sexta-feira, novembro 23, 2012

MENTALIDADE DE TELEGRAMA PT CURTÍSSIMA PT


 
Quem sugeriu foi o Firmo Malasartes vg primo do Pedro pt Contou que recebeu um e-mail com um link (httpptpt//ibuikyptblogspotptcomptbr/2008/11/crimes-contra-honra-no-dia-dia-quem-porpthtml ) que acessou e ficou pasmo ptpt se a gente chamar alguém por aquilo que ele é vg é crime de preconceito pt Em plena era da internet vamos ter de chamar a coitadinha de telegrama a fim de não incorrer em crime de preconceito virtual pt

Não parece coisa de sábio? Quero dizer, chamar a pessoa pelo contrário do que ela é? Certo que não é coisa nova; os jornais escritos e falados da bola plim plim já vinham fazendo isso há algum tempo em termos de notícias de agenda política: “A turma da terra atacou os sem terra da faixa só porque estes estavam comemorando São Yahya com cem foguetes terra terra por dia”. Só que agora é pior, pois, se chamar alguém de honesto é capaz de ir parar na hospedaria de vitimizados; se disser a alguém que ele é aquilo ou aquela, o poder desce de chicote; pior ainda, se chamar alguém de conceituoso prévio, aí, não tem jeito, a que dá leite foi pro brejo.

Parece-me que essa fobofobia vai longe. O povo está ficando cada dia mais instruído, como se vê do exemplo recente – o Supremo manda prender os honestos e o povo ainda vota neles. Que mais podemos esperar? Já pensou, que dizer que somos protestantes reformados chiítas (viu como escapei do crime?) é xingamento, mas se for o próprio protestando, é elogio?

E o que dizer do clima de paz e segurança que está aí? Alguém vai ter de processar a Bíblia, pois ela diz sem nenhum medo: Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo (Isaías 5.20)!

Saúde pt

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, novembro 16, 2012

"SEU" GARCINDO E O JOÃO DE BARRO



 

– Que passa, véio?

O ar brejeiro de dona Déia deixava-a linda

– Está com jeito de quem viu passarinho verde – ela completou

– Não é verde não, é o João de barro ali na barriguda.

No galho espinhento da paineira o pássaro ia, de bico em bico, fazendo sua casa.

– Estou aqui, matutando sobre o caso daquele pastor que veio na outra semana. Parecia ave sem ninho.

– Que foi que vocês andaram falando?

– Das coisas. Tem crente que de tanto escutar a canção do João de Barro parece que virou ave sem perdão para dar. Sabe? “O João de Barro pra ser feliz como eu...” – cantarolou.

– ?!

– Tem crente que é joão de barro só de pena. Peito estufado, bico agudo, faz e acontece, mas se a mulher escorrega, fecha a porta da casa com ela lá dentro.

– Estou voando.

– É essa coisa de a gente pregar o que não vive e querer que os outros vivam o que a gente prega. É só trilado de salvação, transformação, mas só no vento. Para muitos, o Deus que cuida das aves só se ocupa com as “perdidas”; as de casa eles acham que não têm jeito não. Assim é melhor nem casar com joão de barro.

–Ainda estou no ar.

– Esse moço, o pastor, andou batendo asas e a passarada arreliou. O homem já mudou, é construtor sério, asa forte, canto firme, só que não é joão de barro, é curió, e por isso os outros penados não lhe dão trela.

– Ah!

– Pois é, fico pensando no rei Salomão que não se vestia bem como as aves, mas sofria como uma. Queria ser passarinho só para por música no seu poema: “Como o pássaro que foge, como a andorinha no seu voo, assim, a maldição sem causa não se cumpre” (Provérbios 26.2). É letra bem mais verdadeira do que a do João de Barro; tem esperança.

– Ainda não entendi tudo, mas começo a ver alguma coisa no céu.

– Os joãos de barro não sabem que Deus tem poder para criar passarinho do nada. Se soubessem o que Deus pode fazer na vida da gente não ficavam se apoiando em galho seco.

– Agora é que não sei mais nada!

– Nem eles, nem eles. Conversa vai conversa vem, saiu um comentário bobo que nem grasnada de urubu, e veio diz que me disse de periquitos, conversa de ajurujuru; e o moço estava no meio. Ficou jururu que nem o passarinho do Salomão. Disse que fez até uma canção.

– E como é?

– Uma coisa do rei Davi: “Tu fazes rebentar fontes no vale, cujas águas correm entre os montes; dão de beber a todos os animais do campo; os jumentos selvagens matam a sua sede. Junto delas têm as aves do céu o seu pouso e, por entre a ramagem, desferem o seu canto” (Salmo 104.10-12).

– E o que ele quis dizer?

– É nisso que eu pensava enquanto via o João de barro. Enquanto tem crente fechando as portas das casas, o moço abria para eles a casa do Senhor. Disse que era tristeza sem mágoa, que orava por eles e que, se pudesse, ainda dava de beber. Imagine, no bico!

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, novembro 15, 2012

TRABALHO INFANTIL: A ÉTICA PROTESTANTE DO TRABALHO E O QUE ENSINAMOS AOS NOSSOS FILHOS

São José Carpinteiro - Georges de La Tour, Paris, Louvre

Cena um: após o culto vespertino de um dia cheio tomado pela conferência missionária, três pastores e suas esposas estão em uma pizzaria ao ar livre. Um menino com não mais de oito anos vem até a mesa para pedir uns trocados e, quando um dos pastores pergunta onde estaria sua mãe e quem havia deixado que ele estivesse na rua a essa hora, ele responde:

 – Tá’li esperando meus irmão trazê o dinheiro. Ela que mandou a gente trabaiá nessas hora que gente rica come e tá cansada.

Eu era uma das mulheres e fiquei, como as colegas, indignada com o trabalho a que o menino era submetido a essa hora da noite. Tive vontade de dar um pito na mãe por explorar a vulnerabilidade do filho, mas isso não resolveria o problema. São centenas, milhares de mães, pais, tios e outros parentes que usam crianças como fonte de renda, explorando a compaixão alheia. Não me lembro de como acabou a cena. Estávamos condoídos pela situação que se repete por todo o país, apesar dos programas assistenciais e assistencialistas do governo e das tentativas de cristãos para mudar o estado de coisas por meio de um evangelho ativo que corrobora a pregação das boas novas de Cristo. Tem muita criança pelo Brasil afora que garante “os trocados” dos pais mediante seu trabalho – esmolando, limpando parabrisas de carro, vendendo drops e chocolates ou, pior ainda, vendendo o próprio corpo mal iniciado na adolescência. É a escravidão do mais fraco oprimido pelo mais forte.

Cena dois: um menino em zona rural atrela um bode ao carrinho feito pelo pai carroceiro a quem imita levando sua pequena carga até um destino vizinho. O menino tem orgulho do trabalho realizado depois das aulas e, apesar da idade, faz serviço útil e bem feito que lhe dá mais do que um senso pessoal de valor. Quando foi mostrada sua história no programa rural da TV, imediatamente diversas pessoas se manifestaram contra a “exploração do trabalho infantil”.

Cena três: uma mãe hospedada na casa de amigos observa que os filhos da casa prontamente tiram a mesa, lavam, enxugam e guardam a louça, e se explica à mãe hospedeira:

– Em casa meu marido não admite que nossos filhos ajudem na cozinha ou arrumem suas próprias coisas. Ele diz que o trabalho de criança é estudar e que adulto não tem o direito de exigir que meninos façam qualquer trabalho doméstico.

