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segunda-feira, julho 15, 2013

ESQUERDA DIREITA, ESQUERDA, DIREITA


 
A cantiga ia assim: “Marcha soldado, cabeça de papel...” Tem crente, agora, cantando assim: “Marcha cristão, cabeça de papel; quem não for à parada também não vai pro céu”. Parece coisa de criança – e é! Em um contexto que parece diferente, mas que de fato tem tudo a ver com a política dos homens e a política Deus, Paulo disse: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino” (1Co 13.11). Tem tudo a ver, digo, porque os crentes corintianos estavam travando disputas políticas segundo a visão dos homens. Os temas da correspondência de Paulo batem nos mais diversos pontos: sabedoria vs. poder, pecado e punição vs. disciplina bíblica (isto é, ensino, correção, repreensão e reeducação – ou corte), marido vs. esposa, sexo no casamento vs. satisfação carnal, cerimônia de comunhão com Cristo vs. sociabilidade degenerada, e princípios de fé, verdade e amor vs. jogos de palavras.

O evangelicalismo de agora (diferente da teologia reformada) confunde muito fé e obras, justificação e santificação com reivindicação de justiça humana por meio de virtudes e leis humanas, e missão de Deus com missão da igreja. Isso ocorre em quase todos os termos da experiência cristã, da esfera da política governamental à esfera da política eclesiástica. Só como exemplo, quando menino ouvi que eu não podia dançar porque era protestante. Depois, aprendi que os missionários vindos do leste norte-americano tinham a dança como pecado, ao passo que, os do oeste, não podendo ceder à menção bíblica à dança correta como expressão da alegria do Senhor, fizeram um conchavo político e “inventaram” as brincadeiras de mocidade. Para dentro e para fora, É ladrão, sim, é ladrão, e a portuguesa Comadre, ó minha comadre, aí eu gosto da sua pequena (os mais jovens que me perdoem o anacronismo), tudo isso era dança de quadrilha.

De carona na dança, lendo e ouvindo falar do “dois pra lá, dois pra cá” do bolero político da esquerda e direita, um cristão honesto poderá se sentir como velho no meio do salão tentando mimicar coisa moderna. E olha que a figura não sugere centro, não, exceto que, com os braços descontrolados e os quadris torcidos desmentindo o acerto do movimento deixa-o como que desnudo no meio do salão.

Sem jeito, meio perdidos nos salões políticos do século, muitos cristãos se apaixonam, uns pelos destros, outros pelos canhotos, e seguem na contramão das paradas populares. Isso é relevante, especialmente hoje com a “descoberta” da manifestação popular, uma vez que, quer queira quer não, o crente não é um circunstante neutro na arena política. Como sal da terra e luz do mundo, ele precisa ter uma cosmovisão bíblica e uma palavra profética.

Primeiro a gente tem de entender a origem dos termos. Na Revolução Francesa, 1789, a Assembleia Nacional se dividiu entre apoiadores do rei à direita e os da revolução à esquerda. Hoje, popularizados, os termos pretendem descrever a esquerda como sendo formada de pessoas favoráveis ao “movimento” e, a direita, os defensores da “ordem”. Grosso modo, a direita seria composta de conservadores, meritocratas, capitalistas. A esquerda seria de progressistas, liberais, comunistas etc., e o centro, de moderados (sambando ora com a direita ora com a esquerda). É dislexia política mesmo! Sabe? É como o moço, no banco de trás do carro, dando direções ao motorista: “Vira pra lá”. “Pra lá onde?” “Direita” (ou esquerda); quando o carro ameaça a um dos lados, ele corrige: “A outra direita” (ou esquerda), e o motorista irritado, “Vê se fica centrado, meu!” Já viu isso? Esquerda ou direita de onde? Centro de quê?

