por Jesus Cristo (1 Co 15.26).

Amo a expressão Shalom aleichem e o costume de muitos irmãos em Cristo de se saudarem com “a paz do Senhor”. Mas temo que por muita gente seja dita da boca para fora. Algumas pessoas dizem “Eu preciso sentir paz para perdoar fulano de tal”, ou “vou orar para ver se consigo paz a respeito desse caso”. Esquecem que o árbitro no coração que rege a vida do crente é a paz de Cristo – conquistada na cruz, paga com sangue, à qual fomos chamados em um só corpo (Cl 3.13-17).  Antes tínhamos inimigos porque éramos inimigos de Deus, estávamos longe e éramos alienados. Mas se cremos em Jesus “temos acesso ao Pai em um Espírito... já não somos estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e somos família de Deus” (Ef 2.13-19).


Elizabeth Gomes

segunda-feira, julho 24, 2017

DEPRESSÃO, PÂNICO, E VESPÕES

Não sei como consegui perder a página com a postagem de janeiro de 2011 a qual repito aqui.


“Depressão dói mais do que aguilhoada de vespa na alma”. Quem disse isso não sabia que eu já experimentei os dois, na alma e no corpo. Ferroada no dedo, no beiço, nas costas – nada se compara à fisgada da bandida, na alma. Principalmente para quem é alérgico a flutuações do humor. Vem daí, que eu estava lendo Deuteronômio 7 e deparei com o termo “vespão”, em um contexto de depressão e de pânico. Sabe como é – parece coincidência, mas é apenas que algo conhecido chama a atenção.

O contexto do relato é a preparação do povo israelita para a conquista da terra prometida. Até aí, tudo bem. Deus diz que o povo irá inevitavelmente vencer nações mais poderosas. Maravilhoso! Deus recomenda duas coisas a serem mantidas em mente: guardar a lealdade ao pacto que ele fez com o povo, e obedecer aos mandamentos pactuais. Ótimo! Sobretudo, porque tem mais. Deus promete que o povo seria bendito, prolífero, sadio e bem sucedido. Quem quer mais? Um pedaço de quindim, talvez?

Entretanto, a coisa muda quando vem a recomendação: Não tenha temor, quando perceber que as nações são mais numerosas, dizendo: como poderei desapossá-las? Não queremos nem pensar; vai que acontece! Pior ainda é quando Deus diz que mandará vespões entre eles [os inimigos], até que pereçam (v. 20). Aí, a gente pensa: “E se as vespas se voltarem contra mim?” Pelo menos, a minha experiência diz que abelha, vespa ou marimbondo, todo esse exército fedido prefere, no meio de tantos, atacar logo a mim. O interessante é que a palavra “vespões” (hb., tisir’rāh) tem um sentido de “pânico” e “depressão” (cf. Peter C. Craigie, The Book of Deuteronomy. Grand Rapids, MI, Eerdmans, 1976, p. 182, n. 14).

Antes de chegar ao ponto, deixe-me colocar quatro coisas (sobre as quais poderemos tratar mais detalhadamente, em outra ocasião): 
(1) Depressão não é um mal em si mesmo; ela está para a alma assim como a dor está para o físico: previne que passemos o limite de nossa capacidade. 
(2) Depressão pode ser causada por problemas espirituais com reflexo no corpo, ou pelo corpo com reflexos na alma. 
(3) Depressão nem sempre é fruto de pecado, mas também não poderá ser seu motivo. 
(4) Em qualquer dos casos há uma ação requerida daquele que sofre a depressão, no sentido de se utilizar bem dessa provação a fim de recuperar o contentamento no Senhor.

Como reagir a dois desses marimbondos “cavalo do cão” que nos atacam a toda com veneno paralisante – depressão e pânico!? Bem, se for daqueles de asas e ferrões, e não houver alergia: repouso, imobilização da área, torniquete (incisão e sucção removem 20% do veneno se feitos na primeira meia hora), sem estimulantes e muito líquido. Se o caso for pior, hospital, depressa! Mas, se for daquelas que pegam a alma, amarram, amordaçam e fazem definhar, aí, sendo de fundo físico, um médico e um bom conselheiro cristão poderão ajudar; se for de fundo emocional (a maioria das vezes), o tratamento poderá ser caseiro. Em qualquer dos casos, requererá a aplicação do quarto item, acima. A ação prescrita envolve, entre outras coisas, o uso da memória. Em todo o texto de Deuteronômio, caps. 4 a 8, é enfatizado o recurso da memória: “lembrar” e “não esquecer”.

Lembrar as coisas que o Senhor fez para e em sua vida. Os israelitas, em função da falta de confiança em Deus (Dt 1.44), haviam sofrido uma derrota militar sob um ataque como que “de abelhas”; agora, o Senhor lhes prometia a mesma paga aos inimigos. Aí está! As depressões poderão ser nossas grandes amigas quando precisarmos de um recesso (como quando salta de um muro e flexiona os joelhos a fim de diminuir o choque); mas se nos deixarmos dominar pela depressão ou pelo pânico, o veneno vai direto à memória. A promessa do Senhor aos israelitas, agora, é o contrário: ele mandaria vespões entre eles [os inimigos], até que pereçam (v. 20).

No nosso caso, são vespões contra vespões; e lembranças são como marimbondos santos que nos auxiliam na vitória contra a depressão e o pânico. Temos de manter na memória o dia da nossa salvação, quando, na cruz, o Senhor venceu o aguilhão do pecado, e sarou nossas feridas. Durante todo tempo, agora, ele tem nos disciplinado para a batalha, para que não sejamos (adaptando a figura) como meninos fugindo de abelhas (cf. Ef 4.14). Ceder à tentação de se deixar levar pelo “branco” que dá na mente, pela modorra que segue o dito: “não me faz rir que dói”, ou pelo sentimento de não querer ser consolado, tudo isso é como feronômio que só atrai mais marimbondos. É preciso lembrar os mandamentos e promessas do Senhor. Se acharmos que não dá para lembrar nada, alguém poderá ser o “grilo falante” da nossa consciência, lendo a Bíblia (Salmo 107; Mateus 26.36-42; João 12.23-28) ou outro livro (p.e., David Powlison, Uma Nova Visão: SP, Editora Cultura Cristã, 2009). Orar, agradecendo a Deus as experiências específicas com sua bondade durante toda a vida é um “santo remédio”!

Não podemos nos esquecer de quem Deus é. A Bíblia diz: Não te espantes diante deles, porque o Senhor, teu Deus, está no meio de ti, Deus grande e temível (Dt 7.21). Medo de quê? Futuro, pessoas, situações, tudo? Deveríamos ter medo de não confiar em Deus. A promessa do Senhor foi que ele estaria no meio dos israelitas, do mesmo modo que ele está no nosso meio, habitando em nós e no meio do problema. Ele é Deus presente; não estamos sós.

Deus tem um propósito e um plano bom para nós. Deus disse ao povo que daria a vitória na conquista da terra prometida, pouco a pouco, porque ele não estava preparado, ainda, para governá-la e para que as feras do campo se não multipliquem contra ele. O Senhor, em tudo nos prepara para a vitória (cf. Romanos 8.22-39). Não podemos nos esquecer de que Deus nos amou, entregando seu Filho a fim de que tivéssemos a vida eterna (cf. João 3.16). Seu propósito é o de que vivamos uma vida de tempo e qualidade eternos. As muitas lutas são parte do seu plano para fortalecer nossos joelhos. Hebreus 12.11-13 diz que a “disciplina, no momento, não parece ser motivo de alegria”, mas, depois, produz fruto de justiça. Assim, somos instados a restabelecer as “mãos descaídas e os joelhos trôpegos e fazei caminhos retos para os pés”, a fim de sermos curados. Dobrar os joelhos diante de Deus, e exercitar os joelhos diante dos homens cura pânicos e depressões. (Você já tentou matar marimbondo, no quarto, com toalha de rosto?).

