sábado, maio 18, 2013

MÃE, SÓ TEM UMA!


NormanRockweel: Mother and childreen
 
Ainda adolescente, quando não participava, pelo menos, eu ria com os esquetes humorísticos na “noite dos talentos”, e um que se repetia ano após ano era o de “mãe, só tem uma!”, trivializando o bordão por meio da constatação, junto à geladeira, de que só havia uma garrafa de refrigerante para levar à mesa.

Agora madura mãe e avó, rumino sobre a singularidade e multiplicidade das mães. Mãe, minha, só uma. Há três anos que ela foi promovida à presença de Cristo (aí vai outro chavão que insiste em permanecer na mente criança da gente). Chegado o dia das mães, eu teria de receber uma rosa branca, fossem as comemorações iguais à que mamãe promovia na igreja. (Vermelha só para quem tivesse mãe viva.) Mamãe era uma pessoa única, maravilhosa, esquisita no sentido do inglês de “singularmente especial” e do brasileiro de “estranho e que foge aos padrões da normalidade”. Missionária educadora, foi parteira nos primeiros anos nos antigos campos de Minas Gerais e Goiás, e ajudou a trazer à luz a muita gente. A mim, que nasci de seu corpo, e recebi a Cristo aos quatro anos de idade quando constatei que nunca havia me convertido e insisti com ela que me “ajudasse” a nascer de novo. Além de dar a luz, sempre iluminou minha vida apontando para Jesus a quem servia. Minha mãe era de pedra dura e água fluida, mole e sensível. Os sentimentos batiam fortes de carinho e aconchego e se misturavam com certa rejeição – por achar que jamais chegaria aos padrões de perfeição que ela exigia de si e dos outros: marido, filhas, gente a quem ministrava com orgulhosa humildade. Inseguranças e incongruências sempre marcaram o relacionamento com minha insubstituível, notável mãe que me tentava por no colo mesmo quando ela era frágil velhinha e eu já avó assumida. Sinto falta dela até hoje, embora depois que me casei há muitos anos, convivemos muito pouco. Sobretudo, sinto falta de suas orações, e constato que sempre fraqueja a minha resolução de continuar a vida de oração que ela deixou quando passou à Presença. Sempre soube que quem realmente intercede por mim é o próprio Espírito Santo, mas sentimentalmente, até hoje sinto falta da intercessão de minha mãe.

Fui ainda abençoada porque mãe, não tive só uma. Quando conheci a mãe do Wadislau, imediatamente ganhei outra mãe. Sempre presente em datas marcantes ou comuns, no nascimento de meus filhos, nos sofrimentos e nas alegrias da vida. D. Eulina era uma clássica mãe cristã carinhosa, atuante e sempre carente da graça e transbordante do amor de Cristo. Sempre dando mimos, presentes e atenções a mim, iguais aos que compartilhava com os filhos do ventre, minhas cunhadas e meu marido. Eu não a chamava de mãe, mas trazia-a no coração como tal, e sei que ela também me via como filha caçula.

Em cada igreja em que estivemos, Deus sempre me presenteou com algumas mães inesquecíveis. Em BH, tia Aninha foi mãe para mim. Na Ebenezer, Dona Isolina Berthaud me acrescentou à prole de três filhos homens. Dona Bernardina, com sua ingênua sabedoria analfabeta, sempre demonstrou carinho por nós e nossos filhos (não existe melhor modo de ganhar o coração de uma mãe do que amar seus filhos). Em Jaú, três eram as preciosas e marcantes “mães oficiais”: Dona Hyripsimé (ou Iracema), dona Wanda e Dona Elpídia – para a jovem, inexperiente e muitas vezes inepta esposa de pastor, essas três esbanjavam carinho, cuidados e conselhos vivendo de modo prático o ministério maternal que Paulo recomendou Tito promovesse para as mulheres mais maduras da igreja.

Hoje eu estou entre as mulheres mais maduras da igreja, e quando não posso ajudar minha filha que está longe, fico com coceira na língua para compartilhar com mulheres mais jovens que enfrentam lutas e vitórias que já vivi. (Aprendi que guardar a língua é um dois exercícios de amor cristão mais importantes na vida. Mas às vezes ainda dá coceira!). Fato é que continuo vivendo maternidade, embora meus filhos sejam adultos maduros que independem de mim e a quem às vezes eu recorro com certa dependência. Ainda hoje me alegro quando recebo notícia de alguém que conheceu a Jesus por meu intermédio, ou aprendeu uma receita inesquecível que virou parte do repertório de sua casa, ou foi edificada por algo que falei ou escrevi. Cada experiência fez e faz parte de uma vida em que muitos foram os questionamentos, algumas foram lutas travadas ainda não vitoriosas, diversas as inseguranças e incertezas – e permanece sempre a certeza de que “Aquele que começou boa obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus”. Já e ainda não – constatação de nossa salvação e glorificação passada, presente e futura. Mãe, tenho tido muitas, mesmo que cada uma tenha sido única. A própria maternidade nos faz considerar a profunda questão filosófica existencial de unidade e multiplicidade. E, ao lembrar de minha mãe única e de minhas muitas mães, tenho de aplicar as lições de vida a minha própria existência para que, ao aplicá-las às vidas de meus filhos e das gerações futuras, eu sempre esteja firmada na Rocha/Refúgio. Maternidade não é algo estático nem é apenas simbólico. Gera, nutre e multiplica vida para a eternidade. Por isso aproprio-me de uma figura materna para falar do relacionamento dessa criatura caída e restaurada com o todo poderoso Deus dos Antigos: “como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo” e confiante, afirmar ainda com o salmista: “Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre” (Salmo 131.2 3).

Elizabeth Gomes

sábado, abril 20, 2013

PARA VIVER UM GRANDE AMOR


 
Das comunicações que recebo, há um tema que sempre aparece e grita – do topo das montanhas e do fundo do poço! É o desejo de amar, de ser amada, de ter amor como razão de vida. Alguns de meus amigos são bastante jovens – foram meus alunos juniores de escola dominical; outros conheço de quando eu era igualmente jovem e já sonhávamos com um grande amor. Entre minhas colegas de sonhos e realizações, descobri algumas características constantes e alguns fatores surpreendentes sobre a sua história do coração.

Sou abençoada, privilegiada mesmo, por ter encontrado no amor de Deus o rumo para toda minha vida. E, ainda nova, um companheiro fiel que me estimula a amar cada vez mais e a cada passo investir mais pesado na realidade simultaneamente leve e sólida da criatura imperfeita que sou, portando o amor perfeito de um Deus infinito, graciosamente dado a pessoas quebradas, distorcidamente pecadoras. Observo diversas características nas querências expressas por velhos e novos amigos.

Primeiro, falo aos jovens, porque terão de ter e desenvolver por mais tempo o amor que anseiam. Quanto ao casamento, o apóstolo Paulo destaca uma característica inicial imprescindível: quem é solteiro é “livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor”. Se você, cristão, está livre para casar, a ressalva é inegociável – que seja no Senhor! Começar uma vida a dois com duas cabeças em luta constante não é apenas difícil – é assumir uma monstruosidade para toda sua vida. Alguém pode argumentar que o próprio trecho de Coríntios sete menciona casamentos de cristãos com descrentes – mas o faz pensando em casais já formados, e diz que se o descrente quiser sair do relacionamento, deixe-o ir! Temos exemplos de gente crente que casou com descrente e “deu certo” – mas a falta inicial de unidade de fé já é mau começo. Concordo que há aqueles rotulados de cristão – e não o são. Talvez, entre esses poderá haver um tipo de amor que lhes permita uma convivência pacifica. Mas os valores do casamento não serão cristãos, e não sobreviverão às tempestades da vida.

O refrão de Cantares de Salomão reverbera em minha mente: “Conjuro-vos (...) que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira” (Ct 2.7, 3.5; 5.8). Não se apresse em provocar um amor, não tenha como meta de vida encontrar o amor! Alguém pode dizer: “É, pra você falar é fácil; apaixonou-se cedo, casou-se aos dezoito...” Sim, pela misericórdia de Deus, o amor me encontrou e despertou em nós na juventude – mas não era cedo, pois havia maturidade dada por Deus para uma vida assumida diante dele.

