sexta-feira, novembro 13, 2020

QUANDO UMA PESSOA AMADA INCORRE EM PECADO GRAVE



Penso num assunto há muito tempo, mas demorei para escrever porque temia ser mal compreendida e, assim, começo o artigo com duas afirmativas gerais:

  • Todo mundo é pecador e não existe quem não cometa, cometeu ou cometerá pecados nessa vida sobre a terra.
  • Nenhuma pessoa – cristã ou descrente, criminosa ou caridosa – é melhor do que outra ou merecedora diante do Deus justo e santo. Somos salvos somente pela graça de Jesus e, se condenados, é porque continuamos no pecado em que nascemos.

Entendendo assim, não sou melhor do que a pessoa que observo cair num precipício, e qualquer observação que eu faça quanto ao pecado cometido, não poderei impor juízo ou condenação – somente amor e misericórdia, pois estamos falando de pessoas criadas à imagem de Deus.

Vivemos, porém, num mundo real onde nada vai tão bem. Você e eu já escorregamos em erros tamanhos e, certamente teremos ou iremos presenciar gente que amamos a cometer outros tipos de pecados crassos. Estamos sempre e enfretar o nosso pecado, o pecado contra nós e o pecado de uns contra os outros.

Conto nas duas mãos casos de amigas cristãs que “casaram no Senhor”, cujos maridos, depois de longo ou curto prazo, revelaram-se promíscuos, iracundos, beberrões ou homossexuais praticantes, deturpando o casamento e esmagando os sonhos de viver a verdade em amor “até que a morte os separe”. A carnalidade, em suas muitas formas, separa os relacionamentos mais íntimos, seja ira amargurada seja escolha temporal errada seja impureza moral. Muitas e muitas vezes, outro homem ou outra mulher separa um casal sem que haja arrependimento e perdão.

Certamente, você também conhece pessoas que começaram bem a vida a dois e foram traídas por enganos e adultérios. Deus odeia o divórcio e promove o perdão, mas quando a pessoa é contumaz e não busca reconciliação, Deus permite a separação pela dureza do coração. Deus odeia a mentira e a distorção do matrimônio baseada em enganos. Poderá ser que você tenha sido traído por um cônjuge sem que você tenha sido parte “culpada” (quem há de?). Novamente, volto à afirmativa inicial que ninguém é totalmente inocente e isento de pecado, mas estamos falando de uma pessoa que não traiu o casamento e que está ferida por aquele/a a quem ama e em quem confiava. Ainda ama, embora esteja morrendo de raiva e corroida/o pelo rancor da decepção. Mesmo que filmes, psicologias e todo um mundo secular romantizem “casos de amor” e justifiquem traições, dizendo que tudo vale quando surge novo amor, quem ficou sozinho ficou arrasado e sem rumo.

Outros amigos sofrem as decisões chocantes dos filhos que assumiram transgeneridade, passaram a viver conjugalmente com pessoa do mesmo sexo ou cometeram algum crime contra pessoas vulneráveis. Provavelmente já estavam envolvidos com pornografia virtual ou de outro tipo, mas o “caso” veio a público, envergonhando os familiares e forçando-os a tomar decisões complicadas. Se uma filha ou filho é dependente dos pais e reside com eles, talvez tenham de “mandar embora”—mas como rejeitar aquele que é parte da gente, que nasceu em casa, e expô-lo a ainda perigos piores? Quando o filho é adulto e independente, o relacionamento fraturado ainda é dolorido, mas sabemos que ele terá condições de sobreviver no mundo.

 O que dizer do filho ou irmão tomado por drogas que o tornam alienado e incapaz de manter emprego? E se uma filha faz uma falcatrua financeira que pode levar a punições legais – além de lesar a própria familia?

Temos de fazer diferença entre fraquezas que promovem erros de desempenho, performance – tal como por a perder um emprego, ou tomar decisões amalucadas — e  outros pecados biblicamente condenáveis. Um filho, irmão ou cônjuge que tenha um surto psicológico, certamente precisará de ajuda e apoio dos familiares. O mesmo passa a viver uma loucura de travestiismo e precisará ser confrontado com a Palavra de Deus, não acobertado pelos pais. Claro que todo confronto tem de ser em amor, não enfatizando a “desgraça ou vergonha que causa para nossa família”, e sim, o quanto ferimos ao Deus santo que nos ama e nos salvou. Temos sempre de nos lembrar que “tais fostes alguns de vós, mas vós vos lavastes...”. Cristo morreu por pecadores, “dos quais eu sou o principal”. Ele tira a culpa do pecado, não fazendo de conta que ele não existe, mas porque, morrendo, Jesus expôs nossa culpa sobre a cruz e, ressurgindo, nos justificou, tornando possível uma nova vida. Mas não admitimos que você tenha relações sexuais ilícitas em nossa casa! Recebemos o parente em casa com comida e hospedagem – não seremos coniventes com atitudes ou atos que firam o convívio cristão ou ponham em risco irmãozinhos mais novos.

Tenho conversado com algumas pessoas que sofreram abuso sexual da parte de quem deveria protegê-las – professor, tio, padrasto, pai, avô, amigo da família. Se souber que alguém ligado a você está assediando ou ferindo uma criança, um deficiente mental, ou idoso – alguém vulnerável que não saiba se defender — você  e eu temos de agir, interferir e, se for o caso, denunciar! Não permita que o mal seja perpetuado em sua casa. Pode ser que o infrator seja uma pessoa amada do seu convívio – tem de dar um basta ao mal. Quanto mal a família do rei Davi poderia ter evitado, se tivesse agido e defendido a filha, Tamar, contra a maldade do meio-irmão. As inimizades das gerações futuras poderiam ter sido evitadas com o exercício de bondade, justiça e verdade nos relacionamentos!

Jesus foi acusado de ser amigo de publicanos e prostitutas – mas não aprovou os pecados de apropriação indébita pública ou privada, nem pornéia, fornicação ou adultério de qualquer espécie. Deus ama seu povo chamado de adútero, e permite que ele sofra as consequências do pecado —porém, sempre os chama ao arrependimento e perdão.

Estou impactada por testemunhos de pessoas como Rosária Butterfield, professora norte-americana, que foi feminista lésbica, ganha para Cristo através do amor de uma igreja bastante rígida, disposta a amar até as últimas consequências. Hoje, é esposa de pastor e mãe cristã de muitos. Testemunhos de pessoas que eram sexualmente escravizadas e vendidas internacionalmente, que hoje em Cristo são servos do Senhor e fundaram escolas para ajudar outras vítimas a sair da prostituição também nos enlevam.

Chegamos ao que sugere nosso título: o que fazer quando uma pessoa amada está prestes a cometer ou comete um pecado grave. Temos de nos lembrar que todo pecado é grave, pois afronta a santidade de Deus; contudo, existem pecados “mais escabrosos” quando eles trazem consequências mais sérias à integridade ou sanidade das pessoas. 

Primeiramente, não podemos fazer de conta que não importa tal ato ou atitude, ou que não existam graves consequências. Temos de ser realistas – ver as coisas sérias como são. Durante o início dos anos noventas, trabalhei como casemanager numa organização não governamental para ajudar pessoas com risco de AIDS ou soropositivas. A maioria dos meus clientes na época era homossexual. Antes de trabalhar com essa população, eu ajudava em casos de negligência ou abuso sexual de crianças, tentando proteger os vulneráveis e fornecer aconselhamento aos que facilitavam o erro.  Ajudava gente que tinha estilo de vida totalmente contrário ao que eu, esposa de pastor, propunha. Às vezes o pessoal da SPAL ou do Aids Action Committee, ao saber das minhas convicções cristãs, tachava-me de retrógrada ou preconceituosa. Mas eu sempre respeitava as pessoas como pessoas, sem emitir julgamentos. Eram meus amigos. Essa amizade ia além do emprego. Com o apoio de meu marido, convidamos nossos clientes a jantar em casa. Um deles, José, se converteu, foi batizado,  e veio fazer parte de nossa igreja. Por ignorância, alguns crentes questionavam se nós não estaríamos nos arriscando a “pegar AIDS” recebendo-os como seres humanos benvindos em nosso lar. Eles foram convidados a conhecer Cristo, que liberta da vida devassa que levavam.

Segundo, amar a pessoa não significa ser conivente com o pecado. Recebemos todo e qualquer tipo de gente – mas não admitimos que seus atos abomináveis sejam realizados em nossa casa ou igreja. A pessoa que está no erro poderá não entender isso – poderá até se revoltar contra a verdade que afirmamos da Palavra de Deus, achando que estamos julgando e nos posicionando acima delas. Na verdade, elas já estão julgadas e condenadas, mas não por nós, que também estávamos na mesma situação.

