sexta-feira, junho 15, 2018

COMUNICAÇÃO TRUNCADA


Outro dia, procurávamos um bom filme para assistir. Depois de uma semana em hospital, faria parte da recuperação um descanso que desse repouso físico e mental e, simultaneamente, estimulasse o pensamento e a alma. Não era hora de leitura pesada, mas de imagens belas que nos ajudassem a cerzir os fios rompidos e remendar os furos da tessitura da vida. Surfamos as redes e cada vez que aparecia uma história atraente, clicamos em cima para, em poucos instantes, não aguentar mais a repetição incessante de dois senões da comunicação sadia: as personagens bombardeavam suas falas tomando o nome de Deus em vão e xingando com palavras de baixo calão. Antigamente, os bons filmes procuravam dosar ao mínimo o uso de profanidades e caso usassem, avisavam cautela às famílias – hoje parece que o nome de Deus é conspurcado continuamente nas falas mais banais, e tudo na vida é reduzido a atividades sexuais agressivas ou excremento para a latrina. Perdão pelo meu francês, mas o começo e o fim de todo diálogo espalha impiamente f... you e m... por ventiladores gigantescos e fortes que mancham tudo em volta (Aí vai mais uma tradução truncada e intraduzível). Tudo é muito natural, e homens e mulheres, jovens e crianças. acabam não somente ouvindo, mas pensando e repetindo os mesmos termos.

É verdadeiro que tomar o nome de Deus em vão vai muito além de falar seu nome fora do contexto de louvor e adoração que lhe é devido – mas começa a quebra do Terceiro Mandamento em cada expressão impiedosa que atribui ao Eu Sou acusações que são lavra suja do impostor, deturpador, usurpador e chefe deste mundo tenebroso. Paulo fala em contexto profundo de doutrina sadia aplicada a todos os aspectos da vida prática que “As más conversações corrompem os bons costumes” (1Co 15.33) e conclama-nos a tornar à sobriedade como é justo, e não pecar, porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus. Isto se aplica hoje no mundo ocidental do Século XXI como era aplicável aos que viviam no primeiro século da era cristã, em Corinto (veja também Ef 5.4; Pv 10.19-21).

Apesar de ter sido criado em palácio real com toda a exuberante cultura egípcia, quando Deus chamou a liderar e libertar seu povo escravizado, Moisés culpou sua falta de eloquência como “incapacidade”:  “Sou pesado de boca e de língua” (Ex 4.10). Deus perguntou-lhe: “Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor? Vai, pois, agora, e eu serei com tua boca e te ensinarei o que hás de falar...” Moisés disse ainda: “Envia a quem hás de enviar, menos a mim”. Mas Deus oferece uma alternativa: 

Não é Arão... teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; eis que ele sai ao teu encontro, e vendo-te, se alegrará... tu lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu serei com a tua boca e com a dele e vos ensinarei o que deveis fazer. Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus... E o povo creu, e tendo ouvido que o Senhor havia visitado os filhos de Israel e lhes vira a aflição, inclinaram-se e o adoraram.
Anos mais tarde, em 627 AC, o profeta Jeremias, de família sacerdotal, bem preparada, a quem o Senhor disse: “Antes que eu te formasse no ventre materno te conheci, e antes que saísses da madre te consagrei e te constituí profeta às nações” (Jr 1.5) a que ele protestou, dizendo: “Não sei falar porque não passo de uma criança”. Deus afirmou que ele iria a todos a quem Ele enviasse e falaria tudo quanto ele mandasse dizer. Prometeu: “Eu sou contigo”, tocou sua boca e disse que o constituiria sobre as nações e reinos “para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares e também para edificares e para plantares” – e passou a dar-lhe visões do que estava acontecendo e iria acontecer.

Talvez a irmã mais velha de Moisés, Miriam, fosse ainda criança de uns dez anos quando, destemida, falou com a filha do Faraó (Ex 2.4-9) e instrumento humano para a sua salvação. Joquebede, verdadeira mãe e ama de leite de Moisés, certamente contou as histórias sobre o Deus que fala e o povo a quem ele chamou, alimentando o filho com o arcabouço da historia de Gênesis até o final de Deuteronômio. Quando Moisés libertou o povo de Deus do Egito, fez um esplendoroso cântico de vitória ao que lançou no mar cavalo e cavaleiro (Ex 15.1-19) e Miriam liderou todas as mulheres com a antífona: “Cantai ao Senhor porque gloriosamente triunfou...” (vv 20, 21). No entanto, com a mesma boca, Miriam falou mal do líder de Israel e incitou o irmão Arão a igualmente maldizer a Moisés por preconceito racial, altivez e inveja (Números 12.1-15).

Quando, aos cento e vinte anos de idade, Moisés se despedia de seu povo, falou para escolher entre a morte e o mal, a vida e o bem (Deuteronômio 29-31) – porque o Senhor Deus, ele mesmo, o de Abraão, Isaque e Jacó – os escolheu. Josué recebeu a incumbência de levar o povo para conquistar a Terra Prometida: “Não cesses de falar deste Livro... Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares” (Js 1.8-9). Na narrativa histórica surpreendentemente realista de Josué, a história do passado se entremeia com a esperança do futuro vindouro, dizendo para homens e mulheres, velhos e crianças, pessoas do povo do pacto e pessoas que se achegariam ao pacto – que temessem ao Senhor, servindo-o com integridade e fidelidade, que escolhessem a quem servirão. O general Josué aqui inseriu sua declaração: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15). A aliança legal era declarada publicamente, escrita e lavrada em pedra, por estatuto e direito, e em monumento de pedras toscas. Hoje em Cristo Jesus somos feitos edifício e sacerdócio de pedras vivas, construído sobre a Pedra Fundamental (1Pe 2.4-10). 

Débora, ao levantar-se por mãe em Israel, estimulou o capitão Baraque com seus dez mil homens. Como juíza e profetiza, começou seu cântico bem-dizendo ao Senhor, permeando a ode dos feitos de guerra com descrições da destemida Jael (que matou o opressor Sisera) e dos atos de justiça de Deus – dando ao povo paz sobre a terra por quarenta anos. A sua conclusão: “Os que te amam brilham como o sol quando se levanta em seu esplendor” (Jz 5.31).

Davi fingiu estar louco para se refugiar com Abimeleque, fugindo da fúria de Saul, e começa o Salmo 34 dizendo “Bendirei o Senhor em todo tempo, o seu louvor está sempre nos meus lábios” – e liga o amor à vida e desejo de ver o bem a refrear a língua do mal e os lábios de falarem dolosamente. Sempre a prática da vida piedosa começa com a boca para então afastar do mal, praticar o bem, procurar a paz, e empenhar-se por ela. O Senhor ouve o clamor dos justos – dos que têm o coração quebrantado (Sl 34.10-18). 

Tiago, irmão de Jesus Cristo, diz que Deus “nos gerou pela palavra da verdade” e por esta razão, devemos ser “pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar... acolhendo a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma. Tornai-vos, portanto, praticantes da palavra e não somente ouvintes...” (Tg 1.19-22). Mais adiante, Tiago fala que se alguém não tropeça no falar, é perfeito e capaz de refrear todo o corpo (Tg 3.2) e descreve o pequeno órgão que é mundo de iniquidade, contamina todo o corpo, põe em chamas a carreira da existência humana... mal incontido, carregado de veneno mortífero. “Com ela bendizemos a Senhor e maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. De uma só boca procedem bênção e maldição” (Tg 3.9).

Quando eu era jovem, fazia-se diferença entre os vocábulos estória, história, e histórias. Estórias eram os contos fictícios, como os de Anderson e Grimm, de Homero e de Shakespeare, que fazem parte da cultura de um povo. História era a narrativa fatual da história do passado em nosso planeta e nosso país; consistia de datas e dados, fatos e feitos de heróis e vilãos. Problema é que a história é mais ou menos verdadeira conforme quem a narra, geralmente do ponto de vista dos vencedores. Exemplo: em história do Brasil contado por descendentes de portugueses, o tempo em que os holandeses dominaram Pernambuco foi uma “invasão holandesa” em que o pastor indígena preparado em seminário reformado europeu, Calabar, era inculto índio traidor da pátria. E as histórias podem ser verdadeiras ou não, dependendo da perspectiva do contador. Por exemplo, no filme sobre Forrest Gump, quarenta anos de história são contados conforme ele tivesse participado (ou não?) dela. 

