segunda-feira, janeiro 16, 2017

A TENDA VERMELHA


     A leitura sobre as famílias iniciais de Gênesis certamente não gera parâmetros para a família cristã ideal—nem de dois, três mil anos antes de Cristo nem de dois mil anos da era cristã. Alguns anos atrás, comecei a pensar mais sobre as famílias patriarcais da Bíblia e a relação deles com nossas famílias atuais
     Fui convidada para falar em retiro de mulheres de uma igreja presbiteriana de Anápolis, e o germe de meu livro “Irmãos: cúmplices e rivais em aliança” foi plantado. Repeti alguns aspectos do estudo de “irmãos” em acampamento para jovens da Igreja Presbiteriana de Brasília. Em vez de repetir as mesmas histórias de vida cristã familiar segundo o plano divino, observava que nossas histórias familiares são cheias de conflitos e carências—e vinham sendo assim não obstante possuirmos a Palavra de Deus e mestres que a ensinam com integridade. A Editora Cultura Cristã publicou meu livro sobre o assunto em 2008, e tem havido limitado mas constante interesse no assunto.
     O livro parâmetro de Moisés, por sua vez, conta que os primeiros irmãos tinham conflito de perspectivas e interesses: enquanto Caim queria produzir da terra e desfazer pelos próprios esforços a maldição do cultivo, Abel gerenciava o pastoreio e oferecia de seu próprio rebanho símbolo daquilo que constata que tudo vem de Deus e nada conseguimos sem seu amparo. A inveja e o ódio geraram o primeiro assassinato—que. em vez de eliminar a rivalidade, faz com que o perpetrador continue de semblante caído e o sangue da vítima continue clamando ainda hoje.  A multiplicação da maldade continua, perpassando mesmo os que foram salvos na arca: filhos de Noé, tendo oportunidade do re-começo de toda a civilização, ainda geram maldição, servidão e domínio no incidente do “descobrimento” da nudez do pai, e depois, ao edificar a torre da grandeza, são espalhados pela terra numa total descomunicação da fala única.
     Os anos vão passando e as histórias vão somando: isolamento e solidão, separação e novas alianças, esterilidade, tentativas de manipulação para se conseguir os ideais prometidos por Deus—pacto e promessas de quem é amigo de Deus versus os reis e deuses das tribos dos homens. Eram violentos os tempos de Isaque e Ismael, de Esaú e Jacó, dos filhos das quatro mulheres do mesmo patriarca e de suas vidas desregradas. Mas sempre o fio de redenção e graça perpassa a todos, e as promessas são de que através dessa família disfuncional chegará um dia quando o Sar Shalom trará verdadeira coesão, unidade em meio à diversidade,
caráter em meio ao caos de personalidades egoístas e idólatras. A história compactada da família escolhida para servir a Yahweh não segue o enredo de escolas dominicais protestantes do século XIX, XX ou XXI—seria até mesmo censurada por elas. Mas tem características de redenção realista, de graça a preço de sangue, de perdão sobre-humano diante de pecados sub-humanos, carnais, terrenos, demoníacos. Gênesis é fascinante, porque por mais que as histórias nos pareçam exageradas, fantásticas, além do que suportaríamos, são histórias de gente como nós: seres humanos criados por Deus para glória, emaranhados por afetos idólatras que minam a identidade gloriosa e solapam a integridade com a qual fomos criados.
     Não tem como acrescentar nem diminuir a grandeza da história bíblica—não podemos nem ousamos fazê-lo—mas como contadora de histórias, queria relatar as estórias dos irmãos da Bíblia para aplicar a teologia bíblica à prática cotidiana, daí o livro sobre irmãos.
     Enquanto trabalhava o texto, descobri um livro contando a história dos mesmos patriarcas da boca de Dina, a filha de Jacó cujo marido, o príncipe siquemita Hamor, foi assassinado por seus irmãos Simeão e Levi para vingar ela ter sido por ele desvirtuada. Uma hábil autora feminista de nossa era, Anita Diamant, reconta a história das mulheres dos patriarcas—mães, filhas, esposas, concubinas, amantes, amigas, sogras e noras—um emaranhado de relacionamentos de cumplicidade e rivalidade—nascendo, vivendo, morrendo debaixo de uma tenda vermelha, aquela em que era proibida a entrada de homens por ser para o isolamento da impureza feminina.
     Diamant certamente pesquisou bem a história da civilização inicial do povo de Israel e dos clãs circunvizinhos, bem como o Egito que já era potência mundial, e a Caldéia, de onde saíra Abrão. O livro é muito bem escrito, com profundidade psicológica, criativo, cheio de imaginação. O tipo de livro que eu invejo e desejaria produzir pela beleza e realidade de outra era espelhando a nossa. Recentemente, vi uma versão cinematográfica desse livro, e não pude deixar de rir e chorar com as histórias de Rebeca, Raquel, Lia, remetendo a Sara e Hagar, com a flor ferida de Diná a percorrer toda a história. A liberdade de criar histórias imanginando as partes em que a Bíblia nada afirma é válida e possível (Diná ter se tornado parteira, ido para o Egito antes de José e muito antes da família toda de Jacó ir habitar em Gósen, entre outras). Mas havia dois aspectos em que Diamant ignorou, quando não violentou, a narração bíblica:
1)      A ausência da aliança com Deus. Nada se fala das promessas a Abraão de que nele seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12) nem da reafirmação muitas vezes do pacto. As guerras, alianças, e contatos com os reis da época, culminando com a vinda e bênção de Melquisedeque, também são completamente ignoradas. Não consta, para Diamant, a luta de Jacó no vau de Jaboque, nem mesmo ele ter ficado coxo, a visão de Peniel, a mudança do nome e o restabelecimento do pacto. Todas as estórias sobre Jacó e seus filhos são humanas, terreais, sem foco no eterno. Claro que quando se condensa uma história que perpassa várias gerações, tem de haver uma seleção de narrativas, e mesmo no livro de Moisés de Gênesis sabemos que muito aconteceu que não foi contado. Mas à autora atual não parece haver nenhuma ação divina ou sobrenatural: tudo que aconteceu era sobre a terra inóspita de Canaã, sem pacto, promessa ou relação da parte dele com Deus.
2)      O segundo aspecto gritante na história da tenda vermelha é ter a narradora colocado como positiva a importância da idolatria de Raquel e Lia e suas colegas, e mesmo voltar ao passado de Rebeca e Sara como perpetradoras do feminino que se adore. Gênesis conta que Raquel roubou os ídolos de seu pai Labão (Gn 31.34-35), não como algo bom, mas erro crasso—ao contrário, a “tenda vermelha” glorifica a idolatria como meio de as mulheres contarem suas histórias e lidarem com sua existência entre sombras e luzes. Exatamente como o feminismo, hoje, procura nos ídolos do lar (deuses sob meu controle) e dos altos (deuses das coisas fora de meu controle) uma explicação para a existência e as carências humanas.              Claro que não podemos exigir que uma escritora descrente tenha uma visão acertada da idolatria—mas este é um aspecto em que a história pé no chão de uma excelente escritora não tem resposta como é para nós que cremos que Deus é o Deus dos altos e santos lugares, e também do profundo do ventre e do coração.
     Queria que nós mulheres cristãs, que escrevemos como para tocar cérebro, vísceras e afetos dos leitores, tivéssemos a acuidade e sensibilidade de grandes autoras descrentes—mas com a fé de mulheres “como a própria Sara que recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (Hb 11.11); “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias (Hb 11.31). E em geral, “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos (Hb 11.35).
     Para não nos fatigarmos ou desmaiarmos em nossa alma, teremos de nos livrar dos laços idólatras de nossa cultura passada, presente ou futura: “desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.1-2). A Palavra única, perfeita e inerrante de Deus estabelece o parâmetro e permite-nos criatividade, tal como disse Bill Edgar: a arte cristã é como o jazz, o qual requer liberdade dentro da forma.
     A tenda vermelha me lembra outra tenda: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipontente descansará” (Sl 91) a canópia sagrada pelo sangue do Cordeiro derramado por nós.