O Senhor é homem de guerra (Êxodo 15.3). A vitória que ele dá, requer o exercício da lei da guerra. Primeiro, retire da cabeça os livros sobre a arte da guerra (tem muitos, novos e antigos; cf. Carl Von Clausewitz, 1780-1831). A lei da guerra, na Bíblia não é a da vitória da carne autônoma, independente, egoísta; é a arte de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como já amamos a nós mesmos. Assim, Paulo também diz que “nossa luta não é contra o sangue e a carne” (Efésios 6.12). Nessa luta contra a depressão e o pânico, os inimigos são aquelas coisas que militam contra o Espírito de Deus. Paulo também diz, em Gálatas 5.13-25, que nossa carne é escrava de lutas intestinas: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas (vv. 19b-21). Contra esses, a ordem bíblica é: (1) destruir o poder de fogo inimigo e inabilitá-lo para a luta; (2) subjugar o inimigo interno até à morte e não permitir que o seu ambiente externo tenha força de contra-ataque; (3) a guerra só termina quando a vontade do inimigo for inteiramente dominada pelo Espírito de Deus (cf. Dt. 20.10-18).

O ponto chave em tudo isso é: “mais vale dois marimbondos voando do que um na mão”. Dt 7. 23-26, finalmente, reafirma aos israelitas a promessa de Deus, de destruir o inimigo enquanto os prepara e fortalece para a vitória (vv. 23-24). A parte de Deus, deixemos com ele e confiemos em seu poder e bondade. Quanto a nós, havemos de queimar todos os ídolos e parafernália de idolatria – até mesmo, o culto aos rótulos diagnósticos, o temor da doença, os caldos de galinha psicológicos etc. A depressão e o pânico são tão valorizados que parecem prata e ouro, mas são apenas peças banhadas que escondem cobiça (quebra dos primeiros quatro mandamentos) e sujeição à carne (quebra dos últimos seis mandamentos).

Bem sei quando dói a picada do marimbondo e não quero ser um vespão na sua tristeza. Antes, peço a Deus que o veneno da bendita acione o antídoto da Palavra de Deus e sua comunhão a fim de que você reúna toda a fraqueza dos ossos, músculos e nervos, e toda a força e óleo da graça para sair campo afora, catando mel de abelhas.

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, junho 16, 2017

VASOS TRINCADOS COM TESOUROS ETERNOS


     Recentemente uma moça comentou a respeito de postagens de outros no facebook: “Não devemos expor nossos pecados; afinal, todos em nossa rede são crentes em Cristo e devemos glorificar a Deus e mostrar a vitória que só a ele pertence”. Sei que ela estava bem-intencionada, mas muito equivocada.
     Primeiro, porque, embora o facebook possa ser usado como ferramenta de testemunho cristão, nós somos mesmo pecadores (1Jo 1.8-10). Não podemos pensar de nos mesmos além do que convém (Rm 12.3) nem nos achar melhor do que os outros! Melhor, só Jesus Cristo, que é melhor do que tudo que temos ou pretendemos ter e ser.
     Segundo, facebook não é a igreja, ou seja, não é uma comunidade de pecadores salvos pela graça por Jesus. Pessoalmente, tenho muitos irmãos na humanidade, amigos e conhecidos de longa data, que não são irmãos na fé: gente inteligente, simpática, que se define como agnóstica, espírita, católica, judia, quem sabe até muçulmana – com quem comunico por meio do facebook.  Eu respeito a imagem de Deus que está nelas, mesmo que fraturada e dilacerada por incredulidade ou por credulidade anti-bíblica. 
     Tenho também contatos de toda matiz do arco íris: os que assumem uma bandeira LGTB e os que participam de alguma atividade heterossexual condenada por Deus como fornicação, adultério e alguma espécie de violência sexual. Se eles manifestarem esses conceitos verbalmente, tentando incitar a outros a pecar, rejeitarei pecado, atentando ao que Paulo disse: “tais fostes alguns de vós, mas vós vos lavastes...” (1Co 6.11).
     Se alguém é pecador contumaz e se diz cristão, a Biblia adverte “com este nem comais”, mas se nem na igreja Jesus permite que ceifemos o joio enquanto está crescendo junto ao trigo (Mt 13), como posso eu, uma crente comum, podar alguém que “apenas” não é cristã, sem amá-la e apresentar-lhe a verdade, que incluirá o pecado, e a redenção em Cristo? Creio que a igreja tem uma responsabilidade de disciplinar quem anda contrário à Palavra de Deus, para manter a pureza da Noiva, mas, no facebook não sou a disciplinadora, mas uma testemunha. Sou sim, embaixatriz do Reino de Deus e fui chamada para um sacerdócio santo (1 Pe 2.9) agradável a Deus( Rm 12.1-2), mas não sou melhor que eles. Como disse Paulo, o maior teólogo e apóstolo do primeiro século (e de todos) “Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou principal”(1 Tm 1.15.), e eu não posso me julgar melhor que eles ou que ele!
     Não somos do mundo, mas estamos no mundo (Jo 17) e o Senhor rogou que fôssemos guardados do mal, não que esfregássemos no nariz dos outros que somos melhores do que eles! Temos em nós os tesouros inefáveis de Jesus Cristo, mas nós somos vasos de barro (Rm 9.23; 2 Co 4.7), às vezes trincados, outras vezes detonados, sempre carentes de sermos refeitos à imagem de Deus. É para este mundo que Deus nos conclama a ser sal e luz (Mt 5.13), enquanto indo fazer discípulos de todas as nações, pregar e viver o evangelho a toda criatura, ensinando a guardar... (Mt 28.19,20).
     Outro tipo de exclusão que vejo muito nos que confundem a igreja visível ou invisível do Senhor Jesus Cristo com “minha comunidade nas redes sociais”, é a partidária: “Eu sou de Paulo, eu sou de Pedro, eu sou de Apolo, ou o [certinho} eu sou de Cristo (1 Co 3.4). Noutras palavras, se você não for do meu time, você não é crente. Cada um deve ter firme em mente o que crê, mas respeitar quem pensa de maneira diferente. 
     Eu creio, por exemplo, que todo crente faz parte da nação santa, do sacerdócio real, do povo de propriedade exclusiva de Deus – minha posição de estar em Cristo e ser nova criatura, em que não há diferença entre homem ou mulher, judeu ou gentio, escravo ou livre (Col 3.28). Isso não significa que as mulheres devam ser pastoras. O pastorado do rebanho de Deus como função pertence a homens dotados por Deus para o pastorado e ensino (2 Tm 4.1-5; Tt 1.5-9). Tenho amigas que amam ao Senhor, são evangelizadoras e estudiosas da Palavra de Deus, que se denominam (ou outros as denominam) pastoras. Creio que elas estão equivocadas e perdem ao não reconhecer a liderança masculina em casa e na igreja – mas não brigo com elas por se chamarem de pastoras, e reconheço que elas são crentes em Cristo. A mulher de Pedro o acompanhava em suas viagens, mas não se chamava de pastora Pedrina! Priscila era discípula de Paulo junto com seu marido Áquila, e estudiosa da Palavra a ponto de esclarecer a Apolo onde ele estava errado, mas não foi designada pastora. Dorcas, Lóide e Eunice, Lídia, Marta, Maria Madalena, Joana, muitas outras mulheres foram discípulas, mas não eram conclamadas a pastorear o rebanho de Deus, nem eram bispas ou apóstolas. Não brigo nem falo mal delas. Se uma perguntar minha opinião sobre o pastorado feminino, eu converso com ela sobre as razões pelas quais não creio que seja uma injunção cultural ultrapassada, mas ordem da Bíblia – mas não a rejeito como minha irmã em Cristo de quem aprendo muito!
     Amar ao Senhor Jesus (nós o amamos porque ele nos amou primeiro) é consequência de nosso novo nascimento e de estarmos nele. Neste sentido, todo crente, homem ou mulher, é teólogo (ama o logos de Deus), missionário evangelizador, faz parte de seu Reino, sacerdócio (conforme já vimos em 1 Pedro) e embaixador/embaixatriz do mesmo. Mas por ordem e função, nem todo crente -- e nisso se incluem as mulheres – é designado para chefiar o corpo de Cristo!
     Como no caso de diversas diferenças doutrinárias (batistas / presbiterianos; arminianistas/calvinistas; pentecostais/tradicionais não pentecostais; aliancistas/dispensacionalistas e uma miríade de outros ismos e istas, minha pergunta não é “qual o seu partido?” e sim “conta-me como você conheceu a Cristo”. Algumas das irmãs que mais me abençoaram quando eu era jovem eram (são) pentecostais; por outro lado, tive dissabores com alguns irmãos que pensam iguais a mim. E me entristeço ao lembrar que eu magoei alguns irmãos no passado, em coisas que eu poderia ter deixado passar. Também houve casos de erros de irmãos que eu fui conclamada a testemunhar, falei (ou escrevi) e ainda não consegui reatar com eles/elas. De coração, desejo que a paz que Cristo conquistou na cruz seja o árbitro entre nós (Cl 3.15).
     Às vezes, quando posto uma foto mais bem-vestida ou de alguma vitória profissional, alguém quer me elogiar e diz: “Poderosa!” “Você é meu exemplo” ou outra coisa parecida, e eu penso: Eu não sou essa poderosa que ele/ela pensa. Sou fraca, pecadora, indigna. Isso não é por ter uma “baixa autoimagem”. Na verdade, eu almejo espelhar a imagem de Deus em Cristo, pois minha imagem é espelho rachado, e a dele, do Verbo de Deus, que se encarnou e se fez um de nós. Todo poder, toda glória é de Deus – e, se eu roubar um pingo desse mérito para mim mesma, estarei mostrando um simulacro tolo e falso. Na verdade, só podemos conhecer a nós mesmos à medida que conhecermos melhor a Jesus Cristo, porque nele reside toda a sabedoria.
     Tenho de aprender a não tentar “endireitar os outros” nem rejeitá-los por pensarem diferente, mas amar a meus irmãos em Cristo e ser sensível à dor de meu irmão na carne. Que deixemos toda e qualquer soberba fútil, e aprendamos com Jesus Cristo que “subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes, a si mesmo se esvaziou, tornando em semelhança de homens, e reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2.5-8).
Elizabeth Gomes