A história na perspectiva bíblica é sempre narrativa da verdade de acontecimentos reais desde Gênesis até o Apocalipse. Diferente da história são as parábolas, que contam em estórias exemplos de conceitos ou fatos a serem ilustrados. Temos diversos outros tipos de relatos na Bíblia, mas quero enfatizar que a Palavra e a Vida sempre estão jungidas e fazem parte uma da outra, sem esfacelamento entre o que aconteceu no passado, o que é, o que deve ser ou há de ser, e o que acontecerá futuramente. O que importa é a verdade, da qual Jesus Cristo é expressão viva e real, Verbo Encarnado, e caminho, verdade e vida se a qual ninguém vem ao Pai (Jo 14.6). Esta história é entremeada de doutrina e prática – em sabedoria de poesia ou profecia, em histórias de reis e bufões, em epístolas e relatos dos evangelhos e de Atos dos Apóstolos inspirados pelo Espírito Santo do Deus Triuno. 

Como escritores cristãos, não somos criadores no sentido do único Criador do Universo. Foram-nos dadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade (2Pe 1.3-8), para que sejamos coparticipantes da natureza divina! Nada há encoberto que não venha a ser revelado (Lc 12.2); embora nada tenhamos, possuímos tudo (2Co 6.10) – e tudo vem das mãos de Deus. Por mais belas e edificantes que sejam nossas palavras, não temos inspiração no sentido bíblico da Palavra inspirada por Deus. As palavras do profeta estão sujeitas à boca do profeta (1Co 14.32); nossas palavras são verdadeiras e edificantes somente quando totalmente sujeitas ao autor da Vida, Verbo de Deus – condizentes com o que ensina sua Palavra. Assim, mais que escritores, somos aprendizes e escribas. Comunicamos vida ou morte, sabedoria ou estultícia, segundo o que aprendemos da Palavra de Deus – mas não somos “boca de Deus” no senso que Moisés e Arão ou Jeremias ou João Batista falavam. Como pecadores que somos, muitas vezes, nossa comunicação é truncada, falha, duvidosa ou até mesmo mentirosa. Queremos falar a verdade em amor (Ef  4.25) mas as palavras guerreiam, são torpes, mercadejadas, mentirosas, faladas de modo indigno do Evangelho.

Entre os hinos de letras profundas e melodias tocantes de Charles Wesley, um dos que mais expressam meu desejo diante do Senhor é “Mil línguas eu quisera ter para entoar louvor, à tua graça e teu poder, meu Rei e meu Senhor” (Hinário para o Culto Cristão, # 72). O desejo de comunicar com variedade, riqueza e conhecimento ao Autor toda boa Palavra, o Verbo Vivo, o Espírito que sopra graça e vida, faz de uma simples tradutora que domina bem apenas duas línguas, um desejo de falar de mil maneiras, com mil vozes, a verdade que me impacta e dá vida. Descubro, no dia a dia, contudo, que não consigo sequer louvar ao Senhor da Palavra nem comunicar a meu semelhante o que realmente queria falar – e olhe que já vão quase setenta anos em que o desejo de expressar, com canto, conto, e relatos fatuais histórias, narrativas e história bíblica – sempre à procura de novas “línguas”. 

Às vezes, descubro que a palavra que digo a alguém que “estou orando por você” em vez de dar um simples “parabéns” é recebida como uma crítica e desaprovação da pessoa a quem deixei de dar congratulações. Tenho a tendência de falar demais, de “matar por exagero” um bom sentimento, de deixar de falar quando preciso, e falar erradamente quando abro a boca! Certa vez, criei uma situação que feriu a diversas pessoas porque eu quis falar a verdade sobre um assunto sem ser convidada a fazê-lo. Interferências indesejadas jamais serão comunicação da verdade em amor. A razão de falar a verdade está no fato de que “somos membros um do outro”. Minha palavra deve ser sempre “agradável, temperada com sal, para eu saber como devo responder a cada um” (Cl 4.6).

Lembro de uma canção de Sandy Patti, Love in any language, straight from the heart, pulling us together, never apart – o amor em qualquer língua, direto do coração, nos puxando para mais juntos e jamais nos separando – fosse “falado fluentemente aqui” – descrevendo a comunicação no Corpo de Cristo. Era o que eu desejava. Às vezes gaguejava, trocava palavras e criava frases truncadas – mas queria que o amor de Cristo fosse fluente e límpido em minha fala e meu proceder. Tinha de falar! Como estudante (consequentemente, aprendiz da Palavra) eu jamais teria púlpito de pregadora – teria de escrever – aprender e aperfeiçoar a arte de falar a verdade em amor (Ef 4.25). Para tanto, tenho de me portar com sabedoria para com os que são de fora, aproveitar bem as oportunidades (Cl 4.5), deixando habitar ricamente em mim a Palavra de Deus, instruindo e aconselhando em toda sabedoria, louvando a Deus com salmos e hinos e cânticos espirituais, com gratidão no coração. Tudo que escrevo ou deixo de escrever, o que faço ou me abstenho de fazer, seja feito em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai (Cl 3.16-17).

Uma das sequelas do AVC de 2007 foi que perdi a voz para cantar. Mas não perdi a canção – a comunicação com vida coerente com o que falo, escrevo, ou como me calo. Quer traduza algo escrito por outros, quer escreva linhas originais inéditas – que essa minha boca sussurre ou proclame sempre por alegria na Fonte de toda Bênção!

Elizabeth Gomes

sexta-feira, maio 04, 2018

GENEALOGIA DOS FILHOS DE DEUS



Em casa muito se fala em genealogias. É um hobby de meu marido, motivo de muita história e brincadeiras. Na casa da mãe dele, a saudosa Da. Eulina, os irmãos e parentes se movimentaram para descobrir o paradeiro da fortuna do Barão dos Cocais da velha Minas Gerais, que aparentemente sumiu quando outro sócio fundou ou vendeu ou sei lá o que a Companhia Mineira de Mineração, dando lugar a ainda existente Companhia Belgo-Mineira. Alguns advogados e pesquisadores promoveram a causa e escreveram livros a respeito. Fizeram outra fortuna com o dinheiro dos parentes que se habilitaram e com da venda dos livros aos ansiosos por conhecer mais sobre a fortuna da qual eles seriam herdeiros legítimos. Em um Congremar (Congresso dos Martins), há muito tempo, houve distribuição de moedas a cada herdeiro, chefiada pela Tia Noemi (acho que ela mesma contribuiu as moedinhas). Quando Lau e eu nos casamos, há quase 52 anos, a piada era que eu casei com ele por causa da fortuna do Barão, enquanto ele casou comigo pelos dólares que certamente eu tinha escondido em algum lugar. Nenhum de nós viu a cor do dinheiro!

As genealogias continuaram nos interessando. Eu debochava um pouco da minha avó, que havia traçado seus antepassados até a vinda do Mayflower em Massachussetts (essa informação foi corrigida para outro navio que veio apenas uns vinte anos depois – mas nossos antepassados (do lado da vovó e do vovô) eram realmente peregrinos puritanos que colonizaram a Nova Inglaterra há muito tempo. Minha avó era DAR (Filha da Revolução Americana – minha tia Virginia ainda hoje celebra 70 anos de sócia nesse clube conservador de revolucionárias). Antes de serem americanos legítimos, meus antepassados foram ingleses, escoceses e irlandeses até época de Ricardo Coração de Leão, descendentes do rei João e pertencentes a diversas casas reais – aqui meus conhecimentos se mesclam e confundem – para informações mais exatas é necessário consultar minha irmã, a Condessa Kitty Charles!

Wadislau, por sua vez, traça as raízes brasileiras até o relacionamento da brasilíndia Bartira com o português João Ramalho em idos de 1500, e do outro lado tem descoberto coisas interessantíssimas que montam ao antigo Portugal, traçando o parentesco do rei D. Manoel até a antiga Pérsia. A essa altura, os netos, físicos, Daniel e Rafael, se juntam ao avô e ajudam a traçar não somente a árvore genealógica dos Martins e dos Gomes como também dos Almeida e Heringer.