Elizabeth Gomes

quarta-feira, janeiro 04, 2017



Um tanto sombria, uma recente postagem foi sobre o peso do Natal, e eu queria escrever algo mais animador e leve para começar o ano de 2017. Como Maria na antiguidade, eu meditava muitas coisas no coração, e as revirava na cabeça com coceira de proclamar a todos quantos quisessem ouvir, ainda que não fosse voz de anjos ou profetas. Também como Maria da antiguidade, eu não tinha acesso a computador nem chamado para proclamação pública, e apenas lembrava com gratidão os muitos profetas que me antecederam, acompanham e sucedem na caminhada: meu pai, meu companheiro de vida e marido para todos os dias, meus filhos e genro – todos pastores – e os netos que nos alegram porque andam na verdade em amor. Começo o ano novo com profunda gratidão e igual percepção de que toda a graça que nos inunda é imerecida prova da abundante generosidade do Senhor.

Confesso que a “coceira de proclamar” não se alivia com os talcos ou bálsamos dos dias atuais. Como uma autora facefriend constatou, o vírus da procrastinação está sempre presente (e nada latente) em corações despertos pela Palavra – e igualmente embalados pelas dissonantes e entorpecentes cantigas de ninar do mundo em que vivemos e escrevemos. Já passou quase uma semana do ano de nosso Senhor de dois mil e dezessete. Tenho muito que escrever e nem sei por onde começar, se bem que continuo com metas a cumprir. Por exemplo, publicar dois livros novos e, como uma mulher mais velha de Tito 2.3, que, sem perder a joie de vivre ou humor, eu seja séria em meu proceder; não caluniadora (nem em insinuação, face, nem em pessoa); não escravizada (a vinho ou a qualquer coisa que anticristãmente intoxique a mente ou escravize o coração); que seja mestra do bem (de coração aprendiz e disposição serviçal); a fim de instruir as jovens a amarem ao marido e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido e ao Senhor da Noiva da qual participo. Ser ainda respeitável e não maldizente, temperante e fiel em tudo (1Tm 2.11)! Se conseguir comunicar isso com graça durante os próximos doze meses, considerarei cumprido meu chamado.

Observo postagens lupinas de velhos pastores que se revestiram de idolatria herege, zombando de jovens que mantém a sã doutrina e, como João o ancião disse: “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” (1Jo 2.14). Tenho “coceira” de responder ou comentar à altura da dissonante voz. Mas volto ao Verbo da Vida e ao discípulo amado que passou a ser apóstolo do amor para ler postagens escritas com estiletes de palavras duras de entalhar após queimadura de mãos e corpo no óleo, além de lábios ungidos em meio à solidão do exílio de Patmos:
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos,
o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa. Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós (1 Jo 1.1-10).

 Que o novo ano seja regado com as palavras das três epístolas de João a pais que conhecem o Pai, jovens, velhos, crianças, filhinhos, senhora eleita, senhores e servos, e amigos!
É SÓ O COMEÇO!

Elizabeth Gomes

sábado, dezembro 31, 2016

SUPERSTIÇÕES, SENTIMENTOS, E NOVOS SIGNIFICADOS



Muitas vezes os melhores chefs são os homens, mesmo aqui em casa, mas, geralmente, quando vamos decidir o que preparar para um jantar especial, cabe a nós mulheres a compra, o preparo e a apresentação. Divido com minha nora o prato principal. Valente, apesar de uma mão costurada e imobilizada Adriana assou um chester e uma verdura gratinada. Felizmente, meus netos se encarregaram de preparar um pavê delicioso e mais algumas guloseimas.

Lembrei de uma conversa sobre o cardápio para a ceia alguns anos atrás: era bom ter romã entre as frutas, e não pode faltar lentilha—as moedinhas garantem prosperidade para o ano.
(Os judeus fazem rodelas de cenouras cozidas em suco de laranja e açúcar mascavo: suas moedas são maiores e doces!) Sou contra usar o formato do alimento para prognosticar um futuro próspero, ou as cores vestidas (o clássico branco para muita paz, vermelho para uma nova paixão, amarelo para atrair mais ouro). Ficaria contente se nosso pezinho de romã já estivesse produzindo grandes frutos que, partidos, parecem centenas de rubis para enfeitar uma boa salada de frutas. Mas resolvi fazer lentilha, porque tinha meio pacote em casa e isso faz excelente acompanhamento ao cordeiro ensopado e cuscuz marroquino com aperitivos de falafel que preparei.

