quinta-feira, setembro 01, 2011

ACONSELHAMENTO E PSICOLOGIA EM PERSPECTIVA


QUEM VENCERIA EM UMA LUTA ENTRE
O SUPER-HOMEM E O SUPERMOUSE?

O universo das discussões sobre o sistema da fé cristã frente aos sistemas seculares está povoado de super-heróis fantásticos. Nos quadrinhos estáticos, eles adquirem movimento aos olhos do leitor com maior poder do que o daqueles ressuscitados no cinema 3D. Parecem reais! Parecem vivos! Até mesmo, depois de cerradas as capas, as imagens permanecem na mente como a impressão da luz que resta nas retinas. O mundo real e o mundo virtual se confundem de tal forma que, acordados, ainda sonhamos novelas.

Duas dessas personagens são o superaconselhamento e a superpsicologia. A história de como esses nomes comuns adquiriram condição de nomes próprios é a mesma dos rótulos comerciais: gilete virou lâmina de barbear e xerox virou cópia. Com efeito, aconselhamento fora do gibi é a ação de ajuda que se presta em diversas áreas da interação humana. Advogado é conselheiro legal, médico pode ser conselheiro da área de saúde. Psicologia fora do gibi é conhecimento do ser interior e seus relacionamentos externos. No caso da ajuda a pessoas para solução de problemas internos e externos, o conselheiro se utiliza de conhecimentos relacionados à antropologia, à sociologia e à psicologia. Assim, aconselhamento e psicologia não são termos sinônimos nem mutuamente excludentes.

Especialmente, quando definidas como aconselhamento cristão ou aconselhamento psicológico, essas expressões não podem ser tomadas como equivalentes, quer em justaposição quer em oposição. Certamente, há muito aconselhamento cristão que não é cristão em função de não ser baseado em uma correta interpretação da Bíblia; e há aconselhamento psicológico que não é psicológico por que parte de um entendimento incorreto da origem e da natureza humana.

Uma maneira de ilustrar isso é por meio da pergunta: entre um livro de psicologia e a Bíblia, qual deles você escolhe como tendo maior autoridade? O psicólogo não cristão, coerentemente, diria: o livro de psicologia, é claro! O cristão comum, especialmente se o interlocutor fosse crente, responderia: Claro que é a Bíblia! No entanto, qualquer escolha estaria errada. A revelação bíblica e qualquer outra revelação não são para serem comparadas por que pertencem a diferentes categorias. A Bíblia não é um modelo de escola de psicologia, sociologia ou antropologia. Ela é o livro da sabedoria divina, eterna, dada aos homens para interpretação da realidade temporal. Ela descreve a pessoa e suas relações com Deus e, com base nesse conhecimento, possibilita às pessoas o conhecimento próprio, das outras pessoas e do mundo.

Desse modo, a revelação de Deus na Escritura fornece os elementos necessários para a interpretação da natureza, isto é, do seu propósito e da sua condição. Trocando em miúdos, a Bíblia, além de revelar o caráter de Deus e sua graça salvadora em Jesus Cristo, serve também para interpretar todas as coisas que ele igualmente nos deu, a criação e a criatura. Quanto a isso, não se deixe enganar. Há somente dois tipos de interpretação do mundo e do ser humano: a visão do regenerado e a do não regenerado. O que passar disso é história de super-homens e de supermouses.

Na vida real, os que são chamados e amam ao Senhor não se reconhecem diferentes dos demais irmãos de carne e sangue. Todos vivemos no mesmo mundo e nos alegramos e sofremos com as mesmas coisas. A diferença é que uns creem que Deus é o Criador e Salvador e colocam-no como ponto referencial de toda a existência, e, outros, tomam como referência o “fato” virtual que Deus não existe. A psicologia bíblica diz que a personalidade humana tem existência em Deus – o EU SOU define quem eu sou. A psicologia sem Deus diz que o que eu sou define a existência.

