quarta-feira, novembro 28, 2018

NA ESCASSEZ E NA PROSPERIDADE



Você, alguma vez, já mandou uma carta para Papai Noel? Outro dia, vi uma reportagem sobre a campanha dos correios, incentivando pessoas a doar presentes a crianças carentes as quais escrevem pedidos ao “bom velhinho”. Os correios se encarregam de levar os presentes para alegrar a vida das crianças. Além de pedidos clássicos de boneca, carrinho, um brinquedo "bem legal", um conjunto de roupas e sapatos, bicicleta etc., muitas cartinhas indicam carências mais profundas: material escolar, “comida aqui para casa porque meu pai foi embora e minha mãe não sabe como vai fazer”. Enquanto isso, nos shoppings, crianças pedem celulares da hora, videogames importados e notebooks personalizados, junto a listas cada vez mais sofisticadas de mais, mais, mais. Jovens e adultos elaboram listas de roupas de grife, sapatos, bolsas e acessórios, jóias e eletrônicos que seus pais não imaginavam existir, e muito mais, porque você merece. Eu mereço! O décimo terceiro salário (quando trabalhamos sob a CLT) já foi gasto mesmo antes de depositada a primeira parcela. E, se estamos desempregados e sem nada no banco ou no bolso, ainda assim queremos comprar, comprar, e ganhar, ganhar. Temos de ter! 

Nós devoramos e somos devorados, sem dó, pelo consumismo natalino que faz esquecer o maior presente dado aos humanos de todas as idades, em todo o universo – o Cordeiro deitado em manjedoura, num estábulo, o Deus Conosco que veio com o propósito de viver e morrer para redenção de injustos.

Na cabeça de todo mundo, aponta: "O que é que vou ganhar?" enquanto alguns se preocupam com o que é que podem dar. E mais: "Quanto vou gastar?" "Como é que vou pagar?" "Ah! se eu apenas tivesse _______...

O frenesi pré-natalino traz inquietações junto aos sonhos realizáveis, impossíveis ou frustrados — mil léguas longe de responder a pergunta: “Que darei ao Senhor por todos os benefícios que tem para comigo?” Aqui, lembro alguns tesouros com  aplicações práticas da Palavra de Deus para a ocasião e a vida toda.

Na escassez: generosidade e gratidão

Um conto clássico de O. Henry narra a história de um casal empobrecido, desejoso de presentear um ao outro, no Natal. Ela tinha longos e belos cabelos, e ele quis comprar uma linda fivela de ouro para enfeitá-los. Ele possuía um relógio herdado do pai, mas sem uma corrente. Ela cortou os cabelos e vendeu-os para comprar o presente perfeito para o marido: uma espessa corrente de prata. Ele, por sua vez, vendeu o relógio para comprar a joia da fivela. Muitas vezes, repete-se a doce ironia dessa história: alguém abre mão de um bem em favor de uma pessoa amada — e essa pessoa abre mão do que tem, para trazer alegria ao outro!

Generosidade não é ter muito para dar . É dar abundantemente do que temos — mesmo quando o que temos é pouco. Escrevendo aos Filipenses, Paulo disse: 
no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades. Não que eu procure o donativo, mas o que realmente me interessa é o fruto que aumente o vosso crédito. Recebi tudo e tenho abundância; estou suprido, desde que Epafrodito me passou às mãos o que me veio de vossa parte como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus (Filipenses 4.15-18).
A generosidade deles foi atuante e marcante—quando os próprios crentes de Filipos passavam por necessidades, tendo o apóstolo necessidade de animá-los, dizendo:
Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as  vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Filipenses 4.6 e 7).
Concluiu com a promessa: “O meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades”(v. 19). Falando aos Coríntios — igreja cheia de problemas — Paulo não deixou de mencionar uma qualidade importante: 
no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos (2 Coríntios 8.2-4).
Tais donativos foram planejados e preparados de antemão “como expressão de generosidade e não de avareza” (2 Coríntios 9.5). Sendo assim, o apóstolo instrui:
Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria. Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre. Ora, aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça, enriquecendo-vos, em tudo, para toda generosidade, a qual faz que, por nosso intermédio, sejam tributadas graças a Deus (2 Coríntios 9.7-11).
Isso é totalmente contrário ao que, hoje em dia, propõem os pregadores da prosperidade, os quais torcem o ensino bíblico, dizendo que nossas ofertas são “sementes” para nos garantir riquezas. Na verdade, a meta da generosidade é que sejam tributadas graças a Deus! 

Achei que fosse falar de presentes de Natal, e lá vai você falar de contribuições para a igreja! O que tem a ver caridade com a necessidade de presentear minha família e amigos? Na verdade, os princípios da generosidade são os mesmos, quer estejamos planejando presentes adequados para aqueles que amamos quer estejamos considerando o que contribuímos para quem já nos doou todas as coisas. Alguns lembretes:

  1. Não podemos esperar presentes porque merecemos. Diante de Deus, na verdade, não merecemos nada por termos sido “bons meninos” durante o ano que passou! Toda a nossa bondade é “trapo de imundície”(Isaías 64.6) e nossos esforços todos não passam de tentativas vãs diante de um Deus santo. O que Deus nos dá abundantemente é somente por sua graça. Aplicando essa verdade ao dia a dia, não damos nem recebemos presentes porque merecemos ou deixamos de merecer. (Aliás, a vida não consiste no que é secular versus espiritual. Se somos nascidos de novo, toda nossa vida, prática e secular, é espiritual!). Presenteamos pais, filhos, irmãos, amigos, porque os amamos e queremos compartilhar de maneira tangível essa lembrança. Não podemos exigir que outros nos deem, nem indicar o que eles deverão dar. Claro que se eles perguntarem do que precisamos ou o que desejamos, podemos indicar – sem exigências, sem esperar que façam o que nós queremos.
  2. Não podemos dar, visando o que vamos receber em troca. Já dei muitos livros a pessoa rica, na esperança que ela quisesse comprar mais para presentear a outros! Às vezes damos um presente caro esperando que “eles” nos deem na mesma medida. Ledo engano! 
  3. Generosidade nem sempre implica presente caro; muitas vezes, custa-nos muito além de dinheiro, embora seja pouco dispendioso. Tempo, atenção, carinho, sensibilidade são presentes de grande valor.
  4. Nossos presentes jamais devem ser para afirmar ou demonstrar agendas secretas (quanto nós somos bons, ou estamos bem de vida, ou merecemos ganhar com valor igual ou superior).
  5. Não podemos dar o que não temos, embora devamos sempre dar além do que achamos que podemos fazer! Da mesma forma, não podemos “contar com” presentes prometidos, antes que sejam dados, nem ficar decepcionados quando acabam não se materializando. Uma amiga contava com um presente em dinheiro; gastou de antemão o que fora prometido — que não veio — e lhe restaram apenas dívidas pesadas e sentimentos feridos.
  6. Use a criatividade em vez de gastar o que não tem, para impressionar! Não deixe a lista de Natal escravizá-lo a pagamentos de prestações. Diminua a ostentação e aumente o carinho!
Lembremo-nos de que Jesus curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer. Muitas vezes, nós recebemos, de Deus e das pessoas que nos cercam, presentes de grande valor, e não demonstramos gratidão. Somos indesculpáveis diante de Deus quando não o reconhecemos, não o honramos nem damos graças (Romanos 1.20, 21). Nossa gratidão às pessoas que nos presenteiam deve ser análoga à gratidão devida a Deus. O casal idoso que me deu três ovos da sua poedeira, a criança que compartilhou o chocolate da mãozinha melada, o menino que deu os lápis de cor para que eu preparasse o cartaz da escola bíblica — presentes humildes — colocam-nos no rol de gente preciosa por quem eu sempre serei grata.