É costume fazer uma boa faxina antes de casa e gente ficarmos arrumados para a festa, e não deixar itens pendentes de um ano para outro. Desde pequena, minha família participava do culto de vigília nas igrejas por onde passamos, e tenho lembranças doces dos propósitos e decisões que esses cultos proporcionavam. Lembro de muita gente que só pisava na igreja na páscoa, no Natal, e no “Ano Bom”. Isso garantia que Deus abençoasse para o ano, diziam. Hoje nossa igreja se reúne em hotel e não temos o horário de ceia e vigília, e muitos aproveitam o feriado para zarpar para longe. Vamos ter o culto normal do Dia do Senhor às dez da manhã, ainda que outros desistam de ir para não ter de “madrugar” no domingo. Lembro-me, com embaraço, de cultos de vigília em que recebíamos folhas de papel em que escrevíamos umaa lista de pecados que queríamos que Deus perdoasse, queimando-os para simbolizar o recebimento do perdão. Outra vez em culto semelhante, listávamos as pessoas que nos magoaram e queimávamos, perdoando uns aos outros. Lembrava muito os cultos da fogueira nos acampamentos, em que, jovens, colocávamos gravetos no fogo simbolizando a entrega de nossas vidas em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.

Com o passar das gerações, muitas pessoas, crentes e descrentes, foram acrescentando costumes, alguns bons (como é bom louvar a Deus em todo tempo, e passar a “virada” em oração), outros inócuos (o tipo de roupa ou comida, por o pé direito para frente para dar o primeiro passo, desejar felicidade e bem estar ao próximo, listas, fogueiras etc.), outros até brincando com as coisas do maligno (se banhando sete vezes ou dando sete saltos sobre as ondas do mar—ué, essa é do candomblé—não foi o que o profeta Elias mandou Naamã, o capitão do exército da Síria fazer?).

Estamos na gangorra de guardar dias, meses e anos de modo negativo, como Paulo mencionou em sua carta aos Gálatas (4.19), ao mesmo tempo em que Deus nos manda aprender a contar nossos dias para encontrar coração sábio (Sl 90.12)—e o próprio Deus é quem “Coroa o ano da tua bondade; as tuas pegadas destilam fartura” (Sl 65.11). Descobrimos que a contagem do tempo, dos dias, meses e anos pode ser um exercício em piedade e contentamento, ou de amargura e incredulidade. Depende de como vemos nosso tempo coram deo. Ao iniciar o seu ministério terreno, Jesus declarou que apregoava o ano aceitável do Senhor, pois “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos...” (Lc 4.19)
Do mesmo modo como aprendemos a administrar o espaço onde Deus nos coloca, temos de aprender a administrar o tempo que ele nos dá. Lembranças do passado podem ser pensadas e resgatadas, sonhos para o futuro são parte de nossa esperança criativa, mas o tempo que se chama hoje é o tempo que temos agora para viver conforme a vida tem de ser vivida. Hoje é tempo de louvar a Deus. Hoje é tempo de engrandecê-lo, quer pela vida quer pela morte.

Que em 2017 tudo seja para a glória daquele em quem confiamos e confiaremos a cada ano, década, século, por toda a eternidade.

Elizabeth Gomes

terça-feira, dezembro 20, 2016

NOSSAS BODAS E AS BODAS DO CORDEIRO




Quando nos casamos, em dezembro de 1966, éramos da primeira turma de estudantes do agora Seminário Palavra da Vida. Na noite anterior à cerimônia, uma amiga que viera de Goiânia para assistir nosso enlace perguntou-me se eu não tinha dúvidas quanto ao casamento. Disse-lhe que não, porque se tivesse alguma dúvida, teria desistido, já que tínhamos tudo contra nós: éramos muito jovens, não tínhamos dinheiro, ainda estudávamos e não tínhamos empregoç os professores do IBPV aconselhavam que esperássemos nos formar antes de casar—só tínhamos um ao outro com a fé posta em Jesus Cristo. Soube depois que, quando minha amiga voltou para sua cidade, rompeu o noivado. Nós, porém, prosseguimos, certos de que Deus nos uniria para toda a vida e que cresceríamos juntos, estudaríamos e trabalharíamos juntos, aprendendo da Palavra de Deus o que Jesus queria que crêssemos e fôssemos. Romanticamente, imaginávamo-nos em algum campo missionário distante em que viveríamos até quando bem velhinhos.

Meu vestido, os sapatos e as luvas foram emprestados. O enxoval, comprei com US $ 40 que ganhei com a venda de um artigo para um periódico cristão e complementado pela generosidade de Da. Eulina, minha sogra-mãe amiga, e da Tia Tide de Limeira. Os pais do Lau não mediam esforços para nos ajudar e não somente proveram para o filho como também para sua filha estrangeira—euzinha. Tivemos um casamento simples com a igreja de Araras enfeitada pelo próprio Lau, os tios pastores Ari Barbosa Martins e Benedito Alves, a prima Isa tocando e o primo Claudio solando. Meu pai veio dos Estados Unidos e conduziu-me como um rei à sua princesa até a frente da igreja lotada de parentes e amigos. Tivemos um almoço “em casa” depois do casamento civil, e bolo e balas de côco, na recepção depois da cerimônia. O cunhado nos levou em seu carro até Campinas, onde passaríamos a noite antes de seguir de ônibus a Campos de Jordão no dia seguinte (não tínhamos carro). Um primo pediu carona até Campinas, e foi nos “entretendo” com piadinhas sobre recém casados, até chegarmos ao hotel.

Começamos o casamento sem dívidas e com as insondáveis riquezas de Jesus Cristo—e nada mais. Nove meses depois veio nosso filho Davi, que eu cuidava nos intervalos das aulas. Em casa, estudávamos ao cheiro de fraldas (de morim) sendo fervidas sobre o fogão. Desconfio que ele se alimentava de teologia bíblica junto ao leite materno que eu dava enquanto estudava para terminar o curso. Às vezes nossa colega Edith Moreira (há mais de cinqüenta anos no trabalho missionário entre os ianomâmis) e outros colegas vinham “dar uma mãozinha” a essa mãe nova super atarefada e um pouco atrapalhada. Muitas vezes, recebemos professores ou outros colegas em nossa casa para uma refeição—as horas em que Dr. Shedd humildemente partia o pão conosco marcaram para sempre nossa visão bíblica e prática da Palavra.

