sábado, março 25, 2017

AUTOIMAGEM (estudo 1)


        Aplicações de conceitos bíblicos à ideia de autoimagem.
               
Relendo os meus poetas brasileiros preferidos, dei com um poema que, há alguns anos, soou-me belo, mas desesperado. Hoje, o Autorretrato de Mário Quintana fez-me pensar num texto de Salomão, no Eclesiastes bíblico. Coisa da nossa terra, “debaixo do sol”, tão na cara como um nariz. Os dois poetas não puderam se furtar ao anseio otimista nem à constatação pessimista da presente realidade. Veja o Quintana:
 No retrato que me faço
— traço a traço —
às vezes me pinto nuvem
às vezes me pinto árvore...
ás vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida em que busco
-- pouco a pouco --
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
Diferente do Mário, o rei Salomão traceja, em Provérbios 27.19:
Como na água
o rosto corresponde ao rosto,
assim o coração do homem,
ao homem.
Fosse uma conversa levada num banco de praça e eu imaginaria a ironia do velho sábio de lá a sussurrar ao rei de cá: “É isso aí!”. Maior contraste, ainda, quando o rei Davi puxa o traço: O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. O seu louvor permanece para sempre (Sl 111.10).  E quando Salomão, de novo, dá o laço: Quem é como o sábio?E quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem faz luzir o seu rosto, e muda-se a dureza de sua face (Ecl 8.1).
Dá para perceber que o tema de um autorretrato tem relação com os temas da sabedoria e da estultícia implicadas numa autointerpretação. Coisas como autoimagem, autoconceito, autoestima, e daí em diante, fazem parte do ideário humano. São palavras de especial riqueza e de variado sentido usadas para se descrever o pensamento e o sentimento de autoconsciência, noção de autoexistência, valoração própria, etc. Especialmente, elas apontam para uma relação singular entre uma observação mais alta ou mais baixa e as decorrentes interpretações que as pessoas fazem de si mesmas.
Ambas, a estultícia inerente às observações e interpretações das filosofias dos homens sem Deus, e a sabedoria de Deus revelada nas Escrituras, são concordes ao dizer que nós vivemos em um mundo imagens. Aristóteles usou o termo fantasia para se referir à capacidade humana de pensar por meio de imagens. Há um mundo de formatos que nos obrigam a pensar em algum tipo de imagem, até mesmo, no caso de ausência de visão física, ou de afantasia, quando excepcionalmente uma pessoa não consegue formar imagens mentais. Nossa mente é tomada por formas do próprio corpo, objetos de uso, geografia próxima, e daí em diante. De modo geral e normal, vivemos num mundo imaginado. Tanto percebemos imagens quanto nos comunicamos por meio de figuras de linguagem.
De fato, as imagens que fazemos e as que comunicamos são partes da nossa própria criação e formação. Somos motivados no coração pela maneira como vemos a Deus e, consequentemente, ao mundo e às pessoas. Nessa dependência, as maneiras pelas quais outros vêem a Deus, coisas e pessoas acabam condicionando os nossos atos mentais e comportamentais. Sempre imaginaremos nossos retratos como refletidos numa dessas duas águas, ou do alto como chuvas benditas ou de baixo como poças narcisistas. A Escritura bíblica fornece um princípio básico geral para a ciência e arte de imaginar, dizendo: Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra (Cl 3.2). Nessa linha, a Bíblia toma como certo que todo mundo pensa e que, em matéria de autoconsciência humana, há dois pontos de vista: um espiritual, verdadeiro, vindo “do alto”, e, outro, “terreno”, natural e biologicamente engendrado.
                O apóstolo Pedro, num risco definitivo, diz que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pd 1.20-21). Com isso, ele desenha uma linha do horizonte da observação humana, posicionando acima dela o ponto de fuga infinito, isto é, a revelação divina, e, abaixo dela o ponto de fuga da interpretação humana.
Aqui, aplicando o texto à ideia de autoimagem, apomos: quem nós somos somente encontra significado verdadeiro na revelação divina, vinda do alto. Nem o horizonte da perspectiva humana será o ponto de vista particular que elucida a observação que a pessoa faz de si mesma nem o ponto de fuga da natureza servirá de parâmetro para uma autoestima ou avaliação de si mesma. Assim, é mesmo uma loucura, achar que alguém se pinta ou se busca, ou cria coisas que um dia existirão, na ânsia de encontrar a sua eterna semelhança. Antes, a verdadeira sabedoria crê que há um ponto de fuga superior, revelado do alto, por Deus, como luz que ilumina os nossos olhos e o próprio mundo para que o interpretemos (cf. Jo 1.1-4) Sem esse ponto de fuga no infinito, no próprio Deus, o que restará é “um desenho de criança... corrigido por um louco”. É assim que a Palavra descreve: se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência (Tg 1.23-24).
