quinta-feira, outubro 11, 2018

DON'T WORRY: BE HAPPY



Nos anos oitentas, uma música de Bobby McFarren, de letra simples e quase sem melodia, apenas um contagiante ritmo caribenho repetitivo de fundo melodioso, teve sucesso no mundo inteiro, e até hoje mexe com gente que está preocupada com a vida, gente que não sabe que rumo tomar – gente comum que enfrenta problemas normais da vida, gente que faz apologia a drogas, sexo livre e qualquer espécie de afirmação do status quo, pessoas colhendo das inconsequências na família, no trabalho, gastos financeiros, nos relacionamentos, nas decisões e falta de decisão em tudo que faz e deixa de fazer – “Don’t worry: be happy” (não se preocupe: seja feliz). Trinta anos depois, ainda soa agradável o mantra que, na verdade, era cantado com outra letra pelos flower children dos anos sessentas, os amantes dos sucessos do cinema dos anos cinquentas e, bota velharia nisso, românticos de todos os tempos.
Eu estava assistindo a uma série canadense sobre uma família de rancheiros criadores e domadores de cavalos, com cenas incrivelmente belas da natureza em volta das montanhas rochosas, nas escarpas, planícies, rios e lagos, e até as praias do Pacífico. A série é apresentada como repleta de bons valores de família, em que os contrastes nas escolhas entre casamento e carreira, cuidar da natureza e dos animais versus poluir e devastar o ambiente, fidelidade em meio a dificuldades e separação e divórcio, novos e seguidos namoros, trabalho árduo produtivo versus indolência e mentiras na vida desde crianças, passando por conflitos e sofrimentos de adolescentes, jovens, adultos maduros imaturos, até relacionamentos de idosos com todos dos outros estágios da vida – tudo faz a série envolvente em que peões trabalham e ganham a vida com dignidade e ricaços ora esbanjam ora vivem a simplicidade na família e suas tramas complicadas. Confesso que eu, boba por uma boa história, fiquei fascinada, e tive dificuldade em ver apenas um ou dois capítulos de cada vez. Mas as fantasias verossímeis o são “true to life” (aí vai mais uma dificuldade para o tradutor), porque embora verdadeiras como a vida, não são verdade para a vida.
Lembrei de uma conversa com amiga prestes a se divorciar, que chorava, dizendo “Ele não me faz mais feliz. Deus não quer a nossa felicidade? ... Tenho de me livrar desse peso ...” A solução seria levantar a cabeça e dar volta por cima, divertir-se até esquecer, afirmar-se para não afundar na lama...
Através dos anos ouvi inúmeros sermões que concluíam: “Aceite a Cristo e você será feliz – todos os seus problemas serão resolvidos”. Mesmo quem não era adepto da teologia da prosperidade dava ideia de que ser cristão verdadeiro implica vida vitoriosa, felicidade perene, alegria inconsequente em tudo que faz ou deixa de fazer. Para o crente brasileiro, essa era uma feliz resposta contra a lúgubre religião masoquista do catolicismo medieval que, por sua vez, se apresentava contra o hedonismo desenfreado do país do carnaval.
A gente não aceita a idolatria de procissões e penitências de um catolicismo sombrio nem a folia doida dos que bebem até cair e vivem num mundo de fantasia – então a gente faz de conta que tudo vai às mil maravilhas; crente tem a salvação da alma, cura do corpo, e uma vida maravilhosa, sem o mínimo problema – se você duvida disso, estoura a bolhinha de sabão e você perde até a salvação...
Hoje tem muitos na igreja que continuam com esse discurso, sem falar nos inúmeros desigrejados que rejeitaram a hipocrisia, mas não encontraram vida verdadeira em Jesus.
Um dos hinos mais tocantes que cantamos é “Sou feliz com Jesus”. Muitas vezes cantamos sem saber que o autor, Dr. Horatio Spafford, advogado bem-sucedido que sustentava missões (especialmente de Dwight L. Moody), escreveu depois de um trágico naufrágio em que perdeu toda sua família: “It is well with my soul”. Uma tradução mais real não diria apenas “sou feliz”, mas “está bem com minh’alma” – mesmo que tudo esteja mal e todos se perderam, meu ser interior está bem porque tudo está nas mãos de um Deus soberano que é bondoso.
Esta semana sentimos o choque de saber de uma jovem família de servos de Deus ceifada por um acidente de carro, em que só ficou vivo o caçula. Tenho certeza que os familiares cristãos ativos, bem como a igreja que Alessandro pastoreava, não estão dizendo “sou feliz” ou “está tudo bem aqui” – mas podem afirmar: “Com minha alma está bem”.