Descrever nossa vida iniciante em ministério daria um livro todo e eu quero aqui só localizar nosso contexto existencial para falar das bodas. O Salmo 45 fala do casamento do Rei a quem nós consagramos, antes mesmo de conhecermos a alegria do casamento, a meta de extravasar a graça de Deus, (v.2) ungindo-nos com o óleo da alegria (v.7), pois ele é nosso Senhor (v. 11). A promessa de que “serão teus filhos os quais farás príncipes por toda a terra. O teu nome eu farei celebrado de geração em geração, e assim os povos te louvarão para todo o sempre” (Sl 45.17-18). Essa promessa marca o casamento do Rei a quem servimos e em quem nossas vidas se misturam—com a dedicação: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11.36—inscrito em nossas alianças).

Vivemos, por um tempo, o “já e ainda não”. Pela graça de Deus, fomos libertos da escravidão do pecado. Somos pecadores que, por Cristo, disseram “sim”, bem cedo buscando em Jeová o que fala o salmo seguinte: “nosso Refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (Sl 46.1)—porque angustias e tribulações certamente fizeram parte de nossa vida! Mas “ele pôs termo à guerra ... quebrou o arco e despedaçou a lança, queimou os carros no fogo” (Sl 46.9).

Pela primeira vez em minha vida pude planejar uma festa como queria. Teríamos de limitar os convites, mas abri para igreja em convite geral RSVP. Embora Deus seja dono de todos os bois da terra, ele deu a nós desfrutar de tudo com parcimônia e discrição. Resolvemos convidar cinquenta pessoas: o conselho da igreja e suas esposas e quem mais confirmasse a vinda. Dos mais de cem parentes e amigos que nos acompanham em nossa jornada há muitos anos, sabíamos que muitos não teriam condições de vir, e imaginamos que acabaríamos com cerca de cinquenta à mesa. Lembrei do conto de fadas onde o rei só tinha doze pratos e talheres de ouro e decidiu convidar apenas doze fadas para o banquete, ficando a décima terceira fada furiosa por não ter sido incluída, e amaldiçoando a Bela a dormir durante cem anos. Mas nossa vida não é conto de fadas e Jesus Cristo já nos despertou do sono. Cinquenta era um número sustentável para reunir junto à churrasqueira do sítio; cinquenta eram os anos de vida conjugal, e cinquenta o número de canecas comemorativas que encomendei de um irmão artista. Nossa casa tem portas abertas; tem de ter também portão fechado!

A parábola de Jesus sobre as bodas do Filho do Rei (Mateus 22) começava a ter aplicação prática em nossa vida—muitos convidados não apareceram. Imaginei chamar os pobres das ruas de Mogi, mas não havia como. Não tivemos o problema de penetras que não estivessem vestidos para a festa—todos estávamos de jeans e roupa esporte como convém a gente simples no campo. Na hora da cerimônia de culto de gratidão e renovação dos votos, Lau e eu nos trocamos para algo mais formal—mas quem não permaneceu totalmente ataviada como noiva adornada para o noivo fui eu, depois do culto—tirei os sapatos e fiquei de chinelos velhos, e foi desse episódio a primeira foto que uma convidada postou nas redes sociais.

Tivemos abundância de comida, um lindo, grande e delicioso bolo, abundância de lembranças gostosas e memórias gratas da bondade de Deus de geração em geração. No ano passado, quando Wadislau esteve mal de saúde, não podíamos imaginar que este ano festejaríamos assim. Sentimos muito a falta de Deborah e de Daniel com suas famílias—entendemos, porém, que eles estão servindo a Deus onde foram chamados, e alegramo-nos com a participação do primogênito, que pregou, da esposa, que tocou e cantou, e dos dois netos, carinhosos fotógrafos incríveis. Realmente, nossas Bodas de Ouro abençoaram a todos que aqui estivemos, fechando com chave de ouro nossos primeiros cinquenta anos.

Decorei, ainda jovem, a poesia de Robert Browning dizendo “Grow old along with me; the Best is yet to be” (Envelheça junto a mim: o melhor está ainda por vir... - Rabbi Ben Ezra) e hoje digo que o melhor já veio, está aqui agora, e vai continuar para a eternidade! Somos infinitamente gratos a Deus por este privilégio singular.

O tema do casamento do Rei com sua noiva perpassa a Bíblia toda e cobre de graça todo casamento no Senhor. Em Efésios 5.22-32, o marido é comandado a amar a esposa “como Cristo amou a igreja e se entregou por ela”, e a esposa a ser submissa como a igreja a Jesus Cristo. Pedro (1Pe 3.1-12) começa falando da submissão da mulher “para que o marido seja ganho sem palavra alguma, pelo honesto comportamento, o “homem interior do coração unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo”; e dos maridos, vivendo a vida comum do lar com discernimento e consideração, tratando a mulher com dignidade”, lembrando que os dois são “juntamente herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as suas orações”!

Pecadores teimosos que somos, Deus nos uniu e deu-nos condições de viver em santificação a vida comum e do lar, de maneira incomum e graciosa, amando como Cristo, sendo revestida como noiva gloriosa ataviada para bodas. Não como a nossa festa singela, limitada, imperfeita, mas para as Bodas do Cordeiro de Deus que foi morto em nosso lugar e reina para sempre. Já pensou na festa perfeita?!
Aleluia! Pois reina o Senhor,
Nosso Deus, o Todo Poderoso.
Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória,
Porque são chegadas as bodas do Cordeiro,
Cuja esposa a si mesma já se ataviou
Pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo,
Resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo
são os atos de justiça dos santos.
Então me falou o anjo:  escreve:
Bem-aventurados aqueles que são
chamados à ceia das bodas do Cordeiro.
E acrescentou: São estas as verdadeiras palavras de Deus.
(Ap 19.7-8)



Elizabeth Gomes

sexta-feira, novembro 25, 2016

COMUNICAÇÃO E AMOR NA TRINDADE


Aos domingos, entre o estudo bíblico e o culto, trocamos amizade em torno de um café. A IPP (Igreja Presbiteriana Paulistana) tem gosto nesse encontro de irmãos com riso largo e os “como vai” e “onde é que dói” com a sinceridade de quem espera uma resposta. Mão na mão, e braço estendido ao visitante, desejamos que o amor e a comunicação sejam reflexos autênticos e genuínos do amor e da comunicação de Deus. Outro costume da IPP é o do tempo para perguntas após o sermão—esperando sempre comunicação em amor. No último domingo, um visitante, trazido “pela internet”, fez algumas perguntas. Bengalês, falador pobre no português, hábil no inglês, afável adivinhando afetação, deixou saber que coletava material para um livro sobre o “misticismo das religiões”.

