terça-feira, julho 29, 2014

"LANÇA TEU PÃO SOBRE AS ÁGUAS"


 
Lança o teu pão sobre as águas...

Quando meus pais voltaram para os Estados Unidos, após 17 anos de Brasil, deixaram livros e pertences que pretendiam recuperar quando voltassem. Papai voltou sozinho para meu casamento, e deixou mamãe sem casamento, ela e minha irmã adolescente sozinhas em terra estranha. Foi finalmente decidido que Lau e e ficássemos com os pertences, pois seria muito caro transportar para os States—mas descobrimos que quase tudo já tinha sido vendido ou desfeito. Restaram os livros, (ninguém dá dinheiro para livro velho) – esses deram continuidade a nossa biblioteca missionária. Um dia, porém, depois que já tinham passado uns dez anos em casa, papai chegou e disse que ia pegar de volta os livros – só que não tinha para onde levá-los, e acabou deixando para nós aquilo que nos dava horas de estudo e apontava para enriquecimento de nosso ministério da Palavra. As outras coisas se foram.

Entre os diversos tesouros bibliófilos, havia livros de partituras da minha mãe, que tivera treinamento e talento musical, além de ser psicóloga com mestrado em educação cristã. Eu os apreciava, mas meu instrumento de preferência sempre fora a voz, e não estudei piano com afinco – só para tocar em casa, acompanhar ou dar incentivo aos meninos no culto doméstico.  Amava cantar no coral, naquela época na Igreja Presbiteriana Ebenezer, sob a regência criativa e habilidosa de Mary Cleme.

Uma jovem da igreja, a quem amamos muito (mais tarde Wadislau realizou seu casamento com um jovem pastor também estudante do IBPV), entre os diversos que foram para a Palavra da Vida naquela época, estava se destacando como pianista-organista, e eu lhe emprestei um livro de partituras para orgão, que tinha sido de mamãe. Com o passar dos anos, ela e seu marido se mudaram, Wadislau e eu nos mudamos (muitas vezes nesses últimos mais de quarenta anos!), e perdemos o contato. De vez em quando soubemos notícias: ele em ministério pastoral, ela como ajudadora idônea e destacando-se ao treinar outras pessoas no louvor e adoração pela música enquanto criavam a família na Palavra de Deus.

... porque depois de muitos dias o reencontrarás (Ec 11.1).

Reencontramo-nos nas redes sociais, eu e meu marido não mais jovens, ela e o marido também não tão jovens, cada casal continuando no serviço do Senhor e vendo os filhos repetir, eles mesmos, as lutas e glórias pelas quais nós passamos anos antes. Recentemente ela comunicou comigo ter encontrado um livro que eu lhe emprestara nos anos setentas, e que iria devolvê-lo. Eu sequer me lembrava do livro ou de tê-lo emprestado. Tantos livros já desapareceram no correr dos anos...

Fiquei surpresa quando abri o grande pacote enviado por SEDEX de Londrina para Mogi das Cruzes. Ela nos mandara de volta um tesouro sem preço: o volume de prelúdios e fugas das obras completas para órgão de Johann Sebastian Bach, compiladas pelo médico, missionário e músico Dr. Albert Schweitzer, publicado em (1912) 1940! Eu nem me lembrava que mamãe tinha essas partituras com sugestões para a interpretação das composições. Sem capa, mas com apenas um rasgo na última página – isso com certeza já tinha acontecido antes dele vir às mãos de Nali, que cuidou com carinho e lembrou de devolver o que no meu coração já tinha sido dado.

Mandei fazer uma cópia xerografada, não para pirataria, mas para proteção. O original, encadernação com capa dura, e, a cópia, encadernação em espiral para fácil manuseio. A duplicata vai para as mãos de minha nora musicista, Adriana. A encadernada fica na Biblioteca Refúgio até que eu e meu marido formos promovidos para o grande coral celeste e os bens da terra sejam compartilhados com os descendentes que estiverem mais envolvidos com música para a glória de Deus.

Apliquei o versículo que citei do Koheleth de Israel de forma ampla ao que aconteceu com Nali e comigo, com as partituras e a música, com a fidelidade de Deus e decorrente fidelidade de uma irmã em Cristo. Os judeus até o dia de hoje usam esse versículo no início do ano novo (Rosh Hashanah) ao tomar literalmente migalhas e pedaços de pão e jogar nos rios e córregos e se envolver em obras filantrópicas e de misericórdia, na certeza de que o bem que fizerem “voltará a eles depois de muitos dias”. Como cristãos, nossas obras não são meio de salvação nem meio de garantir que nós também sejamos bem tratados no final—mas fruto, resultado para o qual Cristo nos resgatou. Mas porque somos feitura dele, criados em Cristo para as boas obras (Ef 2.8-10), nossos irmãos muitas vezes nos presenteiam com graça de forma criativa, harmoniosa e inusitada.  Achei bem mais que migalhas – encontrei Pão da Vida. E tenho certeza que Nali e Lauril, como Beth e Lau, têm encontrado graça e misericórdia enquanto espalham a beleza de Cristo na Palavra, na música, e na vida.

Elizabeth Gomes

4 comentários:

Aninha disse...

Que texto lindo, minha irmã! Fico pensando o qual deve ser maravilhoso conviver com a senhora e poder ouvi-la contar pessoalmente essas histórias. Obrigada por compartilhar essas pérolas! Que Deus continue enchendo sua vida de graça e sabedoria! Beijos!

Aninha disse...

Que texto lindo, minha irmã! Fico pensando o qual deve ser maravilhoso conviver com a senhora e ouvi-la contar pessoalmente essas histórias. Obrigada, por compartilhar essas pérolas. Que Nosso Deus continue enchendo sua vida de graça e sabedoria!

Rauni disse...

Bach é um dos biografados no livro "Servos de Deus" do pr. Franklin Ferreira. Nele eu li um fato interessante e inspirador da vida desse grande compositor dedicado a glorificar a Deus através de sua música. Ele, iniciava uma partitura colocando as iniciais JJ, que significavam "Jesus ajuda"; e ao final ele escrevia SDG - "Soli Deu Gloria". Creio que esse é nosso clamor e desejo, ter a boa mão de Jesus a nos ajudar em nossa caminhada e ver o nome do Senhor, de quem vem toda boa dádiva, glorificado.

António Jesus Batalha disse...

É bom encontrar blogs como o seu, blogs onde nos sentimos bem a ler o conteúdo, e sabemos que aqui há vida e a graça de Deus, fico feliz por ver está a ser um vaso nas mãos de Deus, Ele usa em poder e graça. Parabéns pelo seu blog. Se desejar visite o Peregrino E Servo,leia alguma mensagem e deixe a sua opinião.
Ps. se ainda não segue faça-o agora eu vou retribuir seguindo o seu blog também. Abraço fraterno.