sexta-feira, fevereiro 17, 2017

POR QUE VALORIZAR A HISTÓRIA?



O coração do sábio discernirá o tempo e o modo (Eclesiastes 8.5).

O passado não é assim tão remoto
Um pastor perguntou à classe de escola dominical há quanto tempo o mundo existia. Um diácono respondeu categórico: “502 anos — comemoramos os quinhentos anos já fazem dois anos”.  Um candidato ao ministério, referindo-se a um pastor brasileiro, professor num seminário, comentou: “Ele é fera mesmo. Foi aluno do próprio Calvino” ­– pensando que seu professor tivesse estudado poimênica aos pés do grande reformador, quando ele se referia a um professor e clínico atual.
Se você tem menos de trinta anos, não terá participado do protesto Diretas Já. Se está na casa dos vinte, será que chegou a marchar pelo impeachment do Collor? Você se lembra onde estava quando Kennedy foi assassinado?  Se tiver mais de quarenta anos, talvez tenha imagens indeléveis em preto no branco e com matizes de cinza, da realidade do desmoronamento do pretenso Camelot moderno — o choque da vulnerabilidade dos mais poderosos do mundo. Outra imagem inesquecível transmitida pela televisão foi do salto para a humanidade que foi o primeiro passo do homem na lua. Lembro-me daquele dia: um senhor na padaria onde fomos comprar leite afirmou categórico: “Isso é tudo propaganda americana. Montagem. Ninguém jamais irá à lua”.
Você se lembra dos dias de agonia com a doença e morte de Tancredo Neves, de quem pensávamos ser o primeiro presidente não militar desde a revolução de 64?
Meu marido contava a jovens que, antes de sua conversão, jovem, fora preso na revolução militarista e, da cadeia, ouviu um conhecido pastor declarar que “agora acabou a luta contra o comunismo porque eles estão todos presos onde deviam estar”. Os jovens o olharam como se fosse um ocorrido de outro século — e era de vinte anos antes no mesmo século vinte.
Ele mesmo conta de conversas com seu pai que descrevia a ida a São Paulo para participar da Revolução Constitucionalista de 34. Parecia-lhe tão distante no tempo... hoje conversamos com jovens sobre momentos históricos de que participamos e eles nos olham como se fôssemos de outro planeta.
Meu avô contou-me que o seu pai, quando jovem, apanhou do pai dele quando afirmou que um tal de Alexander Graham Bell havia inventado um aparelho com o qual se podia falar com pessoas distantes a mais de um quilômetro. “Isso é mentira, porque só Deus fala à distância”.

Lembranças pessoais
Recordo-me bem de um dia, em agosto de 1954, quando meus pais, eu aos seis anos de idade (está vendo — agora vocês sabem!) e minha irmã de três, chegamos ao Rio de Janeiro depois de um período de férias nos Estados Unidos. O navio atracara no Rio para os turistas passarem o dia antes de prosseguirem para Santos, o destino final. Minha irmãzinha se perdeu no centro de Copacabana e o taxista não queria voltar com meu pai para procurá-la porque o trânsito estava desgovernado: era o dia em que Presidente Vargas suicidou.
As manchetes sobre gente morta a tiros ao tentar atravessar o muro de Berlim que rasgava a cidade em Oriente e Ocidente ficaram gravadas em minha mente impressionável de doze anos. Agora já nos esquecemos dos poucos anos que passaram desde que o muro da vergonha foi despedaçado e pedaços dele vendidos como lembrança para turistas na Alemanha do final do século passado.
Eu tinha treze anos, e era só uma formiguinha entre as milhares de pessoas, na praça dos três poderes, que assistiam Juscelino Kubitschek inaugurar Brasília, a capital da esperança. Na semana anterior, minha irmã tinha acompanhado papai em visita ao presidente. Guardamos até hoje a foto em que a encantadora menina foi beijada pela primeira dama (nossa rainha), Dona Sara Kubitschek.
Vivi um ano nos Estados Unidos quando se faziam treinamentos, na pacata cidade em que vivíamos, para nos conduzir a abrigos antibombas em caso de ataque nuclear. Não se sabia, nunca, até depois, se era apenas um ensaio ou o acontecimento de fato. O pavor que se tinha do domínio comunista no mundo era disseminado pelo “mundo livre”. Hoje, o mundo livre viu ruir o poder da União Soviética, mas vive com pavor do terrorismo de grupos extremistas muçulmanos. Quem conhece gente que foi tragada pelas torres do World Trade Center em onze de setembro sabe que não existe lugar seguro no mundo. Lembra-se de onde você estava quando ouviu a notícia?

