sexta-feira, fevereiro 25, 2022

DISCERNIMENTO & LEITURA

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Discernindo prazer no bom e verdadeiro, certo ou duvidoso, no mundo da literatura contemporânea


 Estou me deleitando com a leitura de uma série de livros de ficção de uma autora que eu desconhecia três meses atrás: Lucinda Riley. Suas fascinantes historias sobre as sete irmãs do presente século, inspiradas nas Plêiades da mitologia grega, misturam relatos distintos de história da cultura em diversos lugares do mundo com as estórias ligadas à experiencia e personalidade de cada irmã. 


Sempre fui fã de romances históricos, desde os livros de James Michener (A Fonte de Israel; Hawaii) e Pearl Buck (A Boa Terra), Scholem Asch (o Apóstolo e O Nazareno), Taylor Caldwell (Amado e Glorioso Médico) e Ann Frank (não ficção, mas um diário realista de uma jovem judia holandesa na Segunda Guerra) para começar em minha adolescência, até alguns de ontem e hoje como Lewis, Noah Gordon, Geraldine Brooks, BarbaraBarbara Kingsolver, JodiJodi Pcault, Jane Austen, Hemingway, Dickens, Follett, Hailey, Lawhead, Van Trease e uma infinidade de outros. Pela Kindle, acesso mistérios de crimes medievais ou elizabetanos ainda melhores que os de Agatha Christie do século passado. Aprecio uma boa trama, personagens complexos, com conflitos reais e imaginários, vidas plausíveis e verdadeiras em meio ao vasto imaginário de gente que pensa e age e reage, numa narrativa coerente e corajosa. Isso sem falar nos brasileiros Machado de Assis, Viana Moog, Monteiro Lobato, Jorge Amado e meu paraninfo de formatura do Colégio Batista Americano em 1964, Érico Veríssimo. Desde que comecei a ler aos cinco, seis anos, não parei, e devorei livros bons, excelentes, péssimos, inesquecíveis e alguns desprezíveis. 


Como cristã consciente desde pequena, eu me perguntava por que tão poucos livros que eu amava ler transmitiam pensamentos e valores autenticamente cristãos. Claro, há brilhantíssimas exceções, como de Lewis e Lawhead, mas a maioria dos bons livros de ficção não demonstram boa filosofia teológica nem cristianismo prático — e eu penso que uma meta básica do escritor seria demonstrar a verdade mais profunda por meio das suas histórias — como nas parábolas desde os tempos de Moises, confirmadas e expandidas por Jesus.


Volto à mais recente série de livros da Lucinda Riley de que falei. É óbvio que ela faz constantes e extensas pesquisas. (Lembro-me da bibliotecária chefe da Elkins Park, onde trabalhei trinta anos atrás, contando que James Michener e seus assistentes a consultavam em suas pesquisas trinta anos antes disso, antes da existência de Google e as facilidades múltiplas de viagens internacionais e dinheiro infindo para autores de best-sellers). O fato é que o bom escritor estuda, lê, pesquisa, lê mais, viaja, fuça tudo, revira as pedras do caminho, entrevista quem quer que esteja ligado de qualquer maneira à história que ele/a quer contar.) Admito que muitos “Wanna Be Writers” cristãos como eu são preguiçosos. Pensam que sabem tudo que querem dizer e lançam sobre o papel ou teclado a primeira coisa que vem à mente — sentimentos e idéias ainda não amadurecidas, os pensamentos não levados às ultimas consequências. 


É como certas pessoas que conheci as quais querem publicar um livro de historias bíblicas para crianças simplesmente recontando as historias que ouviram na escola dominical de sua igreja. Afinal de contas, não precisam conhecer História, teologia, nem mesmo conceitos básicos de comunicação em prosa moderna — as crianças não sabem nada disso e adoram as historias contadas pelos tios da comunidade. Porém, tais narrativas não merecem ser contadas, porque poderão incorrer em mentiras! Transformam as verdades eternas da Palavra de Deus em palavras vazias, ocas, que ressonam como eco de sons melhores, mas não oferecem melodia e ritmo autênticos. O bom escritor de ficção (ou de fatos), mesmo ao relatar histórias inverídicas, conta-as com verossimilhança, como a verdade que toca e transforma o íntimo da pessoa.


Outra característica de uma boa escritora como Riley é que, por mais diferentes e complexos que sejam, as suas personagens são apresentadas de forma simples, real, sem subterfúgios. A historia pode ser bastante complicada e dá suas voltas e seus sustos, mas não é absurda: já houve coisa semelhante comigo, ou com minha irmã, ou com meu tio-avô. Eu me relaciono com o texto e o aplico à realidade. Mesmo em historias fantásticas, aprendo verdades para a vida.


Um professor de literatura que tive, afirmou que o que importa é a narrativa, sem importar se é ou não verdade — como certo politico internacional que gabou-se de distinguir entre fatos e verdade e mais outros tantos como Fernando Pessoa, que diz que sempre o poeta é um fingidor. Mas isso é totalmente contrário ao conceito judaico-cristão do Melek Koheleth (rei pregador, escritor sábio) que escreve: “Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu” (Ec 1.13) e 


“Procurou o Pregador achar palavras agradáveis e escrever com retidão palavras de verdade.  As palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados as sentenças coligidas, dadas pelo único Pastor.  Demais, filho meu, atenta: não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne. De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más.” Ec 12.10-14.


Há sim, diferenças seminais que temos de observar entre o escritor secular e o cristão. O escritor secular usa e abusa de conceitos e conflitos teológicos e espirituais, em busca de redenção, mas a sua  libertação é centrada no que “eu consigo”, “eu posso”, “eu venci” — enquanto o cristão vê um Deus que ama e intervém apesar do ser humano muito verdadeiro nada merecer. 


Um dos temas comuns das tramas psicológicas são o sentimento de culpa e falta de valor próprio. O sentimento de culpa, no escritor não cristão, é vencido, negando e justificando o erro, enquanto para o escritor cristão, a culpa real é confessada e perdoada por um Deus verdadeiro (não mitos ou vagas ideias espirituais que podem ser etéreas e diferentes para cada pessoa). Muitas vezes, o não cristão apresenta suas personagens “cristãs” como falsas e hipócritas, enquanto as pessoas “autênticas” vivem sempre duvidando e aceitando más escolhas morais como inevitáveis e opções viáveis. Suas culpas não são redimidas — são assumidas como parte natural do ser humano. É verdade que muitas pessoas se dizem cristãs e vivem segundo o mundo, a carne e o diabo; porém, é responsabilidade do cristão escrever e descrever o que realmente acontece, sem disfarces—dando soluções redentivas.


