sexta-feira, outubro 26, 2012

MISSÃO DE DEUS OU "FAZER" MISSÕES?


Nasci em família cristã e vim ao Brasil aos quatro meses de idade com meus pais. Sempre nos foi transmitida a idéia de que éramos “missionários” porque saíramos de nossa terra e viéramos a outro país realizar a obra de evangelização e plantação de igrejas. Meus pais labutaram dezessete anos no Brasil, ligados ao Board of Foreign Missions da Southern Presbyterian Church e afiliados ao West Brazil Mission. Nosso primeiro lar foi em Patrocínio, MG, onde fui batizada ainda pequenina. Meus pais aprenderam a língua portuguesa e eu aprendi a falar na língua deles bem como na língua dos “objetos do seu esforço”. Após “dominar” a língua, meu pai foi designado para o pastoreio em Monte Carmelo, Minas, e minha mãe atuava como educadora cristã, enfermeira, parteira, organista ou acordeonista, dependendo de o culto ser dentro da igreja ou algum outro lugar, para onde o acordeão era facilmente transportado. Eu acompanhava meus pais para todo lado e sentia-me privilegiada por ser missionária com eles.

Com quatro anos de idade, sob forte convicção de pecado, percebi que nunca aceitara pessoalmente a Jesus como meu Salvador, e orei com minha mãe para receber Jesus no coração.  Meus pais liam a Bíblia comigo e, depois que aprendi a ler, orgulhava-me de fazê-lo sozinha, orar e cantar hinos e corinhos – e evangelizar outras crianças vizinhas. Um hino que aprendi cedo foi “Mesmo um menino pode crer na salvação de Deus” (Cânticos de Salvação para Crianças, APEC) e também cria fielmente na letra de outro: “Posso se um missionariozinho ao falar de Cristo ao meu companheirinho; posso trabalhar em minha terra; manda-me pois Senhor”.

 A ideia que eu imitava e compartilhava com meus pais e com outros crentes – tanto missionários quanto “objetos”[1] da missão, era que seríamos missionários por haver saído de uma terra de origem para pregar a outro povo – e assim, éramos um pouco mais importantes (e mais dedicados!) no reino de Deus do que os crentes comuns. Isso trazia também mais responsabilidades: eu tinha de ter um melhor comportamento que o de meus amiguinhos, ser exemplo de crente e sempre agir como “filha do Rei” (ou filha de missionário).

Depois de um ano de férias nos Estados Unidos, onde de certa forma éramos “celebridades” – pelo menos entre as igrejas que participavam de nosso sustento – voltamos ao Brasil, desta vez para Goiânia. Ao pastorado papai acrescentou a atividade de programa de rádio, e minha mãe nos ensaiava (minha irmã e eu) para cantarmos duetos na rádio – críamos piamente que nós mesmas estávamos evangelizando através da música. Jamais admitimos (a nós ou aos outros) nosso orgulho exibicionista (eu sou filha do Rei… herdeira com Cristo, sim, sou filha do Rei, uai! É bom demais da conta!) porque estávamos proclamando o evangelho.

Aos onze anos viajei com uma família da missão Novas Tribos para o norte de Goiás (hoje Tocantins) onde atuavam como missionários entre os índios. Fiquei empolgada com seu trabalho. Um ano depois, em uma conferência de um avivalista em Goiânia, fui à frente atendendo o chamado de Jesus, decidindo que serviria ao Senhor onde quer que ele mandasse. Na época, estava fascinada pelo evangelismo de judeus e até me correspondi com diversos missionários (adultos) para aprender mais sobre esse trabalho. Missões, até então, era um trabalho que dependia da nossa decisão e realização!

Meus pais deixaram a missão presbiteriana e se tornaram batistas independentes, e nessa ocasião eu os acompanhei “às águas”. A igreja a que nos filiamos era avivada e zelosamente legalista. Passei a ensinar na escola dominical para uma classe de meninas de oito anos. Sentia-me realizada como missionária mirim que se achava grande coisa para Jesus.

Muitas pessoas foram influenciadas por meus pais. Em 1984 – apesar de ele haver se afastado do ministério desde 1965 e abandonado minha mãe, bem como suas filhas, desde o meu casamento em dezembro de 1966 –  diversos “frutos de seu antigo ministério” agora atuantes líderes nas igrejas pelo Brasil afora, pela graça de Deus estavam presentes no sepultamento do papai.

Juntamente com meu marido e outros nove alunos, fui da primeira turma do Instituto Bíblico Palavra da Vida, preparando-me para missões. Continuava com a visão missionária de “ir” – sair de uma terra para um lugar distante a fim de compartilhar as boas novas – como fez Carrey, o primeiro missionário da era moderna.

Ali, começamos a aprender que o imperativo de Mateus 28.29-30 não era um de ir, mas de fazer discípulos onde quer que estivéssemos indo. Respirávamos missões desde o acordar até o dormir – e muitas vezes sonhamos com algum lugar distante onde serviríamos com abnegação ao Senhor da Seara.

Quando nos casamos, tínhamos em mente que seria em algum canto obscuro entre índios, mas começamos a nos empolgar também pelo evangelismo de judeus e, em janeiro de 1969, logo após a ordenação do Wadislau, fomos para Belo Horizonte como os primeiros missionários da Missão Brasileira Messiânica. Nosso filho Davi, “pequeno missionário” (com um ano e três meses!) nos acompanhava nas idas para “levantamento de fundos” e pregação da palavra.