É o seguinte: (1) o cristão crê que todas as coisas tem seu ponto de referência em Deus (teo-referência, segundo Davi Charles Gomes) de quem deriva toda autoridade; (2) em todas as coisas o cristão deve ser, pensar e agir de modo cristocêntrico, pois o Senhor está sempre presente em todos os afazeres dos homens; e (3) o cristão deve viver sob o controle do Espírito que aplica a Bíblia ao coração para testemunho da glória de Deus ao mundo. O princípio bíblico da oposição (luz é luz e treva é treva ou mal é mal e bem é bem) foi abandonado por nossos primeiros pais em função da síntese do pecado (mal com bem dá “bal” ou “mem”), e trouxe à baila o princípio da maldição, uma política de luta de poder: “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16). Nesse sentido, políticas de direita, esquerda e centro referem-se a posições opostas à referência em Deus, à centralidade de Cristo e à direção do Espírito na Palavra. Veja o texto bíblico:

Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nele com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam (Salmos 2.1-12). 

Segundo, a gente tem de entender o nosso momento. O mundo que viu a guerra fria vê agora uma coisa que não é fria nem quente. Certo que tanto a “direita” quanto a “esquerda”, sendo políticas humanistas, sempre colocaram o capital e o social como porta-estandartes, mudando somente o samba enredo. O que deu foi um Samba do crioulo doido: “Foi em Diamantina, / Onde nasceu JK, / Que a princesa Leopoldina / Arresolveu se casá / Mas Chica da Silva / Tinha outros pretendentes / E obrigou a princesa / A se casá com Tiradentes” – e termina: “O trem tá atrasado ou já passou” (Sergio Porto; Demônios da Garoa). Hoje, por força da incongruência do método dialético hegeliano – sempre há uma situação, a tese, que sofre a ação de forças opostas, a antítese, que gera uma condição melhor que a anterior, a síntese – imposta à quase totalidade do pensamento moderno, a direita capitalista incorporou doutrinas socialistas e o socialismo foi levado a se utilizar do capitalismo. Não tinha outro jeito. No entanto, não se engane, pois, como dizem patriotas ou companheiros, a luta continua, e o povo na estação nem se dá conta dos trens que prosseguem em trilhos e direções diferentes: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6) e “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo” (Ef 2.1-2).

Terceiro, a gente tem de entender que o sistema da fé cristã tem perspectivas claras de justiça, política, relações individuais e sociais, economia, transformação e daí em diante – e esse sistema, sendo uma cosmovisão após a visão de Deus, isto é, de uma consciência divinamente despertada e iluminada, jamais é de esquerda, direita ou centro, mas vem do alto. O conceito geral dessa política do alto, com certeza, continuará deixando o cristão em uma posição desconfortável. Ele é nascido de novo pela ação transformadora do Espírito e sua vida é uma de transformação. Na verdade, se ele se conformar com este mundo, não provará a boa, perfeita e agradável vontade de Deus nem verá a si mesmo e à sociedade tal como Deus quer que ele veja (ver Rm 12.1-4ss). Entretanto, essa inconformidade não poderá ser manifestada como revolução, “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar” (1Sm 15.23). Em outras palavras, a revolução é uma tentativa “mágica” para mudar o mundo por meio de abandonar a confiança no controle, presença e autoridade de Deus, adorando e servindo a poderes humanos para obter transformação. Como, então, viver a justiça de Deus em um mundo decaído? Como viver em um mundo do qual fomos chamados e ao qual fomos enviados para proclamar a redenção por meio da proclamação verbal e do testemunho da vida? Como ser sal da terra e luz do mundo? O próprio Senhor instrui quanto à prioridade do caráter cristão como base para a ação política no mundo, em Mateus 5.1-18: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo”:

1. V. 3: Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus. (Os princípios da política do reino de Deus somente são vistos e seguidos quando vêm de Deus e são recebidos na Palavra como vindos do alto e não procedentes da “sabedoria humana”.)

2. V. 4: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. (O cristão é sensível às necessidades humanas e espera somente em Deus para satisfação de seus desejos e necessidades.)

3. V. 5: Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. (Mansidão não significa fraqueza, mas a força de caráter que espera no poder de Deus para viver o reino de Deus na terra. Implica em viver o cumprimento dos próprios deveres e lutar pelos direitos do próximo.)