Não precisamos repetir sem parar as razões para gratidão, mas em todo tempo temos de ser gratos por pequenas e grandes coisas que nos deram e fizeram. Um casal nos deu uma viagem inesquecível a Israel — não eram ricos nem estavam muito próximos — mas, quando Deus lhes deu os meios, presentearam-nos com algo que amigos abastados jamais imaginariam. Outra vez, um próspero médico deu a um pastor carente o dízimo dos proventos de uma cirurgia: um carro. Quando fui operada, uma irmã, que ganha a vida limpando casas, fez uma boa faxina em minha casa, e ainda trouxe almoço completo para a família. Quando nos preparávamos para um evento em O Refúgio, uma amiga chegou, de surpresa, com uma “equipe de limpeza” para ajudar a por o local em ordem. Um presente de preciosas horas de labor. Somos gratos por todas essas ocasiões inesquecíveis de generosidade. Somos gratos também pelos “pequenos mimos” — um queijo ou doce trazido de longe, um conjunto de sabonetes perfumados, uma toalha de mão bordada.

Não se pode exibir pobreza como medalha nem esperar que outros sejam obrigados a ajudar. Ninguém é responsável pelo que não temos nem mesmo pelo que poderíamos ter. Por outro lado, somos responsáveis por gerenciar bem o pouco ou muito que Deus nos deu, e sermos generosos! Somos mordomos porque nada do que temos é realmente nosso. Temos de cuidar bem, mas segurar com mão leve e aberta.

Se recebemos um presente, por menor que seja, sejamos gratos — foi de graça, por graça, graciosamente dado. Assim, também, ensinamos filhos, netos, irmãos, e amigos que nos cercam, a demonstrar a mesma gratidão.

Na prosperidade: generosidade e gratidão

Muitos de nós já imaginamos o que faríamos se, de repente, recebêssemos uma fortuna inesperada, dinheiro ou bens muito além do que, hoje, possuímos. Juntamente com a compra de casa, carro, viagens, muitas coisas com as quais sonhamos, imaginamos doações para hospitais beneficentes, escola que faça diferença na comunidade, qualquer que seja o nosso sonho filantrópico. "Se eu tivesse um milhão, eu ______ (complete a frase com mil sonhos!). Lembro-me de , quando criança, em nossa classe na igreja, achávamos importante colocar no ofertório as moedas pequena e  surradas notas de um cruzeiro. Certa vez, uma coleguinha veio com uma nota de dez cruzeiros, novinha em folha; mostrou-nos o quanto iria dar, e deixou-nos verdes de inveja. Será que ela merecia sentar bem na frente quando chamada a apresentar o versículo decorado? Tiago, o irmão de Jesus, sabia o que era ter um parente famoso e benquisto, e, sob seu ensino, escreveu: 
As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça; o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens, e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração, em dia de matança; tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência (Tg 4.2-6).
E Paulo lembrou a seu filho na fé, Timóteo:
Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida (1Timóteo 6.17-19).
Na galeria da fé, há menção de gente muito rica como Abraão, José (da cova, escravatura, falsas acusações e prisão — a governador do Egito), Salomão, e, outros, extremamente pobres. A condição financeira dos servos de Deus jamais indicou maior ou menor bênção e proximidade de Deus.

Em nosso cotidiano cristão, temos contato com gente de posses que tem ajudado a muitos, especialmente na igreja, e gente paupérrima igualmente importantíssima no Reino de Deus. E quando pensamos em presentear ou receber presentes por ocasião do Natal, aniversários, casamentos, qualquer que seja a data, temos de entender a abundante riqueza e a imensa pobreza, nossas e a nossa volta. Deus permite que tenhamos bens, mas proíbe que sejamos orgulhosos ou que coloquemos esperança na instabilidade da riqueza. Deus permite que estejamos pobres, mas lembra-nos que somos “ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam” (Tiago 2.5). Conhecemos “a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que, pela sua pobreza, nos tornássemos ricos” (2 Coríntios 8.9).

A geração de meus pais e avós era econômica, às vezes muquinha, por medo de sofrer de novo as carências da Grande Depressão ou da Guerra que lhes tirou quase tudo. Uma amiga conta que o avô não admitia que qualquer membro da família guardasse dinheiro separado dele, o qual tinha de controlar tudo, guardando no banco “para garantir a sobrevivência da família”. A maioria de nós tem lendas familiares sobre dinheiro guardado, fortuna desperdiçada, tesouros escondidos e privações reveladas. Muitas vezes, as gerações atuais são perdulárias, pródigas, sem pensar em economia; vivendo gastos acima dos ganhos, ostentando como “essenciais” à própria vida, coisas que os antepassados mais ricos sequer imaginavam possuir.

Nesse clima de comprar “porque merece”, de consumir sempre mais e melhor do que os outros, é que tentamos conviver com a ética protestante em que fomos educados. Somos levados pela enchente dos mesmos três aspectos em que grandes servos de Deus naufragaram: “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 João 2.16) – e, em matéria de presentear e receber no Natal ou em outra data, esses três aspectos geralmente estão presentes!

Uma pessoa que enricou, disse: “Tenho medo de contar o quanto eu ganho, porque, aí, todo mundo vai chover em cima de mim, pedindo ajuda ou empréstimos”. Meu avô dizia que decidiu emprestar apenas o que não o prejudicasse nem magoasse caso a fosse ressarcido. Outra pessoa que vive com um grande legado é extremamente solitária porque se nega a dar e receber, temendo amizades interesseiras.