quinta-feira, maio 11, 2017

LIMPANDO OS ARMÁRIOS




De vez em quando, percebemos que os armários estão tão abarrotados de tralhas que não conseguimos achar nada. Quando planejamos uma viagem, há mudança de estação, ou mesmo percebemos um mudança interior, um bom jeito de resolver pendências é eliminar o supérfluo, reciclar o que é aproveitável, e exercer verdadeira generosidade compartilhando o que possuímos e amamos.

Nos lares judaicos, os dias antes de Pesach eram de limpeza extrema de cada canto da casa, botando para fora tudo, de vestimentas até alimentos, para guardar novamente – depois de eliminar qualquer fermento que encontrassem. Os oito dias de celebração da libertação do cativeiro do Egito tinham de ser pareve: não se comia nada fermentado. Em vias de deixar suas casas indo ao deserto onde vagariam por quarenta anos, não havia como deixar crescer o pão – daí o matzo substituiria a challah, e de mochilas prontas eles comeriam o cordeiro vestidos com roupas e calçados para a viagem. Mais de quatro mil anos depois, a “caça ao fermento” continua a marcar a memória das crianças israelitas. Hoje os cristãos não têm esse hábito judaico, mas deveríamos estar atentos à advertência de Jesus: “Guardai-vos do fermento dos fariseus” e nos livrar do mofo das idéias altaneiras e das coisas que acumulamos no afã de ter e ser mais.

Limpar os armários, quer de alimentos quer de roupas, calçados e mil coisas mais, é um hábito saudável. Quando minha mãe teve de sair da sua casa para morar com minha irmã, a tarefa que me coube na visita que lhe fazia era descartar o que não deveria levar. Ela tinha alimentos em latas de cinco anos depois da validade expirada. Sei exatamente quanto tempo, porque ela tinha o costume de marcar na lata a data em que comprou “esse espinafre”, “esses mariscos” que guardava para uma ocasião especial, os pacotes de castanhas e passas de anos passados... Quando cheguei ao armário de remédios, vi o risco que ela passara: na Virginia dos anos noventas tinha remédios do Brasil do fim dos anos sessentas – melhoral, mercúrio cromo, sonrisal! Joguei tudo fora, e vi mamãe chorar.

No guarda roupa a coisa não estava muito melhor. Amei descobrir uma saia xadrez que ela comprara em Porto Alegre quando eu era ainda adolescente – confesso que tomei para mim e usei mais alguns anos antes de transformar em jardineira para minha neta. Era lã de primeira e a traça e a ferrugem não tinham corrompido! Mamãe era muito organizada, e em cada roupa pendurada no cabide, ela guardava a etiqueta da data em que comprou ou mandou fazer, mencionando quais os acessórios que combinavam. Quando ainda trabalhava, ia tirando e usando as roupas em ordem em que estavam guardadas, e colocava uma borrachinha no cabide para indicar se estava lavada e passada ou se poderia usar mais uma vez antes de lavar. Ela tinha chapéus dos anos cinquentas, e, dobradinha, embrulhada em papel de seda, uma roupa chinesa que sua tia avó, médica missionária na China, dera-lhe quando ela era menina de uns treze anos. Eu tenho esta túnica guardadinha em meu armário de Mogi das Cruzes. Eu debochava dos costumes acumuladores de uma mãe que cresceu durante a depressão dos anos trinta e nos criou como filhas de missionários nos cinqüentas e sessentas. Mas aprendi muita história com esses vestidos antigos.

Minha irmã e eu aprendemos cedo que não podíamos esbanjar, que as roupas e sapatos eram caros (tínhamos, cada uma, um par “chique” para a igreja, um para brincar no quintal, e o sapato de uniforme para a semana toda). Quase não comprávamos roupa; éramos abastecidas quando a cada quatro ou cinco anos, íamos com a família de férias para os Estados Unidos, onde diversas igrejas tinham “mission barrel”, um barril (ou melhor, baú) repleto de boas roupas usadas para a família missionária. Enquanto lá, os avós e as tias faziam questão de nos presentear com roupas para o natal e nossos aniversários, mas nossas pièces de résistance eram os retro fashion que nós aprendíamos a usar e quando nos perguntavam onde compramos, dizíamos simplesmente “nos Estados Unidos”.