4. V. 6: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. (Revoltas não satisfazem a alma, pois a ira é como um saco sem fundo que sempre quer mais; no entanto, o cristão anseia todo o bem que há em Cristo como bênção também para a vida que é agora; ver Fm 1.6.)

5. V. 7: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (Toda ação cristã deve de ser motivada pelo coração de Deus, e não pela revolta humana, a fim de produzir resultados segundo o coração de Deus.)

6. V. 8: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. (A única maneira de conseguir a transformação necessária para viver e pregar a justiça e o direito de Deus é por meio da confissão feita em fé diante de Deus mediante a obra de Cristo que nos purifica e habilita para cumprir a missão de Deus entre os homens.)

7. V. 9: Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. (O mundo só nos verá como filhos de Deus se nossa vida e palavra forem de paz e não de guerra.)

8. V.10-12: Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (A disposição do cristão não é uma de ser aceito pelo mundo quando luta em seu favor, mas de aceitar a posição de Cristo, de ser alvo de contradição – ver Lc 2.34 – certo de que a recompensa está no céu.)

9. Vv. 13-16: Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (A meta do cristão é refletir a glória de Deus em seu caráter, como sal da terra e luz do mundo; não é uma ação opcional, mas sim fruto do Espírito que abençoa o lugar em que sua árvore está plantada; ver Sl 1.)

10. V. 17,18: Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. (Assim como o Senhor Jesus Cristo cumpriu plenamente a lei em nosso lugar e em nosso favor, assim também o cristão, habilitado pelo Espírito, obedece graciosamente a Palavra de Deus para que sua vida e suas palavras sejam vistas e ouvidas como testemunhos de uma verdade que não passa. Os movimentos humanistas de direita, esquerda e centro podem passar, mas o ponto de referência em Deus, a centralidade de Cristo e o selo do Espírito Santo no homem interior e em suas relações com o próximo e o mundo, estes sempre terão valor eterno.

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, novembro 23, 2012

MENTALIDADE DE TELEGRAMA PT CURTÍSSIMA PT


 
Quem sugeriu foi o Firmo Malasartes vg primo do Pedro pt Contou que recebeu um e-mail com um link (httpptpt//ibuikyptblogspotptcomptbr/2008/11/crimes-contra-honra-no-dia-dia-quem-porpthtml ) que acessou e ficou pasmo ptpt se a gente chamar alguém por aquilo que ele é vg é crime de preconceito pt Em plena era da internet vamos ter de chamar a coitadinha de telegrama a fim de não incorrer em crime de preconceito virtual pt

Não parece coisa de sábio? Quero dizer, chamar a pessoa pelo contrário do que ela é? Certo que não é coisa nova; os jornais escritos e falados da bola plim plim já vinham fazendo isso há algum tempo em termos de notícias de agenda política: “A turma da terra atacou os sem terra da faixa só porque estes estavam comemorando São Yahya com cem foguetes terra terra por dia”. Só que agora é pior, pois, se chamar alguém de honesto é capaz de ir parar na hospedaria de vitimizados; se disser a alguém que ele é aquilo ou aquela, o poder desce de chicote; pior ainda, se chamar alguém de conceituoso prévio, aí, não tem jeito, a que dá leite foi pro brejo.

Parece-me que essa fobofobia vai longe. O povo está ficando cada dia mais instruído, como se vê do exemplo recente – o Supremo manda prender os honestos e o povo ainda vota neles. Que mais podemos esperar? Já pensou, que dizer que somos protestantes reformados chiítas (viu como escapei do crime?) é xingamento, mas se for o próprio protestando, é elogio?

E o que dizer do clima de paz e segurança que está aí? Alguém vai ter de processar a Bíblia, pois ela diz sem nenhum medo: Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo (Isaías 5.20)!