A mensagem seguia a Ep. aos Efésios (Uma herança transmitida pelo Filho, 1.6-12) em que o contexto mostra uma ação da Trindade. Esse aspecto, apenas mencionado, suscitou uma questão de um irmão: “A Bíblia não é definitiva sobre a doutrina da Trindade e o shemá judaico (Dt. 6.4) diz que Deus é um. Tenho para mim que Cristo e o Espírito sejam manifestações de Deus”. Já que voltaríamos o assunto em breve, e nem todos os presentes estavam prontos para seguir a conversa de maneira frutífera, procurei uma resposta simples que realçasse o valor da questão.

A doutrina da Trindade é discutida ao longo da história da igreja, sobressaindo três heresias: (1) o Modalismo (Deus é um e apenas manifesta-se nos diferentes modos do Filho e do Espírito); (2) o Arianismo (de Arius, que diz que o Filho seria mais uma criação de Deus Pai, condenada no Concílio de Nicéia, em 325 AD); e (3) o Triteísmo (três deuses), menos difundido, mas impressionando a mente de muitos crentes (evidentes nas tentativas limitantes de ilustrações como “partes de um ovo”, “estados da água”, “membros de uma família”, etc.). Esses desvios levantam perguntas retóricas. É Deus somente o Um, singular, e Cristo e o Espírito seriam apenas modos de sua manifestação (modalismo)? Nesse caso, quando Jesus Cristo, o Deus encarnado, morreu na cruz para nossa redenção, o Deus único e imortal também morreu? Quando Jesus Cristo, o Filho, comunicava amor ao Pai, em oração, estaria ele apenas encenando com fins didáticos? Esse recurso comunicaria a verdade em amor? Se Deus for um e não muitos, haverá um imanentismo (Deus está em tudo) e, nesse caso, restará uma expectativa de sermos absorvidos pelo tudo, acabando em nada. Se Deus for muitos e não um, haverá um panteísmo (tudo é deus), e a nós sobrará a sina terminal de toda a natureza. A existência seria ora um barulho ensurdecedor ora um silêncio terrível. Ao contrário, a sabedoria bíblica declara que Deus é, ao mesmo tempo, Um e Muitos, singular e plural. Ele criou todas as coisas fora de sua própria essência (transcendência), mantidas coesas na comunicação do seu amor. Certamente, para quem tem o Espírito e, assim, o entendimento da Palavra, essa breve argumentação seria suficiente.

Aproveitando a deixa, o visitante passou a debater— e este caso era diferente. À medida que desalinhavava os seus pontos, reconheci um ranço muçulmano no contato com a história, o material, e os termos mais comuns na literatura do cristianismo. Sua voz e atitude traíam uma motivação noturna. Ele juntava linhas sem nós, sequer atentando às respostas. Uma visão crítica anticristã tornava a crença na Trindade um acréscimo espúrio tardio ao evangelho. “A doutrina da Trindade foi formulada depois do ano 300”, disse ele. Teria sido assim mesmo!? Ou a Trindade era tida como certa em todos os escritos bíblicos, e as dúvidas e correções é que foram formalizadas em Nicéia? Assim, pedindo a Deus que me abençoasse com a coerência da palavra e do trato, reafirmei a convicção de que a doutrina da Trindade é basilar a qualquer aproximação hermenêutica saudável da teologia cristã. Conforme escrevi em outro lugar (por exemplo, Sal da Terra em Terras do Brasis, Ed. Monergismo):
A doutrina em que cremos, isto é, o trinitarismo ortodoxo histórico—ao qual confessaram Atanásio, Basílio, Gregório de Nissa, Gregório de Nizanzus, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, e outros—ensina que Deus é perfeitamente unificado e simples. Ele tem uma essência única, assumida em comum pelo Pai, Filho, e Espírito Santo. São três pessoas consubstanciadas, coerentes, coiguais, e coeternas. Como diz a Confissão de Fé de Westminster: “O Pai não é de ninguém—não é gerado nem procedente; o Filho é ternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho”.

Nas linhas do Credo de Atanásio, cultuamos a um Deus na Trindade em unidade sem misturar as suas pessoas nem dividir a sua essência. Mas, de que adiantaria uma aula de teologia? A doutrina da Trindade é uma das revelações do mistério de Deus agora “dado aos santos”. Os regenerados apreendem esse conhecimento com toda sabedoria e prudência, pois o Deus concedeu-nos a benção da participação de sua própria natureza (cf. 2Pd 1.4), da adoção em Cristo, e da vivificação por meio da ação do Espírito de Deus e do Filho (cf. Jo 1.12; Rm 8.16). O crente tem a mente de Cristo—e, mesmo assim, tem de enfrentar o fato de que um conhecimento infinito não pode entrar na mente finita. O não regenerado, por sua vez, não entende as coisas de Deus, considerando-as loucura, e tratando-as com inimizade (1Co 2.12-16). A maneira de transmitir graça ao não regenerado é por meio de uma amorosa comunicação do evangelho, de modo claro e com suficiente conteúdo. Ao receber a luz do evangelho, ele será confrontado com o próprio Deus na cruz de Cristo—no qual todos os homens morrem, uns para a ressurreição eterna, outros, para a morte eterna. Todos nós, crentes e incrédulos, precisamos saber que essa é a comunicação da verdade de Deus, no amor de Deus. Essa é a ação verbal e viva que todos podem entender, isto é, a pregação do Evangelho, para a qual temos a promessa da ação do Espírito Santo.