Moças e moços fazem conjeturas sobre o que procuram no amor, seus anseios e ansiedades. Contudo, precisam investir, antes de tudo, no amor a Deus, pois só saberemos amar o próximo quando houver primeiro o amor a Deus. Os livros de Lewis, Quatro Amores e Peso de Glória, destacam isso de forma magistral. E olha que C. S. Lewis foi solteiro durante boa parte da vida, surpreendido com Joy por um amor maduro e abnegado quando ela já estava com câncer e tinha um casamento falido e dois filhos a tiracolo.

Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo é sine qua non – e continua sendo o segredo do amor realista com esperança que o cristão assume e desenvolve. Não “acontece” num lance romântico ou numa “química” natural e instantânea! Como na salvação, o amor tem de ser nutrido, desenvolvido “com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13).

Alguns amigos mais maduros se encontram desejosos de amor humano. Duas categorias principais me vêm à mente: os que continuam solteiros depois de anos de aprimoramento pessoal e oração fervorosa por encontrar o desejado “par”, e os que foram casados e hoje estão descasados e desiludidos por causa das vicissitudes da vida.

Tenho amigas inteligentes, bonitas, excelentes profissionais, cristãs comprometidas com o Reino, amorosas com os necessitados e que tratam bem crianças, idosos e outros cristãos igualmente “livres e desimpedidos” – que são ignoradas “por aquele que bem poderia casar com ela!” Alguns amigos também se encontram nessa categoria. A tendência de uma pessoa bem casada, quando vê irmãos nessa situação, é tentar bancar o cupido e forçar alianças – mas o coral de Cantares diz: “Não desperte o amor até que esse o queira”! Esses amigos não são contra o casamento – apenas são cautelosos (às vezes em excesso) e não querem compromisso que não estejam prontos a assumir. Uns se casam com mulheres bem jovens, outros, com pessoas em faixa etária e condições semelhantes, talvez viúvas, até mesmo trazendo ao casamento filhos de outro, e encontram, porque estão no Senhor, vidas revigorantes e renovadas. Diversos “descobrem” o amor após os quarenta anos e constante solidão, e passam a viver uma vida rejuvenescida que dá alento a todos que a cercam.

Duro é ver a fileira de pessoas que entregaram tudo por amor, gastaram e se deixaram desgastar, e foram traídas ou abandonadas, quando elas mesmas não traíram nem abandonaram o primeiro amor. A pessoa que ficou “sozinha com Deus”, mesmo quando a fé não foi abalada, ainda ficou com dores profundas. Às vezes as próprias amarguras por relacionamentos desfeitos impedem-na de encontrar amor renovado (novamente, em Deus primeiro, para depois o encontro do outro). Não podemos julgar precipitadamente, e sabemos que afinal, é o Senhor de toda consolação que permite a perda e a restauração, mas tais pessoas às vezes se fecham (por razões boas ou não) para um novo amor e terão de conviver com essa carência  – com a graça de Deus. Outros, pela mesma graça e misericórdia, redescobrem o amor – e a nova alegria contagiante traz consolo e esperança a muitos irmãos.

Uma palavra de cautela: aquele que foi infiel, que preferiu pastos alheios ou travou lutas irreconciliáveis, poderá, deverá, ser restaurado – mas sabedor das dificuldades advindas. Poderá até ser maior, mas não será o mesmo. Por exemplo, um pastor de igreja, se continuar no pastorado, terá de lidar mais abertamente com sua fraqueza. Temos exemplos disso na Palavra. Davi foi restaurado depois de seu horrendo pecado – mas foi impedido de construir a casa do Senhor!

Temos alguns amigos que casaram depois de sofrer viuvez. Aprenderam a ajustar-se às diferenças e não cobrar o mesmo tipo de relacionamento que tiveram antes com outra pessoa. Carregam bagagens complicadas e têm de depositar diariamente aos pés da cruz os fardos que lhes são pesados.  Nisso, jovens, maduros e velhos – todos temos de continuar a crescer em amor. Não é sobre o que eu quero, eu sonho, eu ganho – no amor de Deus, o foco estará sempre no outro – e se multiplica, aquecendo nosso próprio coração, transformando nosso pensamento e nossos atos de forma a ser, em vez de ter um grande amor.

Recebi convite de uma amiga para as bodas de diamante de seus pais (setenta e cinco anos!) – um casal muito especial cuja vida toda testemunha a glória e graça do Senhor. Desejo esse tipo de relacionamento com o amor de minha vida – que envelheçamos juntos, sabedores de que “o melhor está para vir”.

Anos atrás, Wadislau escreveu uma poesia baseada em 1Coríntios 13:

Amar é mais do que falar de amor,
é mais que som, além da expressão.
Amor é intensa vida interior
extravasando o próprio coração.
Amar é mais que êxtase ou encanto,
é mais que som de címbalo ou de sino,
é o riso que se segue ao pranto,
é música que paira após o hino.
Amar é sendo Deus, romper a vida,
derramar-se em humana e rubra dor,
e irromper, da morte já vencida,
amar é ser o amor do seu amor,
é ter-te, Salvador, Senhor assim,
como na cruz tu carregaste a mim!
 
Elizabeth Gomes

quarta-feira, abril 10, 2013

SUICÍDIO


 
O primeiro suicídio que me comoveu foi de uma jovem linda e inteligente que começou a frequentar a igreja pastoreada por Wadislau. Converteu-se, e numa tarde de domingo, não acompanhou a família para almoço em restaurante – em vez disso, aproveitou o momento sozinha para disparar o revolver de seu pai contra o próprio coração. Semana passada li um comovente livro de Danielle Steel – não um bestseller como ela costuma produzir prodigamente há mais de trinta anos – mas o relato pessoal e verídico da vida de seu filho, Nick, e sua morte aos vinte anos de idade, depois uma luta acirrada contra uma doença mental. Hoje, soubemos da morte do filho do líder evangélico, Rick Warren. Há alguns anos, meu sobrinho tirou a própria vida, deixando um filho bebê e uma viúva de vinte anos de idade. Minha cunhada jamais recuperou da dor daquela perda. Menos de um ano depois, outro parente se matou. Depois outra. Uma família muito querida que já sofrera o assassinato do esposo e pai sofreu ainda a tragédia de ver o filho e irmão tirar a própria vida. Outro casal que serve ao Senhor com integridade perdeu o filho na casa dos vinte anos, e, como grande parte dos suicídios, não sabe se a morte por overdose foi acidente ou proposital.

A OMS afirma que cerca de um milhão de suicidas – na maioria, jovens – morrem a cada ano. Na morte auto-afligida, ficam dúvidas e perguntas sem fim. Até “entendemos” quando o suicida tinha severos distúrbios mentais ou emocionais. Parece que alguns desses “meninos perdidos” eram afligidos desde bem novos, ainda que fossem criados por pais bondosos em situações familiares estáveis. Seria culpa da droga? Da família? Do sistema que os ignorou? Da igreja? Da soma de fatores que tornou a vida insuportável? E o suicida, está implacavelmente condenado?

Certa vez um pai, diante da constatação de sérios erros de uma filha, disse: “É a pior coisa que podia acontecer”. Outro pai, esse cujo filho tirou a própria vida, disse àquele: “Não, não é. Pior é o filho tirar a própria vida”. Ambos os pais estavam certos, pois o pior pesadelo é sempre ver os filhos fazendo escolhas irreversíveis e fatais, quaisquer que sejam.

Nem sempre o ambiente de origem (pais e outros) tem culpa no cartório. Quando o filho tem pais cristãos de caráter íntegro, e ele próprio desmonta a cada passo (como no caso na mídia internacional recente) não podemos lançar a culpa sobre a família. Um grande pregador e mestre relata (no livro Bom demais para ser verdade) o chocante caso verídico de seu colega de ministério que tirou a própria vida Ele responde à pergunta quanto à condenação eterna do suicida, com outra pergunta: “É possível matar uma vida eterna? Se foi salvo pela graça mediante a fé, sem obras de mérito, somente por Cristo, alguém poderá fazer qualquer coisa que anule a graça, o favor imerecido de Deus?”

