segunda-feira, julho 15, 2013

ESQUERDA DIREITA, ESQUERDA, DIREITA


 
A cantiga ia assim: “Marcha soldado, cabeça de papel...” Tem crente, agora, cantando assim: “Marcha cristão, cabeça de papel; quem não for à parada também não vai pro céu”. Parece coisa de criança – e é! Em um contexto que parece diferente, mas que de fato tem tudo a ver com a política dos homens e a política Deus, Paulo disse: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino” (1Co 13.11). Tem tudo a ver, digo, porque os crentes corintianos estavam travando disputas políticas segundo a visão dos homens. Os temas da correspondência de Paulo batem nos mais diversos pontos: sabedoria vs. poder, pecado e punição vs. disciplina bíblica (isto é, ensino, correção, repreensão e reeducação – ou corte), marido vs. esposa, sexo no casamento vs. satisfação carnal, cerimônia de comunhão com Cristo vs. sociabilidade degenerada, e princípios de fé, verdade e amor vs. jogos de palavras.

O evangelicalismo de agora (diferente da teologia reformada) confunde muito fé e obras, justificação e santificação com reivindicação de justiça humana por meio de virtudes e leis humanas, e missão de Deus com missão da igreja. Isso ocorre em quase todos os termos da experiência cristã, da esfera da política governamental à esfera da política eclesiástica. Só como exemplo, quando menino ouvi que eu não podia dançar porque era protestante. Depois, aprendi que os missionários vindos do leste norte-americano tinham a dança como pecado, ao passo que, os do oeste, não podendo ceder à menção bíblica à dança correta como expressão da alegria do Senhor, fizeram um conchavo político e “inventaram” as brincadeiras de mocidade. Para dentro e para fora, É ladrão, sim, é ladrão, e a portuguesa Comadre, ó minha comadre, aí eu gosto da sua pequena (os mais jovens que me perdoem o anacronismo), tudo isso era dança de quadrilha.

De carona na dança, lendo e ouvindo falar do “dois pra lá, dois pra cá” do bolero político da esquerda e direita, um cristão honesto poderá se sentir como velho no meio do salão tentando mimicar coisa moderna. E olha que a figura não sugere centro, não, exceto que, com os braços descontrolados e os quadris torcidos desmentindo o acerto do movimento deixa-o como que desnudo no meio do salão.

Sem jeito, meio perdidos nos salões políticos do século, muitos cristãos se apaixonam, uns pelos destros, outros pelos canhotos, e seguem na contramão das paradas populares. Isso é relevante, especialmente hoje com a “descoberta” da manifestação popular, uma vez que, quer queira quer não, o crente não é um circunstante neutro na arena política. Como sal da terra e luz do mundo, ele precisa ter uma cosmovisão bíblica e uma palavra profética.

Primeiro a gente tem de entender a origem dos termos. Na Revolução Francesa, 1789, a Assembleia Nacional se dividiu entre apoiadores do rei à direita e os da revolução à esquerda. Hoje, popularizados, os termos pretendem descrever a esquerda como sendo formada de pessoas favoráveis ao “movimento” e, a direita, os defensores da “ordem”. Grosso modo, a direita seria composta de conservadores, meritocratas, capitalistas. A esquerda seria de progressistas, liberais, comunistas etc., e o centro, de moderados (sambando ora com a direita ora com a esquerda). É dislexia política mesmo! Sabe? É como o moço, no banco de trás do carro, dando direções ao motorista: “Vira pra lá”. “Pra lá onde?” “Direita” (ou esquerda); quando o carro ameaça a um dos lados, ele corrige: “A outra direita” (ou esquerda), e o motorista irritado, “Vê se fica centrado, meu!” Já viu isso? Esquerda ou direita de onde? Centro de quê?

É o seguinte: (1) o cristão crê que todas as coisas tem seu ponto de referência em Deus (teo-referência, segundo Davi Charles Gomes) de quem deriva toda autoridade; (2) em todas as coisas o cristão deve ser, pensar e agir de modo cristocêntrico, pois o Senhor está sempre presente em todos os afazeres dos homens; e (3) o cristão deve viver sob o controle do Espírito que aplica a Bíblia ao coração para testemunho da glória de Deus ao mundo. O princípio bíblico da oposição (luz é luz e treva é treva ou mal é mal e bem é bem) foi abandonado por nossos primeiros pais em função da síntese do pecado (mal com bem dá “bal” ou “mem”), e trouxe à baila o princípio da maldição, uma política de luta de poder: “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16). Nesse sentido, políticas de direita, esquerda e centro referem-se a posições opostas à referência em Deus, à centralidade de Cristo e à direção do Espírito na Palavra. Veja o texto bíblico:

Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nele com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam (Salmos 2.1-12). 

Segundo, a gente tem de entender o nosso momento. O mundo que viu a guerra fria vê agora uma coisa que não é fria nem quente. Certo que tanto a “direita” quanto a “esquerda”, sendo políticas humanistas, sempre colocaram o capital e o social como porta-estandartes, mudando somente o samba enredo. O que deu foi um Samba do crioulo doido: “Foi em Diamantina, / Onde nasceu JK, / Que a princesa Leopoldina / Arresolveu se casá / Mas Chica da Silva / Tinha outros pretendentes / E obrigou a princesa / A se casá com Tiradentes” – e termina: “O trem tá atrasado ou já passou” (Sergio Porto; Demônios da Garoa). Hoje, por força da incongruência do método dialético hegeliano – sempre há uma situação, a tese, que sofre a ação de forças opostas, a antítese, que gera uma condição melhor que a anterior, a síntese – imposta à quase totalidade do pensamento moderno, a direita capitalista incorporou doutrinas socialistas e o socialismo foi levado a se utilizar do capitalismo. Não tinha outro jeito. No entanto, não se engane, pois, como dizem patriotas ou companheiros, a luta continua, e o povo na estação nem se dá conta dos trens que prosseguem em trilhos e direções diferentes: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6) e “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo” (Ef 2.1-2).

Terceiro, a gente tem de entender que o sistema da fé cristã tem perspectivas claras de justiça, política, relações individuais e sociais, economia, transformação e daí em diante – e esse sistema, sendo uma cosmovisão após a visão de Deus, isto é, de uma consciência divinamente despertada e iluminada, jamais é de esquerda, direita ou centro, mas vem do alto. O conceito geral dessa política do alto, com certeza, continuará deixando o cristão em uma posição desconfortável. Ele é nascido de novo pela ação transformadora do Espírito e sua vida é uma de transformação. Na verdade, se ele se conformar com este mundo, não provará a boa, perfeita e agradável vontade de Deus nem verá a si mesmo e à sociedade tal como Deus quer que ele veja (ver Rm 12.1-4ss). Entretanto, essa inconformidade não poderá ser manifestada como revolução, “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar” (1Sm 15.23). Em outras palavras, a revolução é uma tentativa “mágica” para mudar o mundo por meio de abandonar a confiança no controle, presença e autoridade de Deus, adorando e servindo a poderes humanos para obter transformação. Como, então, viver a justiça de Deus em um mundo decaído? Como viver em um mundo do qual fomos chamados e ao qual fomos enviados para proclamar a redenção por meio da proclamação verbal e do testemunho da vida? Como ser sal da terra e luz do mundo? O próprio Senhor instrui quanto à prioridade do caráter cristão como base para a ação política no mundo, em Mateus 5.1-18: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo”:

1. V. 3: Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus. (Os princípios da política do reino de Deus somente são vistos e seguidos quando vêm de Deus e são recebidos na Palavra como vindos do alto e não procedentes da “sabedoria humana”.)

2. V. 4: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. (O cristão é sensível às necessidades humanas e espera somente em Deus para satisfação de seus desejos e necessidades.)

3. V. 5: Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. (Mansidão não significa fraqueza, mas a força de caráter que espera no poder de Deus para viver o reino de Deus na terra. Implica em viver o cumprimento dos próprios deveres e lutar pelos direitos do próximo.)

4. V. 6: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. (Revoltas não satisfazem a alma, pois a ira é como um saco sem fundo que sempre quer mais; no entanto, o cristão anseia todo o bem que há em Cristo como bênção também para a vida que é agora; ver Fm 1.6.)

5. V. 7: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (Toda ação cristã deve de ser motivada pelo coração de Deus, e não pela revolta humana, a fim de produzir resultados segundo o coração de Deus.)

