quinta-feira, agosto 16, 2018

DA BOCA PRA FORA



Ainda que seja um dito antigo, esse da boca para fora a gente entende. É fala sem crença com gosto de desinteresse, de falta de sentimento, de hipocrisia mesmo. Há, contudo, um outro de fora  da boca, dito do coração do Senhor, a que deveríamos atentar: “não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem (Mt 15.11). Sim, os lábios de Jesus são firmes e sua língua é severa quando se trata de boca e coração: “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45).

Nos tempos do meu retorno à escola, em Filadélfia, ouvi umas lamúrias de um crente fraco e me deixei tomar de dó. Não hesitei, e fui falando: Eu dou uma oferta. Pulou da boca que nem soluço. O cara era abastado, chorão e pidão, e, eu, um raspador de moedas do fundo do cofrinho; um agradador inveterado. Tive de cumprir a promessa, claro, afinal, honestidade é essencial. Honesto, sim, mas muito boca mole. Você diria que sou coração mole? Engano. Antes fosse. Fui boca mole e paguei para aprender.

Se tivesse compreendido a fala do Sábio de Provérbios, teria salvado os meus $100! Teria redimido mil outros valores do coração! Muitos pensam que há sabedoria em Pv 4.23: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida”. De fato, é sabedoria que transborda. É um daqueles axiomas assumidos como paradigmas para o aconselhamento bíblico. A coisa é que as partes que transbordam são tão importantes como o conteúdo inicial. A fonte e rio mantêm a mesma relação da teoria e a sua implementação. Considere o restante do texto:
Desvia de ti a falsidade da boca e afasta de ti a perversidade dos lábios. Os teus olhos olhem direito, e as tuas pálpebras, diretamente diante de ti. Pondera a vereda de teus pés, e todos os teus caminhos sejam retos. Não declines nem para a direita nem para a esquerda; retira o teu pé do mal (Pv 4.24-27).
Quem é um pouco mais velho há de lembrar-se das reuniões infantis nas quais se cantava: cabeça, ombro, joelho e pé … Olhos ouvidos boca e nariz… Na igreja, ensinavam as crianças, acrescentando: louvemos ao Senhor. Nós, e os pequenos, ficávamos com a ideia de que louvar é cantar, bater palmas, balançar os joelhos, e pestanejar. Isso jamais será transbordamento de águas vivas—quando muito, um vazamento perigoso.

Água viva que corre do coração é a que jorra de uma boca submissa à verdade de Deus e cujos lábios confessam o nome do Senhor, segundo a Escritura. Falam a verdade em amor “porque somos membros uns dos outros”. Águas que correm dos olhos fixos no Autor da nossa salvação e cujas pálpebras estão abertas à divina esperança. São tão fortes essas águas que forçam as pernas nas “veredas da justiça por amor de seu nome” e conduzem-nos nos caminhos retos. Enfim, os poderes que procedem do coração deveriam nos motivar ao bem e, jamais, ao mal. Deveriam partir de uma cognição transformada em Cristo para um comportamento digno da obra que o seu Espírito opera em nossa vida.

Você já ouviu o lamento: todo mundo fala das pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo? Pois é, cada trambolhão! Em sala de aula, décadas atrás, discuti com um professor sobre os modos da verdade e da mentira. O professor era John Frame. Advinha quem estava certo? De outra vez, confrontei Udo Middleman, genro de Francis Schaffer, acerca de sua visão sobre trabalho e recompensa. De novo, enfiei os pés na boca. Logo que comecei os estudos de pós graduação, exibi meus parcos livros, em uma língua que não conheciam, a David Powlison e Ed Welch. Você nem precisa ficar com vergonha alheia. Conto essas minhas vergonhas para não revelar as muitas que já testemunhei, e para abrir os olhos do leitor. Como disse o saudoso presbítero Filemon Cruvinel, se todos nós sentirmos vergonha juntos (mais ou menos isso), a gente ri, e pronto. E digo mais, a gente confessa a vergonha e abandona as águas do pecado, as quais apodrecem o coração de boca suja. As águas novas, chuvas de “bênçãos nos lugares celestiais em Cristo”, lavam e purificam o nosso coração. Lavam e purificam com o sangue de Cristo por meio da confissão e com a água da Palavra por meio da operação do Espírito.

É de menino que se torce o pepino, diziam, e eu nunca entendi bem esse negócio, mas tem algum sentido. Se for criado um bom gosto pelas veredas em que deve andar, isto é, por meio de um exemplo de verbo e vida, sem provocação de ira, a criança não se afastara do caminho. Faz bem, então que aprendamos com elas: “Cuidado boquinha o que fala … Cuidado olhinho o que vê … Cuidado pesinho onde anda…”  e, ao dizer que “o Salvador está olhando pra você”, deixe o tom de ameaça e lembrem-nas da confissão e do perdão. 
Isso, sim, é água na sede!

Wadislau Martins Gomes


segunda-feira, agosto 13, 2018

MIL ANDORINHAS NÃO FAZEM VERÃO


Até a cegonha no céu conhece os seus tempos determinados; e a rola, e o grou e a andorinha observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor (Jr 8:7).
Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha seus filhos, até mesmo nos teus altares, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu (Sl 84:3).