Meus amigos Charles e Janet Morris escreveram sobre a vida atribulada e morte questionada de Jeff, com o nome Salvando uma vida, onde falam como Deus tratou de seus corações e curou muitos outros com a perda irreparável de seu filho. Embora existam muitas famílias cristãs onde é gritante a diferença entre o que se prega e o que se vive, não era o caso dos Morris.

O que fazer quando um jovem suicida? Primeiro, orar pelos que ficam; apoiar a família sem fazer juízo quanto aos motivos ou destino daquele que tirou a vida. Essa oração não pode ser apenas no velório ou enterro, formal ou de chavões. Deverá permear todos nossos atos em todo tempo – e acompanhar nossos irmãos até quando todo mundo pensa que “já se recuperaram” – sem julgamentos. A mesma Bíblia que diz “Não matarás” deixa implícito que aquele que odeia seu irmão já matou no coração – cada um e todos são passíveis de pecados semelhantes.

Além da oração e do apoio espiritual, os enlutados, muitas vezes, carecerão de apoio material em diversos aspectos. Alguns dos casos que relatei acima eram de pessoas que tinham todos os recursos financeiros possíveis, mas outros estavam empobrecidos por anos de tratamentos dispendiosos, constantes gastos inesperados e toda espécie de necessidades. Ao oferecer ombro amigo a quem teve perda irreparável, às vezes teremos de mostrar nossa fé na prática, abrindo mão de algum conforto ou luxo legítimo em nossa própria vida para compartilhar com o irmão que sofre. Poderá ser algo tão simples como uma assadeira de lasanha ou complicado como um almoço para dez parentes em uma churrascaria ou cuidar de sua criancinha por uma tarde ou um dia. Poderá ser um dia ou dois ajudando na faxina ou passando roupa da família que perdeu o filho ou até ajudando a organizar os pertences para doação daquele que se foi. São coisas pequenas e grandes que fazem diferença e declaram a alto e bom som: “Estamos aí para ajudar no que pudermos!”

Além de dar apoio prático e logístico, devemos exercitar o amor escutando a pessoa que perdeu alguém. Não é só falando – mas escutando o que ela diz e o que ela não fala – que a ajudaremos a lidar com a dor e o luto. Assim, ela estará apta a ouvir a Palavra de Deus no tempo certo.

Quando meu pai morreu (não por suicídio, mas câncer), um grupo de jovens cantou no sepultamento o que mais me consolou. Foi aquilo que Jesus leu do profeta Isaías, na sinagoga em Nazaré, no início de seu ministério na Galiléia:

O Espírito do Senhor está sobre mim,
pelo que me ungiu para evangelizar os pobres;
enviou-me para proclamar libertação aos cativos
e restauração da vista aos cegos,
para pôr em liberdade os oprimidos,
e apregoar o ano aceitável do Senhor.

É a missão de Jesus que temos de viver, evangelizando, proclamando libertação, restauração e apregoar o ano aceitável do Senhor. É Jesus que consola o inconsolável – e isso inclui os familiares e amigos dos que se cansaram da vida. Temos ainda de ficar atentos e oferecer alento àqueles que um dia contemplem a possibilidade, pois o suicídio não acontece apenas em famílias desestruturadas ou descrentes. Aos familiares do suicida, temos de oferecer o amor de Cristo como a qualquer irmão ou estranho que sofre a dor de perdas irreparáveis. Não é hora de fazer conjecturas ou juízos sobre coisas que nós desconhecemos. Um dia, na presença do Senhor da Vida, poderemos perguntar face a face alguns porquês, certos de obter resposta daquele que entregou sua própria vida em morte violenta, por amor de pecadores indignos como nós!
Elizabeth Gomes

terça-feira, abril 02, 2013

VARIAÇÕES SOBRE ORAÇÃO*


 
Certamente, você é um homem de oração. Quanto a mim, tenho dificuldade para manter minha comunhão verbal com Deus. Não é que não ore nem que não tenha desejo de orar. É que, no fundo, minhas incertezas, minha falta de fé, embargam meus passos no caminho da oração. “Deus é bom, mas será que é bom para mim?” A despeito de todas as experiências da intervenção sobrenatural de Deus em minha vida, a cada nova oportunidade, eu duvido que ele queira me atender. “Vai ver que eu peço mal, para esbanjar...” Como disse um apologeta, todas as minhas orações são idolatras. Todas vêm contaminadas pela minha vaidade. Graças a Deus pela sua provisão, até mesmo, para a fraqueza da minha oração: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26).

O desconhecimento da doutrina da oração amarga a vida de muitos em nosso meio. Tomamos emprestado do mundo um conceito de oração que nem de longe corresponde à oração bíblica. Assim, Jesus, sabedoria e poder de Deus (cf. 1Coríntios 1.18-31),  orienta nossa vida de oração, dizendo:

E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais. Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém! (Mateus 6.5-13).

Outra vez, certamente você não é hipócrita. Quanto a mim, sou meio maroto. Se me encontro naqueles muitos momentos de insegurança que me assaltam, e me perguntam: “Como vai?”, rápido, respondo: “Tudo bem! Na paz!” Também, não vou ficar por aí, espalhando minhas vergonhas. Outras vezes, a fim de defender posições indefensáveis, desfio um cordão de lamentações: “A gripe...” ou “essa dor do lado... vai do coxão mole até o chã de dentro...” Quantas vezes preguei sobre o amor depois de ter brigado com minha esposa. Ou preguei sobre confiança em Deus quando desconfiava que ele não suprisse para as necessidades financeiras do momento. Nessas instâncias, a oração pública, geralmente, sai como o som da trombeta, heróica, longa e... vazia.

Porventura, não sei que Deus é santo e que sua vontade é sempre boa, perfeita agradável? Não conhece ele as minhas necessidades antes mesmo que eu as apresente? Ora, a razão principal pela qual Deus quer que eu ore não é para que ele, onisciente, venha a conhecer o de que eu preciso. Nem é pelo tamanho, quantidade ou qualidade de minha oração que ele me ouve. Também não é pela minha ousadia na oração “positiva” que ele me atende. O que Deus quer é que eu ore para que o conheça e à sua vontade, e entenda as minhas reais necessidades. Minha necessidade? Dele mesmo, cujo nome tem de ser santificado! Isso significa que o dom do acesso à oração, dado à família que leva seu nome, não pode ser usado para usurpar-lhe o poder. Não há coisa tal como oração poderosa. Todas são fracas – poderoso é o santo que ouve e responde orações feitas em nome de Jesus, segundo sua vontade. Não preciso também de que ouçam as coisas que falo com Deus, senão as coisas que falo e faço em relação aos outros. Orações públicas pressupõem causas públicas. Alguns entendimentos e vergonhas secretas deverão permanecer secretos. Preciso do Pai que está nos céus, preciso ser santo como ele é santo, a fim de adorá-lo e usufruir o processo de glorificação do seu nome. Preciso viver a realidade do seu reino de graça, isto é, de justiça e amor. Preciso de que ele faça sua vontade em minha vida, plasmando em mim a beleza do seu caráter. Certamente Deus transformará o meu caráter à luz de toda sua bondade. Deus ouve e atende orações, primeiro, porque ele é bom e, segundo, porque ele recompensa o entendimento e acato de sua vontade.

Wadislau Martins Gomes

*Excerto do livro Quem cuida de quem cuida? (Editora Cultura Cristã).

terça-feira, março 12, 2013

IRMÃOS NA FÉ



Comecei a procurar amigos nas redes sociais como instrumento para conhecer meu próximo, compartilhar ideias e conectar-me a um mundo mais amplo; onde pudesse comunicar aquilo que está no coração e pensamento de uma mulher cristã que deseja a evangelização e edificação do Corpo de Cristo.