Somos sempre missionários e, depois de mais de cinquenta anos, aprendendo a viver com parcimônia, sou grata pela mãe que nos ensinou a não colocar nosso amor nas coisas – ainda que ela mesma acumulasse e usasse mil velharias. Mas sou grata por conviver com um marido generoso que me deu uma visão mais ampla do que se deve guardar e o que se deve dar, esbanjando beleza e graça em todas as coisas. Pelo menos duas vezes por ano, eu faço uma limpeza geral no meu armário. Se tem alguma coisa que eu não visto há mais de ano, isso vai para a pilha de “dar”. Se engordei ou emagreci, e tem alguma roupa de que gosto muito mas não fica bem em mim, vai para a pilha de “dar”. Confesso que tem umas duas ou três peças que ainda não me servem mas que coloco como meta para perder peso. A pilha de “reciclar” é menor que a de dar, porque fazer reforma implica em gasto, apesar de eu aproveitar e redimir muita coisa. A pilha de dar tem de se tornar um monte, e imagino as diversas pessoas que se agasalharão com aquilo que me abrigou. Aliás, “dar” também implica em gastos: lavar e passar, tintureiro e, às vezes, costureira para pequenos consertos. Não dou aquilo que eu me envergonharia de usar. Deixar bonito, cheiroso, com botões pregados e barras feitas faz parte de dar com alegria.

Faço essa limpa nas minhas coisas e nas de meu marido – sempre perguntando a ele se concorda que demos tal camisa ou calça. Quando os filhos estavam em casa, participavam dessa tarefa (assim eu não dava o que eles não queriam que desse) e se alegravam em compartilhar roupas, calçados e brinquedos.

Engraçado que, a cada vez que vasculho e limpo meu armário, Deus faz questão de me dar algo novo. Tenho duas amigas irmãs que no passar dos anos, diversas vezes, compartilharam comigo. sacolas e malas de roupas de qualidade, e nessa fartura eu compartilho com outras amigas. Depois de uns anos, renovam-se as vestes. Divertimo-nos com a criatividade e variedade que Deus nos permite nessas limpezas e recicladas.

Lembro-me especialmente de duas igrejas que criaram “boutique missionária”, onde obreiros que ganham pouco pudessem abastecer suas malas e vestir suas crianças com boas roupas. O “Conte Comigo”, ministério das mulheres de professores do seminário às mulheres jovens de seminaristas e pastores “principiantes” também tem um farto guarda-roupa disponível a quem precisa. Algumas igrejas promovem bazares, não para angariar fundos em substituição ao dízimo, mas para que pessoas com menos recursos possam “comprar” a preço simbólico coisas úteis de que necessitam. Qualquer que seja seu método de distribuição para quem precisa, deve ser feito levando em conta a dignidade da pessoa humana e a beleza dos relacionamentos em Cristo.

Algumas “reciclagens” são inesquecíveis. Quando eu e minha irmã éramos crianças, nossa tia fez coroas de princesa com pedaços de bijuteria quebrada e brincos sem par – nossas coroas trouxeram um senso de majestade e valor a duas crianças solitárias. Quando papai faleceu, entre suas coisas deixou umas vintenas de lindas gravatas de seda, algumas espalhafatosas, muito demais para o gosto de meu marido. Abri as costuras de cada gravata e as costurei, fazendo uma saia multicolorida que usei uns dois anos em festa antes de dar para minha filha que aproveitou por um tempo antes de passar adiante. Uma sombrinha detonada de tecido forte de oncinha virou uma sacola prática que uso a mais de dez anos. Um tailleur clássico de minha mãe virou um conjunto chique e juvenil para uma menina linda. Reciclar é exercício de criatividade!

Não podemos nos limitar a dar o que não usamos mais. Uma irmã querida (hoje no céu) estava em casa num almoço e viu que a porta de meu forno não parava fechada. Naquela semana, um caminhão chegou em casa com um fogão novinho em folha. Uma vez, uma mulher cristã pensava em trocar de geladeira, quando soube que a geladeira de uma amiga havia “pifado”. Comprou e mandou entregar uma geladeira na casa da amiga, e só comprou geladeira nova para si no ano seguinte. As duas são gratas ao Senhor que é dono das geladeiras, fogões, aparelhos domésticos, e todos os bois nos milhares de campos da terra.

Limpar os armários é mais que livrar-se do excedente e dar a outro que precise. Implica em limpar os recantos e lugares escondidos de nossa vida, pensando no próximo e fazendo algo tangível, aas vezes a quem nem imaginávamos.

Quando mamãe vivia na terra, ela gostava de estender a roupa no varal, e escrevia nomes nos prendedores de roupa. Ao colocar os prendedores, orava pela pessoa cujo nome estava na sua mão. O coração sempre disposto a falar com Deus que mamãe demonstrou, é um legado muito precioso que espero aprender e transmitir a outros. Depois que ganhou uma secadora, ela passou a usar o tempo “da roupa”para ler sua Bíblia (além das muitas outras horas em que a estudava). Não tem preço a lembrança de uma mãe piedosa que aproveitava cada detalhe comum do cotidiano para atribuir a Deus a glória e amar as pessoas que pertencem a ele. Tudo tinha esse propósito.

Além do prosaico e comum com que vivemos todo dia, a limpeza dos armários pode significar glória e tesouros. Quando minha avó comprou a casa em que mamãe passou os primeiros anos da sua vida, descobriu atrás duma parede uma grande caixa com jogo de talheres de prata do tempo da revolução americana em final do século XVIII. Tesouros diferentes e intangíveis, eu encontrei revirando as “tralhas” de minha mãe para ajudar a limpar os armários. Proponho que essa limpeza seja feita de quando em quando – sempre disposta a tirar as teias de aranha e aguentar o cheiro do tira-mofo para tornar a vida mais organizada, e dar alguns passos de generosidade enquanto melhoramos nosso próprio espaço. Nunca se sabe o quanto poderemos alargar o espaço e expandir o bem estar de outras pessoas!

Elizabeth Gomes

quarta-feira, maio 10, 2017

BELEZA TEOLÓGICA SEM PRETENSÃO DOGMÁTICA





UMA INCURSÃO NA PALAVRA E NA MARCENARIA

Beleza só por beleza poderá ser pura vaidade – concluiu o hábil pregador das coisas do Criador e da criação. É como estudo e conhecimento, escrita e publicação, madeira e marcenaria: quando sem peso de glória, é mais para peso de gafanhoto. É correr atrás de vento de mocidade no tempo da penumbra, de fio de prata rompido, de nuvem chovida, e de pote quebrado junto à fonte. É como boca de beco, desafino de medo, e espanto sem grito. É ânsia de produção e aplauso sem apetite nem dente. 

Isso é, verdadeiramente, coisa séria para quem esculpe com palavras e harmoniza madeiras. Lá em casa, por exemplo, quando canso de uma oficina, vou à outra, acompanhado sempre da Palavra de Deus e da oração. Mudam as ferramentas, numa, o Aurélio, o Othon Garcia, e um e outro escritor de gosto (que de letras sei pouco) e, noutra, a serra, a plaina, o martelo e mais um sem número de apetrechos. Numa, o rasgo do texto abrindo a mente e, noutra, o traço na madeira e o risco de sangue na mão (que nunca passei de servente e aprendiz). 

Beleza ainda que por beleza além de linda será sábia e verdadeira se for bela como a santidade do Criador e como toda a palavra que sai de sua boca. Salomão relacionou a experiência das cãs à florescência da amendoeira. De fato, há paralelos interessantes entre o labor da palavra e o lavor da madeira. Há gramática, metro, conjugação, esquadro, conjunção, junção, e há estilos. As palavras cuidadosamente usadas, disse o Sábio, são como pregos bem fincados. 

Em quaisquer das responsabilidades e prazeres, o que eu peço é que Deus fixe suas palavras no meu coração e me conceda olhos e mãos para louvá-lo no uso da madeira. Que eu não use o estudo e a pregação da Palavra nem a escolha e o trato da madeira dos modos contra os quais advertiram os profetas: são como “espantalho em pepinal” e “ídolos mudos”. Antes, sejam as minhas palavras ricas como jóias e as minhas tentativas artesanais sejam obras santas como no Templo do Senhor. Sejam a minha teologia e a minha prática, figura pública e privada, mente e coração, e os membros do meu corpo, sempre fiéis a Deus e coerentes diante de Deus e dos homens, como as de Cristo no madeiro. 

Ah! E haja madeira boa para meus projetos – e madeira da boa para as minhas costas tanto para apoio quanto para disciplina.


Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, abril 17, 2017

NOVIDADE DE VIDA


A Semana Santa, para os judeus a semana da Pesach, lembra a libertação da escravidão do Egito e a peregrinação rumo a Terra Prometida. Para quem crê em Jesus não há como deixar de comunicar a morte e a ressurreição a amigos e companheiros de peregrinação. Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Pão da vida sem fermento — matzo — que comeu as ervas amargas do cálice da ira de Deus e deu-nos o cálice da nova aliança no seu sangue e, hoje, o vinho da alegria indizível de sua presença.

Em que a ressurreição de Jesus Cristo faz diferença em nossas vidas? Em tudo! Esse “tudo” inclui atitudes, ações, comissões e omissões. Dois discípulos caminhavam tristes com os terríveis acontecimentos dos últimos dias. Todas as suas esperanças de libertação e de um novo reino de justiça pareciam frustradas com a morte daquele que criam ser o Messias. Outro caminhante se aproximou deles e perguntou o que tomava conta das suas emoções. “Só você não sabe do que aconteceu nesse Pesach em que esperávamos que alguém maior que Moisés nos desse libertação completa e perene?!”O estrangeiro foi falando das Escrituras, expondo de alef a tau tudo que Deus falou e fez. Só depois de atender o convite “fica conosco que já é tarde e o dia declina”, sentado à mesa para repartir com eles o pão, quando agradeceu ao Pai, é que viram quem era! “Não nos ardia o coração quando ele nos falava?”

Ressurreição é transcendência onipotente falando com linguagem compreensível das coisas eternas que removem as pedras do caminho e transportam vida, tornando-a crível e praticável. “Por que buscais entre os mortos ao que vive?” e “Por que choras?” muda para “Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão à Galiléia; lá me verão (Mt 28.10). Quem testemunhou a crucificação e o túmulo vazio não pode mais viver em temor—tem uma missão a cumprir: Ide dizei a meus irmãos.

As reações dos discípulos foram diversas. Uns viram e creram. Outros permaneceram incrédulos. Outros só creriam depois de colocar o dedo nas feridas de Jesus. Soldados foram pagos para dizer que roubaram o cadáver. Mas não havia cadáver. Ele andou entre nós, falou conosco, partiu pão conosco. Muitos entenderam, outros entenderam mal, ainda outros afirmaram tratar de embuste mesmo contra as evidências da verdade.

Quando penso em cumprir a missão dos que testemunharam a crucificação — viram-no colocado no sepulcro que pretendiam encher de perfume e flores, viram a pedra removida, o túmulo vazio, ouviram os anjos falando, o próprio Jesus perguntando “por que choras”, chamando Maria pelo nome — eu mesma olho para a Grande Comissão que exige integridade na feitura de discípulos: tudo que somos e temos, transparência realista, consciência do que não somos e, até mesmo, nossas carências. Os discípulos — gente como nós, ignorante e covarde, medrosa, orgulhosa e desejosa de obter o melhor lugar no reino — passaram a ter coragem e ousadia de falar e não se calaram diante de ameaças, cuidaram do rebanho de Deus, e evangelizaram conterrâneos, vizinhos e estrangeiros, até os confins da terra. A marcha que começou com onze foi, ao longo dos séculos, acrescentada de milhares de pessoas de todas as raças, tribos e nações, e continua até hoje com grandes servos de Deus do presente e do passado, e gente pequena como eu.

Sou, como todo verdadeiro cristão, uma missionária — quero cumprir a missão de Deus de glorificá-lo também na obediência à Grande Comissão de Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo. Isso tem de ser feito com a integridade que vem do próprio Deus da paz que nos conserva espírito, alma e corpo íntegros e implica inteireza de cada aspecto de nossa vida (1Ts 5.23-24). Todos os que participamos do sacerdócio santo (1Pe 2.9-10) temos a missão de proclamar as grandezas daquele que nos chamou das trevas para o reino do Filho do seu amor. Isso não implica em pastorado feminino (que não tem respaldo bíblico), mas na ação e atuação de cada crente que cresce na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. Rejeito qualquer “missão integral” baseada em marxismo ou ação social que não tenha como centro Jesus Cristo, morto por nossos pecados e ressurreto para garantia de nossa justificação. Como disse Lutero, “Somos todos mendigos”.

Entre as diversas crises de fé que temos e que observamos na vida de nossos irmãos, temos as dificuldades na política, na ética, que nos forçam a enxergar o que não queremos ver e de cujas baixas não conseguimos escapar, tanto no ambiente que nos cerca quanto em nossa experiência interior — coisas que nos abalam e que, às vezes, nos devoram. “Quantos que corriam bem de ti longe agora estão, outros seguem, mas também sem fervor vivendo estão...“ (Hino Vivifica, 132 HNC).

Muitas igrejas (e seus membros individualmente) optam por aquilo que é conveniente, moderno, muitas vezes duvidoso, por estarem focados mais no pensamento do mundo do que no de Jesus Cristo, de quem tomamos o nome. Nossa mensagem tem de ser ortodoxa: anunciando todo o conselho de Deus com fidelidade segundo a fé na graça salvadora de Jesus Cristo. Isso, junto com uma fé firmada na morte e ressurreição de Jesus Cristo, na Palavra de Deus, tem de ser vivido na prática. Se agirmos sem ortopraxia, anularemos qualquer ortodoxia proclamada. Hoje, alguns nem mesmo querem mais ser ortodoxos. (Sempre houve pessoas assim.) Preferem ser atuais, e sua contextualização anula os textos firmes da Palavra da Verdade. Como dizia um tio amado, mas enganado, “É necessário sempre um pouco de heresia”. Vemos cada dia mais as características dos últimos dias em que virão tempos difíceis. A advertência descritiva de Paulo ao filho na fé, Timóteo, está mais real que nunca:
Nos últimos tempos os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder (2Tm 3.1-5).

A volta do Senhor é iminente, e é nossa bendita esperança, mesmo que muitos amigos no evangelho ignorem a centralidade da volta de Cristo para nossa ética social. Rejeito a idéia de que nossos atos irão apressar ou causar a volta de Jesus (como se nossas obras tivessem mérito!). Creio nas palavras do Jesus ressurreto e glorificado: “Eis que venho sem demora ... Eu sou o Alfa e o Omega...”

O brilhante Charles Wesley escreveu um hino dizendo: “Mil línguas eu quisera ter para entoar louvor” (SH 211), e eu tinha o mesmo sentimento: queria saber expressar o louvor de inúmeros modos e acabo não conseguindo comunicar sequer em meu próprio idioma as profundezas e a amplidão do amor de Deus. Uma das sequelas que retive depois de um AVC sofrido em 2007 foi que perdi a cristalinidade da voz com que gostava de cantar. Tenho me descoberto, no entanto, uma salmista de coração. Com voz de taquara rachada, ainda louvo porque meu louvor não é fruto de voz e respiração treinadas. O meu louvor, como disse o autor de Hebreus, é fruto de lábios que confessam o teu nome (Hb 13.15). Experimentei a disciplina do Senhor, “para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade”, que produz fruto pacífico aos que por ela tem sido exercitados, fruto de justiça (Hb 12.11). Agora vivo para o seu louvor na paixão e sofrimento, no sepultamento de minhas próprias aspirações, na alegria daquela manhã de domingo em que ouvimos que ele não está aqui, mas ressuscitou! “Faz-me conhecer os teus caminhos; ensina-me as tuas veredas; guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação,” diz o salmista (Sl 25.4,5). Seja esta a minha oração, e a de cada salmista de coração!