6. V. 8: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. (A única maneira de conseguir a transformação necessária para viver e pregar a justiça e o direito de Deus é por meio da confissão feita em fé diante de Deus mediante a obra de Cristo que nos purifica e habilita para cumprir a missão de Deus entre os homens.)

7. V. 9: Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. (O mundo só nos verá como filhos de Deus se nossa vida e palavra forem de paz e não de guerra.)

8. V.10-12: Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (A disposição do cristão não é uma de ser aceito pelo mundo quando luta em seu favor, mas de aceitar a posição de Cristo, de ser alvo de contradição – ver Lc 2.34 – certo de que a recompensa está no céu.)

9. Vv. 13-16: Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (A meta do cristão é refletir a glória de Deus em seu caráter, como sal da terra e luz do mundo; não é uma ação opcional, mas sim fruto do Espírito que abençoa o lugar em que sua árvore está plantada; ver Sl 1.)

10. V. 17,18: Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. (Assim como o Senhor Jesus Cristo cumpriu plenamente a lei em nosso lugar e em nosso favor, assim também o cristão, habilitado pelo Espírito, obedece graciosamente a Palavra de Deus para que sua vida e suas palavras sejam vistas e ouvidas como testemunhos de uma verdade que não passa. Os movimentos humanistas de direita, esquerda e centro podem passar, mas o ponto de referência em Deus, a centralidade de Cristo e o selo do Espírito Santo no homem interior e em suas relações com o próximo e o mundo, estes sempre terão valor eterno.

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, junho 20, 2013

GRATA MEMÓRIA


Nossa cultura inunda-nos constantemente com novas informações, contudo, nosso cérebro consegue captar muito pouco delas. Antigamente, lembrar era tudo na vida. Conta uma lenda que no Quinto século AC, um terremoto destruiu o lugar em que o poeta Simonides banqueteava com centenas de convivas. Ele sobreviveu, tendo saído instantes antes do palácio, e consolou os familiares tomando pela mão a cada parente entutado e levando-o ao exato local onde seu morto, momentos antes, estivera conversando. Sua lembrança foi detalhada e confortadora.[1]

A história do mundo, das idéias, das pessoas, era transmitida oralmente, de pai a filho, de mãe a filha, de mestre a aluno. Apesar de termos indícios do uso da escrita desde antes da época de Hamurabi (contemporâneo de Abraão), grande parte do conhecimento era passado através de memórias compartilhadas. Uma geração falava à outra, e era bom que os ouvintes prestassem atenção, porque, por sua vez, teriam de passar adiante aos filhos e netos as lembranças do povo quando seus antepassados já não existissem.

Moisés foi instruído em toda a ciência do Egito (At 7.22), mas teve a memória da identidade de seu povo inculcada por sua mãe, paga pela filha do Faraó para cuidar dele. Ao escrever a Torá, já homem maduro, começa lembrando quem é Deus e o que ele fez, e repete constantemente a admoestação de lembrar a história passada, os grandes feitos do Senhor bem como a terrível escravidão de onde o povo foi retirado, dando os detalhes do tabernáculo e da lei, passando os mandamentos e as promessas para a próxima geração: “guarda-te, para que não esqueças o Senhor, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão”.

Toda essa memória inicia com uma declaração teológica que norteia a vida toda: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”. Ela é afetiva (estarão no teu coração, v 6), diretiva (tu as inculcarás a teus filhos, v 7), constante e em todo lugar (delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te; visível em tudo que fazem, no modo como enxergam, na habitação entrando, saindo ou ficando. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” (vv. 7-9).

A instrução bíblica desde o Antigo Testamento e perpassando o Novo trata de guardar a Palavra de Deus na mente e no coração. O jovem aprendia a Lei do Senhor memorizando – tinha de ser praticada em cada detalhe de sua vida. Quando chegava ao Bar Mitzvá, o rapaz não só sabia ler a Escritura (tarefa que exigia bastante do leitor, pois o texto se encontrava em pesado rolo de escrita corrente, sem pontuação, pausas e marcações vocálicas). Assim, junto à leitura criteriosa, tinha de haver uma memória prodigiosa para lembrar exatamente como ler o que se lia. Isso não se limitava aos homens. O Magnificat de Maria mostra que ela tinha na memória o cântico de Ana (1 Samuel 2.1-10) e a promessa a toda mulher em Israel que poderia abrigar no ventre seu próprio Salvador!

A memória entre o povo judeu nasceu com as primeiras histórias narradas em Gênesis, e continuou se desenvolvendo em toda a história do povo de Deus. Quando o povo se esquecia da Palavra de Deus e corria após outros deuses, os profetas tinham a tarefa de lembrar aquilo que eles haviam esquecido – e isso muitas vezes ficava marcado pelo sofrimento e disciplina do Senhor. Quando Deus restaurava a sorte de Sião, era por sua lei que isso ocorria (Sl 19.7). O relato da restauração do templo iniciada por Esdras está pontilhada de comentários tais como “assim está escrito na Lei de Moisés”. A Palavra, e a lembrança do que ela ensinava, era a tônica para toda a ação corporativa bem como individual diante de Deus.

De “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança... Grande é a tua fidelidade” (Lm 3.21-23) até “Conheço as tuas obras... Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.2-5) a Palavra estimula, adverte e promete quanto à lembranças. “Me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia. Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti” (2Tm 1.3-5).

A tentação de Jesus começa com o diabo citando as Escrituras – e Jesus refutando a tentação também citando a Palavra, dentro do contexto e sob o Senhorio certo: ao Senhor adorarás e só a ele darás culto. Quando Jesus prometeu o Consolador, disse que “esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Minha chave bíblica[2] tem 107 entradas para “lembrar”, 7 para “lembrança”, 3 para “lembrado”, 22 para “memória”, 7 para “memorial”. Nem começo a mencionar outros “lembretes bíblicos” relacionados a estes.

A memória era forma de edificar o caráter da pessoa, desenvolvendo as virtudes cardeais da prudência e da ética. Somente pela memória é que o pensamento seria incorporado à mente e seus valores seriam absorvidos. O ensino de tudo era baseado em memória, e muitas vezes as pessoas decoravam fatos, nomes, conceitos, números sem relacioná-los ao quadro geral da realidade. Não havia concordâncias Bíblicas até a Idade Média, não havia acesso a enciclopédias e dicionário. Com o advento da imprensa, o livro ficou mais acessível, mas mesmo assim, as únicas pessoas que possuíam modesta biblioteca eram as pessoas mais abastadas e cultas. Os leitors valorizavam o pouco que tinham para ler, e guardavam no pensamento e no coração aquilo a que tinham acesso. Hoje um menino semi-alfabetizado é incentivado a “fazer pesquisa” copiando do Google – seu conhecimento fica ainda menor que o da memória de rotina que seu avô era obrigado a armazenar e papaguear para “passar no exame”. E quando se pensa no uso da memória para desenvolvimento da vida cristã, a história é ainda mais patética. Ouvimos falar de cristãos que, em época de perseguição e escassez de Bíblias, memorizavam livros inteiros para ajudar a si e seus irmãos. Meu marido conta que conheceu na Igreja Batista Russa um senhor que era “Gálatas”– memorizou essa carta paulina, enquanto outros decoraram outras epístolas, para a edificação de uma igreja que só possuía uma Bíblia. Hoje temos dez, vinte edições da Bíblia em nossas estantes – mas tem gente que não sabe onde fica o banquete da Sabedoria nem a história de Ló ou quem era Jeremias – e quer achar Ezequias 12.2 ou Filemon 4.4 em suas rígidas, polidas e desconhecidas bíblias “da mulher”, “do vencedor”, do “guerreiro”, “da menina” e outras versões esdrúxulas.

Lembro-me da moça em Goiânia que decorou “uma ilha é pedaço de terra cercada de água por todos os lados” e quando minha mãe disse que ia para a ilha de Manhattan, perguntou-lhe: “Fica pra lá de Corumbá?” Nem o que é ilha, nem distâncias e proximidades em cidades, países e continentes eram entendidas. Aliás, ainda hoje o senso de história e geografia aniquilado pela falta de memória escolar primária é gritante – mesmo entre gente que tem diploma de faculdade! Deixamos de decoreba, mas deixamos de aprender o mais básico da base.