Trabalhei por alguns anos como assistente social de língua portuguesa para uma agência de defesa da criança abusada e negligenciada, em Somerville, Massachussetts. Era triste averiguar situações de abuso físico e psicológico que algumas crianças e adolescentes sofriam. Esses abusos ocorriam não apenas em famílias de baixa renda, mas também em famílias abastadas que “davam tudo para seus filhos”. O horror do abuso sexual deixa marcas para toda a vida. É injustificável a violência do abuso físico a que pais, mães e responsáveis submetem as crianças, quebrando-lhes braços, queimando-as com cigarros ou ferro elétrico, ou lanhando-lhes as costas com surras que derrubam até gente grande e forte. Nas escolas, as crianças eram instigadas a delatar qualquer abuso que tivessem sofrido, verdadeiro ou produto de mentiras para obtenção de alguma vantagem. Muitas vezes a única solução que o Estado tinha era retirar a criança do “nocivo convívio familiar” e colocá-la sob o cuidado temporário de famílias substitutas pagas para isso. A fim de se qualificarem a esse trabalho, os “pais substitutos temporários” recebiam treinamento psicossocial dado pelo departamento de serviço social do governo dos Estados Unidos e pagamento por cada criança sob seus cuidados. Supostamente eram visitadas a cada mês para reavaliar a situação com vistas à recondução aos progenitores. As crianças recebiam dinheiro para roupas, calçados e pertences pessoais – um “bom dinheiro”, muito mais do que teriam se estivessem vivendo com os pais. Cria-se assim uma indústria de assistência à criança em que os pais substitutos lucram, as crianças perdem os vínculos familiares e, além da vitimização real, desenvolvem um senso inflado de vitimização juntamente com um senso de “direitos” (entitlement) sem um mínimo de responsabilização pelos próprios atos, atitudes e faltas.

Foram quase dois anos na assistência de crianças e foi com alívio que passei para um trabalho duro, mas menos sofrido – com adultos portadores do vírus HIV. Contudo, valeu a lição. Nas situações de abuso ou negligência infantil, sequer um caso havia de serem forçadas a trabalhar. Antes, tudo era lazer e divertimento – mesmo no trabalho escolar. Meu coração se condoia ao pensar nas muitas crianças brasileiras, mendigando moedas e migalhas junto à mãe ou tia, dormindo ao relento e sob marquises de imponentes prédios ou pontes. Apoio os esforços de cristãos conscientes que procuram mudar o quadro. Amigas assistentes sociais – como Alva, Mary, Júnia – desenvolviam trabalho compassivo em prol da criança, ensinando aos pais (quando existentes) a pescar em vez de lhes dar o peixe podre do assistencialismo – dando chance às mães de cuidar, alimentar, educar e manter a criança na escola.

Realmente, o primeiro trabalho da criança é estudar, e ela tem de ter condições e estímulos ambientais para isso. Infelizmente tanto o ambiente quanto o estímulo são pouco propiciados para grande parte de nossas crianças. Mas um aspecto da educação que aquela mãe da cena três ignorava ao defender o ócio lúdico do filho é que é responsabilidade primeira dos pais ensinarem os filhos para a vida – não apenas mandá-los para uma boa escola. A criança aprende pelo exemplo: pais que valorizam o estudo e não tem medo do trabalho terão filhos com gosto de estudar e trabalhar. É questão de criar um gosto permanente (Provérbios 22.6: “Ensina a criança no caminho que deve andar, e ainda quando for velho, não se desviará dele”).

Brincar também é trabalho da criança – com a brincadeira e o brinquedo ela aprende por imitação, em doses adequadas para a idade, sobre todas as coisas da vida. Proponho também que essa brincadeira inclua boa dose de trabalho: não apenas brincar de professora, bombeiro ou médica, mas de ajudar nas tarefas do cotidiano. “Gosto de ajudar” era uma cantiga que hoje poucas crianças conhecem – porém, o senso de valor infantil cresce quando o menino e a menina aprendem a cuidar e guardar seus brinquedos. Com isso, ensinamos-lhes a ética de Gênesis 1.28, de cultivar e guardar a terra, de ter domínio sobre a natureza e todas as coisas criadas.

O menino da cena dois não estava sendo forçado ou sendo abusado com o trabalho. Com certeza seu pai conseguia transportar uma carga maior sem atropelos – mas o garoto aprendia e brincava ao trabalhar de verdade com sua carrocinha. Aprendia na escola, na roça ou em casa, e a carga lhe era leve por ser prazerosa. Responsabilidade diária, sim. Ajuda verdadeira ao pai, sim. Esse trabalho infantil que realizava não era abuso – era melhor que andar de bicicleta ou na roda gigante!

Quando ensinamos a criança a expressar criatividade nas atividades corriqueiras – a limpar o que sujou, a arrumar o que desarrumou, e a valorizar um trabalho bem feito – não a faremos sentir-se abusada, mas, sim, importante e participante da família, da vida cotidiana. Ela aprenderá habilidades que nunca deixará de usar.

Claro que pai e mãe não podem dar aos filhos tarefas acima de sua capacidade nem lançar sobre eles responsabilidades que os próprios pais não queiram desenvolver. Às vezes, deixar a criança ajudar dá mais trabalho do que fazer a tarefa sem ela (por exemplo, chão molhado pela criança que orgulhosamente lavou sozinha a louça), mas o motivo de deixá-la participar do trabalho não é a perfeição e sim a educação na justiça e no amor. Mesmo se a família tiver ajudante para os serviços domésticos, será importante, por exemplo, que a criança aprenda a estender sua própria cama. Lembro-me da vergonha de uma moça de quinze anos quando pela primeira vez na vida teve de arrumar a cama, em um acampamento de jovens, e não sabia como! Arrumar a mesa para o lanche e lavar alguns copos e pratos deve fazer parte do currículo de cada criança. Quando for maior, saber esquentar uma comida ou fritar um ovo serão úteis, mesmo se tiver sempre quem o faça por ela. Nunca me esquecerei do orgulho de minha filha de sete anos, ao esquentar, por à mesa e servir o jantar a seu avô que nos visitava, antes de a mãe chegar da faculdade.

Uma das mais preciosas lições que podemos dar às crianças é aquilo que Jesus disse quando interpelado por trabalhar no sábado: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Quando Jesus lavou os pés dos discípulos (trabalho para os servos menos valorizados na escala hierárquica) e Pedro protestou, Jesus insistiu que dava o exemplo – que o servo não é maior do que o senhor e o discípulo será bem-aventurado se praticar o que aprende do Mestre (Jo 13.15-17).

Uma das grandes diferenças do pensamento protestante e do pensamento escolástico romano estava na perspectiva do trabalho. De um lado os reformadores, destacando a salvação somente pela graça mediante a fé, independente de obras, davam valor ao trabalho, por mais humilde que fosse, vendo toda obra bem feita como cumprimento do chamado de Deus. De outro lado, a graça de Deus sendo comprada mediante méritos e pagamento, sendo o ideal contemplativo obtido no ócio[1]. Na prática, países estabelecidos por protestantes tinham forte ideal de operosidade, enquanto em países de índole romana o ideal era o de ganhar dinheiro e posição suficientes para colocar outros para trabalhar no lugar dos senhores (e das senhoras). Isso se reflete na maneira como vemos a vida e como ensinamos nossas crianças.

Temos de dizer “não” ao abuso de crianças em qualquer forma que ele se instaure. Temos de dizer “sim” à criança quanto à valorização de seu estudo e aprendizado, sua vida lúdica e também sua tarefa de aprender a trabalhar, cuidar e criar conforme Deus designou desde a infância deste mundo criado por ele. Não exploramos as crianças quando as ensinamos a desenvolver tarefas e responsabilidades na vida – preparamo-las para vidas mais criativas, úteis, completas e plenas, da meninice à velhice!

Elizabeth Gomes



[1] GUINNESS, Os, O Chamado. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, “A distorção católica e a distorção protestante pp. 39-40 e pp. 47-48.

segunda-feira, outubro 29, 2012

O CRISTÃO, O FACEBOOK E O FAKEBOOK

Curtir     Comentar     Compartilhar     Beijar o sapo     Abraçar o jacaré
 

Facebook é como telefone sem fio. Para os recém vividos, não é o sem fio antigo nem o celular; é uma brincadeira do tempo que as festas eram animadas numa roda em que alguém cochichava um status no ouvido próximo e ele era compartilhado com o seguinte, até voltar à origem. Dava um bué! Saia coisa como “salada de mamão macho” e voltava como “sai de baixo que vem a mão”. No Facebook, cada um lê quando e como quer. Outro dia, alguém me perguntou quando é que eu viajaria, a que de pronto respondi: “amanhã, às 8”. A mensagem era de uns dias antes e já havia outra na linha: “Bom dia, dr. Tudo bem?” Ainda bem que o cara tinha cérebro.

