segunda-feira, agosto 07, 2017

INIMIGOS


“Persegui os inimigos e os alcancei, os esmaguei e 
os pisoteei e nunca mais se levantaram!” (Sl  18.37-38)

A mocidade de nossa igreja cantava este coro com veemência e animação e por dentro eu me encolhia de vergonha. Certo que era baseado em versículos bíblicos (Salmo 18.37-38), verdade que o cristão tem lutas e, consequentemente, inimigos contra quem luta, mas a exaltação guerreira parecia totalmente contrária ao que Jesus Cristo, Príncipe da Paz, nos ensinou. “Eu não tenho inimigos,” eu achava. “Haja paz na terra a começar em mim”, cantei no coração.

A belicosidade de muitos crentes por toda história humana é pedra no sapato em nossa caminhada com Deus, e pedra de tropeço para muitos que observam o nosso caminhar. Mas tenho de admitir que a Bíblia relata muitas inimizades ferrenhas. Olhe o que diz a Palavra de Deus sobre inimigos.

A primeira referência a inimizade ocorre na Queda, e foi uma declaração de Deus à Serpente:
Porei inimizade entre ti e a mulher, entre atua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar (Gn 3.15).

Até os dias atuais, existe inimizade entre o descendente da Humanidade e o descendente da serpente, aquele cobra safado chamado diabo. Inimigos atacam o povo de Deus por todo lado (Ex 15.6, Lv 26.8, Js  7.12 , Jz 5.31- Js  7.12 , Jz 5.31).

Quando pediram (e coroaram) um rei, Saul, Samuel relata a história passada de Israel, lembrando que foi sempre o Senhor que era seu rei (1 Sm 12.11 – 12) e os livrava dos inimigos. Davi, um rei segundo o coração de Deus, teve uma oportunidade singular de acabar com seu arquinimigo, mas não ousou levantar a mão contra o ungido do Senhor, mesmo que este o tivesse enganado e tentado assassiná-lo várias vezes. Perguntou: “Quem há que, encontrando o inimigo, o deixa ir por bom caminho?” A história é resumida em 1 Samuel 24. Quem sabe ele mesmo ensinou seu filho Salomão, compilador de provérbios, que “Sendo o caminho dos homens agradável ao Senhor, este reconcilia com eles os seus inimigos,” (Pv 16.7) e
Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e não se regozije o teu coração quando ele tropeçar; para que o Senhor não veja isso, e lhe desagrade, e desvie dele a sua ira. Não te aflijas por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos perversos, porque o maligno não terá bom futuro, e a lâmpada dos perversos se apagará (Pv 24.17-20).

Jesus, o Príncipe da Paz, citou o Salmo 110: “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te a minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés” (Mt 22.44; Marcos 12.36; Lucas 20.43); Pedro o citou em seu magnífico sermão estréia (At 2.35); Paulo em sua explanação sobre a ressurreição (1Co 15.25) e o autor de Hebreus em sua majestosa introdução à epístola que apresenta Jesus como sacerdote, profeta e rei ( Hb 1.13). Em sua morte sobre a cruz, Jesus, o Descendente da mulher, pisou a cabeça da serpente dando início à destruição de toda inimizade, e mostrando que os inimigos de Deus serão estrado dos seus pés. Desde o inicio de seu ministério terreno, Jesus ensinou: “Ouvistes o que foi dito, Amaras o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu porem vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5.43-45; Lc 6.27-35). A palavra aconselha: Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer (Rm 12.20). Contando a parábola do Semeador, Jesus incluiu na narrativa o fato de que haveria um inimigo que veio e semeou joio Mt 13.25, 28. Ele tinha inimigos, admitindo que os inimigos do homem seriam os da própria casa ((Mq 7.6, Mt 10.36). Antes de sua paixão e morte, Jesus chorou sobre Jerusalém, dizendo que seria destruída (Sobre ti virão dias em que teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados te apertarão o cerco, e te arrastarão e a teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o dia de tua visitação - Lc 19.41-44). Na Páscoa em que o traidor comia com ele à mesa junto com os outros discípulos, horas mais tarde, Jesus remiria seus inimigos e os reconciliaria com Deus. Em Cristo Jesus, nós que estávamos longe,
fomos aproximados pelo seu sangue. Ele é a nossa paz... de ambos fez um, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade, aboliu a lei dos mandamentos em forma de ordenanças, para que dos dois criasse,em si mesmo, um novo homem, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade (Ef 2.13-17).

