domingo, fevereiro 14, 2016

MISSIONÁRIOS DE SEGUNDA GERAÇÃO



-- É uma temeridade querer criar filhos nesse fim do mundo, sem os mínimos recursos. Não quero saber de neto bugre. Vocês estão jogando para as traças a todos os recursos que eu providenciei a duras penas, toda a educação primorosa que receberam. Com o estudo que você tem, poderia ser importante na vida.

A mãe  que sempre lutou para vencer no mundo profissional estava apavorada com a idéia dos filhos irem a um campo missionário distante. Como não conseguia convencer a filha adulta, apelou para a possibilidade de netos nascerem no meio da selva. Repetia a ladainha de tantos outros que  temem que as crianças de missionários sejam privadas de todas as coisas boas da civilização.

Vinte anos depois, sem ter feito cursinho, sem ter os benefícios da civilização, o “filho bugre” neto dessa senhora entrou numa prestigiosa universidade, e desenvolveu sua carreira acadêmica com nota máxima. Era alegria e motivo de gratidão dos pais que continuam ativos no trabalho para alcançar um povo “que não têm nenhuma importância no mundo e nem aparece no mapa do Brasil”. Estou falando de filhos de missionários. O preconceito de muitos familiares cai por terra, e a senhora avó descrente (se bem que ela, frequentadora ativa de igreja, rejeite esse rótulo) descobre que o neto que veio visitá-la tem postura simpática e inteligente.

Um dos argumentos que este mundo pós cristão usa contra o trabalho missionário é que os filhos serão privados da educação, do convivio com pessoas de seu próprio ambiente de origem, de qualquer possibilidade de crescer e se tornar “alguém” na vida. Aqui não ouso oferecer uma pesquisa científica do trabalho missiológico dos últimos anos. Mas uma olhada de relance na vida das pessoas que optaram por uma dedicação plena, servindo a Deus num “ministério” e ao próximo em campos distantes que divergem da “vida normal” de classe média ocidenta mostra que bom número dos filhos de missionários e pastores, longe de serem prejudicados pela dedicação a Cristo de seus pais, foram abençoados e conseguiram brilhar além de qualquer de seus pares educados no mundo competitivo de cultura pós moderna. Descubro ainda que muitos grandes servos de Deus no cenário mundial e em nosso próprio país tiveram a vida “errática e acidentada” de filho de missionários. Pessoas a quem consideramos mentores e marcadores da vida cristã, como Dr. Russell Shedd, Dr. Davi N.Cox, a Sra. Edith Schaeffer, eram todos filhos de missionários, criados por pais que entregaram tudo para servir a Deus em meio a um povo que não era de sua origem. É surpreendente o número de missionários de segunda geração (ou terceira, (e como o caso da família Gordon, que fundou o hospital evangélico de Rio Verde, vai para a quarta geração de servidores; os filhos e agora netos dos Cox estão engajados no ministério cristão de tempo integral) que, com dedicação e alto padrão de excelência, continua missionária bivocacional.

Para o cristão reformado e missional, não existe uma casta à parte dos que estão no trabalho missionário  diferente de qualquer crente em Jesus Cristo que desenvolve sua profissão coram deo. O livro  “O chamado” de Os Guinness, elucida bem nossa posição. Somos todos chamados para amar e servir a Deus e ao próximo, quer em vocação “secular” corriqueira quer em serviço eclesiástico ou paraeclesiástico de tempo integral. Como servidora no lar e tradutora de livros, ou minha amiga médica servidora pública que tem também clínica particular e é mãe de crianças ativas, ou minha amiga que abriu mão de um casamento há cinquenta anos, já trabalhou com três grupos indígenas traduzindo a Palavra de Deus e elaborando cartilha prática para um pequeno povo brasilíndio antes ignorado—nossa missão é onde estamos, no ambiente em que Deus nos coloca, vivendo cada dia comum, tendo em vista a eternidade. Alguns de meus amigos gastaram anos de preparo e hoje estão “no meio do mato sem cachorro”—que aos olhos do mundo corrupto e cheio de sofrimentos constantes parece um “desperdício”—mas têm em vista valores que não podem ser roubados e a percepção de valor pessoal com peso de glória. Os Norval e Lau, Cléo e Raquel, Fábio e Lucila têm brilho para desenvolver um trabalho profissional que marque o país—usam, porém, a profissão e o preparo para ajudar povos desprezados e esquecidos a conhecer e compartilhar a glória de Deus. Outros casais cristãos vivem seu ministério como advogados, servidores públicos, pastores e professores, odontólogos ou nutricionistas, também demonstrando a glória de Deus em serviço ao próximo. Quer sejam sustentados financeiramente pelo fruto do próprio trabalho quer por igrejas parceiras em sua missão, têm a consciência de que são servos, não donos do mundo—e o fazem com dedicação total. Seus filhos aprendem e imitam mãe e pai em missão.