Confesso que me empolgo mais com uma historia fantástica de viagem entre duas eras da Diana Gabaldon ou a trilogia histórica do século xx de Ken Follett do que com escritos de meus irmãos de fé que jogam palavras e pessoas impensadas no papel e não entendem por que os editores têm receio de publicar seus intragáveis tratados. Felizmente, hoje Estão surgindo novos escritores cristãos sérios, que enlevam e  inspiram e nos fazem exclamar “não consegui largar o livro!”


Em meio a tantas palavras sobre amor em sua epístola, João advertiu que é imprescindível guardar-nos dos ídolos, e mesmo a boa literatura pode se tornar em ídolo se ela de alguma forma tenta substituir a Palavra de Deus ou o Deus da Palavra por outra coisa que não a verdade eterna. Mas somos transformados pelo Verbo Vivo, que nos deu palavras e ideias para ensinar, comunicar e levantar as pessoas que nos cercam. Como Moisés lembrou ao repetir, cantar e gravar a Torá:


“Aplicai o coração a todas as palavras que, hoje, testifico entre vós, 

para que ordeneis a vossos filhos que cuidem de cumprir todas as palavras desta lei. Porque esta palavra não é para vós outros coisa vã; 

antes, é a vossa vida; e, por esta mesma palavra, 

prolongareis os dias na terra à qual, passando o Jordão, ides para a possuir.” Dt 32.41-42


Quero aplicar o coração a palavras vivas, porque comunicar e escrever é transmitir e prolongar a vida! Escrever com retidão sabedoria e exatidão as palavras que fincam a realidade no coração e na cabeça. Ê referir-se ao passado, conhecendo a realidade do presente, tendo viva esperança para o futuro!


Elizabeth Gomes

sexta-feira, outubro 15, 2021

FRÁGIL, FRATURADO, FORTALECIDO, FÉRTIL, FLORESCENTE, FRUTIFICANDO







Estava pensando em amigos (as amigas se incluam nisso), familiares e conhecidos que antes tinham indícios de vida cristã e, hoje, andam longe dos parâmetros bíblicos. Tantas vezes, eu mesma me sinto assim, pois, apesar de sempre desejar raízes firmes, ainda sou tumbleweed – tufos de mato seco levado por qualquer sopro de vento. Recordo de gente que ao longo dos anos me alegrou, inspirou e fortaleceu na fé e, agora, parece viver insignificâncias e incoerências mil. Não tenho direito de julgar o que e por que são e estão assim, mas ao caminhar pelo jardim e pensar nas palavras do Jardineiro Mór, dá para lembrar de alguns aspectos da vida que fizeram e desfizeram a plantação.
Primeiro, tenho de lembrar que todos somos frágeis – começamos como sementes e brotamos com poucos indícios de que há vida que um dia cresceria a ponto de dar sombra a outras plantas. Quando Jesus explicou aos discípulos sobre a semeadura (Mateus 13.1-36; Mc 4.1-9; Lc 8.4-15), falou da semente, da terra, dos impecilhos, e dos resultados. Não deixou de mencionar que outro lavrador semeia joio junto ao bom trigo, e que a boa semente da Palavra não invade terra que não esteja disposta a ser quebrada e arada para remover as pedras do caminho. O Jardineiro e Dono da Terra é que faz as escolhas e todo o trabalho é dele – até mesmo do ambiente externo. Sejam grãos de mostarda (Mt 13.31; Mc 4.31; Lc 17.3), trigo que coroa os campos (Mt13.25-29; Lc 3.17; Jo 12.24), sementes de grandes árvores (Mt 12.33-35; Lc 6.43-46), ou mudas de parreira ou figueira (João 15.1-17; Mc 11.13; Mc 13.28). 
Conversei com pessoas amadas e as expus ao evangelho de Jesus Cristo e elas -- crianças, adultas ou idosas — receberam a semente no coração. Aparentemente, converteram-se. Hoje, porém, quando parecem religiosas, elas vivem como espíritas e, mais comumente, agnósticas e alheias a qualquer vida cristã. São salvas? Só Deus sabe. O Espírito Santo soprou nelas a vida eterna? O que sonda os corações é quem conhece o estado da planta. Há relatos de arqueólogos que encontraram sementes em túmulos milenares e as plantaram no Século 21 – e o grão do Egito Antigo frutificou! Minha esperança é que as plantinhas frágeis que vi nascer, venham um dia a fruir.
Há uns três anos ganhei uma figueira de minha amiga, Tania, quando veio nos visitar em Mogi. Plantei, cuidei, e colhemos seis figos. Ano passado, fiquei irritada porque alguém, ao cortar a grama, lascou o caule da figueira. Amparei com um bambu firme, amarrei o lugar quebrado e “colei”com fita crepe. O conserto deu certo – a figueira recuperou o viço e estava ao ponto de florescer – quando um trabalhador descuidado novamente podou o caule com o cortador de grama. Repetimos o processo de amparar, amarrar, colar, e, dessa vez, pedi a Deus pata ter misericórdia de minha figueira adolescente, e, com a chuva e o sol desses dias, tive o prazer de observar que a figueira da Tania está coberta de folhas vicejantes, tanto quanto a figueira do outro lado do jardim, que nunca sofreu lascas e cutucões.
Plantei um pé de romã em frente de casa. As romãs lembram a Terra Prometida e suas sementes são boas para a voz. Ele deu umas duas romãzinhas mixurucas, mas não foi à frente – portanto, tirei do local e re-plantei em um vaso grande de barro, com bastante adubo. No lugar em que estava a romã, plantei uma cerejeira gaúcha que, garantiu-me a moça da floricultura, produzirá frutos dentro de um ano. O pé está viçoso e aumentou as folhas — no chão somente há um mês. Lembro que, às vezes, não é só uma boa muda em terra adubada, mas o ambiente certo para ela crescer, e o tempo adequado.
Vejo, nas redes sociais, postagens de gente que mostra sempre um lado positivo, triunfante, vitoriosa, quando, muitas vezes, está ferida e derrubada, cortada da comunhão com família e amigos, e, possivelmente, também separada com relação a Deus e sua Palavra. Isso me lembra, com nostalgia e sentimentos misturados, do programa de rádio que papai tinha, “Vitória Cristã Brasileira”, em que ele pregava um evangelho que sempre vencia, enquanto nossa casa estava desmoronando e papai cobria seus períodos de depressão com frases feitas e ditames repetidos quase como mantras. Sem dúvida, o cristão tem vitória e a beleza de Cristo deverá enfeitar e perfumar o ambiente em que vivemos. “Esta é a vitória: a nossa fé” (1Jo 5.4) – não é um sentimento vago de conto de fadas nem positivista de edificações humanistas, mas a fé no Senhor Jesus Cristo, de quem nascemos e a quem amamos, guardando seus mandamentos, fiando-nos em sua verdade, sabedores que em seu nome temos vida eterna. Comparo essas postagens floridas e vazias a lindos buquês ou até mesmo coroas de flores que se depositam sobre coisas mortas. As flores são belas, artisticamente arranjadas, podem até exalar um bom perfume, tem seu valor — mas não estando plantadas, e não possuindo raízes, em pouco tempo apodrecem. “Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a Palavra de nosso Deus permanece eternamente”(Is 40.8).