Você abre a página principal e vê um monte de coisas que a pessoa “está pensando”: mesas postas, pratos feitos, árvores, eventos, dentros, foras, saudações gerais, tratativas pessoais de cunho delicado tal como “o que você está fazendo?” Nem me pergunte! Outros mandam notícias, fotos, citações, altos pensamentos, risos, choros, mesas postas, pratos feitos, árvores, eventos, dentros, foras, saudações gerais, e a gente curte; as de interesse pessoal, compartilha.

Entre tapa e beijos, eu gosto do Facebook. Demorei para entrar, mas dou uma boiada para não sair. O Facebook é bom por uma centena de comentários, mas, aqui, vão dois: um, revela a pessoa como ela é e, dois, revela a pessoa como ela é. A diferença é que um é o Facebook e o outro é o fakebook. O fakebook não esconde a espinha inflamada da foto nem da alma. Facebook é superficial e profundo; fakebook é superficial e chato. Adaptando o que disse o meu filho Davi, Facebook é intimidade aparente e fakebook é nudez real.

De fato, facebook é um instrumento de comunicação que permite de oi e oba até boi e boba. Tem gente que envia graça até que com certa graça, tem gente que faz graça, e tem quem curta e compartilhe desgraça. Vai lá! Não gostou, é só deletar o feião. O problema é o que fazer com amigos amigos. Amizade não se faz num dia nem se apaga num clique; assim, o negócio é separar as coisas em categorias: sala, cozinha e banheiro.

Noutras palavras, há papo que é público, outro que é reservado e outro que é privado. A coisa toda está à mostra e deve ser tratada com inteligência, arte e bons afetos. Inteligência, bem... Já arte tem um lado inteligente e outro de bom gosto, e essas não são opcionais. Tudo que dizemos e exibimos, além de expor quem somos, porta um tanto de responsabilidade quanto ao Senhor a quem amamos e servimos e ao próximo a quem deveríamos amar e servir no Senhor. Como disse o Paulo da Bíblia em um lugar: “pouco se me dá de ser julgado por vós (...) nem eu tampouco julgo a mim mesmo (...) quem me julga é o Senhor (1Coríntios 4.3-4) e, em outro: “que ninguém se preocupe comigo mais do que em mim vê ou de mim ouve” (2Co 12.6). E essa é a chave: na sala, estamos à vista e sem cochichos; na cozinha, ensaiamos um dedo de cafezinho com cuidado e fala mansa porque a porta tem ouvidos; no lugar de lavar o rosto e escovar os dentes, aí é melhor fechar a porta e ligar um mata som – não podemos expor as vergonhas.

Na sala, o bom tom manda que não cobremos, acusemos ou corrijamos as pessoas. Além do lugar comum da frase “errar é humano”, tem aquele risco de aparecer nosso próprio erro, no mínimo, de falta de educação. Se a pessoa for amiga, deixa pra lá porque “o amor cobre multidão de pecados” (1Pedro 4.8), e, se for amigo mesmo, também, porque “O que encobre a transgressão adquire amor, mas o que traz o assunto à baila separa os maiores amigos” (Provérbios 17.9).

Tem disso e tem daquilo, mas na sala, cruze as pernas com elegância, não sacuda os braços nem lance perdigotos juntamente com as palavras. Na cozinha, a conversa é mais íntima, reservada. Se for você quem estiver lá, exponha o coração, mas não os intestinos; dobradinha e buchada ficam bem na panela. Se outros estiverem lá, lembre-se de que sapo de fora não chia nem se intromete nem critica senão vira perereca venenosa. Espere o chamado do tanoeiro ou do cururu ou do sapo boi. Se for colhido de surpresa, finja que está no pântano, dê um coaxado, uma limpada de garganta, uma tossidinha e vê se dá para filar um bolinho de chuva. No banheiro, ah! você acha que eu preciso disso? Não quero ver ninguém lá, nem rusga de casal nem iras nem náuseas.

Vamos lá, pessoal! É divertido – até que alguém bote aquela foto ou aquele comentário. Aí, jacaré tem boca maior do que a do sapo. Tem não, gente; o jacaré é manso.

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, outubro 26, 2012

MISSÃO DE DEUS OU "FAZER" MISSÕES?


Nasci em família cristã e vim ao Brasil aos quatro meses de idade com meus pais. Sempre nos foi transmitida a idéia de que éramos “missionários” porque saíramos de nossa terra e viéramos a outro país realizar a obra de evangelização e plantação de igrejas. Meus pais labutaram dezessete anos no Brasil, ligados ao Board of Foreign Missions da Southern Presbyterian Church e afiliados ao West Brazil Mission. Nosso primeiro lar foi em Patrocínio, MG, onde fui batizada ainda pequenina. Meus pais aprenderam a língua portuguesa e eu aprendi a falar na língua deles bem como na língua dos “objetos do seu esforço”. Após “dominar” a língua, meu pai foi designado para o pastoreio em Monte Carmelo, Minas, e minha mãe atuava como educadora cristã, enfermeira, parteira, organista ou acordeonista, dependendo de o culto ser dentro da igreja ou algum outro lugar, para onde o acordeão era facilmente transportado. Eu acompanhava meus pais para todo lado e sentia-me privilegiada por ser missionária com eles.

Com quatro anos de idade, sob forte convicção de pecado, percebi que nunca aceitara pessoalmente a Jesus como meu Salvador, e orei com minha mãe para receber Jesus no coração.  Meus pais liam a Bíblia comigo e, depois que aprendi a ler, orgulhava-me de fazê-lo sozinha, orar e cantar hinos e corinhos – e evangelizar outras crianças vizinhas. Um hino que aprendi cedo foi “Mesmo um menino pode crer na salvação de Deus” (Cânticos de Salvação para Crianças, APEC) e também cria fielmente na letra de outro: “Posso se um missionariozinho ao falar de Cristo ao meu companheirinho; posso trabalhar em minha terra; manda-me pois Senhor”.

 A ideia que eu imitava e compartilhava com meus pais e com outros crentes – tanto missionários quanto “objetos”[1] da missão, era que seríamos missionários por haver saído de uma terra de origem para pregar a outro povo – e assim, éramos um pouco mais importantes (e mais dedicados!) no reino de Deus do que os crentes comuns. Isso trazia também mais responsabilidades: eu tinha de ter um melhor comportamento que o de meus amiguinhos, ser exemplo de crente e sempre agir como “filha do Rei” (ou filha de missionário).

Depois de um ano de férias nos Estados Unidos, onde de certa forma éramos “celebridades” – pelo menos entre as igrejas que participavam de nosso sustento – voltamos ao Brasil, desta vez para Goiânia. Ao pastorado papai acrescentou a atividade de programa de rádio, e minha mãe nos ensaiava (minha irmã e eu) para cantarmos duetos na rádio – críamos piamente que nós mesmas estávamos evangelizando através da música. Jamais admitimos (a nós ou aos outros) nosso orgulho exibicionista (eu sou filha do Rei… herdeira com Cristo, sim, sou filha do Rei, uai! É bom demais da conta!) porque estávamos proclamando o evangelho.

Aos onze anos viajei com uma família da missão Novas Tribos para o norte de Goiás (hoje Tocantins) onde atuavam como missionários entre os índios. Fiquei empolgada com seu trabalho. Um ano depois, em uma conferência de um avivalista em Goiânia, fui à frente atendendo o chamado de Jesus, decidindo que serviria ao Senhor onde quer que ele mandasse. Na época, estava fascinada pelo evangelismo de judeus e até me correspondi com diversos missionários (adultos) para aprender mais sobre esse trabalho. Missões, até então, era um trabalho que dependia da nossa decisão e realização!

Meus pais deixaram a missão presbiteriana e se tornaram batistas independentes, e nessa ocasião eu os acompanhei “às águas”. A igreja a que nos filiamos era avivada e zelosamente legalista. Passei a ensinar na escola dominical para uma classe de meninas de oito anos. Sentia-me realizada como missionária mirim que se achava grande coisa para Jesus.