Terceiro, não debochamos da pessoa que assume uma postura pecaminosa nem a rebaixamos ou expomos diante de outras pessoas. Não aceitamos sequer a nossa própria maledicência – cremos no poder transformador de Jesus. Quando falou com a mulher samaritana, Jesus a tratou com dignidade, e com realismo: mandou: “Vai e chama teu marido”, para que ela mesma admitisse que estava entregue a relacionamentos ilícitos consecutivos! (Interressante que essa mulher à margem da sociedade foi a primeira a evangelizar Samaria). Quando Jesus avisou a Zaqueu que jantaria em sua casa, não começou a recriminá-lo pelo que ele fazia, mas fez óbvio que Zaqueu teria de mudar totalmente de vida.

Quarto, nosso relacionamento com o nosso parceiro, filho, parente ou amigo em pecado, tem de ser regado primeiramente com o amor de Deus — o que somente demonstraremos, se estivermos em oração e em dependência do Senhor. Soluções humanistas e humanas não resolvem as armadilhas desumanas e demoníacas em que nossos amados caíram. Nossa luta não é contra carne e sangue – e, pelo sangue de Jesus, Deus transforma o que é impuro e escuso em Noiva resplandecente.

Há sempre a possibilidade de restauração. Deverá haver restituição e mudança! O filho ou filha rebele pode vir a ser servo/a do Senhor. O cônjuge traidor poderá retornar à união do Senhor.

Elizabeth Gomes

domingo, julho 26, 2020

MEUS MONTES DA FALTA DE FÉ E OS MONTES DO SENHOR



Da varanda de casa, os montes da Serra do Mar, em Sabaúna...

— Salmo 121 —

Num desses dias de inverno, eu derramava a minha alma na presença do Senhor — são dias de isolamento dado a atual crise da saúde, e de terrorismo mediático social político-econômico entrincheirados nas armadilhas de uma pandemia engendrada. Lia a Bíblia, como de costume, com ações de graças e petições por mim, pela família imediata e estendida, tanto da carne quanto da fé. Pedia que, se fosse o seu querer, o Pai poupasse o mundo, principalmente o corpo de Cristo, dos males do atual corona vírus e de suas consequências oportunistas, e que abençoasse a igreja a bem do testemunho de nossa fé.

Em nada sou diferente de todos da minha humanidade, sendo igualmente fraco e necessitado em tudo e de muitas coisas. Há, contudo, uma enorme diferença, a qual não procede de mim: Deus concedeu-me o seu conhecimento e regenerou-me por sua Palavra para a viva esperança de refletir a sua glória e usufruí-lo para sempre. Enquanto aguardo que essas coisas sejam completadas, eu as experimento no culto individual e no culto da congregação, com cujos membro compartilho os atos e sentimentos da fé, os mesmos percalços e aflições, as mesmas fraquezas e os mesmas forças advindas da vitória do Senhor. A cada dia, preciso do alimento da Palavra de Deus.

UM SALMO PARA O CAMINHO

Foi assim que tive sobremaneira fortalecidos os afetos do coração, ao considerar o Salmo 121 à luz de outros textos lidos no culto individual. Esse Salmo é tido como um hino processional e tenho para mim que seja uma introdução ao culto público solene, como uma invocação do Pacto divino, e, no caso, um motivo para a minha adoração a sós. É um salmo sobre o clamor existencial da alma e o encontro da consolação no Criador de toda a existência.

Um pouco de leitura, um tanto de confissão e de louvor, um pedido de esclarecimento ao Autor invisível, mais um pouco do texto, um tanto de consulta ao coração, outro tanto de intercessão, e apanhei-me olhando para fora de varanda de casa. Do vale de O Refúgio, o sítio em que moramos, os montes da Serra do Mar, em Sabaúna, paralelos aos da Serra do Itapeti, formavam um quadro quase perfeito para entreter algumas perspectivas das primeiras palavras do Salmo: “Elevo os meus olhos para os montes…”

Poderá ser que o salmista evocasse somente os altos das idolatrias, mas eu acolho a expansão da figura para incluir os demais ambientes da experiência do povo de Deus. Havia ainda os montes das alianças, Sião e Sinai, e outros pontos referenciais da Bíblia. Até esses, se vistos à parte do Pacto figurado, poderiam igualmente provocar falsas esperanças e gerar escravidão em vez da liberdade em Cristo (cf. Gl 4.21-31; 2.4; 5.1). (Lembro-me de que, em visita às terras da promessa bíblica, vi muitas pessoas a pedirem um novo batismo, como se as águas do Jordão tivessem um poder maior do que a do Filho de Deus e do Homem, batizado por João.)

Tais considerações levaram-me a manter um olhar voltado para a situação corrente e outro para interpretação da promessa, sem descuidar do realismo cruel do século e zeloso da graciosa esperança eterna. A vida do ser humano será sempre um culto de adoração quer do Criador quer da criatura, dependente do que advirá louvor ou ira, gratidão ou medo. Assim, prossegui a meditação em humilde adoração.

Em outra pausa da leitura, como as que ressaltam as notas das composições melódicas, fui comovido pelas expressões do texto, e deixei que a mente usufruísse o enlevo. Assegurava-me a Palavra do Senhor de que o Espírito que a inspirou também orientaria os meus olhos, guardaria os pés, o sono ou a vigília, sob sol ou lua, do início ao fim, em todo o tempo.

UM SALMO PARA OS ALTOS E BAIXOS DA VIDA

O que eu via, no entanto, eram os vales das minhas próprias injustiças e os montes das injustiças cometidas contra mim, contra nós, e por outros contra os outros. Eu queria abrir o coração, confessar minha insuficiência, declinar o meu temor e minha ira diante do ódio ideológico professado e praticado num mundo sem Deus, sem fé, sem amor e sem esperança. Governos e povos ímpios se levantam na cidade contra Deus e os seus escolhidos e sequer percebem que a existência lhes escorre como areia entre os dedos. Sentia-me impotente e, assim, com o devido respeito e humilhação, repeti a pergunta do salmista: “de onde me virá o socorro?” De onde obter esperança num mundo que trocou a verdade pela mentira, o amor pela maldade, e em que um novo normal prenuncia tempos difíceis de injustiça e de perseguição?

Ah! Pequeno que sou, sequer me firmo no louvor a Deus pelo lugar que ele me deu. Sei que tanto o lugar onde nasci — Pátria amada, não adorada, mas grata terra de minhas moradas e para o nosso serviço da fé — quanto o pedaço de chão de O Refúgio foram resposta às orações da mocidade. Ingrato, como os que não têm esperança, os pés coxeiam entre maledicências e preferências quanto coisas dos montes da cidade, como diz: “mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho” (Rm 2.15, 15).

Certamente, tudo em minha vida vem do Senhor que me chamou e enviou. Ele “fez os céus e a terra”, fez-nos e ao momento presente para “o louvor da glória de sua graça que ele nos concedeu gratuitamente no Amado” (cf. Ef 1.6). Dele vem o socorro; aliás, dele veio o nosso socorro, Jesus Cristo, o amado do Pai e nosso. Ainda que nos vales de trevas (cf. Sl 23), ele guarda os nossos pés para que não vacilem; ele não dormita nem dorme e faz-nos repousar na paz de sua justificação; cuida dos nossos dias, preservando a nossa alma! Ele guarda a nossa saída e entrada, pois a promessa é que o que começou a boa obra em nós há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus (cf. Fp 1.6).

Ah! A pequenez da minha alma! A esta altura da vida já era para eu ter alcançado lugares mais altos! Já devia confiar mais nas coisas dos altos céus! Rodeado, porém, de tantos montes de incredulidade, tenho sustos e temores, desconfianças pecaminosas as quais ofendem ao Senhor e a minha própria alma! Às vezes, as minhas orações empalidecem e saem murmuradas, roucas: de onde virá o meu socorro, hoje e no último dia? Onde uma certeza de fé? Quem guiará a saída das minhas peregrinações e a minha entrada na volta para casa?

UM SALMO DE LOUVOR E CONFIANÇA NO CRIADOR E REDENTOR

Ah! Mesmo conhecendo as promessas e tendo experimentado inúmeras vezes as suas concretizações, o meu coração ainda se apequena, e eu tenho de clamar: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Mt 9.24). E quando, então, eu me pergunto: quem sou eu para que me visites? — sentindo-me apenas um menino no meio de uma geração incrédula, mesmo que quase velho na idade, a olhar os montes da cidade — o Espírito do Pai e do Filho volve os meu olhos, os pés e a alma para a entrada e a saída, o Alfa e Ômega.