Não sou um homem de oração. Infelizmente. Porque ainda nesta carne, tendo à negligência, à preguiça, à descrença e a toda sorte de rebeldia. É fogo, irmão! Minha oração é fraca, minha disposição para aceitar a resposta de Deus sequer aceita os exercícios espirituais ordenados na Escritura. Tendo também a trocar os termos das ordenanças e promessas do Senhor por desejos do meu coração. Aí, a coisa complica mais, pois as idolatrias que povoam a minha mente tomam corpo nas orações: substituo obediência por legalismo e, devoção, por ativismo – às vezes, pleno marasmo, e acabo discutindo e negociando com Deus acerca do que é bom para mim. Sou mau, não é? E foi por isso mesmo que Cristo precisou morrer por mim, para que eu recebesse toda sorte de bênção nos lugares celestiais, entre elas, o acesso ao Pai, em oração. O Espírito que procede do Pai e do Filho convence-me de que o poder se aperfeiçoa na fraqueza e de que quando sou fraco é que sou forte. Pela graça, ainda que eu não saiba orar como convém, o Espírito Santo esclarece a minha alma, intercede por mim e encaminha-me no entendimento da vontade de Deus. De fato, não deveríamos orar para convencer a Deus de alguma coisa, mas para aprender a concordar com a sua vontade. 

Mil orações, mil pessoas orando, mil reuniões de oração não instruem o Senhor Criador e Redentor. Antes, a oração de homens como nós, como foi Elias, feita segundo a vontade do Pai por meio do Filho e da assistência do Espírito, recebe do Senhor a bênção da promessa. Pessoas que conhecem a própria fraqueza e aprendem a orar, fazem reuniões de oração, mas reuniões de oração não fazem pessoas de oração.

O período acima causou um mimimi, que me pegou de surpresa. Na igreja que auxilio, a IPP (Igreja Presbiteriana Paulistana) mantemos, após o culto público, um tempo de perguntas e respostas sobre a mensagem e o próprio culto. Nessa oportunidade, uma senhora que começava a frequentar as reuniões, pôs-se em pé, e questionou minha espiritualidade. Surpreso ao ser interpelado de maneira menos amorosa, fiquei constrangido (vergonha alheia) com a quietude do marido ao lado. Respeitosamente, respondi apenas que o objetivo da mensagem, baseada no Pai Nosso, era o de despertar em nós todos, principalmente em mim, uma espiritualidade qualificada. Com isso, quis enfatizar o crescimento em santidade. A verdadeira espiritualidade consiste em viver de conformidade com a vontade de Deus, na Escritura e no Espírito. As tentativas de espiritualidade promovidas pela carne, no mundo e na igreja visível, são compostas de ações religiosas sem um redentor. São exibições não recomendadas de obras da carne. Daí, o Senhor ter dito que, em vez de orarmos para sermos vistos pelos homens, deveríamos orar no segredo do nosso quarto. A oração privada instrui a oração pública e transmite graça. Quem aprende a orar em secreto não pede oração pública que revele fraquezas e pecados de outras pessoas, irmãos, marido esposa, filhos, e daí em diante. Assim, boas reuniões de oração resultam do exercício espiritual que promove o fruto do Espírito. “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5:22-23).

O que digo da comunhão com Deus exercitada na oração é verdadeiro também em termos de todas as atividades derivadas do fruto do Espírito, sejam para o crescimento do ser interior sejam para o crescimento do corpo de Cristo, qualitativo ou quantitativo. Como se vê, o texto bíblico, contrário ao pensamento humano, não separa atos do corpo e atos da alma, mas requer que a pessoa regenerada haja exteriormente de conformidade com a santidade interior: 
Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior; para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém. (Ef 3:16-21).

Conforme palavras do próprio Senhor Jesus, o indivíduo regenerado e membro do corpo de Cristo, tem de ser:

  1. humilde ou pobre de si mesmo, 
  2. choroso com o que faz Deus chorar, 
  3. manso ou abnegado quanto aos próprios direitos, 
  4. faminto e sedento da justiça de Deus,
  5. misericordioso, 
  6. limpo de coração por meio da confissão com base na obra de Cristo, 
  7. pacificador, 
  8. disposto a sofrer perseguição por cauda da justiça do reino, 
  9. contente com a disposição de Deus para a sua vida, e
  10. sal da terra e luz do mundo – em função do propósito de Deus para o indivíduo e igreja e da igreja no mundo. (Cf. Mt 5: 2 a 13.)


Assim, nosso entendimento na formação da IPP, foi que a pessoa em quem o Espírito opera essas coisas, está apta a promover as atividades requeridas no crescimento primeiro dos membros individualmente e, depois, do corpo de Cristo. A diretriz do processo apresenta um modelo seminal quádruplo: instrução, comunhão, a adoração e serviço. Se lembrarmos dos processos ditados na Palavra, reconheceremos o que foi dito: que é vital o conhecimento do Senhor e sua vontade, revelados na Bíblia; que o amor é o motivador primário para o indivíduo membro e para os relacionamentos do corpo; que a adoração de Deus requer instrução e comunhão; e que o serviço aos da família da fé e o serviço aos de fora é fruto dessa integração de fé e prática.

Como eu disse, a minha oração é fraca, também na comunicação às pessoas. Por isso digo, de novo, noutras palavras: uma andorinha não faz verão nem uma reunião fará mais do que entretenimento. No entanto, uma pessoa nas mãos do Senhor será bem-aventurada tanto na frutificação de obras internas quanto de obras externas. A oficialização dos diversos trabalhos internos e externos da igreja poderá acontecer quando a planta estiver arraigada e fundada em amor, e pudermos compreender com a igreja qual sejam as medidas do plano de Deus. Creia nisso—o Senhor faz e fará a sua obra abundantemente mais do que pedimos ou pensamos.


Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, agosto 01, 2018

ALEKSANDR ISAYEVICH SOLZHENITSYN



Nos anos setentas, eu estava encantado com Edith e Francis Schaeffer. Li seus livros com avidez. Chegamos a publicar o Deus que intervém, com ABU, e, depois, somente pela Ed. Refúgio. Mais tarde, publicamos o Manifesto Cristão.