Revendo o livro de Edith Scheaffer sobre “Aflição”, deparei com este parágrafo que expressa sentimentos iguais aos meus:
 Às vezes são dadas idéias tão erradas que não é de admirar que estejamos confusos. Os cristãos têm de ser felizes todo o tempo? Temos de ser realizados sempre? Temos de olhar para dentro e nos examinar para ver se nos conhecemos? A vida deve ser uma jornada centrada no eu? As idéias que nos levam nessa direção são atalhos falsos que levam só para becos sem saída, tornando necessário retraçar os passos e desperdiçando tempo valioso para chegar lá — onde quer que seja esse “lá”. Se cristãos devem ser sempre felizes (se todos os seus males forem curados e tiverem suficiente fé) ..., e nós estivermos tristes (chateados com alguma coisa, doentes... enxaqueca, dor nas costas, preocupados com pessoas que amamos muito, ou sobre decisões que têm de ser tomadas hoje ou amanhã ... odiaríamos ter de definir o que deva ser “realizado ... então a conclusão será que não somos cristãos. Damos um sorriso rápido e dizemos palavras que parecem fazer tudo ficar certo, caso o sorriso seja o que vale e compense essas coisas interiores que pareçam ser o contrario. Em vez de estarmos sensíveis às necessidades de outros... correndo ao Senhor quanto a nossas próprias carências, podemos nos endurecer e viver superficialmente em medo — ou nos afastar de tudo e procurar outra base para nossa vida. Existe o perigo de não sermos verdadeiros... – Edith Schaeffer, AFLIÇÃO, Monergismo, 2018.
O desejo humano de ser feliz vem desde o Éden. Eva foi atraída para o fruto proibido porque este era “bom de comer e agradável de ver” (Gn 3.6). Na competição entre irmãs no casamento polígamo de Jacó, Lia até deu nome a um filho dizendo “é a minha felicidade porque as filhas me terão por venturosa...” Gn 30.13) – e olhe que Aser nasceu da sua escrava Zilpa; ela estava pensando no que outras pessoas (as filhas) pensariam. A lei mosaica previa que o homem recém-casado “ficará livre em casa e promoverá felicidade à mulher que tomou” (Dt 24.5). O salmista descreve como “feliz” quem enche a aljava de filhos (Sl 127.5) e no Salmo seguinte fala sobre a pessoa bem-aventurada porque teme ao Senhor, anda nos seus caminhos, come do trabalho de suas mãos e “será feliz e tudo te irá bem” (128.1-2). Salomão estende o conceito de felicidade ao que acha sabedoria (Pv 3.13), guarda os caminhos do Senhor (Pv 8.32), dá ouvidos ao Senhor (Pv 8.34); se compadece dos pobres (Pv 14.21), confia no Senhor (Pv 16.20), é constante no temor de Deus (Pv 28.14).
Jó disse que sua felicidade foi varrida pelo vento e passou como uma nuvem. Eliú, amigo (!!) de Jó, argumentou que se os justos ouvirem e servirem a Deus, seus dias acabarão em felicidade e delícias (Jó 36.7); o pregador disse: “Vamos, eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade”— mas concluiu com realismo que “também isso era vaidade” (Ec 1.1-2).
Jesus Cristo, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz... (Hb 12.2) Foi só com sua vinda ao mundo tenebroso em que vivemos que veio a alegria dos homens (Lc 2.10), mas esta foi encarnada no “homem de dores, que sabe o que é padecer”. Suas palavras de despedida não são de alegria superficial:
chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome.  Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa. (João 16.20-24) e explicou ter dito isso “para que tenhais paz em mim (v 33).
O apostolo Paulo escreveu sua epístola de maior alegria quando preso, aguardando ser executado em Roma:
"Alegrai-vos no Senhor sempre” (Fp 3.1), descreve-os  como “minha alegria e coroa” (Fp 4.1), pede que completem essa alegria deixando de partidarismo e contendas (2.2), ele mesmo aprendeu o contentamento em Jesus: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.  Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece. (Fp 4.11,12), e "grande fonte de lucro é a piedade com contentamento" (ITm 6.6).
Não somos Jós na vida, nem mesmo Paulos, Pedros, Tiagos ou João. Somos gente comum que suporta, nem sempre com paciência, as aflições que surgem. Se quisermos que a alegria do Senhor seja nossa força, temos muito a pensar sobre essa questão de não nos preocuparmos e ser feliz! Não só com os antigos e os novos da vida, que aprendamos que grande fonte temos: piedade com contentamento!
Elizabeth Gomes