Essas estórias podem ser mitos e lendas, mas dão muitas histórias para pesquisa e conjeturas. Houve tempo em que eu questionava por que Deus permitiria colocar genealogias na Bíblia– listas chatas de pessoas que viveram, tiveram filhos, e morreram. Quando, uma vez, em Jaú, Wadislau pregava a Bíblia de capítulo em capítulo, eu temia que, ao chegar às genealogias, ele teria de pular a fim de não fazer a igreja inteira dormir. Ao chegar, porém, às mensagems sobre as genealogias de Gênesis, teve gente que se converteu – a mensagem de que a vida não consiste apenas em uma existência de nascer, viver, deixar filhos e morrer – tem impacto eterno! Hoje considero com mais acerto que toda a Escritura é inspirada – até mesmo as genealogias – útil para nos ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça (2Tm 3:16) para que a pessoa que é de Deus seja “perfeita e perfeitamente habilitada para toda boa obra”.

Ora, a primeira lista de família na Bíblia é também a história do primeiro assassino, Caim, e fala que ele “viveria fugitivo e errante, retirou-se da presença do Senhor, edificou a primeira cidade, e seu neto Lameque foi o primeiro bígamo na humanidade”. A leste do Éden, multiplicam-se habilidades (agricultura, pastoreio, música, uso de metais para implementos, instrumentos e armas) e vinganças.

Outro filho nasce a Adão e Eva (Gn 4.25-5.32) – Sete – e é por ele que virá o descendente da mulher que ferirá a cabeça da serpente: Yeshua Hameshiach, Jesus Cristo. Esta genealogia é contada de forma remissiva por Lucas até “filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus” (3.23-38). 

Entre o povo israelita, para determinar se uma pessoa é judia, a ascendência judaica comprovada tem de ser da mãe, talvez porque o ensino da fé vem junto ao leite materno. Mas na genealogia de Mateus (1.1-17), as únicas mulheres mencionadas são acrescentadas ao povo de Deus por “linhas tortuosas”. Tamar, depois de ter sido duas vezes viúva dos filhos perversos dele, teve filhos gêmeos de Judá, e de Perez continua a sua descendência (Gn 38). Salmom gerou de Raabe, que havia sido prostituta, mas se uniu ao povo de Deus quando em Jericó (Josué 2), a Boaz, e este se une à moabita Rute, e geram Obede, avô do rei Davi (Rute 4.14-22). Davi gerou de Bate-seba, “a que foi mulher de Urias”, a Salomão. A graça de Deus sempre se mostra a pecadores que não tinham linhagem ou estirpe merecedora de seu favor. Cada uma dessas mulheres que vieram para a lista de antepassados famosos tinha fatores negativos manchando sua história: Tamar conseguiu engravidar enganando o sogro e se apresentando como prostituta cultual (Gn ; Rute era moabita, povo desprezado pelos israelitas, que não podia entrar no tabernáculo (Dt 23.3); a característica marcante de Bate-seba é que “era mulher de outro”.

Voltando para trás na história, o livro de Gênesis apresenta os descendentes de Noé (entre os quais você e eu nos situamos!) segundo as suas gerações, nas suas nações; e destes foram disseminadas as nações na terra, depois do dilúvio, como tendo apenas uma linguagem e uma só maneira de falar (Gn 10.31; 11.1). Mas quando, edificando uma cidade, o povo quis fazer uma torre “cujo topo chega ao céu, tornando célebre o nome” – sem adorar ao Deus vivo e verdadeiro – as línguas foram confundidas e o povo se dispersou. Características básicas da nossa humanidade: a fala, a comunidade e a comunicação, foram confundidas em Babel – e até hoje as pessoas não se entendem, não conseguem viver juntas sem contendas, e não conseguem transmitir com integridade ao próximo aquilo que são e que pensam!

Graças a Deus que, em vindo a plenitude do tempo, “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4.4).  Jesus resgata aqueles que não possuem linhagem e estão alheios às promessas de Deus, e os adota como filhos! “Porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” Estes descendentes tornam-se também herdeiro por Deus. Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus...” (Gl 4.6-9). Ao falar aos Gálatas sobre tornar-nos filhos de Abraão pela fé, Paulo pergunta por que voltamos a nos preocupar com dias, meses, anos, e a nos escravizar pela lei. Usa duas mulheres da história como metáforas de viver pela graça ou sob a lei – Sara e Agar – e até hoje a ascendência e descendência das duas continua influindo na história da humanidade e de nossa cristandade!

Ao falar aos Efésios sobre essa dispensação da plenitude dos tempos, Paulo diz que Deus “faz convergir nele (em Jesus) todas as coisas, tanto as do céu como as da terra”. Não temos apenas origem genealógica preciosa e herança eterna; temos finalidade – predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade – propósito – a fim de sermos para louvor da sua glória, história passada –  nós, os que de antemão esperamos em Cristo;  em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa – esperança futura – o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória – vivência valiosa no presente – Por isso, também eu, tendo ouvido a fé que há entre vós no Senhor Jesus e o amor para com todos os santos, não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações...”
para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele,  iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos   e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro.  E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas! (Ef 1.1-23).

Conhecemos a genealogia de Jesus (de Mateus e de Lucas) da parte de sua mãe e de seu pai adotivo.  A Bíblia apresenta numerosas genealogias de heróis, nobres e vilãos, mas menciona o sacerdócio de Jesus, Verbo Encarnado, como proveniente de um “sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias ou fim de existência”: Melquisedeque, rei da paz (Gn 14.17-20 e Hebreus 7.1-17). Um dos jovens pastores mentorados por Paulo, foi Timóteo, filho de pai grego, e de mãe e avó judias cristãs, tementes a Deus que o ensinaram as Escrituras desde sua infância. Sabemos que ele valorizou as origens de Timóteo (2Tm 1.5,6; 3.15), mas advertiu-o para evitar pessoas que ensinem outras doutrinas os se ocupam com “fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé”(1Tm 1.3-4). 

 Não é errado procurar conhecer a nossa história passada e as nossas origens nobres e vilãs (porque entre esses nobres houve também tremendos vilãos!), mas muito mais que genealogias, precisamos conhecer o que realmente torna pleno o tempo passado, presente, e futuro, e a eternidade: o Senhor da História. Não podemos promover discussões em vez de servir a Deus na fé! Qualquer conhecimento, quer informativo quer normativo, tem de estar sujeito ao Senhor Ressurreto, Cabeça da Igreja, que nos dá sua sabedoria, iluminado os olhos do coração, enchendo-nos de sua pleiroma, plenitude, na plenitude dos tempos, para a eternidade sem tempo!
Elizabeth Gomes

domingo, fevereiro 18, 2018

O QUE É QUE UMA MULHER MAIS VELHA PODE OFERECER?


Recentemente, uma amiga, jovem esposa de pastor, que tem o dom de ensinar com sabedoria e graça as mulheres de sua igreja (e outras), pediu-me um texto para compartilhar com um grupo de mulheres acima dos sessenta anos de idade, sobre como elas podem viver e agir biblicamente. Não por coincidência, eu mesma tenho uma bibliografia de mais de 50 livros inspiradores lidos sobre o ministério da mulher, escrevi uma dissertação para o mestrado sobre o assunto e, há anos, preocupo-me com as mulheres em minha volta e com como elas podem servir melhor a Cristo. Não tinha, entretanto, nenhum texto sucinto e com conteúdo suficiente que pudesse compartilhar a fim de ela ler para seu grupo. Tem tanta coisa em que pensar para vivermos de modo coerente, tantas questões – e não temos todas as respostas nem as teremos deste lado da eternidade! O que dizer que edifique, estimule e frutifique na vida de outras pessoas como eu, que estão na chamada “melhor idade” e às vezes se sentem sem voz e de mãos atadas – mas que desejam ser fiéis ao Senhor Jesus? Fiquei pensando nas palavras dirigidas especificamente a mulheres como nós:
Quanto às mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias em seu proceder, não caluniadoras, não escravizadas a muito vinho; sejam mestras do bem, a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem ao marido e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido, para que a Palavra de Deus não seja difamada (Tt 2.3-5).
Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras (Tt 2.11-15).
O Salmista, dando graças ao Senhor, fala que o justo florescerá como a palmeira e que “na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça” (Sl 92.14-15). Na Bíblia, Deus usa pessoas de todas as idades, de todas as origens sociais e econômicas, gente culta e importante, rudes pastores de ovelhas e pescadores de peixes e de almas. Chamou meninos (Samuel), jovens (José que aos dezessete anos foi vendido e foi parar no Egito, Marcos ), filhos de sacerdotes (Jeremias) e filhas de gente desprezível (Rute). 