Quando ainda me preparava para a nossa aventura editorial, li, no “estadão”, um discurso de Soljenítsin proferido na Harvard (Harvard Commencement Address,1978). Sinto, ainda hoje, a emoção com que escrevi ao editor do periódico, apontando semelhanças com o pensamento de Schaeffer. Descobri, então, que o escritor russo era cristão, amigo de Rookmaaker e de Schaeffer.

Aleksandr Soljenítsin (1918-2008) esteve internado em campos de trabalho forçado de 1945 a 1953, devido a críticas a Stalin. Libertado na "abertura" que se seguiu discurso de Krutchev contra os crimes estalinistas, lecionou e escreveu nos anos 50. "Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, classificado por Aleksandr Tvardovski, seu editor na revista Novy Mir, em 1962, como um 'clássico', teve a sua publicação expressamente autorizada por Krutchev e foi estudado nas escolas (Wook.pt). A publicação de Pavilhão de cancerosos e a atribuição do Prêmio Nobel da Literatura, em 1970 resultou em sua expulsão da União Soviética, em 1974, vivendo na Suíça, na França e nos Estados Unidos até à queda do Muro de Berlim. Regressou a Moscow, em 1994. "As suas obras marcaram indelevelmente a literatura russa do século xx, inserindo-se na grande tradição narrativa de nomes como Tchekov, Tolstoi e Dostoievski" (cit.).

Recentemente, soube, num papo com universitários, que os escritos de Soljenítsin não eram suficientemente conhecidos por, pelo menos, as duas última gerações estudantis. Há quem reconheça apenas a dificuldade do nome grafado de diversas maneiras em diferentes lugares, mas sem ligar o nome ao trabalho (veja: http://religion.wikia.com/wiki/Aleksandr_Solzhenitsyn). Uma pena o desconhecimento, pois a sua obra é de extrema beleza literária, de esclarecedora visão política, de encorajamento na vida cristã em um mundo em conflito, e de motivação para a evangelização. Veja o que escrevi em Sal da terra em terras do brasis (Brasília, Ed. Monergismo, 3a. Ed., 2014, p. 371):
Alexander Soljenitsin exemplifica essas coisas em uma das páginas mais eloquentes de Pavilhão de Cancerosos: ele relata uma conversa entre Shulubin e Kostoglov, quando discutiam sobre a motivação humana para prosseguir crendo num governo despótico:
"Bem, chamemos a isso uma forma mais refinada do instinto gregário, o medo de ficar sozinho, fora da comunidade. Não há nada de novo nisso. Francis Bacon estabeleceu sua doutrina dos ídolos já no Século 16. Dizia que as pessoas não se inclinam a viver de pura experiência, preferindo poluir essa experiência com preconceitos. Esses preconceitos são os ídolos. Os ídolos da tribo, os ídolos das cavernas é como Bacon os achava ... Os ídolos da praça pública são os erros resultantes da comunicação e associação dos homens, uns com os outros. São aqueles que o homem comete porque se tornou costume usar certas frases e fórmulas para violentar a razão". (SOLJENITZIN, Alexander. Pavilhão dos Cancerosos. RJ, Editora Expressão e Cultura, 1975, pp. 551, 552.)
É preciso que haja honestidade na evangelização para que a mensagem seja centrada em Cristo e não em qualquer outra coisa, seja virtude cristã seja vício humano, pois do contrário nossa tendência idólatra proporá outros redentores que não Deus. Ninguém jamais evitará ser autobiográfico em seu discurso, e a audiência, mesmo sem consciência disso, sempre capta a incongruência entre o que se diz e o que se vive. Os que tiverem o coração lavado diante do Senhor por meio da confissão serão sensíveis ao Espírito Santo para discernir; os faltos e os ímpios, exatamente por causa das feridas do pecado, como um esfolamento no corpo exposto ao vento, serão sensíveis aos humores da carne.



Wadislau Martins Gomes 

quinta-feira, julho 19, 2018

EXORTAÇÃO HUMILHANTE E GLORIOSA


➤ 1 Coríntios 3.18 a 4.16

Para aquecer a mente, vai um termo para comparação. As eleições já estão às portas! Vêm com algum atraso com respeito à propaganda e com mais maquilagem do que o conto do Ipiranga. As margens populares, menos plácidas, sequer atentam ao grito das promessas enganosas de siglas e de refrões antigos. Como vai o ditado: mudam os cães, permanecem as coleiras. Tem coisa pior? O pior é que tem! 

A Escritura diz que os espertos deste mundo são apanhados por Deus “na própria astúcia deles”. São tão enganadores que enganam a si mesmos. Deus os tem por loucos, pois conhece seus pensamentos vãos. É preciso lembrar de que todo voto é uma escolha moral autobiográfica. Assim, na hora de escolher os candidatos à governança, teremos de, antes, votar no coração: escolheremos a estultícia humana ou a sabedoria de Deus?

Daí, então, em quem votar? A resposta terá de vir da nossa consciência diante do Rei Jesus—e cada um tem a obrigação de pesquisar para conhecer mais e escolher bem. Para isso, a Palavra de Deus descreve o homem bom e o homem mau, a fim de que, sob a orientação do Espírito em humilde e obediente oração, cada um declina o seu voto.

Essas coisas valem também para os eleitos da fé. Os escolhidos de Deus são também os eleitores dos enviados do Senhor. Ao escolher os que hão de expor a Palavra e reger o corpo de Cristo, deveríamos ter maior cuidado do que em relação às coisas temporais. Os ministros deste mundo, instalados por Deus, afetam a vida que perece no pecado, nos limites da sua decadência. Os “ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” afetam a vida eterna, a que é agora e a que está por vir, devendo ser fiéis na palavra e no trato. 