Os anos foram passando, e alguns conceitos foram mudando. O evangelho de Jesus Cristo conforme ensinado no Antigo e no Novo Testamento, não muda – mas nosso conceito de missões foi se expandindo e sendo burilado pelo Espírito Santo. Hoje entendemos que não somos nós que “fazemos missões” – a missão é de Deus – parte de Deus e não de nossas obras, e é realizada por ele. Missão é um termo de propósito ou alvo em longo prazo que será atingido mediante objetivos próximos e ações planejadas. Dentro dessa missão tão ampla, há espaço para missões subordinadas, no sentido de tarefas específicas designadas por uma pessoa ou grupo de pessoas, que serão realizadas como passos em direção à missão mais ampla. Mas temos uma abordagem missiológica de toda a Bíblia, porque a missão é de Deus e ele fala através de sua Palavra, ensinando “o propósito pelo qual a Bíblia existe, o Deus que a Bíblia nos entrega, o povo cuja identidade e missão a Bíblia nos convida a compartilhar, a história que a Bíblia conta sobre Deus e sobre esse povo, bem como sobre o mundo inteiro e seu futuro, que abrange passado, presente e futuro, a vida, o universo e todas as coisas…”[2]

Estamos aprendendo missões na palavra de Deus. Lemos a Bíblia de forma missional, como matriz hermenêutica para nosso entendimento da Escritura e do mundo. Enquanto cumprimos a missão de Deus no mundo de fazer convergir nele (Jesus Cristo, Deus encarnado – Ef 1.10) todas as coisas, para a sua glória, ele faz em nós tanto o querer quanto o realizar.[3]

Não tenho a profissão de missionária; sou professora de inglês ainda que hoje não a exerça; sou tradutora de livros, comunicadora e escritora. Minha função primária é de ajudadora de meu marido e apoio para filhos, noras, netos e quem porventura chegar a nossa casa.

Tenho funções polivalentes, como um canivete suíço, mutáveis e sempre em transição, com a meta de amar, obedecer e servir a Deus em casa ou por onde passar até os confins da terra. Sou enviada a cumprir a missão de Deus, pois desejo proclamar o evangelho da missão de Deus em palavra e vida. Sou uma missionária fracassada, pois não tenho grandes feitos em meu currículo – mas sirvo a um grande Deus de visão missional – e continuarei nisso até que ele me leve à sua presença total nas bodas do Cordeiro.

Aqui na terra, aprendo a cada dia com obreiros que servem às crianças, aos atletas, aos idosos, aos jovens, aos hospitalizados, aos indígenas, aos universitários, aos judeus, aos pescadores e a toda espécie de pecadores – aprendendo cada dia a conhecer melhor a Jesus, o poder da sua ressurreição e a comunhão de seus sofrimentos (Fp 3.10). Não existe vida melhor que essa! Não existe outra missão senão essa – glorificar a Deus e gozá-lo para sempre[4].

Elizabeth Gomes



[1] Essa idéia de “objeto” ou “alvo” estava sempre implícita nessa “bulls’-eye theology” (centro do alvo) adotada por missionários, obreiros e “crentes comuns.”
[2] Wright, Christopher, The Mission of God, Downers Grove: InterVarsity, 2012, p. 23
[3] Ibid, p.32
[4] Primeira resposta do Catecismo de Westminster
 

2 comentários:

invictus disse...

Ainda que a expressão "missionária fracassada" venha desse senso de humildade que tão bem caracteriza a personalidade de D. Beth, tenho que discordar, pois seus relacionamentos, as impressões deixadas nas vidas de outros como eu, sua voz lindíssima louvando ao Senhor e inspirando vidas, seu ensino balanceado e amoroso, sua "exemplary motherhood", sua colaboração imprescindível no ministério de seu marido e seu próprio ministério como autora e tradutora de livros, mostra inquestionavelmente que se há alguém que não é fracassada como missionária, é esta maravilhosa Mulher e Esposa Cristã, D. Elisabeth Gomes. Tenho dito. Love, Valdir.

reformandonossafe disse...

Irmã Mrs Elizabeth,
Quão grande e maravilhosa missão nosso Deus preparou para ti! que história linda, com propósito do Senhor que tudo já havia tudo planejado!
Só quem deixa sua pátria sabe o que é viver longe de casa! mas compreendemos que não somos daqui e sim cidadãos dos céus, graças a Jesus. E por isso Deus permitiu e lhe sustentou até aqui, para muitos frutos que ainda que virão deste sonho gerado nos corações de seus pais por parte de Cristo.
Quero dize-la que tão maravilhosamente tenho sido edificado pelo ministério que nosso Deus confiou em suas mãos e do amado Pr. Wadislau que mesmo sem te-los conhecidos pessoalmente, tenho aprendido a amá-los, e rogo a Deus para que isto aconteça no tempo e sob a vontade Dele.
Aqui longe de vocês tenho acompanhado ministrações do Pr. "Lau" e sido edificado por vocês e por toda sua família.
Agradeço a Deus por vocês, e pela inspiração que tenho recebido por parte de Deus através de vocês!

Que produza muitos frutos vossa semente, Deus continue abençoando missionários americanos, que muitos teólogos aqui do Brasil possam reconhecer e aprender com as missões Americanas e respeitar estes servos que deram suas vidas e famílias para abençoar nos ao invés de critica-los.

Clodoaldo Falsetti
Bauru/SP
mr_falsetti@yahoo.co.uk

"Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" Filipenses 1:6