É difícil, à pessoa que “tem tudo”, viver num clima de gratidão constante — mas somos conclamados a fazer exatamente isso: “Em tudo dai graças”. Na humilhação e na exaltação. Na carência e na prosperidade. No “nada tendo” e no “possuindo tudo”. Quando aprendemos a viver contentes em toda situação não perguntamos: “O que é que vou ganhar?” nem mesmo “O que é que vou ter de dar?” mas 
Que darei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o seu povo... Oferecer-te-ei sacrifícios de ações de graças e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o seu povo, nos átrios da Casa do Senhor, no meio de ti, ó Jerusalém. Aleluia! (Salmos 116.12-19.)
Elizabeth Gomes 

quinta-feira, outubro 11, 2018

DON'T WORRY: BE HAPPY



Nos anos oitentas, uma música de Bobby McFarren, de letra simples e quase sem melodia, apenas um contagiante ritmo caribenho repetitivo de fundo melodioso, teve sucesso no mundo inteiro, e até hoje mexe com gente que está preocupada com a vida, gente que não sabe que rumo tomar – gente comum que enfrenta problemas normais da vida, gente que faz apologia a drogas, sexo livre e qualquer espécie de afirmação do status quo, pessoas colhendo das inconsequências na família, no trabalho, gastos financeiros, nos relacionamentos, nas decisões e falta de decisão em tudo que faz e deixa de fazer – “Don’t worry: be happy” (não se preocupe: seja feliz). Trinta anos depois, ainda soa agradável o mantra que, na verdade, era cantado com outra letra pelos flower children dos anos sessentas, os amantes dos sucessos do cinema dos anos cinquentas e, bota velharia nisso, românticos de todos os tempos.
Eu estava assistindo a uma série canadense sobre uma família de rancheiros criadores e domadores de cavalos, com cenas incrivelmente belas da natureza em volta das montanhas rochosas, nas escarpas, planícies, rios e lagos, e até as praias do Pacífico. A série é apresentada como repleta de bons valores de família, em que os contrastes nas escolhas entre casamento e carreira, cuidar da natureza e dos animais versus poluir e devastar o ambiente, fidelidade em meio a dificuldades e separação e divórcio, novos e seguidos namoros, trabalho árduo produtivo versus indolência e mentiras na vida desde crianças, passando por conflitos e sofrimentos de adolescentes, jovens, adultos maduros imaturos, até relacionamentos de idosos com todos dos outros estágios da vida – tudo faz a série envolvente em que peões trabalham e ganham a vida com dignidade e ricaços ora esbanjam ora vivem a simplicidade na família e suas tramas complicadas. Confesso que eu, boba por uma boa história, fiquei fascinada, e tive dificuldade em ver apenas um ou dois capítulos de cada vez. Mas as fantasias verossímeis o são “true to life” (aí vai mais uma dificuldade para o tradutor), porque embora verdadeiras como a vida, não são verdade para a vida.
Lembrei de uma conversa com amiga prestes a se divorciar, que chorava, dizendo “Ele não me faz mais feliz. Deus não quer a nossa felicidade? ... Tenho de me livrar desse peso ...” A solução seria levantar a cabeça e dar volta por cima, divertir-se até esquecer, afirmar-se para não afundar na lama...
Através dos anos ouvi inúmeros sermões que concluíam: “Aceite a Cristo e você será feliz – todos os seus problemas serão resolvidos”. Mesmo quem não era adepto da teologia da prosperidade dava ideia de que ser cristão verdadeiro implica vida vitoriosa, felicidade perene, alegria inconsequente em tudo que faz ou deixa de fazer. Para o crente brasileiro, essa era uma feliz resposta contra a lúgubre religião masoquista do catolicismo medieval que, por sua vez, se apresentava contra o hedonismo desenfreado do país do carnaval.
A gente não aceita a idolatria de procissões e penitências de um catolicismo sombrio nem a folia doida dos que bebem até cair e vivem num mundo de fantasia – então a gente faz de conta que tudo vai às mil maravilhas; crente tem a salvação da alma, cura do corpo, e uma vida maravilhosa, sem o mínimo problema – se você duvida disso, estoura a bolhinha de sabão e você perde até a salvação...
Hoje tem muitos na igreja que continuam com esse discurso, sem falar nos inúmeros desigrejados que rejeitaram a hipocrisia, mas não encontraram vida verdadeira em Jesus.
Um dos hinos mais tocantes que cantamos é “Sou feliz com Jesus”. Muitas vezes cantamos sem saber que o autor, Dr. Horatio Spafford, advogado bem-sucedido que sustentava missões (especialmente de Dwight L. Moody), escreveu depois de um trágico naufrágio em que perdeu toda sua família: “It is well with my soul”. Uma tradução mais real não diria apenas “sou feliz”, mas “está bem com minh’alma” – mesmo que tudo esteja mal e todos se perderam, meu ser interior está bem porque tudo está nas mãos de um Deus soberano que é bondoso.
Esta semana sentimos o choque de saber de uma jovem família de servos de Deus ceifada por um acidente de carro, em que só ficou vivo o caçula. Tenho certeza que os familiares cristãos ativos, bem como a igreja que Alessandro pastoreava, não estão dizendo “sou feliz” ou “está tudo bem aqui” – mas podem afirmar: “Com minha alma está bem”.
Revendo o livro de Edith Scheaffer sobre “Aflição”, deparei com este parágrafo que expressa sentimentos iguais aos meus:
 Às vezes são dadas idéias tão erradas que não é de admirar que estejamos confusos. Os cristãos têm de ser felizes todo o tempo? Temos de ser realizados sempre? Temos de olhar para dentro e nos examinar para ver se nos conhecemos? A vida deve ser uma jornada centrada no eu? As idéias que nos levam nessa direção são atalhos falsos que levam só para becos sem saída, tornando necessário retraçar os passos e desperdiçando tempo valioso para chegar lá — onde quer que seja esse “lá”. Se cristãos devem ser sempre felizes (se todos os seus males forem curados e tiverem suficiente fé) ..., e nós estivermos tristes (chateados com alguma coisa, doentes... enxaqueca, dor nas costas, preocupados com pessoas que amamos muito, ou sobre decisões que têm de ser tomadas hoje ou amanhã ... odiaríamos ter de definir o que deva ser “realizado ... então a conclusão será que não somos cristãos. Damos um sorriso rápido e dizemos palavras que parecem fazer tudo ficar certo, caso o sorriso seja o que vale e compense essas coisas interiores que pareçam ser o contrario. Em vez de estarmos sensíveis às necessidades de outros... correndo ao Senhor quanto a nossas próprias carências, podemos nos endurecer e viver superficialmente em medo — ou nos afastar de tudo e procurar outra base para nossa vida. Existe o perigo de não sermos verdadeiros... – Edith Schaeffer, AFLIÇÃO, Monergismo, 2018.
O desejo humano de ser feliz vem desde o Éden. Eva foi atraída para o fruto proibido porque este era “bom de comer e agradável de ver” (Gn 3.6). Na competição entre irmãs no casamento polígamo de Jacó, Lia até deu nome a um filho dizendo “é a minha felicidade porque as filhas me terão por venturosa...” Gn 30.13) – e olhe que Aser nasceu da sua escrava Zilpa; ela estava pensando no que outras pessoas (as filhas) pensariam. A lei mosaica previa que o homem recém-casado “ficará livre em casa e promoverá felicidade à mulher que tomou” (Dt 24.5). O salmista descreve como “feliz” quem enche a aljava de filhos (Sl 127.5) e no Salmo seguinte fala sobre a pessoa bem-aventurada porque teme ao Senhor, anda nos seus caminhos, come do trabalho de suas mãos e “será feliz e tudo te irá bem” (128.1-2). Salomão estende o conceito de felicidade ao que acha sabedoria (Pv 3.13), guarda os caminhos do Senhor (Pv 8.32), dá ouvidos ao Senhor (Pv 8.34); se compadece dos pobres (Pv 14.21), confia no Senhor (Pv 16.20), é constante no temor de Deus (Pv 28.14).
Jó disse que sua felicidade foi varrida pelo vento e passou como uma nuvem. Eliú, amigo (!!) de Jó, argumentou que se os justos ouvirem e servirem a Deus, seus dias acabarão em felicidade e delícias (Jó 36.7); o pregador disse: “Vamos, eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade”— mas concluiu com realismo que “também isso era vaidade” (Ec 1.1-2).
Jesus Cristo, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz... (Hb 12.2) Foi só com sua vinda ao mundo tenebroso em que vivemos que veio a alegria dos homens (Lc 2.10), mas esta foi encarnada no “homem de dores, que sabe o que é padecer”. Suas palavras de despedida não são de alegria superficial:
chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome.  Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa. (João 16.20-24) e explicou ter dito isso “para que tenhais paz em mim (v 33).
O apostolo Paulo escreveu sua epístola de maior alegria quando preso, aguardando ser executado em Roma:
"Alegrai-vos no Senhor sempre” (Fp 3.1), descreve-os  como “minha alegria e coroa” (Fp 4.1), pede que completem essa alegria deixando de partidarismo e contendas (2.2), ele mesmo aprendeu o contentamento em Jesus: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.  Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece. (Fp 4.11,12), e "grande fonte de lucro é a piedade com contentamento" (ITm 6.6).
Não somos Jós na vida, nem mesmo Paulos, Pedros, Tiagos ou João. Somos gente comum que suporta, nem sempre com paciência, as aflições que surgem. Se quisermos que a alegria do Senhor seja nossa força, temos muito a pensar sobre essa questão de não nos preocuparmos e ser feliz! Não só com os antigos e os novos da vida, que aprendamos que grande fonte temos: piedade com contentamento!
Elizabeth Gomes