Conhecendo o próximo

Descobri velhos e novos amigos. Procurei principalmente amigas com as quais compartilho os mesmos ideais. Muitas delas vieram por meio de seus cônjuges ou pastores, e passei a comunicar também com formadores de opinião. Simples mulher cristã, que procura pensar e agir biblicamente, tenho de ter opiniões formadas, desenvolvendo a mente após a mente de Cristo (Rm 12.2; 1Co 2.16; 1Co 14.15; Fp 4.7).

Ser professora – quer de inglês ou de escola dominical quer da APEC quer de Bíblia quer de teologia filosófica – é apenas o cumprimento de minha missão no do Corpo de Cristo, praticando o dom que Deus dá. Hoje, não exerço nenhum magistério, mas sou desafiada a postar marcos e escrever para quem quiser ler – assim, escrevo. É certo que o contexto histórico e profético do versículo que compartilho adiante é do povo de Israel no final do século sétimo e parte do sexto, durante o reinado de Josias e até pouco antes da tomada de Jerusalém por Nabucodonozor – mas vejo uma aplicação para minha vida e para a vida de muitos irmãos: “Põe-te marcos, finca postes que te guiem, presta atenção na vereda, no caminho por onde passaste; regressa, ó virgem de Israel, regressa às tuas cidades.” (Jr 31.21).

Descobri que muitos “próximos” não partilham e até debocham de ideias que ainda me são caras. Eu também não concordo com muitos escritos de amigos. Lembro-me de um irmão que abençoara muita gente, empresário cristão, exclamando num encontro de casais: “Eu não admito esses puritanos que se julgam melhores do que outros!” – sem saber que meu marido e eu tínhamos bom contato com o puritanismo. Ou do jovem pastor que, apresentado a outro pastor antigo da igreja batista, exclamou: “Ainda bem que é batista e não pentecostal!” – e esse pastor era dentre os fundadores da igreja batista pentecostal da cidade. Muitas vezes, Wadislau foi convidado para pregar em congressos e congregações de igrejas de forte tendência arminiana (Batista Livre, Metodista Wesleyana, Prebiteriana Renovada, por exemplo), embora, se olharem o seu currículo, verão que ele é pastor de convicção calvinista há mais de quarenta anos. E muitos de nossos amigos calvinistas fazem forte oposição ao pré-milenismo, embora nós sejamos convictos do pré-milenismo histórico (como foram Charles Spurgeon, James Boice e Francis Schaeffer, entre outros grandes homens de Deus). Estudamos em uma escola de visão dispensacionalista, e estamos cercados de pastores amigos que têm visão amilenista. Fico lembrando a discussão na igreja de Corinto: “Eu sou de Paulo, eu sou de Pedro, eu sou de Apolo” (1Co 1.12-15; 1Co 3.4).

Além de irmãos que partilham da mesma fé tendo diferenças doutrinárias, temos alguns amigos que abandonaram a fé em que continuamos firmes. Alguns amigos têm hábitos diferentes dos meus (tenho amiga querida que ama dançar tango e outra que fala em línguas – hábitos que não tenho!) ou visão política divergente, (tenho amigos pacifistas e outros “guerreiros”) mesmo que tenham a mesma fé que a minha. Alguns acrescentaram “outro evangelho”, outros descartaram fundamentos da fé como o nascimento virginal de Cristo, ressurreição e juízo eterno. Outros são claramente hereges devido a desvios comportamentais: adulteraram a Palavra de Deus porque houve infidelidade conjugal ou “assumiram sair do armário” e deixaram a igreja ou fundaram outra mais inclusivista. Mesmo com esses, permaneço amiga, não me julgando superior a eles, embora não cooperadora, desejosa de que voltem ao rebanho de Deus, como desejo aos amigos não convertidos que conheçam a Jesus e recebam-no como Salvador e Senhor da vida.

Eu não assino embaixo de tudo que dizem meus amigos. Só os rejeito quando, “dizendo ser irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais” (1Co 5.11) – não por considerar-me melhor, pois “tais fostes alguns de vós, mas vós vos lavastes...” (1Co 6.9-12) mas porque quero que nossa comunicação glorifique a Deus de modo prático.

Comunicando graça

Há amigos que comunicam graça mediante sua arte (as postagens de amigos músicos e artistas poéticos ou plásticos que enobrecem a vida) ou humor sadio (são engraçados e enchem a vida de bom humor). De vez em quando um amigo ranzinza só comunica desgraça e descrença – por esses tenho de orar e, se suas comunicações continuarem nesse tom, excluir do convívio. Isso não quer dizer que a comunicação seja sempre poliânica (lembre a história de Poliana que via beleza e alegria em tudo? Isso não é bíblico!); porém ela deverá ser graciosa, na graça e paz do Senhor Jesus. Amo o “Mas Deus...” de Efésios 2.4-1 que descreve a graça em que desejo me firmar e compartilhar ao próximo. Que qualquer comunicação que fizermos – seja a viva voz, por escrito, ensino ou simplesmente sendo em essência aquilo que somos – seja na graça e paz do senhor Jesus, que nos reconciliou na cruz, dando-nos acesso ao Pai pelo Espírito (Ef 2.14-19).

A promessa de Deus feita por Jeremias (31.33) fala da lei do Senhor impressa na mente, inscrita no coração de seu povo e é reiterada em Hebreus 8.10-11: “Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior”. A promessa é que todos os irmãos, desde o menor até o maior, conhecerão a Deus.

Elizabeth Gomes

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

ONDE VOCÊ MORA?


Postei uma foto da nossa casa e uma pessoa que já nos visitou diversas vezes comentou: “Que lindo! Onde fica?” Realmente, a perspectiva era a de uma daquelas fotos incríveis do internacional Partage d’Images ou outra fonte, dessas que a gente não consegue deixar de “curtir”. De fato, uma foto caseira tirada por um hóspede, Felipe Sabino, numa manhã ensolarada, quando ele ia pelo caminho de pedras, às vezes escorregadias, que liga a casa ao escritório, cem metros pra lá. Havíamos posto na capa do “facebook” outra foto do mesmo local, tirada alguns meses atrás, quando as bougainvillas em flor coloriam o cenário. Nossa casa nada tem de extraordinária: pequena, avarandada, dois quartos, uma sala de jantar, de estar e cozinha conjugadas, dois banheiros e um closet. Modesta, simples, fácil de cuidar – própria para um casal de pastor e esposa prá lá dos sessenta que compartilha desde a juventude o gosto por estudar, escrever e ensinar.


Lembrei da pergunta de uma criança de três anos: Onde cê mora? – e da dos discípulos de João, quando conheceram e seguiram a Jesus depois de ele ser identificado como Cordeiro de Deus: Onde assistes? (Onde residesJo 1.38?). Estes, que se tornaram seus discípulos, constataram onde Jesus morava, apesar de ele ter afirmado que As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Mt 8.20; Lc 9.58).

E eu, que sempre sonhei com uma casa no campo e que havia morado em vinte e três casas diferentes antes de me casar, aos dezoito anos (isso já faz um bom tempo...), e mais algumas sem conta nos anos de estudo, ministério/trabalho em Belo Horizonte, São Paulo, Jaú, Bocaina, Brasília, Estados Unidos,  em Brasília novamente, primeiro num apartamento e, depois, numa chácara, antes de mudar para o sítio em Mogi das Cruzes...


A propósito, quando estudantes (Wadislau e os três filhos) nos Estados Unidos, sem condições de pagar aluguel de um apartamento, Deus nos colocou numa mansão incrível nos subúrbios de Filadélfia, num parque com faisão dourado cantando debaixo de nossa janela e gansos canadenses no lago no coração do jardim, 


Hoje, moramos onde cantam sabiás, joão-de-barros, pintassilgos, e onde tucanos bicudos e escuros jacus de papo vermelho enfeitam e bicam as primícias das goiabas e jaboticabas, e pica-paus martelam o vidro do escritório exatamente quando nos pomos a trabalhar ao computador. Certa vez, um beijaflor se aproximou de mim, deixando o simples e costumeiro tufo de dálias monocromáticas para averiguar a minha blusa de estampas multifloridas. É certo que tenho de cuidar onde piso, pois a natureza traz surpresas e nem todas são agradáveis ao olfato: cachorros e sapos têm a digestão profusa e biologicamente sadia. Mas não me importo com o cocozinho dos passarinhos que entram em casa para ciscar possíveis migalhas no chão se ainda não varri. Aliás, onde eu moro moram outros habitantes de tamanho mais humildes: formigas pequeninas, aranhas enormes (às vezes do tamanho de formigas!), de vez em quando uma fera maior que vem beber água no lago. Tem uma lagartixa que compartilha meu escritório e dá sua cara pelo menos uma vez por dia no canto entre a Fides Reformata, os dicionários e a cortina.