Isso gera a questão: quem é que ganha em uma briga entre a psicologia bíblica e a psicologia secular? Claro que a pergunta vem em diferentes balões, na boca do super-aconselhamento ou da super-psicologia: “Como é que fica?” “Jogo fora a psicologia que aprendi?” “Jogo fora a Bíblia?” “Divido meio a meio; ‘seis dias psicologizarás e no sétimo aconselharás’?” Quer mesmo saber? Então, leia de novo tudo isso, acima, e responda: Teoria da evolução ou revelação da tese da criação? Verdade relativa ou absoluta? A nova liberdade moral segundo o curso deste mundo ou a liberdade moral do conhecimento e comunhão com Deus? Visão do homem segundo a carne ou segundo o Espírito? Super-homem vs. supermouse ou conhecimento revelado de Deus em bondade para o homem vs. observações humanas desprovidas da luz de Deus?

Deus é luz que ilumina a todo homem. Alguns recusam se aproximar da luz e refletem no mundo as suas próprias trevas. Nós, no entanto, que não somos luz, mas fomos chamados das trevas para a luz, deveríamos refletir a glória de Deus – aquele que criou o mundo por meio da sua palavra, dizendo “haja luz”, e que brilhou em nossos corações para “iluminação do conhecimento de Deus na face de Cristo” (cf. 2Co 4.6). Todos recebemos a luz da graça de Deus, que cai sobre crentes e não crentes, tal como a luz do sol; mas os que amam a Deus, recebem a luz da graça salvadora que os habilita a romper a obscuridade do coração humano. Deus mesmo criou o gênio humano que observa o homem e o mundo, e que, assim, não pode fugir ao fulgor de sua glória. Psicólogos incrédulos não puderam evitar a constatação de aspectos da glória divina plasmada no ser humano. Cada gênio da psicologia viu algo da luz de Deus refletida no homem. Mas nenhum deles pode ver, de seu ponto de vista, a totalidade do homem em referência a Deus. O conselheiro cristão, sim, tem o testemunho interno do Espírito Santo e a instrumentação da Escritura que o próprio Espírito aviva, podendo avaliar as observações seculares à luz da revelação divina, como está escrito: “julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1Ts 5.21).

A forma de julgar as coisas, para ser coerente, não será por meio de juízo privado, pois nenhuma revelação vem de humano saber, mas vem do alto e deve ser observada segundo a reta justiça – “Observai os meus estatutos, guardai os meus juízos e cumpri-os; assim, habitareis seguros na terra” (Lv 25.18). A Bíblia fornece instrumentos para esse tipo de discernimento. A doutrina bíblica, que é uma coleção de instrumentos de sabedoria, compõe um sistema teológico (conhecimento de Deus) para avaliação da psicologia. A Palavra de Deus descreve uma antropologia, uma sociologia (tanto da humanidade quanto da igreja), e uma psicologia (homem interior/exterior). Assim, para não cair na historia em quadrinhos, não poderemos pinçar observações humanas, pretendendo que uma coisa na psicologia seja a mesma coisa na Bíblia, nem fazer uma salada de psicologia com molho de teologia. Será preciso sabedoria divina para, bem enxertado na Videira, que é Cristo, desconstruir o sistema da carne, do mundo e do diabo, e, então, frutificar para a vida eterna.

De nada adiantará fazer uma faculdade de psicologia e ser formado em teologia de quintal. Ler o livro maçudo da psicologia e o gibi teológico – de nada adiantará todo o conhecimento teológico com superficialidade psicológica. Esse tipo de preparo implica em duplicidade ética, isto é, em tentar servir a Deus e aos senhores deste mundo. Se o conselheiro, psicólogo ou pastor, quiser ser efetivo, deverá ser versado no conhecimento de Deus segundo sua Palavra e, à sua luz, formular um modelo que espelhe a glória de Deus em todo o esplendor da sua graça, em salvação e em juízo. Só assim o conselheiro cristão deixará de se sentir como um superrato em guerra contra um super-homem.

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, junho 28, 2011

PROCISSÃO, MARCHA E PARADA

Rafael (1483-1520). Detalhe de A Procissão ao Calvário, ca. 1504-5.