Pouco antes de um grande servo de Deus morrer em idade avançada, ele, que havia sido médico, missionário, músico, administrador e homem de oração, comentou com meu marido: “Com o passar da idade, o meu esquecedor vai se aprimorando cada vez mais”. Lembrei de outro idoso que disse: “Quando meu pai chegou aos oitenta anos, lembrou que se não fizesse alguma coisa para melhorar a memória, ia ficar gagá. Então, começou a memorizar Fausto de Goethe”. E eu – estou deixando meu “esquecedor” dominar minha vida – ou exercitando minha memória para lembrar o passado, firmar o presente e enriquecer o futuro (meu e das gerações que me seguirão) para a glória de Deus?

Quisera aprender o mínimo necessário para conhecer o mundo em que vivemos, o ambiente em que estamos inseridos, e simultaneamente, desenvolver memória que traga esperança e nos leve a reconhecer o Deus da história e da eternidade. Isso não se aprende por frases feitas: é estudando o pensamento, o mundo psicológico, político e ideítico atual através de bons livros, lembrando o passado para que vislumbremos um futuro sadio. Acima de tudo, é estudando – guardando no coração, meditando nela dia e noite, tornando-a alimento e respiração sem o qual não sobrevivemos – a Palavra de Deus “para não pecar contra ti”... Esse estudo tem de começar com a criança para que se diga dela “desde a infância sabes...” em vez de dar à sua memória impressionável imagens nefastas e cantigas tolas daqueles que desprezam a sabedoria de Deus. É certo  que “decorar sem entender” não vale nada.  Mas só entendemos aquilo que aprendemos, e aprendemos para sempre aquilo que memorizamos. Acima de tudo, nessa questão de memória, lembro o hino: “Nunca meu Mestre cessarão meus lábios/ de bendizer-te, de cantar-te glória/ Pois eu conservo de teu bem imenso/ grata memória...”

Elizabeth Gomes



[1] Brainwalking with Einstein, Joshua Foeer, Nova York: Penguin Books, 2011.
[2] Lembrando que esta não inclui todos os vocábulos do original quanto à memória.

sábado, maio 25, 2013

TEMPO FINDO, TEMPO CHEGANDO...

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Uau!  Que dez anos incríveis!  Esse foi o pensamento que não me saiu da cabeça durante todo o dia de ontem...  Um dia diferente dos outros desta semana, e, de certo modo, diferente dos últimos mais de 3.000 dias. Acordei um pouco mais tarde (diferente do madrugar que marcou os outros dias desta semana).  Não cheguei ao escritório assoberbado e nem correndo para entrar em classe... Haviam apenas algumas poucas pendências que precisaram de atenção... Não encontrei coisas esperando solução, e sim rostos amigos com expressão agridoce, metade carinho, e a outra metade saudades -- pelo menos era assim que meu coração olhava para os colegas do CPAJ com quem investi os últimos 10 anos de ministério institucional.

O dia anterior já tinha sido cheio de emoções.  Cedinho eu já havia entrado em sala para dar a aula final da matéria Identidade Eclesiológica, da Pós-Graduação em  Revitalização e Multiplicação de Igrejas -- um tempo tocante com pastores-alunos queridos e minha última aula ministrada como diretor do CPAJ. É claro que passei do tempo, assim, depois de me despedir dos alunos meio que segurando as lágrimas (tanto por causa do meu sentimento "de despedida",  quanto por ter ouvido os pastores-alunos falando de coisas profundas do coração, corri com meia hora de atraso para a última reunião da Câmara de Pós-Graduação do CPAJ--outra reunião de despedida...

Cheguei ao meu escritório e lá já me esperavam pacientemente os irmãos-colegas. Comecei a reunião ainda como presidente.  Depois de uma oração pelo pastor Valdeci Santos, falei algumas palavras de agradecimento aos colegas -- sentimentalidades autenticas que não vou tentar reproduzir aqui, mas deixo apenas na lembrança daqueles irmãos que significam tanto para mim. Agradeci porque foram instrumentos da graça de Deus em minha vida... De lambuja eu conto para vocês aqui apenas duas partezinhas: buscando alívio no humor, eu agradeci porque nestes anos todos eles sempre acabaram deixando o seu diretor "bem, na fita"; e aí emprestei algumas partes de uma canção para expressar como me sinto quanto àqueles irmãos -- a tradução dessa canção eu transcrevi abaixo para vocês terem um "peek":

 
You Give Me Strength (Snow Patrol)
 
Hoje tive de segurar as lágrimas
Porque não sei nem começar a dizer
Como vocês afetaram esse "menino"
Nos últimos dez anos ou mais
 
Amigos, juntos vimos de tudo,
De triunfos a tombos,
E mesmo quando tivemos nossos ossos quebrados,
Nossos corações estiveram colados.
 
O tempo escorre, com suas mãos cansadas,
Nas nossas mãos cansadas,
Ainda teremos muitos anos até Aquele dia,
E ainda teremos muito mais a dizer...
 
Vocês me dão força,
Uma força que sozinho nunca tive,
Quando as coisas ficavam bagunçadas
E eu meio que perdia o rumo,
Vocês me tiravam e moviam
Daquelas situações escuras...
Não tive dúvidas,
Quando pude ver seus rostos.
 
Amigos, juntos vimos de tudo, 
E quando as coisas não faziam sentido,
Vocês ajudaram a iluminar o caminho
E encontrar a beleza ao final...
 
Então me deixem elevar vocês,
Como vocês me elevaram,
O tempo é demais para não dizer,
Vocês precisam saber que eu sempre soube,
 
Vocês me dão força,
Uma força que sozinho nunca tive,
Quando as coisas ficavam bagunçadas
E eu meio que perdia o rumo,
Vocês me tiravam e moviam
Daquelas situações escuras...
Não tive dúvidas,
Quando pude ver seus rostos.
 
Depois de usar pedaços dessa música para me dirigir a eles eu pedi para orar e isso eu fiz agradecendo por cada um dos meus irmãos presentes ali, agradecendo por suas vidas e agradecendo ao bondoso Deus por momentos específicos de amizade e proximidade com cada um deles, nominalmente.  Terminada a oração ouvi algumas palavras carinhosas e encorajadoras do pastor Heber Carlos de Campos. Então, recorrendo ao humor outra vez, passei a presidência da reunião e daquele colegiado ao Vice-diretor que agora, com minha saída, assumiria o exercício da direção.  Fiz algo que sempre quis fazer, desde os tempos em que me encantava em assistir ao Capitão Kirk ou ao Capitão Jean Luke Piccard ("Star Trek" e "Star Trek, The Next Generation", para os não-iniciados), virei-me para o pastor Mauro Fernando Meister e disse solenemente: "Number one, you now have comand..." [Número um, você agora tem o comando!].  Só faltou ouvir dele: "Warp speed ahead!"

Depois dos abraços fraternos, o restante do corpo docente (a Câmara de Pós-Graduação é composta apenas dos Coordenadores e Titulares) foi chamado.  Vi entrarem na sala os professores mais jovens, cada um deles trazido ao CPAJ debaixo de minha direção -- faltaram apenas dois dos colegas amados, os pastores João Alves e Augustus Nicodemus, ambos membros também da Câmara, mas ausentes naquele momento por motivos de força maior, ainda que tão próximos do coração. Com o corpo docente estavam também nossos valiosos colaboradores, a Sunamita, o Hothir, a Márcia e o Rafael.  

Meu coração já se apertava outra vez, mas o difícil foi quando vi entrarem com uma linda cadeira de madeira clara -- eu já imaginava o que vinha pela frente...  Pastor Valdeci explicou que, seguindo uma tradição de outras antigas escolas teológicas reformadas, eles estavam me presenteando com uma cadeira, a qual representava a minha cátedra no CPAJ e seguiria comigo como lembrança permanente.  Ele leu os dizeres da placa afixada nesta linda cadeira: O selo do CPAJ era acompanhado das seguintes palavras, "Rev. Davi Charles Gomes, PhD. Em honra ao trabalho prestado, com excelência e dedicação, na direção do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper - 2004 a 2013. Corpo Docente - CPAJ". 

Aí é que ficou difícil segurar as emoções, pois os colegas me fizeram sentar na cadeira e posar para uma foto final com o corpo docente assentado e perfilado ao meu redor.  Ainda que encabulado por estar sendo honrado desta maneira, assenti e senti profunda gratidão por aqueles homens a quem eu desejo tanto honrar neste momento de despedida e que resolveram me fazer aceitar ser honrado por eles de um modo que eu normalmente teria dificuldade em aceitar -- a honra é somente de Cristo e estes são homens que honram sempre a Cristo, mas neste momento eles desejaram honrar, em submissão a Cristo, a um irmão menor cuja maior honra foi servir a eles durante estes dez anos e com eles servir à causa do Reino de Cristo e à Igreja Presbiteriana do Brasil!
 