Francis Schaeffer diz (The complete works of Francis A. Schaeffer, Vol. 2,, 12–14; 1982. Westchester, IL: Crossway) que somente a Trindade pode explicar a presença da comunicação e do amor. Essas graças são aspiradas por escritores, pintores, atores, e cientistas, sem que eles saibam de onde vêm nem experimentem comunicação efetiva e amor perene. A Bíblia fala da comunicação e do amor como estando presentes antes da criação. “Antes de Gn 1.1, amor e comunicação eram intrínsecos ao que veio a ser” criado. Esse fato bíblico é revelador quanto à natureza de Deus, especialmente, sobre a Trindade. Em Gn 1.26, lemos: Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Também, depois da queda, Deus disse: o homem se tornou como um de nós (cf. Gn 3.22; Is 6.8). O ensino da Trindade é enfatizado em Jo 1.1-3. “De fato, o conceito tem especial força porque toma a primeira frase de Gênesis e torna-a ... um termo técnico”: No princípio já era o Verbo, e o Verbo já estava com Deus, e o Verbo já era Deus (o imperfeito grego, era, aqui, é mais bem traduzido como já era). Tudo foi feito por ele, e sem ele nada se fez. Adiante, aprendemos quem é a personalidade chamada o Verbo (Logos). Jo 1.14, 15 deixa claro: O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e João Batista deu testemunho dele, dizendo:  ... o que vem depois de mim tem, contudo, a primazia, porquanto já existia antes de mim.

A expressão no princípio, repetida em Hb 1.10 e Jo 1,1-13, enfatiza que Cristo já era antes da criação e foi ativo na criação. A mesma expressão ou a mesma ideia, Schaeffer prossegue, é repetida em Cl 1.16, 17, em que Paulo diz: nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra ... Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ainda, em 1Co 8.6 , “Paulo aponta a um paralelo entre Deus criando e o Filho criando: para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele”. Assim, estabelecida a relação do Pai e do Filho com a Criação, Schaeffer argumenta sobre a relação com o Espírito. Gn 2 deixa claro: e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. É certo que o entendimento da expressão “Espírito do Senhor”, nesse texto, tem levantado questões, mas é verdadeiro que a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, ressalta a presença da Trindade no processo criador. “No princípio” determina o fato de que nesse ponto houve a sequência de uma criação ex nihilo (a partir do nada) por meio da Palavra ou Verbo de Deus. Antes do “princípio”, Deus era—eterno, infinito, soberano—e havia a existência pessoal de amor e de comunicação. Amor e comunicação eram intrínsecos à Trindade, diz Schaeffer.

O Antigo Testamento fala de um Filho Deus eterno e de um Espírito Deus pessoal eterno? Considere Pv 30.4, em que, depois de uma série de perguntas sobre o Santo criador da terra, Agur indaga: Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho, se é que o sabes? Ainda mais, em Is 9.6, numa clara referência a Jesus Cristo e ao Espírito, o profeta diz: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Adiante, em 11.1-5, Isaías descreve o Cristo Jeová Forte e Pai da Eternidade, dizendo que ele nasceria do tronco de Jessé e da raiz de Davi, um renovo sobre quem repousaria o Espírito do Senhor (cf. Pv 8). Novamente, em Is 48.16-17, o profeta diz: ... não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o Senhor Deus me enviou a mim e o seu Espírito. Assim diz o Senhor, o teu Redentor, o Santo de Israel. Mais ainda, o próprio shemá, utilizado para defender a natureza unitária de Deus, traz: Ouve, Israel, Jeová (aquele que É), nosso Elohim (pl., deuses) é o único Jeová (cf. Dt 6.4). Também, Jesus interpreta o texto de Sl 110:1—Disse o Senhor [Jeová] ao meu Senhor [Adonai], do seguinte modo: Como, pois, Davi, pelo Espírito, chama-lhe Senhor ... Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é ele seu filho (cf. Mt 22.42-45)? Em Jo 14—16, Jesus fala dele mesmo, o Filho, e do Pai, e do Espírito, como pessoas coeternas e coiguais numa Triunidade!

Por que, então, a teologia judaica não afirmou a existência da Trindade, no AT? A resposta é pronta: a doutrina da Trindade pertence à teologia cristã em razão do propósito divino da redenção dos escolhidos. Todos os que foram salvos nos tempos do AT, não poderiam compreender a Trindade e sua atuação na redenção (cf. Ef 1.3-14) porque teriam de aguardar a revelação de Cristo. Ele falou com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado (Jo 7.39). Quando prometeu enviar o Consolador para habitar conosco, Jesus explicitou: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós (Jo 14.16-17). Até então, era um mistério a ser revelado, segundo o bom propósito de Deus: Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados (Hb 11.39-40). E Paulo diz: podeis compreender o meu discernimento do mistério de Cristo, o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito (Ef 3.4-5).

Concluindo, a essência da comunicação em amor ocorre no seio da Trindade, é manifestada no Pacto eterno, e é revelada em Jesus Cristo (cf. Jo 1.5-18). Somente os que recebem a revelação do mistério da redenção, mistério de Cristo ou mistério de Cristo e a igreja, podem aceitar que há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos (Ef 4.4-6).
Wadislau Martin Gomes