Chegando as festas juninas, alguns pais protestantes se ouriçam. É culto de santo! – dizem. Os filhos, desconhecendo a razão, continuarão a protestar contra a atividade festeira. Nem adiantará argumentar que é folclore. Uns seriam, até mesmo, capazes de responder: Que folclore que nada. Nunca vi festa de saci-pererê... Até aí, tudo bem; dá gosto de ver! Entretanto, param aí. No restante, acomodam-se como mingau de aveia no prato. Pouca coisa mais incomoda, nem mesmo outras caminhadas sem destino.

Os três termos – procissão, marcha e parada – descrevem gente em desfile. A diferença está na cara dos cultores. Uns trazem cara comprida, escorrida como de mamão macho ou de amendoim em casca, e vão devagar com o andor porque o santo é de barro; outros vêm de caras limpas, alegres, canoros, misturando bandeiras de verdades e falsidades que ninguém pode saber se portam; e outros, ainda, ruidosos, reivindicativos, exibem a cara pintada e a alma pelada.

A coisa em si teria algum mérito, não fosse uma motivação errada. Os que lembram a história da cruz, em procissão, deveriam saber o sofrimento – não o dó piegas que infama a Cristo, mas as dores do nosso próprio pecado que o levou ao sacrifício –, pois, de outra maneira, apenas exibirão ao mundo a crença de que ainda estão sob a ira de Deus. Os que conhecem o Senhor pessoalmente deveriam marchar “de modo digno da vocação”, isto é, com verdade praticada em cada passo da vida, para mostrar que estão salvos da ira. Os que não conhecem o Senhor porque rejeitam o conhecimento de Deus, deveriam entender que a parada do “curso deste mundo” (Ef 2.1a-2) apenas publica uma ira pecaminosa contra a ira justa de Deus (Rm 1.18-32).

Com o perdão da expressão, préstito é coisa mais antiga do que andar pra frente. Em Israel antigo, a procissão era uma prática bem conhecida: Lembro-me destas coisas – e dentro de mim se me derrama a alma –, de como passava eu com a multidão de povo e os guiava em procissão à Casa de Deus, entre gritos de alegria e louvor, multidão em festa (Sl 42.4; ver Ne 12.32; ver também Mt 11.7-10). A marcha, também, tinha razão de ser: ...segundo o mandado do Senhor, se punham em marcha; cumpriam o seu dever para com o Senhor (Nm 9.23; cf. Js 6.1-21). Quanto à parada reivindicativa contra a palavra de Deus, diz Êxodo 23.2: Não seguirás a multidão para fazeres mal; nem deporás, numa demanda, inclinando-te para a maioria, para torcer o direito (cf. Mt 26.47).

Contudo, a parada do cristão é algo mais lúcido, maior e mais belo, do qual as procissões e marchas do Israel antigo são apenas sombras para a presente realidade: ...comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo (Cl 2.16-17). Para os verdadeiros adoradores, a procissão é a vida da igreja e seus andores são as vidas dos seus membros, em que somente, invisível, está o único trino Deus. Sua marcha espiritual não é movida para conquistar reinos, senão aquele para o qual fomos conquistados (Fp 3.12), nem milita contra carne e sangue (Ef 6.12). De fato, somos espetáculo para o mundo (1Co 4.9), tanto de opróbrio quanto de tribulação (Hb 10.33) para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais (Ef 3.10).

Quer procissão? Parada alegre? Marcha vitoriosa? Veja a receita do Salmo 15, de Davi:

1. Davi e o povo iam à Casa do Senhor:

Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte?

2. A proposta era uma de caráter e de andança em toda uma vida:

O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade;

o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho...

3. A caminhada da vida é feita retamente e com discernimento:

o que, a seus olhos, tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao Senhor;

o que jura com dano próprio e não se retrata;

o que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente.

Quem deste modo procede não será jamais abalado.

Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, junho 22, 2011

ESSE NEGÓCIO DE IGREJA


A moda pegou! As fachadas garganteiam os nomes mais diversos: “igreja do santo cuspe”, “da oração poderosa”, “universal/internacional”, “comunidade” e daí em diante; muitas evitam o termo “igreja”. Agora, gospel e evangélico sinonimizam uma cultura estereotipada que a gente não sabe se aprova porque, afinal, alguém ama a Cristo, ou se detesta até a roupagem usada porque, no final, desobedecem e depõem contra o Senhor da igreja. Tem igreja “de sucesso”, de “propósito” (só de ter propósito), de “sinais e maravilhas”, de “prosperidade” física e financeira e, até mesmo, “melhor do que as outras” – tudo no melhor do estilo igredianetics. Como todas as flutuações do tempo, essa moda também tem adeptos e críticos, ambos com capacidades para serem construtivos e destrutivos, e isso deverá inspirar cuidado quando à nossa consideração.