 

Finda a reunião, ainda embargado, segui com eles até um restaurante bem simples, próximo ao CPAJ, para alguns momentos de comunhão informal.  Juntaram-se a nós ali os queridos pastores Augustus Nicodemus e Fernando Almeida.  O partir do pão, em profunda comunhão, ainda tinha um gosto de despedida, mas, em outro sentido, talvez pela escolha do lugar cotidiano e despretensioso, teve também o sabor gostosamente cotidiano das milhares de vezes em que comemos e comungamos juntos à mesa...

Concluído o almoço, caminhamos juntos de volta ao CPAJ.  Alguns colegas foram tomar um cafezinho melhor em um lugar próximo dali, outros tinham compromissos diversos.  Caminhei de volta com os pastores Mauro, Jedeías, Augustus e Fernando.  Conversei um pouco com o pastor Fernando, que é chefe de gabinete da Chancelaria do Mackenzie e que está auxiliando pastor Augustus e eu na transição de cargo e então seguimos, os dois, para o Edifício João Calvino, aonde nos esperavam o pastor Augustus Nicodemus e todos os capelães do Mackenzie, para um encontro de transição.  

Fui carinhosamente recebido pelo querido Augustus, que me apresentou cada um dos capelães e então fez uma apresentação de um relatório dos últimos dez anos de seu trabalho como Chanceler do Mackenzie. Ainda que eu tenha estado tão próximo do Augustus e da Chancelaria nestes anos, e que tenha regularmente substituído o Chanceler quando de suas ausências, estando, portanto, bem inteirado das ações que ele sempre desenvolveu, confesso que assistir àquela apresentação me deixou orgulhoso de meu amigo, colega e predecessor no cargo.

A apresentação, que resumiu as principais ações, desafios e vitorias para o Reino, desenvolvidas na chancelaria nos últimos dez anos, me fez lembrar o quanto foi feito, admirar a fidelidade com a qual Augustus desenvolveu seu ministério ali, e concordar com os membros do Conselho Deliberativo do Instituto Presbiteriano Mackenzie que na semana anterior também receberam este relatório com tanta apreciação e respeito. Também fiquei muito feliz em lembrar como o meu querido amigo Augustus deixa seu cargo diante de tantos protestos de admiração e respeito, da parte de seus chefes (o Conselho de Curadores e o Conselho Deliberativo do Instituto Presbiteriano Mackenzie), de seus colegas na direção do IPM e da UPM, e de seus colaboradores.

Pastor Augustus Nicodemus Gomes Lopes deixa seu cargo por iniciativa sua e sob os afetuosos protestos de seus chefes, seus colegas e seus colaboradores. Também sob os meus protestos.  Mas não  protestos negativos ou carentes de compreensão. Ele segue em frente porque deseja novos desafios, porque ouve o canto atraente e saudoso de seu trabalho pastoral-acadêmico, porque sente de Deus a tranqüilidade de que sua tarefa, pela graça maravilhosa de Deus, foi fielmente cumprida -- eu creio que conheço bem esse sentimento, pois é assim que deixo o CPAJ. Ao menos, isso é o que eu percebo claramente, mesmo que não presumindo falar por ele!

Após a apresentação pelo Chanceler Augustus Nicodemus, ele solicitou que cada capelão fizesse uma apresentação de dez minutos, relatando a mim e aos colegas os ministérios que eles têm desenvolvido nos diferentes campi e nas diferentes áreas de atuação da capelania do Mackenzie.  Fiquei contente em ver o quanto eles fazem, e a importância que seus ministérios têm para a comunidade Mackenzie, para a Igreja Presbiteriana do Brasil, em nome de quem eles atuam, e para o Reino, sob cuja autoridade maior eles ministram.

Como não poderia deixar de ser, ao término das apresentações, o pastor Carlos Henrique (capelão institucional), escolhido por seus pares para falar em nome deles, manifestou-se com palavras de honra e gratidão ao amigo Augustus -- em momentos ele estava claramente comovido...  Foram palavras bonitas de admiração, respeito e afeto -- tudo isso claramente visto nos olhares e nas palavras de todos os outros capelães. Presentearam Augustus com uma linda lembrança e deram a ele a oportunidade de também manifestar-se.  Então, pastor Carlos Henrique concluiu com palavras que eu creio resumiam todo o sentimento.  Ele disse: "Pastor Augustus, estamos muito tristes com a sua saída..."  Mas graciosamente adicionou algo que fez bem ao meu coração, e ao do pastor Augustus também, "...mas estamos também felizes que é o pastor Davi que vem para continuar conosco o que o senhor, e sobretudo, O Senhor, tem feito."

Isso tudo foi antes de ontem, na quinta-feira, 23 de maio de 2013. Após a reunião com o chanceler e os capelães, fiquei alguns minutos com Augustus em seu gabinete e então descemos os dois para a garagem, juntos com o pastor Fernando.  Dirigi até minha casa e chegando lá fui com minha querida até a casa de meus pais para um pouquinho mais de conforto do coração. Pastor Wadislau me ouviu falar do dia, expressou seu apoio paterno e então nos despedimos.

Com um dia tão cheio de emoções, Adriana e eu resolvemos esticar um pouco a noite e fazer um pouco de trabalho braçal ali no sítio aonde moramos... Com botas de borracha e capas de chuva, carrinho de mão, pás e enxadas, gastamos um pouquinho de tempo e energia espalhando algumas pedras na lama de nossa estrada interna que tinha sido danificada pelas chuvas do dia anterior. Esse trabalho duro e braçal faz bem ao corpo e à alma de vez em quando, especialmente quando emoções estão à flor da pele.  É claro que a Adriana só empurrava o carrinho de mão quando estava vazio, e que eu não deixei que ela pegasse na enxada ou na pá... Quando cansei fomos dormir, eu e aquela que é a minha recompensa pelo trabalho com o qual me afadigo debaixo do sol (Ecclesiastes 9).

De volta ao começo, ontem acordei mais tarde, 8h da manhã, ao invés das 5:30h dos dias anteriores. Escrevi logo no início sobre os rostos amigos que encontrei quando cheguei ao CPAJ para meu último dia de expediente à frente da instituição.  Entrei em meu escritório e busquei conforto na lembrança de que o CPAJ não pertence a mim, não pertence nem aos meus colegas, nem mesmo aos seus alunos, à JET ou à IPB -- pertence a Cristo, Aquele que é Senhor meu, de meus colegas, de meus alunos, do Mackenzie, da JET, da IPB e de todas as coisas...  Assim, não há, realmente, despedida, pois prossigo, prosseguimos, servindo ao mesmo Senhor e na mesma seara.

Logo que cheguei, fui ao escritório do pastor Mauro, chamá-lo para o escritório que deixaria de ser meu naquele dia...  No caminho de volta encontrei o pastor Emílio Garófalo Neto, primo querido, pastor abençoado e professor de mãos cheias -- ele estava se despedindo após uma semana ministrando aulas de pós-graduação como professor visitante do CPAJ.  Um cafézinho com Mauro, saudações fraternas e afetuosas do Hothir e da Sunamita, um abraço apertado do Valdeci... Aí chegou a hora de prosseguirmos para uma churrascaria para o almoço oficial de despedida.  Chegando lá, qual não foi a surpresa, além de todos os parceiros no CPAJ, ali se ajuntaram a nós o presbítero Solano Portela, amigo e Vice-presidente da Junta de Educação Teológica, e o pastor Roberto Brasileiro, amigo e presidente do supremo concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil. Só faltaram o amigo Tarcízio, preso em afazer familiar, e o amigo Augustus, no Recife, pregando o evangelho, como sempre, e o Jedeías, na Paraíba, cuidando da expansão de nossa igreja...

Que gostoso estar à mesa com todos os colegas!  Mas que difícil segurar o coração quando Mauro começou seu breve discurso, seguido do presbítero Solano e do pastor Roberto.  Cada um disse palavras pessoais, afetuosas e reconhecendo supostos méritos e qualidades em mim que eu mesmo não reconheço -- palavras de que não sou digno, exceto que em Cristo e usado por Ele, passamos a receber dele uma dignidade que em nós nunca teríamos. Ao mesmo tempo, os três oradores aquietaram meu coração ao deixar claro que aquilo não era senão o término de uma fase do ministério que juntos executamos no Senhor e para o Senhor -- nossa luta e nossa colaboração continua!  Isto é o que, em resumo, eu ouvi deles, e isso confortou meu coracão!
 
