segunda-feira, janeiro 16, 2017

A TENDA VERMELHA


     A leitura sobre as famílias iniciais de Gênesis certamente não gera parâmetros para a família cristã ideal—nem de dois, três mil anos antes de Cristo nem de dois mil anos da era cristã. Alguns anos atrás, comecei a pensar mais sobre as famílias patriarcais da Bíblia e a relação deles com nossas famílias atuais
     Fui convidada para falar em retiro de mulheres de uma igreja presbiteriana de Anápolis, e o germe de meu livro “Irmãos: cúmplices e rivais em aliança” foi plantado. Repeti alguns aspectos do estudo de “irmãos” em acampamento para jovens da Igreja Presbiteriana de Brasília. Em vez de repetir as mesmas histórias de vida cristã familiar segundo o plano divino, observava que nossas histórias familiares são cheias de conflitos e carências—e vinham sendo assim não obstante possuirmos a Palavra de Deus e mestres que a ensinam com integridade. A Editora Cultura Cristã publicou meu livro sobre o assunto em 2008, e tem havido limitado mas constante interesse no assunto.
     O livro parâmetro de Moisés, por sua vez, conta que os primeiros irmãos tinham conflito de perspectivas e interesses: enquanto Caim queria produzir da terra e desfazer pelos próprios esforços a maldição do cultivo, Abel gerenciava o pastoreio e oferecia de seu próprio rebanho símbolo daquilo que constata que tudo vem de Deus e nada conseguimos sem seu amparo. A inveja e o ódio geraram o primeiro assassinato—que. em vez de eliminar a rivalidade, faz com que o perpetrador continue de semblante caído e o sangue da vítima continue clamando ainda hoje.  A multiplicação da maldade continua, perpassando mesmo os que foram salvos na arca: filhos de Noé, tendo oportunidade do re-começo de toda a civilização, ainda geram maldição, servidão e domínio no incidente do “descobrimento” da nudez do pai, e depois, ao edificar a torre da grandeza, são espalhados pela terra numa total descomunicação da fala única.
     Os anos vão passando e as histórias vão somando: isolamento e solidão, separação e novas alianças, esterilidade, tentativas de manipulação para se conseguir os ideais prometidos por Deus—pacto e promessas de quem é amigo de Deus versus os reis e deuses das tribos dos homens. Eram violentos os tempos de Isaque e Ismael, de Esaú e Jacó, dos filhos das quatro mulheres do mesmo patriarca e de suas vidas desregradas. Mas sempre o fio de redenção e graça perpassa a todos, e as promessas são de que através dessa família disfuncional chegará um dia quando o Sar Shalom trará verdadeira coesão, unidade em meio à diversidade,
caráter em meio ao caos de personalidades egoístas e idólatras. A história compactada da família escolhida para servir a Yahweh não segue o enredo de escolas dominicais protestantes do século XIX, XX ou XXI—seria até mesmo censurada por elas. Mas tem características de redenção realista, de graça a preço de sangue, de perdão sobre-humano diante de pecados sub-humanos, carnais, terrenos, demoníacos. Gênesis é fascinante, porque por mais que as histórias nos pareçam exageradas, fantásticas, além do que suportaríamos, são histórias de gente como nós: seres humanos criados por Deus para glória, emaranhados por afetos idólatras que minam a identidade gloriosa e solapam a integridade com a qual fomos criados.
     Não tem como acrescentar nem diminuir a grandeza da história bíblica—não podemos nem ousamos fazê-lo—mas como contadora de histórias, queria relatar as estórias dos irmãos da Bíblia para aplicar a teologia bíblica à prática cotidiana, daí o livro sobre irmãos.
     Enquanto trabalhava o texto, descobri um livro contando a história dos mesmos patriarcas da boca de Dina, a filha de Jacó cujo marido, o príncipe siquemita Hamor, foi assassinado por seus irmãos Simeão e Levi para vingar ela ter sido por ele desvirtuada. Uma hábil autora feminista de nossa era, Anita Diamant, reconta a história das mulheres dos patriarcas—mães, filhas, esposas, concubinas, amantes, amigas, sogras e noras—um emaranhado de relacionamentos de cumplicidade e rivalidade—nascendo, vivendo, morrendo debaixo de uma tenda vermelha, aquela em que era proibida a entrada de homens por ser para o isolamento da impureza feminina.