Primeiro terá de haver um exame pessoal honesto a fim de evitar autoenganos; esses são os berços de enganos dolosos e culposos. Será preciso uma autossuspeita sadia. Isso quer dizer uma ideia bíblica de que, mesmo redimidos e revestidos de nova natureza, ainda vivemos em uma batalha de carne contra Espírito. O jeito será o de encarar toda a fraqueza e tendência para o pecado que ainda restam em nós, depender da obra salvadora de Cristo, e receber para o melhor as críticas mal e bem intencionadas. Uma boa resposta de um coração transparente seria: “Já pela manhã, duas pessoas apontaram para o meu pecado; de uma, ouvi a voz da esperança que me motiva a abandoná-lo, de outro, o arremedo de voz que pretendia me paralisar sob peso de culpa – da parte de quem é que você vem?

Assim, relembrado o drama da cruz – em que a cobra ia cantando vitória ao pinçar o calcanhar do crucificado e, de repente, se deu conta de que era esmagada sob seus pés – poderemos proceder a uma consideração honesta (1Co 4.1-5). Igreja que é igreja, verdadeira, tem características inconfundíveis. Nela, o Nome é visto e ouvido no comportamento e nas palavras dos crentes (2Co 12.6). Por exemplo, “Jesus é Senhor” não é refrão de canto nem bordão de esquete; muito menos é frase de propaganda (ver  Mt 7.21). Na verdade, é uma declaração do pacto entre o Senhor e seus servos, em que o Senhor Jesus Cristo é o soberano redentor e nós, seus filhos, irmãos e servos.

Os que se bandearam para outros senhores com nomes parecidamente religiosos e os que, cansados de guerra, procuraram alvos e estratégias mais remansosas, os dois grupos têm um ponto de razão: ambos viram e ouviram um comportamento capenga e uma palavra frouxa (fofa e frouxa!). De um lado do caminho estavam os que criam na Palavra de Deus e, sem sucesso, tentavam segui-la por meio de suas próprias forças. “Creia e obedeça”, era o dito. Do outro lado, estavam os que não criam na Palavra e tentavam justificar o papel da religião na força motivadora do homem. O que realmente deveriam ter visto e ouvido, isso faltou: uma obediente crença na Palavra de Deus baseada em um relacionamento de amor com o Deus da Palavra.

Cristãos tradicionalistas pensam em termos de culto rígido, hinódia sacramentada, programações engessadas e linguagem igrejeira. Os progressistas, além de abolição do “velho”, pensam em termos de culto aberto e amistoso, cantoria pop, programação centrada no cliente e linguagem popular igualmente igrejeira. Ambos os grupos sequer percebem que patinam no barro ladeado de pregadores sem Palavra e cujo comportamento não mostra intimidade com Deus em Cristo e no Espírito. Tristemente, o que a maioria deixa ver nas palavras e nos atos é uma vontade rebelde contra governos estabelecidos e o desejo de estabelecer governo próprio.

 A igreja que é igreja tem um negócio a cuidar, e esse é fazer a vontade de Deus, como Jesus disse: Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe (Mt 12.50). Não é coisa de mercado, política, entretenimento e esse negócio todo. O Senhor advertiu em sua Palavra que atentássemos ao bom mercado, à boa política e ao bom e sábio entretenimento (Jo 2.16; 2Co 12.17; Rm 13.1-8; Pv 8). Mas quando qualquer deles toma o lugar do Senhor, vira idolatria. Nosso negócio é o de viver e anunciar o evangelho que transforma o crente em filho, irmão e servo! E isso só será possível, se o filho estiver em comunhão com o Pai, se crescer para ser irmão do Filho e primeiro Irmão, e se amadurecer sob a tutela do Espírito para ser servo de Deus e dos irmãos em Cristo.