Tenho de admitir que minha casa não é um exemplo de limpeza – não passaria jamais o teste da luva branca, pois poeira é profusa, não só de pó de terra, como também de pólen e pó de serra, e às vezes, cinzas das queimadas de vizinhos incautos. Já tivemos de correr e pular fininho para proteger nosso lar da insensatez de quem ainda acha que o jeito mais fácil de carpir é botar fogo na mata! Nosso lar é tudo que sonhamos, mas dá trabalho! Descobri que não sou hábil em fazer faxina, lavar e passar, em organizar e arrumar casa ou arredores – carpir, arcar-me ao chão para plantar – só consigo por meia hora antes que as costas gritem por socorro. Colher já é mais fácil. Falo de boca cheia: colhi esse feijão verde uma hora atrás; aquela abóbora tava pedindo para vir pro cozido; essa jaboticaba não era geléia há duas horas: tava salpicando os pés de fruta. A castanha portuguesa custa mais de vinte reais o quilo no mercado – a de nosso pomar custa enfrentar os espinhos para colher essa fartura – como foram as cerejas e os pêssegos (e sem espinhos!) no natal passado.


Onde moramos? No lugar que Deus nos colocou, onde ainda não conseguimos construir tudo, reformar ou pintar a gosto, onde “não deu tempo” para fazer tudo o que queremos.. Onde estamos? Numa casa no campo, com bons livros para ler, nosso amor a se renovar, bons amigos para nos visitar, música ao fundo quando não conseguimos mais soltar a voz, mente prenhe de idéias das quais não conseguimos concatenar quanto mais escrever nem uma fração, rede a balangar, prosa boa, horas de gratidão e boa indagação com Deus.


O mais importante numa casa não é o quanto ela é bem projetada, bem decorada, bem visitada – é quem mora nela. Lau e eu temos inúmeros defeitos de fabricação e de percurso (não pela “fabricação” que Deus fez de maneira assombrosamente maravilhosa, mas por sermos gente: decaída, confusa, comum). Temos memória falha, mas Deus traz à memória aquilo que nos traz esperança: Grande é sua fidelidade (Lm 3.23). Temos como vizinhos mais próximos filhos, noras e netos.


Compartilhamos com o apóstolo Paulo uma meta: “esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp. 3. 13,14). Num sentido, continuamos ainda de mudança contínua. Conhecendo e prosseguindo em conhecer Jesus. Em outro, permanecemos seguros na habitação que Deus nos deu – não apenas a casa no campo, mas a presença de quem mora conosco. Pois ele, Jesus Cristo, Senhor da Vida, veio habitar entre nós. Nós habitamos nele (Sl 91.1) e ele habitará para sempre conosco, seu povo (Ap 21.3).


E você, onde mora? Espero que sua casa, apartamento, mansão, kichenete, choupana, taba ou rancho seja daquelas cujos habitantes dão ouvidos ao Senhor e, portanto, habitam seguros (Pv 1.33: Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranqüilo e sem temor do mal). Em gratidão, teremos sempre habitação com quem habita ricamente em nós – e provar as belezas da sua morada!


 Elizabeth Gomes

sexta-feira, janeiro 04, 2013

CAFÉ COM TEOLOGIA

 
 
Alguns rojões antes da passagem, tomei uma resolução: nos primeiros clarões da manhã do ano da graça do Senhor Jesus de 2013, degustaria um cafezinho de verdade; um “Sumatra” que ganhei do Márcio Conte, no dia de Natal. Dito e feito. O pacote abriu aroma, os grãos chacoalharam no moedor, a água resolveu no ebulidor, e os sentimentos gratos todos acharam caminho para a alma. Foi assim que, depois do “em nome de Jesus, amém”, quando a xícara grande (que café pequeno é coisa pouca) ainda prometia gosto, eu sorvi estas palavras da Bíblia: Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem (2Coríntios 2.14-15).
 
Gosto do cheiro bom de café com teologia. Os dois combinam bem porque, de fato, são coisas do dia a dia, de cada minuto do dia. O que não me cheira bem é essa infusão da fé “tradicional” ou “extra forte” em água fervida ao exagero e sabendo a gosto de palha. De fato, uma boa teologia não é feita de um blend de grãos doutrinários com toque tradicional. Antes, é feita de frutos nobres, maduros, aprovados ao tempo e ao sol da sabedoria de Deus, torrado e moído na obediência à Palavra.
 
Claro que há mérito no trato técnico do café. A escolha do tipo, a seleção dos grãos, a secagem, a moagem, a frescura, a água na temperatura certa, as proporções, tudo conta. E para que saibamos de tudo isso, há diferentes pessoas que estudam os aspectos botânicos, procedimentais e culinários do coffea Rubiaceae. É mesmo bonito ver um provador em ação, lavando a boca, degustando os mais variados tipos – e cuspindo de lado o ouro preto. Mas daí a fazer o mesmo com a teologia já é um despropósito.
 
O objetivo final da prova do café não é um de cuspir. Do mesmo modo, o propósito final da teologia não é um de citar informações. Certamente há mérito no exercício da reflexão teológica, mas como base para o aprimoramento da vida de união com Deus e com seu povo para o bom desempenho do seu serviço. Deus mesmo nos revela o que devemos saber sobre a teologia, do cultivo à degustação, quando, por meio de mandamentos e promessas proposicionais, de estilos literários, de parábolas e figuras de linguagem, diz-nos que a planta conhecida como graça é cultivada por meio de semeadura da Palavra no solo do coração especialmente preparado com o concurso da fé operada pelo Espírito.

Nesse sentido, graça e fé devem ser sabidas como uma experiência única de encontro com Deus e seu propósito de espelhar sua glória por meio do corpo de Cristo. Assim, para que experimentássemos sua vontade – boa perfeita e agradável – ele estabeleceu na igreja pessoas espiritualmente dotadas: evangelistas, pregadores e pastores mestres, os quais se especializam em diferentes aspectos técnicos do estudo do plantio e frutificação da Palavra. Todos nós, como eles, sacerdotes de Cristo, recebemos os benefícios dos diversos ministérios, mas não por meio de repetir e discutir as minúcias dos seus estudos analíticos.
 
A facilidade do “café com teologia” provida pela comunicação na internet, muitas vezes, traz as mesmas dificuldades do “telefone sem fio” de outros tempos. Lembra-se? Uma frase era dita ao ouvido e repassada a outro e, no final, o dito “café com teologia” virava “a fé da sua tia”. Na confusão, um diz que é de Van Til, outro de Frame, outro de Cristo; um diz que é pressuposicional, outro evidencialista e outro ainda, evidentemente pressuposicional; alguém é reformado, outro é original e, outro, bíblico. E por aí vai que, discutindo opiniões, perdemos o propósito do café com teologia.
 
Se nós entendermos um pouco dessas especialidades e seus processos, poderemos compreender a suma do seu propósito.
 
Veja isso: Bíblia, teologia e apologética não são termos de preferência exclusiva – (1) a Bíblia é a planta a ser cultivada mediante súplice leitura para obediência; (2) a teologia bíblica classifica suas proposições por meio de honesta exegese; e (3) a teologia sistemática processa o material final através de boa hermenêutica para aplicação de toda a verdade à totalidade da vida. Não temos, aí, partes isoladas, especialidades de alguns e para alguns; antes é uma totalidade abrangente para o crescimento de todos os ramos da Videira que é Cristo.
Veja mais: pressuposição e evidência também não são termos opostos a não ser quando tratados como termos de uma mesma categoria, cada qual pretendendo estabelecer uma referência universal. No caso, o pressuposicionalismo é de uma categoria transcendental e, o evidencialismo, de uma categoria imanente.
 