O Espírito, assim, alça os meus olhos para além dos montes — não apenas para os montes deste século nem somente para os montes que testemunharam a história da fé, mas para a significância dos atos da graça de Deus, para o significante Cristo Jesus em quem repousa a nossa fé. Não para meus medos nem minhas impossibilidades, mas para o Senhor Jesus, cujo amor expulsa o medo e cujo poder dá finalidade e propósito à minha vida. Foi dele que “alguém, em certo lugar, deu pleno testemunho, dizendo: Que é o homem, que dele te lembres? Ou o filho do homem, que o visites?” E sobre ele é a resposta: “Fizeste-o, por um pouco, menor que os anjos, de glória e de honra o coroaste [e o constituíste sobre as obras das tuas mãos]. O escritor de Hebreus prossegue, dizendo que o Senhor Jesus, por quem e para quem todas as coisas existem, deveria conduzir muitos filhos à glória, aperfeiçoando-os por meio de seus próprios sofrimentos; far-se-ia Autor de sua salvação, irmanando-se e irmanando-os na família de Deus. E do modo como ele não se envergonha de nos chamar irmãos, assim não nos envergonhamos de seu evangelho, o qual é o seu poder para a salvação revelada de fé em fé (cf. Hb 2.6-12 e Rm 1.16 e 17). Nessa linha, o escritor de Hebreus continua a citar o salmista: “A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação; vós que temeis o Senhor, louvai-o; glorificai-o  (Sl 22. 22, 23).

Enquanto deste lado da eternidade, portanto, no meu vale ou na cidade, os seus louvores me acompanham e me asseguram. Bendito o Espírito da Palavra que me assegura de que, a despeito de todos os males e ameaças desta hora, tudo está sob o controle do Filho Criador. Todas as coisas estão sujeitas ao Filho criador, e nada foi deixado fora do seu domínio. Se, porventura, um olhar para “os montes” da cidade, faz parecer distante o socorro do Senhor, e eu sinto desmaiar a minha fé, sem demora vem-me o seu auxílio. O Espírito aponta para o Autor da nossa fé:
Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas; vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem” (Hb 2.9-10).

E ainda:
Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna (Hb 4.14-16).

Bendito seja o Senhor que dia a dia aperfeiçoa a nossa vida na santificação do Espírito e cuja graça é suficiente para conceder-nos o poder transformador. Ele vem em nosso socorro a partir de montes mais altos e mais profundos, como o Gólgota e o Olival de intensas dores e de júbilo — de morte, ressurreição e ascensão — e assiste-nos na fraqueza, concedendo-me o seu poder. Acima dos montes de nossa falta de fé, muito além dos montes da vizinhança e da vida toda, o Senhor Jesus abre os olhos de nossa alma para que vejamos as promessas de satisfação de justiça do evangelho. Satisfação da justiça do Pai mediante o sangue de sua cruz para remissão dos escolhidos; e satisfação da justiça de Deus em relação à impiedade dos que existem somente para a carne e para os desgovernos da própria natureza decaída (cf. 2Pd 2.9).

Louvado seja!

Wadislau Martins Gomes



quinta-feira, maio 21, 2020

NEM TUDO O QUE RELUZ É OURO

Pirita ou ouro de tolo

Nesses últimos dias, tive umas “sessões de bate papo” com os netos, Daniel e Rafael, sobre as dificuldades da igreja para discernir ensinos abalizados e conceitos inadequados. Por isso, quando os olhos bateram numa chamada na mídia social, eu sabia que não se tratava de coincidência. Tratava-se de uma matéria como tantas outras na enxurrada de visões que atraem os menos avisados — os quais, dado o tempo decorrido e a altura pretendida, já deveriam ser mais sábios (cf. Hb 5). A tal chamada era para uma apresentação pseudocientífica misturada a uma doutrina bíblica, numa amálgama não somente inconveniente, mas equivocada.

Segundo a orientação bíblica, em Provérbios, os discernimentos da pessoa sábia evitam as armadilhas da ignorância, da estultícia e da loucura. Deixe-me situar de onde venho e para onde vou, e o que carrego comigo. O Presbítero Dr. Vern S. Poythress — de quem tive a honra atender a algumas aulas — frequentemente levanta a questão: “É, a ciência, um guia adequado para a interpretação bíblica?” A resposta a essa pergunta retórica é a de que a ciência acaba sendo um método não objetivamente puro nem neutro (p.e., Ciência e Hermenêutica, 1988). O que ele quer dizer é que a ciência não é uma pedra de toque isenta de ser afetada por “compromissos, presunções e filosofias”.

Noutras palavras, o conhecimento do cristão verdadeiro é orientado por fé e é artigo de crença cujas doutrinas deveriam orientar toda e qualquer observação da realidade criada. Por sua vez, a ciência, quando tomada como ditadora do pensamento, perde o caráter de método de pesquisa e de conhecimento, para tornar-se instrumento de ataque ou defesa de própria consciência (cf. Rm 12.15; 7.14-25). Note que a Bíblia é a revelação escrita de Deus para os homens e, como tal, presta-se a julgar os motivos do coração a fim de proporcionar sabedoria espiritual no discernimento do certo e do errado, tanto na consideração da natureza humana interna quanto da observação da natureza externa. O contrário, isto é, quando aceita sem discernimento, totalmente objetiva e neutra, a ciência não é adequada como guia para a interpretação bíblica.

Certamente, não sou obscurantista. Aprecio o fato de que, por sua graça comum, Deus concedeu vislumbres de conhecimento natural a crentes e incrédulos, cujos gênios são evidentes, e isso a fim de nos abençoar. Creio, contudo, que mesmo esse tipo natural de sabedoria não foge à condenação da Queda. Até mesmo a pessoa de gênio e brilho, se não for regenerada, acabará distorcendo e conspurcando o conhecimento. O próprio crente regenerado terá de cuidar que seu conhecimento seja sempre conferido com a Bíblia, e que seu coração seja por ela examinado segundo a sabedoria do Espírito do Senhor. (Cf. 1Ts 5.21; 1Co 2.13; 2Co 13.5.) Existe uma falsa ciência cujo método é cultuado em diversas vertentes, dentro e fora do cristianismo nominal. Existe outro método científico que todo crente tem de abraçar. Esse consiste em examinar todas as coisas à luz das proposições da Escritura, em conferir coisas espirituais com espirituais, e em experimentá-las sob condições controladas até onde for possível, atentando ao estudo que homens de Deus fizeram ao longo do tempo e agora.

Onde quero chegar? A Escritura é clara: Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto [para este século] para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles. E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos (1Co 3.18-20). É isso: procure a verdadeira luz que vem de cima, Cristo, e não qualquer fogo de artifício, pois, nesse caso, é verdadeiro o ditado — nem tudo que reluz é ouro…

Uma boa hermenêutica — método científico corretamente aplicado ao conhecimento da Palavra de Deus e, à luz dela, adequado à observação do mundo — cumpre seu mister quando esclarece o conhecimento. A tarefa, no entanto, não para aí, se quiser portar o bom nome de ciência. Terá, ainda, de ter aplicação geral em outras áreas do conhecimento (heurística), e terá de ser corretamente explanada (enunciado). Por exemplo: dizer que Jesus é Senhor e não viver em conformidade com isso, até a universal faz; dizer que Jesus é o Criador sem levar em conta que o mundo se encontra decaído, até o diabo faz; dizer que Jesus é o Redentor sem considerar a redenção do nosso pensamento, muitos na cristandade o fazem; e dizer que Jesus é o Senhor criador e redentor, sem que isso importe em sua soberania sobre toda a criação e sobre a sustentação de todas as coisas, isso implica em estultícia, ignorância e loucura. É correr atrás de vagalume achando que bamburrou.

Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, janeiro 28, 2019

50 ANOS DE ORDENAÇÃO E IMPRESSÕES DE BRUMADINHO



Uma olhada nos últimos cinquenta 50 anos deixam-me realmente contente — “porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.11). São 50 anos de ordenação ao ministério da Palavra, pelo Presbitério de Campinas (29 de janeiro de 1969). Nesse “meu” tempo de reflexão vejo o filme da vida ora em moção acelerada ora em câmera lenta. Em algumas partes do longa-metragem, fico meio macambúzio, saudoso de gente e de situações, em outras partes, fecho os olhos para não ver repetidas algumas coisas e situações. Em todo o tempo, porém, sou grato a Deus. Grato pelo tempo que passou, o tempo que fechou e o tempo certo para todas as coisas! Sou grato a Deus por todo o tempo e modo de seus propósitos, principalmente, o sempre tempo de alegrar-se no Senhor (Ec 3.1-8; Fp 4.4).