Alienados no presente
                Hoje, a maioria das pessoas não tem noção de história — nem as da igreja nem as do mundo. Igrejas chamadas históricas oscilam com os tempos. Igrejas pentecostais cuja história tem menos de cem anos estão mais tradicionais. Igrejas da terceira onda têm seus “apóstolos” que, em vez de fundamentar a igreja invisível de Cristo, gastam 70 % de seu tempo na televisão pedindo dinheiro e descrevendo as bênçãos da prosperidade. Abundam as afirmativas amalucadas de desconhecedores de história.
Ouvi alguém afirmar que Calvino era um déspota assassino, sem saber que o reformador sequer fazia parte do conselho da cidade nem a razão do seu apoio. Essa pessoa se agarrava a chavões tendenciosos e ignorava por completo o reavivamento que seguiu a Reforma Protestante, fazendo com que, em um ano, a igreja de Genebra abrisse mais de cem novas igrejas e no segundo ano, mais de mil — junto a uma transformação social que incluía o abrigo e sustento pessoal de centenas de pessoas desprovidas de seus bens e familiares (essa era a estirpe dos reformadores!). Voltaram à França com uma visão holística do evangelho perto da qual nosso evangelicalismo xôxo e antropocêntrico empalidece.
“Os que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”, disse o pensador George Santayana.[1]
Em vez da visão de remir o tempo conforme Efésios 5.16, o tempo presente é visto como a hora para se aproveitar ao máximo as oportunidades — para si mesmo! Queremos mais tempo de lazer, tempo para nós mesmos, tempo para investir na pessoa mais importante de minha vida — eu! ­– esquecidos do que disse Paulo sobre gastar-se e deixar-se gastar “em prol das vossas almas, ainda que mais vos amando seja eu menos amado” (2Co 12.15).
Por meio dos livros e de comentários da televisão, somos comprovadamente crentes quando temos sucesso nos negócios, no amor, na vida. Um Jó sentado no pó, destituído de bens, família e saúde, ou um Moisés por quarenta anos pastoreando rebanhos do sogro no deserto antes de gastar mais quarenta anos dando voltas sem terra num deserto ainda mais vasto, conduzindo um povo resmungão, criando nele uma ética de vida para a eternidade, ou um Paulo a quem “Demas me abandonou por amar mais o presente século” — são alheios aos nossos anseios.
 Cristo afirmou que “no mundo tereis aflições” e passou por um tribunal infame e uma morte vergonhosa, abandonado pelos que o seguiram durante três anos de ministério — todas essas histórias “negativas” são estranhas à visão de êxito na vida cristã, proposta pela mídia e pelos púlpitos evangélicos.
Perdemos a visão do tempo presente, achando que somos donos de nosso próprio tempo e podemos gastá-lo em proveito pessoal. Perdemos a visão da atualidade em que fomos inseridos, do tempo que se chama hoje e que amanhã, não volta.
                Diz o educador cristão Robert Pazmiño: “O cristão não escolheu o tempo para sua jornada histórica, mas estar inserido em determinado tempo histórico requer aprendizado do passado e viver no presente tendo em vista o futuro de Deus”. [2]
Sem as raízes do passado, sem saber onde pisamos na atualidade, é impossível que tenhamos uma visão acertada do futuro. Esvoaçamos como borboletas que se agitam e pousam sobre de montes de esterco, em vez de flores, sem jamais alçar com asas como de águias que voam sem fadiga.
A Bíblia começa com uma declaração que engloba tempo, espaço e matéria: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1) e o evangelho se resume na entrada do Deus infinito na história da humanidade finita, dando-nos eternidade de glória: E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como a do unigênito do Pai (João 1.14), na cruz e na ressurreição. A pregação do Evangelho de Paulo incluiu uma visão do poder de Deus na história: “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação” (Atos 17. 26). Como não prestar atenção à história de nossa fé, à história de nós mesmos, e à inserção do Deus que fala e age dentro da história humana para nos proporcionar apoios sólidos na terra e asas largas e fortes para vôos mais altos?!
Elizabeth Gomes




[1] George Santayana, The Life of Reason or the Phases of Human Progress, vol I, p.284, citado por Millard J. Erickson em The Postmodern World (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 2002), p. 1.
[2] Robert W. Pazmiño, Questões Fundamentais de Educação Cristã (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 2005).

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

COISAS DE SOGRA



Estive pensando sobre o que me leva a escrever. Sem dúvida, idéias e pessoas mexem comigo. Provocam, instigam, fazem pensar e ruminar as coisas. Conduzem para longe e cavam fundo. Idéias podem ser boas ou más, inteligentes ou insossas, mas uma idéia sempre atual e válida é a questão de relacionamentos.

Já os relacionamentos são intercâmbios entre as pessoas, e nasceram com idéias de amizade e bem-querer. Vivemos e nos movemos pelos relacionamentos com pessoas. A Pessoa de Deus – nele nos movemos e existimos, porque somos dele (At 17.28) – norteia e dá razão a todos os demais relacionamentos, sejam grandes ou pequenos. Se o relacionamento com Deus for equilibrado a ponto de vivermos para ele, e simultaneamente desequilibrado a ponto de ELE ser tudo – o começo, o fim e o meio – segue que nossos relacionamentos interpessoais também imitarão aquele que temos com o Criador.

De menina, eu queria me dar bem com as pessoas. Estar de bem, ser aceita e admirada. Isso me levou às alturas e, muitas vezes, fez-me descer ao fundo do poço. Outro dia, estive pensando numa pessoa que caracterizou seus relacionamentos como Amarga. Estava lendo (e bebendo, ao traduzir) o livro de John Piper, Doce e amarga providência – revendo a história de Rute (publicação da Hagnos). Três mil anos e ainda atual, a singela história trata de relacionamentos comuns e ações totalmente incomuns, singulares. A soberana providência divina permeia cada linha desta história, e provoca na gente um gosto de “quero mais”. Daí, minha nora Márcia me instigou:

– Por que você não escreve sobre o relacionamento de sogra e noras?

Minhas noras fazem dessas coisas. As duas estão entre minhas melhores amigas, e são as com quem sempre tenho bons papos. Pudera – são minhas vizinhas mais próximas, minhas confidentes, minhas motoristas. Meu genro também é um grande amigo, mas mora longe, e como sou mulher, e obviamente elas também pertencem ao gênero feminino, acatei a idéia.

Quando me casei aos dezoito anos, Deus me deu sogros extraordinários. Os pais do Lau me adotaram e apoiaram, e eu os assumi como a Rute da Bíblia. No caso da antepassada do rei Davi e do Rei dos Reis que viria de sua estirpe, a nora é que era a mulher de valor (Não insista que eu deixe você sozinha: teu Deus será meu Deus). Na história da Charles que virou Gomes, os “velhos” Wadislau e Eulina demonstraram a graça de Jesus em tudo que fizeram por mim.  Sem jogar, ganhei na loteria ao ganhar novos pais!