E ainda: ser bíblico, reformado e original são termos descritivos de aspectos de uma mesma posição em Cristo.
 
Acertados alguns pontos dialéticos, nosso café com teologia poderia ser um de grande valia, mormente guardada a finalidade dos batepapos, isto é, a verdade em amor. É sempre bom conhecer e prosseguir em conhecer o Senhor e sua Palavra, sabendo que a mera repetição da lei produz carnalidade, mas a experiência do verdadeiro conhecimento produz caráter cristão. Uma vida de obediência a Deus requer que a verdade seja dita sempre e que o amor seja sempre demonstrado. Verdade em amor. Sempre. Até mesmo quando o amor tiver de dizer palavras duras. A Bíblia se presta a instruir para discernimento do bem e do mal, a testar a convicção de fé quanto ao pecado e à santidade, a corrigir e reorientar a vida em obediência a Cristo, e a cultivar as virtudes espirituais que se manifestam nos atos do corpo (2Tm 3.16). Nesse mister, ela jamais deixa de assegurar esperança ao penitente e jamais esconde a denúncia do pecado na vida do impenitente. Paulo nominou aqueles que lhe tinham acarretado males por causa da apostasia a que se entregaram. Obediente, Calvino confrontou nominalmente os opositores da fé. E nós temos a recomendação: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina (2Tm 4.2). Contudo, esse não é o foro do “café com teologia”, mas, sim, o lugar do treinamento para a batalha e da defesa da fé.

O lugar do café com teologia é mais sabático, aconchegante, estimulando mais as entranhadas afeições do que estranhados desafetos. Quem aprecia, sabe que fragrância, corpo, riqueza, suavidade e acidez são elementos essenciais de um bom cafezinho. E quem gosta de café com teologia entende bem o que a Palavra diz: A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um (Cl 4.6). Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões (Rm 14.1). Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente (Rm 14.5) e Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá (Fp 3:15).
 
Wadislau Martins Gomes

PASTORES, SACERDOTES E SANTOS


O comentário de minha amiga, expressando o desejo de conhecer mais santos, homens como São João de Compostela ou Santo Agostinho, – “gente de comprovada santidade e caráter ilibado em lugar dos padres e pastores atuais” –, não é apenas o anseio de uma moça católica romana (ela) nem de uma senhora protestante reformada (eu).

Pastorado santo.
Tenho observado análises semelhantes feitas por diversos amigos pastores e por “simples ovelhas” como eu – que anseio por santidade ante a realidade de um mundo corrompido. Frente à corrupção na igreja, que se estende também aos líderes de todas as colorações, temos de nos voltar ao que o profeta Jeremias comentou, quase seiscentos anos antes do nascimento de Cristo: Porque os pastores se tornaram estúpidos e não buscaram ao Senhor; por isso, não prosperaram, e todos os seus rebanhos se acham dispersos (Jr 10.21); e analisado pelo seu contemporâneo Isaías: seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; sonhadores preguiçosos, gostam de dormir. Tais cães são gulosos, nunca se fartam; são pastores que nada compreendem, e todos se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, todos sem exceção. Vinde, dizem eles, trarei vinho, e nos encharcaremos de bebida forte; o dia de amanhã será como este e ainda maior e mais famoso (Is 56.10-12).

Sou grata a Deus por conhecer e participar da vida de pastores honestos que amam ao Deus da Palavra e pensam segundo seus pensamentos – e creio que esses homens têm o grato privilégio de contribuir para mudar a face da vida evangélica no Brasil (pela graça de Deus, começando na minha própria família). Quando comecei a entrar no facebook, procurei fazer amigos entre pastores e líderes cristãos, visando conhecer melhor o que acontece em nosso país e ver as diferenças que ocorrem quando assumimos uma face autêntica, mais cristocêntrica. Acessei também sites de artistas de variadas naipes para constatar o que eles falam (compoem, cantam, poetam, produzem) sobre as condições do evangelho brasileiro atual.

Alguns que se manifestaram meus “amigos” já não estão no pastorado, ou assumiram suas heresias como se fossem suas verdades particulares (e constato que em vez de distribuir pão da vida, estão expondo sujeiras e vergonhas próprias). Mas em sua maioria, os pastores amigos que conheço ainda têm a Bíblia como regra de fé e prática e não se envergonham do evangelho explícito do poder e sabedoria de Deus.

No entanto, muitos dos que assumem um cristianismo autêntico, comprometidos de pensamento e vida com a Escritura e com o Deus Trino, não demonstram uma fé reformada que nos reforma sempre segundo a Palavra de Deus no amor de Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo. Agarram-se a “pedaços” desse evangelho, migalhas – palavra, amor, poder, visão – e, fracionando-o, dilaceram a verdade e tornam-na em convenientes mentiras posmodernas. Porque os pastores se tornaram estúpidos e não buscaram ao SENHOR; por isso, não prosperaram, e todos os seus rebanhos se acham dispersos (Jr 10.21).

A invectiva de Jeremias diante de Jeconias antes da dispersão para o cativeiro babilônico se aplica igualmente aos profetas hodiernos diante da vida a nosso redor: Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto! – diz o Senhor. Portanto, assim diz o Senhor, o Deus de Israel, contra os pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e delas não cuidastes; mas eu cuidarei em vos castigar a maldade das vossas ações, diz o Senhor. Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas e se multiplicarão. Levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e elas jamais temerão, nem se espantarão; nem uma delas faltará, diz o Senhor (Jr 23.1-4). Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o Senhor; porque eu sou o vosso esposo e vos tomarei, um de cada cidade e dois de cada família, e vos levarei a Sião. Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência (Jr 3.14-15). O relacionamento com o Supremo Pastor do Israel de Deus é familial: somos filhos rebeldes, mas nos tornamos seu cônjuge – ele é nosso esposo; é cordial: darei pastores segundo o meu coração; é de ação constante “com conhecimento e com inteligência”.

Quando Jesus percorria as cidades e povoados da Judéia, comoveu-se por ver seu povo como ovelhas sem pastor (Mt 9.36; Mc 6.34) e ainda usou uma metáfora mais “de fundo de quintal”: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! (Mt 23.37; Lc 13.34). Rebanho ou pintainhos também são desgarrados e não querem se aninhar sob suas asas! E isso leva ao segundo anseio:

Um povo santo.

Agora chegamos ao ponto central de contraste entre o catolicismo romano e o cristianismo bíblico. Pelos próprios escritos de São Pedro, concluímos que aquele que é crente em Jesus Cristo como Salvador e Senhor de sua vida é um sacerdote. Não temos um sacerdócio como casta separada de apenas clero escolhido – todo crente é sacerdote! Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia (1Pd 2.9). Não precisamos de algum santo que reze por nós para alcançar, mediante méritos seus, uma graça desejada. Nós somos santos e temos livre acesso ao Pai (Ef 2.18; Rm 5.2). Gente comum, como eu e você, “tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (Hb 10.19-23). Deliciosa audácia – o véu que separava o povo do sacerdócio foi rasgado com a morte de Jesus Cristo, e ele mesmo é o caminho – não precisamos outro mediador (1Tm 2.5; Hb 12.24). E quanto à graça, ela é redundantemente graciosa, de graça: porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nela (Ef 2.8-10).

Na certeza de que participamos com o próprio Senhor Jesus de um sacerdócio santo, somos também um povo separado. Por mais que hoje queiramos assimilar o mundo de forma terrena e demoníaca, na verdade pertencemos a outro reino em que somos conclamados, como foram os primeiros habitantes da terra, a assumir nosso chamado das trevas para sua maravilhosa luz, pois por ele temos acesso ao Pai em um Espírito (Ef 2.18). Paulo se dizia o menor de todos os santos (Ef 3.8), e nós, que somos ainda menores do que ele, temos ousadia e acesso com confiança, mediante a fé nele (em Jesus – não em São Paulo nem outro santo qualquer do passado ou no futuro da história da igreja!).