A festa do meu coração, não obstante, de repente, de presente, está vazia de convidados. Tenho de ver de novo e de novo o horror das Minas das Gerais, da Vale do Rio Doce, do poder empresarial mafioso que me lembra o Moderno Prometeus, de Shelley (o Monstro de Frankenstein) ou o Jekyll e Hyde, de Stevenson. Só de ver as besteiras pra encher linguiça dos malabaristas da band (que de globo, Deus me livre), crus artistas de cruzamento de avenida, e a cara de mamão macho do bandido da Vale, dizendo que se entristece, empalidece, desmaia e morre mais do que os que já matou — só de ver, eu me pergunto: tem alegria em enterro de pobre sem herança, sem nome em placa de rua pra preservar a memória? Tem graça nessa falta de fé nos poderes da Pátria “mais garrida”? Tem esperança, quando os poderes públicos e o público subserviente não são capazes de “conquistar com braço forte” o penhor de uma igualdade só cantada, mas em que, na prática, quem dança são os pequenos contribuintes que, em retorno, recebem o benefício equivalente a um genocídio (dos mais fracos)? Tem confiança que perdure ou sobreviva às intempéries que assomam o “formoso céu, risonho e límpido” no qual deveria resplandecer a imagem do Cruzeiro? Não é só a imagem do redentor sobre a capital do crime que revela, impudica, a idolatria do País. É um judiciário hipócrita, um legislativo amorfo, e um executivo covarde (perdoe-me, excelentíssimo Presidente Bolsonaro, a quem considero exceção—Deus queira!). Como manter a alegria, quando o “gigante pela própria natureza” é feio porque sem grandeza moral, e só é “forte, impávido colosso” porque seus desastres são premeditados para engordar contas espúrias. Em face de tudo isso, onde eu ponho os versos: “Mas, se ergues da justiça a clava forte / Verás que um filho teu não foge à luta / Nem teme, quem te adora, a própria morte”?

A este ponto da vida, escrevo com Elizabeth um livro a quatro dedos (catilodigitas que somos). O título, talvez provisório, é: Mudanças e permanências — aplicações da mensagem da Epístola aos Filipenses. Em um dos capítulos escrevemos:
Que ardente expectativa: “em nada serei envergonhado” e Cristo “será engrandecido ... quer pela vida quer pela morte”! 
Pode haver contraste maior do que a que existe entre a vida e a morte? No entanto, somos admoestados que, em qualquer situação em que nos encontremos, qualquer provação pela qual passemos, nós que somos redimidos, deveríamos nos manter inabalados, na esperança de que não seremos envergonhados por nossa fé, e de que Cristo será exaltado. Na carta aos Romanos (1.16), Paulo enfatiza que não se envergonha do evangelho, e, como disse Francis Schaeffer, nem o evangelho nos envergonha, “porque é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”. Aqui, aos Filipenses, o apóstolo afirma que “em nada serei envergonhado” e Cristo será exaltado, quer viva quer morra, quer seus críticos consigam difamá-lo (“por discórdia, insinceramente, julgado suscitar tribulação às minhas cadeias”, 1.17), quer seus amigos vivam a defendê-lo e a cooperar com ele no evangelho. “As coisas que me aconteceram” contribuíram para o progresso do evangelho... e estimulados por minhas algemas, a maioria dos irmãos ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus. De timidez, a mudança é para ousadia; viver é Cristo, morrer é lucro! A motivação para permanecer na carne (vivo aqui na terra) é o progresso e a alegria na fé dos irmãos de Filipos. Para Paulo, morrer e estar com Cristo é incomparavelmente melhor — mas “por vossa causa ficarei e permanecerei”.
É claro que, se pudermos fugir de ameaças, dores e tristezas, é bem que o façamos. Paulo disse que deveríamos permanecer inabaláveis, não que permanecêssemos impassíveis. O cristianismo não é sinônimo de masoquismo e o cristão não pode gostar de sofrer — açoites e apedrejamentos doem, permanecer encarcerado numa cela úmida e fétida, ou ser jogado ao mar num naufrágio, tem consequências físicas. Há horas em que não vale a pena de sofrer. José e Maria, cumprindo ordem divina, fugiram para proteger o pequeno Jesus (cf. Mateus 2.13, 15). O próprio Senhor Jesus se esquivou de momentos aflitivos e de homens violentes, quando as situações eram inglórias (cf. Lc 4.29-30). 
Os santos suam, sangram e seus ossos se quebram. Ficam com problemas de visão e de locomoção, com “espinho na carne” ou na alma, e Deus não usa uma varinha mágica para apagar o sofrimento de suas vidas. Nenhum sofrimento é sem causa, podendo ser purificador ou edificador. José, depois de sofrer a inveja e a fúria de seus irmãos, e de saber a servidão e a malícia dos homens, conheceu também a elevação do poder. Já governador do Egito, diz a Palavra, “Levantando José os olhos, viu a Benjamim, seu irmão, filho de sua mãe, e disse: É este o vosso irmão mais novo, de quem me falastes? E acrescentou: Deus te conceda graça, meu filho.” A soma de todos os sofrimentos subiu-lhe aos olhos: “José se apressou e procurou onde chorar, porque se movera no seu íntimo, para com seu irmão; entrou na câmara e chorou ali”. Contudo, permaneceu inabalável e, “Depois, lavou o rosto e saiu; conteve-se e disse: Servi a refeição” (Gn 43.29-31). 
Jesus, que era homem de dores e sabia o que era padecer, prometeu a seus discípulos a paz para suportar as aflições que teriam no mundo. Assim, não comece a gemer tão cedo: Deus promete alegria no meio das aflições, gozo completo nele, e contentamento em toda e qualquer situação. Paulo aprendeu a estar contente em toda e qualquer situação. Isso não lhe era natural — o Saulo de Tarso inconformado com os seguidores do Caminho a ponto de ser testemunha de acusação de Estêvão, tendo autorização para levar presos os que criam no Senhor ressurreto, passou a ser promulgador do evangelho, porta-voz das boas novas e sofredor de toda sorte de revés, físico, moral e espiritual. Essa é uma mudança aprendida. É cheia de glória—reflexo do amor e do poder de Deus. Ela ocorre quando aprendemos que Cristo é o centro, a nossa motivação, o nosso viver e o nosso morrer! Há enorme contentamento em saber viver ou morrer. Há um gozo de permanência quer fiquemos quer partamos para outro lugar ou outra vida. O que para o incrédulo é o pior, para Paulo é infinitamente melhor — pois os lugares celestiais em Cristo são de habitação segura, lar de comunhão com Deus e com os irmãos, e templo de alegre adoração. 
Daniel, nosso filho caçula (45 anos) é missionário no Japão, juntamente com a família. A empreitada não tem sido fácil, pois, além da distância e do enfrentamento de uma cultura tão avessa ao cristianismo, há a dificuldade financeira. Falávamos dessas coisas, ao telefone, e ele me contou de um amigo, conhecido escritor, que há anos não tem desperdiçado seu câncer e que, agora, resolveu interromper qualquer tratamento senão o contra a dor. Suas palavras encheram o nosso coração de conforto e, ao Daniel, de alento: “o cumprimento da missão do Senhor só é possível quando vivemos aqui e agora contemplando e realizando a esperança da eternidade”. É disso que o Senhor também disse: “Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus”(Lucas 9.62). 
A consideração do mal no presente imediato é causa de desespero para a maioria de nós. Seja o mal sentido na carne, doença, miséria, seja o mal sentido na alma, injustiça, medo, seja a dor de viver, morrer — sem Deus, tudo isso é mal sem cura, dor sem remédio. Aos coríntios, Paulo disse: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” 1Co15:19).
Nesses 50 anos de trabalho na Igreja Presbiteriana do Brasil e na Presbyterian Church in America — em missões, plantação e pastoreio de igrejas, na educação teológica em seminários e escolas de pós-graduação, servidor de Deus na liderança de presbitérios, no trabalho nacional da mocidade, na obra nacional de evangelização, e na secretaria nacional de apoio pastoral — a despeito de pecados e fraquezas, testemunhei, em todo o tempo, e “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Aí habita a minha alegria. Aí a graça e a fé, a esperança e a confiança. Aí a gratidão! Aí a alegria, mesmo no meio de desastres criminosos, de aparente impunidades, e dores no corpo e na alma:
Render-te-ão graças, ó Senhor, todos os reis da terra, quando ouvirem as palavras da tua boca, e cantarão os caminhos do Senhor, pois grande é a glória do Senhor.  O Senhor é excelso, contudo, atenta para os humildes; os soberbos, ele os conhece de longe. Se ando em meio à tribulação, tu me refazes a vida; estendes a mão contra a ira dos meus inimigos; a tua destra me salva. O que a mim me concerne o Senhor levará a bom termo; a tua misericórdia, ó Senhor, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos (Sl 138:4-8).
Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, novembro 28, 2018