A igreja é a família de Deus. Filhos de Deus tratam uns aos outros como bons pais e filhos; irmãos de Jesus tratam uns aos outros com afeto, dignidade e preferência; e servos do Senhor servem uns aos outros em obediência à Palavra, com alegria no Espírito (Gl 4.18-19; Rm 8.29; Cl 3). Isso havendo, não importará o escrito da fachada – o nome de Jesus Cristo será reconhecido. Os crentes cultuarão a Deus da maneira como ele quer ser adorado (Jo 4.23) e o evangelho ecoará e será visto por todas as nações (Mt 28.16-20).


Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, junho 13, 2011

GOLPE, REVOLUÇÕES, FERIDAS E PAZ


NOTA: Quando junto com papai preparava este texto dele para publicação no coramdeocomentário, decidi que não poderia deixar de usar da prerrogativa de uma breve introdução editorial. O texto me trouxe lágrimas aos olhos... É meu pai, falando de meu pai e de uma história da qual ele não gosta muito de falar.  Não é meu pai falando apenas das coisas que Rev. Wadislau fala – coisas como Bíblia, teologia, igreja, a igreja no mundo e coisas do coração...  Esse é ele falando de dor, não só a dor já no passado, mas a dor de cicatrizes que ainda marcam seu corpo e seu coração.  Marcam também o meu, pois vivi parte desta história, ainda que nascido depois que a graça já havia alcançado o Lau, no acampamento Palavra da Vida, em 1964. 

Papai não diria isto, pois faz questão que esse texto não contenha suas reivindicações pessoais, mas eu gostaria de ver os documentos referentes à sua prisão, à tortura, os arquivos do DOPS e o escambau.  Oro por aqueles que denunciaram, prenderam e torturaram meu pai – até mesmo os verdugos do pau-de-arara... Oro também pelos seus antigos companheiros de luta – até mesmo os traíras que o deixaram para trás... Aprendi que posso orar por eles porque vi a graça de Deus que fez de meu pai o companheiro meigo e bondoso que hoje tenho na casa ao lado, na igreja e no coração.  Hoje, oro junto com ele pelo Brasil, na esperança de que o testemunho de nossos irmãos em Cristo ainda faça dele uma nação mais cheia daquela maravilhosa graça comum que Deus derrama sobre justos e injustos.

Davi Charles Gomes
Filho, irmão e amigo

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"Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei." reza o princípio maior sobre minha vida (1Pe 2.17). Por isso, Senador Sarney, temo a Deus e trato-o, aqui, com honra de presidente. No entanto, por amor aos meus irmãos pela adoção no sangue de Cristo e aos do sangue brasileiro, não posso concordar com feridas mal tratadas. Certamente, uma das causas de vivermos tanta miséria e violência, e de experimentarmos frustração na aplicação de medidas corretivas, vem de um tipo cultural de politicagem e revisão histórica em que a impunidade é quase um hino nacional. A mesma lei maior, falando dessas causas e consequências, diz também: "Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo" (Is. 1.6).

Não sou de "esquerda", "direita" ou "centro", nem "pós" ou "neo" coisa nenhuma; muito menos, "neutro" ou "amorfo". Hoje, com 66 anos, mantenho uma cosmovisão cristã que me permite transparência e modéstia na guarda do meu coração. Nem sempre foi assim. Quando menino, entre dezoito e dezenove, minha polivisão era uma gangorra em parque de diversões. Livros da estante de meu pai mostravam-me um mundo constitucional, enquanto um homem de leis e alguns amigos preocupados me apresentavam livros de um mundo em revolução. Optei pela mocidade. O discurso de defesa de Fidel tomou o lugar da minha Bíblia. Não é preciso dizer, aqui, que a revolta já havia comprado meu coração a preço absurdo de inflado.

Foi no dia 1º de Abril de 64 que a mentira me pegou. Garoto, civil posto para ser poema de Bilac no Tiro de Guerra, fui arrancado de o lado de meus pais, da fortaleza protetora de minha casa. Cães e homens de farda verde e de farda preta violentaram meu mundo como quem dita a vida! A cela da cadeia substituiu minha sala de aula. Seis presos condenados por crimes de outra ordem ensinaram-me o que significava ser "preso político". Deixando de lado tapas e chutes regados com saliva e sanha, aprendi que "quantas" e "contras", ambos os lados viviam revoluções. Graças a Deus, um preso com uma Bíblia e um diretor de presídio com uma pistola vieram em meu socorro contra agentes sem nome, sem documento e sem esperança.