sexta-feira, agosto 24, 2018

MIGRAÇÃO / IMIGRAÇÃO: SÍMBOLOS DO DESPREPARO NACIONAL


Brasileiro é mais estrangeiro do que boi em terra dos outros. Eu mesmo, tenho avoengos vindos de Portugal antes mesmo do Cabral, e, segundo Capistriniano de Abreu, fazendo filhos e piadas de mandarová com as nossas índias. Depois, a família foi crescendo com mais portugueses, espanhóis, uns poucos italianos, uma pitada de flamengos, uma pá de cristãos novos, e deu nisso que em mim vêem: uma personificação do estatuto do imigrante. Fui imigrante na terra do tio Trump, tenho esposa estrangeira e filhos e netos com dupla nacionalidade, e, até, missionários no Japão.

Tudo isso, digo como quem alisa o pescoço do animal antes de aplicar a injeção. Ou, se preferirem os citadinos avessos à roça: como quem chama criança de meu bem antes de mandar brasa na vacina. É que o assunto, aqui, é sobre o ruído da imigração e das fronteiras e os limites dos poderes do estado. 

Vamos lá. Nosso brasilzão sem porteira, País que costumava ser bão, foi formado por gente de tudo quanto é mundo. Eram 30 milhões que sequer davam pra cantar em copa. Aí, veio o “loiro imigrante”, de toda cor de cabelo e forma de olhos, de românticos cassianos ricardos, e o pirlimpimpim do petróleo é nosso, de fabulísticos monteiros lobatos. O cafezal não noivou nem carregou sem eles, nem as cidades tiveram pão, tecido, ferro, letras e músicas. No meu Jahú, aprendi a gostar de Brasileirinho, Caminito, Ya Habibi Ta'ala, Carmen, O Barbeiro de Sevilha, Cortando Estradão, e, é claro, de João de Barro vertendo Disney! 

Agora, na cola do tempo, com 208 milhões de habitantes e uma população mundial de 7,5 bilhões, o cenário mudou de figura. Mudou em termos de quantidade, o que, por sua vez, obriga a mudanças de qualidade. Neste cenário aumentativo, não mudou a visão sócio-política dos mandatonas e do povaréu. Os herdeiros dos mandantes extrativistas portugueses continuaram a extrair o sangue da terra e o ouro do povo. Os mesmos políticos que trocaram o reino pela república somente fizeram mudar os títulos, e o mesmo povo gentil somente viu mudar a ordem e o progresso. Não é assim com a plantação e com a manada que a gente colhe e que a gente ordenha? Entra político, tira político, sai político, sem nenhum respeito ao povo. E o povo, traído, imagina voto livre.

O Brasil jamais foi livre de golpes, tendo mais vices que assumiram a presidência do que presidência de verdade. Mais ditaduras do que governo. Mesmo a América Latina deu à luz algumas gerações de tiranos militaristas, bolivaristas, guevaristas e fidelistas. Foi nesse tempo que a salada mista da política nacional entregou o petróleo para a irmandade do fórum caipira e negou o pré-sal ao povo. A Venezuela, o “melhor” país sul-americano de há pouco, com petróleo e orgulho acima da medida, tomou a oferenda lulista e viu perdoada uma dívida acumulada ao prêmio de uma refinaria. De repente, entra em parafuso, e sua pobreza transborda para o Brasil. 

Do lado de cá da fronteira, coitado, a terrinha de que me ufano sequer tem para os próprios cuidados. Tem quem grite de júbilo e há quem grite de dor. E como brasileiro é mais macho do que mulher de esquerda, a nossa lei abre as fronteiras para quem der e vier. Islâmicos fecham suas fronteiras a quem quer que não lhes seja política e economicamente vantajoso, e abrem os nossos limites; chegam e nem mostram a cara. De um lado, haitianos, bolivianos, indonésios e tantos mais vão chegando, e, de outro, a nossa exportação de brazucas para o Canadá, Estados Unidos, Europa, Japão, Austrália e o restante do mundo. Onde é que não aportam as nossas naus?

Você é contra? É a favor? E que bicho deu hoje? É fato, tem mais chão para correr do que sapato pra calçar.

A questão do refugiado é um dos temas centrais da Bíblia — é redentivo, por assim dizer. Isso, em ambos os sentidos, vertical e horizontal. Como é que é?! É isso mesmo! É redentivo porque a humanidade, fora dos limites do Éden, é basicamente estrangeira, necessitada da promessa do Redentor Filho de Deus, descendente da mulher segundo a promessa (cf. Gn 3,15; Gl 3.18). Somos estrangeiros e peregrinos a caminho de outra terra. E é redentivo no sentido de que o assunto da imigração\emigração carece de resgate em relação às disposições sócio-políticas atuais e às inclinações afetivas naturais.

A luz do Criador e Redentor projeta sombras na história, as quais ele trabalha como antecipações de coisas que hoje experimentamos e que nos são especialmente redentivas. A igreja de todas as épocas deveria ser luz e sal para um mundo em decadência. Deveria ser exemplo de caráter individual e de unidade social. Ao ouvir a sua voz, o mundo deveria temer a Deus em função de um testemunho vívido. A igreja também deveria honrar os ministros da espada, ordenados por Deus. Hoje, porém, a igreja vê-se cerceada em todos os lugares por fronteiras que podem inibir a Grande Comissão. Biblicamente, a igreja deveria honrar a Deus sobre quaisquer césares, e cumprir a sua missão. Então, como é que fica?

O pai da fé, Abraão, saiu de sua terra e parentela para uma herança além fronteiras, por ordem de Deus. Jacó e família migraram para o Egito por causa de questões geofisiológicas, por vontade de Deus. Moisés liderou os israelitas, em oposição ao faraó, vagando por 40 anos optativos entre povos e governos, até a terra das conquistas, tudo por ordem de Deus. O mesmo Deus soberano, antes apresentado por Moisés como o Senhor Criador, então, apresentou-se como Senhor Redentor. Fez isso exatamente ao declinar a Lei, a qual o Senhor Jesus, o Filho encarnado, condensou no tema do amor a Deus e amor aos homens. Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão (Ex 20.2).

À luz da graça de Deus, e à sombra da fé em Cristo Jesus, o seu amor alcança nossa vida no lugar de nossa habitação em contrapartida à Grande Comissão. Ele diz: Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito (Dt 10.19). E diz também: 
Quanto à congregação, haja apenas um estatuto, tanto para vós outros como para o estrangeiro que morar entre vós, por estatuto perpétuo nas vossas gerações; como vós sois, assim será o estrangeiro perante o Senhor. A mesma lei e o mesmo rito haverá para vós outros e para o estrangeiro que mora convosco (Nm 15.15-16).

De novo, como é que fica? A resposta ao aparente dilema será mais fácil se, em vez de comprar a pergunta por atacado, colocarmos a questão na moldura certa. De fato, o problema não está no imigrante nem na fronteira, mas na governança e nos governados. O dilema é moral, não biológico nem cultural. Poythress levanta uma questão pertinente: qual a diferença natural entre os de dentro e os de fora? E mais, o que é “natural” ? (Redeeming Sociology, 182.) A imigração para o Brasil trouxe, de diferentes culturas muita comida boa: pão de ló, bacalhau, pizza, sashimi, kibe, strudel e daí em diante. Não fez senão boa diferença na sociedade. Os efeitos do pecado, sim, causam mudanças para pior. Nesse sentido, a herança do pecado de indivíduos muda a nossa vida. De modo maior, a herança de idéias pecaminosas muda ainda mais a sociedade. A idolatria individual é extremamente nociva ao indivíduo e ameaça a comunidade; a idolatria social é sumamente nociva ao indivíduo e ao coletivo. Por isso mesmo a Bíblia advertiu quanto às religiões estrangeiras. 

A nova Lei de Migração (2017) contempla poucas coisas em muitas letras, as quais abrem caminho para boas considerações. Uma delas é a da motivação subjacente. Outra é a questão de se a promulgação de uma lei assegura a transformação moral social do ser humano. As ocorrências de Roraima mostram que a lei de proteção do imigrante não mudou os marcos do coração pacaraimense. Certamente, a globalização facilitou e tornou mais atraente a migração que hoje é discutida em todo o mundo. No seu bojo, porém, vieram idéias, muitas boas e muitas estapafúrdias. De um lado, a nobre defesa do necessitado; do outro, a defesa torpe do contrário, isto é, do bandido, do ladrão de terras, do invasor de casas, do assassinato de bebês, do desenfreamento sexual, do desarmamento do homem de bem e do armamento do homem mau, da proteção do animal mais do que do homem, da imigração sem telhado nem beiral e daí em frente. Nossos governos não promoveram infraestrutura legal ou física para a recepção de imigração em massa.

A Bíblia estabelece leis sobre essas coisas, como, por exemplo: Quando edificares uma casa nova, far-lhe-ás, no terraço, um parapeito, para que nela não ponhas culpa de sangue... (Dt 22.8); Das cidades, pois, que dareis aos levitas, seis haverá de refúgio, as quais dareis para que, nelas, se acolha o homicida... (Nm 35.6). Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo (Ex 20.17). Como essas, há muito mais que, submetido a bom tratamento hermenêutico (cf. o Sermão do Monte), dará à igreja um parâmetro para influência como luz e sal da sociedade.

Assim, fica aí uma moldura sobre a qual meditar. Se o estrangeiro for amigo, a gente o recebe em casa. Se for inimigo em termos pessoais, nós o amamos sempre e nos dispomos a ajudá-lo, como a qualquer um da terra. Caso seja alguém faccioso que não tome tento depois de admoestado, não precisaremos conviver com ele (Tt 3.10). Amar, nesse caso, não é gostar, mas fazer o bem. Se o estrangeiro for inimigo de Deus, então, não deverá ser recebido em casa. Finalmente, se ele for uma ameaça à nação, seu caso terá de ser bem estudado. O crente bem avisado terá de tomar uma posição de testemunho, e, se não souber como proceder, deverá buscar o auxílio da igreja e dos seus grupos especializados. Aqui, cuidado para não acreditar em indivíduos que saíram de nós, mas não eram dos nossos, os quais pervertem casas inteiras.

Para todas essas coisas, muita oração.