NA ESCASSEZ E NA PROSPERIDADE



Você, alguma vez, já mandou uma carta para Papai Noel? Outro dia, vi uma reportagem sobre a campanha dos correios, incentivando pessoas a doar presentes a crianças carentes as quais escrevem pedidos ao “bom velhinho”. Os correios se encarregam de levar os presentes para alegrar a vida das crianças. Além de pedidos clássicos de boneca, carrinho, um brinquedo "bem legal", um conjunto de roupas e sapatos, bicicleta etc., muitas cartinhas indicam carências mais profundas: material escolar, “comida aqui para casa porque meu pai foi embora e minha mãe não sabe como vai fazer”. Enquanto isso, nos shoppings, crianças pedem celulares da hora, videogames importados e notebooks personalizados, junto a listas cada vez mais sofisticadas de mais, mais, mais. Jovens e adultos elaboram listas de roupas de grife, sapatos, bolsas e acessórios, jóias e eletrônicos que seus pais não imaginavam existir, e muito mais, porque você merece. Eu mereço! O décimo terceiro salário (quando trabalhamos sob a CLT) já foi gasto mesmo antes de depositada a primeira parcela. E, se estamos desempregados e sem nada no banco ou no bolso, ainda assim queremos comprar, comprar, e ganhar, ganhar. Temos de ter! 

Nós devoramos e somos devorados, sem dó, pelo consumismo natalino que faz esquecer o maior presente dado aos humanos de todas as idades, em todo o universo – o Cordeiro deitado em manjedoura, num estábulo, o Deus Conosco que veio com o propósito de viver e morrer para redenção de injustos.

Na cabeça de todo mundo, aponta: "O que é que vou ganhar?" enquanto alguns se preocupam com o que é que podem dar. E mais: "Quanto vou gastar?" "Como é que vou pagar?" "Ah! se eu apenas tivesse _______...

O frenesi pré-natalino traz inquietações junto aos sonhos realizáveis, impossíveis ou frustrados — mil léguas longe de responder a pergunta: “Que darei ao Senhor por todos os benefícios que tem para comigo?” Aqui, lembro alguns tesouros com  aplicações práticas da Palavra de Deus para a ocasião e a vida toda.

Na escassez: generosidade e gratidão

Um conto clássico de O. Henry narra a história de um casal empobrecido, desejoso de presentear um ao outro, no Natal. Ela tinha longos e belos cabelos, e ele quis comprar uma linda fivela de ouro para enfeitá-los. Ele possuía um relógio herdado do pai, mas sem uma corrente. Ela cortou os cabelos e vendeu-os para comprar o presente perfeito para o marido: uma espessa corrente de prata. Ele, por sua vez, vendeu o relógio para comprar a joia da fivela. Muitas vezes, repete-se a doce ironia dessa história: alguém abre mão de um bem em favor de uma pessoa amada — e essa pessoa abre mão do que tem, para trazer alegria ao outro!

Generosidade não é ter muito para dar . É dar abundantemente do que temos — mesmo quando o que temos é pouco. Escrevendo aos Filipenses, Paulo disse: 
no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades. Não que eu procure o donativo, mas o que realmente me interessa é o fruto que aumente o vosso crédito. Recebi tudo e tenho abundância; estou suprido, desde que Epafrodito me passou às mãos o que me veio de vossa parte como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus (Filipenses 4.15-18).
A generosidade deles foi atuante e marcante—quando os próprios crentes de Filipos passavam por necessidades, tendo o apóstolo necessidade de animá-los, dizendo:
Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as  vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Filipenses 4.6 e 7).
Concluiu com a promessa: “O meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades”(v. 19). Falando aos Coríntios — igreja cheia de problemas — Paulo não deixou de mencionar uma qualidade importante: 
no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos (2 Coríntios 8.2-4).
Tais donativos foram planejados e preparados de antemão “como expressão de generosidade e não de avareza” (2 Coríntios 9.5). Sendo assim, o apóstolo instrui:
Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria. Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre. Ora, aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça, enriquecendo-vos, em tudo, para toda generosidade, a qual faz que, por nosso intermédio, sejam tributadas graças a Deus (2 Coríntios 9.7-11).
Isso é totalmente contrário ao que, hoje em dia, propõem os pregadores da prosperidade, os quais torcem o ensino bíblico, dizendo que nossas ofertas são “sementes” para nos garantir riquezas. Na verdade, a meta da generosidade é que sejam tributadas graças a Deus! 

Achei que fosse falar de presentes de Natal, e lá vai você falar de contribuições para a igreja! O que tem a ver caridade com a necessidade de presentear minha família e amigos? Na verdade, os princípios da generosidade são os mesmos, quer estejamos planejando presentes adequados para aqueles que amamos quer estejamos considerando o que contribuímos para quem já nos doou todas as coisas. Alguns lembretes:

  1. Não podemos esperar presentes porque merecemos. Diante de Deus, na verdade, não merecemos nada por termos sido “bons meninos” durante o ano que passou! Toda a nossa bondade é “trapo de imundície”(Isaías 64.6) e nossos esforços todos não passam de tentativas vãs diante de um Deus santo. O que Deus nos dá abundantemente é somente por sua graça. Aplicando essa verdade ao dia a dia, não damos nem recebemos presentes porque merecemos ou deixamos de merecer. (Aliás, a vida não consiste no que é secular versus espiritual. Se somos nascidos de novo, toda nossa vida, prática e secular, é espiritual!). Presenteamos pais, filhos, irmãos, amigos, porque os amamos e queremos compartilhar de maneira tangível essa lembrança. Não podemos exigir que outros nos deem, nem indicar o que eles deverão dar. Claro que se eles perguntarem do que precisamos ou o que desejamos, podemos indicar – sem exigências, sem esperar que façam o que nós queremos.
  2. Não podemos dar, visando o que vamos receber em troca. Já dei muitos livros a pessoa rica, na esperança que ela quisesse comprar mais para presentear a outros! Às vezes damos um presente caro esperando que “eles” nos deem na mesma medida. Ledo engano! 
  3. Generosidade nem sempre implica presente caro; muitas vezes, custa-nos muito além de dinheiro, embora seja pouco dispendioso. Tempo, atenção, carinho, sensibilidade são presentes de grande valor.
  4. Nossos presentes jamais devem ser para afirmar ou demonstrar agendas secretas (quanto nós somos bons, ou estamos bem de vida, ou merecemos ganhar com valor igual ou superior).
  5. Não podemos dar o que não temos, embora devamos sempre dar além do que achamos que podemos fazer! Da mesma forma, não podemos “contar com” presentes prometidos, antes que sejam dados, nem ficar decepcionados quando acabam não se materializando. Uma amiga contava com um presente em dinheiro; gastou de antemão o que fora prometido — que não veio — e lhe restaram apenas dívidas pesadas e sentimentos feridos.
  6. Use a criatividade em vez de gastar o que não tem, para impressionar! Não deixe a lista de Natal escravizá-lo a pagamentos de prestações. Diminua a ostentação e aumente o carinho!
Lembremo-nos de que Jesus curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer. Muitas vezes, nós recebemos, de Deus e das pessoas que nos cercam, presentes de grande valor, e não demonstramos gratidão. Somos indesculpáveis diante de Deus quando não o reconhecemos, não o honramos nem damos graças (Romanos 1.20, 21). Nossa gratidão às pessoas que nos presenteiam deve ser análoga à gratidão devida a Deus. O casal idoso que me deu três ovos da sua poedeira, a criança que compartilhou o chocolate da mãozinha melada, o menino que deu os lápis de cor para que eu preparasse o cartaz da escola bíblica — presentes humildes — colocam-nos no rol de gente preciosa por quem eu sempre serei grata.