Somos, sim, mendigos, mas que falam a outros mendigos onde podemos encontrar o pão! Cremos nas promessas futuras porque conhecemos o Deus que não pode mentir e que nos “tirou do império das trevas e nos transportou para o reino do seu amor” (Cl 1.13). Ainda que indignos, somos povo de Deus, filhos de Abraão pela fé, enxertados na Videira. O apóstolo Paulo em Romanos 8, 9 e 10 mostra que Deus não rejeitou seu povo da aliança, o povo de Israel, e lembra ainda que para a salvação não há diferença entre judeu e gentio, escravo ou livre, homem ou mulher (Cl 3.23): fomos adotados como povo de Deus, enxertados em sua família. A ressurreição lembra o convite insistente de nosso Deus, que nutre e que cura, floresce e firma, a filhas de Eva e filhos de Adão que, pela fé, são também filhos de Abraão:
Volta, ó Israel, para o SENHOR, teu Deus, porque, pelos teus pecados, estás caído. Tende convosco palavras de arrependimento, e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Perdoa toda iniqüidade, aceita o que é bom e, em vez de novilhos, os sacrifícios dos nossos lábios... tu és nosso Deus; por ti o órfão alcançará misericórdia. Curarei a sua enfermidade, eu de mim mesmo os amarei porque a minha ira se apartou deles. Serei para Israel como orvalho, ele florescerá como o lírio e lançará as suas raízes como o cedro do Líbano. Estender-se-ão os seus ramos, o seu esplendor será como o da oliveira, e sua fragrância, como a do Líbano. Os que se assentam de novo à sua sombra voltarão; serão vivificados como o cereal, e florescerão como a vide... (Os 14.4-7).


Elizabeth Gomes

sexta-feira, março 31, 2017

LOUCOS GLORIFICADOS




         Lembro-me de estar sentada na cozinha de minha avó Kate, vendo o velho de cabelo comprido e mãos retorcidas.
— Então, você é a menina do Dougie, ele disse.
Eu tinha cinco para seis anos, amava meu pai Douglas e nunca ouvi ele ser chamado de Dougie, mas soava como boa mistura de Douglas e Daddy. Acedi. Gato comeu a língua. Era a primeira e única vez que me encontrei com meu vovô Thomas Charles. Mais tarde perguntei a meus pais sobre ele e responderam apenas:
—  Ele está num hospital. Institucionalizado. Sempre foi meio louco.
Por que havia quadros tão bonitos pelas paredes da casa de Grandma Kate, embora todo mundo dissesse que ela era tão pobre e ele nunca havia dado nada a ela? Por que Grandpa Charles usa cabelo comprido – homens o usam curto? Exceto nos quadros de Jesus e Moisés e mais gente da Bíblia. Será que meu avô é dos tempos bíblicos? Será que ele morreu? Uma vez, quando visitamos o parque e zoológico de Richmond, o papai me disse que o pai dele tinha trabalhado muito nos parques; que era arquiteto de paisagens (paisagista). Mais tarde perguntei a mamãe o que era landscape architect, e ela respondeu:
— É um nome glorificado para jardineiro.
Eu gostava de nomes glorificados . Assistindo a televisão pela primeira vez na vida, fiquei encantada com algumas das propagandas: “Shampoo Haloglorifica os seus cabelos!” e tinha certeza que usando esse xampu eu não só ficaria mais linda, como também de alguma forma mais santa.
Eu tive sempre uma vaga lembrança do avô desconhecido, que foi pai de doze filhos e deixou minha valente e perfeita avó matriarcal a criá-los sozinha durante a Grande Depressão. Alguns anos depois, ouvi minha mãe e meu pai mencionarem que ele morrera na “Instituição”. Nada de grande luto. Só o vazio.
Hoje em dia, os problemas das doenças mentais são diferentes. As pessoas não ficam internadas em asilos por longos períodos. Vários amigos que conheço dos dois lados do Atlântico têm membros da família que lutam contra doenças mentais. Embora, hoje, não haja mais uma cultura de “internação” ou de mandar as pessoas que “ficaram loucas” para “instituições”, muitas são as questões não resolvidas. As famílias têm vergonha de falar delas. Frequentemente, familiares e amigos desejariam que houvesse simplesmente um jeito de “trancafiar” o “ofensor”. Membros da família taxados de “doidos” gastam adoidados. Talvez tenha sido a criança mais linda da casa, mas começa a fazer coisas estranhas e irresponsáveis. Acaba com todos os pertences da casa. Espera presentes de natal todo dia. Esconde e guarda comida em lugares esquisitos. Coisas como essas, quando alguns não se drogam e vão pelados para a rua em extrema insanidade. São crianças velhas — jamais cresceram e nunca souberam o que um jeito manso e gentil poderia fazer para mais uma vez torná-los belos.
Uma pessoa em recuperação atendeu ao telefone, na clínica Refúgio que meu marido dirigia em Brasília, e ouviu a pessoa na linha:
— É aí que ficam os loucos? — e ele, sem perder o compasso, respondeu:
— É. Aqui o melhorzinho baba!
Especialmente depois de sofrer uma AVC, eu sentia que não só o “melhorzinho” baba, mas o ditado brasileiro “entre médico e louco, todo mundo tem um pouco” me pareceu mais verdadeiro. Edward Welch descreve doenças “que caracteristicamente alteram o intelecto, as emoções ou capacidades comportamentais”. Estas podem “impedir o entendimento, colocar limitações sobre a expressão do coração, dando ocasiões para tentação e pecado, suscitando problemas singulares para as famílias ... porque elas imitam problemas espirituais do coração, são muitas vezes diagnosticados erradamente por conselheiros e médicos”.[1]
Ora, um blog não é lugar para um profundo e abrangente ensaio sobre doenças mentais – e com certeza eu não sou qualificada para fazer análise desses problemas. Tenho alguns amigos que são neurologistas respeitados, muitos que são psicólogos clínicos e até mesmo alguns psiquiatras, além dos conselheiros pastorais e de família com os quais tenho maior conhecimento. Só posso escrever como leitora cristã que deseja saber o que a Bíblia oferece aos que se encontram perturbados. É principalmente uma questão de esperança e de encorajamento.