Aí é que está a diferença entre a consciência do regenerado e a do não regenerado: o não regenerado não pode escapar ao engano e ao autoengano. O regenerado, por sua vez, pode deixar de enganar e de enganar-se. “Ninguém se engane a si mesmo”, diz a Bíblia, e aponta a motivação do coração: ou nos gloriamos em homens ou em Deus.

A este ponto, o foco da história e da notícia volta-se inteiramente para a consciência. Qualquer escolha—seja partidária seja ideológica seja expediente seja senso romântico de bondade seja ciência seja qualquer outra coisa—terá de levar em conta a luta que se trava nos lugares ocultos nas ruas e nos corações. Novamente, “ninguém se engane a si mesmo … Ninguém se glorie nos homens”, quer em outros quer em si mesmo. 

Na igreja de Corinto, uns votavam em Paulo, outros em Apolo, outros em Cefas, e, outros em Cristo, e o problema não residia na escolha, mas no autoengano da exclusividade em termos humanos. Somente Deus é exclusivo em sua singularidade e inclusivo em seu amor. Por isso mesmo, a  autoglorificação é engano e autoengano, pois sequer tem realidade própria em que se sustente. 

Nas escolhas da carne, não nos baseamos na soberania de Deus, mas no nosso próprio juízo para estabelecer quem não me agrada, barrando-o de aparecer no nosso horário eleitoral (conversas, citações, palestras, e daí em diante). Esquecemo-nos de que pessoas e coisas, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é” nosso, e nós, “de Cristo, e Cristo, de Deus”.

É duro sabermo-nos vaidosos julgadores de pessoas e de situações, baseados na inerrância e infalibilidade de nossa própria consciência. Se alguma coisa nos fere—gosto, culpa, inveja, medo—rápidos votamos contra ou pedimos o impedimento, em franca desobediência ao preceito bíblico: 
Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro. 

Paulo diz estas coisas, politicamente incorretas para os legalistas e outros incrédulos, com cunho bem pessoal, nominando-se e aos tais. Ele o faz, entretanto, no Senhor: 
Porque de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor”—isso, depois de dizer: “a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo.

Além da ousadia para defender-se do desprezo que alguns lhe dedicam em função do mesmo legalismo (que é descrença e culto de si mesmo), Paulo exorta com a autoridade do Espírito, no registro bíblico. Isso é soberba, diz ele, de quem recebeu do alto por meio do mestre muito do que tem, e sente-se rico, de nada mais precisando. Quanto a ele mesmo, o apóstolo diz: 
Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos. 

Ele não escreve isso para envergonhar quem quer que seja, mas admoesta como pai ao filho, para que a glória seja de Deus e não de homens. 

Quanto ensino! Quanto aprendizado! Quanta humilhação da minha própria alma! Quanta glorificação do Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Diante de tamanha piedade e contrição, o Espírito faz-me clamar: 
Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários [quer o Adversário dos meus pecados quer meus adversários pares], unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre (Salmo 23.5 e 6).
Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, junho 28, 2018

COMO OLHAR BANDIDOS E MINISTROS


Como olhar o País quando bandidos e  ministros se confundem e os rabos presos se desatam em frentes sérias e versos debochados? Aprendamos a olhar com os olhos de Daniel e de Jeremias!

Já assomava-me a ira rebelde diante da cena infame que ora retrata a Pátria. Os que deveriam ser os guardiões da lei calcam aos pés a lei e o povo. Os que deveriam ser supremos se apequenam ao livrar condenados ilustres e a permitir exacerbados impostos à gente anônima.  Tanta injustiça fez-me lembrar o clamor de Castro Alves:
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança... Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!... 
Hoje, os ouvidos são lerdos e as mãos perderam a força para uma reação. Ninguém mais vai às ruas, ninguém mais grita, como a calma que precede a tempestade. Notícias de  erupções vulcânicas, terremotos e  guerras tornaram-se lugar comum aos olhos dos incautos e do povaréu de maneira que não mais discernem. A mentira é chamada de verdade e, a verdade, mentira, e o temor do Senhor é desprezado. Os grandes e os pequenos não se dão conta da soberania do Senhor de povos e de corações. Ignoram a advertência do profeta: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” E como continua Jeremias: “são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito … são heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte … por suborno justificam o perverso e ao justo negam justiça!”

Como eu dizia, estava prestes a desesperar, quando prossegui na leitura da Palavra: “Pelo que, como a língua de fogo consome o restolho, e a erva seca se desfaz pela chama, assim será a sua raiz como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porquanto rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos e desprezaram a palavra do Santo de Israel”.  (Cf. Is. 9.3 e Jr. 5.20-24.) Então, considerei o meu pecado e minhas próprias injustiças à sombra da cruz do Senhor e Salvador Jesus, e minha alma chorou ante a visão da graça de Deus. Fui julgado e perdoado pelo ato de justiça de Cristo, e posso olhar o mundo e as pessoas com realismo e esperança.

Sobre os não justificados, disse o profeta, no Novo Testamento:
Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho (Rm 2.14-16).
Aí, então, minha oração: 

Somente duas coisas dá-me, ó Senhor: de Daniel, o dom de interpretação de mundo e de corações com a firmeza da esperança em ti, e, de Jeremias, o realismo cuja esperança considerou sofrer o mundo e os corações sob o teu poder. Que, como ambos, eu e meus irmãos saibamos olhar o mundo e os homens com fé na tua Palavra, com esperança na realização de teus mandamentos e promessas, e com amor primeiro a ti e, depois, ao próximo.