Não precisamos repetir sem parar as razões para gratidão, mas em todo tempo temos de ser gratos por pequenas e grandes coisas que nos deram e fizeram. Um casal nos deu uma viagem inesquecível a Israel — não eram ricos nem estavam muito próximos — mas, quando Deus lhes deu os meios, presentearam-nos com algo que amigos abastados jamais imaginariam. Outra vez, um próspero médico deu a um pastor carente o dízimo dos proventos de uma cirurgia: um carro. Quando fui operada, uma irmã, que ganha a vida limpando casas, fez uma boa faxina em minha casa, e ainda trouxe almoço completo para a família. Quando nos preparávamos para um evento em O Refúgio, uma amiga chegou, de surpresa, com uma “equipe de limpeza” para ajudar a por o local em ordem. Um presente de preciosas horas de labor. Somos gratos por todas essas ocasiões inesquecíveis de generosidade. Somos gratos também pelos “pequenos mimos” — um queijo ou doce trazido de longe, um conjunto de sabonetes perfumados, uma toalha de mão bordada.

Não se pode exibir pobreza como medalha nem esperar que outros sejam obrigados a ajudar. Ninguém é responsável pelo que não temos nem mesmo pelo que poderíamos ter. Por outro lado, somos responsáveis por gerenciar bem o pouco ou muito que Deus nos deu, e sermos generosos! Somos mordomos porque nada do que temos é realmente nosso. Temos de cuidar bem, mas segurar com mão leve e aberta.

Se recebemos um presente, por menor que seja, sejamos gratos — foi de graça, por graça, graciosamente dado. Assim, também, ensinamos filhos, netos, irmãos, e amigos que nos cercam, a demonstrar a mesma gratidão.

Na prosperidade: generosidade e gratidão

Muitos de nós já imaginamos o que faríamos se, de repente, recebêssemos uma fortuna inesperada, dinheiro ou bens muito além do que, hoje, possuímos. Juntamente com a compra de casa, carro, viagens, muitas coisas com as quais sonhamos, imaginamos doações para hospitais beneficentes, escola que faça diferença na comunidade, qualquer que seja o nosso sonho filantrópico. "Se eu tivesse um milhão, eu ______ (complete a frase com mil sonhos!). Lembro-me de , quando criança, em nossa classe na igreja, achávamos importante colocar no ofertório as moedas pequena e  surradas notas de um cruzeiro. Certa vez, uma coleguinha veio com uma nota de dez cruzeiros, novinha em folha; mostrou-nos o quanto iria dar, e deixou-nos verdes de inveja. Será que ela merecia sentar bem na frente quando chamada a apresentar o versículo decorado? Tiago, o irmão de Jesus, sabia o que era ter um parente famoso e benquisto, e, sob seu ensino, escreveu: 
As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça; o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens, e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração, em dia de matança; tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência (Tg 4.2-6).
E Paulo lembrou a seu filho na fé, Timóteo:
Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida (1Timóteo 6.17-19).
Na galeria da fé, há menção de gente muito rica como Abraão, José (da cova, escravatura, falsas acusações e prisão — a governador do Egito), Salomão, e, outros, extremamente pobres. A condição financeira dos servos de Deus jamais indicou maior ou menor bênção e proximidade de Deus.

Em nosso cotidiano cristão, temos contato com gente de posses que tem ajudado a muitos, especialmente na igreja, e gente paupérrima igualmente importantíssima no Reino de Deus. E quando pensamos em presentear ou receber presentes por ocasião do Natal, aniversários, casamentos, qualquer que seja a data, temos de entender a abundante riqueza e a imensa pobreza, nossas e a nossa volta. Deus permite que tenhamos bens, mas proíbe que sejamos orgulhosos ou que coloquemos esperança na instabilidade da riqueza. Deus permite que estejamos pobres, mas lembra-nos que somos “ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam” (Tiago 2.5). Conhecemos “a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que, pela sua pobreza, nos tornássemos ricos” (2 Coríntios 8.9).

A geração de meus pais e avós era econômica, às vezes muquinha, por medo de sofrer de novo as carências da Grande Depressão ou da Guerra que lhes tirou quase tudo. Uma amiga conta que o avô não admitia que qualquer membro da família guardasse dinheiro separado dele, o qual tinha de controlar tudo, guardando no banco “para garantir a sobrevivência da família”. A maioria de nós tem lendas familiares sobre dinheiro guardado, fortuna desperdiçada, tesouros escondidos e privações reveladas. Muitas vezes, as gerações atuais são perdulárias, pródigas, sem pensar em economia; vivendo gastos acima dos ganhos, ostentando como “essenciais” à própria vida, coisas que os antepassados mais ricos sequer imaginavam possuir.

Nesse clima de comprar “porque merece”, de consumir sempre mais e melhor do que os outros, é que tentamos conviver com a ética protestante em que fomos educados. Somos levados pela enchente dos mesmos três aspectos em que grandes servos de Deus naufragaram: “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 João 2.16) – e, em matéria de presentear e receber no Natal ou em outra data, esses três aspectos geralmente estão presentes!

Uma pessoa que enricou, disse: “Tenho medo de contar o quanto eu ganho, porque, aí, todo mundo vai chover em cima de mim, pedindo ajuda ou empréstimos”. Meu avô dizia que decidiu emprestar apenas o que não o prejudicasse nem magoasse caso a fosse ressarcido. Outra pessoa que vive com um grande legado é extremamente solitária porque se nega a dar e receber, temendo amizades interesseiras.

É difícil, à pessoa que “tem tudo”, viver num clima de gratidão constante — mas somos conclamados a fazer exatamente isso: “Em tudo dai graças”. Na humilhação e na exaltação. Na carência e na prosperidade. No “nada tendo” e no “possuindo tudo”. Quando aprendemos a viver contentes em toda situação não perguntamos: “O que é que vou ganhar?” nem mesmo “O que é que vou ter de dar?” mas 
Que darei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o seu povo... Oferecer-te-ei sacrifícios de ações de graças e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o seu povo, nos átrios da Casa do Senhor, no meio de ti, ó Jerusalém. Aleluia! (Salmos 116.12-19.)
Elizabeth Gomes 

quinta-feira, outubro 11, 2018

DON'T WORRY: BE HAPPY



Nos anos oitentas, uma música de Bobby McFarren, de letra simples e quase sem melodia, apenas um contagiante ritmo caribenho repetitivo de fundo melodioso, teve sucesso no mundo inteiro, e até hoje mexe com gente que está preocupada com a vida, gente que não sabe que rumo tomar – gente comum que enfrenta problemas normais da vida, gente que faz apologia a drogas, sexo livre e qualquer espécie de afirmação do status quo, pessoas colhendo das inconsequências na família, no trabalho, gastos financeiros, nos relacionamentos, nas decisões e falta de decisão em tudo que faz e deixa de fazer – “Don’t worry: be happy” (não se preocupe: seja feliz). Trinta anos depois, ainda soa agradável o mantra que, na verdade, era cantado com outra letra pelos flower children dos anos sessentas, os amantes dos sucessos do cinema dos anos cinquentas e, bota velharia nisso, românticos de todos os tempos.
Eu estava assistindo a uma série canadense sobre uma família de rancheiros criadores e domadores de cavalos, com cenas incrivelmente belas da natureza em volta das montanhas rochosas, nas escarpas, planícies, rios e lagos, e até as praias do Pacífico. A série é apresentada como repleta de bons valores de família, em que os contrastes nas escolhas entre casamento e carreira, cuidar da natureza e dos animais versus poluir e devastar o ambiente, fidelidade em meio a dificuldades e separação e divórcio, novos e seguidos namoros, trabalho árduo produtivo versus indolência e mentiras na vida desde crianças, passando por conflitos e sofrimentos de adolescentes, jovens, adultos maduros imaturos, até relacionamentos de idosos com todos dos outros estágios da vida – tudo faz a série envolvente em que peões trabalham e ganham a vida com dignidade e ricaços ora esbanjam ora vivem a simplicidade na família e suas tramas complicadas. Confesso que eu, boba por uma boa história, fiquei fascinada, e tive dificuldade em ver apenas um ou dois capítulos de cada vez. Mas as fantasias verossímeis o são “true to life” (aí vai mais uma dificuldade para o tradutor), porque embora verdadeiras como a vida, não são verdade para a vida.
Lembrei de uma conversa com amiga prestes a se divorciar, que chorava, dizendo “Ele não me faz mais feliz. Deus não quer a nossa felicidade? ... Tenho de me livrar desse peso ...” A solução seria levantar a cabeça e dar volta por cima, divertir-se até esquecer, afirmar-se para não afundar na lama...
Através dos anos ouvi inúmeros sermões que concluíam: “Aceite a Cristo e você será feliz – todos os seus problemas serão resolvidos”. Mesmo quem não era adepto da teologia da prosperidade dava ideia de que ser cristão verdadeiro implica vida vitoriosa, felicidade perene, alegria inconsequente em tudo que faz ou deixa de fazer. Para o crente brasileiro, essa era uma feliz resposta contra a lúgubre religião masoquista do catolicismo medieval que, por sua vez, se apresentava contra o hedonismo desenfreado do país do carnaval.
A gente não aceita a idolatria de procissões e penitências de um catolicismo sombrio nem a folia doida dos que bebem até cair e vivem num mundo de fantasia – então a gente faz de conta que tudo vai às mil maravilhas; crente tem a salvação da alma, cura do corpo, e uma vida maravilhosa, sem o mínimo problema – se você duvida disso, estoura a bolhinha de sabão e você perde até a salvação...
Hoje tem muitos na igreja que continuam com esse discurso, sem falar nos inúmeros desigrejados que rejeitaram a hipocrisia, mas não encontraram vida verdadeira em Jesus.
Um dos hinos mais tocantes que cantamos é “Sou feliz com Jesus”. Muitas vezes cantamos sem saber que o autor, Dr. Horatio Spafford, advogado bem-sucedido que sustentava missões (especialmente de Dwight L. Moody), escreveu depois de um trágico naufrágio em que perdeu toda sua família: “It is well with my soul”. Uma tradução mais real não diria apenas “sou feliz”, mas “está bem com minh’alma” – mesmo que tudo esteja mal e todos se perderam, meu ser interior está bem porque tudo está nas mãos de um Deus soberano que é bondoso.
Esta semana sentimos o choque de saber de uma jovem família de servos de Deus ceifada por um acidente de carro, em que só ficou vivo o caçula. Tenho certeza que os familiares cristãos ativos, bem como a igreja que Alessandro pastoreava, não estão dizendo “sou feliz” ou “está tudo bem aqui” – mas podem afirmar: “Com minha alma está bem”.
Revendo o livro de Edith Scheaffer sobre “Aflição”, deparei com este parágrafo que expressa sentimentos iguais aos meus:
 Às vezes são dadas idéias tão erradas que não é de admirar que estejamos confusos. Os cristãos têm de ser felizes todo o tempo? Temos de ser realizados sempre? Temos de olhar para dentro e nos examinar para ver se nos conhecemos? A vida deve ser uma jornada centrada no eu? As idéias que nos levam nessa direção são atalhos falsos que levam só para becos sem saída, tornando necessário retraçar os passos e desperdiçando tempo valioso para chegar lá — onde quer que seja esse “lá”. Se cristãos devem ser sempre felizes (se todos os seus males forem curados e tiverem suficiente fé) ..., e nós estivermos tristes (chateados com alguma coisa, doentes... enxaqueca, dor nas costas, preocupados com pessoas que amamos muito, ou sobre decisões que têm de ser tomadas hoje ou amanhã ... odiaríamos ter de definir o que deva ser “realizado ... então a conclusão será que não somos cristãos. Damos um sorriso rápido e dizemos palavras que parecem fazer tudo ficar certo, caso o sorriso seja o que vale e compense essas coisas interiores que pareçam ser o contrario. Em vez de estarmos sensíveis às necessidades de outros... correndo ao Senhor quanto a nossas próprias carências, podemos nos endurecer e viver superficialmente em medo — ou nos afastar de tudo e procurar outra base para nossa vida. Existe o perigo de não sermos verdadeiros... – Edith Schaeffer, AFLIÇÃO, Monergismo, 2018.
O desejo humano de ser feliz vem desde o Éden. Eva foi atraída para o fruto proibido porque este era “bom de comer e agradável de ver” (Gn 3.6). Na competição entre irmãs no casamento polígamo de Jacó, Lia até deu nome a um filho dizendo “é a minha felicidade porque as filhas me terão por venturosa...” Gn 30.13) – e olhe que Aser nasceu da sua escrava Zilpa; ela estava pensando no que outras pessoas (as filhas) pensariam. A lei mosaica previa que o homem recém-casado “ficará livre em casa e promoverá felicidade à mulher que tomou” (Dt 24.5). O salmista descreve como “feliz” quem enche a aljava de filhos (Sl 127.5) e no Salmo seguinte fala sobre a pessoa bem-aventurada porque teme ao Senhor, anda nos seus caminhos, come do trabalho de suas mãos e “será feliz e tudo te irá bem” (128.1-2). Salomão estende o conceito de felicidade ao que acha sabedoria (Pv 3.13), guarda os caminhos do Senhor (Pv 8.32), dá ouvidos ao Senhor (Pv 8.34); se compadece dos pobres (Pv 14.21), confia no Senhor (Pv 16.20), é constante no temor de Deus (Pv 28.14).
Jó disse que sua felicidade foi varrida pelo vento e passou como uma nuvem. Eliú, amigo (!!) de Jó, argumentou que se os justos ouvirem e servirem a Deus, seus dias acabarão em felicidade e delícias (Jó 36.7); o pregador disse: “Vamos, eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade”— mas concluiu com realismo que “também isso era vaidade” (Ec 1.1-2).
Jesus Cristo, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz... (Hb 12.2) Foi só com sua vinda ao mundo tenebroso em que vivemos que veio a alegria dos homens (Lc 2.10), mas esta foi encarnada no “homem de dores, que sabe o que é padecer”. Suas palavras de despedida não são de alegria superficial:
chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome.  Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa. (João 16.20-24) e explicou ter dito isso “para que tenhais paz em mim (v 33).
O apostolo Paulo escreveu sua epístola de maior alegria quando preso, aguardando ser executado em Roma:
"Alegrai-vos no Senhor sempre” (Fp 3.1), descreve-os  como “minha alegria e coroa” (Fp 4.1), pede que completem essa alegria deixando de partidarismo e contendas (2.2), ele mesmo aprendeu o contentamento em Jesus: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.  Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece. (Fp 4.11,12), e "grande fonte de lucro é a piedade com contentamento" (ITm 6.6).
Não somos Jós na vida, nem mesmo Paulos, Pedros, Tiagos ou João. Somos gente comum que suporta, nem sempre com paciência, as aflições que surgem. Se quisermos que a alegria do Senhor seja nossa força, temos muito a pensar sobre essa questão de não nos preocuparmos e ser feliz! Não só com os antigos e os novos da vida, que aprendamos que grande fonte temos: piedade com contentamento!
Elizabeth Gomes

sexta-feira, agosto 24, 2018

MIGRAÇÃO / IMIGRAÇÃO: SÍMBOLOS DO DESPREPARO NACIONAL


Brasileiro é mais estrangeiro do que boi em terra dos outros. Eu mesmo, tenho avoengos vindos de Portugal antes mesmo do Cabral, e, segundo Capistriniano de Abreu, fazendo filhos e piadas de mandarová com as nossas índias. Depois, a família foi crescendo com mais portugueses, espanhóis, uns poucos italianos, uma pitada de flamengos, uma pá de cristãos novos, e deu nisso que em mim vêem: uma personificação do estatuto do imigrante. Fui imigrante na terra do tio Trump, tenho esposa estrangeira e filhos e netos com dupla nacionalidade, e, até, missionários no Japão.

Tudo isso, digo como quem alisa o pescoço do animal antes de aplicar a injeção. Ou, se preferirem os citadinos avessos à roça: como quem chama criança de meu bem antes de mandar brasa na vacina. É que o assunto, aqui, é sobre o ruído da imigração e das fronteiras e os limites dos poderes do estado. 

Vamos lá. Nosso brasilzão sem porteira, País que costumava ser bão, foi formado por gente de tudo quanto é mundo. Eram 30 milhões que sequer davam pra cantar em copa. Aí, veio o “loiro imigrante”, de toda cor de cabelo e forma de olhos, de românticos cassianos ricardos, e o pirlimpimpim do petróleo é nosso, de fabulísticos monteiros lobatos. O cafezal não noivou nem carregou sem eles, nem as cidades tiveram pão, tecido, ferro, letras e músicas. No meu Jahú, aprendi a gostar de Brasileirinho, Caminito, Ya Habibi Ta'ala, Carmen, O Barbeiro de Sevilha, Cortando Estradão, e, é claro, de João de Barro vertendo Disney! 