     Diamant certamente pesquisou bem a história da civilização inicial do povo de Israel e dos clãs circunvizinhos, bem como o Egito que já era potência mundial, e a Caldéia, de onde saíra Abrão. O livro é muito bem escrito, com profundidade psicológica, criativo, cheio de imaginação. O tipo de livro que eu invejo e desejaria produzir pela beleza e realidade de outra era espelhando a nossa. Recentemente, vi uma versão cinematográfica desse livro, e não pude deixar de rir e chorar com as histórias de Rebeca, Raquel, Lia, remetendo a Sara e Hagar, com a flor ferida de Diná a percorrer toda a história. A liberdade de criar histórias imanginando as partes em que a Bíblia nada afirma é válida e possível (Diná ter se tornado parteira, ido para o Egito antes de José e muito antes da família toda de Jacó ir habitar em Gósen, entre outras). Mas havia dois aspectos em que Diamant ignorou, quando não violentou, a narração bíblica:
1)      A ausência da aliança com Deus. Nada se fala das promessas a Abraão de que nele seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12) nem da reafirmação muitas vezes do pacto. As guerras, alianças, e contatos com os reis da época, culminando com a vinda e bênção de Melquisedeque, também são completamente ignoradas. Não consta, para Diamant, a luta de Jacó no vau de Jaboque, nem mesmo ele ter ficado coxo, a visão de Peniel, a mudança do nome e o restabelecimento do pacto. Todas as estórias sobre Jacó e seus filhos são humanas, terreais, sem foco no eterno. Claro que quando se condensa uma história que perpassa várias gerações, tem de haver uma seleção de narrativas, e mesmo no livro de Moisés de Gênesis sabemos que muito aconteceu que não foi contado. Mas à autora atual não parece haver nenhuma ação divina ou sobrenatural: tudo que aconteceu era sobre a terra inóspita de Canaã, sem pacto, promessa ou relação da parte dele com Deus.
2)      O segundo aspecto gritante na história da tenda vermelha é ter a narradora colocado como positiva a importância da idolatria de Raquel e Lia e suas colegas, e mesmo voltar ao passado de Rebeca e Sara como perpetradoras do feminino que se adore. Gênesis conta que Raquel roubou os ídolos de seu pai Labão (Gn 31.34-35), não como algo bom, mas erro crasso—ao contrário, a “tenda vermelha” glorifica a idolatria como meio de as mulheres contarem suas histórias e lidarem com sua existência entre sombras e luzes. Exatamente como o feminismo, hoje, procura nos ídolos do lar (deuses sob meu controle) e dos altos (deuses das coisas fora de meu controle) uma explicação para a existência e as carências humanas.              Claro que não podemos exigir que uma escritora descrente tenha uma visão acertada da idolatria—mas este é um aspecto em que a história pé no chão de uma excelente escritora não tem resposta como é para nós que cremos que Deus é o Deus dos altos e santos lugares, e também do profundo do ventre e do coração.
     Queria que nós mulheres cristãs, que escrevemos como para tocar cérebro, vísceras e afetos dos leitores, tivéssemos a acuidade e sensibilidade de grandes autoras descrentes—mas com a fé de mulheres “como a própria Sara que recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (Hb 11.11); “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias (Hb 11.31). E em geral, “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos (Hb 11.35).
     Para não nos fatigarmos ou desmaiarmos em nossa alma, teremos de nos livrar dos laços idólatras de nossa cultura passada, presente ou futura: “desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.1-2). A Palavra única, perfeita e inerrante de Deus estabelece o parâmetro e permite-nos criatividade, tal como disse Bill Edgar: a arte cristã é como o jazz, o qual requer liberdade dentro da forma.
     A tenda vermelha me lembra outra tenda: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipontente descansará” (Sl 91) a canópia sagrada pelo sangue do Cordeiro derramado por nós.

Elizabeth Gomes

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