Contudo, Lau explica aos casais que grande porcentagem dos problemas entre casais – jovens ou mais maduros – se deve aos relacionamentos com sogros. As clássicas piadas são constantes na cultura e no cotidiano, e carregam mais que pitadas de verdade.

– O que é que você quer que eu diga, Márcia? O fato de que meus filhos fizeram escolhas nobres acima de qualquer nora ou genro que nós merecêssemos?

Quando as vizinhas de Noemi parabenizaram a antes falida e amargurada solitária pelo nascimento do neto, disseram:

Seja o Senhor bendito, que não deixou, hoje, de te dar um neto que será teu resgatador, e seja afamado em Israel o nome deste. Ele será restaurador da tua vida e consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos (Rute 4.14).

Meus netos não são a única razão pela qual as noras são preciosas (se bem que netos e noras nos dão muito orgulho e renovam a juventude). Os netos não são resgatadores no sentido de parente remidor da trama de Rute – não são eles que restauram nossa vida e nos consolam – quem o faz é o Descendente de Rute, Jesus Cristo – o Supremo e Único Remidor. Nós somos abençoados por ter filhos saudáveis, homens e mulher de Deus – não como os falecidos filhos de Noemi – e assim, não teríamos necessidade de uma “nora melhor do que sete filhos”. Contudo, pela abundante, exagerada e pródiga graça divina, tenho duas noras e um genro tão bons quanto os lendários sete. Aí, fazendo as contas, é como se tivéssemos vinte e um filhos além das três flechas na nossa aljava – mas que exagero!

            Não tenho espaço para discorrer sobre os segredos do bom relacionamento entre sogros, noras e genros, nem cunhados ou irmãos (você já leu meu livro Irmãos: cúmplices e rivais em aliança, da Cultura Cristã?). No entanto, quero destacar três características que fizeram com que meus sogros me abençoassem no relacionamento que desenvolvemos até a morte de cada um – e que quero imitar.

1)      Aceitaram-me como sou, não tentando mudar meus hábitos ou jeito. Isso foi um imenso desafio, pois eu vim de outra cultura e muito do meu jeito era contrário ao jeito deles pensar ou fazer. Uma vez que Lau declarasse ser eu a sua mulher para toda a vida, eles me acataram, e não fizeram diferença entre seus filhos e eu mesma.

2)       Ajudavam sem cobrar juros. Conheço muitos pais que ajudam os filhos, mas esperam algo em troca: reconhecimento, atendimento imediato, que façamos as coisas do seu jeito. Dão presentes “com cordas amarradas”. Não “Seu” Wadislau e Dona Eulina. Quando nos casamos, ainda estávamos no seminário, e eles nos ajudaram no que podiam – sacrificando até o que não podiam. Mas não puseram nada “na conta”.

3)      Respeitavam o casal jovem e inexperiente e davam espaço para nossos erros, sem cobranças. Serviam ao Senhor, e viam os filhos como servos do Senhor – com o respeito de Filhos do Rei dos Reis, e a humildade do menor dos servos.

Ah, norinhas queridas – quisera imitar meus sogros sempre! Sou grata porque não é uma ogra que vocês têm de homenagear, mas uma mãe-na-lei, uma irmã amiga, como o nome: Amiga, da moabita que entrou na linhagem de Jesus.

Elizabeth Gomes

domingo, janeiro 22, 2017

O QUE VOCÊ VÊ É O QUE VOCÊ LEVA

Lenda grega de Narciso

O acrônimo WYSIWYG, da expressão inglesa “what you see is what you get” (o que você vê é o que você obtém), é usado na computação para se referir à representação imediata da imagem gráfica e o resultado final. O dito é verdadeiro em relação a nós mesmos. Dá vergonha de dizer isso, mas o que somos tá na cara e é impossivel de ser evitado. Todos os dias, em todos os meus dias, tento disfarçar os desejos, intenções e atos do meu coração. Isso me faz lembrar de outra expressão usada por linha de avaliação de traços de personalidade, tomada de empréstimo aos mágicos de palco: “now you see me now you don’t” (agora você me vê, agora não). Esta diz respeito ao comportamento dúplice de pessoas que prometem muito e não estão prontas a cumprir ou que repetidamente mostram uma mão enquanto escondem a outra. O fato é que, pelo verso ou pelo avesso, sempre me dou a conhecer. Se, às vezes, parece que sou bem sucedido em minhas estratégias, acabo escravo do engano e do autoengano (cf. Tg 1.17-27). Estou sempre a descoberto aos olhos críticos mais aguçados.

Pense nas palavras da Escritura: Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim, o coração do homem, ao homem, e Até a criança se dá a conhecer pelas suas ações, se o que faz é puro e reto (Pv 20.11; 27.19). Elas nos permitem considerar que quando as nossas palavras e ações forem puras e retas, a sinceridade do coração transparecerá na admissão de nossa fraqueza e dependência da graça de Deus. Se, porém, as nossas palavras e atos forem uma cortina de fumaça para acobertar a feiúra da impureza moral, dos valores temporais errados, e da amargura incontida (cf. Hb 12.14-17), isso também transparecerá.