Voltamos ao CPAJ e o pastor Mauro e eu fomos ao seu escritório escrever uns últimos documentos que deveriam levar as nossas duas assinaturas.  Então chegou a hora de partir, com pressa, pois estava atrasado para uma consulta no final da tarde.  Falei ao telefone com pastor Roberto Brasileiro, despedi da Sunamita e do Hothir, daí do Rafael e da Márcia, e o amigo Mauro, agora respondendo sozinho pela direção do CPAJ, resolveu me acompanhar nesta última longa caminhada deixando a instituição na qual tive a honra de servir nos últimos dez anos.  Ele carregou a cadeira que eu levava comigo e fomos até o estacionamento. Lá nos abraçamos e dissemos palavras de irmandade em amor, as quais ficam só para nossos corações.  Apressamos a despedida e dissemos, "até a semana que vem..."

No caminho de volta para casa, falei ao telefone com vários desses queridos (usando o hands-free do carro, é claro, pois não ia quebrar a lei...). Conversei com Solano, com Mauro, com Valdeci e Jedeías, falei com Sunamita também.  Cheguei em casa e encontrei o carinho da Adriana, dos filhos Daniel e Rafael, dos pais, Wadislau e Elizabeth e do mano Daniel.  Todos me aguardavam prontos para ouvir sobre esse último dia e para me encorajar e confortar: celebração e emoção.

Aí,  antes de dormir fiquei pensando em compartilhar com quem tiver interesse este relato.  Mais que isso, quis uma oportunidade de honrar e agradecer as várias pessoas que têm feito parte de minha história, e de fazer isso em meus termos, em registro escrito, neste momento de transição. 

Vou ter três dias de descanso na próxima semana e daí o feriado.  Estarei fazendo preleções no encontro Fiel Jovem durante o próximo fim de semana.  Na segunda-feira, dia 3 de junho próximo estarei junto com Augustus celebrando seus dez anos na chancelaria com ação de graças a Deus e então tomando posse como o XIII Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A cerimonia de ação de graças e posse ocorrerá às 12h naquele dia.  

Se você está lendo esse relato, não procure nele e não veja nele mais do que uma mera expressão de um coração grato a Deus, repleto de afetos e emoções, pronto para os novos desafios, mas, sobretudo, dependente da graça do Senhor!  Graça esta que me faz levantar a voz a Ele em gratidão pelas muitas pessoas que têm sido para mim bênçãos e companheiros nesta maravilhosa aventura de viver coram deo!

A Ele a glória, o poder e a honra, sempre!

Davi Charles Gomes

Mogi das Cruzes, 25 de maio de 2013

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A Deus, pelos irmãos, irmãs e colegas, minha gratidão...
  • por  minha esposa e filhos: Adriana, Rafael e Daniel;
  • por meus pais, Wadislau e Elizabeth;
  • por meus irmãos, Deborah e Daniel;
  • por meus familiares, Joarez e Marisa, John, Márcia, Flavio, Bianca, Andrea, Deborah e Claudio;
  • por meus sobrinhos: Matthew, Felipe, Timothy, Leticia, Davizinho, Nicoli, Ruth, Jonathan, Luca;
  • por minha igreja, família IPP, e meus colegas de conselho, Wadislau, Heber, Alderi, Márcio, David e Rinaldo;
  • pelo pastor Roberto;
  • por toda a JET, a de agora e as duas anteriores;
  • por Solano, Eli, Jaime, Damócles;
  • pela CRIE: Eliezer, Solano, Ludgero, Roberto;
  • pelo Conselho de Curadores do IPM e pelo Conselho Deliberativo;
  • pelo chanceler Augustus;
  • pelos gestores do Mackenzie: Mauricio, Solano, Anaor, Jose Paulo; Wallace; Benedito e Marcel;
  • pelos colaboradores no CPAJ: Sunamita, Andrea, Marcia, Hothir e Rafael,
  • e hoje, especialmente pelos colegas, irmãos e companheiros -- meus pares:
Alderi,
Augustus,
Daniel,
Fabiano,
Heber,
Heber Jr,
Jedeías,
João Alves,
João Paulo,
Leandro,
Mauro,
Tarcízio,
Valdeci.

sábado, maio 18, 2013

MÃE, SÓ TEM UMA!


NormanRockweel: Mother and childreen
 
Ainda adolescente, quando não participava, pelo menos, eu ria com os esquetes humorísticos na “noite dos talentos”, e um que se repetia ano após ano era o de “mãe, só tem uma!”, trivializando o bordão por meio da constatação, junto à geladeira, de que só havia uma garrafa de refrigerante para levar à mesa.

Agora madura mãe e avó, rumino sobre a singularidade e multiplicidade das mães. Mãe, minha, só uma. Há três anos que ela foi promovida à presença de Cristo (aí vai outro chavão que insiste em permanecer na mente criança da gente). Chegado o dia das mães, eu teria de receber uma rosa branca, fossem as comemorações iguais à que mamãe promovia na igreja. (Vermelha só para quem tivesse mãe viva.) Mamãe era uma pessoa única, maravilhosa, esquisita no sentido do inglês de “singularmente especial” e do brasileiro de “estranho e que foge aos padrões da normalidade”. Missionária educadora, foi parteira nos primeiros anos nos antigos campos de Minas Gerais e Goiás, e ajudou a trazer à luz a muita gente. A mim, que nasci de seu corpo, e recebi a Cristo aos quatro anos de idade quando constatei que nunca havia me convertido e insisti com ela que me “ajudasse” a nascer de novo. Além de dar a luz, sempre iluminou minha vida apontando para Jesus a quem servia. Minha mãe era de pedra dura e água fluida, mole e sensível. Os sentimentos batiam fortes de carinho e aconchego e se misturavam com certa rejeição – por achar que jamais chegaria aos padrões de perfeição que ela exigia de si e dos outros: marido, filhas, gente a quem ministrava com orgulhosa humildade. Inseguranças e incongruências sempre marcaram o relacionamento com minha insubstituível, notável mãe que me tentava por no colo mesmo quando ela era frágil velhinha e eu já avó assumida. Sinto falta dela até hoje, embora depois que me casei há muitos anos, convivemos muito pouco. Sobretudo, sinto falta de suas orações, e constato que sempre fraqueja a minha resolução de continuar a vida de oração que ela deixou quando passou à Presença. Sempre soube que quem realmente intercede por mim é o próprio Espírito Santo, mas sentimentalmente, até hoje sinto falta da intercessão de minha mãe.

Fui ainda abençoada porque mãe, não tive só uma. Quando conheci a mãe do Wadislau, imediatamente ganhei outra mãe. Sempre presente em datas marcantes ou comuns, no nascimento de meus filhos, nos sofrimentos e nas alegrias da vida. D. Eulina era uma clássica mãe cristã carinhosa, atuante e sempre carente da graça e transbordante do amor de Cristo. Sempre dando mimos, presentes e atenções a mim, iguais aos que compartilhava com os filhos do ventre, minhas cunhadas e meu marido. Eu não a chamava de mãe, mas trazia-a no coração como tal, e sei que ela também me via como filha caçula.

Em cada igreja em que estivemos, Deus sempre me presenteou com algumas mães inesquecíveis. Em BH, tia Aninha foi mãe para mim. Na Ebenezer, Dona Isolina Berthaud me acrescentou à prole de três filhos homens. Dona Bernardina, com sua ingênua sabedoria analfabeta, sempre demonstrou carinho por nós e nossos filhos (não existe melhor modo de ganhar o coração de uma mãe do que amar seus filhos). Em Jaú, três eram as preciosas e marcantes “mães oficiais”: Dona Hyripsimé (ou Iracema), dona Wanda e Dona Elpídia – para a jovem, inexperiente e muitas vezes inepta esposa de pastor, essas três esbanjavam carinho, cuidados e conselhos vivendo de modo prático o ministério maternal que Paulo recomendou Tito promovesse para as mulheres mais maduras da igreja.