A mesma graça de Deus que abriu meus olhos brasileiros como abriu o Mar Vermelho para os hebreus, e que usou o preso crente e o delegado consciente, fez-me também conhecer a paz de Cristo paz com Deus e com os homens de boa vontade. Mudei. Passei a viver e a falar da esperança de um novo mundo sem revolta. Certamente, não porque temi a homens, mas por temor a Deus. Foi uma transformação sofrida, mais do que a de menino sendo aterrorizado com requintes de programa de TV moderno, instado a entregar qualquer um para que repetissem o delírio. A transformação de Cristo foi mais sofrida que as das revoluções sociais e violências individuais; teve traição, teve sangue, teve dor de ver o vergaste da mentira nas costas da realidade. Mas teve paz. Paz de ferida lavada, pensada, curada. As cicatrizes são provas de que sobrevivi.

Sete anos depois, já havia estudado a Palavra de Deus e coisas pertinentes à tarefa de ministro do Evangelho e cumpria meus deveres pastorais. Foi quando vi a igreja que visitava como pregador ser invadida por uma turba igual a que vira, antes, em casa. Fugi. Deixei mulher e filhos, a fim de buscar ajuda da sensatez. Entreguei-me a autoridade inteligente e manejei me safar de mais feridas brasileiras.

Aí, então, Senador com honra presidencial, é que eu pergunto. As feridas vão ficar aí? Mal lavadas? Purulentas? E olhe que não é só torturador que se pela de medo. Tem muita gente "boa" hoje, torturada, que se mela de medo que descubram a quem foi que entregou. Mas não tem nada não. Conto mais uma. Estava em um acampamento de jovens cristãos, e disse-lhes como o Senhor Jesus havia me tirado de propostas de lutas de poder inglórias, para os sofrimentos e glórias de sua luta. Logo depois, fui procurado por um senhor, uns quinze anos mais velho do que eu, que me mostrou uma fotografia. Custei a reconhecê-lo, tão mais novo no retrato. Mas quando vi em seus olhos a tristeza do passado e a esperança da alegria do presente no futuro de Cristo, eu soube o que fazer. Estreitei a mão do meu torturador e, juntos, limpamos a ferida.

Vamos lá, Senador Presidente! Cristo pode mudar sua visão sobre feridas e curas!







Wadislau Martins Gomes

domingo, junho 05, 2011

NÃO SOU HOMOFÓBICO


Para não criticar sem conhecer, dei uma olhada no material do “kit contra homofobia”, do MEC. Depois de ver a coisa toda, o que ficou na cabeça foi uma sensação de viver no país do Pica-Pau Amarelo, do Monteiro Lobato, pleno das reinações de Narizinho com o pó de pirlimpimpim. No final de “A Reforma da Natureza”, Emília diz: “O nosso segredo é o faz de conta” – e, diante do desentendimento do Dr. Zamenhof, a boneca de pano conclui – “Pois faça de conta que entende” ( A chave do tamanho, SP, Brasiliense,1976, p. 124).

Como exemplo, um vídeo do kit, “encontrando José Ricardo”; pena que em nosso Sítio sempre mudem o nome do filme; saiu: “Encontrando Bianca”. Os argumentos do José Ricardo para a transformação da natureza têm a mesma consistência do reino encantado de Taubaté. Sonhos paternos de sucesso e pé na bola, sobra de piadas, unhas pintadas de vermelho, gripe fingida, preconceitos, roupa nova, troca de nome, sentir-se mulher e o grande desejo de usar o banheiro feminino – nada disso constitui argumento. Antes, relata uma história do coração que revela causas mais profundas. Usar o banheiro feminino não é sonho só do José; é sonho inconfessado de adolescentes e outros mal crescidos, e esse problema é o menor. Há problemas verdadeiros a serem discutidos.