De nada adiantará sistematicamente evitar certos assuntos ou exageradamente abordar certos temas, pois isso também será evidência do mal que abrigamos no peito—um mal chamado hipocrisia! O próprio Senhor Jesus foi quem disse isso, recordando as palavras de Isaías: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens (Mt 15.8-9; cf. Is 29.13). Hipócritas!—chamou. O Senhor se referia ao requerimento farisaico do ato externo da lavagem de mão sem a correspondência interna da purificação da alma. Ouvi e entendei—disse ele—não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem ... o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem (Mt 15.10b-11).
O que fazer? Deixarmo-nos levar pela sátira do vício, como fez Gregório de Matos, o “boca do inferno”?
De que pode servir, calar, quem cala, / Nunca se há de falar, o que se sente? /  Sempre se há de sentir, o que se fala?  ...  Se souberas falar, também falaras, / Também satirizaras, se souberas, / E se foras Poeta, poetizaras. / A ignorância dos homens destas eras / Sisudos faz ser uns, outros prudentes, / Que a mudez canoniza bestas feras. / Há bons, por não poder ser insolentes, / Outros há comedidos de medrosos, / Não mordem outros não, por não ter dentes. / Quantos há que os telhados têm vidrosos, / E deixam de atirar sua pedrada / De sua mesma telha receosos. / Uma só natureza nos foi dada: / Não criou Deus os naturais diversos, / Um só Adão formou, e esse de nada. / Todos somos ruins, todos perversos, / Só nos distingue o vício, e a virtude, / De que uns são comensais outros adversos. / Quem maior a tiver, do que eu ter pude, / Esse só me censure, esse me note, / calem-se os mais, chitom, e haja saúde.”

Longe de nós tamanho cinismo! Mas que o olho crítico da boca do inferno está aí está mesmo. Então, o que fazer? Haverá uma maneira de superar a nossa natureza decaída e alcançar os altos para os quais fomos alcançados pela graça de Deus? Certamente, sim. A própria graça que nos alcançou—Jesus Cristo—é o caminho, a verdade, e a vida (cf. Jo 14.6) a nos despojar de nossa autoimagem artifical e nos transpostar para o conhecimento verdadeiro de quem é Deus e quem somos nós. O apóstolo Paulo fala sobre essa esperança tanto em termos presentes como em termos futuros:
Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós; e Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido (2Co 4.6-7; 1Co 13.12).

Entre o agora e o então, Tiago nos admoesta a cuidar da boca, impedindo a língua de dar vazão à sua natureza decaída, com ela pretendendo bendizer a Deus enquanto amaldiçoamos o homem. De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim (Tg 3.10). Isso mesmo também ocorre quando falamos sobre a graça de Deus a pessoas que já são salvas ao mesmo tempo em que as sobrecarregamos com culpa e medo. Ao impenitente fica bem a exposição do seu pecado; ao arrependido, cobre-lhe o sangue do Senhor Jesus e as admoetações da graça. Por isso mesmo, Tiago insta, dizendo que não adianta mostrar-se furioso apenas contra o pecado dos outros, Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus. A chave para a coerência de vida baseada na justificação em Cristo, diz ele, está no despojamento da impureza e do acúmulo de maldade, acolhendo
com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma. Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar (Tg 1.19-25).  

Em tudo o que realizar? Prosperidade evangelicalista? Prosperidade que o ladrão rouba, a traça corroe, e o olho arguto do acusador percebe e critica? Ou a realização da vontade de Deus, cheia de amor, plena de misericórdia? Quem nos fornece o ensino, com humildade, sinceridade, e sabedoria, é o rei Davi, o escolhido que rogou a Deus que lhe sondasse o coração, o homem que confessou seu pecado, e o crente que confiou no Redentor:
A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos. O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa. Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão. As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu! (Sl 19.7-14.)

Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, janeiro 16, 2017

A TENDA VERMELHA


     A leitura sobre as famílias iniciais de Gênesis certamente não gera parâmetros para a família cristã ideal—nem de dois, três mil anos antes de Cristo nem de dois mil anos da era cristã. Alguns anos atrás, comecei a pensar mais sobre as famílias patriarcais da Bíblia e a relação deles com nossas famílias atuais
     Fui convidada para falar em retiro de mulheres de uma igreja presbiteriana de Anápolis, e o germe de meu livro “Irmãos: cúmplices e rivais em aliança” foi plantado. Repeti alguns aspectos do estudo de “irmãos” em acampamento para jovens da Igreja Presbiteriana de Brasília. Em vez de repetir as mesmas histórias de vida cristã familiar segundo o plano divino, observava que nossas histórias familiares são cheias de conflitos e carências—e vinham sendo assim não obstante possuirmos a Palavra de Deus e mestres que a ensinam com integridade. A Editora Cultura Cristã publicou meu livro sobre o assunto em 2008, e tem havido limitado mas constante interesse no assunto.
     O livro parâmetro de Moisés, por sua vez, conta que os primeiros irmãos tinham conflito de perspectivas e interesses: enquanto Caim queria produzir da terra e desfazer pelos próprios esforços a maldição do cultivo, Abel gerenciava o pastoreio e oferecia de seu próprio rebanho símbolo daquilo que constata que tudo vem de Deus e nada conseguimos sem seu amparo. A inveja e o ódio geraram o primeiro assassinato—que. em vez de eliminar a rivalidade, faz com que o perpetrador continue de semblante caído e o sangue da vítima continue clamando ainda hoje.  A multiplicação da maldade continua, perpassando mesmo os que foram salvos na arca: filhos de Noé, tendo oportunidade do re-começo de toda a civilização, ainda geram maldição, servidão e domínio no incidente do “descobrimento” da nudez do pai, e depois, ao edificar a torre da grandeza, são espalhados pela terra numa total descomunicação da fala única.
     Os anos vão passando e as histórias vão somando: isolamento e solidão, separação e novas alianças, esterilidade, tentativas de manipulação para se conseguir os ideais prometidos por Deus—pacto e promessas de quem é amigo de Deus versus os reis e deuses das tribos dos homens. Eram violentos os tempos de Isaque e Ismael, de Esaú e Jacó, dos filhos das quatro mulheres do mesmo patriarca e de suas vidas desregradas. Mas sempre o fio de redenção e graça perpassa a todos, e as promessas são de que através dessa família disfuncional chegará um dia quando o Sar Shalom trará verdadeira coesão, unidade em meio à diversidade,
caráter em meio ao caos de personalidades egoístas e idólatras. A história compactada da família escolhida para servir a Yahweh não segue o enredo de escolas dominicais protestantes do século XIX, XX ou XXI—seria até mesmo censurada por elas. Mas tem características de redenção realista, de graça a preço de sangue, de perdão sobre-humano diante de pecados sub-humanos, carnais, terrenos, demoníacos. Gênesis é fascinante, porque por mais que as histórias nos pareçam exageradas, fantásticas, além do que suportaríamos, são histórias de gente como nós: seres humanos criados por Deus para glória, emaranhados por afetos idólatras que minam a identidade gloriosa e solapam a integridade com a qual fomos criados.
     Não tem como acrescentar nem diminuir a grandeza da história bíblica—não podemos nem ousamos fazê-lo—mas como contadora de histórias, queria relatar as estórias dos irmãos da Bíblia para aplicar a teologia bíblica à prática cotidiana, daí o livro sobre irmãos.
     Enquanto trabalhava o texto, descobri um livro contando a história dos mesmos patriarcas da boca de Dina, a filha de Jacó cujo marido, o príncipe siquemita Hamor, foi assassinado por seus irmãos Simeão e Levi para vingar ela ter sido por ele desvirtuada. Uma hábil autora feminista de nossa era, Anita Diamant, reconta a história das mulheres dos patriarcas—mães, filhas, esposas, concubinas, amantes, amigas, sogras e noras—um emaranhado de relacionamentos de cumplicidade e rivalidade—nascendo, vivendo, morrendo debaixo de uma tenda vermelha, aquela em que era proibida a entrada de homens por ser para o isolamento da impureza feminina.
     Diamant certamente pesquisou bem a história da civilização inicial do povo de Israel e dos clãs circunvizinhos, bem como o Egito que já era potência mundial, e a Caldéia, de onde saíra Abrão. O livro é muito bem escrito, com profundidade psicológica, criativo, cheio de imaginação. O tipo de livro que eu invejo e desejaria produzir pela beleza e realidade de outra era espelhando a nossa. Recentemente, vi uma versão cinematográfica desse livro, e não pude deixar de rir e chorar com as histórias de Rebeca, Raquel, Lia, remetendo a Sara e Hagar, com a flor ferida de Diná a percorrer toda a história. A liberdade de criar histórias imanginando as partes em que a Bíblia nada afirma é válida e possível (Diná ter se tornado parteira, ido para o Egito antes de José e muito antes da família toda de Jacó ir habitar em Gósen, entre outras). Mas havia dois aspectos em que Diamant ignorou, quando não violentou, a narração bíblica:
1)      A ausência da aliança com Deus. Nada se fala das promessas a Abraão de que nele seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12) nem da reafirmação muitas vezes do pacto. As guerras, alianças, e contatos com os reis da época, culminando com a vinda e bênção de Melquisedeque, também são completamente ignoradas. Não consta, para Diamant, a luta de Jacó no vau de Jaboque, nem mesmo ele ter ficado coxo, a visão de Peniel, a mudança do nome e o restabelecimento do pacto. Todas as estórias sobre Jacó e seus filhos são humanas, terreais, sem foco no eterno. Claro que quando se condensa uma história que perpassa várias gerações, tem de haver uma seleção de narrativas, e mesmo no livro de Moisés de Gênesis sabemos que muito aconteceu que não foi contado. Mas à autora atual não parece haver nenhuma ação divina ou sobrenatural: tudo que aconteceu era sobre a terra inóspita de Canaã, sem pacto, promessa ou relação da parte dele com Deus.
2)      O segundo aspecto gritante na história da tenda vermelha é ter a narradora colocado como positiva a importância da idolatria de Raquel e Lia e suas colegas, e mesmo voltar ao passado de Rebeca e Sara como perpetradoras do feminino que se adore. Gênesis conta que Raquel roubou os ídolos de seu pai Labão (Gn 31.34-35), não como algo bom, mas erro crasso—ao contrário, a “tenda vermelha” glorifica a idolatria como meio de as mulheres contarem suas histórias e lidarem com sua existência entre sombras e luzes. Exatamente como o feminismo, hoje, procura nos ídolos do lar (deuses sob meu controle) e dos altos (deuses das coisas fora de meu controle) uma explicação para a existência e as carências humanas.              Claro que não podemos exigir que uma escritora descrente tenha uma visão acertada da idolatria—mas este é um aspecto em que a história pé no chão de uma excelente escritora não tem resposta como é para nós que cremos que Deus é o Deus dos altos e santos lugares, e também do profundo do ventre e do coração.
     Queria que nós mulheres cristãs, que escrevemos como para tocar cérebro, vísceras e afetos dos leitores, tivéssemos a acuidade e sensibilidade de grandes autoras descrentes—mas com a fé de mulheres “como a própria Sara que recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (Hb 11.11); “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias (Hb 11.31). E em geral, “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos (Hb 11.35).
     Para não nos fatigarmos ou desmaiarmos em nossa alma, teremos de nos livrar dos laços idólatras de nossa cultura passada, presente ou futura: “desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.1-2). A Palavra única, perfeita e inerrante de Deus estabelece o parâmetro e permite-nos criatividade, tal como disse Bill Edgar: a arte cristã é como o jazz, o qual requer liberdade dentro da forma.
     A tenda vermelha me lembra outra tenda: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipontente descansará” (Sl 91) a canópia sagrada pelo sangue do Cordeiro derramado por nós.

Elizabeth Gomes

quarta-feira, janeiro 04, 2017



Um tanto sombria, uma recente postagem foi sobre o peso do Natal, e eu queria escrever algo mais animador e leve para começar o ano de 2017. Como Maria na antiguidade, eu meditava muitas coisas no coração, e as revirava na cabeça com coceira de proclamar a todos quantos quisessem ouvir, ainda que não fosse voz de anjos ou profetas. Também como Maria da antiguidade, eu não tinha acesso a computador nem chamado para proclamação pública, e apenas lembrava com gratidão os muitos profetas que me antecederam, acompanham e sucedem na caminhada: meu pai, meu companheiro de vida e marido para todos os dias, meus filhos e genro – todos pastores – e os netos que nos alegram porque andam na verdade em amor. Começo o ano novo com profunda gratidão e igual percepção de que toda a graça que nos inunda é imerecida prova da abundante generosidade do Senhor.

Confesso que a “coceira de proclamar” não se alivia com os talcos ou bálsamos dos dias atuais. Como uma autora facefriend constatou, o vírus da procrastinação está sempre presente (e nada latente) em corações despertos pela Palavra – e igualmente embalados pelas dissonantes e entorpecentes cantigas de ninar do mundo em que vivemos e escrevemos. Já passou quase uma semana do ano de nosso Senhor de dois mil e dezessete. Tenho muito que escrever e nem sei por onde começar, se bem que continuo com metas a cumprir. Por exemplo, publicar dois livros novos e, como uma mulher mais velha de Tito 2.3, que, sem perder a joie de vivre ou humor, eu seja séria em meu proceder; não caluniadora (nem em insinuação, face, nem em pessoa); não escravizada (a vinho ou a qualquer coisa que anticristãmente intoxique a mente ou escravize o coração); que seja mestra do bem (de coração aprendiz e disposição serviçal); a fim de instruir as jovens a amarem ao marido e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido e ao Senhor da Noiva da qual participo. Ser ainda respeitável e não maldizente, temperante e fiel em tudo (1Tm 2.11)! Se conseguir comunicar isso com graça durante os próximos doze meses, considerarei cumprido meu chamado.

Observo postagens lupinas de velhos pastores que se revestiram de idolatria herege, zombando de jovens que mantém a sã doutrina e, como João o ancião disse: “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” (1Jo 2.14). Tenho “coceira” de responder ou comentar à altura da dissonante voz. Mas volto ao Verbo da Vida e ao discípulo amado que passou a ser apóstolo do amor para ler postagens escritas com estiletes de palavras duras de entalhar após queimadura de mãos e corpo no óleo, além de lábios ungidos em meio à solidão do exílio de Patmos:
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos,
o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa. Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós (1 Jo 1.1-10).

 Que o novo ano seja regado com as palavras das três epístolas de João a pais que conhecem o Pai, jovens, velhos, crianças, filhinhos, senhora eleita, senhores e servos, e amigos!
É SÓ O COMEÇO!

Elizabeth Gomes

sábado, dezembro 31, 2016

SUPERSTIÇÕES, SENTIMENTOS, E NOVOS SIGNIFICADOS



Muitas vezes os melhores chefs são os homens, mesmo aqui em casa, mas, geralmente, quando vamos decidir o que preparar para um jantar especial, cabe a nós mulheres a compra, o preparo e a apresentação. Divido com minha nora o prato principal. Valente, apesar de uma mão costurada e imobilizada Adriana assou um chester e uma verdura gratinada. Felizmente, meus netos se encarregaram de preparar um pavê delicioso e mais algumas guloseimas.

Lembrei de uma conversa sobre o cardápio para a ceia alguns anos atrás: era bom ter romã entre as frutas, e não pode faltar lentilha—as moedinhas garantem prosperidade para o ano.
(Os judeus fazem rodelas de cenouras cozidas em suco de laranja e açúcar mascavo: suas moedas são maiores e doces!) Sou contra usar o formato do alimento para prognosticar um futuro próspero, ou as cores vestidas (o clássico branco para muita paz, vermelho para uma nova paixão, amarelo para atrair mais ouro). Ficaria contente se nosso pezinho de romã já estivesse produzindo grandes frutos que, partidos, parecem centenas de rubis para enfeitar uma boa salada de frutas. Mas resolvi fazer lentilha, porque tinha meio pacote em casa e isso faz excelente acompanhamento ao cordeiro ensopado e cuscuz marroquino com aperitivos de falafel que preparei.

É costume fazer uma boa faxina antes de casa e gente ficarmos arrumados para a festa, e não deixar itens pendentes de um ano para outro. Desde pequena, minha família participava do culto de vigília nas igrejas por onde passamos, e tenho lembranças doces dos propósitos e decisões que esses cultos proporcionavam. Lembro de muita gente que só pisava na igreja na páscoa, no Natal, e no “Ano Bom”. Isso garantia que Deus abençoasse para o ano, diziam. Hoje nossa igreja se reúne em hotel e não temos o horário de ceia e vigília, e muitos aproveitam o feriado para zarpar para longe. Vamos ter o culto normal do Dia do Senhor às dez da manhã, ainda que outros desistam de ir para não ter de “madrugar” no domingo. Lembro-me, com embaraço, de cultos de vigília em que recebíamos folhas de papel em que escrevíamos umaa lista de pecados que queríamos que Deus perdoasse, queimando-os para simbolizar o recebimento do perdão. Outra vez em culto semelhante, listávamos as pessoas que nos magoaram e queimávamos, perdoando uns aos outros. Lembrava muito os cultos da fogueira nos acampamentos, em que, jovens, colocávamos gravetos no fogo simbolizando a entrega de nossas vidas em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.