Escrevo como quem baba – alguém que nem sempre consegue controlar a quantidade de saliva que produz – muito menos as questões mentais e psicológicas que confrontamos diariamente.       Escrevo como a criança que descobriu que seu avô foi rotulado de “louco” e mandado para um manicômio. Poderá ser uma jovem mãe que descobre que a criança que gerou e ama de coração tem uma doença mental que faz com que ela se perca. Um casal de meia idade que têm de lidar com a senilidade dos pais. Uma avó dos “anos dourados” a enfrentar a realidade da sua própria carência quando se esquece mais vezes do que se lembra das coisas, e que se lembra bem de “muito tempo atrás” — mas que deixa o feijão queimar e o chuveiro ligado até acabar a água, e que confunde os aniversários dos netos. Escrevo para amigos que tem medo de “perder o juízo”. Muitos há que querem agarrar com garra cada detalhe do passado para que não suma, ao mesmo tempo que desejam esquecer as coisas que doem no fundo mais profundo do coração e que ainda hoje os fazem sentir como “a criança sem mãe” do Negro spiritual.
       As deficiências mentais e emocionais nos lembram que ninguém é realmente normal. A deficiência demanda paciência, tempo, confiança, submissão e esperança – qualidades que a maioria de nós todos, normais, leve ou severamente deficientes, temos muita falta em nosso mundo pós moderno. Há necessidade de “consciência de que na vida, em algum tempo e em algum nível, passaremos por sofrimento físico e/ou psíquico”.[2]  Michael Beates faz alguns duros questionamentos:
Por que nós ... exigimos que todo mundo seja normal e pareça igual? Por que ... nos esforçamos tanto para esconder as pessoas com deficiências de nossa vista de todo dia? Por que algumas pessoas alquebradas visível e invisivelmente muitas vezes sentem que têm de esconder seu problema a fim de se juntar ao povo de Deus para o culto? Finalmente, e talvez mais importante, que respostas as boas novas do evangelho nos dão para estas perguntas, e como o evangelho nos dá esperança nessas situações.[3]
Uma amiga querida que luta com a bipolaridade e personalidade desintegrada; tem ilusões de que, se parar de tomar os remédios “pela fé”, o Senhor irá curá-la mediante ministrações televisivas de algum falso evangelista. Outra pessoa amada fica trancada em seu quarto com seus sonhos, enquanto espera que seja curada por um novo relacionamento, um novo amor – então, ela enterra os medicamentos e tenta experimentar novos amores.
Deficiências dessa natureza não são estranhas à Bíblia. O rei Saul foi atormentado por surtos de loucura para as quais Davi era chamado para cantar, tocar a harpa e consolar o rei – Primeiro caso de terapia musical que temos documentado (1Sm 14.14-23). Mais tarde, Davi buscou refúgio com o rei de Gate e fingiu-se de louco para salvar a própria vida (1Sm 21.10-15). Jó ficou totalmente desprovido, em desalentado e desespero, e sua mulher deu-lhe conselho de louca (Jó 2.8-10). A razão e o entendimento foram tirados da mente e do comportamento de um rei da Babilônia, Nabucodonozor, que se comportou como animal irracional (Dn4). Mais tarde, tanto a razão quanto o governo lhe foram restaurados.
A Bíblia percorre gama imensa de descrições, desde “símplices” (13) estultícia (9) louco ou loucura (24), estúpido ou estupidez (5) insensatez (54), falto de razão (3). O livro de Provérbios está prenhe de contrastes entre sabedoria e loucura, bom senso e insensatez, exemplificando diversos tipos de “problemas” espirituais, mentais, e emocionais que todos nós já vimos, quando não os experimentamos pessoalmente.
Na preparação para entrar na terra prometida, Moisés apresentou a seu povo a plenitude de bênçãos ou destituição das maldições conquanto eles obedecessem ou desobedecessem a Palavra de Deus. Fiquei intrigada por uma das maldições mencionadas: “O Senhor te ferirá com loucura, com cegueira e com perturbação de espírito ... e te enlouquecerás pelo que vires com teus olhos” Dt 28.28, 34). Uns 2000 anos depois disso, Paulo adverte a Timóteo sobre a maldade dos “últimos dias”, que, uns 2000 anos depois, parece em cada detalhe descrever os nossos dias:
...os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder ... sua insensatez será a todos evidente (2Tm 3.2-9).
A lista acima descreve tais comportamentos não como loucura, mas como pecados. Na cruz, Jesus orou: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 21.34). Há uma deficiência devida a ignorância, a qual é livremente perdoada. Mas ao olharmos o Evangelho, vemos que o Espírito estava sobre Jesus para curar e libertar. Beates diz:
...até o fim, continuamos a ver (embora às vezes sutilmente) um importante fio no tecido do nosso entendimento da fragilidade (espiritual e emocional) das pessoas no evangelho, e uma fraqueza (física representando nosso estado espiritual) como condição humana normativa. Reconhecer esta realidade é o primeiro passo para abraçar o poder vivificador do evangelho.[4]
Há em nossa família um menino muito especial que luta com deficiências de aprendizado, desafios mentais e neurológicos, e de certa forma sempre precisará de ajuda, médica e psicológica, para um bom funcionamento. Mas ele ama a Jesus e foi ensinado na sua Palavra. Quando era ainda bem novinho estava numa escola onde negavam a Trindade, e ele disse a seu pai, referindo-se à professora:
—Pai, diga a ela que Deus é três em um: Pai, Filho e Espírito Santo. Fala para ela como diz na Bíblia!
Mais recentemente, ele tem dependido do Senhor para fortalecê-lo nas áreas em que é fraco, e ora pedindo que “Deus me use com minhas deficiências para ajudar outras crianças como eu a conhecer a Jesus”. Temos tanto orgulho deste jovem quanto dos outros netos. Todos – normais, superdotados ou deficientes.
       O Evangelho é que nos dá esperança – inteiros ou “especiais” – de inúmeras maneiras. Paulo o diz com humildade e triunfo:
Visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes....as coisas humildes do mundo e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1.26-31).