Muitas pessoas foram influenciadas por meus pais. Em 1984 – apesar de ele haver se afastado do ministério desde 1965 e abandonado minha mãe, bem como suas filhas, desde o meu casamento em dezembro de 1966 –  diversos “frutos de seu antigo ministério” agora atuantes líderes nas igrejas pelo Brasil afora, pela graça de Deus estavam presentes no sepultamento do papai.

Juntamente com meu marido e outros nove alunos, fui da primeira turma do Instituto Bíblico Palavra da Vida, preparando-me para missões. Continuava com a visão missionária de “ir” – sair de uma terra para um lugar distante a fim de compartilhar as boas novas – como fez Carrey, o primeiro missionário da era moderna.

Ali, começamos a aprender que o imperativo de Mateus 28.29-30 não era um de ir, mas de fazer discípulos onde quer que estivéssemos indo. Respirávamos missões desde o acordar até o dormir – e muitas vezes sonhamos com algum lugar distante onde serviríamos com abnegação ao Senhor da Seara.

Quando nos casamos, tínhamos em mente que seria em algum canto obscuro entre índios, mas começamos a nos empolgar também pelo evangelismo de judeus e, em janeiro de 1969, logo após a ordenação do Wadislau, fomos para Belo Horizonte como os primeiros missionários da Missão Brasileira Messiânica. Nosso filho Davi, “pequeno missionário” (com um ano e três meses!) nos acompanhava nas idas para “levantamento de fundos” e pregação da palavra.

Os anos foram passando, e alguns conceitos foram mudando. O evangelho de Jesus Cristo conforme ensinado no Antigo e no Novo Testamento, não muda – mas nosso conceito de missões foi se expandindo e sendo burilado pelo Espírito Santo. Hoje entendemos que não somos nós que “fazemos missões” – a missão é de Deus – parte de Deus e não de nossas obras, e é realizada por ele. Missão é um termo de propósito ou alvo em longo prazo que será atingido mediante objetivos próximos e ações planejadas. Dentro dessa missão tão ampla, há espaço para missões subordinadas, no sentido de tarefas específicas designadas por uma pessoa ou grupo de pessoas, que serão realizadas como passos em direção à missão mais ampla. Mas temos uma abordagem missiológica de toda a Bíblia, porque a missão é de Deus e ele fala através de sua Palavra, ensinando “o propósito pelo qual a Bíblia existe, o Deus que a Bíblia nos entrega, o povo cuja identidade e missão a Bíblia nos convida a compartilhar, a história que a Bíblia conta sobre Deus e sobre esse povo, bem como sobre o mundo inteiro e seu futuro, que abrange passado, presente e futuro, a vida, o universo e todas as coisas…”[2]

Estamos aprendendo missões na palavra de Deus. Lemos a Bíblia de forma missional, como matriz hermenêutica para nosso entendimento da Escritura e do mundo. Enquanto cumprimos a missão de Deus no mundo de fazer convergir nele (Jesus Cristo, Deus encarnado – Ef 1.10) todas as coisas, para a sua glória, ele faz em nós tanto o querer quanto o realizar.[3]

Não tenho a profissão de missionária; sou professora de inglês ainda que hoje não a exerça; sou tradutora de livros, comunicadora e escritora. Minha função primária é de ajudadora de meu marido e apoio para filhos, noras, netos e quem porventura chegar a nossa casa.

Tenho funções polivalentes, como um canivete suíço, mutáveis e sempre em transição, com a meta de amar, obedecer e servir a Deus em casa ou por onde passar até os confins da terra. Sou enviada a cumprir a missão de Deus, pois desejo proclamar o evangelho da missão de Deus em palavra e vida. Sou uma missionária fracassada, pois não tenho grandes feitos em meu currículo – mas sirvo a um grande Deus de visão missional – e continuarei nisso até que ele me leve à sua presença total nas bodas do Cordeiro.

Aqui na terra, aprendo a cada dia com obreiros que servem às crianças, aos atletas, aos idosos, aos jovens, aos hospitalizados, aos indígenas, aos universitários, aos judeus, aos pescadores e a toda espécie de pecadores – aprendendo cada dia a conhecer melhor a Jesus, o poder da sua ressurreição e a comunhão de seus sofrimentos (Fp 3.10). Não existe vida melhor que essa! Não existe outra missão senão essa – glorificar a Deus e gozá-lo para sempre[4].

Elizabeth Gomes



[1] Essa idéia de “objeto” ou “alvo” estava sempre implícita nessa “bulls’-eye theology” (centro do alvo) adotada por missionários, obreiros e “crentes comuns.”
[2] Wright, Christopher, The Mission of God, Downers Grove: InterVarsity, 2012, p. 23
[3] Ibid, p.32
[4] Primeira resposta do Catecismo de Westminster
 

terça-feira, outubro 16, 2012

UMA DO "SEU" GARCINDO


Lá na pequena Bocaina, os quase setenta anos do seu Garcindo fazem gosto. Bole na horta, inspeciona a cozinha da dona Déia, paga um tempo no quarto munido de óculos e Bíblia, larga o corpo na cadeira de preguiça do alpendre e vê passarem os amigos e a semana. Aqui e ali, um dedo de prosa com o seu Amâncio, vizinho da esquerda que havia se convertido, com o da direita que ainda reluta um pouco, ou com um e outro conhecido. Mudança, muito pouca. Mas a espera do sábado com promessa de domingo enche-lhe a alma e os dias. Sábado tem filhos e netos chegando, reunião de famílias amigas “para falar de Cristo” e, domingo, a igreja.

Seu Garcindo conheceu a fé ainda moço na fazenda onde ouviu um pregador falar de “Jesus Cristo, do povo de Deus, e de mim”. Vida simples, devoção profunda, muito gosto de orar com e por dona Déia, de orarem juntos pelas famílias já saídas de casa, e pelo pastor e “irmãos da igreja”. Um evangelho simples, entendido e obedecido em oração.

Outro dia, vieram uns moços de igreja da Capital para passar o fim de semana. Encheram as casas dos crentes com histórias e risos parecendo assuada de passarinhos. Tinha de tudo, pardal, andorinha, sanhaço, beija-flor, corruira... e também falavam de tudo, de folha de alface e quirera até painço e farinha de minhoca. Em igrejês, havia um tal de louvor diferente, umas coisas de célula, oração de poder, estratégia de crescimento de igreja – “tudo muito longe do meu bico”. Umas aves mais sofisticadas falavam de neoisso, neoaquilo, quem era mais penado, mais colorido, mais bicudo...

Seu Garcindo ficou a semana inteira com a visita enroscada na cabeça “que nem colerinha no visgo”. Eram os trilados que a passarada usava para cantar na mesma língua, “bem afinados, mas muito novidadeiros”, as críticas dos urubus aos gorjeios dos curiós, os eu acho e eu preciso que era mais para ter o que ciscar do que para comer.

Enquanto regava o canteiro, arrancava uns matinhos e juntava mais terra ao pé da planta, seu Garcindo dava tratos à bola, digeria uns pensamentos e dava lá suas tiradas com os próprios botões. Na sexta-feira, depois das orações, ele disse à dona Déia:

— Sabe, mulher, não sei se vou conseguir ser crente do jeito que os crentes da Capital falaram; já devo estar velho pra isso. Pensei, meditei, e cheguei a umas coisinhas.

— Que coisinhas?

— Ah! concluí que vou ficar com o que tenho, arrancar o que não presta, e crescer naquilo que ainda não tenho.

— Como assim?

— Bom, é melhor chorar com o que deve ser chorado do que rir a toa e fazer graça para parecer alegre; é melhor ter fome do reino de Deus do que ciscar na terra da insatisfação.

— Explica, meu velho.

— Por exemplo: quero ter humildade para saber o meu lugar no reino de Deus, mansidão para não querer controlar as coisas, misericórdia para entender os problemas dos outros, limpeza de coração para ver o que Deus está fazendo, e paz do nosso Senhor para viver com todos.

— Mas será que não vão dizer que você não é bom crente?

 Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, outubro 15, 2012

MISSÃO DE MÃE?!