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, junho 15, 2018

COMUNICAÇÃO TRUNCADA


Outro dia, procurávamos um bom filme para assistir. Depois de uma semana em hospital, faria parte da recuperação um descanso que desse repouso físico e mental e, simultaneamente, estimulasse o pensamento e a alma. Não era hora de leitura pesada, mas de imagens belas que nos ajudassem a cerzir os fios rompidos e remendar os furos da tessitura da vida. Surfamos as redes e cada vez que aparecia uma história atraente, clicamos em cima para, em poucos instantes, não aguentar mais a repetição incessante de dois senões da comunicação sadia: as personagens bombardeavam suas falas tomando o nome de Deus em vão e xingando com palavras de baixo calão. Antigamente, os bons filmes procuravam dosar ao mínimo o uso de profanidades e caso usassem, avisavam cautela às famílias – hoje parece que o nome de Deus é conspurcado continuamente nas falas mais banais, e tudo na vida é reduzido a atividades sexuais agressivas ou excremento para a latrina. Perdão pelo meu francês, mas o começo e o fim de todo diálogo espalha impiamente f... you e m... por ventiladores gigantescos e fortes que mancham tudo em volta (Aí vai mais uma tradução truncada e intraduzível). Tudo é muito natural, e homens e mulheres, jovens e crianças. acabam não somente ouvindo, mas pensando e repetindo os mesmos termos.

É verdadeiro que tomar o nome de Deus em vão vai muito além de falar seu nome fora do contexto de louvor e adoração que lhe é devido – mas começa a quebra do Terceiro Mandamento em cada expressão impiedosa que atribui ao Eu Sou acusações que são lavra suja do impostor, deturpador, usurpador e chefe deste mundo tenebroso. Paulo fala em contexto profundo de doutrina sadia aplicada a todos os aspectos da vida prática que “As más conversações corrompem os bons costumes” (1Co 15.33) e conclama-nos a tornar à sobriedade como é justo, e não pecar, porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus. Isto se aplica hoje no mundo ocidental do Século XXI como era aplicável aos que viviam no primeiro século da era cristã, em Corinto (veja também Ef 5.4; Pv 10.19-21).

Apesar de ter sido criado em palácio real com toda a exuberante cultura egípcia, quando Deus chamou a liderar e libertar seu povo escravizado, Moisés culpou sua falta de eloquência como “incapacidade”:  “Sou pesado de boca e de língua” (Ex 4.10). Deus perguntou-lhe: “Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor? Vai, pois, agora, e eu serei com tua boca e te ensinarei o que hás de falar...” Moisés disse ainda: “Envia a quem hás de enviar, menos a mim”. Mas Deus oferece uma alternativa: 

Não é Arão... teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; eis que ele sai ao teu encontro, e vendo-te, se alegrará... tu lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu serei com a tua boca e com a dele e vos ensinarei o que deveis fazer. Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus... E o povo creu, e tendo ouvido que o Senhor havia visitado os filhos de Israel e lhes vira a aflição, inclinaram-se e o adoraram.
Anos mais tarde, em 627 AC, o profeta Jeremias, de família sacerdotal, bem preparada, a quem o Senhor disse: “Antes que eu te formasse no ventre materno te conheci, e antes que saísses da madre te consagrei e te constituí profeta às nações” (Jr 1.5) a que ele protestou, dizendo: “Não sei falar porque não passo de uma criança”. Deus afirmou que ele iria a todos a quem Ele enviasse e falaria tudo quanto ele mandasse dizer. Prometeu: “Eu sou contigo”, tocou sua boca e disse que o constituiria sobre as nações e reinos “para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares e também para edificares e para plantares” – e passou a dar-lhe visões do que estava acontecendo e iria acontecer.

Talvez a irmã mais velha de Moisés, Miriam, fosse ainda criança de uns dez anos quando, destemida, falou com a filha do Faraó (Ex 2.4-9) e instrumento humano para a sua salvação. Joquebede, verdadeira mãe e ama de leite de Moisés, certamente contou as histórias sobre o Deus que fala e o povo a quem ele chamou, alimentando o filho com o arcabouço da historia de Gênesis até o final de Deuteronômio. Quando Moisés libertou o povo de Deus do Egito, fez um esplendoroso cântico de vitória ao que lançou no mar cavalo e cavaleiro (Ex 15.1-19) e Miriam liderou todas as mulheres com a antífona: “Cantai ao Senhor porque gloriosamente triunfou...” (vv 20, 21). No entanto, com a mesma boca, Miriam falou mal do líder de Israel e incitou o irmão Arão a igualmente maldizer a Moisés por preconceito racial, altivez e inveja (Números 12.1-15).

Quando, aos cento e vinte anos de idade, Moisés se despedia de seu povo, falou para escolher entre a morte e o mal, a vida e o bem (Deuteronômio 29-31) – porque o Senhor Deus, ele mesmo, o de Abraão, Isaque e Jacó – os escolheu. Josué recebeu a incumbência de levar o povo para conquistar a Terra Prometida: “Não cesses de falar deste Livro... Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares” (Js 1.8-9). Na narrativa histórica surpreendentemente realista de Josué, a história do passado se entremeia com a esperança do futuro vindouro, dizendo para homens e mulheres, velhos e crianças, pessoas do povo do pacto e pessoas que se achegariam ao pacto – que temessem ao Senhor, servindo-o com integridade e fidelidade, que escolhessem a quem servirão. O general Josué aqui inseriu sua declaração: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15). A aliança legal era declarada publicamente, escrita e lavrada em pedra, por estatuto e direito, e em monumento de pedras toscas. Hoje em Cristo Jesus somos feitos edifício e sacerdócio de pedras vivas, construído sobre a Pedra Fundamental (1Pe 2.4-10). 

Débora, ao levantar-se por mãe em Israel, estimulou o capitão Baraque com seus dez mil homens. Como juíza e profetiza, começou seu cântico bem-dizendo ao Senhor, permeando a ode dos feitos de guerra com descrições da destemida Jael (que matou o opressor Sisera) e dos atos de justiça de Deus – dando ao povo paz sobre a terra por quarenta anos. A sua conclusão: “Os que te amam brilham como o sol quando se levanta em seu esplendor” (Jz 5.31).