Sara saiu da terra e da sua parentela com Abraão para a terra que Deus iria mostrar. Companheira fiel desde a mocidade, no entanto, duas vezes participou da trama de Abraão para dizer uma meia verdade a fim de enganar o rei, dizendo ser ela sua irmã (Faraó – Gn 12.10-20; Abimeleque – Gn 20.1-18). Achando que poderia, ela mesma, “dar um jeito nas coisas”, dado que era estéril e que Deus havia prometido um filho, Sara ofereceu a escrava Agar a seu marido para que esse a engravidasse. Depois que nasceu Ismael, Sara maltratou a sua serva e a expulsou (Gn 16; 21), e, quando ela mesma engravidou, com quase noventa anos de idade, riu da promessa do Senhor... para, só depois, rir por causa da alegria pelo nascimento de Isaque (Gm 21.5-7).

Quando criança, Miriã protegeu a seu irmão, Moisés, e intercedeu junto à filha do Faraó para salvá-lo (Ex 2.4-10). Ela contava mais de oitenta e seis anos quando liderou as mulheres no cântico de vitória depois que Moisés levou mais de seiscentos mil homens, sem contar as mulheres e crianças (que certamente eram pelo menos mais esse tanto!) na saída do Egito e a passagem pelo Mar Vermelho (Ex 15.20-21). No entanto, Miriã liderou o falatório contra Moisés depois de o povo de Deus ter experimentado a provisão de divina do maná e das codornizes – em função do racismo contra o casamento dele com uma cuxita – e foi punida com lepra (Nm 11.35).  

Raabe era prostituta cananéia, mas foi salva na destruição de Jericó (Js 6.17;22-25) porque creu em Deus e protegeu os espias (Js 2 – Hb 11.31 e Tg 2.25). Veio a fazer parte do povo de Deus e foi antepassada de Jesus Cristo (Mt 1.5).

Não sabemos se Débora tinha filhos – só sabemos que ela era profetisa e mulher de Lapidote, e apoiou a Baraque para que vencesse a batalha contra os midianitas – sobre isso ela fez uma canção que termina com uma declaração que tem inspirado mulheres e homens pelos séculos (4.4-15; 5.1-31): “Porém os que te amam brilham como o sol quando se levanta no seu esplendor”.

Na Bíblia toda, histórias de mulheres ativas e atuantes vêm à mente: as jovens Ruth e Esther, as maduras Abigail e Hulda, do Antigo Testamento. No Novo Testamento, Maria, mãe de Jesus, as idosas Isabel e Ana (Lc 2.36-38), a sogra de Pedro (que imediatamente depois de ser curada por Jesus, levantou e passou a servir seus discípulos), a viúva em Naim (cujo filho e único arrimo morreu e foi restituído à vida), a pecadora que ungiu os pés de Jesus, Maria Madalena, Joana mulher do procurador de Herodes, Suzana “e muitas outras as quais lhe prestavam assistência com seus bens” (Lc 8.2-3). Temos histórias verdadeiras que exemplificam a vida de cada mulher, quer elas tenham conhecido a Jesus Cristo naquele tempo em que ele andava sobre a terra quer depois nos mais de dois mil anos em que seu povo tem vivido e sobrevivido na luta pela fé. Hoje em dia, quando nós mulheres somos assediadas por todo lado por práticas impiedosas, filosofias escravizadoras, e ventos contrários a toda piedade, o que podemos ser e fazer como mulheres cristãs vividas, que muitas vezes sentimo-nos derrotadas pelas dificuldades da vida, dos relacionamentos quebrados e daqueles firmados que ainda nos afligem depois de 20, 30, 40 anos que pensávamos teriam sido resolvidos?

Primeiro, ser. Deus, o grande Eu Sou, nos ensina que a razão de nossa existência é sermos dele, viver no seu temor. Muitas mulheres se preocupam com o que fazer para conhecer a Deus – mas Ele diz que não podemos fazer nada enquanto não formos salvos por sua graça renovadora. “Pela graça sois salvos, mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus, não por obras, para que ninguém se glorie”(Ef 2.8). Ser de Deus significa, ainda, ser parte de sua família, ser adotada por ele e, por Cristo, tornada herdeira de toda sorte de bênção celeste e terrena – isto é o que sou como crente em Cristo.

Segundo, onde e o que fazer. Aos Coríntios, Paulo escreveu que “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo!” (1Co 5.17). Você pode ser taxada de velha, sentir-se velha, ver-se no espelho como tendo já acabado os seus dias mais viçosos e belos – mas está vivendo em novidade de vida (Rm 6.7; Rm 7.6). Ainda na velhice dará frutos – como Sara, Dorcas, Priscila, Loide, e Eunice.

Quando Paulo escreveu a Timóteo, lembrando das suas lágrimas, ele recorda “tua fé sem fingimento, a mesma que primeiramente habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti” (2Tm 1.4-5). Na sua primeira epístola ao jovem pastor Timóteo, ele já ressaltara o desejo que todos vivessem “sem ira e sem animosidade” (1Tm 2.8) para falar especificamente então às mulheres: 
em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio de mulheres que professam ser piedosas). A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio ... será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso (1Tm 2.9-15).
Quando falou especificamente aos diáconos, ele disse: “Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo (3.11). Os pastores, quando exortassem, deviam tratar 
as mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza. Honra as viúvas verdadeiramente viúvas... aquela que não tem amparo espera em Deus e persevera em súplicas e orações noite e dia,,, tenha sido esposa de um só marido, seja recomendada pelo testemunho de boas obras filhos, exercitado hospitalidade, lavado os pés aos santos, socorrido a atribulados, se viveu na prática zelosa de toda boa obra (1Tm 5.2-10).
Hoje, existe muita gente que quer descartar as palavras paulinas sobre as mulheres porque acham que, antiquadas, desprezam o valor da mulher – mas quando vemos todo o ministério do apóstolo, observamos o valor que ele dava a mulheres como Priscila, Lídia, Febe, Drusila, Trifena Trifosa, Perside, Julia, Olimpas e uma imensa lista de nomes de mulheres intercaladas com os homens que fizeram parte de sua vida. Entendemos, então, que a ordem de “aprender em silêncio” faz parte do bom senso de não sermos precipitadas no falar, de ouvir antes de comentar – sem jamais usurpar o lugar de outro, homem ou mesmo mulher. 

Não dá, neste pequeno escrito, para comentar com profundidade as perguntas que pipocam – quero somente enfatizar que as mulheres cristãs, de crianças e jovens até maduras e beirando a velhice – têm o privilégio e a responsabilidade de viver a fé que Deus nos deu em Jesus, com amor, dignidade e boas obras. Nossa cabeça tem de estar cheia das palavras de Cristo; nossa boca jamais frívola ou maldizente, mas sempre louvando a Deus e proferindo o bem para nosso semelhante; nossas mãos prontas para toda boa obra, nossos pés caminhando, correndo, quem sabe tropeçando – rumo à Cidade Celestial. 

Amo ver meninas que crescem em sabedoria e no conhecimento de Deus, moças, senhoras esposas e mães jovens – pessoas maduras de toda idade, crescendo na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2Pe 3.18). Qualquer uma e todas nós podemos fazer isso, porque Ele é quem nos salvou, santifica, fortifica e em fim, nos glorificará. Sou grata por ser uma mulher comum que recebeu Jesus como Salvador quando eu tinha apenas quatro anos de idade, tenho vivido com ele desde a mocidade até meus dias de grisalha idade, e continuarei a louvá-lo por toda a eternidade. Este é um desafio a todas nós.

Elizabeth Gomes 

sábado, janeiro 13, 2018

SEGUNDA CHANCE



Algum tempo atrás, um membro da igreja comunicou que não participaria mais de nossa comunidade porque tínhamos oficiais da igreja que haviam divorciado e estavam em seu segundo casamento. Sentimos a perda desse irmão valioso, mas não poderíamos rejeitar as pessoas que estavam vivendo a vida cristã no lar com fidelidade em uma segunda oportunidade, e faziam parte da família da fé. Alguém, querendo dar “justificativa para o casal de ex-divorciados, afirmou: “Mas ele foi a parte inocente, portanto a Bíblia permite um novo casamento”.