terça-feira, novembro 22, 2016

ALEGRIA, GENEROSIDADE E GRATIDÃO


Conversávamos outro dia, minha amiga e eu, sobre pessoas que passam necessidades de sustento e manutenção, sem opções para resolver suas carências. Algumas amigas passam por doenças implacáveis e devastadoras. Outros passam por necessidades financeiras que jamais sonhariam quando, mais jovens, eram profissionais bem pagos. Será que temos na Bíblia uma orientação saudável e segura para agir e ajudar a amigos que passam por provações financeiras, de saúde e de natureza familiar?
No último capítulo de Filipenses, o tipo de coisa que Paulo escolhe enfatizar, inclui: integridade nos relacionamentos, fidelidade para com Deus, confiança calma nele, pureza e salubridade nos pensamentos, e piedade na atitude do coração. Em toda área, Paulo quer produzir firmeza, estabilidade, perseverança, persistência, e fidelidade diante de Deus—diante do Deus que se revelou tão maravilhosamente em Jesus Cristo seu Filho. Isso depois de escrever três capítulos sobre generosa gratidão a pessoas que possuíam muito pouco, que em nossas igrejas de hoje seriam vistas como desprovidas e empobrecidas. Portanto, Paulo lembra em dedução lógica, o que havia dito antes sobre a soberania de Deus, conclamando seus leitores a permanecer firmes no Senhor. Ele implora que essa firmeza seja demonstrada na prática, com a solução de uma discussão entre duas mulheres líderes: pensem concordemente. O apóstolo não insiste em que sejam iguaizinhas no pensamento, que tenham cabeças idênticas, mas que vivam em harmonia.
 Isso torna possível a segunda ordem: Alegrem-se no Senhor (v 4)!. Tal alegria se demonstra na moderação pela qual os crentes todos devem ser conhecidos—isso, porque o Senhor está aí. “Seja vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor” (4.5). Perto está o Senhor não é tanto que Deus esteja vigiando tudo que fazemos e dizemos, embora inclua isso, mas que a sua proximidade nos incentiva a imitar a vida de Paulo e outros pastores, em contraste aos inimigos do evangelho.
Creio que, mais provavelmente, que Paulo quisesse dizer que o Senhor está espacialmente, ou melhor, pessoalmente perto. Deus não está longe; está bem perto de nós, junto a nós. Como então poderíamos ceder à autocomiseração?
Suponhamos, por um momento, que o Senhor ressurreto e exaltado entre na sala em que você e os seus amigos estão sentados. Suponhamos que não haja dúvida na mente de qualquer pessoa quanto a sua identidade. Como você responderia? Será que correria imediatamente para ele, pavoneando a sua própria excelência? Quando Jesus lhes mostrasse um vislumbre da sua glória e virasse as mãos com as marcas dos pregos, será que você seria rápido para desfilar as suas virtudes cristãs? Pode a autopromoção fazer parte do seu pensamento?
Paulo começa o parágrafo comentando novamente o carinho dos filipenses a suprir para as suas necessidades, enviando-lhe socorro: “Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade” (4.10). A frase “agora, uma vez mais” neste contexto não tem tons rogatórios culpando os filipenses por serem vagarosos como se dissesse “até que enfim” vocês o fizeram. Pelo contrário, quer dizer que, agora, depois de um extenso hiato, eles renovaram a preocupação com o apóstolo, como haviam demonstrado há dez anos. Percebemos que isto é o que Paulo está dizendo, baseado na próxima frase: “também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade” (4.10).
Com perspicácia, Paulo percebe como a sua exuberante gratidão aos filipenses poderia ser mal compreendida. Ele insiste que suas palavras não sugeriam pedido de mais um donativo. Se existe alguma coisa que deseje, diz ele: “o que realmente me interessa é o fruto que aumente o vosso crédito” (4.17). Noutras palavras, Paulo está principalmente contente que os filipenses tenham sido tão generosos no trabalho do evangelho. Não porque ele fosse o receptor dessa generosidade, mas porque, com a generosidade, eles estariam agindo como cristãos. E Deus, que nada deve a ninguém, os recompensaria. Paulo está mais alegre com as bênçãos que eles experimentarão por demonstrarem ser uma igreja doadora e generosa do que com a própria oferta que veio às suas mãos.
Aparentemente, Paulo procura redirecionar algumas das doações futuras: “Recebi tudo e tenho abundância; estou suprido, desde que Epafrodito me passou às mãos o que me veio de vossa parte como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus” (4.18). Qualquer que seja o caso, quer os filipenses enviem esses donativos generosos a Paulo quer a outros, os donativos eram oferecidos primeiramente a Deus: “como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus” (4.18).
Estas são importantes lições de cortesia e generosidade cristã. Examine como Paulo agradece aos crentes em suas cartas; leia e releia as “ações de graças” de abertura que marcam todas as epístolas com exceção de uma (Gálatas). Seu modelo é agradecer a Deus por aquilo que os crentes têm feito ou pelos sinais de estabilidade espiritual que ele percebe neles. É uma atitude duplamente sábia. Precisamente porque Deus não é devedor a ninguém, os seus filhos podem confiar nele para suprir as suas necessidades: “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades” (4.19).
Volto ao comentário do início, de que alguns irmãos passam necessidades e parece que não são socorridos. Nossos amigos, no passado, auxiliaram muitos pastores e missionários, tal como pessoas desprovidas dentro e fora da igreja, e nunca reivindicaram o que deram. Existe gente que pensa que “merece” ajuda. A meritologia está tão embutida em nossa cultura que a vemos em dizeres das diversas psicologias que enfatizam auto-ajuda, autopromoção, auto-assertividade, e nas sociologias dos movimentos sociais como as do MSTs. A verdade é que eu não mereço nada. Pecadora indigna, eu nada mereço senão a condenação eterna de um Deus justo e bom. Tudo o que ele fez por mim, tudo que me dá e faz a cada dia, é exclusivamente pela sua graça mediante a obra redentora de Jesus Cristo. Nossos amigos que hoje sofrem necessidade e não merecem passar por isso, não é porque Deus tenha declarado que todo crente será sempre vitorioso e próspero. O pecado existente no mundo, as más escolhas que porventura fizemos, às vezes, até a ingratidão e displicência de outros fizeram com que essas coisas que fazem parte da existência humana, acontecessem e tornaram a sua vida ficasse injustamente desprovida. Também não cabe a nós julgar os méritos de quem sofre— a nós que somos participantes da graça de Deus (Fp 1.7) cabe imitarmos a Cristo e a seus servos, sendo generosos co-participantes da graça de Cristo, que,
reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte,  e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que, ao nome de Jesus se dobre todo joelho nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.7-11).
Qualquer generosidade que exerçamos será em obediência ao Deus que tudo nos dá. Tem de ser com humildade, e é desenvolvida com temor e tremor, com alegria e cautela. É esta a mensagem que Paulo escreveu à igreja formada por ele em meio a grande perseguição e entrega de vida. Nesse espírito, temos motivo constante de gratidão que se demonstra em continuada generosidade. Nossos amigos não deverão passar por provações insuportáveis. Todos nós poderemos viver sem ansiedade; conhecidas diante de Deus nossas orações. Paulo pode dizer com sinceridade: Posso tudo naquele que me fortalece (Fp 4.13) e concluir “O meu Deus, segundo as sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades” (Fp 4.20).
Elizabeth Gomes