Davi fingiu estar louco para se refugiar com Abimeleque, fugindo da fúria de Saul, e começa o Salmo 34 dizendo “Bendirei o Senhor em todo tempo, o seu louvor está sempre nos meus lábios” – e liga o amor à vida e desejo de ver o bem a refrear a língua do mal e os lábios de falarem dolosamente. Sempre a prática da vida piedosa começa com a boca para então afastar do mal, praticar o bem, procurar a paz, e empenhar-se por ela. O Senhor ouve o clamor dos justos – dos que têm o coração quebrantado (Sl 34.10-18). 

Tiago, irmão de Jesus Cristo, diz que Deus “nos gerou pela palavra da verdade” e por esta razão, devemos ser “pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar... acolhendo a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma. Tornai-vos, portanto, praticantes da palavra e não somente ouvintes...” (Tg 1.19-22). Mais adiante, Tiago fala que se alguém não tropeça no falar, é perfeito e capaz de refrear todo o corpo (Tg 3.2) e descreve o pequeno órgão que é mundo de iniquidade, contamina todo o corpo, põe em chamas a carreira da existência humana... mal incontido, carregado de veneno mortífero. “Com ela bendizemos a Senhor e maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. De uma só boca procedem bênção e maldição” (Tg 3.9).

Quando eu era jovem, fazia-se diferença entre os vocábulos estória, história, e histórias. Estórias eram os contos fictícios, como os de Anderson e Grimm, de Homero e de Shakespeare, que fazem parte da cultura de um povo. História era a narrativa fatual da história do passado em nosso planeta e nosso país; consistia de datas e dados, fatos e feitos de heróis e vilãos. Problema é que a história é mais ou menos verdadeira conforme quem a narra, geralmente do ponto de vista dos vencedores. Exemplo: em história do Brasil contado por descendentes de portugueses, o tempo em que os holandeses dominaram Pernambuco foi uma “invasão holandesa” em que o pastor indígena preparado em seminário reformado europeu, Calabar, era inculto índio traidor da pátria. E as histórias podem ser verdadeiras ou não, dependendo da perspectiva do contador. Por exemplo, no filme sobre Forrest Gump, quarenta anos de história são contados conforme ele tivesse participado (ou não?) dela. 

A história na perspectiva bíblica é sempre narrativa da verdade de acontecimentos reais desde Gênesis até o Apocalipse. Diferente da história são as parábolas, que contam em estórias exemplos de conceitos ou fatos a serem ilustrados. Temos diversos outros tipos de relatos na Bíblia, mas quero enfatizar que a Palavra e a Vida sempre estão jungidas e fazem parte uma da outra, sem esfacelamento entre o que aconteceu no passado, o que é, o que deve ser ou há de ser, e o que acontecerá futuramente. O que importa é a verdade, da qual Jesus Cristo é expressão viva e real, Verbo Encarnado, e caminho, verdade e vida se a qual ninguém vem ao Pai (Jo 14.6). Esta história é entremeada de doutrina e prática – em sabedoria de poesia ou profecia, em histórias de reis e bufões, em epístolas e relatos dos evangelhos e de Atos dos Apóstolos inspirados pelo Espírito Santo do Deus Triuno. 

Como escritores cristãos, não somos criadores no sentido do único Criador do Universo. Foram-nos dadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade (2Pe 1.3-8), para que sejamos coparticipantes da natureza divina! Nada há encoberto que não venha a ser revelado (Lc 12.2); embora nada tenhamos, possuímos tudo (2Co 6.10) – e tudo vem das mãos de Deus. Por mais belas e edificantes que sejam nossas palavras, não temos inspiração no sentido bíblico da Palavra inspirada por Deus. As palavras do profeta estão sujeitas à boca do profeta (1Co 14.32); nossas palavras são verdadeiras e edificantes somente quando totalmente sujeitas ao autor da Vida, Verbo de Deus – condizentes com o que ensina sua Palavra. Assim, mais que escritores, somos aprendizes e escribas. Comunicamos vida ou morte, sabedoria ou estultícia, segundo o que aprendemos da Palavra de Deus – mas não somos “boca de Deus” no senso que Moisés e Arão ou Jeremias ou João Batista falavam. Como pecadores que somos, muitas vezes, nossa comunicação é truncada, falha, duvidosa ou até mesmo mentirosa. Queremos falar a verdade em amor (Ef  4.25) mas as palavras guerreiam, são torpes, mercadejadas, mentirosas, faladas de modo indigno do Evangelho.

Entre os hinos de letras profundas e melodias tocantes de Charles Wesley, um dos que mais expressam meu desejo diante do Senhor é “Mil línguas eu quisera ter para entoar louvor, à tua graça e teu poder, meu Rei e meu Senhor” (Hinário para o Culto Cristão, # 72). O desejo de comunicar com variedade, riqueza e conhecimento ao Autor toda boa Palavra, o Verbo Vivo, o Espírito que sopra graça e vida, faz de uma simples tradutora que domina bem apenas duas línguas, um desejo de falar de mil maneiras, com mil vozes, a verdade que me impacta e dá vida. Descubro, no dia a dia, contudo, que não consigo sequer louvar ao Senhor da Palavra nem comunicar a meu semelhante o que realmente queria falar – e olhe que já vão quase setenta anos em que o desejo de expressar, com canto, conto, e relatos fatuais histórias, narrativas e história bíblica – sempre à procura de novas “línguas”. 