                A maneira como os pontos de fuga da perspectiva são estabelecidos fornece uma ideia de autoimagem e uma ideia de mundo. A crença sobre Deus é sempre uma determinante da idéia que o observador tem de si mesmo, de mundo, e de seu semelhante.
Nicodemos (cf. Jo 3.1-18), o mestre “terreno” em busca de autenticação, ainda que tivesse uma vaga ideia da verdade (pois foi buscar a Jesus), tinha também uma disposição mental errada quanto à verdade (pois considerou somente o aspecto humano de Jesus). Ele ouviu do Filho de Deus e Filho do Homem que o paradigma da graça divina para autenticação do ser humano é o próprio Mestre vindo do alto. Ouviu ainda que, para ter uma autoimagem assertiva, a pessoa precisaria de uma regeneração espiritual. Ao contemplar a morte de Cristo na cruz, ela tomaria consciência de sua verdadeira natureza criada por Deus e de sua natureza decaída, e constataria o amor de Deus, o perdão dos pecados, e o poder de uma viva e nova natureza. De fato, o Senhor Jesus Cristo é o resplendor da glória e a expressão exata do ser de Deus (cf. Fp 1.3), e é a plena expressão do ser humano, o Autor de nossa Criação e o Autor de nossa salvação. Fomos criados à imagem de Deus (Gn 1.26) e somente encontramos nossa verdadeira autoimagem quando refletimos a glória do caráter de Deus. Sem esse ponto de referência, não haverá o que refletir senão traços de lembranças às vezes desejadas ás vezes suprimidas às vezes inventadas.
                As perspectivas que a raça humana tem de si mesmo e do mundo ainda são reflexos das mesmas carências que Adão e Eva perceberam no dia depois da Queda. O apologeta Van Til ilustra a impossibilidade de o homem não regenerado perceber a glória da imagem de Deus com a observação de um retrato. Para ele, o que existe, é um negativo de fotografia, de cabeça para baixo, feito em pedaços e, depois, as peças juntadas sem ajuda do original. Essa decadência do pecado é crescentemente continuada. Ela torce as perspectivas e embaça o retrato. Houve um tempo, disse Francis Schaeffer, em que a admoestação “comporte-se” teve um sentido claro. Hoje, se perguntaria: “comportar-se como?” Isso, porque ocorreu mais uma mudança radical na maneira como as pessoas pensam e agem, Em todos os lugares (casa, rua, mídia, escola, comércio, e governo) nós somos assediados por uma interpretação pluralista (o politicamente correto, o direito social, a nova moral, etc.) e por uma prática individualista (meu direito, meu gosto, meu corpo, meu tempo, etc.). No horizonte da pessoa que segue a perspectiva deste mundo, ambos os pontos de fuga são controlados por impulsos naturais (sobrevivência, poder, prazer etc.) e por tendências culturais (consumo desregrado, recompensa imediata, e daí em diante).
                Qual seria a linha mestra para o meu ou o seu retrato, à luz da Palavra de Deus? O sábio que disse que o coração do homem corresponde ao homem, também disse que como imagina em sua alma, assim ele é (Pv 23.7). A imagem e semelhança e de Deus é única água da vida na qual reconheceremos a nossa face verdadeira. Essa revelação do alto se alinha ao princípio bíblico da fé e prática, segundo a qual a crença do coração motiva os comportamentos. Noutras palavras, nós somos conforme imaginamos a Deus em nosso coração, e, a partir daí, todos os atos da alma finalizam nos atos do corpo a descrever quem somos.
                A autoimagem da pessoa sem Deus, e de muitos cristãos que vivem segundo a sabedoria deste mundo, reflete toda a sua confusão interior na incoerência entre o que diz e o que faz. Ela é estulta, isto é, é “sábia” aos seus próprios olhos, tentando refletir um “eu” falsificado. Como disse o Senhor Jesus:
São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas. Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas. Se, portanto, todo o teu corpo for luminoso, sem ter qualquer parte em trevas, será todo resplandecente como a candeia quando te ilumina em plena luz (Lucas 11.34-36).
                Graças a Deus, há a promessa: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios (Ef 5,14-15). A pessoa regenerada reflete uma imagem refeita à imagem de Jesus Cristo, como diz em 2 Coríntios 4.6: Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. É certo que, por enquanto, vemos esse tesouro em vasos de barro, mas é certo também o que é está escrito em 2Co 3.18: E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.

Wadislau Martins Gomes

Nenhum comentário: