sexta-feira, setembro 21, 2012

A LEI DOS MEDOS E DOS PREÇOS


 
“Chegou a cachoeira”, diz um. O outro gritou: “É a queda!” “É cascata”, comentou o gaiato, falando de lado. O político condenado, circunspecto como vela a barlavento, declarou: “Vou ao supremo”. Alguns, mais sagazes, perguntaram: “O que é o supremo?” E perguntam com razão. É que nesta terra macunaíma, tudo vira tudo e nada muda. Quer dizer, há aparentes mudanças como as de um rio, com revoluções, enchentes e secas, mas sempre no mesmo leito. Mudam o nome de coisas, de políticos, de partidos, de orientação da mídia e de movimentos dos tempos – mas permanece o quadro do cavaleiro emplumado, espada desembainhada, na moldura dourada: “Independência ou morte”. Nem o grito foi original – coisa da humanidade vinda de outros milênios de luta pelo poder. Nessa toada, passam as águas ipirangas, as canoas viram, os náufragos se desesperam e as margens plácidas do traço de água ouvem os passantes que prosseguem sem entender o grito heróico, entoando: “A canoa viro por deixá-la virar...”

A cena é lugar comum em uma terra em que reinóis à cata de ouro distraiam os românticos otimistas com a lengalenga de que “em se plantando tudo dá”. Enquanto o casario e a mesa punham ares de trabalho no solo, o subsolo era minado e os rios, poluídos. Não tenha dúvida – nada é incidental quando se trata de luta pelo poder.

Onde a razão suprema? Onde o problema recorrente? A razão está em que não se constrói uma nação livre sobre uma base de liberdade à parte de um compromisso. O problema está em que não se conquista essa liberdade “no grito”. Nossa história se resumiu a “canetadas”, da Lei Áurea até os golpes de 64 e de 02. A primeira, promulgada em favor dos senhores de escravos – pondo na rua os que não cresceriam para servir, depois, os que não prestariam como força de trabalho, e, então, todos os que gerariam encargos sociais. A segunda, as tomadas do poder na força bruta aos gritos de diretas já, mas sem direção moral. Com tudo o que ocorreu entre essas pontas, jamais ficamos sem escravos nem senhores de escravos e jamais vimos imperar a honestidade. É claro que aqui e ali surgem homens de bem, mas tudo o que conseguem é apanhar uns magros bodes expiatórios que recorrem à supremacia da lei.

Supremacia do quê? É isso mesmo: suprema ditadura da lei – às expensas da justiça. Claro que isso precisa de explicação! Não está em nenhuma cartilha nacional, em nenhum foro adequado nem na cultura do povo. Este, coitado, aceita a propina do peixe que lhe é dado pelos senhores dos rios sem nunca aprender a pescar. “Pra quê, se o peixe nem é deles? Está aí, é só pegar. Não é essa a lei de Gerson?” A explicação é: toda a lei deveria ser gerada e mantida na base da justiça, e não a justiça ser derivada da lei! Esta sempre acaba sendo a lei dos medos e dos preços!

No tempo de Dario, rei da Pérsia, o reino foi dividido em cento e vinte seções governadas por presidentes e sátrapas, uns sábios e justos, outros nem tanto. Daniel – hebreu cativo sob domínio persa, homem de Deus, sábio e justo – excelia em espírito sobre os demais, sendo cotado pelo rei para presidir sobre toda a terra. Os políticos buscavam ocasião para cassá-lo, mas o homem tinha ficha realmente limpa. Não deu outra. Dos cochichos nos corredores do palácio aos toma lá, dá cás atrás das portas dos escritórios e das casas, surgiu a ideia: usar a fé de Daniel como instrumento para acusação. Assim, munidos de bajulação e lei, disseram:

Ó rei Dario, vive eternamente! Todos os presidentes do reino, os prefeitos e sátrapas, conselheiros e governadores concordaram em que o rei estabeleça um decreto e faça firme o interdito que todo homem que, por espaço de trinta dias, fizer petição a qualquer deus ou a qualquer homem e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões. Agora, pois, ó rei, sanciona o interdito e assina a escritura, para que não seja mudada, segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar (Daniel 6.6-8).

Decreto assinado, foi só plantar escuta. Pegaram o contraventor, vejam só, orando! O rei, a contragosto, obrigado a supremacia da lei, condenou Daniel à cova dos leões: O teu Deus, a quem tu continuamente serves, que ele te livre. Daniel, que não se fiava na lei, mas na justiça daquele que a dispensa a lei com graça, recorreu ao único Supremo. Três dias depois, o rei encontrou vivo ao amigo fiel: O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca aos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; também contra ti, ó rei, não cometi delito algum. Se era assim, por que não livrou ao amigo da condenação. Ah! A lei dos medos e dos persas não dava lugar à justiça! Mais uma vez, prevaleceu a lei sobre a justiça.

É louvável que o nosso Supremo tenha agido. Lei para eles! Mas, onde a justiça que alcança a todos? Onde os demais? Que camas acomodam, que panos, que lençóis encobrem os grandes e só deixam à mostra os pés dos pequenos? Os que sofremos torturas no golpe de 64 sabemos como é fácil entregar até o amigo! Será que há medos e preços, dedos e pressões que enluvam as mãos e protegem o poder da vez? Será que nos venderemos somente por salário família, casa própria e promessas de vida boa? Nem que fosse manjar do rei da Pérsia ou da feiticeira do C. S. Lewis! Os benefícios sociais são bons e necessários, mas não à custa da honra a Deus. Se com a boa vida vêm cabrestos heterofóbicos, usurpação do poder familiar, impostos extorsivos, monopólio da educação e desgaste do instituto da fé, então, é chegada a hora de Deus calar as bocas dos leões. A honra às autoridades, requerida por Deus, inclui o privilégio do zelo nos círculos de autoridade da consciência, da família, da escola, da comunidade.

Certamente não clamo justiça como quem reivindica direitos, que não os tenho em mim mesmo. O parecer político do cristão não dá lugar para rebelião, mas obriga à justiça que procede de Deus. Desejo graça que concede a verdadeira justiça. Graça que chove sobre todos como gotas divinas, que lava e purifica, que transforma e frutifica em todo bem. Exatamente por crer assim, não acredito que a lei dos homens promova essa paz. Essa, só Cristo pode conceder do alto da cruz, do alto em que ressurreto reina soberano sobre reis e vassalos!

Ainda que haja trevas neste mundo, elas não prevalecerão contra a luz da glória de Deus. Sempre poderemos sair em passeata, com a cara descoberta, andando na vida comum de modo digno da vocação, portanto cartazes de fé: Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram (Salmos 85.10).

Wadislau Martins Gomes

Um comentário:

Eliana Pires disse...

Acalentador. Confesso que tenho andado deseperançosa. Os promotores da lei agem menos como juízes e mais como celebridades.
Obrigada, por não nos deixar esquecer a quem pertence a justiça.