Atente ao salmista: Elevo os olhos para os montes: de onde me o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra (Sl
121.1-2). Observe que socorro não vem dos montes, mas do seu Criador! Não é uma declaração
ultramontana? No entanto, está tão perto como um punhado de terra úmida na
concha da mão. É exatamente disso que precisamos para entender o papel da Reforma
Protestante do séc. XVI e a razão de sua permanência. Ela se alça como bandeira fincada em um ponto
histórico da escalada. Entretanto, do outeiro de onde observamos a sua elevação
e consequências na formação do atual pensamento moral, metafísico e
epistemológico, muitas vezes, incorremos no erro de considerá-la como o monte
de onde nos viria o socorro. É como quem, olhando de uma colina, vê o pico mais
próximo como se fosse o mais alto, esquecido do que há no início e ao longo de
toda uma cordilheira. Nada melhor do que o tempo passado e os efeitos
observados para uma visão ampla e mais alta da história.
A fim de bem avaliar as
perspectivas, a história maior, escrita por Deus, terá de ser vista de perto e
de longe (“Acaso, sou Deus apenas de perto, diz o Senhor, e não também de
longe?” – Jr 23.23). Para isso, será preciso levar em conta, pelo menos, três aspectos
dessa visada (Vant Til, Frame, Poythress):
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Original de John Frame com base em argumento de Van Til, utilizado por Vern Poythress e adaptado por WMG |
(1)
há uma tríade de soberania – o Senhor é quem cria e sustém a história, sempre
em controle de toda a verdade, sempre presente em amor, e sempre com suprema
autoridade sobre todas as suas obras (At 4.8; 17.24-27);
(2)
há um aspecto normativo central – Deus
revela a si mesmo e a sua vontade por meio da Bíblia, a qual é suficiente para
o conhecimento e para a prática de vida; e, à sua luz,
(3)
há uma tríade de dependência:
(a)
um aspecto descritivo, significando
que a pregação e recepção da Palavra de Deus, e a observação e constatação do
homem, dependem da sua fidelidade à Palavra original;
(b)
um aspecto situacional, significando
que nada ocorre no vazio e de súbito, e que os fatos históricos atendem aos
propósitos de Deus de criar um novo homem e uma nova humanidade (Ef 1.11; 2.10-22;
3.10-11); e
(c)
um aspecto existencial, significando que
os tempos e espaços entre ocorrências principais também estão cheios de
significado para o homem interior (Ec 3.1-11; Rm 8.18-29; 2Co 4.16; Ef 3.16; 1Pd
3.4).
Bem viu Isaias, quando registrou
a voz de Deus: “Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito
e abatido de espírito” (Isaías 57.15). O profeta olhava para o Senhor dos
montes e antevia o ponto mais alto da história. Apontava para Deus e “o seu
beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da
plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.9-10).
A ele “pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele
habitam” – diz o salmista, perguntando: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem
há de permanecer no seu santo lugar?” (Sl 24.1-3). E a Palavra responde: “Aquele
que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas
as coisas” (Ef 4.10).
Bem viram os reformadores, mais
de mil e quinhentos anos depois do cumprimento profético, quando escalaram o “monte”
da Reforma. Seus braços estendidos não declaravam outro socorro que não o do
Senhor. Apontavam para um monte superior, para o Senhor e referência de todas
as coisas. Ele é a revelação de Deus na história, a própria História, de quem Paulo
disse “para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos
os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.2-3). E Jesus
mesmo resumiu o princípio da história apontada pelos reformadores: “Vim do Pai
e entrei no mundo; todavia, deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16.28).
Aspecto normativo. “Quem me vê a mim vê o Pai” – disse Jesus (Jo 14.9), sobre quem João declarou:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”,
completando que ele é a razão e o propósito da criação, a vida e a luz dos
homens (Jo 1.1; ver 2-5). Isso também Jesus explicou: “porque eu lhes tenho
transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente
conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste” (Jo 17.8). Assim, Jesus
Cristo é a Palavra viva, “o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser
[de Deus], sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, [que] depois
de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas
alturas (Hb 1.3). Portanto, a base normativa da totalidade e do ápice da
história da primeira Reforma do séc.
I AD é o próprio Senhor Jesus Cristo e sua Palavra Escrita. Sobre a Palavra,
Pedro testifica: “que nenhuma profecia da Escritura provém de particular
elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana;
entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”
(2Pd 1.20-21). E Paulo reafirma a necessidade de permanecer nela a fim de obter
sabedoria para a salvação pela fé em Cristo: “Toda a Escritura é inspirada por
Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação
na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente
habilitado para toda boa obra (ver 2Tm 3.14-17).