Com o passar das gerações, muitas pessoas, crentes e descrentes, foram acrescentando costumes, alguns bons (como é bom louvar a Deus em todo tempo, e passar a “virada” em oração), outros inócuos (o tipo de roupa ou comida, por o pé direito para frente para dar o primeiro passo, desejar felicidade e bem estar ao próximo, listas, fogueiras etc.), outros até brincando com as coisas do maligno (se banhando sete vezes ou dando sete saltos sobre as ondas do mar—ué, essa é do candomblé—não foi o que o profeta Elias mandou Naamã, o capitão do exército da Síria fazer?).

Estamos na gangorra de guardar dias, meses e anos de modo negativo, como Paulo mencionou em sua carta aos Gálatas (4.19), ao mesmo tempo em que Deus nos manda aprender a contar nossos dias para encontrar coração sábio (Sl 90.12)—e o próprio Deus é quem “Coroa o ano da tua bondade; as tuas pegadas destilam fartura” (Sl 65.11). Descobrimos que a contagem do tempo, dos dias, meses e anos pode ser um exercício em piedade e contentamento, ou de amargura e incredulidade. Depende de como vemos nosso tempo coram deo. Ao iniciar o seu ministério terreno, Jesus declarou que apregoava o ano aceitável do Senhor, pois “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos...” (Lc 4.19)
Do mesmo modo como aprendemos a administrar o espaço onde Deus nos coloca, temos de aprender a administrar o tempo que ele nos dá. Lembranças do passado podem ser pensadas e resgatadas, sonhos para o futuro são parte de nossa esperança criativa, mas o tempo que se chama hoje é o tempo que temos agora para viver conforme a vida tem de ser vivida. Hoje é tempo de louvar a Deus. Hoje é tempo de engrandecê-lo, quer pela vida quer pela morte.

Que em 2017 tudo seja para a glória daquele em quem confiamos e confiaremos a cada ano, década, século, por toda a eternidade.

Elizabeth Gomes

terça-feira, dezembro 20, 2016

NOSSAS BODAS E AS BODAS DO CORDEIRO




Quando nos casamos, em dezembro de 1966, éramos da primeira turma de estudantes do agora Seminário Palavra da Vida. Na noite anterior à cerimônia, uma amiga que viera de Goiânia para assistir nosso enlace perguntou-me se eu não tinha dúvidas quanto ao casamento. Disse-lhe que não, porque se tivesse alguma dúvida, teria desistido, já que tínhamos tudo contra nós: éramos muito jovens, não tínhamos dinheiro, ainda estudávamos e não tínhamos empregoç os professores do IBPV aconselhavam que esperássemos nos formar antes de casar—só tínhamos um ao outro com a fé posta em Jesus Cristo. Soube depois que, quando minha amiga voltou para sua cidade, rompeu o noivado. Nós, porém, prosseguimos, certos de que Deus nos uniria para toda a vida e que cresceríamos juntos, estudaríamos e trabalharíamos juntos, aprendendo da Palavra de Deus o que Jesus queria que crêssemos e fôssemos. Romanticamente, imaginávamo-nos em algum campo missionário distante em que viveríamos até quando bem velhinhos.

Meu vestido, os sapatos e as luvas foram emprestados. O enxoval, comprei com US $ 40 que ganhei com a venda de um artigo para um periódico cristão e complementado pela generosidade de Da. Eulina, minha sogra-mãe amiga, e da Tia Tide de Limeira. Os pais do Lau não mediam esforços para nos ajudar e não somente proveram para o filho como também para sua filha estrangeira—euzinha. Tivemos um casamento simples com a igreja de Araras enfeitada pelo próprio Lau, os tios pastores Ari Barbosa Martins e Benedito Alves, a prima Isa tocando e o primo Claudio solando. Meu pai veio dos Estados Unidos e conduziu-me como um rei à sua princesa até a frente da igreja lotada de parentes e amigos. Tivemos um almoço “em casa” depois do casamento civil, e bolo e balas de côco, na recepção depois da cerimônia. O cunhado nos levou em seu carro até Campinas, onde passaríamos a noite antes de seguir de ônibus a Campos de Jordão no dia seguinte (não tínhamos carro). Um primo pediu carona até Campinas, e foi nos “entretendo” com piadinhas sobre recém casados, até chegarmos ao hotel.

Começamos o casamento sem dívidas e com as insondáveis riquezas de Jesus Cristo—e nada mais. Nove meses depois veio nosso filho Davi, que eu cuidava nos intervalos das aulas. Em casa, estudávamos ao cheiro de fraldas (de morim) sendo fervidas sobre o fogão. Desconfio que ele se alimentava de teologia bíblica junto ao leite materno que eu dava enquanto estudava para terminar o curso. Às vezes nossa colega Edith Moreira (há mais de cinqüenta anos no trabalho missionário entre os ianomâmis) e outros colegas vinham “dar uma mãozinha” a essa mãe nova super atarefada e um pouco atrapalhada. Muitas vezes, recebemos professores ou outros colegas em nossa casa para uma refeição—as horas em que Dr. Shedd humildemente partia o pão conosco marcaram para sempre nossa visão bíblica e prática da Palavra.