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, agosto 16, 2018

DA BOCA PRA FORA



Ainda que seja um dito antigo, esse da boca para fora a gente entende. É fala sem crença com gosto de desinteresse, de falta de sentimento, de hipocrisia mesmo. Há, contudo, um outro de fora  da boca, dito do coração do Senhor, a que deveríamos atentar: “não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem (Mt 15.11). Sim, os lábios de Jesus são firmes e sua língua é severa quando se trata de boca e coração: “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45).

Nos tempos do meu retorno à escola, em Filadélfia, ouvi umas lamúrias de um crente fraco e me deixei tomar de dó. Não hesitei, e fui falando: Eu dou uma oferta. Pulou da boca que nem soluço. O cara era abastado, chorão e pidão, e, eu, um raspador de moedas do fundo do cofrinho; um agradador inveterado. Tive de cumprir a promessa, claro, afinal, honestidade é essencial. Honesto, sim, mas muito boca mole. Você diria que sou coração mole? Engano. Antes fosse. Fui boca mole e paguei para aprender.

Se tivesse compreendido a fala do Sábio de Provérbios, teria salvado os meus $100! Teria redimido mil outros valores do coração! Muitos pensam que há sabedoria em Pv 4.23: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida”. De fato, é sabedoria que transborda. É um daqueles axiomas assumidos como paradigmas para o aconselhamento bíblico. A coisa é que as partes que transbordam são tão importantes como o conteúdo inicial. A fonte e rio mantêm a mesma relação da teoria e a sua implementação. Considere o restante do texto:
Desvia de ti a falsidade da boca e afasta de ti a perversidade dos lábios. Os teus olhos olhem direito, e as tuas pálpebras, diretamente diante de ti. Pondera a vereda de teus pés, e todos os teus caminhos sejam retos. Não declines nem para a direita nem para a esquerda; retira o teu pé do mal (Pv 4.24-27).
Quem é um pouco mais velho há de lembrar-se das reuniões infantis nas quais se cantava: cabeça, ombro, joelho e pé … Olhos ouvidos boca e nariz… Na igreja, ensinavam as crianças, acrescentando: louvemos ao Senhor. Nós, e os pequenos, ficávamos com a ideia de que louvar é cantar, bater palmas, balançar os joelhos, e pestanejar. Isso jamais será transbordamento de águas vivas—quando muito, um vazamento perigoso.

Água viva que corre do coração é a que jorra de uma boca submissa à verdade de Deus e cujos lábios confessam o nome do Senhor, segundo a Escritura. Falam a verdade em amor “porque somos membros uns dos outros”. Águas que correm dos olhos fixos no Autor da nossa salvação e cujas pálpebras estão abertas à divina esperança. São tão fortes essas águas que forçam as pernas nas “veredas da justiça por amor de seu nome” e conduzem-nos nos caminhos retos. Enfim, os poderes que procedem do coração deveriam nos motivar ao bem e, jamais, ao mal. Deveriam partir de uma cognição transformada em Cristo para um comportamento digno da obra que o seu Espírito opera em nossa vida.

Você já ouviu o lamento: todo mundo fala das pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo? Pois é, cada trambolhão! Em sala de aula, décadas atrás, discuti com um professor sobre os modos da verdade e da mentira. O professor era John Frame. Advinha quem estava certo? De outra vez, confrontei Udo Middleman, genro de Francis Schaffer, acerca de sua visão sobre trabalho e recompensa. De novo, enfiei os pés na boca. Logo que comecei os estudos de pós graduação, exibi meus parcos livros, em uma língua que não conheciam, a David Powlison e Ed Welch. Você nem precisa ficar com vergonha alheia. Conto essas minhas vergonhas para não revelar as muitas que já testemunhei, e para abrir os olhos do leitor. Como disse o saudoso presbítero Filemon Cruvinel, se todos nós sentirmos vergonha juntos (mais ou menos isso), a gente ri, e pronto. E digo mais, a gente confessa a vergonha e abandona as águas do pecado, as quais apodrecem o coração de boca suja. As águas novas, chuvas de “bênçãos nos lugares celestiais em Cristo”, lavam e purificam o nosso coração. Lavam e purificam com o sangue de Cristo por meio da confissão e com a água da Palavra por meio da operação do Espírito.

É de menino que se torce o pepino, diziam, e eu nunca entendi bem esse negócio, mas tem algum sentido. Se for criado um bom gosto pelas veredas em que deve andar, isto é, por meio de um exemplo de verbo e vida, sem provocação de ira, a criança não se afastara do caminho. Faz bem, então que aprendamos com elas: “Cuidado boquinha o que fala … Cuidado olhinho o que vê … Cuidado pesinho onde anda…”  e, ao dizer que “o Salvador está olhando pra você”, deixe o tom de ameaça e lembrem-nas da confissão e do perdão. 
Isso, sim, é água na sede!


Wadislau Martins Gomes


segunda-feira, agosto 13, 2018

MIL ANDORINHAS NÃO FAZEM VERÃO


Até a cegonha no céu conhece os seus tempos determinados; e a rola, e o grou e a andorinha observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor (Jr 8:7).
Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha seus filhos, até mesmo nos teus altares, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu (Sl 84:3).

Não sou um homem de oração. Infelizmente. Porque ainda nesta carne, tendo à negligência, à preguiça, à descrença e a toda sorte de rebeldia. É fogo, irmão! Minha oração é fraca, minha disposição para aceitar a resposta de Deus sequer aceita os exercícios espirituais ordenados na Escritura. Tendo também a trocar os termos das ordenanças e promessas do Senhor por desejos do meu coração. Aí, a coisa complica mais, pois as idolatrias que povoam a minha mente tomam corpo nas orações: substituo obediência por legalismo e, devoção, por ativismo – às vezes, pleno marasmo, e acabo discutindo e negociando com Deus acerca do que é bom para mim. Sou mau, não é? E foi por isso mesmo que Cristo precisou morrer por mim, para que eu recebesse toda sorte de bênção nos lugares celestiais, entre elas, o acesso ao Pai, em oração. O Espírito que procede do Pai e do Filho convence-me de que o poder se aperfeiçoa na fraqueza e de que quando sou fraco é que sou forte. Pela graça, ainda que eu não saiba orar como convém, o Espírito Santo esclarece a minha alma, intercede por mim e encaminha-me no entendimento da vontade de Deus. De fato, não deveríamos orar para convencer a Deus de alguma coisa, mas para aprender a concordar com a sua vontade. 