Aspecto descritivo. O apóstolo Paulo reafirmou o aspecto normativo ao dizer que havia recebido o evangelho “não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl 1.1). Falou também de outro aspecto, descritivo, a que pessoas como nós, que não viram e ouviram diretamente o Cristo ressurreto, deveríamos nos ater, isto é, o evangelho pregado (Gl 1.8, 9). A segunda reforma, do século XVI, cumpriu exatamente essa orientação apostólica, como Calvino disse: “Nossa fé nele não será firme se não compreendermos seu divino poder (...) assim, não devemos receber friamente o fato de que ele veio de Deus, e também entender por que razão e propósito ele veio – para que nos fosse sabedoria, e santificação, e justiça, e redenção” (Calvin’s Commentary, John 16.28).
Aspecto descritivo. O apóstolo Paulo reafirmou o aspecto normativo ao dizer que havia recebido o evangelho “não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl 1.1). Falou também de outro aspecto, descritivo, a que pessoas como nós, que não viram e ouviram diretamente o Cristo ressurreto, deveríamos nos ater, isto é, o evangelho pregado (Gl 1.8, 9). A segunda reforma, do século XVI, cumpriu exatamente essa orientação apostólica, como Calvino disse: “Nossa fé nele não será firme se não compreendermos seu divino poder (...) assim, não devemos receber friamente o fato de que ele veio de Deus, e também entender por que razão e propósito ele veio – para que nos fosse sabedoria, e santificação, e justiça, e redenção” (Calvin’s Commentary, John 16.28).
Aspecto situacional – refere-se aos montes dos quais se avista o monte do Senhor. Assim
como muitos montes figuram o monte do Senhor – Sião, Oliveiras, Gólgota, etc., –
assim também muitos “montes” da história marcaram muitas reformas. O apóstolo
Paulo, com respeito à primeira Reforma, usa o argumento de Abraão para mostrar
como a perfeita e boa Lei de Deus atua em relação à situação decaída dos
homens, e como Cristo sofreu a maldição da lei em nosso lugar: “Ora, tendo a
Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o
evangelho a Abraão” (Gálatas 3.8). E argumenta (Gl. 4.22-31) que Abraão teve
dois filhos, um da mulher escrava, nascido escravo, e outro, da livre, nascido
da promessa. “Estas coisas são alegóricas; porque estas mulheres são duas
alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão”.
Agar, ele diz, figura ambos, o monte Sinai e Jerusalém escrava de legalismo;
“mas a Jerusalém lá de cima é livre”. Em outra situação, o diálogo de Jesus com
a mulher samaritana é elucidativo: ela disse: “Nossos pais adoravam neste monte;
vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.” E
Jesus respondeu: “...podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem
em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o
que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus” (Jo 4.20-22). Portanto, o que
se depreende é que tanto a Reforma do séc. XVI quanto todas as reformas
necessárias ao longo da história, para serem coerentes com o aspecto normativo e asseguradas no aspecto descritivo, têm manter em mente um
aspecto situacional: que a verdadeira
lei de Deus, em Cristo e em sua Palavra, apresentam duas perspectivas
excludentes: ou vemos a graça de Deus em todo esplendor da verdade em amor, ou
olhamos para miragens de lutas inglórias, carnais e escravizantes. No primeiro
caso, fica a admoestação de Pedro:
...
santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados
para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o,
todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que
falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom
procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais
por praticardes o que é bom do que praticando o mal. 1 Pd (3.15-17).
Aspecto existencial. Certamente há nos montes da terra um elemento de luta e de dor.
Jesus, Filho de Deus e Filho do homem, enfrentou essas coisas ao entrar no
mundo. Dele, que é a verdade e o amor, a justiça e a bondade, foi dito: “Eis
que este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de
muitos em Israel e para ser alvo de contradição (também uma espada traspassará
a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lc
2.34-35). Dominava-lhe a graça e a ira do Pai, como disse João: “E o Verbo se
fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua
glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14) e “Por isso, quem crê no
Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não
verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (3.16). Paulo também diz o
mesmo, em outras palavras: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e
tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao
arrependimento (Rm 2.4)? E: “A ira de Deus se revela do céu contra toda
impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça (1.18).
Paulo ainda reflete esse sentimento em moldes humanos, quando diz: “lutas por
fora, temores por dentro” (2Co 7.5). Certamente os reformadores do séc. XVI
refletiram essa tensão. Em uma carta a Falais, Calvino escreveu:
No
presente estado de coisas, reconheço a intenção de nosso Deus de privar-nos de
um Evangelho triunfante, a fim de nos constranger a lutar sob a cruz de nosso
Senhor Jesus Cristo. Contentemo-nos com o fato de que ele reitera seu método de
lidar de maneira miraculosa com a preservação da igreja, por seu próprio poder
e sem ajuda de arma carnal (Library of Geneva. Vol. 106, July 1517).
No momento em que entendermos
que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne” (Ef 6.12) e derivarmos da
primeira Reforma do séc. I a importância de nosso momento, então,
reconheceremos os benefícios da Reforma do séc. XVI.
Wadislau Martins Gomes
Um comentário:
Brilhante! Chega de falar de Reforma como uma campeonato.A obra é de Deus e por Sua misericórdia ele nos permite participar.
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