sexta-feira, agosto 24, 2018

MIGRAÇÃO / IMIGRAÇÃO: SÍMBOLOS DO DESPREPARO NACIONAL


Brasileiro é mais estrangeiro do que boi em terra dos outros. Eu mesmo, tenho avoengos vindos de Portugal antes mesmo do Cabral, e, segundo Capistriniano de Abreu, fazendo filhos e piadas de mandarová com as nossas índias. Depois, a família foi crescendo com mais portugueses, espanhóis, uns poucos italianos, uma pitada de flamengos, uma pá de cristãos novos, e deu nisso que em mim vêem: uma personificação do estatuto do imigrante. Fui imigrante na terra do tio Trump, tenho esposa estrangeira e filhos e netos com dupla nacionalidade, e, até, missionários no Japão.

Tudo isso, digo como quem alisa o pescoço do animal antes de aplicar a injeção. Ou, se preferirem os citadinos avessos à roça: como quem chama criança de meu bem antes de mandar brasa na vacina. É que o assunto, aqui, é sobre o ruído da imigração e das fronteiras e os limites dos poderes do estado. 

Vamos lá. Nosso brasilzão sem porteira, País que costumava ser bão, foi formado por gente de tudo quanto é mundo. Eram 30 milhões que sequer davam pra cantar em copa. Aí, veio o “loiro imigrante”, de toda cor de cabelo e forma de olhos, de românticos cassianos ricardos, e o pirlimpimpim do petróleo é nosso, de fabulísticos monteiros lobatos. O cafezal não noivou nem carregou sem eles, nem as cidades tiveram pão, tecido, ferro, letras e músicas. No meu Jahú, aprendi a gostar de Brasileirinho, Caminito, Ya Habibi Ta'ala, Carmen, O Barbeiro de Sevilha, Cortando Estradão, e, é claro, de João de Barro vertendo Disney! 

Agora, na cola do tempo, com 208 milhões de habitantes e uma população mundial de 7,5 bilhões, o cenário mudou de figura. Mudou em termos de quantidade, o que, por sua vez, obriga a mudanças de qualidade. Neste cenário aumentativo, não mudou a visão sócio-política dos mandatonas e do povaréu. Os herdeiros dos mandantes extrativistas portugueses continuaram a extrair o sangue da terra e o ouro do povo. Os mesmos políticos que trocaram o reino pela república somente fizeram mudar os títulos, e o mesmo povo gentil somente viu mudar a ordem e o progresso. Não é assim com a plantação e com a manada que a gente colhe e que a gente ordenha? Entra político, tira político, sai político, sem nenhum respeito ao povo. E o povo, traído, imagina voto livre.

O Brasil jamais foi livre de golpes, tendo mais vices que assumiram a presidência do que presidência de verdade. Mais ditaduras do que governo. Mesmo a América Latina deu à luz algumas gerações de tiranos militaristas, bolivaristas, guevaristas e fidelistas. Foi nesse tempo que a salada mista da política nacional entregou o petróleo para a irmandade do fórum caipira e negou o pré-sal ao povo. A Venezuela, o “melhor” país sul-americano de há pouco, com petróleo e orgulho acima da medida, tomou a oferenda lulista e viu perdoada uma dívida acumulada ao prêmio de uma refinaria. De repente, entra em parafuso, e sua pobreza transborda para o Brasil. 

Do lado de cá da fronteira, coitado, a terrinha de que me ufano sequer tem para os próprios cuidados. Tem quem grite de júbilo e há quem grite de dor. E como brasileiro é mais macho do que mulher de esquerda, a nossa lei abre as fronteiras para quem der e vier. Islâmicos fecham suas fronteiras a quem quer que não lhes seja política e economicamente vantajoso, e abrem os nossos limites; chegam e nem mostram a cara. De um lado, haitianos, bolivianos, indonésios e tantos mais vão chegando, e, de outro, a nossa exportação de brazucas para o Canadá, Estados Unidos, Europa, Japão, Austrália e o restante do mundo. Onde é que não aportam as nossas naus?

Você é contra? É a favor? E que bicho deu hoje? É fato, tem mais chão para correr do que sapato pra calçar.

A questão do refugiado é um dos temas centrais da Bíblia — é redentivo, por assim dizer. Isso, em ambos os sentidos, vertical e horizontal. Como é que é?! É isso mesmo! É redentivo porque a humanidade, fora dos limites do Éden, é basicamente estrangeira, necessitada da promessa do Redentor Filho de Deus, descendente da mulher segundo a promessa (cf. Gn 3,15; Gl 3.18). Somos estrangeiros e peregrinos a caminho de outra terra. E é redentivo no sentido de que o assunto da imigração\emigração carece de resgate em relação às disposições sócio-políticas atuais e às inclinações afetivas naturais.

A luz do Criador e Redentor projeta sombras na história, as quais ele trabalha como antecipações de coisas que hoje experimentamos e que nos são especialmente redentivas. A igreja de todas as épocas deveria ser luz e sal para um mundo em decadência. Deveria ser exemplo de caráter individual e de unidade social. Ao ouvir a sua voz, o mundo deveria temer a Deus em função de um testemunho vívido. A igreja também deveria honrar os ministros da espada, ordenados por Deus. Hoje, porém, a igreja vê-se cerceada em todos os lugares por fronteiras que podem inibir a Grande Comissão. Biblicamente, a igreja deveria honrar a Deus sobre quaisquer césares, e cumprir a sua missão. Então, como é que fica?

O pai da fé, Abraão, saiu de sua terra e parentela para uma herança além fronteiras, por ordem de Deus. Jacó e família migraram para o Egito por causa de questões geofisiológicas, por vontade de Deus. Moisés liderou os israelitas, em oposição ao faraó, vagando por 40 anos optativos entre povos e governos, até a terra das conquistas, tudo por ordem de Deus. O mesmo Deus soberano, antes apresentado por Moisés como o Senhor Criador, então, apresentou-se como Senhor Redentor. Fez isso exatamente ao declinar a Lei, a qual o Senhor Jesus, o Filho encarnado, condensou no tema do amor a Deus e amor aos homens. Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão (Ex 20.2).

À luz da graça de Deus, e à sombra da fé em Cristo Jesus, o seu amor alcança nossa vida no lugar de nossa habitação em contrapartida à Grande Comissão. Ele diz: Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito (Dt 10.19). E diz também: 
Quanto à congregação, haja apenas um estatuto, tanto para vós outros como para o estrangeiro que morar entre vós, por estatuto perpétuo nas vossas gerações; como vós sois, assim será o estrangeiro perante o Senhor. A mesma lei e o mesmo rito haverá para vós outros e para o estrangeiro que mora convosco (Nm 15.15-16).