A expressão mulher cristã requer um entendimento de que é coisa imprescindível que todos os aspectos da vida sejam vividos diante de Deus. Assim, tenho me alegrado e me condoído, questionado, estudado, sofrido, e compartilhado as condições de mulheres dentro e fora da igreja de Cristo. Sempre estive envolvida no trabalho feminino das igrejas. Nossa igreja nascente ainda está firmando os passos doutrinários éticos para estruturar trabalhos da infância, adolescência, mocidade, mulheres ou dos homens. Temos pessoas de todas as idades em nossa congregação – homens, mulheres, crianças e jovens vão se convertendo dia a dia e se firmando na fé, aos poucos firmando compromisso com a igreja em obediência e amor ao Senhor da mesma. Nossos pastores demonstram amor aos pequeninos e aos grandes, procurando preparar a todos – solteiros ou casados, para participar da família da fé. Grupos se reúnem nos lares para instrução, comunhão, adoração e serviço a fim de trazer os indivíduos à maturidade no corpo de Cristo.

Estudando sobre o que significa estarmos “arraigados e alicerçados” em Cristo, uma coisa que ficou clara é que temos de entender e cumprir as razões bíblicas para cada atividade. Para isso, estamos estudando os dons espirituais e descobrindo qual nosso dom e como desempenhá-lo. A Bíblia tem diretrizes muito nítidas para o ministério feminino, especialmente nos escritos de Pedro e de Paulo no Novo Testamento. Pedro era casado, e em seu ministério (como a maioria dos apóstolos) fazia-se acompanhado de sua esposa (1Co 9.5) – daí sua sabedoria ao falar sobre os relacionamentos decorrentes da conversão: “Estáveis desgarrados como ovelhas; agora porém vos convertestes ao Pastor e Bispo de vossa alma (1Pe 2.25). Mulheres, sede vós a igualmente submissas...para que se ele ainda não obedece a palavra, seja ganho sem palavra alguma...(1Pe 3.1); Maridos, vós igualmente vivei a vida comum do lar com discernimento e consideração...” (1Pe 3.7).

Paulo, talvez, seria solteiro, ou viúvo, mas pelo mesmo Espírito Santo escreveu também com grande sensibilidade sobre os relacionamentos no lar e fora dele como a relação entre Cristo e sua igreja: “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (em seguida ele exemplifica com as esposas) “As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor (...) Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela... Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama” (Ef 5. 22,25, 28). O relacionamento entre os cônjuges é primordial e protótipo para os demais relacionamentos na igreja. Assim, para viver plenamente nossa feminilidade, após aprimorar nosso relacionamento com Deus (Mt 5.33), o primeiro aspecto a considerar será nosso relacionamento com o marido e com as outras pessoas que fazem parte da igreja. Queremos ser mulheres que auxiliem a igreja – de Gênesis até o Apocalipse, a função feminina é de auxiliadora idônea (far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea, adjutora que esteja como diante dele – Gn 2.18).

Nem todas as mulheres são casadas – aliás, ser mulher cristã inclui desde as meninas e moças a viúvas e mulheres que estão sozinhas por escolha ou pelas vicissitudes da vida – e nossa identidade como mulheres está em participar do corpo e noiva de Cristo – não em nosso relacionamento com homem algum. Vemos em Jesus Cristo que a pessoa solteira é inteira e íntegra – jamais identificada pelas pessoas a quem está ligada, mas pela Pessoa do Deus Conosco. Em todos os casos, nossa função, tanto na igreja quanto na vida familiar, é a de ajudar – e nossas ações devem sempre levar isso em conta. Daí a importância de qualquer atividade que tivermos não ser exclusivista, e sim, proativamente inclusiva. Na vida atarefada de hoje, temos pouco tempo livre e esse não deve ser dedicado a atividades em que nos afastemos da família, dos filhos, uns dos outros. Existem, sim, aspectos e interesses diferentes para homens e para mulheres – não alvos diferentes, mas perspectivas múltiplas e singulares que requerem comunhão diferenciada.

Uma igreja irmã resolveu essa questão fazendo as reuniões das mulheres e as dos homens simultaneamente – no caso dela, em casas próximas uma da outra, com temas de estudo interligados, com as perspectivas femininas vistas no estudo bíblico das mulheres e os de problemas e soluções dos homens a questões ligadas a sua condição masculina. A família sai juntos para o estudo bíblico e se divide para intensificar e praticar seu entendimento dos aspectos particulares a cada um. Interessante que um menino de uns nove anos tenha comentado para a avó: “Estou estudando o trecho para a reunião dos homens que vamos ter hoje à noite”. As crianças também são incluídas – valorizadas como participantes desse aprendizado.

Quando Paulo iniciou seus conselhos distintos para homens e mulheres, começou dizendo aos homens “Quero que os varões orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e animosidade” (1Tm 2.8). Muitas pessoas acham que a oração é atividade típica das mulheres – e temos visto na história da igreja que mulheres que oram têm visto grandes transformações. Mas Paulo enfatiza a necessidade dos homens se envolverem em oração, levantando mãos (os instrumentos de seu labor e labuta) santas, sem animosidade! Uma típica atitude ostensivamente masculina não poderá ser contraposta com descaso, ressentimento ou competição, mas terá de ser amparada pelo espírito manso e tranquilo que Deus requer de homens e de mulheres!

Logo após, Paulo dá alguns conselhos às mulheres que, de início, poderão parecer sexistas: “as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas). A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio” (1Tm 2.9-12). Por que é que ele começa este assunto falando de traje exterior? Não parece superficial? Por que enfatiza para as mulheres a recomendação de modéstia e bom senso, e vestes de boas obras e piedade? E como é que ele ordena que aprendamos em silêncio e não exerçamos autoridade ou ensinemos o marido na presença de outras pessoas?

Como mulheres do Século 21, temos a tendência de ser mestras – não aprendizes – ruidosas e autoritárias! Uma reflexão timoteana nos dará novas perspectivas sobre nosso ser e nosso fazer. Depois de nos “contrariar”, o apóstolo acrescenta que a mulher “será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso” (1Tm 2.15).

Hoje em dia as mulheres querem fazer nome por meio da autorrealização – não por sua “missão de mãe”— mas Cristo quer fazer de nós pessoas que cumpram a missão materna, quer tenhamos filhos de barriga quer os tenhamos do “Espírito,” como exemplos de doadoras de vida ou até sendo mentoras e instrutoras. Missão de mãe não é uma de ficar na cozinha, grávida, pilotando fogão. É gerar vida, parir vida como na figura de Paulo: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós” (Gl 4.19). Toda mulher cristã em submissão a Cristo possui essa missão de mãe! Ah! irmãs amadas, mães, sem filhos, que os perderam, que os tem pequenos e talvez temam não saber educar: Deus nos dá uma missão preciosa e pródiga! aos presbíteros e em seguida aos diáconos, Paulo enfatiza que “da mesma sorte, quanto a mulheres (...) sejam respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo” (1Tm 3.11).

Em outro artigo quero delinear algumas estratégias práticas que nós mulheres podemos realizar, mas hoje fica a pergunta: o que quero ser como mulher cristã? Temos de entender quem somos e para que fomos criadas. Somente depois de entender o que seja refletir a glória de Deus como mulheres, poderemos começar a desempenhar alguns aspectos especiais de nosso trabalho, que não será em vão. Rebecca Jones lembra: “É somente o amor de Jesus, o amor do único perfeito e santo homem, que pode nos ensinar quem são verdadeiramente as mulheres. Ele nos compreende e nos ama melhor que ninguém. Deus criou as mulheres à sua imagem, e, enquanto as redime e renova, Jesus Cristo as recria à sua imagem”.[1]

Elizabeth Gomes



[1] JONES, Rebecca, A Mulher segundo a Bíblia, p. 100.

sexta-feira, outubro 05, 2012

COMUNICAÇÃO TRIVIAL OU PERENE?


 

Depois de ler um livro impactante que me faz pensar dez vezes antes de emitir um parecer, e lembrando as inúmeras vezes em que “morri pela boca” ao dizer a coisa errada em hora imprópria a pessoas amadas, estive navegando no facebook e observando as diferenças no que as pessoas postam. Algumas usam o “face” para emitir suas idéias políticas ou censurar a banalização que ocorre em plano geral. Outras o aproveitam como oportunidade para contar suas novidades na cozinha e mesa ou dicas de moda e design. Alguns pastores e estudiosos escrevem para convencer os outros que suas idéias são as melhores, as únicas bíblicas, academicamente sensatas ou teologicamente corretas. Mães e avós recentes compartilham as fofuras de seus rebentos, e pais orgulhosos os prêmios atléticos ou acadêmicos de seus filhos. Algumas pessoas colecionam dizeres e fotos “bonitinhos”, “agradáveis”, angariando pontos para as fãs clicarem o “curtir”.