Saúde pt

Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, junho 13, 2011

GOLPE, REVOLUÇÕES, FERIDAS E PAZ


NOTA: Quando junto com papai preparava este texto dele para publicação no coramdeocomentário, decidi que não poderia deixar de usar da prerrogativa de uma breve introdução editorial. O texto me trouxe lágrimas aos olhos... É meu pai, falando de meu pai e de uma história da qual ele não gosta muito de falar.  Não é meu pai falando apenas das coisas que Rev. Wadislau fala – coisas como Bíblia, teologia, igreja, a igreja no mundo e coisas do coração...  Esse é ele falando de dor, não só a dor já no passado, mas a dor de cicatrizes que ainda marcam seu corpo e seu coração.  Marcam também o meu, pois vivi parte desta história, ainda que nascido depois que a graça já havia alcançado o Lau, no acampamento Palavra da Vida, em 1964. 

Papai não diria isto, pois faz questão que esse texto não contenha suas reivindicações pessoais, mas eu gostaria de ver os documentos referentes à sua prisão, à tortura, os arquivos do DOPS e o escambau.  Oro por aqueles que denunciaram, prenderam e torturaram meu pai – até mesmo os verdugos do pau-de-arara... Oro também pelos seus antigos companheiros de luta – até mesmo os traíras que o deixaram para trás... Aprendi que posso orar por eles porque vi a graça de Deus que fez de meu pai o companheiro meigo e bondoso que hoje tenho na casa ao lado, na igreja e no coração.  Hoje, oro junto com ele pelo Brasil, na esperança de que o testemunho de nossos irmãos em Cristo ainda faça dele uma nação mais cheia daquela maravilhosa graça comum que Deus derrama sobre justos e injustos.

Davi Charles Gomes
Filho, irmão e amigo

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"Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei." reza o princípio maior sobre minha vida (1Pe 2.17). Por isso, Senador Sarney, temo a Deus e trato-o, aqui, com honra de presidente. No entanto, por amor aos meus irmãos pela adoção no sangue de Cristo e aos do sangue brasileiro, não posso concordar com feridas mal tratadas. Certamente, uma das causas de vivermos tanta miséria e violência, e de experimentarmos frustração na aplicação de medidas corretivas, vem de um tipo cultural de politicagem e revisão histórica em que a impunidade é quase um hino nacional. A mesma lei maior, falando dessas causas e consequências, diz também: "Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo" (Is. 1.6).

Não sou de "esquerda", "direita" ou "centro", nem "pós" ou "neo" coisa nenhuma; muito menos, "neutro" ou "amorfo". Hoje, com 66 anos, mantenho uma cosmovisão cristã que me permite transparência e modéstia na guarda do meu coração. Nem sempre foi assim. Quando menino, entre dezoito e dezenove, minha polivisão era uma gangorra em parque de diversões. Livros da estante de meu pai mostravam-me um mundo constitucional, enquanto um homem de leis e alguns amigos preocupados me apresentavam livros de um mundo em revolução. Optei pela mocidade. O discurso de defesa de Fidel tomou o lugar da minha Bíblia. Não é preciso dizer, aqui, que a revolta já havia comprado meu coração a preço absurdo de inflado.

Foi no dia 1º de Abril de 64 que a mentira me pegou. Garoto, civil posto para ser poema de Bilac no Tiro de Guerra, fui arrancado de o lado de meus pais, da fortaleza protetora de minha casa. Cães e homens de farda verde e de farda preta violentaram meu mundo como quem dita a vida! A cela da cadeia substituiu minha sala de aula. Seis presos condenados por crimes de outra ordem ensinaram-me o que significava ser "preso político". Deixando de lado tapas e chutes regados com saliva e sanha, aprendi que "quantas" e "contras", ambos os lados viviam revoluções. Graças a Deus, um preso com uma Bíblia e um diretor de presídio com uma pistola vieram em meu socorro contra agentes sem nome, sem documento e sem esperança.