De novo, como é que fica? A resposta ao aparente dilema será mais fácil se, em vez de comprar a pergunta por atacado, colocarmos a questão na moldura certa. De fato, o problema não está no imigrante nem na fronteira, mas na governança e nos governados. O dilema é moral, não biológico nem cultural. Poythress levanta uma questão pertinente: qual a diferença natural entre os de dentro e os de fora? E mais, o que é “natural” ? (Redeeming Sociology, 182.) A imigração para o Brasil trouxe, de diferentes culturas muita comida boa: pão de ló, bacalhau, pizza, sashimi, kibe, strudel e daí em diante. Não fez senão boa diferença na sociedade. Os efeitos do pecado, sim, causam mudanças para pior. Nesse sentido, a herança do pecado de indivíduos muda a nossa vida. De modo maior, a herança de idéias pecaminosas muda ainda mais a sociedade. A idolatria individual é extremamente nociva ao indivíduo e ameaça a comunidade; a idolatria social é sumamente nociva ao indivíduo e ao coletivo. Por isso mesmo a Bíblia advertiu quanto às religiões estrangeiras. 

A nova Lei de Migração (2017) contempla poucas coisas em muitas letras, as quais abrem caminho para boas considerações. Uma delas é a da motivação subjacente. Outra é a questão de se a promulgação de uma lei assegura a transformação moral social do ser humano. As ocorrências de Roraima mostram que a lei de proteção do imigrante não mudou os marcos do coração pacaraimense. Certamente, a globalização facilitou e tornou mais atraente a migração que hoje é discutida em todo o mundo. No seu bojo, porém, vieram idéias, muitas boas e muitas estapafúrdias. De um lado, a nobre defesa do necessitado; do outro, a defesa torpe do contrário, isto é, do bandido, do ladrão de terras, do invasor de casas, do assassinato de bebês, do desenfreamento sexual, do desarmamento do homem de bem e do armamento do homem mau, da proteção do animal mais do que do homem, da imigração sem telhado nem beiral e daí em frente. Nossos governos não promoveram infraestrutura legal ou física para a recepção de imigração em massa.

A Bíblia estabelece leis sobre essas coisas, como, por exemplo: Quando edificares uma casa nova, far-lhe-ás, no terraço, um parapeito, para que nela não ponhas culpa de sangue... (Dt 22.8); Das cidades, pois, que dareis aos levitas, seis haverá de refúgio, as quais dareis para que, nelas, se acolha o homicida... (Nm 35.6). Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo (Ex 20.17). Como essas, há muito mais que, submetido a bom tratamento hermenêutico (cf. o Sermão do Monte), dará à igreja um parâmetro para influência como luz e sal da sociedade.

Assim, fica aí uma moldura sobre a qual meditar. Se o estrangeiro for amigo, a gente o recebe em casa. Se for inimigo em termos pessoais, nós o amamos sempre e nos dispomos a ajudá-lo, como a qualquer um da terra. Caso seja alguém faccioso que não tome tento depois de admoestado, não precisaremos conviver com ele (Tt 3.10). Amar, nesse caso, não é gostar, mas fazer o bem. Se o estrangeiro for inimigo de Deus, então, não deverá ser recebido em casa. Finalmente, se ele for uma ameaça à nação, seu caso terá de ser bem estudado. O crente bem avisado terá de tomar uma posição de testemunho, e, se não souber como proceder, deverá buscar o auxílio da igreja e dos seus grupos especializados. Aqui, cuidado para não acreditar em indivíduos que saíram de nós, mas não eram dos nossos, os quais pervertem casas inteiras.

Para todas essas coisas, muita oração.

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, agosto 16, 2018

DA BOCA PRA FORA



Ainda que seja um dito antigo, esse da boca para fora a gente entende. É fala sem crença com gosto de desinteresse, de falta de sentimento, de hipocrisia mesmo. Há, contudo, um outro de fora  da boca, dito do coração do Senhor, a que deveríamos atentar: “não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem (Mt 15.11). Sim, os lábios de Jesus são firmes e sua língua é severa quando se trata de boca e coração: “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45).

Nos tempos do meu retorno à escola, em Filadélfia, ouvi umas lamúrias de um crente fraco e me deixei tomar de dó. Não hesitei, e fui falando: Eu dou uma oferta. Pulou da boca que nem soluço. O cara era abastado, chorão e pidão, e, eu, um raspador de moedas do fundo do cofrinho; um agradador inveterado. Tive de cumprir a promessa, claro, afinal, honestidade é essencial. Honesto, sim, mas muito boca mole. Você diria que sou coração mole? Engano. Antes fosse. Fui boca mole e paguei para aprender.