Confesso que “entrei” no facebook para encontrar amigos(as) e compartilhar idéias, visando especialmente oportunidade de tornar conhecidos nosso ministério e nossos livros. Descobri que essa comunicação é efetiva, rápida, de longo alcance – e super-superficial! Amigos, achei muitos, até quem antes não tinha grande amizade, e algumas grandes amigas de há muito perdidas.

Confesso que dou o “curtir” até mesmo doce apetitoso ou sugestão de sapato confortável e que não custe uma fortuna, ou dicas de onde arrumar livros gratuitos ou passagens mais econômicas. “Curto” todas as fotos de bebês e crianças de amigos, filhos, sobrinhos ou netos, e geralmente “curto” fotos de bichinhos de estimação – embora eu mesma não queira mais tê-los em casa. Descubro mudanças de profissão em algumas amigas: de médica para empresária, de enfermeira para fotógrafa; de aeromoça para psicóloga de agente de viagens para missionária; de dentista para advogada; e um ex-pastor agora é dono de pousada.

Porém, se quero que minha comunicação virtual tenha repercussão eterna, tenho de me concentrar no foco e olhar para Jesus (Hb 12.2). Parodiando o título de um livro genial publicado por um amigo (O que Jesus beberia?) – o que Jesus diria nas redes sociais? Com certeza ele não descartaria as comunicações que as pessoas fazem sobre o que comem ou bebem (ele mesmo foi criticado por comer e beber com os pecadores), mas estaria mais atento ao que está por trás das comunicações escritas, mesmo as que usam emoticons, acrônimos ou siglas, como hehehe, kkkk, LOL e J, e as múltiplas citações heréticas de secularistas ateus ou panteístas, “evangelistas” aloprados como Osteen e Benny Hinn, e “feel good psychologies” centradas em “amar a mim mesmo” e “eu sou mais eu” em vez de “careço de Jesus”.

Às vezes minha própria tendência é de criticar os que pensam diferente de mim, e me calo quanto às suas confusões – quando na verdade, meu coração deveria chorar com os que choram, e ser instrumento da paz de Cristo. Jesus olhava a multidão confusa, com carências e querências maldirigidas, e via-a com compaixão, porque eram como “ovelhas sem pastor” (Mc 6.34).

 Alguns amigos se enveredaram por caminhos que levam de mal a pior, escolhendo relacionamentos tortos ou filosofias torpes – mas ainda assim, são amados pelo Criador, e eu devo usar os meios de comunicação para alcançar seus corações com a Boa Nova do perdão de um Salvador perfeito. Algumas amigas voltaram a doutrinas que aprisionam aqueles que já foram libertados por Jesus. Eu não fui chamada para criticá-las, mas para amá-las a ponto de elas voltarem ao primeiro amor, como diz o antigo corinho baseado em Ap 2.4. Muitos amigos e amigas que vendiam saúde e primavam por atletismo estão doentes: câncer, coração, até HIV acometem servos do Senhor! À medida que vamos envelhecendo, vamos pensando mais na efemeridade da vida que achávamos perene, e precisamos focar a vida eterna, que Jesus definiu assim: “Que te conheçam a ti, o único Deus Verdadeiro, e a Jesus  Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Percebi que o facebook não substitui outros meios de propaganda para meus serviços (como tradutora) ou divulgação dos livros que Lau e eu escrevemos (vaidade ou ministério?). As pessoas geralmente abrem apenas os comentários que têm seus próprios nomes como chamariz – afinal, todos nós somos incorrigíveis narcisistas. Aquilo que falam de nós – bem ou mal – é o que nos toca e nos move a agir, ou protestar, ou contemplar no espelho. E nisso não somos em nada como João Batista, que disse “Convém que ele cresça e eu diminua” (Jo 3.30).

A meta missionária de alcançar mulheres como eu com o amor de Jesus não pode ser de “torta no céu e tolices na terra” – por esta razão, preciso trazer o foco da comunicação ao trono de Cristo, e reconhecer que é só dele todo trabalho, todo mérito, e toda glória. Como é fácil ser “furtadora da glória” e com a cara mais lavada, procurar refletir a mim mesma em vez de resplandecer a glória de Cristo! Preciso que minhas irmãs e meus irmãos enviem “feedback” mais sério do que apenas “curtição”. Tem de comentar: “Está certa, irmã, e eu também luto com isso” e “Minha irmãzinha, pense biblica, e não bethmente sobre isso, e se arrependa!” Preciso constantemente derrubar os ídolos do próprio coração, em vez de apontar para as idolatrias tolas de outros irmãos. Acima de tudo, em vez de concentrar em meu facebook, tenho de reconhecer e assumir para mim: “Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”(2Co 4.6).

Elizabeth Gomes

domingo, setembro 30, 2012

PELE PARA FAZER CUÍCA


 
Clélio (nome fictício) veio a O Refúgio trazido de uma cidade vizinha. Não educado, 31 anos, mostrava a natureza do problema na pele afogueada, no cheiro acre e nas juntas inchadas. “Como é que soube a nosso respeito?” – perguntei, e a irmã atalhou: “Ele está bêbado que nem peru em véspera de natal”. O fato era que ele já vinha bebendo por vinte e dois anos e, os últimos dez, entrando e saindo de sanatórios. “Então, será possível ajudar? Podem fazê-lo para de beber?” – ela continuou. A sequidão da alma estava ali, implorando uma talagada de ajuda! Os familiares que cuidam de alcoólicos sofrem ressacas de desespero e mostram síndromes de abstinência de esperança como se fossem eles os escravos da garrafa! Bebem de um cálice de ira que jamais se esvazia e que nunca satisfaz.

Clélio dormiu o resto do dia e a noite toda. No dia seguinte, estava agitado e às voltas como animal enjaulado. Queria conversar, mas, tão logo nos assentamos em um banco de pau, sob as árvores à frente da casa, ele ora era tomado de choro ora de esquecimento. “Como eu poderia penetrar esse peito e alcançar esse coração curtido de álcool e de desgosto?” – pensei. Sobretudo, era difícil manter a atenção na pessoa e na situação, quando as palavras desencontram os gestos. Parecia um jogo de esconde-esconde: agora você me vê, agora não.

Na segunda noite, as coisas explodiram. Foi um pesadelo daqueles de que a gente acorda de susto e de peito arfando. Clélio, aos gritos, rodava no quarto e lançava objetos contra as paredes grossas do casarão antigo. Ao chegar à porta rústica e de gonzos e ferrolho de ferro, vi pelas frestas que ele tinha o cabo do machado erguido à frente e ao alto da cabeça, mãos na extremidade e junto do olho do ferro, pronto para deslizar e rachar a madeira. “Clélio – procurei manter a voz segura e calma – é o pastor. Lembra de mim?” Não estava seguro de que me identificaria, e nem estava calmo. “Sei quem é...” – ele gritou de volta. – “É o homem que vai me ajudar!” “Abre a porta. Vamos conversar.” “Com eles não tem conversa.” “Eles quem?” “Estão querendo tirar a pele da minha mãe para fazer cuíca!” Gastamos o restante da noite, conversando, do lado de fora da casa, no escuro. Clélio ia e vinha, da prostração à alucinação; apontava para as sombras das árvores, e repetia: “Lá vêm! Olhe! Estão chegando... já pegaram minha mãe! Não!”

A cuíca, na mão de um bom tocador, ronca, geme, ri e chora, e quase fala, marcando a cadência do samba. Na terra da minha infância, quando as festas do natal chegavam ao fim, crianças e donas de casa partiam para recolher os gatos, se não, “vira coro de cuíca”. Eu podia sentir o terror de Clélio, impotente para salvar a mãe de virar marcação de enredo no meio da rua. Ele estava totalmente embebido da situação. Percebia, via, pensava, concluía, sentia e se movia no drama pesadelo – e ele estava acordado! Estava?

