quinta-feira, outubro 10, 2013

FALSAS EMOÇÕES

 

Um dos rótulos comuns que as pessoas “colam” sobre nós, mulheres, é que somos exageradamente emocionais – enquanto o gênero masculino se caracterizaria por uma racionalidade límpida e clara. Sempre resisti a esse juízo, embora tenha de admitir que me emociono à toa. Lau zombava de mim porque, quando recém casada, ao assistir a um filme em desenho animado (Peter Pan), eu chorei com os dizeres de Wendy sobre o que é uma mãe. Estava felicíssima por meu estado civil, não tinha saudade do tempo em que estava debaixo da asa da mamãe, e a perspectiva de que eu mesma em breve seria mãe animava meu coração. Mas chorei. Às vezes choro até hoje com livros ou filmes melosos e superficiais. Choro com músicas tocantes, com fotos que falam mais que mil palavras. Meus sentimentos se movem com coisas belas, coisas feias, coisas tristes, coisas alegres. Manteiga derretida sou eu, seja na frustração de observar minhas crescentes limitações, sejam nas vitórias e derrotas que – meninas, eu vi! – ou de observar na vida de pessoas amadas.
 
Além da emoção que brota de sentimentos misturados, característicos de minha humanidade criada à “imagem de Deus, mas decaída”, existem também falsas emoções que sobrevem quando as pessoas rebaixam uma as outras com formas de linguagem que ocultam o sentimento verdadeiro, e não nos deixam plenamente cônscios da diferença entre o que é verdade e o que é falso. É o exemplo do kitsch – uma obra de arte que não vem como resposta ao mundo real, mas é uma fabricação projetada para substituí-lo. Vemos muito evangelho kitsch nos dias atuais – apresentações bonitas, sanitizadas do que seja atraente no evangelho de Jesus Cristo, mas que negam o poder e a glória da cruz e da ressurreição. Tanto o produtor (escritor, pregador, promotor, pensador superficial) quanto o consumidor (nós ouvintes, leitores, curtidores) conspiram para persuadir um ao outro de que o que sentem nessa obra kitsch de escrita, postagem, pregação, compartilhamento – seja algo profundo, importante e verdadeiro. A ênfase na comunicação mudou, do conteúdo do que se diz para o poder que fala por meio dele – não obstante a verdade ou inverdade do que é e pode ser.
 
Reconheço diferenças culturais e de gênero, algumas mais de educação do que biológicas, outras, do ensino bíblico transmitido de geração em geração – e lembro que desde Eva, uma sensibilidade para com os relacionamentos caracterizaria nossa persona (Gn 3.16) enquanto Adão procuraria desbravar, vencer espinhos e multiplicar o rumo que tinha pela frente (Gn 3.17-19). Mas ambos tinham o mandato cultural de cultivar e guardar, de cuidar, preservar e alargar os limites. Ambos também são compostos de raciocínios segundo a imagem de Deus junto a sentimentos segundo o coração do Senhor da Criação, que desde seu princípio fez tudo muito bom, um jardim de delícias e de criatividade multiplicadora.
 
No âmbito da cultura atual, constatamos a falsidade reinante e cada vez mais crescente, e chegamos a perguntar se não seria possível continuar indo com as ondas como nesse rio caudaloso que quer nos dominar e afogar. Não seria possível continuar na falsidade das emoções esdrúxulas? Isso não seria preferível às vidas autênticas e sinceras em que as paixões humanas florescem sem controle, muitas vezes em plenitude de maldade? Quem sabe o destino da cultura seja induzir a todos para um sonho de Disneyland sempre que a perigosa cobiça por realidade nos assoberba. Afinal, quando se olha as instituições culturais nas democracias hodiernas, podemos achar que seu propósito é de falsear, e que isso se faz para o bem e para a ignorante felicidade de todos.
 
Dick Keyes, em Seeing through Cynicism, disse: “A fé cristã partilha, pelo menos parcialmente, de certos diagnósticos comuns de juízos cínicos... não existem cantos escondidos de inocência neste nosso mundo. Existe neste mundo o sofrimento aparentemente sem propósito, sem sentido, de desperdício; existe, misturado ao amor, beleza, paz, prosperidade e validade – ódio, caos, pobreza e morte. Tais realidades não são distribuídas conforme alguma aparente igualdade ou justiça. A maioria dos observadores honestos poderá ver junto ao Pregador de Eclesiastes: ‘Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio, pois o tempo e o acaso afetam a todos’ Ec 9.11)”.
 
Quero trazer às minhas emoções e ao meu raciocínio dois princípios:
               
a) Quanto às emoções:
 
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.5-11).
               
E b) quanto ao raciocínio:
 
Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade,porque dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz. A ti, ó Deus de meus pais, eu te rendo graças e te louvo, porque me deste sabedoria e poder (Dn 2.20-23).
 
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1-2).
 
...antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal. (1Pe 3.15-17).
 
A razão e a sensibilidade estão juntas sob a esfera da vida no Espírito. Porque no fim, nossa emoção e nossa razão têm de andar juntos sob o senhorio de Jesus Cristo!
 
Elizabeth Gomes

2 comentários:

Eliana Pires disse...

Brigar com nossas emoções é um esforço improdutivo. É bom reconhecer que choramos em situações que os homens riem. É bom ser tão diferente e igual.Em 2011 Dick Keys, falou na Conferência L'bri Brasil sobre Cinismo X Emocionalismo, buscando a verdadeira Espiritualidade.Mais uma vez Excelente reflexão. Parabéns!

Pb Fernando disse...

Lindo texto! Estou seguindo seu blog, parabéns!!!