Se tivesse compreendido a fala do Sábio de Provérbios, teria salvado os meus $100! Teria redimido mil outros valores do coração! Muitos pensam que há sabedoria em Pv 4.23: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida”. De fato, é sabedoria que transborda. É um daqueles axiomas assumidos como paradigmas para o aconselhamento bíblico. A coisa é que as partes que transbordam são tão importantes como o conteúdo inicial. A fonte e rio mantêm a mesma relação da teoria e a sua implementação. Considere o restante do texto:
Desvia de ti a falsidade da boca e afasta de ti a perversidade dos lábios. Os teus olhos olhem direito, e as tuas pálpebras, diretamente diante de ti. Pondera a vereda de teus pés, e todos os teus caminhos sejam retos. Não declines nem para a direita nem para a esquerda; retira o teu pé do mal (Pv 4.24-27).
Quem é um pouco mais velho há de lembrar-se das reuniões infantis nas quais se cantava: cabeça, ombro, joelho e pé … Olhos ouvidos boca e nariz… Na igreja, ensinavam as crianças, acrescentando: louvemos ao Senhor. Nós, e os pequenos, ficávamos com a ideia de que louvar é cantar, bater palmas, balançar os joelhos, e pestanejar. Isso jamais será transbordamento de águas vivas—quando muito, um vazamento perigoso.

Água viva que corre do coração é a que jorra de uma boca submissa à verdade de Deus e cujos lábios confessam o nome do Senhor, segundo a Escritura. Falam a verdade em amor “porque somos membros uns dos outros”. Águas que correm dos olhos fixos no Autor da nossa salvação e cujas pálpebras estão abertas à divina esperança. São tão fortes essas águas que forçam as pernas nas “veredas da justiça por amor de seu nome” e conduzem-nos nos caminhos retos. Enfim, os poderes que procedem do coração deveriam nos motivar ao bem e, jamais, ao mal. Deveriam partir de uma cognição transformada em Cristo para um comportamento digno da obra que o seu Espírito opera em nossa vida.

Você já ouviu o lamento: todo mundo fala das pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo? Pois é, cada trambolhão! Em sala de aula, décadas atrás, discuti com um professor sobre os modos da verdade e da mentira. O professor era John Frame. Advinha quem estava certo? De outra vez, confrontei Udo Middleman, genro de Francis Schaffer, acerca de sua visão sobre trabalho e recompensa. De novo, enfiei os pés na boca. Logo que comecei os estudos de pós graduação, exibi meus parcos livros, em uma língua que não conheciam, a David Powlison e Ed Welch. Você nem precisa ficar com vergonha alheia. Conto essas minhas vergonhas para não revelar as muitas que já testemunhei, e para abrir os olhos do leitor. Como disse o saudoso presbítero Filemon Cruvinel, se todos nós sentirmos vergonha juntos (mais ou menos isso), a gente ri, e pronto. E digo mais, a gente confessa a vergonha e abandona as águas do pecado, as quais apodrecem o coração de boca suja. As águas novas, chuvas de “bênçãos nos lugares celestiais em Cristo”, lavam e purificam o nosso coração. Lavam e purificam com o sangue de Cristo por meio da confissão e com a água da Palavra por meio da operação do Espírito.

É de menino que se torce o pepino, diziam, e eu nunca entendi bem esse negócio, mas tem algum sentido. Se for criado um bom gosto pelas veredas em que deve andar, isto é, por meio de um exemplo de verbo e vida, sem provocação de ira, a criança não se afastara do caminho. Faz bem, então que aprendamos com elas: “Cuidado boquinha o que fala … Cuidado olhinho o que vê … Cuidado pesinho onde anda…”  e, ao dizer que “o Salvador está olhando pra você”, deixe o tom de ameaça e lembrem-nas da confissão e do perdão. 
Isso, sim, é água na sede!


Wadislau Martins Gomes


segunda-feira, agosto 13, 2018

MIL ANDORINHAS NÃO FAZEM VERÃO


Até a cegonha no céu conhece os seus tempos determinados; e a rola, e o grou e a andorinha observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor (Jr 8:7).
Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha seus filhos, até mesmo nos teus altares, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu (Sl 84:3).

Não sou um homem de oração. Infelizmente. Porque ainda nesta carne, tendo à negligência, à preguiça, à descrença e a toda sorte de rebeldia. É fogo, irmão! Minha oração é fraca, minha disposição para aceitar a resposta de Deus sequer aceita os exercícios espirituais ordenados na Escritura. Tendo também a trocar os termos das ordenanças e promessas do Senhor por desejos do meu coração. Aí, a coisa complica mais, pois as idolatrias que povoam a minha mente tomam corpo nas orações: substituo obediência por legalismo e, devoção, por ativismo – às vezes, pleno marasmo, e acabo discutindo e negociando com Deus acerca do que é bom para mim. Sou mau, não é? E foi por isso mesmo que Cristo precisou morrer por mim, para que eu recebesse toda sorte de bênção nos lugares celestiais, entre elas, o acesso ao Pai, em oração. O Espírito que procede do Pai e do Filho convence-me de que o poder se aperfeiçoa na fraqueza e de que quando sou fraco é que sou forte. Pela graça, ainda que eu não saiba orar como convém, o Espírito Santo esclarece a minha alma, intercede por mim e encaminha-me no entendimento da vontade de Deus. De fato, não deveríamos orar para convencer a Deus de alguma coisa, mas para aprender a concordar com a sua vontade. 

Mil orações, mil pessoas orando, mil reuniões de oração não instruem o Senhor Criador e Redentor. Antes, a oração de homens como nós, como foi Elias, feita segundo a vontade do Pai por meio do Filho e da assistência do Espírito, recebe do Senhor a bênção da promessa. Pessoas que conhecem a própria fraqueza e aprendem a orar, fazem reuniões de oração, mas reuniões de oração não fazem pessoas de oração.