Existem inimigos da cruz de Cristo, cujo destino é a perdição, e o deus deles o ventre, a glória deles é infâmia, visto que só se preocupam com coisas terrenas (Fp 3.18). São inimigos no entendimento (Cl 1.21). Paulo definiu essa inimizade como “o pendor da carne”, ou inimizade contra Deus (Rm 8.7), uma das obras da carne (...prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a essas – Gl 5.19-21) que militam contra o fruto do Espírito.

Nossa luta, contudo, “não é contra o sangue e a carne, e sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes” (Ef 6.12), e para tais inimigos, temos de nos revestir com as armas que Deus oferece (Ef 6.10-18).

Em sua carta aos Romanos, Paulo fala que quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho... de quem recebemos, agora, o ministério da reconciliação 5.10-11). Advertindo os crentes de Tessalônica, Paulo disse
Caso alguém não preste obediência... notai-o; nem  vos associeis com ele, para que fique envergonhado. Todavia, não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão. Ora, o Senhor da paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias. O Senhor seja com todos vós (2Ts 3.15-16).

Entre as qualidades imprescindíveis do bispo está ser inimigo de contendas (1Tm 3.3). Nos últimos tempos os seres humanos serão egoístas (e uma série de pecados comuns hoje em dia)... inimigos do bem (2Tm 3.1) e Tiago lembra que a amizade do mundo é inimiga de Deus (Tg 4.4-6).

Diante de tantos trechos sobre o que Deus pensa de inimizades, fico estarrecida ao observar comentários na mídia quanto à política, nas redes sociais, nas igrejas cristãs (tanto as mais ortodoxas como também as apóstatas!), no trabalho e nas famílias. Numa família que conheço, as filhas acusaram a mãe de insano malfeito; noutra família um irmão processa sua irmã e cunhado porque seu filho quebrou o braço brincando com o primo no pula-pula. Este irmão (que é pastor) defende que só os processou para acessar o seguro de indenização, mas o casal que foi processado (o esposo também pastor) ficou tão ferido que recusa qualquer contato com o irmão ou com a mãe que não teve nada a ver com o assunto, nem com outro irmão que está com câncer terminal e o recebeu em casa. Numa igreja, uma mulher que encantava com sua voz no culto, engana quatro ou cinco casais a fazer um investimento de todas as suas economias num esquema fraudulento, e depois “some” da igreja e da cidade, deixando os irmãos em Cristo feridos e sem recursos. Casais brigam, divorciam, juntam-se a outros e querem ser reconhecidos como inculpáveis na igreja e fora dela. Pessoas casam-se, enganando aquela com quem casou e assumindo uma relação ou série de casos homossexuais. Há inimizades de todo tipo e muitos abismos parecem intransponíveis. Na terra sob domínio de Satanás, será assim até que o último inimigo, a morte, seja vencido por Jesus Cristo (1 Co 15.26).

Amo a expressão Shalom aleichem e o costume de muitos irmãos em Cristo de se saudarem com “a paz do Senhor”. Mas temo que por muita gente seja dita da boca para fora. Algumas pessoas dizem “Eu preciso sentir paz para perdoar fulano de tal”, ou “vou orar para ver se consigo paz a respeito desse caso”. Esquecem que o árbitro no coração que rege a vida do crente é a paz de Cristo – conquistada na cruz, paga com sangue, à qual fomos chamados em um só corpo (Cl 3.13-17).  Antes tínhamos inimigos porque éramos inimigos de Deus, estávamos longe e éramos alienados. Mas se cremos em Jesus “temos acesso ao Pai em um Espírito... já não somos estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e somos família de Deus” (Ef 2.13-19).


Elizabeth Gomes

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