Elizabeth Gomes




[1] Counselor’s Guide to the Brain and its Disorders, Edward Welch, Grand Rapids: Zondervan, 1991, p. 107
[2] Disability and the Gospel, Michael S. Beates, Wheaton: Crossway, 2012, p. 17.
[3] Disability, p 71.
[4] Disability, p. 61.

quinta-feira, março 30, 2017

AUTOIMAGEM — impressão & expressão (estudo 2)



Uma aplicação das doutrinas de justificação e
santificação à ideia de autoimagem

Impressão ou expressão
 “Ainda não me achei”, “não me entendo”, “sou complicado” e coisas semelhantes — são do tipo do comentário feito pela fatigada personagem de Agur, em Provérbios 30.1-3: sou demasiadamente estúpido para ser homem; não tenho inteligência de homem, não aprendi a sabedoria, nem tenho o conhecimento do Santo. Soa familiar (mesmo disfarçado)? Por que é que a gente é tão difícil? Por que é que, muitas vezes, sentimos que somos forçados ou nos forçamos a representar papéis que não são os nossos, que aparentemente nada têm a ver com quem nós somos? Na verdade, tem e não tem. Há papéis funcionais que confirmam o que somos (filhos, pais, irmãos, amigos etc.). E há papéis erráticos que são como caricaturas a realçar idiossincrasias.
Uma das maneiras caricatas com que nos apresentamos é a da atuação “por expressão” (ou altruísmo) e “por necessidade” (ou carência, egoísmo). Esses dois movimentos dos atos mentais e operacionais se devem a sermos motivados ora pela impressão que temos de nós mesmos ora pela expressão do que pensamos ser. Nos sentidos aqui presumidos, impressão é a ação de objetos exteriores sobre os nossos sentidos, com abalo, agitação e comoção do espírito. Expressão é exteriorização de pensamento e idéias por meio de atos ou palavras, figuração representativa, modelo, e personificação formativa do caráter. A proposta bíblica é que, quando somos impressionados por coisas do alto, pelo EU SOU, exprimimos nosso “eu” verdadeiro por meio dos papéis de filhos (de Deus), irmãos (em Cristo), e servos (de Deus e uns dos outros). Ao contrário, quando somos impressionados por pessoas e coisas, operamos reativamente, tentando causar uma impressão por meio de um “eu” artificial autônomo.
Está achando difícil? Certamente não será mais difícil do que nós mesmos nos achamos. Vamos lá, eu ilustro: imagine pessoas em uma situação comum no trânsito da cidade. Um transeunte experimenta sentimentos e pensamentos diversos enquanto caminha na provável segurança de uma faixa de pedestres. Ele considera uma possível imaturidade e impaciência da pessoa ao volante (que ele percebe como um intruso em seu passeio). Esse andante projeta uma imagem sob “impressão”. O motorista, por sua vez, também nutre pensamentos e sentimentos misturados, à espera que o semáforo fique vermelho para o pedestre (um invasor de sua rua) e verde para a sua própria liberdade. Esse piloto experimenta uma “expressão” de poder. Nem tudo, porém, é ou verde ou vermelho: o que atua por expressão reage a impressões diversas do mesmo modo que o que atua por impressão reage a variadas expressões do ambiente físico e relacional (por exemplo, pessoas ao lado, semáforo, guarda de trânsito, religião, mídia etc.). Pense no que ocorre quando o motorista percebe que os transeuntes são nada mais nada menos do que os Beattles.
Autoimagem em termos bíblicos
No estudo 1, “Uma aplicação de conceitos bíblicos à ideia de autoimagem”, citamos dois textos coligidos por Salomão: Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim, o coração do homem, ao homem, e: como imagina em sua alma, assim ele é (Pv 27.19; 23.7). Comentamos que a Escritura, em muitos lugares, revela que percepções de autoimagem baseiam-se sempre em um de dois pontos de partida: ou de uma visão do alto, verdadeira e sábia, ou de uma visão ensimesmada, artificial e estulta. Ocorre que a verdade é infinita e sua totalidade não cabe no cenário do homem finito, e, mais, a estultícia é incapaz de apreender e de reproduzir a totalidade da verdade. Assim, nós resolvemos o impasse por meio de considerar as coisas de modo perspectivo. Nesse horizonte humano, há dois pontos de fuga necessários. Um é o ponto de fuga no infinito, de onde Deus revela a si mesmo e, em sua sabedoria, o conhecimento que a pessoa poderá ter de si mesma por meio do reflexo da imagem divina. O outro é o ponto de fuga imediato, míope, em que a pessoa rejeita o conhecimento de Deus e reflete a si mesma, projetando a própria imaginação de sua relação com o mundo e com o próximo.
Impressão da lei e expressão da graça
Dá para perceber como é que estamos sempre mudando de face? Num momento justificamos nossas crenças e nossas ações e, noutro, separamo-nos de qualquer obrigação. Num momento sentimo-nos julgados, noutro, somos julgadores e, noutro, agimos como se estivéssemos além que qualquer lei ou juízo. Ora gritamos como doidos numa montanha russa ora mantemos uma impassível cara de pôquer. Tudo para causar um impacto pessoal, passar uma imagem falsa, levar a melhor, disfarçar uma vergonha... É da nossa natureza decaída, tapar o rosto para esconder carência de um valor de face. Não foi assim com Moisés, que punha véu sobre a face, para que ... não atentassem na terminação do que se desvanecia (2Co 3.13)?
Essa situação vem do Éden perdido, em função da culpa e do medo decorrentes. Esses dois sentimentos levam-nos a julgar-nos e aos outros de maneira incorreta, e a temer a exposição de nosso “eu”. Tão logo nossos primeiros pais pecaram, contudo, o Senhor prometeu-lhes a redenção (cf. Gn 3.15), isto é, a salvação por meio do Descendente da mulher — o Filho de Deus feito homem em cuja imagem fomos criados e somos transformados. A transformação envolvida nessa salvação é descrita no Evangelho por dois termos que preenchem a nossa carência de significado e de valor, a saber, justificação e santificação. A justificação e a santificação removem a culpa e o medo. A justificação redime o pecador da condenação da lei, segundo a qual ele era alheio a Deus por natureza, desconhecedor de sua própria origem e destino, e sem esperança num mundo de desafetos relacionais. Nesse sentido, a justificação liberta o crente das algemas da escravidão “para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21). A santificação, na mesma base da justificação, redime o salvo do poder escravizador do pecado e capacita-o a cumprir o espírito da lei. Assim, somos conduzidos ao conhecimento de Deus, ao conhecimento de nós mesmos, e ao conhecimento do outro com diferente senso de justiça e destemor por meio da aliança promulgada pelo próprio Deus, em Cristo e pelo seu Espírito.
O problema, portanto, é que nenhum esforço humano para transformar o “eu” poderá conjugar o ser em outra pessoa, singular ou plural. Isso quer dizer que ninguém muda a si mesmo, tal como ninguém pode levantar a si mesmo pelos cordões dos próprios sapatos, nem outros poderão mudar alguém, seja qual for a força do cordame ou as excelências das tralhas sociais ou psicológicas. Siga o raciocínio:
(1) Nossa vida e o conhecimento de nossa identidade residem no Verbo de Deus em cuja semelhança fomos criados a fim de refletir a glória de sua própria identidade e para usufruir o processo (cf. Jo 1.1-14); é disso que fala o texto de Ef 1.1-4, resumindo o processo na expressão para louvor da glória de sua graça (cf. vv. 6, 12, 14).
(2) A Bíblia diz também que todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.23-24), isto é, todos nós decaímos do estado original, por causa do pecado, e não temos mais condições de refletir a imagem de Deus. Todas as pessoas deveriam saber as coisas do homem mediante o seu próprio espírito, mas o homem natural, decaído, não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (cf.1 Co 2.11-14).
(3) As pessoas não regeneradas não podem, portanto, conhecer a Deus nem a si mesmas, como cita o apóstolo: não há quem entenda, não há quem busque a Deus ... Não há temor de Deus diante de seus olhos. Tais pessoas não temem a Deus para obedecê-lo, tornando-se, portanto réus de sua lei. Uma lei que condena os fora da lei e aos que vivem na lei ... para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado (cf. Rm 3.11-20). Até mesmo, os que pretendem viver sem a lei de Deus mostram a norma da lei gravada no seu coração quando a consciência e os pensamentos testemunham contra eles mutuamente acusando-se ou defendendo-se (Rm 2.14-15).
             Se as coisas são mesmo assim, como poderemos abandonar nossa impressão caricata para passar, então, à expressão da pessoa que Deus criou para que fôssemos? Paulo responde à questão, em Gálatas 3.22-29, dizendo que a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que crêem. Todos, crentes e incrédulos, nascemos sob a tutela da lei e nela encerrados, uns, buscando viver pela lei de Deus e, outros, pela própria pela lei. Àqueles aos quais é revelada a fé da salvação pela graça consideram a lei de Deus não como salvação por si mesma, mas como preceptora para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Todos nós que fomos batizados em Cristo e inseridos em seu corpo, a igreja, somos revestidos de Cristo. Como Paulo disse em outro lugar, somos regenerados, feito novas criaturas para a santificação (ou processo de desenvolvimento em fé e prática da Palavra de Deus). Daí em diante, vamos nos desvencilhando dos papéis esdrúxulos a que naturalmente nos obrigamos e somos obrigados — Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher — para assumir a herança que nos liberta para uma vida de genuinidade e de autenticidade porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
               
O processo de santificação é operado em nós pelo Espírito de Cristo com base na justificação. Em Efésios 1.1-14, Paulo diz que somos feitos herdeiros das riquezas de Deus para sermos sua própria herança. Em Romanos 8.17-30, o apóstolo diz que somos herdeiros  de Deus e co-herdeiros com Cristo, andando com a ele em condição terrena para sermos também com ele glorificados. Como é que isso ocorre? A própria criação, nosso ambiente físico e social, aguarda a revelação dos filhos de Deus! Tal como nós, ela está sujeita à vaidade ... por causa daquele que a sujeitou, na esperança de ser redimida da corrupção para a liberdade dos filhos de Deus. Nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Até lá, no entanto, somos educados na paciência e na perseverança nos sofrimentos e na glória de Cristo. E não estamos sós nessa caminhada, mas temos a assistência do Espírito Santo a operar em nós propósito de sermos conformes a imagem do Filho de Deus. O Espírito de Cristo nos fortalece e habilita a sermos autênticos filhos e genuínos irmãos tanto na concessão do poder interior, por meio da oração, quanto no controle de todas as coisas em benefício da revelação da imagem de Cristo em nós.
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou (Rm 8.24-30).
Wadislau Martins Gomes