O que poderá fortalecer as nossas plantas, além de boa terra e água apropriada no tempo certo? Lembrando que Agricultor é a própria Videira, sabemos que o Espírito Santo é quem aduba e fortalece, empodera e produz frutos eternos (Gl 6.8). Colheremos o que semearmos, seja ela semente carnal seja ela espiritual. Haverá horas em que nos cansaremos, nessa plantação? Certamente que sim. Porém, a Palavra estimula: “não cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos... por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé”(Gl 6.9-10).

O Rei Poeta comparou quem é bem-aventurado e não anda no conselho dos ímpios a uma árvore plantada junto a ribeiros de águas, cuja folhagem não murcha, e que no devido tempo, dá seu fruto. Tenho três jaboticabeiras que nos alegram com sua produção, mas elas não se comparam à jaboticabeira da casa dos tios Geraldo e Tide em Limeira, constantemente regada e recebedora do lixo orgânico em suas raízes antigas – essa sim dava fruto o ano inteiro. 

Alguns anos atrás, Dr. Fábio e Míriam, velhos amigos, nos deram sementes de carcadê – o hibisco que produz um chá delicioso de cor rosada. Antes, em sua casa, havíamos nos deliciado com tâmaras de sua fazenda, e lembramos dos relatos bíblicos de Abraão plantando tamargueiras (palmeira que demora muitos anos para produzir seus frutos) e cogitamos imitá-los (a Abraão e aos Schmidt), mas sabíamos que não comeríamos as tâmaras do nosso pé. Aceitamos prontamente a oferta das sementes de hibisco e as plantamos, cuidamos e colhemos. Só cometi um erro: depois da colheita, não guardei nenhuma semente para fazer novo plantio – e a cerca de carcadê ficou só na memória. Não enconrei mais sementes para fazer novo plantio. 

Isso me lembra alguns amigos que no decorrer da vida, demonstraram vida cristã, mas ao cuidar dos filhos, esmeraram por dar uma educação primorosa nas melhores escolas e cursos de música, línguas e educação física – mas não se preocuparam em semear a Palavra de Deus desde cedo aos próbrios rebentos. Talvez pensassem que fosse responsabilidade da igreja a que frequentavam. Os jovens cresceram e são excelentes profissionais – mas não demonstram vida cristocêntrica! Espero que alguma semente tenha ficado, porém, os pais perderam a oportunidade de nova colheita nas gerações seguintes. Assim como eu deixei de re-plantar e colher sempre, o meu amado chá de hibisco.

De vez em quando, refiro-me com humor a “velhos amigos”, porque os novos são prata, mas os velhos valem ouro. Eu, uma horteira velha que não consegue mais ficar agachada para tirar as ervas daninas e plantar as sementes como queria, tenho de me referir a promessas da Palavra para renovar as forças. Diz o salmista: 

“O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro do Líbano. Plantados na Casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha Rocha, e nele não há injustiça” (Sl 92.12-15).

Outra amiga chegada, Leni, além das fazendas em que planta e cria búfalos, tem um jardim em sua casa! Ela floresce nos lugares por onde passa.

Por outro lado, tenho observado alguns velhos amargos, que azedam o ambiente em que existem e exalam mau odor para os jovens que os observam. (Parecem as cortadas flores velhas do vaso, que nada têm de perfume de rosas e lírios novos.) Em vez de serem gratos a Deus pelas bênçãos, ressentem os privilégios que não tiveram e os dissabores que se multiplicaram. Em vez de se renovarem, eles se estagnaram em um passado sofrido e duvidam de um futuro promissor, porque preferiram o deserto de suas escolhas vazias. Assim era Noemi antes de sua nora Rute declarar fé no Deus de Judá e amor à sogra Mara. Mas aprendeu, ao observar a bondade e generosidade dos campos de Boaz, onde Rute segava, e passou a ser bendita avó de reis. Como minha Dama da Noite. A planta, que já deu muita flor e perfume inconfundível, estava feia e com folhas secas, quase mortas. Cortei essas folhas feias e coloquei-as em água. Agora essas folhas criaram novas raízes, e antevejo fazer várias mudas novas de damas, as quais darei a algumas amigas depois que elas estiverem firmes e bonitas. A propósito, a planta original que podei está carregada de brotos novos. Espero que um dia algum amigo amargado conheça a doçura e beleza do arrependimento em fé e esperança. Como minhas damas da noite.

O profeta Jeremias, homem de nobre estirpe que viu a aflição e o envelhecer de sua carne, viveu entre reis e plebeus e foi literalmente jogado nas masmorras da vida, com a própria vida ameaçada, declarou: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos – grande é a tua fidelidade! A minha porção é o Senhor, portanto espararei nele” (Lm 3.22-24).

E Habacuque, que observava a violência da terra e viu a glória do Senhor, disse em sua oração:

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide, o produto da oliveira minta, e os campos não produzem mantimento, as ovelhas sejam arreatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente (Hc 3.17-19).

Como as minhas plantas, eu sou frágil (1Pe 1.24).Houve vezes que fui quebrada, mas fui fortalecida pela água da Palavra e o óleo do Espírito — e tive a bênção de ser fértil, florescer e frutificar. Deus nos colocou, me colocou, num jardim, numa plantação na qual “somos cooperadores, lavradores na lavoura de Deus. Nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho” (1Co 3.6-9). Desde o jardim donde foram expulsos os primeiros pais e perpassando a terra renovada onde Noé e sua família desembarcaram, a ordem era cultivar e guardar, serem fecundos e multiplicarem (Gn 1.27-31; Gn 9.1-3; João 15.5-11). “Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor perante todas as nações” (Is 61.11). 