Mil orações, mil pessoas orando, mil reuniões de oração não instruem o Senhor Criador e Redentor. Antes, a oração de homens como nós, como foi Elias, feita segundo a vontade do Pai por meio do Filho e da assistência do Espírito, recebe do Senhor a bênção da promessa. Pessoas que conhecem a própria fraqueza e aprendem a orar, fazem reuniões de oração, mas reuniões de oração não fazem pessoas de oração.

O período acima causou um mimimi, que me pegou de surpresa. Na igreja que auxilio, a IPP (Igreja Presbiteriana Paulistana) mantemos, após o culto público, um tempo de perguntas e respostas sobre a mensagem e o próprio culto. Nessa oportunidade, uma senhora que começava a frequentar as reuniões, pôs-se em pé, e questionou minha espiritualidade. Surpreso ao ser interpelado de maneira menos amorosa, fiquei constrangido (vergonha alheia) com a quietude do marido ao lado. Respeitosamente, respondi apenas que o objetivo da mensagem, baseada no Pai Nosso, era o de despertar em nós todos, principalmente em mim, uma espiritualidade qualificada. Com isso, quis enfatizar o crescimento em santidade. A verdadeira espiritualidade consiste em viver de conformidade com a vontade de Deus, na Escritura e no Espírito. As tentativas de espiritualidade promovidas pela carne, no mundo e na igreja visível, são compostas de ações religiosas sem um redentor. São exibições não recomendadas de obras da carne. Daí, o Senhor ter dito que, em vez de orarmos para sermos vistos pelos homens, deveríamos orar no segredo do nosso quarto. A oração privada instrui a oração pública e transmite graça. Quem aprende a orar em secreto não pede oração pública que revele fraquezas e pecados de outras pessoas, irmãos, marido esposa, filhos, e daí em diante. Assim, boas reuniões de oração resultam do exercício espiritual que promove o fruto do Espírito. “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5:22-23).

O que digo da comunhão com Deus exercitada na oração é verdadeiro também em termos de todas as atividades derivadas do fruto do Espírito, sejam para o crescimento do ser interior sejam para o crescimento do corpo de Cristo, qualitativo ou quantitativo. Como se vê, o texto bíblico, contrário ao pensamento humano, não separa atos do corpo e atos da alma, mas requer que a pessoa regenerada haja exteriormente de conformidade com a santidade interior: 
Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior; para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém. (Ef 3:16-21).

Conforme palavras do próprio Senhor Jesus, o indivíduo regenerado e membro do corpo de Cristo, tem de ser:

  1. humilde ou pobre de si mesmo, 
  2. choroso com o que faz Deus chorar, 
  3. manso ou abnegado quanto aos próprios direitos, 
  4. faminto e sedento da justiça de Deus,
  5. misericordioso, 
  6. limpo de coração por meio da confissão com base na obra de Cristo, 
  7. pacificador, 
  8. disposto a sofrer perseguição por cauda da justiça do reino, 
  9. contente com a disposição de Deus para a sua vida, e
  10. sal da terra e luz do mundo – em função do propósito de Deus para o indivíduo e igreja e da igreja no mundo. (Cf. Mt 5: 2 a 13.)


Assim, nosso entendimento na formação da IPP, foi que a pessoa em quem o Espírito opera essas coisas, está apta a promover as atividades requeridas no crescimento primeiro dos membros individualmente e, depois, do corpo de Cristo. A diretriz do processo apresenta um modelo seminal quádruplo: instrução, comunhão, a adoração e serviço. Se lembrarmos dos processos ditados na Palavra, reconheceremos o que foi dito: que é vital o conhecimento do Senhor e sua vontade, revelados na Bíblia; que o amor é o motivador primário para o indivíduo membro e para os relacionamentos do corpo; que a adoração de Deus requer instrução e comunhão; e que o serviço aos da família da fé e o serviço aos de fora é fruto dessa integração de fé e prática.

Como eu disse, a minha oração é fraca, também na comunicação às pessoas. Por isso digo, de novo, noutras palavras: uma andorinha não faz verão nem uma reunião fará mais do que entretenimento. No entanto, uma pessoa nas mãos do Senhor será bem-aventurada tanto na frutificação de obras internas quanto de obras externas. A oficialização dos diversos trabalhos internos e externos da igreja poderá acontecer quando a planta estiver arraigada e fundada em amor, e pudermos compreender com a igreja qual sejam as medidas do plano de Deus. Creia nisso—o Senhor faz e fará a sua obra abundantemente mais do que pedimos ou pensamos.


Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, agosto 01, 2018

ALEKSANDR ISAYEVICH SOLZHENITSYN



Nos anos setentas, eu estava encantado com Edith e Francis Schaeffer. Li seus livros com avidez. Chegamos a publicar o Deus que intervém, com ABU, e, depois, somente pela Ed. Refúgio. Mais tarde, publicamos o Manifesto Cristão.

Quando ainda me preparava para a nossa aventura editorial, li, no “estadão”, um discurso de Soljenítsin proferido na Harvard (Harvard Commencement Address,1978). Sinto, ainda hoje, a emoção com que escrevi ao editor do periódico, apontando semelhanças com o pensamento de Schaeffer. Descobri, então, que o escritor russo era cristão, amigo de Rookmaaker e de Schaeffer.

Aleksandr Soljenítsin (1918-2008) esteve internado em campos de trabalho forçado de 1945 a 1953, devido a críticas a Stalin. Libertado na "abertura" que se seguiu discurso de Krutchev contra os crimes estalinistas, lecionou e escreveu nos anos 50. "Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, classificado por Aleksandr Tvardovski, seu editor na revista Novy Mir, em 1962, como um 'clássico', teve a sua publicação expressamente autorizada por Krutchev e foi estudado nas escolas (Wook.pt). A publicação de Pavilhão de cancerosos e a atribuição do Prêmio Nobel da Literatura, em 1970 resultou em sua expulsão da União Soviética, em 1974, vivendo na Suíça, na França e nos Estados Unidos até à queda do Muro de Berlim. Regressou a Moscow, em 1994. "As suas obras marcaram indelevelmente a literatura russa do século xx, inserindo-se na grande tradição narrativa de nomes como Tchekov, Tolstoi e Dostoievski" (cit.).