Hoje eu estou entre as mulheres mais maduras da igreja, e quando não posso ajudar minha filha que está longe, fico com coceira na língua para compartilhar com mulheres mais jovens que enfrentam lutas e vitórias que já vivi. (Aprendi que guardar a língua é um dois exercícios de amor cristão mais importantes na vida. Mas às vezes ainda dá coceira!). Fato é que continuo vivendo maternidade, embora meus filhos sejam adultos maduros que independem de mim e a quem às vezes eu recorro com certa dependência. Ainda hoje me alegro quando recebo notícia de alguém que conheceu a Jesus por meu intermédio, ou aprendeu uma receita inesquecível que virou parte do repertório de sua casa, ou foi edificada por algo que falei ou escrevi. Cada experiência fez e faz parte de uma vida em que muitos foram os questionamentos, algumas foram lutas travadas ainda não vitoriosas, diversas as inseguranças e incertezas – e permanece sempre a certeza de que “Aquele que começou boa obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus”. Já e ainda não – constatação de nossa salvação e glorificação passada, presente e futura. Mãe, tenho tido muitas, mesmo que cada uma tenha sido única. A própria maternidade nos faz considerar a profunda questão filosófica existencial de unidade e multiplicidade. E, ao lembrar de minha mãe única e de minhas muitas mães, tenho de aplicar as lições de vida a minha própria existência para que, ao aplicá-las às vidas de meus filhos e das gerações futuras, eu sempre esteja firmada na Rocha/Refúgio. Maternidade não é algo estático nem é apenas simbólico. Gera, nutre e multiplica vida para a eternidade. Por isso aproprio-me de uma figura materna para falar do relacionamento dessa criatura caída e restaurada com o todo poderoso Deus dos Antigos: “como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo” e confiante, afirmar ainda com o salmista: “Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre” (Salmo 131.2 3).

Elizabeth Gomes

sábado, abril 20, 2013

PARA VIVER UM GRANDE AMOR


 
Das comunicações que recebo, há um tema que sempre aparece e grita – do topo das montanhas e do fundo do poço! É o desejo de amar, de ser amada, de ter amor como razão de vida. Alguns de meus amigos são bastante jovens – foram meus alunos juniores de escola dominical; outros conheço de quando eu era igualmente jovem e já sonhávamos com um grande amor. Entre minhas colegas de sonhos e realizações, descobri algumas características constantes e alguns fatores surpreendentes sobre a sua história do coração.

Sou abençoada, privilegiada mesmo, por ter encontrado no amor de Deus o rumo para toda minha vida. E, ainda nova, um companheiro fiel que me estimula a amar cada vez mais e a cada passo investir mais pesado na realidade simultaneamente leve e sólida da criatura imperfeita que sou, portando o amor perfeito de um Deus infinito, graciosamente dado a pessoas quebradas, distorcidamente pecadoras. Observo diversas características nas querências expressas por velhos e novos amigos.

Primeiro, falo aos jovens, porque terão de ter e desenvolver por mais tempo o amor que anseiam. Quanto ao casamento, o apóstolo Paulo destaca uma característica inicial imprescindível: quem é solteiro é “livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor”. Se você, cristão, está livre para casar, a ressalva é inegociável – que seja no Senhor! Começar uma vida a dois com duas cabeças em luta constante não é apenas difícil – é assumir uma monstruosidade para toda sua vida. Alguém pode argumentar que o próprio trecho de Coríntios sete menciona casamentos de cristãos com descrentes – mas o faz pensando em casais já formados, e diz que se o descrente quiser sair do relacionamento, deixe-o ir! Temos exemplos de gente crente que casou com descrente e “deu certo” – mas a falta inicial de unidade de fé já é mau começo. Concordo que há aqueles rotulados de cristão – e não o são. Talvez, entre esses poderá haver um tipo de amor que lhes permita uma convivência pacifica. Mas os valores do casamento não serão cristãos, e não sobreviverão às tempestades da vida.

O refrão de Cantares de Salomão reverbera em minha mente: “Conjuro-vos (...) que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira” (Ct 2.7, 3.5; 5.8). Não se apresse em provocar um amor, não tenha como meta de vida encontrar o amor! Alguém pode dizer: “É, pra você falar é fácil; apaixonou-se cedo, casou-se aos dezoito...” Sim, pela misericórdia de Deus, o amor me encontrou e despertou em nós na juventude – mas não era cedo, pois havia maturidade dada por Deus para uma vida assumida diante dele.

Moças e moços fazem conjeturas sobre o que procuram no amor, seus anseios e ansiedades. Contudo, precisam investir, antes de tudo, no amor a Deus, pois só saberemos amar o próximo quando houver primeiro o amor a Deus. Os livros de Lewis, Quatro Amores e Peso de Glória, destacam isso de forma magistral. E olha que C. S. Lewis foi solteiro durante boa parte da vida, surpreendido com Joy por um amor maduro e abnegado quando ela já estava com câncer e tinha um casamento falido e dois filhos a tiracolo.

Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo é sine qua non – e continua sendo o segredo do amor realista com esperança que o cristão assume e desenvolve. Não “acontece” num lance romântico ou numa “química” natural e instantânea! Como na salvação, o amor tem de ser nutrido, desenvolvido “com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13).

Alguns amigos mais maduros se encontram desejosos de amor humano. Duas categorias principais me vêm à mente: os que continuam solteiros depois de anos de aprimoramento pessoal e oração fervorosa por encontrar o desejado “par”, e os que foram casados e hoje estão descasados e desiludidos por causa das vicissitudes da vida.

Tenho amigas inteligentes, bonitas, excelentes profissionais, cristãs comprometidas com o Reino, amorosas com os necessitados e que tratam bem crianças, idosos e outros cristãos igualmente “livres e desimpedidos” – que são ignoradas “por aquele que bem poderia casar com ela!” Alguns amigos também se encontram nessa categoria. A tendência de uma pessoa bem casada, quando vê irmãos nessa situação, é tentar bancar o cupido e forçar alianças – mas o coral de Cantares diz: “Não desperte o amor até que esse o queira”! Esses amigos não são contra o casamento – apenas são cautelosos (às vezes em excesso) e não querem compromisso que não estejam prontos a assumir. Uns se casam com mulheres bem jovens, outros, com pessoas em faixa etária e condições semelhantes, talvez viúvas, até mesmo trazendo ao casamento filhos de outro, e encontram, porque estão no Senhor, vidas revigorantes e renovadas. Diversos “descobrem” o amor após os quarenta anos e constante solidão, e passam a viver uma vida rejuvenescida que dá alento a todos que a cercam.

Duro é ver a fileira de pessoas que entregaram tudo por amor, gastaram e se deixaram desgastar, e foram traídas ou abandonadas, quando elas mesmas não traíram nem abandonaram o primeiro amor. A pessoa que ficou “sozinha com Deus”, mesmo quando a fé não foi abalada, ainda ficou com dores profundas. Às vezes as próprias amarguras por relacionamentos desfeitos impedem-na de encontrar amor renovado (novamente, em Deus primeiro, para depois o encontro do outro). Não podemos julgar precipitadamente, e sabemos que afinal, é o Senhor de toda consolação que permite a perda e a restauração, mas tais pessoas às vezes se fecham (por razões boas ou não) para um novo amor e terão de conviver com essa carência  – com a graça de Deus. Outros, pela mesma graça e misericórdia, redescobrem o amor – e a nova alegria contagiante traz consolo e esperança a muitos irmãos.

Uma palavra de cautela: aquele que foi infiel, que preferiu pastos alheios ou travou lutas irreconciliáveis, poderá, deverá, ser restaurado – mas sabedor das dificuldades advindas. Poderá até ser maior, mas não será o mesmo. Por exemplo, um pastor de igreja, se continuar no pastorado, terá de lidar mais abertamente com sua fraqueza. Temos exemplos disso na Palavra. Davi foi restaurado depois de seu horrendo pecado – mas foi impedido de construir a casa do Senhor!

Temos alguns amigos que casaram depois de sofrer viuvez. Aprenderam a ajustar-se às diferenças e não cobrar o mesmo tipo de relacionamento que tiveram antes com outra pessoa. Carregam bagagens complicadas e têm de depositar diariamente aos pés da cruz os fardos que lhes são pesados.  Nisso, jovens, maduros e velhos – todos temos de continuar a crescer em amor. Não é sobre o que eu quero, eu sonho, eu ganho – no amor de Deus, o foco estará sempre no outro – e se multiplica, aquecendo nosso próprio coração, transformando nosso pensamento e nossos atos de forma a ser, em vez de ter um grande amor.

Recebi convite de uma amiga para as bodas de diamante de seus pais (setenta e cinco anos!) – um casal muito especial cuja vida toda testemunha a glória e graça do Senhor. Desejo esse tipo de relacionamento com o amor de minha vida – que envelheçamos juntos, sabedores de que “o melhor está para vir”.