Não sei se era ele parte inocente ou culpada de um casamento falido trinta anos atrás. Na verdade, todos nós somos pecadores culpados diante de Deus, e nos delicados relacionamentos entre homens e mulheres, não estamos isentos – nenhum de nós – de pecado contra a integridade do casamento que foi feito diante de Deus, com enormes consequências que ferem o indivíduo, o casal, a família, e todo o corpo de Cristo. 

Quanto a pecados passados que foram perdoados na cruz de Cristo, há dois aspectos a se ter em mente: 
1) Os injustos não herdarão o reino de Deus (onde habita a justiça de Cristo); contudo, depois de uma longa e feia lista de pecados que impedem a herança no reino Paulo diz reafirma que a redenção é completa: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo w no Espírito do nosso Deus”(I Co 6.9-11).
2) Deus apaga nossas transgressões! Quando o profeta lembra a salvação do Senhor Deus para Israel, ele os exorta a se lembrarem da história passada, desde a mais remota (antes que houvesse dia, Is 43.14) passando pela história mais próxima (Babilônia, caldeus Is 43.14-17) para dizer que “não lembreis das coisas passadas, nem considerais as antigas” – Is 43.18) porque “Eis que faço coisa nova... ao povo que formei para mim, para celebrar o meu louvor” (Is 43.21). Isso, apesar dos “contudos”... (v 22-24) pelos quais “me deste trabalho com os teus pecados e me cansaste com as tuas iniquidades”. Por que? Porque “Eu, eu mesmo sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim e dos teus pecados não me lembro”! (Is 43.25).

Um estudioso da Bíblia pode argumentar que o texto de Isaías fale da situação de Israel diagnosticada pelo profeta lá pelos anos de 686-650 AC. Afirmamos a interpretação histórica literal – mas cremos que, além dela, toda a Bíblia é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16)—portanto, se aplica a nossa vida de cada dia, aos dias de hoje, às situações complicadas que deparamos no passado e no momento atual. O Deus dos antigos é o mesmo que nos transformou no passado, que está nos transformando no presente, e nos transformará futuramente para a eternidade. “Se alguém está em Cristo, é nova criatura...” (2 Co 5.17).

Uma irmã em Cristo casou e, depois, descobriu que seu marido era homossexual. O casamento foi desfeito; ela tem direito de casar-se com outro, no Senhor. Um irmão em Cristo descobriu que sua mulher o traia repetidas vezes. Na loucura da descoberta da traição, ele também cometeu adultério. Arrependeu-se amarga e sinceramente. O divórcio ocorreu, mas, pela misericórdia do Senhor, ele voltou a servir a Deus. Encontrou uma mulher que também amava a Jesus, casaram-se e estão vivendo em novidade de vida. Uma serva de Cristo suportou muito tempo os abusos físicos e a falsidade do marido, mas abriu os olhos para o perigo que corria, e seu casamento foi desfeito para proteger a integridade física dela e dos filhos menores. São muitos os casos em que, pela dureza dos corações, não existe outra solução prática senão o divórcio. Falando sobre casamento de alguém que se converteu e o cônjuge rejeita a vida nova, o apóstolo Paulo diz: “Mas se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz” (1Co 7.15).

O assunto é longo e complicado, e eu não tenho meios para determinar o que outras pessoas devam fazer em circunstâncias em que eu não me encontrei, senão o conhecimento da Palavra, pelo Espírito. Pastores conselheiros e advogados cristãos têm autoridade para aconselhar sobre aspecto eclesiásticos e legais. O que quero lembrar, neste curto e limitado blog, é que Deus nos oferece “segundas chances” – oportunidades de mudar o rumo da vida, mesmo depois que a destroçamos e temos dificuldade de juntar os cacos para refazê-la.

Deus deu uma segunda chance a seu discípulo outrora falastrão, que negou o Mestre a quem dissera “ainda que todos se escandalizem, eu jamais...” (Mc 14.29) e “ainda que eu morra, de nenhum modo e negarei” (Mt 26.35) três vezes na hora do maior sofrimento possível. Depois da ressurreição de Jesus, esse grande pescador recebeu outra incumbência: “apascenta meus cordeirinhos... pastoreia as minhas ovelhas... apascenta meu rebanho” (João 21.15-20). Após a ascensão de Jesus, Pedro passou a ser, com a escolha de Matias, um líder-servo que transformou a sociedade em que vivia, desde o poderoso discurso do dia de Pentecostes (At 2.14-36) até suas cartas cheias de amor e sua morte como mártir. Por exemplo, no segundo discurso, no pórtico de Salomão (At 3.11-26) Pedro continuou pregando arrependimento e mudança de vida, e quando ordenado calar a boca, o agora destemido servo disse: “Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos”(At 4.20). O apóstolo Pedro é um grande exemplo de homem que, tendo uma segunda chance, usou-a para a glória de Deus. 

Voltando ao tema da “segunda chance” na questão de casamento, divórcio e novo casamento, Deus dá a seus filhos que vivem a “fé arrependida” oportunidades para demonstrar a sua graça em maneiras que nem olhos viram. Para isso, a sabedoria bíblica indica que a pessoa tem de ser “obreiro aprovado, que maneja bem palavra da verdade” (2Tm 2.15) e que, para essa aprovação, deve haver “prova de que em tudo sois obedientes” (2 Co 2.9) “para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não ignoramos seus desígnios” (2 Co 2.11).[Estes dois últimos textos se referem à atitude da igreja para com um irmão que havia cometido pecado muito sério, foi disciplinado, se arrependeu, e foi restaurado à comunhão]. 

Um casal que tenha recebido uma “segunda chance” não poderá, de imediato, ser responsável pela liderança de ministérios de casais, assim como o pastor que esteve caído nessa área e hoje é restaurado não deverá ser imediatamente conselheiro de casais. Isso seria como colocar um ex-pedófilo para liderar o ministério com crianças, ou um homem que espancava a esposa para cuidar de uma casa para mulheres que sofreram abuso! O princípio de ser provado e aprovado implica também o de “não impor precipitadamente as mãos”. Deve haver sabedoria e bom senso para permitir que os que já tiveram problemas em determinada não dêem oportunidade ao diabo! Contudo, a redenção é completa e a restauração plena será sempre possível – é o caso de Paulo, o perseguidor, chamado para ser apóstolo.

Depois que adulterou e causou a morte do marido de Bateseba, Davi teve profundo arrependimento e confessou seu pecado (Sl 51.1-19). Pediu ao Senhor que restaurasse a alegria da sua salvação e o sustentasse com espírito voluntário. Disse: “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos...”— suas experiências negativas passaram a ser usadas para ajudar outros ao arrependimento – mas não possibilitaram que construísse, ele mesmo, o templo! 

Sou grata a Deus que me deu segundas (terceiras e muitas mais!) chances na vida, ainda que a questão de divórcio nunca tenha entrado em nossa própria experiência. Sou grata a Deus por irmãs e irmãos que experimentaram muitos dissabores e dores insuportáveis na vida, e depois de consertar as situações, restauraram a vida e passaram a servir a Deus com integridade. Deus é Mestre Supremo em tomar vidas esfaceladas, dilaceradas, e torná-las inteiras. Com humildade, acate as segundas oportunidades que Deus oferece – vivendo em novidade de vida, usando as experiências negativas para tomar cuidado para, estando em pé, não cair!

Elizabeth Gomes

sábado, dezembro 02, 2017

À LEI, AO DIREITO, À JUSTIÇA, À GRAÇA!