Elizabeth Gomes  

 

terça-feira, agosto 17, 2021

É TEMPO DE OUVIR

 



Minha mãe teria celebrado ontem cem anos de idade, se estivesse ainda viva sobre a terra. Ela era surda. No dia em que foi estar com o Senhor, ela ia do seu apartamento para o elevador, que dava acesso ao piso inferir da grande casa, para tomar café com minha irmã e meu cunhado. Ao se lembrar de que não havia colocado o aparelho de audição, minha mãe, que já andava bem devagar, voltou para a mesa na saleta onde estava o Beltone. Nessa hora, ele caiu, derrubando a  mesinha e o relógio que tocava sinos a cada meia hora. Foi mesmo fulminante. Num instante estiva na bonita e confortável casa de Chesapeake, Virginia, a qual havia comprado com a filhano outro, estava na casa do Pai Celestial a quem servira em dois lados do Atlântico, desde a sua conversão aos dezoito anos de idade. No Brasil, onde ela  servira como missionária, fomos informados do falecimento e nos apressamos a comprar passagens e locomovermo-nos para outro continente — em vinte e quatro horas. Levada por Kitty à casa funerária, testemunhei o casulo vazio que ainda retinha resquícios da beleza de uma mãe que certamente já cantava com voz perfeita em outras bandas, e a quem eu nunca mais  ouviria, neste lado da eternidade.

 

Por que a lembrança da morte da mamãe quando eu ponderava meditar sobre o tema de aprender a OUVIR? É fácil de explicar a cadeia de pensamentos: o detalhe da sua queda ao tentar pegar o aparelho levou-me a pensar que surdez e audição fazem parte de meu histórico familiar, por muitas gerações. Além de minha mãe, minha avó, duas tias e um tio, e inúmeros parentes anteriores a eles, e eu, tínhamos dificuldades para ouvir. Herdei deles os problemas de audição e sofri quatro cirurgias para saná-los. Depois de meu AVC em 2007, passei a usar um aparelho no ouvido, e esse problema não me pareceu mais tão grave.

 

Certa vez, mamãe comentou sobre os da minha própria casa: "Your family is too loud!" —  porque em casa todo mundo falava muito, gostava de conversar longas horas e, às vezes, falava até demais ao passo que ela e sua casa eram sempre caladas. Lembrei da mamãe desligando o próprio aparelho quando a balbúrdia de algum lugar a incomodava, e descobri que eu também fazia o mesmo quando estava cansada de ouvir.

 

Sempre fui, no entanto, grata pelas oportunidades de ouvir (e fazer) música, os sussurros e vozes das pessoas amadas, e os sons da vida ao redor. Sendo esposa e mãe de pastores, nada me empolga mais do que ouvir a Palavra de Deus com paixão, poder e coerência de vida. Nada desgosta mais do que ouvir palavras de murmuração ou discórdia, ainda que, às vezes, eu seja culpada de não ser pronta para ouvir, e usar mal as palavras em vez de bem-dizer.

 

Tenho alguns amigos que se comunicam com pessoas surdas mediante a língua de Libras, mas para mim, não é o caso. Descobri que ouvir não é algo passivo. Exige esforço e atenção. No meu caso, obtive ajuda de um pequeno aparelho eletrônico inserido no meu "melhor" ouvido  (porque no "pior" nem adianta aumentar o som, que não ouço). Mas a quase um ano, meu aparelho "pifou", e com os problemas da pandemia, demorei muito para levá-lo ao conserto. Havia me acomodado à surdez — quase não saía de casa e não tinha outros com quem falar. Minha família sofreu minha falta de comunicação e muitas vezes virei literalmente piada da velha da Praça da Alegria. Até que um dia, assumi e confessei o meu pecado e resolvi voltar à fonoaudióloga e à Widex. Estou há três semanas com o aparelho restaurado, ouvindo perfeitamente. Nos primeiros dias de aparelho, tudo parecia barulhento e alto demais --sem cacofonia e balbúrdia, eu havia me esquecido como a vida é sonora. Foi por pouco que eu não me transformara em rebelde que recusa ouvir.

 

A primeira menção do termo ouvir, na Biblia, foi quando Adão e Eva pecaram, depois de fazerem o que lhes era costumeiro no jardim antes da  invasão da serpente: "Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia...." (Gn 3.8-19).  Mas em vez da alegria da comunicação de cada dia com Deus, eles tiveram medo e se esconderam.

A seguinte menção de "ouvir", ainda em Gênesis, foi quando Agar fugiu com Ismael da injustiça de Abraão e Sara. "Deus ouviu a voz do menino" (Gn 21.15-21), portanto ele diz: "Não temas". Mais tarde, o narrador da História da Redenção diz que "Deus ouviu o gemido de seu povo e atentou para a sua condição" (Ex 2.24-25; 3.7-22), chamando Moisés para a grande libertação. 

Por toda a Biblia, vemos que, embora não seja homem para possuir ouvidos, boca ou braço, Deus é quem primeiro ouve o choro, o clamor e o grito de seu povo, e atende com graça, misericórdia e perdão.

Ao dar dar diretrizes a vida, Deus começa, conclamando o povo a ouvir:

Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.

Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, 

De todo o teu coração, 

de toda a tua alma, 

e de toda tua força (Dt 6.4 a 9; cf.  todo o resto da Torah).

 

Isso vai muito além de qualquer mantra ou vã repetição  trata de nossos afetos, no mais mais íntimo do ser e de nossa força interna e externa  tudo que somos e temose tem de ser compartilhado com quem nos é mais íntimo, nossa família imediata e estendida, em todo tempo, em todas as nossas atividades, nas nossas mãos e na nossa cabeça! Ao longo de toda a Palavra, constatamos que OUVIR é questão de atender e obedecer!

 

Profetas, sacerdotes e reis conclamam indivíduos, famílias, povos e nações a ouvir e atender a fim de obter sabedoria.  Desde ouvir os ensinos dos pais (livro de Provérbios) até as mensagens retumbantes dos profetas. Isaias  e Jeremias, por exemplo, repetem continuamente  o chamado para ouvir o que Deus diz. Ezequiel recebeu a mensagem de pregar com fidelidade ao povo, "quer ouçam, quer deixem de ouvir" (Eq 3.27). Zacarias convocou os cativos de Judá a reconstruir o templo, dizendo "Aqueles que estão longe virão e ajudarão no edificar o templo do Senhor, e sabereis que o Senhor dos Exércitos  me enviou a vós outros. Isto sucederá se diligentemente ouvirdes a voz do Senhor, vosso Deus" (Zc 6.15).

 

Nessa questão toda, o que mais me toca é o que Jesus afirmou em João 5.24: "quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna; não entra em juízo, mas passou da morte para a vida". O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas; elas ouvem a sua voz e o seguem (Jo 10.11), e ainda em o ouvir, haverá um dia um só rebanho!(Jo 10.16). 

 

Na primeira epistola de João, o discípulo amado explica que "o que temos visto e ouvido, anunciamos também a vós outros, para que tenham comunhão conosco" (1Jo 1.1-4).

O Senhor Jesus diz que "Bem-aventurados são aqueles que lêem e aqueles que ouvem as palavras da profecia, e guardam as coisas nela escritas, porque o tempo está próximo" (Ap 1.3). 

