segunda-feira, agosto 03, 2015

NO REFEITÓRIO DO HOSPITAL


 

Quando começamos a mais recente saga de internação de meu marido no hospital, eu não imaginava quanto bem faria passar quinze a trinta minutos por refeição com estranhos, comendo do cardápio hospitalar gratuito para os acompanhantes de pessoas internadas com mais de sessenta anos de idade. Fiquei agradavelmente surpresa com a comida sadia e variada, aliviada por não ter de recorrer a gastar uma nota preta três vezes ao dia em restaurante ou lanchonete da vizinhança. Bastava a preocupação com gastos exorbitantes com remédios e a diferença no preço das diárias não cobertas pelo seguro.

O refeitório do hospital é utilizado pelos seus funcionários e pela plêiade de pessoas cuja única característica partilhada era ser acompanhante de algum doente. No meu caso, sou única acompanhante de meu marido, noite e dia, vinte e quatro horas por dia. Prometi estar ao lado dele na saúde e na doença, e este é um momento na doença. Ele já esteve comigo em situação semelhante diversas vezes, e é meu melhor amigo há meio século. Ainda bem que diante da eternidade de Deus, este é apenas um breve momento.

O filho e a nora vem sempre e ajudam, compartilhando sonhos e notícias do mundo lá fora, trazendo e levando roupas limpas ou sujas, orando conosco e por nós. Temos recebido visitas memoráveis de amigos preciosos e conhecidos importantes, mas a gregária Beth sente falta de respirar ar frescode fora, sentir a comoção de gente, de contrabalançar caseirice pé no chão com sede de estímulos para a mente enquanto o coração se arrebenta, se quebra e se refaz todo dia a cada hora. Aqui observamos um universo de mundos, ao ver o próximo, e aprendemos a amá-lo, ou, no meu caso, amar as mulheres que se aproximam, pelas histórias de vida contadas e ocultadas nas pequenas conversas.

-- Está acompanhando mãe? Pai? Marido? Filho? Irmã? Vizinha?

-- É cuidadora de uma velha senhora que não tem ninguém na família que a aguente?...

Ana, a única disposta a ajudá-lo, (uso nomes fictícios por razões óbvias) cuida do ex-marido que a abandonou anos atrás.

Berenice cuida com dedicação do pai idoso enquanto lida com a descoberta e dor de ter sido traída pelo marido companheiro de trinta e cinco anos de vida juntos.  

Carmem, além de sessentona, vê a mãe senil de noventa anos chorar que nem criança pelo dodói que ninguém quer fazer sarar, devido a fêmur e duas costelas quebradas.

Desidério, aparentando ter uns oitenta anos e mal de Parkinson avançado, cuida da mulher com câncer em fase final. Suspeito que quando ela entregar os pontos, ele irá segui-la como uma brisa suave para o mundo futuro.

Élida, uma mulher armênia de grande porte e imensos olhos tristes, cuida da ex-cunhada.

Fátima é cuidadora profissional que lamenta não ter voltado para o Piauí quando lhe avisaram que sua mãe estava nas últimas; por conseguinte tornou-se especialista em tratar bem as senhoras paulistas e estrangeiras que, revoltadas e solitárias, esperam a morte chegar.

Claro que todo acompanhante tem a ambígua esperança de ver seu querido (ou até mesmo seu desprezado) paciente ter melhora, ainda que essa possibilidade seja também fonte de inquietação. Amor, obrigação, culpa, caridade, sina, possibilidade de algum lucro no meio das perdas todas—mil e uma histórias diferentes e sem fim em um mesmo refeitório, servindo-se de sopa, arroz, feijão, carne ou peixe, massa, legumes e salada, sobremesa e suco. Alguns se isolam na multidão; algumas pessoas comem com as lágrimas salgando sua refeição, enquanto outros não largam o celular, mastigando devagar e demorando para voltar à enfermaria ou ao quarto bem-equipado onde tudo pára enquanto a vida de uns se renova e de outros se esvai.

Parece-me que este hospital não tem o júbilo da maternidade. Um enfermeiro me informou que as maternidades dão pouco lucro a seus proprietários pela curta permanência e rápida alta das pacientes. Este hospital é especialista em partidas—em dar altas por cura, melhoras e soluções—se bem que o alto índice de geriatria não esconda as ocasiões em que enfermeiro conduzem uma maca com paciente totalmente coberto, que levam ao subsolo, enquanto quem estava no quarto acompanhando ajunta, aos prantos, a pequena trouxa de pertences do seu querido.

Quando vim com Lau ao hospital, além da tristeza por ver como meu homem forte estava mal, meu apoio de vida, carente de tudo e necessitado de tudo que eu pudesse fazer, eu tinha  também uma frustração egoísta por não ter liberdade para fazer o que eu sempre fazia em casa—nem acesso a livros, nem possibilidade de traduzir e escrever. A hora era de ministrar para aquele que sempre cuidou de mim. No quarto, Wadislau me ensinava a orar sem cessar, interceder e procurar  na Palavra de Deus respostas às nossas muitas indagações do porquê das coisas. Descobri também um ministério junto a essas pessoas no refeitório: falar do amor de Cristo, orar com elas e por elas. Ao lembrar ainda hoje dos longos dias no hospital, trago à memória pessoas carentes da graça de Jesus, e intercedo por elas, algumas das quais nem o nome me recordo.

Estamos em nossa casa, onde cada dia fazemos curtas caminhadas pelo jardim, e Wadislau se reveste de forças, “sempre melhorando” (com isso, lembro do corinho de adolescência). Vamos nos renovando na singularidade do dia a dia, vendo de primeira mão a grande fidelidade de Deus. Agradecemos por cada aspecto da epopéia que passamos. E estamos esperançosos, gratos pela alegria de viver o céu agora, com a perspectiva de um futuro certo.

Elizabeth Gomes

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