Anos atrás, Wadislau escreveu uma poesia baseada em 1Coríntios 13:

Amar é mais do que falar de amor,
é mais que som, além da expressão.
Amor é intensa vida interior
extravasando o próprio coração.
Amar é mais que êxtase ou encanto,
é mais que som de címbalo ou de sino,
é o riso que se segue ao pranto,
é música que paira após o hino.
Amar é sendo Deus, romper a vida,
derramar-se em humana e rubra dor,
e irromper, da morte já vencida,
amar é ser o amor do seu amor,
é ter-te, Salvador, Senhor assim,
como na cruz tu carregaste a mim!
 
Elizabeth Gomes

quarta-feira, abril 10, 2013

SUICÍDIO


 
O primeiro suicídio que me comoveu foi de uma jovem linda e inteligente que começou a frequentar a igreja pastoreada por Wadislau. Converteu-se, e numa tarde de domingo, não acompanhou a família para almoço em restaurante – em vez disso, aproveitou o momento sozinha para disparar o revolver de seu pai contra o próprio coração. Semana passada li um comovente livro de Danielle Steel – não um bestseller como ela costuma produzir prodigamente há mais de trinta anos – mas o relato pessoal e verídico da vida de seu filho, Nick, e sua morte aos vinte anos de idade, depois uma luta acirrada contra uma doença mental. Hoje, soubemos da morte do filho do líder evangélico, Rick Warren. Há alguns anos, meu sobrinho tirou a própria vida, deixando um filho bebê e uma viúva de vinte anos de idade. Minha cunhada jamais recuperou da dor daquela perda. Menos de um ano depois, outro parente se matou. Depois outra. Uma família muito querida que já sofrera o assassinato do esposo e pai sofreu ainda a tragédia de ver o filho e irmão tirar a própria vida. Outro casal que serve ao Senhor com integridade perdeu o filho na casa dos vinte anos, e, como grande parte dos suicídios, não sabe se a morte por overdose foi acidente ou proposital.

A OMS afirma que cerca de um milhão de suicidas – na maioria, jovens – morrem a cada ano. Na morte auto-afligida, ficam dúvidas e perguntas sem fim. Até “entendemos” quando o suicida tinha severos distúrbios mentais ou emocionais. Parece que alguns desses “meninos perdidos” eram afligidos desde bem novos, ainda que fossem criados por pais bondosos em situações familiares estáveis. Seria culpa da droga? Da família? Do sistema que os ignorou? Da igreja? Da soma de fatores que tornou a vida insuportável? E o suicida, está implacavelmente condenado?

Certa vez um pai, diante da constatação de sérios erros de uma filha, disse: “É a pior coisa que podia acontecer”. Outro pai, esse cujo filho tirou a própria vida, disse àquele: “Não, não é. Pior é o filho tirar a própria vida”. Ambos os pais estavam certos, pois o pior pesadelo é sempre ver os filhos fazendo escolhas irreversíveis e fatais, quaisquer que sejam.

Nem sempre o ambiente de origem (pais e outros) tem culpa no cartório. Quando o filho tem pais cristãos de caráter íntegro, e ele próprio desmonta a cada passo (como no caso na mídia internacional recente) não podemos lançar a culpa sobre a família. Um grande pregador e mestre relata (no livro Bom demais para ser verdade) o chocante caso verídico de seu colega de ministério que tirou a própria vida Ele responde à pergunta quanto à condenação eterna do suicida, com outra pergunta: “É possível matar uma vida eterna? Se foi salvo pela graça mediante a fé, sem obras de mérito, somente por Cristo, alguém poderá fazer qualquer coisa que anule a graça, o favor imerecido de Deus?”

Meus amigos Charles e Janet Morris escreveram sobre a vida atribulada e morte questionada de Jeff, com o nome Salvando uma vida, onde falam como Deus tratou de seus corações e curou muitos outros com a perda irreparável de seu filho. Embora existam muitas famílias cristãs onde é gritante a diferença entre o que se prega e o que se vive, não era o caso dos Morris.

O que fazer quando um jovem suicida? Primeiro, orar pelos que ficam; apoiar a família sem fazer juízo quanto aos motivos ou destino daquele que tirou a vida. Essa oração não pode ser apenas no velório ou enterro, formal ou de chavões. Deverá permear todos nossos atos em todo tempo – e acompanhar nossos irmãos até quando todo mundo pensa que “já se recuperaram” – sem julgamentos. A mesma Bíblia que diz “Não matarás” deixa implícito que aquele que odeia seu irmão já matou no coração – cada um e todos são passíveis de pecados semelhantes.

Além da oração e do apoio espiritual, os enlutados, muitas vezes, carecerão de apoio material em diversos aspectos. Alguns dos casos que relatei acima eram de pessoas que tinham todos os recursos financeiros possíveis, mas outros estavam empobrecidos por anos de tratamentos dispendiosos, constantes gastos inesperados e toda espécie de necessidades. Ao oferecer ombro amigo a quem teve perda irreparável, às vezes teremos de mostrar nossa fé na prática, abrindo mão de algum conforto ou luxo legítimo em nossa própria vida para compartilhar com o irmão que sofre. Poderá ser algo tão simples como uma assadeira de lasanha ou complicado como um almoço para dez parentes em uma churrascaria ou cuidar de sua criancinha por uma tarde ou um dia. Poderá ser um dia ou dois ajudando na faxina ou passando roupa da família que perdeu o filho ou até ajudando a organizar os pertences para doação daquele que se foi. São coisas pequenas e grandes que fazem diferença e declaram a alto e bom som: “Estamos aí para ajudar no que pudermos!”

Além de dar apoio prático e logístico, devemos exercitar o amor escutando a pessoa que perdeu alguém. Não é só falando – mas escutando o que ela diz e o que ela não fala – que a ajudaremos a lidar com a dor e o luto. Assim, ela estará apta a ouvir a Palavra de Deus no tempo certo.

Quando meu pai morreu (não por suicídio, mas câncer), um grupo de jovens cantou no sepultamento o que mais me consolou. Foi aquilo que Jesus leu do profeta Isaías, na sinagoga em Nazaré, no início de seu ministério na Galiléia:

O Espírito do Senhor está sobre mim,
pelo que me ungiu para evangelizar os pobres;
enviou-me para proclamar libertação aos cativos
e restauração da vista aos cegos,
para pôr em liberdade os oprimidos,
e apregoar o ano aceitável do Senhor.

É a missão de Jesus que temos de viver, evangelizando, proclamando libertação, restauração e apregoar o ano aceitável do Senhor. É Jesus que consola o inconsolável – e isso inclui os familiares e amigos dos que se cansaram da vida. Temos ainda de ficar atentos e oferecer alento àqueles que um dia contemplem a possibilidade, pois o suicídio não acontece apenas em famílias desestruturadas ou descrentes. Aos familiares do suicida, temos de oferecer o amor de Cristo como a qualquer irmão ou estranho que sofre a dor de perdas irreparáveis. Não é hora de fazer conjecturas ou juízos sobre coisas que nós desconhecemos. Um dia, na presença do Senhor da Vida, poderemos perguntar face a face alguns porquês, certos de obter resposta daquele que entregou sua própria vida em morte violenta, por amor de pecadores indignos como nós!
Elizabeth Gomes

terça-feira, abril 02, 2013

VARIAÇÕES SOBRE ORAÇÃO*


 
Certamente, você é um homem de oração. Quanto a mim, tenho dificuldade para manter minha comunhão verbal com Deus. Não é que não ore nem que não tenha desejo de orar. É que, no fundo, minhas incertezas, minha falta de fé, embargam meus passos no caminho da oração. “Deus é bom, mas será que é bom para mim?” A despeito de todas as experiências da intervenção sobrenatural de Deus em minha vida, a cada nova oportunidade, eu duvido que ele queira me atender. “Vai ver que eu peço mal, para esbanjar...” Como disse um apologeta, todas as minhas orações são idolatras. Todas vêm contaminadas pela minha vaidade. Graças a Deus pela sua provisão, até mesmo, para a fraqueza da minha oração: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26).

O desconhecimento da doutrina da oração amarga a vida de muitos em nosso meio. Tomamos emprestado do mundo um conceito de oração que nem de longe corresponde à oração bíblica. Assim, Jesus, sabedoria e poder de Deus (cf. 1Coríntios 1.18-31),  orienta nossa vida de oração, dizendo:

E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais. Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém! (Mateus 6.5-13).