Antes, o menino era pego com o dedo no nariz e, pronto, tirava os olhos da menina e punha-o debaixo da cadeira juntamente com outras vergonhas. Hoje, é possível que ele mostre a caca. Antes, caráter e clareza eram esteios da vida de um casal; se uma falta de caráter levava o marido a mentir sobre o motivo do atraso, por respeito aos sentimentos da esposa, ela sofria, mas relevava. Hoje, ela já não liga para a mentira nem para onde ele esteve nem para o atraso. O que é que está havendo com a gente?
                Qualquer um que tenha um pouco de clareza mental desconfia, até mesmo, dos motivos por trás da maioria das propagandas da TV e da net. Claro que deve haver algum grau de honestidade no meio do ruído do comércio, mas a regra é desconfiar primeiro. Você acredita na ocular miraculosa que bate todas as lentes mais acreditadas? Nas notícias que não adiantam a que vêm e querem que você clique e pague pra ver? No conhecimento e sabedoria de cabos eleitorais bolsonaros ou lulistas ou de revolucionários ameaçando intervenções destras e canhotas?
                A coisa ainda fica mais pesada quando precisamos falar que nem todo político é safado a fim de dizer que a política governamental está safada. O certo é que, “se gritar: pega ladrão! não fica um, meu irmão” – nem mesmo quem cantou o verso. Quem não está com a espada no pescoço por ter sido pego com dinheiro na mala ou na cueca, também não aprova projetos que promovam lavagem a jato das coisas morais e éticas. Na área da justiça e do direito, o bicho pega feio. O que é que um ministro da injustiça tem que consegue fazer e acontecer?
                E nós, onde ficamos? De acordo com a Palavra de Deus: A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós, o corar de vergonha ... a nós pertence o corar de vergonha, aos nossos reis, aos nossos príncipes e aos nossos pais, porque temos pecado contra ti (Dn 9.7-8). É isso aí, envergonhados da nossa falha de caráter e de clareza espiritual, que nos levam a esperar em redenções morais políticas, que não procedem de toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3). É por causa de nossas ações erradas ou de nossas omissões suspeitas que o mundo não reconhece o direito e a justiça do evangelho que a igreja deveria pregar e viver. Deveríamos ser exemplos de caráter santo e de desempenho social amoroso. Ou, no mínimo, deveríamos estar sob perseguição.
Tenho pedido a Deus que levante pessoas estudiosas do direito para ensinar e motivar as nossas igrejas a cumprirem a parte da missão de Deus que trata da cidadania (cf. O Sermão do Monte, Mt caps. 5 a 7). Poucos são os advogados, nas igrejas brasileiras, que conhecem os fundamentos bíblicos da lei e da justiça aplicados ao direito exercido em nossa terra. Isso se dá, em parte, por causa da quase ausência de boa literatura a esse respeito. Há algumas publicações recentes, mas muito do que existe, são tentativas de práticas jurídicas ou justificativas de opiniões de um e outro dos grandes sistemas do direito “secular”, utilizando textos bíblicos isolados.
A Bíblia, sem sombra de dúvida, é um livro de lei, de justiça, de direito privado e público, e daí em diante — tratando todos esses sub-itens a partir de um ponto de vista teológico. Será bom lembrar que muitos dos reformadores eram acadêmicos de direito, entre eles Lutero e Calvino. De passagem, menciono os muitos escritos de Kuyper e de Dooyeveerd, os quais serão indispensáveis ao pesquisador. Além desses, entre outros de igual importância, há livros que mostram aspectos práticos do direito bíblico: Law and the Bible, Eds. Robert Cochram Jr and David VanDrunen (www.IVPress.com/books), The Ten Commandments, Thomas Watson (1692, diversas editoras); The Ten Commandments: Manual for the Christian Life, de J. Douma (P&R Publishing); A lei da perfeita liberdade, Michael Horton (Editora Cultura Cristã, 2000), e daí em diante.
O que segue é uma tentativa de provocar um gosto pelo estudo do assunto e pela educação das nossas igrejas no exercício de nossa dupla cidadania celestial e terreal.
Aprecio muito os livros seminais. Não livros simplistas, mas sementes férteis que plantadas em solo arroteado e bom, crescem a cem, a mil por dez. Como disse David Powlison, não se trata da simplicidade aquém, mas além da complexidade. O The Law, de Frédéric Bastiat, é um desse livros (Auburn, AL, USA: Ludwig von Mises Institute, 1850; 145 pp). Já nas últimas cinquenta páginas, Bastiat repete perguntas e respostas que procurou levantar na mente do leitor: “O que é a lei? O que ela deveria ser? Onde, de fato, termina a prerrogativa do legislador?” A sua resposta é pronta: “A lei é a força comum organizada para prevenir a injustiça – em suma, Lei é Justiça” (p. 115).
Se o leitor for criativo, lembrar-se-á de que a lei escrita na Palavra de Deus foi dada para servir de consciência ao homem decaído de seu estado original. A questão é que, antes do pecado, nossos primeiros pais acatavam a lei preveniente e evidente na criação. Depois da Queda, sem o temor de Deus no coração e diante dos olhos, veio a lei de Deus a fim de calar qualquer justificativa humana e colocar a todos sob condenação – as obras da lei a ninguém justificam, antes, fornecem a consciência do pecado. 
A obra redentiva da lei apontou e sempre aponta para o Redentor, o Filho de Deus que no devido tempo se encarnou para cumprir a lei fazendo-se justiça em nosso lugar. Toda a humanidade está sob o juízo da lei de Deus, quer pessoas regeneradas quer naturais, mostrando “a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Rm 2,15; cf. 2.11-14; 3.18-22; 1Co 1.30).
A missão da lei dos homens, como diz Bastiat, não é a de “regular nossas consciências, nossa vontade, nossa educação, nossos sentimentos, nossos trabalhos, nossos intercâmbios, nossos dons, e nossas diversões” (p. 116). Essa é a função da lei de Deus, na Palavra escrita e no testemunho interno do Espírito, assegurando ao regenerado a justiça de Cristo e suas bênçãos, e ao não regenerado, a consciência e a final consequência do pecado. Em relação à humanidade em geral, a missão da lei humana é a de “prevenir que os direitos de uma pessoa, acima descritos, sofram interferência por parte de outras”.
A lei garante tais direitos por meio do exercício de sua força, isto é a justiça. “Como cada indivíduo tem o direito ao recurso dessa força somente em caso de defesa pessoal, assim também a força coletiva, a qual é a união de forças individuais, não pode ser racionalmente usada para qualquer outro fim” (p. 116). A lei somente será justa se for a organização dos direitos individuais que existirem diante da lei. Pois a lei é justiça. Daí, Bastiat depreende o que deveria estar em nosso coração e evidente aos nossos olhos: se a lei for usada para oprimir o povo seja por meio do controle da consciência do indivíduo (em termos de sua linguagem, educação, associações e identidade social, de gênero etc.) seja por meio do despojo de sua propriedade, mesmo com alegada motivação filantrópica – nesses casos a justiça deverá ser reclamada por parte de uma união de forças individuais.
O ideal de justiça, diz Bastiat, não “pode ser mais claro e mais simples, mais perfeitamente definido e unido, ou mais visível a cada olho; pois justiça é uma dada quantidade, imutável e constante, que não admite aumento ou diminuição.” Ideal, eu digo, porque a justiça não existirá em um mundo decaído, sendo atingida única e exclusivamente em Cristo por meio da ação do seu Espírito. “A partir daí, faça a lei humana ser algo religioso, fraternal, equalizador, industrial, literário, ou artístico, e você estará sobre terreno desconhecido, uma utopia forçada, ou, pior, uma multidão de utopias em contendas para obter a posse da lei a fim de impor [sua versão de justiça] sobre” o indivíduo.
Como é que poderemos impor limites à consciência? Mudar identidade de gênero? Fornecer educação igualitária a pessoas com diferentes dons e motivos? Administrar o labor criativo e recompensador? Como operar justiça a uns sem fazer injustiça a outros? Pessoalmente, sei que a perfeição não existirá aqui e agora. O mundo jaz no maligno e seus caminhos são tenebrosos e mortais. Há, entretanto, uma esperança baseada na promessa divina. Deus concedeu os Dez Mandamentos a um povo que, ainda que carente da habitação do Espírito, tinha a promessa dessa graça para a própria política como povo organizado e para o cumprimento de sua missão política externa.
Ninguém jamais cumpriu a Lei senão o Filho do Homem, Jesus. Ele é a nossa justiça. Assim, o indivíduo regenerado, enxertado na Videira, recebe dele a vocação e os dons para a própria vida e para a missão de Deus no mundo. Em uma aplicação bem prática, o apóstolo Paulo discorre sobre como, individualmente, ele lidou com os seus valores e motivos internos, e com suas posses externas, à luz do conhecimento e da comunhão com Cristo:
Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo.
Estas palavras, Paulo escreveu a uma igreja, falando sobre a vida dos membros na unidade da fé e sobre a missão da igreja no mundo. Ele continua:
E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé; para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte; para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos.
Sua motivação não era mais uma de reivindicação de direitos, mas de cessão dos próprios direitos em função das virtudes de Cristo a serem vividas e proclamadas. É assim que Paulo, considerando as fraquezas humanas e os poderes de Cristo, convoca-nos e anima-nos a viver do mesmo modo:
Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará. Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo (Fp 3.7-16).

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, novembro 17, 2017

CONSIDERAÇÕES SOBRE PEDRAS ESCANDALOSAS



Celebramos os quinhentos anos desde que Lutero postou suas Noventa e Cinco Teses à porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha, protestando contra os erros e abusos da igreja medieval. O ato produziu a maior transformação religiosa e filosófica da cristandade desde quando a igreja começou nos dias de Jesus e de seus Apóstolos. Estamos alegres e corretos ao celebrar e pertencer a um povo que retornou ao conhecimento e a prática das Escrituras. Temos justo orgulho de nossa história protestante.
Mês passado, meu filho esteve em Wittenberg, junto com pensadores reformados do mundo inteiro, para celebrar e firmar sua cosmovisão reformada. Contou-me, porém, algo de que eu tinha ouvido falar remotamente, e que muito me perturbou. Em meio aos festejos da cidade e do mundo, um homem solitário portava uma placa perguntando por que Lutero não se arrependeu nem levou o povo da igreja ao arrependimento pelo antissemitismo que difundiram, simbolizado pela escultura em pedra de um baixo relevo obsceno e infame da “Judensau”, a figura de uma porca em que os judeus eram os leitões que nela mamavam.
Como cristã que ama a Bíblia e, por conseguinte, ama o povo de quem veio Jesus e as Escrituras, fiquei chocada. Sabia que o antissemitismo existe desde quando Deus chamou Abraão para sair de sua terra e formar o seu povo, quando prometeu que abençoaria todos que o abençoassem. Ao longo da história sempre houve faraós, amalequitas e amorreus, hamãs e sambalás, assírios e babilônicos e persas, antíocos e herodes e neros e inquisições nas católicas Espanha e Portugal, pograms na Russia e Polônia, a destruição por islâmicos e o horrendo nazismo que antecedeu, fez parte e ainda tem seguidores por todo o mundo “civilizado”.
Quem lê a historia do mundo não pode ignorar a insidiosa existência do antissemitismo. Permanecem em nossa língua expressões preconceituosas como “judiar” como sinônimo de maltratar, (só que as vítimas da judiação eram os judeus, e não aqueles que judiavam deles) ainda que a colonização do Brasil tivesse sido realizada por muitos “novos cristãos” (judeus forçados a se “converter” para não morrer na fogueira). A primeira sinagoga na América foi em Recife, permitida durante a permanência protestante holandesa no Brasil. Quando os holandeses foram expulsos do Brasil, Mauricio de Nassau foi para a América do Norte e fundou Nova York (onde hoje em dia existem mais judeus do que no Estado de Israel). Temos indícios de que o Imperador Dom Pedro II amava o povo judeu, conhecesse profundamente a língua hebraica, e garantisse liberdade de culto a imigrantes judeus. O Brasil, que em 1948 aprovou a fundação do moderno Estado de Israel, até a pouco tempo apoiou e financiou o terrorismo palestino e do Estado Islâmico. Não obstante, voltemos a Lutero.
 Lutero transformou o culto, o estudo da Palavra de Deus, o casamento e a família, a educação, a música na igreja e fora dela, a política na Alemanha – e isso se estendeu por toda a Europa. A luz raiou sobre o mundo conhecido, com a aurora da Reforma. Lutero era conhecedor do Antigo e Novo Testamento (e deu a primeira Bíblia em língua alemã, aprimorando a própria língua alemã moderna), o hebraico como também o grego. Ele argumentava que se os judeus fossem tratados com bondade e ensinados corretamente as Sagradas Escrituras — Antigo e Novo Testamentos — então “muitos deles se tornariam verdadeiros cristãos e retornariam à fé de seus pais, os profetas e os patriarcas.” Quando os judeus se convertem ao cristianismo, Lutero disse, “eles se tornam nossos irmãos e irmãs em Cristo. Porém, poucos judeus se tornam cristãos.” Essa atitude anterior de Lutero, de maior aceitação dos judeus, virou irada rejeição, não por judeus serem judeus, mas por não serem cristãos. Em 1543, Lutero publicou Os judeus e as suas mentiras, no qual instava com os líderes alemães a “afugentar todos os judeus de suas terras.” Este era “um juízo imperdoavelmente severo” para alguém que tivesse demonstrado tanto amor pelo povo de Israel em seu trabalho como estudioso do Antigo Testamento” (David B. Calhoun, “Fiel até o final,” em Sproul e Nichols, editores, O legado de Lutero, S. José dos Campos: Editora Fiel, 2017. Pior, apesar de pastorear por dezessete anos a igreja de Wittenberg e conseguir nela inúmeras conversões e transformações, Lutero nunca tentou tirar a “Judensau” de seus símbolos. Pelo contrário, muitas eram as indicações de que nunca procurou eliminar o antissemitismo da sua congregação ou seu povo – talvez por ele mesmo ser cego quanto a seriedade deste pecado contra Deus.
            Lutero é prova visível que grandes homens e mulheres de Deus, que fizeram grandes coisas para a humanidade, não estão isentos de cometer grandes pecados. Temos exemplos clássicos em Abraão, Gideão, Saul, Davi, Salomão, e em nossos irmãos em Cristo, Pedro, Paulo, e Tomé. O fato que fizeram grandes coisas não diminui a seriedade nem as consequências dos seus imensos pecados. O homem segundo o coração de Deus adulterou e mandou matar seu capitão; o homem mais sábio sobre a terra perdeu seu impacto por sua poligamia desenfreada e idólatra; o iniciador da transformação do mundo por meio da Reforma foi omisso, se não pessoalmente responsável pelo problema dos maus tratos do povo de Deus.
Essa triste história do “Judensau” lembra outros relatos perturbadores de pecados de grandes homens de Deus nos dias de hoje. Não me refiro a coisas banais como os charutos de C. S. Lewis e de Charles Spurgeon, ou a posição legalista implacável de Charles Ryrie com respeito ao divórcio até ele mesmo ferir seu casamento, divorciar-se e casar com outra. Usos e costumes não são motivos para divisões na igreja. Mas crassas falhas de caráter deviam ser vistas e tratadas com seriedade. Em nossos anos de aconselhamento bíblico, temos visto inúmeras pessoas adultas que foram permanentemente machucadas por abuso sexual ocorrido ainda na infância. Pior que muitas dessas pessoas que sofreram abuso foram feridas por “homens de Deus”— avós, pais, tios, irmãos, padrastos, professores. pastores – gente em quem confiavam, que representavam a igreja e a fé e a família Deus, fizeram não apenas efígies de “Judensauen”, mas eles mesmos arrancaram a ingenuidade ou inocência de gente criada à imagem de Deus.
Percebi recentemente em postagem no facebook que uma amiga está profundamente zangada com os atos e atitudes de um pastor do seu conhecimento. Porque esse homem “reformado” agiu satanicamente, ela se voltou para um cristianismo vazio, de sensações, e que ignora a ação das Escrituras na totalidade da vida. Muitas vezes, feridas como essa, que contaminam todos os aspectos da vida, começam com algum tipo de abuso – alguém que usou da “autoridade” para dessacrar e ferir o brio de uma pessoa vulnerável.  É como a existência de um baixo relevo de Judensau entre as pedras construindo a igreja. Jesus fez advertência muito séria quanto a essas coisas:
Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar (Mt 18.6).

Seja ela a existência de uma pedra com desenho obsceno de porca amamentando judeus na construção de uma grande igreja histórica, seja na pedra de moinho a que Jesus referiu (Mc 9.42) logo antes de falar dos escândalos:

Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!  Portanto, se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.  Se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo (Mt 18.7-9).

Jesus falava aos escribas e fariseus:
Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos.Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó” (Mt 21.41-44).

Pouco depois disso, lamentou sobre Jerusalém lembrando que ali não ficaria pedra sobre pedra (Mt 24.2). Depois da ressurreição e ascensão de Jesus, Pedro, que havia traído covardemente o Mestre, se encheu de coragem e pregou sobre a pedra – que não era Pedro – era Cristo:

Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular.  E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos (Atos 4.11-12).  

Paulo também via a pedra fundamental da fé:
Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor,  no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Ef 2.20 – 3.1)

Pedro teve esta visão por todo seu ministério:
“também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado.  Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular   e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos (1 Pe 2.5-8).  

Não quero ser pedra de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a igreja de Deus (1Co 10.32)! Quero me firmar na Pedra Viva, na Rocha Eterna, e eu mesmo ser como pedra viva na edificação do corpo de Cristo – jamais pedra no sapato nem pedra de tropeço na história do povo de Deus. “Tirai os tropeços do caminho do meu povo,” diz nosso Deus (Isaías 57.14).
  
Que aprendamos com Jesus, e nos arrependamos de quaisquer pecados que causem nossos irmãos a tropeçar!


Elizabeth Gomes

quinta-feira, outubro 26, 2017

NAVEGANDO NA REALIDADE DOS SONHOS


Amo minha casa e sou caseira assumida de sala e quarto, forno e fogão, jardim e horta, varanda repleta de gente amiga e de cadeira de preguiça ao sol com bom livro na mão. Também gosto de sair e bater perna para perto e para longe – eu aproveitava cada convite que Wadislau tinha para pregar ou ensinar, e acompanhava-0 segundo o exemplo da mulher de Pedro. Agora, com a miastenia gravis que acomenet o9 meu marido (diagnosticada há mais de quatro anos), as apreciadas viagens ao Norte, Sul, Leste e Oeste do Brasil, a  cada três ou quatro anos para visitar filha e netos nos Estados Unidos, ou compartilhar em teologia prática o amor de Deus onde quer que for têm sido escassas quando não impossíveis. Nem me fale em enfrentar uma viagem à Terra do Sol Nascente, onde nosso filho caçula e a família querida estão estabelecidos para a glória do Deus a quem servem! A ideia de trinta e seis horas de voo antes mesmo de chegar ao destino atualmente não é viável.

Mais uma hospitalização de meu marido tornava esdrúxula idéia de viajar. Alguém sugeriu e tornou possível a opção de fazer um cruzeiro. Ontem mesmo vi uma postagem de um irmão criticando pastores que dirigem carros importados e fazem viagens caras como desperdício pecaminoso dos recursos que Deus dá, e imaginei que, se ele visse nosso roteiro sonhado, nos colocaria no topo da lista de grandes pecadores. Mas Deus nos deu este presente – portanto, voltemos ao cruzeiro. Seria uma forma de viajar sem estresse, com médico e hospital a bordo, descendo nos portos quando possível, descansando na cabine quando Deus diz “pára um pouco” para respirar. Conhecer um pouco da história da civilização ocidental, um cantinho do Mediterrâneo, relembrar do Deus a quem servimos a graça sem par que encherá toda a terra “como as águas cobrem o mar” – talvez seja a primeira e última grande viagem que faremos deste lado da eternidade.

 Talvez ainda dê para visitar Israel, Egito, Turquia, Armênia, Grécia e o lado oriental onde nasceu nossa fé, ou o extremo oriente onde estão nossos queridos no país menos evangelizado do mundo e dar um pulo num dos mais cristianizados (Coréia) e, como no sonho de Hudson Taylor, de população convertida mesmo sob domínio materialista, ou ainda em exóticas terras onde temos irmãos servindo a Cristo na Tailândia, no Camboja, na Indonésia e nas grandes ilhas do primeiro mundo da Austrália, Nova Zelândia e tantos outros. Eu “toparia” viajar pela Europa toda para apreciar as belezas em que antepassados há muitos séculos lutavam e conviviam. Mas não dá. 

Temos de restringir o sonho à realidade possível, e o Deus do impossível nos possibilitou um “giro” europeu de Lisboa a Barcelona, Marsela, Gênova, Málaga até o norte da África em Casablanca antes de retornar ao porto lusitano no Atlântico jungido ao Tejo. Cada lugar um ponto, uma ponta, de um país de “muito mais”! Experimentamos cozinhas autênticas com bacalhau, pato assado e pastéis de Belém, uma paella inesquecível em Barcelona e em Málaga tapas e um prato de jamon com ervas. Em Marsela, onde Lau não agüentou fazer turismo, fui caminhar sozinha e sentir aromas de Buillabesse, de lavanda e flores de Provence, ao andar de tram e à pé pelas vielas de lojas de moda internacional e de todo tipo de especiarias antigas do Saladin. Andei como nunca! Ah Gênova – la bela Italia onde tomamos capuccino numa pâtisserie diante da catedral de San Paolo , fomos a mirantes mirabolantes ver simultaneamente sonhos medievais e modernos, e eu trouxe do quintal da casa de Cristóvão Colombo uma azeitona madura cuja semente vou plantar para ver se germina aqui no Refúgio de Mogi das Cruzes. 

Havia no Magnifica quase três mil passageiros servidos por uns mil tripulantes. Ouviam-se línguas estranhas e familiares, e alternávamos automaticamente entre inglês, português, italiano e espanhol, alemão e mistureba internacional nos corredores, elevadores e escadas, nas entradas e saídas dos restaurantes e lojas, bares e butiques, teatro e hospital. Algumas famílias jovens com miúdos e bebés, falando árabe, inglês, italiano e finlandês, croata e francês, e uns dez a quinze por cento de profissionais liberais e comerciantes bem-sucedidos. Centenas de passageiros eram, como nós, de terceira idade, aproveitando os anos de reformados (no sentido lusitano de aposentados) porque navegar é preciso. Uma fila para desembarque me lembrava cena do filme Cocoon com gente velha gesticulando, claudicando, caminhando avidamente para locais onde encontrariam (ou não) fonte da juventude. O navio tinha múltiplas atrações que não nos atraíam – lojas de produtos de luxo, SPA com mil ofertas de embelezamento, piscinas e cassinos e jogos de todo tipo. Toda noite havia apresentações musicais de canto e instrumentos ao vivo, show no teatro, com teatro, canto, orquestra, danças e malabarismos dignos de cirque de soleil – podia divertir-se até morrer, se assim quisesse – e me deleitei quase diariamente com o talento de toda espécie de artistas antes desconhecidos.

Em sua maior parte, o mar estava tranqüilo, exceto uns dois dias quando o balanço nos fazia perguntar se estávamos tontos por bebedeira (sem termos ingerido nada alcoólico) ou prestes a sofrer um AVC. Lembrei-me do apóstolo Paulo, que naufragou no mar Adriático (uma extensão do Mediterrâneo a oeste da Grécia e leste da Itália, beirando a Albânia, Croácia e Macedônia) a caminho de Roma, antes de chegar a Siracusa, e foi parar na ilha de Malta, entre bárbaros e serpentes venenosas – onde foi regiamente hospedado pelo homem principal da ilha e trouxe-lhe as novas de Jesus Cristo. Mas animei-me ao ver pela sacada de nossos aposentos que o prateado mar se aquietou e nossa aventura não chegaria a tais extremos.

As refeições se davam principalmente em dois dos restaurantes do navio, um de bufês variados, outro de serviço francês à la carte, exceto quando entrávamos nas cidades onde tivemos refeições inesquecíveis em Barcelona, Málaga e a inigualável Lisboa – e no nosso quarto, serviço japonês quando Lau não agüentou deslocar-se para outro andar. Andar – balançando com as ondas, caminhando entre as multidões, ou sentar – ao lado de pessoas outrora desconhecidas que se tornaram velhas amigas em poucos minutos – faz-me lembrar do banquete de qual participarão pessoas de todas as tribos e nações depois que terminarmos a peregrinação sobre esse planeta azul. Passei a orar por pessoas que nunca antes tive o privilégio de conhecer, a sentir suas dores, seus sofrimentos em meio aos grandes sucessos da vida – e observando rostos, gestos, andares, pensei em como Cristo nos ama e cuida dos detalhes com magnífica maestria e arte eterna que se renova a cada momento.

Não foi uma viagem piegas nem creio que estávamos conscientes de maior presença ou poder de Deus nessa nossa viagem pela costa do Mediterrâneo. Mas lembrei-me da história de outra viagem há quase um século, de navio no Atlântico, “o barco que nem Deus consegue afundar” – o Titanic – cuja orquestra, enquanto afundava, tocava “mais perto quero estar, meu Deus de ti”. Somos testemunhas da bondade e da severidade de Deus, e todos, cada um em seu mundo singular, no mesmo barco, vivemos e respiramos nele. Espero que esta viagem de sonhos me torne um pouco mais piedosa peregrina quando reafirmo: “Ó vem meu Piloto ser!”, sabedora de que, “como as águas cobrem o mar, toda terra há de se encher do amor de Deus e da glória do Senhor como as águas cobrem o mar!” (Hq 2.14.)

Elizabeth Gomes