O período acima causou um mimimi, que me pegou de surpresa. Na igreja que auxilio, a IPP (Igreja Presbiteriana Paulistana) mantemos, após o culto público, um tempo de perguntas e respostas sobre a mensagem e o próprio culto. Nessa oportunidade, uma senhora que começava a frequentar as reuniões, pôs-se em pé, e questionou minha espiritualidade. Surpreso ao ser interpelado de maneira menos amorosa, fiquei constrangido (vergonha alheia) com a quietude do marido ao lado. Respeitosamente, respondi apenas que o objetivo da mensagem, baseada no Pai Nosso, era o de despertar em nós todos, principalmente em mim, uma espiritualidade qualificada. Com isso, quis enfatizar o crescimento em santidade. A verdadeira espiritualidade consiste em viver de conformidade com a vontade de Deus, na Escritura e no Espírito. As tentativas de espiritualidade promovidas pela carne, no mundo e na igreja visível, são compostas de ações religiosas sem um redentor. São exibições não recomendadas de obras da carne. Daí, o Senhor ter dito que, em vez de orarmos para sermos vistos pelos homens, deveríamos orar no segredo do nosso quarto. A oração privada instrui a oração pública e transmite graça. Quem aprende a orar em secreto não pede oração pública que revele fraquezas e pecados de outras pessoas, irmãos, marido esposa, filhos, e daí em diante. Assim, boas reuniões de oração resultam do exercício espiritual que promove o fruto do Espírito. “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5:22-23).

O que digo da comunhão com Deus exercitada na oração é verdadeiro também em termos de todas as atividades derivadas do fruto do Espírito, sejam para o crescimento do ser interior sejam para o crescimento do corpo de Cristo, qualitativo ou quantitativo. Como se vê, o texto bíblico, contrário ao pensamento humano, não separa atos do corpo e atos da alma, mas requer que a pessoa regenerada haja exteriormente de conformidade com a santidade interior: 
Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior; para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém. (Ef 3:16-21).

Conforme palavras do próprio Senhor Jesus, o indivíduo regenerado e membro do corpo de Cristo, tem de ser:

  1. humilde ou pobre de si mesmo, 
  2. choroso com o que faz Deus chorar, 
  3. manso ou abnegado quanto aos próprios direitos, 
  4. faminto e sedento da justiça de Deus,
  5. misericordioso, 
  6. limpo de coração por meio da confissão com base na obra de Cristo, 
  7. pacificador, 
  8. disposto a sofrer perseguição por cauda da justiça do reino, 
  9. contente com a disposição de Deus para a sua vida, e
  10. sal da terra e luz do mundo – em função do propósito de Deus para o indivíduo e igreja e da igreja no mundo. (Cf. Mt 5: 2 a 13.)


Assim, nosso entendimento na formação da IPP, foi que a pessoa em quem o Espírito opera essas coisas, está apta a promover as atividades requeridas no crescimento primeiro dos membros individualmente e, depois, do corpo de Cristo. A diretriz do processo apresenta um modelo seminal quádruplo: instrução, comunhão, a adoração e serviço. Se lembrarmos dos processos ditados na Palavra, reconheceremos o que foi dito: que é vital o conhecimento do Senhor e sua vontade, revelados na Bíblia; que o amor é o motivador primário para o indivíduo membro e para os relacionamentos do corpo; que a adoração de Deus requer instrução e comunhão; e que o serviço aos da família da fé e o serviço aos de fora é fruto dessa integração de fé e prática.

Como eu disse, a minha oração é fraca, também na comunicação às pessoas. Por isso digo, de novo, noutras palavras: uma andorinha não faz verão nem uma reunião fará mais do que entretenimento. No entanto, uma pessoa nas mãos do Senhor será bem-aventurada tanto na frutificação de obras internas quanto de obras externas. A oficialização dos diversos trabalhos internos e externos da igreja poderá acontecer quando a planta estiver arraigada e fundada em amor, e pudermos compreender com a igreja qual sejam as medidas do plano de Deus. Creia nisso—o Senhor faz e fará a sua obra abundantemente mais do que pedimos ou pensamos.


Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, agosto 01, 2018

ALEKSANDR ISAYEVICH SOLZHENITSYN



Nos anos setentas, eu estava encantado com Edith e Francis Schaeffer. Li seus livros com avidez. Chegamos a publicar o Deus que intervém, com ABU, e, depois, somente pela Ed. Refúgio. Mais tarde, publicamos o Manifesto Cristão.

Quando ainda me preparava para a nossa aventura editorial, li, no “estadão”, um discurso de Soljenítsin proferido na Harvard (Harvard Commencement Address,1978). Sinto, ainda hoje, a emoção com que escrevi ao editor do periódico, apontando semelhanças com o pensamento de Schaeffer. Descobri, então, que o escritor russo era cristão, amigo de Rookmaaker e de Schaeffer.