Não anelo ser pastora, como algumas amigas feministas desejam esse papel de liderança – creio que o pastoreio do rebanho de Deus é para homens fiéis e idôneos, cujo requisito inicial, segundo Jesus, é uma resposta positiva a: Amas-me? (Apascenta os meus cordeiros; Pastoreia as minhas ovelhas; Apascenta as minhas ovelhas – João 21.15-17). Aos pastores de almas e igrejas, ele conclama: Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória (1Pd 5.2-4).

Como mulher cristã, minha missão é semelhante à da mulher de Lapidote na época dos Juízes, ou à mulher de Áquila, na época apostólica. Anseio aprender e ensinar como Eunice, Loide e Priscila – nos bastidores, diante de escrivaninha meio desarrumada, forno e fogão e mesa posta, esclarecendo pensamentos de Apolos ou Timóteos enquanto cosia tendas junto ao marido ou espelhava a fé ao filho ou ao neto. Participo, sim, do genérico todos os crentes – sobre quem a oração paulina é para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém! (Ef 3.14-21). Existe maior glória que essa?


Elizabeth Gomes

terça-feira, dezembro 25, 2012

O TEMPO PASSA, O TESTEMUNHO FALA

Maria do Carmo de Souza, Casa Branca, SP, 1934

“Aos seis, um ano demorava 1/6 da vida para passar; hoje, vai a 1/67... eh! passou: 2013 vem aí!” Eu ia assim, no trem da vida vendo passarem postes, pastos, casas, e coisas antigas, quando dei com uma nota no Estandarte (http://interdocs.com.br/ipibdig/oestandarte/digital/1935/ano_43_n20_21-07-1935.PDF) sobre o falecimento de minha bisavó materna, que me fez pensar no valor que Cristo concede à nossa vida. Segue como se escrevia:

Repousando

Cada um na sua ordem, um dia; uns mais cedo, outros mais tarde, todos voamos rapidamente, atravessando a vida como um sonho. Saindo eu de Assis a 22 de maio findo, vinha a esta cidade para tratamento de minha saúde, devido a uma machucadura em viagem perto de Presidente Prudente. Esperava, logo que melhorasse, ir até o Rio, e, voltando, chegar a Casa Branca especialmente para visitar minha parente enferma, d. Carminha [Maria do Carmo Coelho Barbosa], que sofrendo da paralisia se achava presa ao leito há quasi dois anos. Entretanto, peorando o meu estado de saúde, fiquei preso ao leito até hoje, recebendo a noticia do passamento de d. Carminha, a 19 do corrente, em Casa Branca, onde residia, em casa do seu genro, prof. Cornelio Martins. Conheci-a ainda menina e assisti em Dois Corregos ao seu casamento juntamente com o de sua irmã Idalina, já falecida; desposaram dois distinctos irmãos, Antonio Coelho Barbosa e Jeronimo Martins Coelho Barbosa, já falecidos. D. Carminha era filha de nossos irmãos Francisco Mendes de Souza e d. Benigna Lima Barboza, descendentes da família Oliveira Horta, de Socorro. Era prima da minha saudosa esposa que nos tempos da mocidade se chamava Maria Santana. Era sogra de meu filho Calvino Ferraz, casado com sua filha, Leonor Barbosa Ferraz, e de minha filha Edith, casada com seu filho, sr. José Coelho Barbosa. Ligada assim por laços de parentesco e comunhão de crenças religiosas tão estreitos, e possuindo um carater cristão bem comprovado na sua resignação e paciencia e no amor e dedicação para com todos que a conheceram, seria impossivel deixar de traçar estas ligeiras notas, apreciando c traço luminoso de sua curta existencia. Era uma verdadeira santa. Descansa agora dos seus sofrimentos fisicos e certamente foi poupada de outros sofrimentos e apreensões de um mundo instavel, onde tudo parece escuro e ameaçador. Ela desfruta a realidade do que Cristo disse: "O que crê em mim não morrerá". Oxalá possam todos os seus orar como o Salmista: "Ensina-nos a contar os nossos diasde tal maneira que alcancemos um coração sabio". Sal. 89:12. Corações sabios! Saber viver ê saber morrer. Desprender-se alguem desta vida em paz com o seu Deus, eis a verdadeira sabedoria. Na hora do seu passamento, ás 19,15, no templo, a igreja reunida para o culto entoava o seu hino predileto: "Vai, alma tristonha, teu pranto depôr, entrega os cuidados aos pés do Senhor". No seu sepultamento oficiou o rev. Daniel Moraes. Por nosso intermedio a familia agradece a igreja de Franca as manifestações de simpatia durante a longa enfermidade e por ocasião do passamento da querida irmã. Queira o nosso bom Deus consolar os seus queridos com a fé sublime do Evangelho de Paz.
S. Paulo, 24 de junho de 1935.
Belarmino Ferraz

Continuando minhas divagações senio-infantis (gostou?), quase pensei: “Eu, cá na meia idade, vivo pelo menos até os 134 – quero ver se alguém, em 2080 poderá dizer que eu fui chamado, ‘possuindo um carater cristão bem comprovado na sua resignação e paciencia e no amor e dedicação para com todos que a conheceram’”.
 
Feliz 2013!
 
Wadislau Martins Gomes

domingo, dezembro 23, 2012

VENI EMMANUEL, CAPTIVUM SALVE ISRAEL!


Está chegando o dia em que celebramos o nascimento de Jesus Cristo e, ao ler mensagens de amigos do mundo inteiro, não posso deixar de ler nas entrelinhas o sofrimento de muitos deles. Talvez uns dez (que eu saiba) estejam enfrentando a dor da descoberta ou difusão de um ou muitos cânceres. Cansados de diagnósticos e tratamentos, de desejos de vitórias e curas, alguns, como Jó, glorificam a Deus afirmando “Sei que meu Redentor vive” e trazem ânimo e alento para outros irmãos. Outros não sabem nem por onde começar a pedir misericórdia ao Pai de Amor.

O período de festas é também um tempo quando muitos lembram as carências: um casamento rompido, uma amizade ferida, uma igreja em lutas internas e externas.

Eu me lembro de um 25 de Dezembro, há anos, quando fomos passar a festa em Araras, com os pais do Lau, e encontramos a casa vazia e a empregada respondendo à nossa pergunta sobre onde estavam, com um lacônico: “No hospital”. A paleta de carneiro que eu preparara e os cookies ficaram em cima da mesa, os presentes que trouxemos ainda no carro. Fomos direto ao hospital que testemunhara o nascimento de nossos filhos e tantas surpresas agradáveis. Ali encontramos Da. Eulina junto ao leito do sempre alegre – agora mudo – Sr. Wadislau. Com os familiares estava a vigília: longa e entediante, intercalada com chegada de diversos parentes amados que vinham à medida que sabiam da notícia.

“Que ele viva – ainda que tenha de ficar de cadeira de rodas!” foi uma súplica a Deus. Mas Deus escolheu levá-lo, fazendo-o viver numa esplendida eternidade sem dor, na presença do Senhor da Vida – no dia em que fazia aniversário – 26 de dezembro; sua partida partia nosso coração, mas ele foi em paz. Em vez de “Noite Jubilosa”, cantamos seu coro predileto: “Que a beleza de Cristo se veja em mim / Toda sua admirável pureza e amor...” e vimo-lo partir, calmo, sereno e tranquilo. Minha querida segunda mãe perdera o companheiro de quarenta e seis anos – “Queria tanto fazer bodas de ouro!” ela suspirava. Meu companheiro de vida tinha perdido seu melhor amigo na terra. Mas a beleza de Cristo era visível em cada um cuja vida fora tocada pelo Redentor.