Outra vez, certamente você não é hipócrita. Quanto a mim, sou meio maroto. Se me encontro naqueles muitos momentos de insegurança que me assaltam, e me perguntam: “Como vai?”, rápido, respondo: “Tudo bem! Na paz!” Também, não vou ficar por aí, espalhando minhas vergonhas. Outras vezes, a fim de defender posições indefensáveis, desfio um cordão de lamentações: “A gripe...” ou “essa dor do lado... vai do coxão mole até o chã de dentro...” Quantas vezes preguei sobre o amor depois de ter brigado com minha esposa. Ou preguei sobre confiança em Deus quando desconfiava que ele não suprisse para as necessidades financeiras do momento. Nessas instâncias, a oração pública, geralmente, sai como o som da trombeta, heróica, longa e... vazia.

Porventura, não sei que Deus é santo e que sua vontade é sempre boa, perfeita agradável? Não conhece ele as minhas necessidades antes mesmo que eu as apresente? Ora, a razão principal pela qual Deus quer que eu ore não é para que ele, onisciente, venha a conhecer o de que eu preciso. Nem é pelo tamanho, quantidade ou qualidade de minha oração que ele me ouve. Também não é pela minha ousadia na oração “positiva” que ele me atende. O que Deus quer é que eu ore para que o conheça e à sua vontade, e entenda as minhas reais necessidades. Minha necessidade? Dele mesmo, cujo nome tem de ser santificado! Isso significa que o dom do acesso à oração, dado à família que leva seu nome, não pode ser usado para usurpar-lhe o poder. Não há coisa tal como oração poderosa. Todas são fracas – poderoso é o santo que ouve e responde orações feitas em nome de Jesus, segundo sua vontade. Não preciso também de que ouçam as coisas que falo com Deus, senão as coisas que falo e faço em relação aos outros. Orações públicas pressupõem causas públicas. Alguns entendimentos e vergonhas secretas deverão permanecer secretos. Preciso do Pai que está nos céus, preciso ser santo como ele é santo, a fim de adorá-lo e usufruir o processo de glorificação do seu nome. Preciso viver a realidade do seu reino de graça, isto é, de justiça e amor. Preciso de que ele faça sua vontade em minha vida, plasmando em mim a beleza do seu caráter. Certamente Deus transformará o meu caráter à luz de toda sua bondade. Deus ouve e atende orações, primeiro, porque ele é bom e, segundo, porque ele recompensa o entendimento e acato de sua vontade.

Wadislau Martins Gomes

*Excerto do livro Quem cuida de quem cuida? (Editora Cultura Cristã).

terça-feira, março 12, 2013

IRMÃOS NA FÉ



Comecei a procurar amigos nas redes sociais como instrumento para conhecer meu próximo, compartilhar ideias e conectar-me a um mundo mais amplo; onde pudesse comunicar aquilo que está no coração e pensamento de uma mulher cristã que deseja a evangelização e edificação do Corpo de Cristo.

Conhecendo o próximo

Descobri velhos e novos amigos. Procurei principalmente amigas com as quais compartilho os mesmos ideais. Muitas delas vieram por meio de seus cônjuges ou pastores, e passei a comunicar também com formadores de opinião. Simples mulher cristã, que procura pensar e agir biblicamente, tenho de ter opiniões formadas, desenvolvendo a mente após a mente de Cristo (Rm 12.2; 1Co 2.16; 1Co 14.15; Fp 4.7).

Ser professora – quer de inglês ou de escola dominical quer da APEC quer de Bíblia quer de teologia filosófica – é apenas o cumprimento de minha missão no do Corpo de Cristo, praticando o dom que Deus dá. Hoje, não exerço nenhum magistério, mas sou desafiada a postar marcos e escrever para quem quiser ler – assim, escrevo. É certo que o contexto histórico e profético do versículo que compartilho adiante é do povo de Israel no final do século sétimo e parte do sexto, durante o reinado de Josias e até pouco antes da tomada de Jerusalém por Nabucodonozor – mas vejo uma aplicação para minha vida e para a vida de muitos irmãos: “Põe-te marcos, finca postes que te guiem, presta atenção na vereda, no caminho por onde passaste; regressa, ó virgem de Israel, regressa às tuas cidades.” (Jr 31.21).

Descobri que muitos “próximos” não partilham e até debocham de ideias que ainda me são caras. Eu também não concordo com muitos escritos de amigos. Lembro-me de um irmão que abençoara muita gente, empresário cristão, exclamando num encontro de casais: “Eu não admito esses puritanos que se julgam melhores do que outros!” – sem saber que meu marido e eu tínhamos bom contato com o puritanismo. Ou do jovem pastor que, apresentado a outro pastor antigo da igreja batista, exclamou: “Ainda bem que é batista e não pentecostal!” – e esse pastor era dentre os fundadores da igreja batista pentecostal da cidade. Muitas vezes, Wadislau foi convidado para pregar em congressos e congregações de igrejas de forte tendência arminiana (Batista Livre, Metodista Wesleyana, Prebiteriana Renovada, por exemplo), embora, se olharem o seu currículo, verão que ele é pastor de convicção calvinista há mais de quarenta anos. E muitos de nossos amigos calvinistas fazem forte oposição ao pré-milenismo, embora nós sejamos convictos do pré-milenismo histórico (como foram Charles Spurgeon, James Boice e Francis Schaeffer, entre outros grandes homens de Deus). Estudamos em uma escola de visão dispensacionalista, e estamos cercados de pastores amigos que têm visão amilenista. Fico lembrando a discussão na igreja de Corinto: “Eu sou de Paulo, eu sou de Pedro, eu sou de Apolo” (1Co 1.12-15; 1Co 3.4).

Além de irmãos que partilham da mesma fé tendo diferenças doutrinárias, temos alguns amigos que abandonaram a fé em que continuamos firmes. Alguns amigos têm hábitos diferentes dos meus (tenho amiga querida que ama dançar tango e outra que fala em línguas – hábitos que não tenho!) ou visão política divergente, (tenho amigos pacifistas e outros “guerreiros”) mesmo que tenham a mesma fé que a minha. Alguns acrescentaram “outro evangelho”, outros descartaram fundamentos da fé como o nascimento virginal de Cristo, ressurreição e juízo eterno. Outros são claramente hereges devido a desvios comportamentais: adulteraram a Palavra de Deus porque houve infidelidade conjugal ou “assumiram sair do armário” e deixaram a igreja ou fundaram outra mais inclusivista. Mesmo com esses, permaneço amiga, não me julgando superior a eles, embora não cooperadora, desejosa de que voltem ao rebanho de Deus, como desejo aos amigos não convertidos que conheçam a Jesus e recebam-no como Salvador e Senhor da vida.

Eu não assino embaixo de tudo que dizem meus amigos. Só os rejeito quando, “dizendo ser irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais” (1Co 5.11) – não por considerar-me melhor, pois “tais fostes alguns de vós, mas vós vos lavastes...” (1Co 6.9-12) mas porque quero que nossa comunicação glorifique a Deus de modo prático.

Comunicando graça

Há amigos que comunicam graça mediante sua arte (as postagens de amigos músicos e artistas poéticos ou plásticos que enobrecem a vida) ou humor sadio (são engraçados e enchem a vida de bom humor). De vez em quando um amigo ranzinza só comunica desgraça e descrença – por esses tenho de orar e, se suas comunicações continuarem nesse tom, excluir do convívio. Isso não quer dizer que a comunicação seja sempre poliânica (lembre a história de Poliana que via beleza e alegria em tudo? Isso não é bíblico!); porém ela deverá ser graciosa, na graça e paz do Senhor Jesus. Amo o “Mas Deus...” de Efésios 2.4-1 que descreve a graça em que desejo me firmar e compartilhar ao próximo. Que qualquer comunicação que fizermos – seja a viva voz, por escrito, ensino ou simplesmente sendo em essência aquilo que somos – seja na graça e paz do senhor Jesus, que nos reconciliou na cruz, dando-nos acesso ao Pai pelo Espírito (Ef 2.14-19).

A promessa de Deus feita por Jeremias (31.33) fala da lei do Senhor impressa na mente, inscrita no coração de seu povo e é reiterada em Hebreus 8.10-11: “Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior”. A promessa é que todos os irmãos, desde o menor até o maior, conhecerão a Deus.

Elizabeth Gomes