sexta-feira, novembro 04, 2016

TEOLOGIA PARA BLOGUEIROS, FACEBOOKERS E OUTROS CONVERSADORES


 
Norman Rockwell - pintura
Uma ilustração antiga vai assim – o menino saía para jantar em casa de um amigo e ouviu uma última recomendação da mãe: E não vá dizer que não gosta de alguma coisa, ein! À mesa, o garoto viu, olhos arregalados, um prato de jiló tão ameaçados como a ordem materna. Não gosta de jiló?, perguntou a mãe do amigo. Gosto, respondeu, de pronto, mas não a ponto de comer. Muitas vezes, cremos, mas não a ponte de praticar. É mais ou menos por aí que vão as “teologizações” na mídia. Há muita coisa boa, de gente boa, graças a Deus! Mas há, também, muita falta de coerência entre o que a Bíblia diz e o que dizemos. Por toda parte vemos ginásticas para cumprir crenças e manter gostos e prazeres pessoais. E vemos tentativas de comunicação, nas quais más posturas e más palavras negam os comportamentos requeridos para uma vida de graça mediante a fé.

Em Efésios 4 (LTNH), Paulo fornece uma lição de teologia da vida cristã – ...peço a vocês que vivam de uma maneira que esteja de acordo com o que Deus quis quando chamou vocês (v. 1b). Nas linhas que se seguem, o apóstolo fala do caráter, da disposição, e do serviço das pessoas chamadas para viver a união da própria Trindade.
Sejam sempre humildes, bem educados e pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam tudo para conservar, por meio da paz que une vocês, a união que o Espírito dá. Há um só corpo, e um só Espírito, e uma só esperança, para a qual Deus chamou vocês. Há um só Senhor, uma só fé e um só batismo. E há somente um Deus e Pai de todos, que é o Senhor de todos, que age por meio de todos e está em todos (vv. 2-5)

Paulo prossegue, dizendo que cada um, dessa totalidade chamada para a salvação, recebeu de Cristo um dom especial ensinado e treinado por pessoas igualmente dotadas e, por sua vez, doadas à igreja: apóstolos, profetas, evangelistas, e pastores mestres, para preparar o povo de Deus para o serviço cristão a fim de construir o corpo de Cristo (cf. vv. 11, 12). Somente dessa forma, diz ainda, chegaremos à necessária unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus. Somente desse modo seremos pessoas maduras, isto é, alcançaremos a estatura espiritual de Cristo (cf. v. 13). Somente dessa forma deixaremos de ser crianças surfando ondas baratas ao sabor dos ventos de mentiras de pessoas falsas (cf. v. 14). Somente falando a verdade com espírito de amor cresceremos em tudo até alcançarmos a estatura espiritual de Cristo, que é o cabeça (v. 15).

Como discernir textos maduros e textos imaturos, se nosso conhecimento das pessoas se resume, em muitos casos, a um contacto de apresentação seletiva?

Em primeiro lugar, observando criticamente o ajustamento que tais pessoas exibem como membros do corpo da igreja sob o senhorio de Cristo (v. 14). Em segundo lugar, observando como essas pessoas regeneradas abandonam a velha natureza com seus desejos enganosos e como se separam de posturas pagãs caracterizadas por falta de vergonha de expor pensamentos e sentimentos descontrolados e indecentes (vv. 16-19, 22). Em terceiro lugar, observando como essas pessoas aprenderam como seguidores de Cristo, ou “aprenderam a Cristo”, que quer dizer como elas aprenderam a verdade a verdade que está em Cristo (v. 20). As pessoas verdadeiramente dotadas pelo Senhor para servi-lo no crescimento do corpo de Deus despem-se da velha natureza e revestem-se da nova natureza, criada por Deus, que é parecida com sua própria natureza e que se mostra na vida verdadeira... (v. 23).

A comunicação dessa vida verdadeira, e nesta vida verdadeira, implica um constante luta contra todas as formas de mentira. Como expõe o Breve Catecismo de Westminster, sobre o Nono Mandamento (PR 77, 78), a Bíblia requer a “a conservação e promoção da verdade entre os homens e a manutenção da nossa boa reputação, e a do nosso próximo”  proibindo toda forma de mentira, tais como juízos falsos, calunia, difamação, boatos, falsidades, fofocas, tagarelice, insultos, xingamentos, maledicências, falsidades e profecias extrabíblicas.

Deixar a mentira e falar a verdade é uma luta realmente difícil, pois todos somos propensos a considerar as coisas nos limites de nossa própria visão, e não com os olhos de Deus. Alguns que tentam manter honestidade e sinceridade, às vezes, ainda assim, falham em função uma pobre exegese do texto bíblico e desconhecimento da pobreza da natureza humana. O texto de Ef 4.25 diz que nossa motivação para deixar a mentira e falar a verdade com o próximo reside no fato de que somos membros uns dos outros

Novamente, a nossa união com Cristo e nossa consequente unidade no corpo de Cristo é que nos habilita a falar a verdade em amor (cf. D. Powlison, Uma nova visão, Ed. Cultura Cristã). Se atendermos à verdade, também obedeceremos à ordem bíblica de sermos sensíveis à injustiça, irando-nos contra o pecado e a falsidade em quaisquer termos, quer de doutrina quer de comportamentos. Em tudo isso, porém não poderemos ir da ira justa à raiva, pois correremos o risco de sermos tentados pelo diabo (v. 26). Sempre que dermos lugar à ira rancorosa, amargurada, findaremos roubando ao próximo aquilo que, antes, deveríamos proporcionar. Em vez de entrar em contendas inglórias, deveríamos trabalhar para desenvolver os nossos dons e, ainda, para ter com que acudir o necessitado (v. 28).
Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unica-mente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blas-fêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou (vv. 29-32).

Aquele que consegue ver com os olhos de Deus e, pelo Espírito, entender a prescrição bíblica, certamente cuidará da própria boca, e da escrita. Para que usar palavra torpe? Uma figura torpe? Só para chocar? Note que não quero ser moralista, legalista, e daí em diante, e faço uso de minha liberdade cristã – mas entendo que, mesmo que uma palavra ou imagem não seja torpe, poderá ser que seu uso seja malicioso. De todo modo, a pergunta é: o que digo, escrevo ou exponho, transmite graça ao que me ouve ou vê?


Wadislau Martin Gomes