Aleksandr Soljenítsin (1918-2008) esteve internado em campos de trabalho forçado de 1945 a 1953, devido a críticas a Stalin. Libertado na "abertura" que se seguiu discurso de Krutchev contra os crimes estalinistas, lecionou e escreveu nos anos 50. "Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, classificado por Aleksandr Tvardovski, seu editor na revista Novy Mir, em 1962, como um 'clássico', teve a sua publicação expressamente autorizada por Krutchev e foi estudado nas escolas (Wook.pt). A publicação de Pavilhão de cancerosos e a atribuição do Prêmio Nobel da Literatura, em 1970 resultou em sua expulsão da União Soviética, em 1974, vivendo na Suíça, na França e nos Estados Unidos até à queda do Muro de Berlim. Regressou a Moscow, em 1994. "As suas obras marcaram indelevelmente a literatura russa do século xx, inserindo-se na grande tradição narrativa de nomes como Tchekov, Tolstoi e Dostoievski" (cit.).

Recentemente, soube, num papo com universitários, que os escritos de Soljenítsin não eram suficientemente conhecidos por, pelo menos, as duas última gerações estudantis. Há quem reconheça apenas a dificuldade do nome grafado de diversas maneiras em diferentes lugares, mas sem ligar o nome ao trabalho (veja: http://religion.wikia.com/wiki/Aleksandr_Solzhenitsyn). Uma pena o desconhecimento, pois a sua obra é de extrema beleza literária, de esclarecedora visão política, de encorajamento na vida cristã em um mundo em conflito, e de motivação para a evangelização. Veja o que escrevi em Sal da terra em terras do brasis (Brasília, Ed. Monergismo, 3a. Ed., 2014, p. 371):
Alexander Soljenitsin exemplifica essas coisas em uma das páginas mais eloquentes de Pavilhão de Cancerosos: ele relata uma conversa entre Shulubin e Kostoglov, quando discutiam sobre a motivação humana para prosseguir crendo num governo despótico:
"Bem, chamemos a isso uma forma mais refinada do instinto gregário, o medo de ficar sozinho, fora da comunidade. Não há nada de novo nisso. Francis Bacon estabeleceu sua doutrina dos ídolos já no Século 16. Dizia que as pessoas não se inclinam a viver de pura experiência, preferindo poluir essa experiência com preconceitos. Esses preconceitos são os ídolos. Os ídolos da tribo, os ídolos das cavernas é como Bacon os achava ... Os ídolos da praça pública são os erros resultantes da comunicação e associação dos homens, uns com os outros. São aqueles que o homem comete porque se tornou costume usar certas frases e fórmulas para violentar a razão". (SOLJENITZIN, Alexander. Pavilhão dos Cancerosos. RJ, Editora Expressão e Cultura, 1975, pp. 551, 552.)
É preciso que haja honestidade na evangelização para que a mensagem seja centrada em Cristo e não em qualquer outra coisa, seja virtude cristã seja vício humano, pois do contrário nossa tendência idólatra proporá outros redentores que não Deus. Ninguém jamais evitará ser autobiográfico em seu discurso, e a audiência, mesmo sem consciência disso, sempre capta a incongruência entre o que se diz e o que se vive. Os que tiverem o coração lavado diante do Senhor por meio da confissão serão sensíveis ao Espírito Santo para discernir; os faltos e os ímpios, exatamente por causa das feridas do pecado, como um esfolamento no corpo exposto ao vento, serão sensíveis aos humores da carne.



Wadislau Martins Gomes 

quinta-feira, julho 19, 2018

EXORTAÇÃO HUMILHANTE E GLORIOSA


➤ 1 Coríntios 3.18 a 4.16

Para aquecer a mente, vai um termo para comparação. As eleições já estão às portas! Vêm com algum atraso com respeito à propaganda e com mais maquilagem do que o conto do Ipiranga. As margens populares, menos plácidas, sequer atentam ao grito das promessas enganosas de siglas e de refrões antigos. Como vai o ditado: mudam os cães, permanecem as coleiras. Tem coisa pior? O pior é que tem! 

A Escritura diz que os espertos deste mundo são apanhados por Deus “na própria astúcia deles”. São tão enganadores que enganam a si mesmos. Deus os tem por loucos, pois conhece seus pensamentos vãos. É preciso lembrar de que todo voto é uma escolha moral autobiográfica. Assim, na hora de escolher os candidatos à governança, teremos de, antes, votar no coração: escolheremos a estultícia humana ou a sabedoria de Deus?

Daí, então, em quem votar? A resposta terá de vir da nossa consciência diante do Rei Jesus—e cada um tem a obrigação de pesquisar para conhecer mais e escolher bem. Para isso, a Palavra de Deus descreve o homem bom e o homem mau, a fim de que, sob a orientação do Espírito em humilde e obediente oração, cada um declina o seu voto.

Essas coisas valem também para os eleitos da fé. Os escolhidos de Deus são também os eleitores dos enviados do Senhor. Ao escolher os que hão de expor a Palavra e reger o corpo de Cristo, deveríamos ter maior cuidado do que em relação às coisas temporais. Os ministros deste mundo, instalados por Deus, afetam a vida que perece no pecado, nos limites da sua decadência. Os “ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” afetam a vida eterna, a que é agora e a que está por vir, devendo ser fiéis na palavra e no trato. 

Aí é que está a diferença entre a consciência do regenerado e a do não regenerado: o não regenerado não pode escapar ao engano e ao autoengano. O regenerado, por sua vez, pode deixar de enganar e de enganar-se. “Ninguém se engane a si mesmo”, diz a Bíblia, e aponta a motivação do coração: ou nos gloriamos em homens ou em Deus.