A mesma graça de Deus que abriu meus olhos brasileiros como abriu o Mar Vermelho para os hebreus, e que usou o preso crente e o delegado consciente, fez-me também conhecer a paz de Cristo paz com Deus e com os homens de boa vontade. Mudei. Passei a viver e a falar da esperança de um novo mundo sem revolta. Certamente, não porque temi a homens, mas por temor a Deus. Foi uma transformação sofrida, mais do que a de menino sendo aterrorizado com requintes de programa de TV moderno, instado a entregar qualquer um para que repetissem o delírio. A transformação de Cristo foi mais sofrida que as das revoluções sociais e violências individuais; teve traição, teve sangue, teve dor de ver o vergaste da mentira nas costas da realidade. Mas teve paz. Paz de ferida lavada, pensada, curada. As cicatrizes são provas de que sobrevivi.

Sete anos depois, já havia estudado a Palavra de Deus e coisas pertinentes à tarefa de ministro do Evangelho e cumpria meus deveres pastorais. Foi quando vi a igreja que visitava como pregador ser invadida por uma turba igual a que vira, antes, em casa. Fugi. Deixei mulher e filhos, a fim de buscar ajuda da sensatez. Entreguei-me a autoridade inteligente e manejei me safar de mais feridas brasileiras.

Aí, então, Senador com honra presidencial, é que eu pergunto. As feridas vão ficar aí? Mal lavadas? Purulentas? E olhe que não é só torturador que se pela de medo. Tem muita gente "boa" hoje, torturada, que se mela de medo que descubram a quem foi que entregou. Mas não tem nada não. Conto mais uma. Estava em um acampamento de jovens cristãos, e disse-lhes como o Senhor Jesus havia me tirado de propostas de lutas de poder inglórias, para os sofrimentos e glórias de sua luta. Logo depois, fui procurado por um senhor, uns quinze anos mais velho do que eu, que me mostrou uma fotografia. Custei a reconhecê-lo, tão mais novo no retrato. Mas quando vi em seus olhos a tristeza do passado e a esperança da alegria do presente no futuro de Cristo, eu soube o que fazer. Estreitei a mão do meu torturador e, juntos, limpamos a ferida.

Vamos lá, Senador Presidente! Cristo pode mudar sua visão sobre feridas e curas!







Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, dezembro 17, 2010

4/7, 16/12/10, 87%, 80%, 95%, +-2%; 9,1 (03), 8,9 (06), 7,9 (02). ENTENDEU?

Explico. Primeiro, o ibope de 4-7/12, divulgado em 16/12/10, mostra dados impressionantes sobre a popularidade do Presidente Lula, 87%, e do governo, 80%; a pesquisa afirma com precisão de mais ou menos 2% que garante 90% de confiança. Segundo, o censo escolar discorda da otimista avaliação oficial do governo, no item “educação”, e mostra que o número de alunos vem decaindo em dezenas nos últimos anos: de 9,5 milhões em 2003 e 8,9 milhões em 2006, para 7,9 em 2009.

Não, não estou misturando porcentagem com termos de grandeza numérica. A coisa é outra. O que me parece é que tanto número colocado dessa maneira dá a impressão de verdade e de realidade, quando, de fato, só serve para forçar o círculo vicioso da má informação e da má coleta de informação.

Confundiu mais? Explico. Primeiro, a coleta de dados não informa as localidades em que as tomadas foram feitas, e é sabido que, em termos de pensamento, nossa população não é uniformemente distribuída. Tem também a questão de que o pesquisador e a pergunta manipulam a resposta (até mesmo, o silêncio influência o pesquisado). Segundo, os números de alunos que atendem ou abandonam as escolas não são tão bem monitorados que permitam um balanço dessa precisão. Assim, alguns desses números são inexatos e, outros, apenas probabilísticos.

Por que essa consideração? Tem mais a ver com as aprovações e desaprovações do povo, seus métodos críticos e preferências, mais a ver com a mídia nascida desse povo e o círculo vicioso da crença/imaginação, do que com seus números. Uma boa ilustração do que seja esse círculo vicioso, é o dicionário, que define palavras, usando palavras. Assim, o povo mal escolado produz o noticiador e a notícia informa o povo. Aquilo em que essa maioria de 9,999% se apóia para opinar com 95% de certeza fica no ar, como em uma vasta memória virtual. É aquela coisa do “eles falaram”. “Quem?” “Eles, ué!”