Estamos em tempos difíceis, o tempo foge, não temos mais tempo de ignorar o que Deus (e seu mensageiro na palavra dita ou escrita) falou. É nosso mister dizer com o menino Samuel (que ouviu a Deus durante toda a vida): "Fala, Senhor, porque teu servo ouve".

 

Elizabeth Gomes

sexta-feira, maio 28, 2021

FILHOS NATURAIS OU VIRTUAIS — SEMPRE REAIS


 

Outro dia, postei um artigo, homenageando minha mãe e agradecendo a Deus pelo privilégio de ter e educar filhos no Senhor. Hoje, passo a falar dos que não têm filhos — não por vontade própria, mas por impossibilidade  que poderiam ser pais e não desejam essa responsabilidade. Os que gostariam de ter filhos e não os tiveram, os que lutaram e lutam por uma descendência e, por diversos motivos, só encontram esterilidade, frustração e a perda dos sonhos. 

 

A Bíblia é plena de histórias de esterilidade versus frutificação. Quem não se empolga com as historias de Abraão e Sara, Isaque e Rebeca? Todas as disputas entre Raquel e Lia quanto a gerar filhos para Jacó, sendo que a mulher amada não conseguia engravidar? A familia patriarcal foi formada num ambiente de manipulação e  substituições, culminando com morte de Raquel após dar a luz? 

 

Mais adiante, a angustiada Ana pedia um filho enquanto Penina tinha criançada de sobra. Ao ter a oração respondida, Ana entregou o filho, Samuel, ao serviço do Senhor. 

O Novo Testamento começa com duas histórias de gravidez impossiveis: uma jovem virgem concebe por obra do Espirito Santo e seu Filho, Deus conosco, faz  a historia da humanidade -- e Zacarias e Isabel, estéreis por toda a vida de casados, têm o filho profeta, João Batista.

Já mais de seiscentos anos antes do nascimento de Jesus, o profeta Isaias escreveu: 

"Cantai alegremente, ó estéril, que não deste à luz; exulta com alegre canto e exclama, tu que não tiveste dores de parto, porque mais são os filhos da mulher solitária do que os filhos da casada, diz o Senhor..." (Is 54.1) e o apóstolo Paulo cita esse trecho ao falar da fertilidade dos que pertencem à Nova Aliança (Gl 4.27).

 

Essa passagem fala não apenas a Sião, mas ao coração das pessoas que, através dos séculos, têm amargado a ausência de filhos  casadas, solteiras, de estado civil indeterminado — todos que vislumbraram descendentes que não tiveram.

 

Hoje vivemos situações diferentes: na geração atual, muitos enxergam os filhos como peso, problema, e estorvo. Não querem casar para não ter filhos; quando casam, querem evitar as atrapalhações de planos individualistas com uma criança que custa caro, exige dedicação e anos de cerceamento de projetos de ser e ter. Conheço casais cristãos que propositadamente negam a si mesmos a bênção de ser pais deixam para depois que estiverem financeiramente estabilizados e emocionalmente maduros — ou seja, no dia de São Nunca. A realidade é que jamais o casal terá maturidade completa e estabilidade material sem risco de perder. Vão sempre querer mais e viverão sempre a escassez de satisfação.

 

Por outro lado, há os que são talhados para serem pais e mães, que desejam ardentemente ter filhos com os quais compartilhar e formar a vida, e não os têm. Amam crianças, são sábios e amáveis nos relacionamentos, cuidam dos filhos de outros, mas não tiveram o privilégio de receber das mãos de Deus uma vida sua para cuidar. Alguns nunca conseguiram engravidar; outros tiveram gravidez interrompida. Sei o que é sofrer um aborto espontâneo, mas eu tive o consolo do marido amoroso e três filhos vivos que, por sua vez, tambem geraram vidas preciosas. Existem, porém, casais piedosos que fizeram muitos tratamentos de fertilidade, acompanharam com afinco suas gestações interrompidas, imploraram com fé, e viram suas esperanças frustradas, vez após vez.

 

Alguns desses se dedicaram a ganhar filhos espirituais — ensinando e edificando outros. São evangelistas de crianças, educadores, cuidadores para a gloria de Deus e alegria de seu povo. Admiro muitas essas mulheres solteiras, mesmo os casais, que desempenham papel de mães (e pais) cristãs sem jamais terem dado à luz. Outros adotam — recém-nascidos, crianças pequenas, adolescentes  dando vida valiosa e enriquecendo o próprio coração, enquanto suprem o coração do filho acrescentado à familia. Hå também lindas familias nas quais alguns há adotados, filhos do coração, juntamente com os nascidos do ventre, igualmente adotados para sempre.

 

Algumas vezes, um filho "não planejado" é a melhor coisa que pode acontecer à familia -- Deus é soberano e seus intentos são cumpridos com graça e bondade. Embora nós, humanos, não tenhamos previsto a existência de um pequeno ser, Deus o planejou (Sl 139) quando a semente ainda não tinha germinado! 

 

Não podemos interferir na intimidade de um casal ou dizer o que devem fazer -- cada casal é responsável diante de Deus por como sua vida será gerida. O casamento, no entanto, implica em formar familia, em crescer e multiplicar — dois, unidos num só propósito, produzem frutos! Não apenas rebentos  são vidas eternas que mostram a generosidade do Criador, desde crianças até o "para sempre" que desconhecemos. Se possível, no entanto, que tenham filhos, que não temam apesar dos tempos dificeis em que vivemos. Aliás, a tais pequeninos pertence o Reino dos Céus. São portadores da imagem de Deus e, como filhos da promessa, embaixadores da esperança e graça do Rei a quem servimos. 

 

Aos que Deus não deu filhos do ventre, ainda assim têm a missão de servos(as), irmãos(ãs), pais e mães como Paulo que sofria dores de parto até ver Cristo formado em seus discípulos, cf. Gl 4.19  poderiam contemplar uma adoçāo  de adotar, criar e educar alguém, tal como um discípulo na igreja. Fomos feitos para frutificar. Filhos, concreta ou figurativamente falando, não são produtos de realização para satisfação de nosso orgulho  são pessoas preciosas, com valor eterno em Cristo Jesus. Temos de acolher essas jóias com humildade e graça, sabendo que é tesouro de valor perene.

 

Elizabeth Gomes

sexta-feira, novembro 13, 2020

QUANDO UMA PESSOA AMADA INCORRE EM PECADO GRAVE



Penso num assunto há muito tempo, mas demorei para escrever porque temia ser mal compreendida e, assim, começo o artigo com duas afirmativas gerais:

  • Todo mundo é pecador e não existe quem não cometa, cometeu ou cometerá pecados nessa vida sobre a terra.
  • Nenhuma pessoa – cristã ou descrente, criminosa ou caridosa – é melhor do que outra ou merecedora diante do Deus justo e santo. Somos salvos somente pela graça de Jesus e, se condenados, é porque continuamos no pecado em que nascemos.