O álcool altera o estado psicológico de uma pessoa de maneiras estranhas. Uma pequena quantidade reduz a inibição dos impulsos e, por algum tempo, poderá “elevar o espírito”, mas, na verdade, o álcool é um depressivo. Por isso é que a “alegria do copo” deixa a pessoa com aquele ar “bobo alegre” e, depois, rouba-lhe a alegria e deixa na alma um vazio que, ela acha, só será preenchido com mais um copo.

O que é que acontecia com o Clélio? Talvez, tivesse começado a beber para se sentir melhor, superar uma amargura, ira, ou apenas para lidar com uma inabilidade social. Qualquer que tenha sido a razão, ele se sentiu melhor depois de um gole – provavelmente, o mesmo efeito do ansiolítico ministrado no sanatório, da primeira vez que ele “deu uma de louco”. De início, ficava eufórico, até que a bebedeira progrediu para os estados de enevoamento, torpor e, mais tarde, de perda de consciência. “Já passei por todos os estágios” – ele disse – “alegre que nem macaco, bravo que nem cachorro, triste que nem sapo e largado que nem porco.”

De fato, parecia que Clélio mesmo já tinha sido esfolado e os sons que emitia eram os do ronco da cuíca. Não é nada fácil conversar com quem já perdeu as esperanças, ou melhor, com quem põe toda a esperança na próxima rodada. Um bom tocador tira música da cuíca, mas não tem conversa: cuíca “fala” e faz a gente sentir, ainda que o artista se cale quanto aos próprios sentimentos. Você já experimentou falar com uma cuíca? Foi assim que me senti, tentando conversar com Clélio. No entanto, eu estaria bêbado de ceticismo, se perdesse a esperança de varar a pele curtida da sua condição, para atingir a haste da miserabilidade da sua alma chorosa. Certamente, Clélio tinha um problema de apresentação com o álcool, mas, debaixo da pele, dentro do peito macilento, o ronco do coração era o problema verdadeiro: bêbados estão, mas não de vinho; andam cambaleando, mas não de bebida forte (Isaías 29.9).

 Clélio era dependente do álcool, mas seria esse o seu problema? Certamente, era um deles. Entretanto, não era o problema básico. Havia mais sob a pele macilenta que somente poderia ser acessado mediante adequado conhecimento dos diversos elementos envolvidos. Para isso, a Palavra de Deus fornece uma grade de escrutínio. Ele atravessou os anos, crendo que havia achado a fonte de satisfação para as suas necessidades. Estava triste? Bebia para se alegrar. Estava alegre? Bebia para comemorar. Culpado? Bebia para esquecer. Bebia até dormir, para acordar e, de novo, beber até que confundisse a noite com o dia. A tolerância desenvolvida dava-lhe a impressão de que o organismo funcionava bem com o álcool no sangue. Depois de descobrir que a bebida relaxava o corpo, aumentava a autoconfiança e minorava a dor, Clélio aumentou o consumo. “Às vezes, me dá um branco na cabeça” – ele disse – “e sequer me lembro do que fiz na última noite”. A família havia tentado de tudo. Internações sob modelo médico, tratamentos psicológicos de contenção, aversão, reuniões e apoio, até então, não haviam dado certo. Havia algo sendo esquecido: o verdadeiro problema. O problema humano. Pessoas desejam, respeitam, abominam e temem o álcool, mas não o compreendem exatamente. O que precisa ser bem entendido é que, antes de ser a causa de um problema, as drogas são sintomas do problema. Muitas pessoas pretendem ignorar o fato de que alcoolismo é, em última instância, um problema do coração, não somente um comportamento externo; e santidade é resultado de arrependimento e fé, não simplesmente de abstinência.

Ninguém ainda havia levado em conta, e nem mesmo poderia sem o conhecimento da graça, que aquele homem – rosáceo e rescendendo a restilo de cana, magro como pau de cerca e balofo como esponja encharcada – fosse uma criatura de Deus, feita para refletir o brilho do seu caráter (a todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória, e que formei, e fiz; Isaías 43.7).  Nem mesmo Clélio, no espelho, podia ver dentro da pele o homem que deveria ser. Experimentava a existência em um circulo de morte, mundo afora e no interior (pois todos pecaram e carecem da glória de Deus; Romanos 3.23). Não podia ver porque tinha os olhos toldados para uma vida além do imenso bar em que uns bebem e outros servem a bebida. Como é que pessoas embriagadas de pensamentos e atos inglórios poderiam ajudar aos que creram nelas e beberam de suas fontes? (Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas; Jeremias 2.13). Nem Clélio nem parentes nem amigos nem seus ajudadores jamais consideraram que o cálice de pinga teria de ser retirado do coração, e que isso só poderia ser feito pelo único que sorveu o cálice da nossa condenação para nos dar a beber do cálice da sua comunhão. (Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo; 1Coríntios 10.16)?

Havia tempos de completo abandono à bebida, com poucas pausas de alguns dias e com sofridas “ressacas”. Por mais de duas décadas, ele viu a mãe e a irmã irem dos rogos ao choro, de promessas a iras, até que a vida familiar foi destruída e reorganizada em torno do seu problema. A preguiçosa dependência contribuiu para a dissolução do seu caráter. Mentia, roubava, fez uma porção de inimigos – até que, um dia, nada mais restou de valor em sua vida.

Clélio não conseguia manter uma conversa coerente. Alucinações lhe assomavam mesmo quando “sóbrio”. Não era uma questão de quanto bebia. Uns goles eram suficientes para lhe trazer ilusões, como ver tartarugas dançando no balcão, ou vacas aladas do tamanho de gatos agarradas aos lustres, no teto. O que lhe ia na mente? Como acessar e prover para as suas necessidades? Estaria apto a entender minhas palavras? Em orações, pedia a Deus que me orientasse e provesse um caminho para penetrar a nebulosidade do seu coração. Estava certo de que somente o espírito de um homem sabe as coisas do próprio homem, e o Espírito de Deus que nele age (cf. 1Coríntios 2.11-12).  Da mesma forma, confiava na promessa de que há um caminho santo pelo qual não passam os imundos, mas que, havendo purificação, quem quer que por ele caminhe não errará, nem mesmo o louco (Isaías 35.8).

Clélio trazia consigo toda sorte de problemas físicos. O menor deles eram os pés com perfurações devidas à falta de sanguificação. Havia desenvolvido cirrose, enfisema pulmonar, dilatação do coração, além do fato de seus problemas orgânicos terem-lhe causado disfunções cerebrais. Graças a Deus, Clélio não parecia ter sido afetado em todas as áreas do corpo – mas só Deus sabia quanto teria sido afetado no corpo e na alma. Pela mesma graça, Clélio não estava além do alcance da comunicação. À medida que o tempo passava, ele se mostrava mais capaz para entender as coisas e reagir a elas em termos mais tangíveis. Ele diria, por exemplo: “Eu sou um homem bom... Não sei porque eu bebo... Eu... eu... Olhe essa mangas aos pés das árvores... elas... hã... Tenho saudade de casa...” Obviamente, ele estava alcançando o mundo exterior – indo além de sua própria pele. Mas não parava aí. Suas melhores condições para apreensão de tempo e circunstâncias se mostravam durante os períodos de adoração e louvor. Ele pedia que cantássemos um dado hino, e, depois, dizia: “Podem orar por mim?”

Um dia, em sua primeira semana em O Refúgio, depois de sofrer as alucinações com a cuíca, Clélio não me reconheceu. Ele entrava em casa no mesmo instante que eu saia pela porta: “Quem é você?” – havia pânico em sua voz. Fui a única pessoa que ele admitiu em seu quarto durante as alucinações provocadas pela abstinência do álcool. Como não me reconhecia? “Você está bem?” – a pergunta era retórica – “Sou o pastor Lau, você se lembra?” “Quem é você?” – ele estava realmente transtornado com a situação. Horas mais tarde, Clélio era outra pessoa. Veio a mim, chamou-me pelo nome, sem jamais mencionar o lapso de memória.