Às vezes, descubro que a palavra que digo a alguém que “estou orando por você” em vez de dar um simples “parabéns” é recebida como uma crítica e desaprovação da pessoa a quem deixei de dar congratulações. Tenho a tendência de falar demais, de “matar por exagero” um bom sentimento, de deixar de falar quando preciso, e falar erradamente quando abro a boca! Certa vez, criei uma situação que feriu a diversas pessoas porque eu quis falar a verdade sobre um assunto sem ser convidada a fazê-lo. Interferências indesejadas jamais serão comunicação da verdade em amor. A razão de falar a verdade está no fato de que “somos membros um do outro”. Minha palavra deve ser sempre “agradável, temperada com sal, para eu saber como devo responder a cada um” (Cl 4.6).

Lembro de uma canção de Sandy Patti, Love in any language, straight from the heart, pulling us together, never apart – o amor em qualquer língua, direto do coração, nos puxando para mais juntos e jamais nos separando – fosse “falado fluentemente aqui” – descrevendo a comunicação no Corpo de Cristo. Era o que eu desejava. Às vezes gaguejava, trocava palavras e criava frases truncadas – mas queria que o amor de Cristo fosse fluente e límpido em minha fala e meu proceder. Tinha de falar! Como estudante (consequentemente, aprendiz da Palavra) eu jamais teria púlpito de pregadora – teria de escrever – aprender e aperfeiçoar a arte de falar a verdade em amor (Ef 4.25). Para tanto, tenho de me portar com sabedoria para com os que são de fora, aproveitar bem as oportunidades (Cl 4.5), deixando habitar ricamente em mim a Palavra de Deus, instruindo e aconselhando em toda sabedoria, louvando a Deus com salmos e hinos e cânticos espirituais, com gratidão no coração. Tudo que escrevo ou deixo de escrever, o que faço ou me abstenho de fazer, seja feito em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai (Cl 3.16-17).

Uma das sequelas do AVC de 2007 foi que perdi a voz para cantar. Mas não perdi a canção – a comunicação com vida coerente com o que falo, escrevo, ou como me calo. Quer traduza algo escrito por outros, quer escreva linhas originais inéditas – que essa minha boca sussurre ou proclame sempre por alegria na Fonte de toda Bênção!

Elizabeth Gomes

sexta-feira, maio 04, 2018

GENEALOGIA DOS FILHOS DE DEUS



Em casa muito se fala em genealogias. É um hobby de meu marido, motivo de muita história e brincadeiras. Na casa da mãe dele, a saudosa Da. Eulina, os irmãos e parentes se movimentaram para descobrir o paradeiro da fortuna do Barão dos Cocais da velha Minas Gerais, que aparentemente sumiu quando outro sócio fundou ou vendeu ou sei lá o que a Companhia Mineira de Mineração, dando lugar a ainda existente Companhia Belgo-Mineira. Alguns advogados e pesquisadores promoveram a causa e escreveram livros a respeito. Fizeram outra fortuna com o dinheiro dos parentes que se habilitaram e com da venda dos livros aos ansiosos por conhecer mais sobre a fortuna da qual eles seriam herdeiros legítimos. Em um Congremar (Congresso dos Martins), há muito tempo, houve distribuição de moedas a cada herdeiro, chefiada pela Tia Noemi (acho que ela mesma contribuiu as moedinhas). Quando Lau e eu nos casamos, há quase 52 anos, a piada era que eu casei com ele por causa da fortuna do Barão, enquanto ele casou comigo pelos dólares que certamente eu tinha escondido em algum lugar. Nenhum de nós viu a cor do dinheiro!

As genealogias continuaram nos interessando. Eu debochava um pouco da minha avó, que havia traçado seus antepassados até a vinda do Mayflower em Massachussetts (essa informação foi corrigida para outro navio que veio apenas uns vinte anos depois – mas nossos antepassados (do lado da vovó e do vovô) eram realmente peregrinos puritanos que colonizaram a Nova Inglaterra há muito tempo. Minha avó era DAR (Filha da Revolução Americana – minha tia Virginia ainda hoje celebra 70 anos de sócia nesse clube conservador de revolucionárias). Antes de serem americanos legítimos, meus antepassados foram ingleses, escoceses e irlandeses até época de Ricardo Coração de Leão, descendentes do rei João e pertencentes a diversas casas reais – aqui meus conhecimentos se mesclam e confundem – para informações mais exatas é necessário consultar minha irmã, a Condessa Kitty Charles!

Wadislau, por sua vez, traça as raízes brasileiras até o relacionamento da brasilíndia Bartira com o português João Ramalho em idos de 1500, e do outro lado tem descoberto coisas interessantíssimas que montam ao antigo Portugal, traçando o parentesco do rei D. Manoel até a antiga Pérsia. A essa altura, os netos, físicos, Daniel e Rafael, se juntam ao avô e ajudam a traçar não somente a árvore genealógica dos Martins e dos Gomes como também dos Almeida e Heringer.

Essas estórias podem ser mitos e lendas, mas dão muitas histórias para pesquisa e conjeturas. Houve tempo em que eu questionava por que Deus permitiria colocar genealogias na Bíblia– listas chatas de pessoas que viveram, tiveram filhos, e morreram. Quando, uma vez, em Jaú, Wadislau pregava a Bíblia de capítulo em capítulo, eu temia que, ao chegar às genealogias, ele teria de pular a fim de não fazer a igreja inteira dormir. Ao chegar, porém, às mensagems sobre as genealogias de Gênesis, teve gente que se converteu – a mensagem de que a vida não consiste apenas em uma existência de nascer, viver, deixar filhos e morrer – tem impacto eterno! Hoje considero com mais acerto que toda a Escritura é inspirada – até mesmo as genealogias – útil para nos ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça (2Tm 3:16) para que a pessoa que é de Deus seja “perfeita e perfeitamente habilitada para toda boa obra”.