O que faz girar essa roda é a paixão, que é o pensamento centrado no desejo; e desejo é coisa criada por necessidade; e necessidade, hoje, é criada pelo mercado e pelo consumo, oscilando entre o gosto pelo entretenimento (imperioso, se regrado) e o dever (não fosse esse dever requerido dos outros em função do nosso “jeitinho nacional”).

O cristão, pelo menos, poderia saber mais do que isso. Tiago, irmão de Jesus e autor da carta bíblica que leva seu nome (Tiago 1.9-27), quer que o cristão “seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”. É preciso notar que nosso povo anda irado, às vezes, sem saber por quê. Assim, não dá ouvidos à verdade e fala o que vem à cabeça. A injustiça que sente não tem nada a ver com a injustiça de opera. “O governo cobra muito imposto; desse jeito, eu não pago”, diz o dono do bar. “Nem eu”, diz o do outro lado do balcão. “Então, eu aumento o preço da pinga”, replica o esperto. (Obrigado, Chico, pela ilustração.) Vai daí, que impera a babel; a imaginação da notícia de jornal da manhã seguinte traz: Lula não conseguiu vencer a criminalidade: 50% dos que estavam um bar mataram os outros 50% (com 2% de variação para mais ou para menos. A arma do crime, pensa o leitor, é a injustiça social.

Tiago, entretanto, continua, dizendo que “a ira do homem não produz a justiça de Deus”, isto é, o sentimento de injustiça do homem não produz a verdadeira justiça do amor de Deus. Uma porcentagem de homens bons ou maus não rege os padrões de comportamento de uma sociedade. O que rege, na realidade, é a crença que cada indivíduo tem em relação a Deus. É claro que, para exatidão desse dado, temos de localizar a fonte da informação: a pessoa humana não é como era para ser, em função de a humanidade (em Adão) ter se rebelado contra Deus, estando, assim, carente do reflexo de seu caráter (Bíblia, Romanos 3.23). Do lado de lá da vida, cada um crê naquilo que percebe, e como não tem a luz do entendimento de Deus, imagina sombras da realidade e segue as próprias conclusões.

A proposta de Tiago é que o comportamento individual e coletivo seja despojado de impureza e maldade por meio do acolhimento da palavra de Deus, a fim de que verdade e justiça determinem o relacionamento freguês/proprietário e governo/povo. Sem essa palavra, não haverá conversa e tudo se resumirá a um “cada um por si e o diabo para todos”. Entretanto, há outra coisa: sozinho ou em turma ninguém muda a natureza. Para tirar a roupa das atuais condição e situação, somente com a interferência de Deus. É isso que está escrito em outro lugar da Bíblia: assim “aprendestes a Cristo... no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo... as [paixões] do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento” (Efésios 4.20b-23).

Com a palavra de Deus implantada na alma, será possível mudar a natureza humana e o comportamento do indivíduo e da sociedade. Mas, olhe: Tiago adverte que, para ser efetiva, essa palavra tem de ser ouvida e praticada. Caso contrário, será como alguém que se olha no espelho e, depois, indo embora, esquece-se de como era feio. Aquele que considera a lei da liberdade (liberdade com responsabilidade), diz ele “será bem-aventurado no que realizar. Especialmente, dominará o ouvido e a língua, e não se deixará levar pelo engano do próprio coração, vivendo uma religião que não é vã. “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

Se for assim, não creio que 50% das pessoas ou sociedade vivam nessa paz, mas se 10% vivessem, 100% viveriam melhor. A aprovação ou reprovação do Presidente ou do governo seria feita com honestidade por uma minoria que constrangeria a maioria ao acato às autoridades civis, que são constituídas por Deus. A escola seria uma atração exercida por motivos justos, do conhecimento e do preparo, regulada por méritos e não por medidas coercitivas, e a comunicação seria clara, sadia e proveitosa.
Wadislau Martins Gomes