Nos catorze dias que Clélio passou conosco, testemunhamos todas as faces de que ela havia falado: macaco, cão, sapo e porco. Acaso não vemos essas mesmas faces em todo pecado – e uma dúzia de outras faces? A menos que alguém seja convencido pelo Espírito todos nós, quer bêbados de pecado quer renovados dele, jamais poderemos entender a insídia do pecado. Contudo, uma vez que reconheçamos na Palavra de Deus que a raiz do problema não está naquilo que entra pela boca, mas aquilo que flui do coração (Provérbios 4.23) – então, abriremos as cortinas do grande mistério revelado. Como Paulo disse, não deveríamos nos embriagar com vinho, mas sermos tomados pelo Espírito, mudando nossa maneira de pensar e falar (Efésios 4).

Era disso que Clélio precisa saber, e saber além da compreensão humana, em termos de compreensão espiritual: que o álcool não era um libertador, mas um senhor de escravos. Observe por exemplo, como Paulo se interpôs na “bebedeira” de Onésimo e de Filemom. Havia um escravo, Onésimo, preso de todo tipo de pensamento e ação dirigido a uma liberdade pessoal. Tanto se devotou ao deus-liberdade que se tornou bêbado dos próprios desejos. O coração obcecado obrigava o corpo à miséria do que seriam suas riquezas. Logo, possivelmente, apropriou-se de bens que não eram seus e fugiu do seu mestre. Filemom, um cristão, senhor de escravos, estaria bêbado de frustração. Desejoso de senhorio, tinha o coração tomado de pensamentos a respeito de Filemom. Algo mais ou menos assim: “Aquele a quem eu dei de comer...”, ou “ele me roubou...” ou ainda, “esse ingrato... eu era bom para ele”. Somente Deus sabia de sua bebedeira de justiça (sempre autojustiça!) resultantes em suas mãos, sentida na pele. Como foi que Paulo lidou com os dois? Foi como dizer: Não se embriaguem com desejos do coração, os quais transparecem na pele através do comportamento de cada um. Antes, ponham para fora toda espécie de “espírito” (como eflúvios alcoólicos) tanto da “liberdade” como do “poder”, e ponham para dentro o dom do Espírito de Deus, o qual é selo dos Filhos de Deus e irmãos entre si, em Cristo.

Ah! Se apenas Clélio pudesse ver seu desejo do coração, de libertação do jugo da pobreza, da insignificância, da inabilidade para se relacionar com pessoas, e sua sede para “dar o troco” à monstruosidade que lhe fora perpetrada e que o formara em quem ele pensava ser... Se apenas ele visse que os próprios desejos do coração eram grilhões da mesma escravidão, e sua condenação... Mas, como dizer-lhe? Certamente, como Paulo fez: abrir-lhe os horizontes para contemplar o bem maior, mais alto, profundo e extenso, do amor de Deus (cf. Efésios 3.14-21)!

Teria de mostrar-lhe o quadro do arrependimento e fé a fim de dar-lhes as formas, as cores e a impressão de como Cristo poderia redimi-lo efetivamente. Assim, ele teria de entender que a redenção de Cristo é diferente das redenções propostas pelo mundo. Que não é como o círculo vicioso do alcoolismo, em que cada tentativa de libertação afunda mais na escravidão de um senhor pior e em que cada tentativa de autojustificação resulta em maior injustiça. Ele teria de ouvir e crer na redenção que promove o homem a um alto nível de relacionamento com Deus e com o próximo. Mas como?

A irmã de Clélio veio pela manhã, e simplesmente disse: “Prefiro ver meu irmão bêbado do que como um crente”.
 
Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, setembro 26, 2012

CARATER, PESSOA E PERSONAGEM



Caráter, no Aurélio, inclui o conjunto de qualidades de um indivíduo (boas ou más) que determinam sua conduta e concepção moral, firmeza e coerência de atitudes, domínio de si. Já as pessoas de língua inglesa, além dessas qualidades de conduta e concepção, vêem o caráter de forma mais lassa – a personagem de uma história ou peça teatral é sua character; e sobre alguém de índole ou atitude jocosa fala-se “He’s quite a character” – com sentido totalmente diferente de “He is a person of character and integrity”.

Estive pensando no que forma o caráter de uma pessoa e como as personagens de meus contos, por exemplo, precisam ser construídos para ser não apenas verossímeis, mas também verdadeiros. Quando o cristão escreve, é necessário que construa um pensamento que revele algo verdadeiro – mesmo quando escrevendo ficção – e ilumine e norteie a vida do leitor, comunicando graça e verdade. Pelo menos, é isso que idealizo ao pensar nas pessoas e personalidades que invento – para que edifiquem as pessoas verdadeiras que lêem, a fim de que a Jesus seja, em primeira e última instância, a Pessoa glorificada. Parece complicado – e é! Na verdade, muitas vezes, nós aprendizes de escritor não chegamos a entender nossa própria pessoa, quanto menos compreender o que seja um caráter coerente de fala (ou escrita) e vida.

O único jeito de começar a entender isso é compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.18). O que essa profunda verdade teológica tem a ver com uma verdade da comunicação escrita? Cremos em um Deus que é Verbo e Vida (Jo 1.1,4) e não dá para separar o que comunicamos daquilo que vivemos; assim como não podemos separar o Verbo de Deus, Jesus, da Vida que está nele. A comunicação de palavra e de procedimento em Jesus é multifacetada – inclui largura, altura, profundidade e todos os demais aspectos, excedendo todo o entendimento, para que sejamos tomados de toda a plenitude de Deus! Não pode ser apenas uma parcela do pensamento – é toda a vida para a vida toda!

Ao mesmo tempo em que esse ideal apresenta múltiplas complexidades, é também simples como pão e água – como as metáforas mais simples que Jesus usou para comunicar às pessoas simples de vidas complicadas pelo pecado: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6.35) e “tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (Jo 4.10).

O compilador de Provérbios engloba em sua introdução os diversos aspectos da sabedoria e da comunicação inteligente:

Para aprender a sabedoria e o ensino; para entender as palavras de inteligência; para obter o ensino do bom proceder, a justiça, o juízo e a eqüidade; para dar aos simples prudência e aos jovens, conhecimento e bom siso. Ouça o sábio e cresça em prudência; e o instruído adquira habilidade para entender provérbios e parábolas, as palavras e enigmas dos sábios. O temor do Senhor é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino. Filho meu, ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe. Porque serão diadema de graça para a tua cabeça e colares, para o teu pescoço (Pv 1.2-9).

Parece-me esta uma descrição dinâmica de como o caráter é formado e firmado! O mesmo Koheleth, o pregador e sábio Salomão, descreveu a busca por palavras que exprimam caráter, concluindo que “debaixo do sol – quando visamos apenas o que é terreno – a produção intelectual é enfado da carne”. Mas quando as palavras e os pensamentos são conforme a Pessoa que inventou comunicação e comunhão, elas valem e transformam.

Procurou o Pregador achar palavras agradáveis e escrever com retidão palavras de verdade. As palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados as sentenças coligidas, dadas pelo único Pastor. Demais, filho meu, atenta: não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne. De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más (Ec 12.10-14).

O próprio Salomão foi uma pessoa e uma personagem de múltiplas camadas, que conheceu a sabedoria mais que outro qualquer da história humana, teve inteligência e resultados ilimitados de suas atividades intelectuais – no entanto, faltou-lhe caráter na hora de aplicar à vida conjugal e, enfim, à vida comum em seus mais diversos aspectos.

As palavras dos sábios são aguilhões, são lanças – jogadas para um objetivo que está mais longe do escritor – assim também desejamos alcançar além de nós mesmos e de nosso círculo restrito de conhecidos. Porém, são também pregos bem firmados – fincam fundo, unem e coadunem “as sentenças coligidas dadas pelo único Pastor”. Em essência, quem nos faz escrever é Deus, que apascenta-nos e dá-nos música e movimento. Não somos inspirados da mesma forma que a inspiração da Escritura – que é toda e única (2Tm 3.16). Porém, o que nos move a escrever, a comunicar – é o Criador de toda criatividade!

Não é fácil escrever – exige planejamento, elaboração e buriladas constantes. Mas também não é difícil a comunicação – exige a simplicidade da graça, verdade, sintonia com o Autor da vida e consumador da fé.

Elizabeth Gomes