Recentemente, soube, num papo com universitários, que os escritos de Soljenítsin não eram suficientemente conhecidos por, pelo menos, as duas última gerações estudantis. Há quem reconheça apenas a dificuldade do nome grafado de diversas maneiras em diferentes lugares, mas sem ligar o nome ao trabalho (veja: http://religion.wikia.com/wiki/Aleksandr_Solzhenitsyn). Uma pena o desconhecimento, pois a sua obra é de extrema beleza literária, de esclarecedora visão política, de encorajamento na vida cristã em um mundo em conflito, e de motivação para a evangelização. Veja o que escrevi em Sal da terra em terras do brasis (Brasília, Ed. Monergismo, 3a. Ed., 2014, p. 371):
Alexander Soljenitsin exemplifica essas coisas em uma das páginas mais eloquentes de Pavilhão de Cancerosos: ele relata uma conversa entre Shulubin e Kostoglov, quando discutiam sobre a motivação humana para prosseguir crendo num governo despótico:
"Bem, chamemos a isso uma forma mais refinada do instinto gregário, o medo de ficar sozinho, fora da comunidade. Não há nada de novo nisso. Francis Bacon estabeleceu sua doutrina dos ídolos já no Século 16. Dizia que as pessoas não se inclinam a viver de pura experiência, preferindo poluir essa experiência com preconceitos. Esses preconceitos são os ídolos. Os ídolos da tribo, os ídolos das cavernas é como Bacon os achava ... Os ídolos da praça pública são os erros resultantes da comunicação e associação dos homens, uns com os outros. São aqueles que o homem comete porque se tornou costume usar certas frases e fórmulas para violentar a razão". (SOLJENITZIN, Alexander. Pavilhão dos Cancerosos. RJ, Editora Expressão e Cultura, 1975, pp. 551, 552.)
É preciso que haja honestidade na evangelização para que a mensagem seja centrada em Cristo e não em qualquer outra coisa, seja virtude cristã seja vício humano, pois do contrário nossa tendência idólatra proporá outros redentores que não Deus. Ninguém jamais evitará ser autobiográfico em seu discurso, e a audiência, mesmo sem consciência disso, sempre capta a incongruência entre o que se diz e o que se vive. Os que tiverem o coração lavado diante do Senhor por meio da confissão serão sensíveis ao Espírito Santo para discernir; os faltos e os ímpios, exatamente por causa das feridas do pecado, como um esfolamento no corpo exposto ao vento, serão sensíveis aos humores da carne.



Wadislau Martins Gomes 

quinta-feira, julho 19, 2018

EXORTAÇÃO HUMILHANTE E GLORIOSA


➤ 1 Coríntios 3.18 a 4.16

Para aquecer a mente, vai um termo para comparação. As eleições já estão às portas! Vêm com algum atraso com respeito à propaganda e com mais maquilagem do que o conto do Ipiranga. As margens populares, menos plácidas, sequer atentam ao grito das promessas enganosas de siglas e de refrões antigos. Como vai o ditado: mudam os cães, permanecem as coleiras. Tem coisa pior? O pior é que tem! 

A Escritura diz que os espertos deste mundo são apanhados por Deus “na própria astúcia deles”. São tão enganadores que enganam a si mesmos. Deus os tem por loucos, pois conhece seus pensamentos vãos. É preciso lembrar de que todo voto é uma escolha moral autobiográfica. Assim, na hora de escolher os candidatos à governança, teremos de, antes, votar no coração: escolheremos a estultícia humana ou a sabedoria de Deus?

Daí, então, em quem votar? A resposta terá de vir da nossa consciência diante do Rei Jesus—e cada um tem a obrigação de pesquisar para conhecer mais e escolher bem. Para isso, a Palavra de Deus descreve o homem bom e o homem mau, a fim de que, sob a orientação do Espírito em humilde e obediente oração, cada um declina o seu voto.

Essas coisas valem também para os eleitos da fé. Os escolhidos de Deus são também os eleitores dos enviados do Senhor. Ao escolher os que hão de expor a Palavra e reger o corpo de Cristo, deveríamos ter maior cuidado do que em relação às coisas temporais. Os ministros deste mundo, instalados por Deus, afetam a vida que perece no pecado, nos limites da sua decadência. Os “ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” afetam a vida eterna, a que é agora e a que está por vir, devendo ser fiéis na palavra e no trato. 

Aí é que está a diferença entre a consciência do regenerado e a do não regenerado: o não regenerado não pode escapar ao engano e ao autoengano. O regenerado, por sua vez, pode deixar de enganar e de enganar-se. “Ninguém se engane a si mesmo”, diz a Bíblia, e aponta a motivação do coração: ou nos gloriamos em homens ou em Deus.

A este ponto, o foco da história e da notícia volta-se inteiramente para a consciência. Qualquer escolha—seja partidária seja ideológica seja expediente seja senso romântico de bondade seja ciência seja qualquer outra coisa—terá de levar em conta a luta que se trava nos lugares ocultos nas ruas e nos corações. Novamente, “ninguém se engane a si mesmo … Ninguém se glorie nos homens”, quer em outros quer em si mesmo. 

Na igreja de Corinto, uns votavam em Paulo, outros em Apolo, outros em Cefas, e, outros em Cristo, e o problema não residia na escolha, mas no autoengano da exclusividade em termos humanos. Somente Deus é exclusivo em sua singularidade e inclusivo em seu amor. Por isso mesmo, a  autoglorificação é engano e autoengano, pois sequer tem realidade própria em que se sustente. 

Nas escolhas da carne, não nos baseamos na soberania de Deus, mas no nosso próprio juízo para estabelecer quem não me agrada, barrando-o de aparecer no nosso horário eleitoral (conversas, citações, palestras, e daí em diante). Esquecemo-nos de que pessoas e coisas, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é” nosso, e nós, “de Cristo, e Cristo, de Deus”.

É duro sabermo-nos vaidosos julgadores de pessoas e de situações, baseados na inerrância e infalibilidade de nossa própria consciência. Se alguma coisa nos fere—gosto, culpa, inveja, medo—rápidos votamos contra ou pedimos o impedimento, em franca desobediência ao preceito bíblico: 
Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro. 

Paulo diz estas coisas, politicamente incorretas para os legalistas e outros incrédulos, com cunho bem pessoal, nominando-se e aos tais. Ele o faz, entretanto, no Senhor: 
Porque de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor”—isso, depois de dizer: “a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo.

Além da ousadia para defender-se do desprezo que alguns lhe dedicam em função do mesmo legalismo (que é descrença e culto de si mesmo), Paulo exorta com a autoridade do Espírito, no registro bíblico. Isso é soberba, diz ele, de quem recebeu do alto por meio do mestre muito do que tem, e sente-se rico, de nada mais precisando. Quanto a ele mesmo, o apóstolo diz: 
Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos. 

Ele não escreve isso para envergonhar quem quer que seja, mas admoesta como pai ao filho, para que a glória seja de Deus e não de homens. 

Quanto ensino! Quanto aprendizado! Quanta humilhação da minha própria alma! Quanta glorificação do Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Diante de tamanha piedade e contrição, o Espírito faz-me clamar: 
Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários [quer o Adversário dos meus pecados quer meus adversários pares], unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre (Salmo 23.5 e 6).
Wadislau Martins Gomes