sexta-feira, março 23, 2012

BARRO EM SUAS MÃOS

Nos últimos meses, percebi que estava remoendo diversas pequenas perdas – um livro que eu esperava ser aceito para publicação foi rejeitado, um pagamento prometido desde outubro passado ainda não foi acertado, um novo curso desejado pelo qual não tenho como pagar. Pessoas queridas sofreram perdas maiores – falta de emprego, falta de recursos, carro fundido, falta de esperança – e não tenho como solucionar os problemas delas.

Mas, como Jeremias, “quero trazer à memória o que me pode dar esperança” – e passo a meditar sobre as misericórdias do Senhor. Elas são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim – renovam-se cada manhã. Espantada, só posso exclamar: Grande é a tua fidelidade! (Lamentações 3.21-23) E vou cantarolando “Tú és fiel, Senhor...” – um pedaço em português, outro em inglês, com a voz de taquara rachada e o fôlego que não chega ao fim da linha. Uma das poucas sequelas do meu AVC, de 2007, foi que perdi a voz que por tantos anos (diziam algumas almas caridosas) “agraciava” de cultos festivos ou evangelísticos a casamentos e serviços fúnebres.

Isso me leva de volta ao barro. Hoje de manhã, quando fui mexer na horta, senti nas mãos a terra molhada, moldável. E enchi as mãos e os pés de barro bom, replantei mudas de couve, mudei futuras fruteiras para covas mais propícias. Não é barro para oleiro, mas barro para planteiro – e os vasos de mudas me lembram a metáfora dos vasos de barro.

De volta ao profeta Jeremias, desta vez visito com ele a casa do oleiro (Jr 18.6) e trago à memória a esperança de ser (re)feita à imagem de Deus. Recordo ainda a riqueza da minha herança: sou vaso – mais fraco (1Pe 3.7) – mas para a honra de Deus (Rm 9.21), e porto as riquezas da sua glória em vaso de misericórdia (Rm 9.23). “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2Co 4.7) – e sou grata ao soberano Senhor que provê todas as coisas de que necessitamos, porque temos esta riqueza.

A lembrança do que me traz esperança não é natural. Naturalmente, tendo a me lembrar tudo que tem de ser feito, tudo que outros prometeram e não cumpriram, tudo que mereço receber – e me esqueço do feijão no fogo, do recado importante que pediram que eu desse, do nome do livro ou da pessoa com quem falei ao telefone e de que só lembro de noite quando já deveria estar dormindo. Querendo ser mestre-cuca, fico com uma panela carbonizada e malcheirosa numa cozinha cheia de fumaça. Querendo “resolver tudo”, deixo de fazer o que é importante porque me envolvo no urgente descartável. É a mulher natural que sou há mais de sessenta anos, que ainda não faz o bem que quer – e acaba realizando o mal que não quer (Rm 7.19).

Graças a Deus, sobrenaturalmente vivo uma realidade mais ditosa: tenho esperança e fé/certeza de que quem começou a boa obra em mim há de aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus (Fp 1.6). Mulher de cosmovisão bíblica e reformada, que Deus ainda não acabou de (re)formar!

Elizabeth Gomes

3 comentários:

Mical disse...

Que linda meditação!! Edificante e renovadora para minha alma. Parabens Querida!! Abç

Sergio Menga disse...

Lindo texto e maravilhosa a descrição de um dia a dia de quem ama o Senhor. A descrição do Oleiro trabalhando o barro, para formar vasos, é para mim uma das mais belas e mais inspiradas.

Às vezes, tenho a impressão, a sensação de estar sendo trabalhado pelas mãos do Oleiro. Às vezes, me sinto sendo amassado e remoldado.

Sei que no final, vai prevalecer a vontade do Oleiro. A Deus toda a glória.

Saudades,
Pr. Menga

Rauni disse...

Lindo!! Texto profundamente inspirado. Que o Senhor, na sua graça maravilhosa, nos molde conforme seu eternos propósito para a glória do Seu nome.