A este ponto, o foco da história e da notícia volta-se inteiramente para a consciência. Qualquer escolha—seja partidária seja ideológica seja expediente seja senso romântico de bondade seja ciência seja qualquer outra coisa—terá de levar em conta a luta que se trava nos lugares ocultos nas ruas e nos corações. Novamente, “ninguém se engane a si mesmo … Ninguém se glorie nos homens”, quer em outros quer em si mesmo. 

Na igreja de Corinto, uns votavam em Paulo, outros em Apolo, outros em Cefas, e, outros em Cristo, e o problema não residia na escolha, mas no autoengano da exclusividade em termos humanos. Somente Deus é exclusivo em sua singularidade e inclusivo em seu amor. Por isso mesmo, a  autoglorificação é engano e autoengano, pois sequer tem realidade própria em que se sustente. 

Nas escolhas da carne, não nos baseamos na soberania de Deus, mas no nosso próprio juízo para estabelecer quem não me agrada, barrando-o de aparecer no nosso horário eleitoral (conversas, citações, palestras, e daí em diante). Esquecemo-nos de que pessoas e coisas, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é” nosso, e nós, “de Cristo, e Cristo, de Deus”.

É duro sabermo-nos vaidosos julgadores de pessoas e de situações, baseados na inerrância e infalibilidade de nossa própria consciência. Se alguma coisa nos fere—gosto, culpa, inveja, medo—rápidos votamos contra ou pedimos o impedimento, em franca desobediência ao preceito bíblico: 
Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro. 

Paulo diz estas coisas, politicamente incorretas para os legalistas e outros incrédulos, com cunho bem pessoal, nominando-se e aos tais. Ele o faz, entretanto, no Senhor: 
Porque de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor”—isso, depois de dizer: “a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo.

Além da ousadia para defender-se do desprezo que alguns lhe dedicam em função do mesmo legalismo (que é descrença e culto de si mesmo), Paulo exorta com a autoridade do Espírito, no registro bíblico. Isso é soberba, diz ele, de quem recebeu do alto por meio do mestre muito do que tem, e sente-se rico, de nada mais precisando. Quanto a ele mesmo, o apóstolo diz: 
Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos. 

Ele não escreve isso para envergonhar quem quer que seja, mas admoesta como pai ao filho, para que a glória seja de Deus e não de homens. 

Quanto ensino! Quanto aprendizado! Quanta humilhação da minha própria alma! Quanta glorificação do Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Diante de tamanha piedade e contrição, o Espírito faz-me clamar: 
Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários [quer o Adversário dos meus pecados quer meus adversários pares], unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre (Salmo 23.5 e 6).
Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, junho 28, 2018

COMO OLHAR BANDIDOS E MINISTROS


Como olhar o País quando bandidos e  ministros se confundem e os rabos presos se desatam em frentes sérias e versos debochados? Aprendamos a olhar com os olhos de Daniel e de Jeremias!

Já assomava-me a ira rebelde diante da cena infame que ora retrata a Pátria. Os que deveriam ser os guardiões da lei calcam aos pés a lei e o povo. Os que deveriam ser supremos se apequenam ao livrar condenados ilustres e a permitir exacerbados impostos à gente anônima.  Tanta injustiça fez-me lembrar o clamor de Castro Alves:
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança... Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!... 
Hoje, os ouvidos são lerdos e as mãos perderam a força para uma reação. Ninguém mais vai às ruas, ninguém mais grita, como a calma que precede a tempestade. Notícias de  erupções vulcânicas, terremotos e  guerras tornaram-se lugar comum aos olhos dos incautos e do povaréu de maneira que não mais discernem. A mentira é chamada de verdade e, a verdade, mentira, e o temor do Senhor é desprezado. Os grandes e os pequenos não se dão conta da soberania do Senhor de povos e de corações. Ignoram a advertência do profeta: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” E como continua Jeremias: “são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito … são heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte … por suborno justificam o perverso e ao justo negam justiça!”

Como eu dizia, estava prestes a desesperar, quando prossegui na leitura da Palavra: “Pelo que, como a língua de fogo consome o restolho, e a erva seca se desfaz pela chama, assim será a sua raiz como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porquanto rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos e desprezaram a palavra do Santo de Israel”.  (Cf. Is. 9.3 e Jr. 5.20-24.) Então, considerei o meu pecado e minhas próprias injustiças à sombra da cruz do Senhor e Salvador Jesus, e minha alma chorou ante a visão da graça de Deus. Fui julgado e perdoado pelo ato de justiça de Cristo, e posso olhar o mundo e as pessoas com realismo e esperança.

Sobre os não justificados, disse o profeta, no Novo Testamento:
Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho (Rm 2.14-16).
Aí, então, minha oração: 

Somente duas coisas dá-me, ó Senhor: de Daniel, o dom de interpretação de mundo e de corações com a firmeza da esperança em ti, e, de Jeremias, o realismo cuja esperança considerou sofrer o mundo e os corações sob o teu poder. Que, como ambos, eu e meus irmãos saibamos olhar o mundo e os homens com fé na tua Palavra, com esperança na realização de teus mandamentos e promessas, e com amor primeiro a ti e, depois, ao próximo.

Wadislau Martins Gomes