Agora, na cola do tempo, com 208 milhões de habitantes e uma população mundial de 7,5 bilhões, o cenário mudou de figura. Mudou em termos de quantidade, o que, por sua vez, obriga a mudanças de qualidade. Neste cenário aumentativo, não mudou a visão sócio-política dos mandatonas e do povaréu. Os herdeiros dos mandantes extrativistas portugueses continuaram a extrair o sangue da terra e o ouro do povo. Os mesmos políticos que trocaram o reino pela república somente fizeram mudar os títulos, e o mesmo povo gentil somente viu mudar a ordem e o progresso. Não é assim com a plantação e com a manada que a gente colhe e que a gente ordenha? Entra político, tira político, sai político, sem nenhum respeito ao povo. E o povo, traído, imagina voto livre.

O Brasil jamais foi livre de golpes, tendo mais vices que assumiram a presidência do que presidência de verdade. Mais ditaduras do que governo. Mesmo a América Latina deu à luz algumas gerações de tiranos militaristas, bolivaristas, guevaristas e fidelistas. Foi nesse tempo que a salada mista da política nacional entregou o petróleo para a irmandade do fórum caipira e negou o pré-sal ao povo. A Venezuela, o “melhor” país sul-americano de há pouco, com petróleo e orgulho acima da medida, tomou a oferenda lulista e viu perdoada uma dívida acumulada ao prêmio de uma refinaria. De repente, entra em parafuso, e sua pobreza transborda para o Brasil. 

Do lado de cá da fronteira, coitado, a terrinha de que me ufano sequer tem para os próprios cuidados. Tem quem grite de júbilo e há quem grite de dor. E como brasileiro é mais macho do que mulher de esquerda, a nossa lei abre as fronteiras para quem der e vier. Islâmicos fecham suas fronteiras a quem quer que não lhes seja política e economicamente vantajoso, e abrem os nossos limites; chegam e nem mostram a cara. De um lado, haitianos, bolivianos, indonésios e tantos mais vão chegando, e, de outro, a nossa exportação de brazucas para o Canadá, Estados Unidos, Europa, Japão, Austrália e o restante do mundo. Onde é que não aportam as nossas naus?

Você é contra? É a favor? E que bicho deu hoje? É fato, tem mais chão para correr do que sapato pra calçar.

A questão do refugiado é um dos temas centrais da Bíblia — é redentivo, por assim dizer. Isso, em ambos os sentidos, vertical e horizontal. Como é que é?! É isso mesmo! É redentivo porque a humanidade, fora dos limites do Éden, é basicamente estrangeira, necessitada da promessa do Redentor Filho de Deus, descendente da mulher segundo a promessa (cf. Gn 3,15; Gl 3.18). Somos estrangeiros e peregrinos a caminho de outra terra. E é redentivo no sentido de que o assunto da imigração\emigração carece de resgate em relação às disposições sócio-políticas atuais e às inclinações afetivas naturais.

A luz do Criador e Redentor projeta sombras na história, as quais ele trabalha como antecipações de coisas que hoje experimentamos e que nos são especialmente redentivas. A igreja de todas as épocas deveria ser luz e sal para um mundo em decadência. Deveria ser exemplo de caráter individual e de unidade social. Ao ouvir a sua voz, o mundo deveria temer a Deus em função de um testemunho vívido. A igreja também deveria honrar os ministros da espada, ordenados por Deus. Hoje, porém, a igreja vê-se cerceada em todos os lugares por fronteiras que podem inibir a Grande Comissão. Biblicamente, a igreja deveria honrar a Deus sobre quaisquer césares, e cumprir a sua missão. Então, como é que fica?

O pai da fé, Abraão, saiu de sua terra e parentela para uma herança além fronteiras, por ordem de Deus. Jacó e família migraram para o Egito por causa de questões geofisiológicas, por vontade de Deus. Moisés liderou os israelitas, em oposição ao faraó, vagando por 40 anos optativos entre povos e governos, até a terra das conquistas, tudo por ordem de Deus. O mesmo Deus soberano, antes apresentado por Moisés como o Senhor Criador, então, apresentou-se como Senhor Redentor. Fez isso exatamente ao declinar a Lei, a qual o Senhor Jesus, o Filho encarnado, condensou no tema do amor a Deus e amor aos homens. Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão (Ex 20.2).

À luz da graça de Deus, e à sombra da fé em Cristo Jesus, o seu amor alcança nossa vida no lugar de nossa habitação em contrapartida à Grande Comissão. Ele diz: Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito (Dt 10.19). E diz também: 
Quanto à congregação, haja apenas um estatuto, tanto para vós outros como para o estrangeiro que morar entre vós, por estatuto perpétuo nas vossas gerações; como vós sois, assim será o estrangeiro perante o Senhor. A mesma lei e o mesmo rito haverá para vós outros e para o estrangeiro que mora convosco (Nm 15.15-16).

De novo, como é que fica? A resposta ao aparente dilema será mais fácil se, em vez de comprar a pergunta por atacado, colocarmos a questão na moldura certa. De fato, o problema não está no imigrante nem na fronteira, mas na governança e nos governados. O dilema é moral, não biológico nem cultural. Poythress levanta uma questão pertinente: qual a diferença natural entre os de dentro e os de fora? E mais, o que é “natural” ? (Redeeming Sociology, 182.) A imigração para o Brasil trouxe, de diferentes culturas muita comida boa: pão de ló, bacalhau, pizza, sashimi, kibe, strudel e daí em diante. Não fez senão boa diferença na sociedade. Os efeitos do pecado, sim, causam mudanças para pior. Nesse sentido, a herança do pecado de indivíduos muda a nossa vida. De modo maior, a herança de idéias pecaminosas muda ainda mais a sociedade. A idolatria individual é extremamente nociva ao indivíduo e ameaça a comunidade; a idolatria social é sumamente nociva ao indivíduo e ao coletivo. Por isso mesmo a Bíblia advertiu quanto às religiões estrangeiras. 

A nova Lei de Migração (2017) contempla poucas coisas em muitas letras, as quais abrem caminho para boas considerações. Uma delas é a da motivação subjacente. Outra é a questão de se a promulgação de uma lei assegura a transformação moral social do ser humano. As ocorrências de Roraima mostram que a lei de proteção do imigrante não mudou os marcos do coração pacaraimense. Certamente, a globalização facilitou e tornou mais atraente a migração que hoje é discutida em todo o mundo. No seu bojo, porém, vieram idéias, muitas boas e muitas estapafúrdias. De um lado, a nobre defesa do necessitado; do outro, a defesa torpe do contrário, isto é, do bandido, do ladrão de terras, do invasor de casas, do assassinato de bebês, do desenfreamento sexual, do desarmamento do homem de bem e do armamento do homem mau, da proteção do animal mais do que do homem, da imigração sem telhado nem beiral e daí em frente. Nossos governos não promoveram infraestrutura legal ou física para a recepção de imigração em massa.

A Bíblia estabelece leis sobre essas coisas, como, por exemplo: Quando edificares uma casa nova, far-lhe-ás, no terraço, um parapeito, para que nela não ponhas culpa de sangue... (Dt 22.8); Das cidades, pois, que dareis aos levitas, seis haverá de refúgio, as quais dareis para que, nelas, se acolha o homicida... (Nm 35.6). Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo (Ex 20.17). Como essas, há muito mais que, submetido a bom tratamento hermenêutico (cf. o Sermão do Monte), dará à igreja um parâmetro para influência como luz e sal da sociedade.

Assim, fica aí uma moldura sobre a qual meditar. Se o estrangeiro for amigo, a gente o recebe em casa. Se for inimigo em termos pessoais, nós o amamos sempre e nos dispomos a ajudá-lo, como a qualquer um da terra. Caso seja alguém faccioso que não tome tento depois de admoestado, não precisaremos conviver com ele (Tt 3.10). Amar, nesse caso, não é gostar, mas fazer o bem. Se o estrangeiro for inimigo de Deus, então, não deverá ser recebido em casa. Finalmente, se ele for uma ameaça à nação, seu caso terá de ser bem estudado. O crente bem avisado terá de tomar uma posição de testemunho, e, se não souber como proceder, deverá buscar o auxílio da igreja e dos seus grupos especializados. Aqui, cuidado para não acreditar em indivíduos que saíram de nós, mas não eram dos nossos, os quais pervertem casas inteiras.

Para todas essas coisas, muita oração.

Wadislau Martins Gomes