Descrever nossa vida iniciante em ministério daria um livro todo e eu quero aqui só localizar nosso contexto existencial para falar das bodas. O Salmo 45 fala do casamento do Rei a quem nós consagramos, antes mesmo de conhecermos a alegria do casamento, a meta de extravasar a graça de Deus, (v.2) ungindo-nos com o óleo da alegria (v.7), pois ele é nosso Senhor (v. 11). A promessa de que “serão teus filhos os quais farás príncipes por toda a terra. O teu nome eu farei celebrado de geração em geração, e assim os povos te louvarão para todo o sempre” (Sl 45.17-18). Essa promessa marca o casamento do Rei a quem servimos e em quem nossas vidas se misturam—com a dedicação: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11.36—inscrito em nossas alianças).

Vivemos, por um tempo, o “já e ainda não”. Pela graça de Deus, fomos libertos da escravidão do pecado. Somos pecadores que, por Cristo, disseram “sim”, bem cedo buscando em Jeová o que fala o salmo seguinte: “nosso Refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (Sl 46.1)—porque angustias e tribulações certamente fizeram parte de nossa vida! Mas “ele pôs termo à guerra ... quebrou o arco e despedaçou a lança, queimou os carros no fogo” (Sl 46.9).

Pela primeira vez em minha vida pude planejar uma festa como queria. Teríamos de limitar os convites, mas abri para igreja em convite geral RSVP. Embora Deus seja dono de todos os bois da terra, ele deu a nós desfrutar de tudo com parcimônia e discrição. Resolvemos convidar cinquenta pessoas: o conselho da igreja e suas esposas e quem mais confirmasse a vinda. Dos mais de cem parentes e amigos que nos acompanham em nossa jornada há muitos anos, sabíamos que muitos não teriam condições de vir, e imaginamos que acabaríamos com cerca de cinquenta à mesa. Lembrei do conto de fadas onde o rei só tinha doze pratos e talheres de ouro e decidiu convidar apenas doze fadas para o banquete, ficando a décima terceira fada furiosa por não ter sido incluída, e amaldiçoando a Bela a dormir durante cem anos. Mas nossa vida não é conto de fadas e Jesus Cristo já nos despertou do sono. Cinquenta era um número sustentável para reunir junto à churrasqueira do sítio; cinquenta eram os anos de vida conjugal, e cinquenta o número de canecas comemorativas que encomendei de um irmão artista. Nossa casa tem portas abertas; tem de ter também portão fechado!

A parábola de Jesus sobre as bodas do Filho do Rei (Mateus 22) começava a ter aplicação prática em nossa vida—muitos convidados não apareceram. Imaginei chamar os pobres das ruas de Mogi, mas não havia como. Não tivemos o problema de penetras que não estivessem vestidos para a festa—todos estávamos de jeans e roupa esporte como convém a gente simples no campo. Na hora da cerimônia de culto de gratidão e renovação dos votos, Lau e eu nos trocamos para algo mais formal—mas quem não permaneceu totalmente ataviada como noiva adornada para o noivo fui eu, depois do culto—tirei os sapatos e fiquei de chinelos velhos, e foi desse episódio a primeira foto que uma convidada postou nas redes sociais.

Tivemos abundância de comida, um lindo, grande e delicioso bolo, abundância de lembranças gostosas e memórias gratas da bondade de Deus de geração em geração. No ano passado, quando Wadislau esteve mal de saúde, não podíamos imaginar que este ano festejaríamos assim. Sentimos muito a falta de Deborah e de Daniel com suas famílias—entendemos, porém, que eles estão servindo a Deus onde foram chamados, e alegramo-nos com a participação do primogênito, que pregou, da esposa, que tocou e cantou, e dos dois netos, carinhosos fotógrafos incríveis. Realmente, nossas Bodas de Ouro abençoaram a todos que aqui estivemos, fechando com chave de ouro nossos primeiros cinquenta anos.

Decorei, ainda jovem, a poesia de Robert Browning dizendo “Grow old along with me; the Best is yet to be” (Envelheça junto a mim: o melhor está ainda por vir... - Rabbi Ben Ezra) e hoje digo que o melhor já veio, está aqui agora, e vai continuar para a eternidade! Somos infinitamente gratos a Deus por este privilégio singular.

O tema do casamento do Rei com sua noiva perpassa a Bíblia toda e cobre de graça todo casamento no Senhor. Em Efésios 5.22-32, o marido é comandado a amar a esposa “como Cristo amou a igreja e se entregou por ela”, e a esposa a ser submissa como a igreja a Jesus Cristo. Pedro (1Pe 3.1-12) começa falando da submissão da mulher “para que o marido seja ganho sem palavra alguma, pelo honesto comportamento, o “homem interior do coração unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo”; e dos maridos, vivendo a vida comum do lar com discernimento e consideração, tratando a mulher com dignidade”, lembrando que os dois são “juntamente herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as suas orações”!

Pecadores teimosos que somos, Deus nos uniu e deu-nos condições de viver em santificação a vida comum e do lar, de maneira incomum e graciosa, amando como Cristo, sendo revestida como noiva gloriosa ataviada para bodas. Não como a nossa festa singela, limitada, imperfeita, mas para as Bodas do Cordeiro de Deus que foi morto em nosso lugar e reina para sempre. Já pensou na festa perfeita?!
Aleluia! Pois reina o Senhor,
Nosso Deus, o Todo Poderoso.
Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória,
Porque são chegadas as bodas do Cordeiro,
Cuja esposa a si mesma já se ataviou
Pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo,
Resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo
são os atos de justiça dos santos.
Então me falou o anjo:  escreve:
Bem-aventurados aqueles que são
chamados à ceia das bodas do Cordeiro.
E acrescentou: São estas as verdadeiras palavras de Deus.
(Ap 19.7-8)



Elizabeth Gomes