Voltando para as cenas do Natal, conforme as festejamos na igreja de Cristo, lembrei-me de que o primeiro deles, junto com o júbilo de anjos e pastores, estava prenhe de pressentimentos. Um cordeirinho em uma estrebaria – para que, afinal, nascia o Cordeiro de Deus que a mãe colocou na manjedoura? Ele se encarnou para dar a vida pelos que estavam mortos em delitos e pecados. Dar vida, não fazendo com que ficássemos apenas joviais e alegres para festejar o infante Jesus, mas dar vida trinta e três anos mais tarde, consumando todo o plano eterno de Redenção sobre uma tosca, horrenda cruz.

A previsão de Simeão, alguns dias após seu nascimento, foi de que esse menino seria “luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel”. Era a razão pela qual o velho podia agora descansar (podes despedir em paz o teu servo (...) porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos: luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel – Lucas 2.25-38). José e Maria se admiram do que foi dito, mas certamente Maria lembraria por muitos anos a profecia que continuava: Este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel e para ser alvo de contradição, (também uma espada traspassará a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.

Em Belém, receberam a visita dos sábios da Mesopotâmia que lhe presentearam com ouro, incenso e mirra; e, avisados por um anjo sobre os intentos de Herodes, os magos não voltaram a Jerusalém. A família sagrada fugiu com o Menino para o Egito. A horripilante matança dos inocentes foi o jeito que o mundo se manifestou no nascimento do Rei dos Reis (Mt 2.1-18).

Quando Jesus iniciou seu ministério, aos trinta anos, João Batista anunciou o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. E o evangelista João descreve o relato dizendo: O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (Jo 1.14).

Para meus amigos que se alegram neste Natal: Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança (Tg 1.17) – desfrutem, aproveitem, regozijem-se em tudo que há de bom e honesto para se alegrar.

Para meus muitos amigos queridos que sofrem neste Natal – ou em outras épocas festivas da vida, o mesmo Tiago partilha: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes. Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.2-5).

Quer estejamos em situação de alegria quer em profunda tristeza, neste Natal tenhamos nítida e constante lembrança da razão pela qual Jesus veio ao mundo: “Hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”.

Em época do Advento, na Idade Média, monges cantavam: “Ó vem ó vem Emanuel / vem resgatar a Israel / que geme em exílio / sem ter de Deus o Filho. / Regozijai! Emanuel virá a ti ó Israel!” Cantamos porque ele veio. Celebramos porque ele está aqui, Deus conosco! E aprendemos a viver contentes em toda e qualquer situação – porque ele nasceu para nos dar fé confirmada: perseverança a fim de sermos perfeitos e íntegros, em nada deficientes!

Glória a Deus e Feliz natal!

Elizabeth Gomes

sexta-feira, dezembro 07, 2012

ESTRANGEIROS, PEREGRINOS, EMBAIXADORES, CIDADÃOS

Nascer do sol em O Refúgio
Você já odiou, desprezou ou zombou de algum estrangeiro? Quando menina, eu tinha o duvidoso status de estrangeira – onde quer que estivesse! No interior de Minas Gerais e depois Goiânia, filha de missionários norte-americanos, cabelo quase branco de milho novo e olhos azuis, tudo dizia que eu não era de lá. Mesmo que tentasse apresentar sotaque e costumes brasileiros, eu era gringa, alemoa, imperialista americana e “da estranja”. Quando, após cada cinco anos em nossa terra adotiva (como papai chamava o Brasil), íamos aos Estados Unidos para as “férias missionárias”, para renovar os contatos com as igrejas mantenedoras, pessoas também me diziam: “Até que você fala bem o inglês para uma brasileira” – quando não perguntavam a minha mãe: “Os nativos do Brasil usam saiotes de capim ou andam nus?” ou exclamavam para meu pai: “Brasil, eh! Então o senhor deve falar muito bem o Espanhol”! Tempos mais tarde, algumas pessoas se instruíram um pouco e indagavam sobre a nova capital do Brasil e as belezas do Rio de Janeiro, do futebol e do carnaval. Havia desentendidos, mal entendidos e entendimentos errôneos em profusão.

Eu mesma não sabia a que pátria pertencia. Pela manhã tinha aulas do curso de língua e cultura inglesa, por correspondência sob a tutela de minha mãe, e ainda atendia a escola brasileira (Ipê, Doze de Agosto e depois Colégio Batista Americano) no resto do dia. Aprendi o “Pledge Allegiance to the Flag” dos USA e cantava “Ouviram do Ipiranga” de mão no peito no hasteamento da bandeira na escola brasileira – sentindo-me cidadã dos dois países. No entanto, nunca fui naturalizada brasileira e tenho um sentimento dúbio quanto à situação de jamais ter votado em eleições no país que escolhi viver. Nos Estados Unidos, só votei uma vez na vida, quando calhei de me encontrar lá em época de eleição presidencial (e já estou na casa dos velhos sessentas)!

Era ainda bem novinha, recém-alfabetizada, quando aprendi o hino: “Sou forasteiro aqui, em terra estranha estou,/ Celeste Pátria sim, é para onde vou. / Embaixador por Deus do Reino lá dos céus,/ Venho em serviço do meu Rei!”[1] Isso amenizou o sentimento de sempre ser estrangeira – saber que minha identidade nacional não é daqui ou dali -- e sim de embaixatriz do Reino de  Deus, o que é incomparavelmente melhor e mais importante. Mas em termos terrenos – afinal, não éramos alienígenas nem estávamos alienados das ocorrências na terra em que Deus nos colocou – sempre olhei com simpatia para os que vinham de fora ou eram “diferentes do povo em geral”.

Encontrei respaldo na Bíblia para a valorização do estrangeiro e peregrino, e na cultura evangélica, muitas referências a essa peregrinação, do Brilho Celeste até Da linda Pátria estou mi longe. Toda a história do povo de Deus era ligada ao fato de “não ser daqui” ou de “ser de lá”, e as leis dadas aos judeus ressaltavam a necessidade de tratar bem ao estrangeiro “pois estrangeiros fostes na terra do Egito” (Lv 19.34) e a realidade é que “Sou forasteiro à tua presença. peregrino como todos os meus pais o foram (Lv 25.23-24; Sl 39.12) – seja qual for minha origem étnica! Tratar mal ao estrangeiro era idêntico a maltratar o órfão e a viúva! (Dt 24.17- 21). Quando Jeremias repreendeu o povo de Judá por perverter a justiça e o juízo, ele disse, pelo Senhor: “livrai o oprimido das mãos do opressor; não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar” (Jr 22.3).

O Novo Testamento expande a visão do estrangeiro, valorizando a cidadania verdadeira da qual fazemos e somos parte: “embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus” (2Coríntios 5.20). Paulo ainda pede que Deus lhe dê ousadia para falar por ser ele “embaixador em cadeias” (Ef 6.20). Outrora rude pescador, o apóstolo Pedro faz um sensível apelo a uma vida cristã exemplar em razão de nossa condição de peregrinos e forasteiros:

Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação. Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. (1Pedro 2.11-16)

A razão principal de um comportamento digno para com todos, porém, é que todos os cristãos “já não são estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus” (Ef 2.19). Em Jesus Cristo, pessoas de todas as tribos, povos e raças virão louvar juntos ao Senhor do Universo – e não haverá mais barreira de língua, cultura, etnia – seremos participantes da “grande multidão que ninguém pode enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” que se encontram em pé diante do trono e diante do Cordeiro (Ap 7.9). Será uma Internacionale autêntica, singular e única, que inclui a todo ser humano!

 Quando adolescente, eu me correspondia com pessoas de muitos países – Gana, Camarões, Israel, Malásia, Estados Unidos, Suécia – e boa parte da minha mesada era gasta em selos, e meu tempo em escrever para meus pen pals. Hoje ainda tenho amigos de todas as partes, embora os meios de comunicação sejam outros e os comunicadores vão desde missionários, pastores e pensadores até questionadores sinceros, hereges incertos, e debatedores intransigentes. Continuo no ministério santo de servir ao Senhor do Universo e a seu povo por todo o mundo – escrava e embaixatriz, singularmente estrangeira e forasteira, participante de um povo separado, unido em um só Rebanho pelo sangue de Jesus Cristo.

Elizabeth Gomes



[1] Hinário Novo Cântico # 288