Alguém poderá enumerar as desvantagens de os filhos crescer sem frequentar as escolas de vanguarda da cidade. Mas esses meninos têm escola de línguas in natura, geralmente falando mais que um idioma sem seus pais pagarem um centavo para garantir professores de fala nativa. Às vezes os próprios pais missionários educadores dão a seus filhos ainda bem novos, além do currículo exigido pelo MEC, aulas de antropologia prática, linguística aplicada, e teologia bíblica para seus rebentos—sem a presença de bullying, as tentações de abusos da televisão e internet, e certamente sem as distorções que nossos jovens da cidade testemunham diariamente em suas escolas. Claro, chega uma hora que o filho tem de estudar em um centro cultural na cidade—mas viveram a cosmovisão cristã de seus pais missionários antes de ser inseridos na roda viva da descultura brasileira.

Pode ser que pais missionários negligenciem ou destratem seus filhos, por estarem ocupados demais nas coisas do reino de Deus? Sim, é possível, mas é mais provável maior negligência da parte de pais que dividem a vida entre o secular e o religioso no mundo “normal” de carreira profissional, pelo acúmulo de bens e de carga horária longe de casa, que sacrifiquem seus filhos e o próprio casamento. Dedicar-se ao missional condiz bem com ver sua primeira missão depois de glorificar a Deus como sendo ministrar em amor e bondade à família—o que dá exemplo de prioridades e princípios para aqueles a quem ministram.

Os filhos de missionários podem sentir que faltou dinheiro, conforto, recursos porque seus pais escolheram uma vida de sacrifício? É possível se ressentirem—se os pais deixaram de contar as bênçãos e se lamentaram do que não tinham ou não puderam fazer ou dar aos filhos. Porém, se a atitude dos pais for de enumerar as misericórdias do Senhor diante dos filhos e do mundo, considerando o privilégio de serem embaixadores do Rei dos Reis, sem a ganância de querer mais, transbordando do contentamento em toda e qualquer situação, esses jovens não vão ressentir as “faltas”que presenciaram. Isso vale para missionários transculturais, bivocacionais, ou crentes comuns em seu cotidiano que se enxergam como servos do Senhor quer como peões quer príncipes no mundo que Deus criou. Tem muita gente reclamando de crise e escassez num mundo onde escolheram desprezar os tesouros eternos—sem o atenuante do obreiro cristão que se descreve como  “nada tendo, mas possuindo tudo”.

Nem todo filho de missionário ou pastor nem mesmo do Seu Mário Crente Comum  é cristão comprometido com a Palavra de Deus. Sabemos de filhos de missionários que, rebeldes, deram muita dor ao coração de seus pais. Deus não tem netos—só filhos dos que creram em seu nome. Mas os filhos da promessa têm a vantagem de crescer em ambiente onde a graça do pacto de Deus os aninha e perturba até o ponto da conversão. Muitos filhos rebeldes são exatamente aqueles que mais impacto terão para o reino quando se convertem. Tais fostes alguns entre vós...


Há também aqueles incrédulos—mesmo entre chamados cristãos--que argumentam contra educar filhos missionalmente porque querem mesmo derrubar qualquer parâmetro “fundamentalista cristão”—preferem o fundamentalismo politicamente correto de vale tudo (exceto o cristianismo bíblico) de fazer as próprias escolhas sem ser tolhidos por Deus, igreja ou consciência cristã. Presos pelas cadeias do pensamento do mundo que jaz no maligno, atolam e se debatem na lama enquanto denigram os que educam na palavra em meio a culturas contrárias, preferindo assimilar vícios e negar as virtudes do ensino do livro de Deuteronômio bem como de Jesus que disse: “indo por todo mundo, preguem, batizando, ensinando...” Ignoram a promessa: “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”.

Elizabeth Gomes

Um comentário:

Maria Isabel Guimarães Faria Corcete DUTRA disse...

Que bom texto, Beth.
Sabe, desde criança fui fascinada pelas missões: lembro-me muito de recebermos em nossa igreja, em Belo horizonte, missionários batistas dos mais diferentes pontos do país e até de outros países.
Era frequente que meus pais os convidassem para almoçar em nossa casa. Como nos sentíamos importantes por merecer a visita daqueles homens e mulheres, servos do senhor.
E no culto doméstico nos lembrávamos deles, orando por suas necessidades e dos povos com quem viviam. Éramos cinco crianças; e nossos pais esperavam e acompanhavam a oração de cada um, cada um no estilo da sua idade, todos os dias. No dia especial de cada missão, juntávamos com alegria as nossas economias e ofertávamos ao Senhor para o sustento das missões. Muitos dos adultos de hoje, crianças naquela época, como eu e minha única irmã viva daqueles cinco, muitos devem se lembrar com gratidão e alegria...