Entendendo assim, não sou melhor do que a pessoa que observo cair num precipício, e qualquer observação que eu faça quanto ao pecado cometido, não poderei impor juízo ou condenação – somente amor e misericórdia, pois estamos falando de pessoas criadas à imagem de Deus.

Vivemos, porém, num mundo real onde nada vai tão bem. Você e eu já escorregamos em erros tamanhos e, certamente teremos ou iremos presenciar gente que amamos a cometer outros tipos de pecados crassos. Estamos sempre e enfretar o nosso pecado, o pecado contra nós e o pecado de uns contra os outros.

Conto nas duas mãos casos de amigas cristãs que “casaram no Senhor”, cujos maridos, depois de longo ou curto prazo, revelaram-se promíscuos, iracundos, beberrões ou homossexuais praticantes, deturpando o casamento e esmagando os sonhos de viver a verdade em amor “até que a morte os separe”. A carnalidade, em suas muitas formas, separa os relacionamentos mais íntimos, seja ira amargurada seja escolha temporal errada seja impureza moral. Muitas e muitas vezes, outro homem ou outra mulher separa um casal sem que haja arrependimento e perdão.

Certamente, você também conhece pessoas que começaram bem a vida a dois e foram traídas por enganos e adultérios. Deus odeia o divórcio e promove o perdão, mas quando a pessoa é contumaz e não busca reconciliação, Deus permite a separação pela dureza do coração. Deus odeia a mentira e a distorção do matrimônio baseada em enganos. Poderá ser que você tenha sido traído por um cônjuge sem que você tenha sido parte “culpada” (quem há de?). Novamente, volto à afirmativa inicial que ninguém é totalmente inocente e isento de pecado, mas estamos falando de uma pessoa que não traiu o casamento e que está ferida por aquele/a a quem ama e em quem confiava. Ainda ama, embora esteja morrendo de raiva e corroida/o pelo rancor da decepção. Mesmo que filmes, psicologias e todo um mundo secular romantizem “casos de amor” e justifiquem traições, dizendo que tudo vale quando surge novo amor, quem ficou sozinho ficou arrasado e sem rumo.

Outros amigos sofrem as decisões chocantes dos filhos que assumiram transgeneridade, passaram a viver conjugalmente com pessoa do mesmo sexo ou cometeram algum crime contra pessoas vulneráveis. Provavelmente já estavam envolvidos com pornografia virtual ou de outro tipo, mas o “caso” veio a público, envergonhando os familiares e forçando-os a tomar decisões complicadas. Se uma filha ou filho é dependente dos pais e reside com eles, talvez tenham de “mandar embora”—mas como rejeitar aquele que é parte da gente, que nasceu em casa, e expô-lo a ainda perigos piores? Quando o filho é adulto e independente, o relacionamento fraturado ainda é dolorido, mas sabemos que ele terá condições de sobreviver no mundo.

 O que dizer do filho ou irmão tomado por drogas que o tornam alienado e incapaz de manter emprego? E se uma filha faz uma falcatrua financeira que pode levar a punições legais – além de lesar a própria familia?

Temos de fazer diferença entre fraquezas que promovem erros de desempenho, performance – tal como por a perder um emprego, ou tomar decisões amalucadas — e  outros pecados biblicamente condenáveis. Um filho, irmão ou cônjuge que tenha um surto psicológico, certamente precisará de ajuda e apoio dos familiares. O mesmo passa a viver uma loucura de travestiismo e precisará ser confrontado com a Palavra de Deus, não acobertado pelos pais. Claro que todo confronto tem de ser em amor, não enfatizando a “desgraça ou vergonha que causa para nossa família”, e sim, o quanto ferimos ao Deus santo que nos ama e nos salvou. Temos sempre de nos lembrar que “tais fostes alguns de vós, mas vós vos lavastes...”. Cristo morreu por pecadores, “dos quais eu sou o principal”. Ele tira a culpa do pecado, não fazendo de conta que ele não existe, mas porque, morrendo, Jesus expôs nossa culpa sobre a cruz e, ressurgindo, nos justificou, tornando possível uma nova vida. Mas não admitimos que você tenha relações sexuais ilícitas em nossa casa! Recebemos o parente em casa com comida e hospedagem – não seremos coniventes com atitudes ou atos que firam o convívio cristão ou ponham em risco irmãozinhos mais novos.

Tenho conversado com algumas pessoas que sofreram abuso sexual da parte de quem deveria protegê-las – professor, tio, padrasto, pai, avô, amigo da família. Se souber que alguém ligado a você está assediando ou ferindo uma criança, um deficiente mental, ou idoso – alguém vulnerável que não saiba se defender — você  e eu temos de agir, interferir e, se for o caso, denunciar! Não permita que o mal seja perpetuado em sua casa. Pode ser que o infrator seja uma pessoa amada do seu convívio – tem de dar um basta ao mal. Quanto mal a família do rei Davi poderia ter evitado, se tivesse agido e defendido a filha, Tamar, contra a maldade do meio-irmão. As inimizades das gerações futuras poderiam ter sido evitadas com o exercício de bondade, justiça e verdade nos relacionamentos!

Jesus foi acusado de ser amigo de publicanos e prostitutas – mas não aprovou os pecados de apropriação indébita pública ou privada, nem pornéia, fornicação ou adultério de qualquer espécie. Deus ama seu povo chamado de adútero, e permite que ele sofra as consequências do pecado —porém, sempre os chama ao arrependimento e perdão.

Estou impactada por testemunhos de pessoas como Rosária Butterfield, professora norte-americana, que foi feminista lésbica, ganha para Cristo através do amor de uma igreja bastante rígida, disposta a amar até as últimas consequências. Hoje, é esposa de pastor e mãe cristã de muitos. Testemunhos de pessoas que eram sexualmente escravizadas e vendidas internacionalmente, que hoje em Cristo são servos do Senhor e fundaram escolas para ajudar outras vítimas a sair da prostituição também nos enlevam.

Chegamos ao que sugere nosso título: o que fazer quando uma pessoa amada está prestes a cometer ou comete um pecado grave. Temos de nos lembrar que todo pecado é grave, pois afronta a santidade de Deus; contudo, existem pecados “mais escabrosos” quando eles trazem consequências mais sérias à integridade ou sanidade das pessoas. 

Primeiramente, não podemos fazer de conta que não importa tal ato ou atitude, ou que não existam graves consequências. Temos de ser realistas – ver as coisas sérias como são. Durante o início dos anos noventas, trabalhei como casemanager numa organização não governamental para ajudar pessoas com risco de AIDS ou soropositivas. A maioria dos meus clientes na época era homossexual. Antes de trabalhar com essa população, eu ajudava em casos de negligência ou abuso sexual de crianças, tentando proteger os vulneráveis e fornecer aconselhamento aos que facilitavam o erro.  Ajudava gente que tinha estilo de vida totalmente contrário ao que eu, esposa de pastor, propunha. Às vezes o pessoal da SPAL ou do Aids Action Committee, ao saber das minhas convicções cristãs, tachava-me de retrógrada ou preconceituosa. Mas eu sempre respeitava as pessoas como pessoas, sem emitir julgamentos. Eram meus amigos. Essa amizade ia além do emprego. Com o apoio de meu marido, convidamos nossos clientes a jantar em casa. Um deles, José, se converteu, foi batizado,  e veio fazer parte de nossa igreja. Por ignorância, alguns crentes questionavam se nós não estaríamos nos arriscando a “pegar AIDS” recebendo-os como seres humanos benvindos em nosso lar. Eles foram convidados a conhecer Cristo, que liberta da vida devassa que levavam.

Segundo, amar a pessoa não significa ser conivente com o pecado. Recebemos todo e qualquer tipo de gente – mas não admitimos que seus atos abomináveis sejam realizados em nossa casa ou igreja. A pessoa que está no erro poderá não entender isso – poderá até se revoltar contra a verdade que afirmamos da Palavra de Deus, achando que estamos julgando e nos posicionando acima delas. Na verdade, elas já estão julgadas e condenadas, mas não por nós, que também estávamos na mesma situação.

Terceiro, não debochamos da pessoa que assume uma postura pecaminosa nem a rebaixamos ou expomos diante de outras pessoas. Não aceitamos sequer a nossa própria maledicência – cremos no poder transformador de Jesus. Quando falou com a mulher samaritana, Jesus a tratou com dignidade, e com realismo: mandou: “Vai e chama teu marido”, para que ela mesma admitisse que estava entregue a relacionamentos ilícitos consecutivos! (Interressante que essa mulher à margem da sociedade foi a primeira a evangelizar Samaria). Quando Jesus avisou a Zaqueu que jantaria em sua casa, não começou a recriminá-lo pelo que ele fazia, mas fez óbvio que Zaqueu teria de mudar totalmente de vida.

Quarto, nosso relacionamento com o nosso parceiro, filho, parente ou amigo em pecado, tem de ser regado primeiramente com o amor de Deus — o que somente demonstraremos, se estivermos em oração e em dependência do Senhor. Soluções humanistas e humanas não resolvem as armadilhas desumanas e demoníacas em que nossos amados caíram. Nossa luta não é contra carne e sangue – e, pelo sangue de Jesus, Deus transforma o que é impuro e escuso em Noiva resplandecente.

Há sempre a possibilidade de restauração. Deverá haver restituição e mudança! O filho ou filha rebele pode vir a ser servo/a do Senhor. O cônjuge traidor poderá retornar à união do Senhor.

Elizabeth Gomes

domingo, julho 26, 2020

MEUS MONTES DA FALTA DE FÉ E OS MONTES DO SENHOR



Da varanda de casa, os montes da Serra do Mar, em Sabaúna...

— Salmo 121 —

Num desses dias de inverno, eu derramava a minha alma na presença do Senhor — são dias de isolamento dado a atual crise da saúde, e de terrorismo mediático social político-econômico entrincheirados nas armadilhas de uma pandemia engendrada. Lia a Bíblia, como de costume, com ações de graças e petições por mim, pela família imediata e estendida, tanto da carne quanto da fé. Pedia que, se fosse o seu querer, o Pai poupasse o mundo, principalmente o corpo de Cristo, dos males do atual corona vírus e de suas consequências oportunistas, e que abençoasse a igreja a bem do testemunho de nossa fé.

Em nada sou diferente de todos da minha humanidade, sendo igualmente fraco e necessitado em tudo e de muitas coisas. Há, contudo, uma enorme diferença, a qual não procede de mim: Deus concedeu-me o seu conhecimento e regenerou-me por sua Palavra para a viva esperança de refletir a sua glória e usufruí-lo para sempre. Enquanto aguardo que essas coisas sejam completadas, eu as experimento no culto individual e no culto da congregação, com cujos membro compartilho os atos e sentimentos da fé, os mesmos percalços e aflições, as mesmas fraquezas e os mesmas forças advindas da vitória do Senhor. A cada dia, preciso do alimento da Palavra de Deus.

UM SALMO PARA O CAMINHO

Foi assim que tive sobremaneira fortalecidos os afetos do coração, ao considerar o Salmo 121 à luz de outros textos lidos no culto individual. Esse Salmo é tido como um hino processional e tenho para mim que seja uma introdução ao culto público solene, como uma invocação do Pacto divino, e, no caso, um motivo para a minha adoração a sós. É um salmo sobre o clamor existencial da alma e o encontro da consolação no Criador de toda a existência.

Um pouco de leitura, um tanto de confissão e de louvor, um pedido de esclarecimento ao Autor invisível, mais um pouco do texto, um tanto de consulta ao coração, outro tanto de intercessão, e apanhei-me olhando para fora de varanda de casa. Do vale de O Refúgio, o sítio em que moramos, os montes da Serra do Mar, em Sabaúna, paralelos aos da Serra do Itapeti, formavam um quadro quase perfeito para entreter algumas perspectivas das primeiras palavras do Salmo: “Elevo os meus olhos para os montes…”

Poderá ser que o salmista evocasse somente os altos das idolatrias, mas eu acolho a expansão da figura para incluir os demais ambientes da experiência do povo de Deus. Havia ainda os montes das alianças, Sião e Sinai, e outros pontos referenciais da Bíblia. Até esses, se vistos à parte do Pacto figurado, poderiam igualmente provocar falsas esperanças e gerar escravidão em vez da liberdade em Cristo (cf. Gl 4.21-31; 2.4; 5.1). (Lembro-me de que, em visita às terras da promessa bíblica, vi muitas pessoas a pedirem um novo batismo, como se as águas do Jordão tivessem um poder maior do que a do Filho de Deus e do Homem, batizado por João.)

Tais considerações levaram-me a manter um olhar voltado para a situação corrente e outro para interpretação da promessa, sem descuidar do realismo cruel do século e zeloso da graciosa esperança eterna. A vida do ser humano será sempre um culto de adoração quer do Criador quer da criatura, dependente do que advirá louvor ou ira, gratidão ou medo. Assim, prossegui a meditação em humilde adoração.

Em outra pausa da leitura, como as que ressaltam as notas das composições melódicas, fui comovido pelas expressões do texto, e deixei que a mente usufruísse o enlevo. Assegurava-me a Palavra do Senhor de que o Espírito que a inspirou também orientaria os meus olhos, guardaria os pés, o sono ou a vigília, sob sol ou lua, do início ao fim, em todo o tempo.

UM SALMO PARA OS ALTOS E BAIXOS DA VIDA

O que eu via, no entanto, eram os vales das minhas próprias injustiças e os montes das injustiças cometidas contra mim, contra nós, e por outros contra os outros. Eu queria abrir o coração, confessar minha insuficiência, declinar o meu temor e minha ira diante do ódio ideológico professado e praticado num mundo sem Deus, sem fé, sem amor e sem esperança. Governos e povos ímpios se levantam na cidade contra Deus e os seus escolhidos e sequer percebem que a existência lhes escorre como areia entre os dedos. Sentia-me impotente e, assim, com o devido respeito e humilhação, repeti a pergunta do salmista: “de onde me virá o socorro?” De onde obter esperança num mundo que trocou a verdade pela mentira, o amor pela maldade, e em que um novo normal prenuncia tempos difíceis de injustiça e de perseguição?

Ah! Pequeno que sou, sequer me firmo no louvor a Deus pelo lugar que ele me deu. Sei que tanto o lugar onde nasci — Pátria amada, não adorada, mas grata terra de minhas moradas e para o nosso serviço da fé — quanto o pedaço de chão de O Refúgio foram resposta às orações da mocidade. Ingrato, como os que não têm esperança, os pés coxeiam entre maledicências e preferências quanto coisas dos montes da cidade, como diz: “mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho” (Rm 2.15, 15).

Certamente, tudo em minha vida vem do Senhor que me chamou e enviou. Ele “fez os céus e a terra”, fez-nos e ao momento presente para “o louvor da glória de sua graça que ele nos concedeu gratuitamente no Amado” (cf. Ef 1.6). Dele vem o socorro; aliás, dele veio o nosso socorro, Jesus Cristo, o amado do Pai e nosso. Ainda que nos vales de trevas (cf. Sl 23), ele guarda os nossos pés para que não vacilem; ele não dormita nem dorme e faz-nos repousar na paz de sua justificação; cuida dos nossos dias, preservando a nossa alma! Ele guarda a nossa saída e entrada, pois a promessa é que o que começou a boa obra em nós há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus (cf. Fp 1.6).

Ah! A pequenez da minha alma! A esta altura da vida já era para eu ter alcançado lugares mais altos! Já devia confiar mais nas coisas dos altos céus! Rodeado, porém, de tantos montes de incredulidade, tenho sustos e temores, desconfianças pecaminosas as quais ofendem ao Senhor e a minha própria alma! Às vezes, as minhas orações empalidecem e saem murmuradas, roucas: de onde virá o meu socorro, hoje e no último dia? Onde uma certeza de fé? Quem guiará a saída das minhas peregrinações e a minha entrada na volta para casa?

UM SALMO DE LOUVOR E CONFIANÇA NO CRIADOR E REDENTOR

Ah! Mesmo conhecendo as promessas e tendo experimentado inúmeras vezes as suas concretizações, o meu coração ainda se apequena, e eu tenho de clamar: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Mt 9.24). E quando, então, eu me pergunto: quem sou eu para que me visites? — sentindo-me apenas um menino no meio de uma geração incrédula, mesmo que quase velho na idade, a olhar os montes da cidade — o Espírito do Pai e do Filho volve os meu olhos, os pés e a alma para a entrada e a saída, o Alfa e Ômega.

O Espírito, assim, alça os meus olhos para além dos montes — não apenas para os montes deste século nem somente para os montes que testemunharam a história da fé, mas para a significância dos atos da graça de Deus, para o significante Cristo Jesus em quem repousa a nossa fé. Não para meus medos nem minhas impossibilidades, mas para o Senhor Jesus, cujo amor expulsa o medo e cujo poder dá finalidade e propósito à minha vida. Foi dele que “alguém, em certo lugar, deu pleno testemunho, dizendo: Que é o homem, que dele te lembres? Ou o filho do homem, que o visites?” E sobre ele é a resposta: “Fizeste-o, por um pouco, menor que os anjos, de glória e de honra o coroaste [e o constituíste sobre as obras das tuas mãos]. O escritor de Hebreus prossegue, dizendo que o Senhor Jesus, por quem e para quem todas as coisas existem, deveria conduzir muitos filhos à glória, aperfeiçoando-os por meio de seus próprios sofrimentos; far-se-ia Autor de sua salvação, irmanando-se e irmanando-os na família de Deus. E do modo como ele não se envergonha de nos chamar irmãos, assim não nos envergonhamos de seu evangelho, o qual é o seu poder para a salvação revelada de fé em fé (cf. Hb 2.6-12 e Rm 1.16 e 17). Nessa linha, o escritor de Hebreus continua a citar o salmista: “A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação; vós que temeis o Senhor, louvai-o; glorificai-o  (Sl 22. 22, 23).

Enquanto deste lado da eternidade, portanto, no meu vale ou na cidade, os seus louvores me acompanham e me asseguram. Bendito o Espírito da Palavra que me assegura de que, a despeito de todos os males e ameaças desta hora, tudo está sob o controle do Filho Criador. Todas as coisas estão sujeitas ao Filho criador, e nada foi deixado fora do seu domínio. Se, porventura, um olhar para “os montes” da cidade, faz parecer distante o socorro do Senhor, e eu sinto desmaiar a minha fé, sem demora vem-me o seu auxílio. O Espírito aponta para o Autor da nossa fé:
Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas; vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem” (Hb 2.9-10).

E ainda:
Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna (Hb 4.14-16).

Bendito seja o Senhor que dia a dia aperfeiçoa a nossa vida na santificação do Espírito e cuja graça é suficiente para conceder-nos o poder transformador. Ele vem em nosso socorro a partir de montes mais altos e mais profundos, como o Gólgota e o Olival de intensas dores e de júbilo — de morte, ressurreição e ascensão — e assiste-nos na fraqueza, concedendo-me o seu poder. Acima dos montes de nossa falta de fé, muito além dos montes da vizinhança e da vida toda, o Senhor Jesus abre os olhos de nossa alma para que vejamos as promessas de satisfação de justiça do evangelho. Satisfação da justiça do Pai mediante o sangue de sua cruz para remissão dos escolhidos; e satisfação da justiça de Deus em relação à impiedade dos que existem somente para a carne e para os desgovernos da própria natureza decaída (cf. 2Pd 2.9).

Louvado seja!

Wadislau Martins Gomes