Ora, a primeira lista de família na Bíblia é também a história do primeiro assassino, Caim, e fala que ele “viveria fugitivo e errante, retirou-se da presença do Senhor, edificou a primeira cidade, e seu neto Lameque foi o primeiro bígamo na humanidade”. A leste do Éden, multiplicam-se habilidades (agricultura, pastoreio, música, uso de metais para implementos, instrumentos e armas) e vinganças.

Outro filho nasce a Adão e Eva (Gn 4.25-5.32) – Sete – e é por ele que virá o descendente da mulher que ferirá a cabeça da serpente: Yeshua Hameshiach, Jesus Cristo. Esta genealogia é contada de forma remissiva por Lucas até “filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus” (3.23-38). 

Entre o povo israelita, para determinar se uma pessoa é judia, a ascendência judaica comprovada tem de ser da mãe, talvez porque o ensino da fé vem junto ao leite materno. Mas na genealogia de Mateus (1.1-17), as únicas mulheres mencionadas são acrescentadas ao povo de Deus por “linhas tortuosas”. Tamar, depois de ter sido duas vezes viúva dos filhos perversos dele, teve filhos gêmeos de Judá, e de Perez continua a sua descendência (Gn 38). Salmom gerou de Raabe, que havia sido prostituta, mas se uniu ao povo de Deus quando em Jericó (Josué 2), a Boaz, e este se une à moabita Rute, e geram Obede, avô do rei Davi (Rute 4.14-22). Davi gerou de Bate-seba, “a que foi mulher de Urias”, a Salomão. A graça de Deus sempre se mostra a pecadores que não tinham linhagem ou estirpe merecedora de seu favor. Cada uma dessas mulheres que vieram para a lista de antepassados famosos tinha fatores negativos manchando sua história: Tamar conseguiu engravidar enganando o sogro e se apresentando como prostituta cultual (Gn ; Rute era moabita, povo desprezado pelos israelitas, que não podia entrar no tabernáculo (Dt 23.3); a característica marcante de Bate-seba é que “era mulher de outro”.

Voltando para trás na história, o livro de Gênesis apresenta os descendentes de Noé (entre os quais você e eu nos situamos!) segundo as suas gerações, nas suas nações; e destes foram disseminadas as nações na terra, depois do dilúvio, como tendo apenas uma linguagem e uma só maneira de falar (Gn 10.31; 11.1). Mas quando, edificando uma cidade, o povo quis fazer uma torre “cujo topo chega ao céu, tornando célebre o nome” – sem adorar ao Deus vivo e verdadeiro – as línguas foram confundidas e o povo se dispersou. Características básicas da nossa humanidade: a fala, a comunidade e a comunicação, foram confundidas em Babel – e até hoje as pessoas não se entendem, não conseguem viver juntas sem contendas, e não conseguem transmitir com integridade ao próximo aquilo que são e que pensam!

Graças a Deus que, em vindo a plenitude do tempo, “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4.4).  Jesus resgata aqueles que não possuem linhagem e estão alheios às promessas de Deus, e os adota como filhos! “Porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” Estes descendentes tornam-se também herdeiro por Deus. Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus...” (Gl 4.6-9). Ao falar aos Gálatas sobre tornar-nos filhos de Abraão pela fé, Paulo pergunta por que voltamos a nos preocupar com dias, meses, anos, e a nos escravizar pela lei. Usa duas mulheres da história como metáforas de viver pela graça ou sob a lei – Sara e Agar – e até hoje a ascendência e descendência das duas continua influindo na história da humanidade e de nossa cristandade!

Ao falar aos Efésios sobre essa dispensação da plenitude dos tempos, Paulo diz que Deus “faz convergir nele (em Jesus) todas as coisas, tanto as do céu como as da terra”. Não temos apenas origem genealógica preciosa e herança eterna; temos finalidade – predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade – propósito – a fim de sermos para louvor da sua glória, história passada –  nós, os que de antemão esperamos em Cristo;  em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa – esperança futura – o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória – vivência valiosa no presente – Por isso, também eu, tendo ouvido a fé que há entre vós no Senhor Jesus e o amor para com todos os santos, não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações...”
para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele,  iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos   e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro.  E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas! (Ef 1.1-23).

Conhecemos a genealogia de Jesus (de Mateus e de Lucas) da parte de sua mãe e de seu pai adotivo.  A Bíblia apresenta numerosas genealogias de heróis, nobres e vilãos, mas menciona o sacerdócio de Jesus, Verbo Encarnado, como proveniente de um “sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias ou fim de existência”: Melquisedeque, rei da paz (Gn 14.17-20 e Hebreus 7.1-17). Um dos jovens pastores mentorados por Paulo, foi Timóteo, filho de pai grego, e de mãe e avó judias cristãs, tementes a Deus que o ensinaram as Escrituras desde sua infância. Sabemos que ele valorizou as origens de Timóteo (2Tm 1.5,6; 3.15), mas advertiu-o para evitar pessoas que ensinem outras doutrinas os se ocupam com “fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé”(1Tm 1.3-4). 

 Não é errado procurar conhecer a nossa história passada e as nossas origens nobres e vilãs (porque entre esses nobres houve também tremendos vilãos!), mas muito mais que genealogias, precisamos conhecer o que realmente torna pleno o tempo passado, presente, e futuro, e a eternidade: o Senhor da História. Não podemos promover discussões em vez de servir a Deus na fé! Qualquer conhecimento, quer informativo quer normativo, tem de estar sujeito ao Senhor Ressurreto, Cabeça da Igreja, que nos dá sua sabedoria, iluminado os olhos do coração, enchendo-nos de sua pleiroma, plenitude, na plenitude dos tempos, para a eternidade sem tempo!
Elizabeth Gomes