(i) Um deles, josés e biancas, é o do tratamento do mau preconceito (pois há bons preconceitos como, por exemplo, o preconceito contra o mau preconceito). Nada justifica um ataque a alguém sem que haja causa justa e perigo iminente. Todas as pessoas, independentemente da identidade projetada, portam a imagem de Deus em virtude da Criação. O fato de a pessoa natural se encontrar carente do reflexo adequado não significa que deverá ser mal amada. Com efeito, todos pecamos, de uma ou outra maneira, e alguns de nós carecíamos do entendimento de Deus (Rm 3.23) até que fomos refeitos à imagem de Cristo (2Co 4.6). Portanto, não nos cabe julgar as pessoas, mas mostrar-lhes o amor de Deus pelo pecador (Jo 3.16). Entretanto, isso não quer dizer que tenhamos de mudar nossa consciência cristã, fazendo do ruído do “eu” autônomo psicologizado e do super pó emiliano, uma imposição curricular.

(ii) Outra questão é a do próprio preconceito, isto é, da pressuposição que, quer queiramos quer não, está na base de todo comportamento. Algumas pessoas dizem que uma preferência de orientação sexual diferente da identidade sexual é coisa pecaminosa e causa de conflitos. Outras, dizem que esse tipo de preconceito é a própria causa de conflitos, e que os escolhedores ou indecisos necessitam de terapia. Contudo, os "sem preconceitos" acabam demonstrando preconceitos maiores. Por exemplo, a “terapia de identidade sexual” (Throckmorton & Yarhouse, 2006) faz isso ao propor uma congruência pessoal, confundindo potenciais conflitos de identidade sexual com religião e (pasme!) tratamento de desordens tais como dor crônica, abuso de drogas e depressão. Aí, vem a pergunta: o conflito existe porque a pessoa quer escolher e a cultura tradicional não deixa, ou o conflito existe porque fomos criados por Deus com identidade sexual definida e preferimos viver sem as restrições de Deus?
(iii) O bom senso leva a crer que valores tais como sexo e sexualidade sadia devam ser ensinados não só na escola, mas em casa, na igreja e em outras devidas esferas de autoridade. Entretanto, faz crer também que não é papel do governo determinar quais sejam esses valores nem impor sua própria ideia de quais sejam sadios. Como é que fica? No caso da Emília, a boneca ditadora, quando confrontada com a monstruosidade das consequências da reforma da natureza, decidiu: “Sempre achei a natureza errada...” – para que vaga-lume piscar-piscar, tanto beiço na Anastácia e dois chifres numa só vaca – “Erradíssimo. Eu... deixava tudo um encanto...” (op. cit., p. 90). Assim é que as leis são passadas em nosso Sítio. Emilianos e viscondes de sabugosas, de uma penada, querem transformar a natureza. Para quem achar ruim, vai a pecha, como encanto: homofóbico, homofóbico, homofóbico!

Não, não sou homofóbico. Sou homomórfico, preservando a igualdade e as diferenças (função biunívoca) da sexualidade e da relação sexual dentro do casamento. Sábia mesmo foi tia Anastácia que recomendou: “Não se ponham a ajudar os pintinhos a sair da casca senão eles morrem... Pinto sabe muito bem se arrumar sozinho. E não se esqueçam de molhar as mudinhas de couve lá na horta” (op. cit., p. 92).

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, maio 26, 2011

EVANGELHO IMPLOSIVO & ESTALOS DE SALÃO


Evangelho explosivo é coisa boa. Especialmente com os sons e as cores da glória de Deus! É uma festa de genuína alegria do Senhor! Experimentei isso quando o Senhor Jesus “me pegou de assalto – cheguei a ver estrelas”, de dia. O problema é que, hoje, muito dessa explosão parece arte de terrorismo evangélico. Quase sempre, acaba em chabu teológico. Depois que a fumaça abaixa, sobram igreja dividida, crente mal passado, pastor frustrado, e muitos que nem querem ouvir falar de igreja. Do jeito que está, parece que isso acontece porque a comemoração vem antes da vitória: “assim como existem leis físicas, existem leis espirituais...”; “se o último avivamento provocou louvor, então é só louvar...!”; “sinais e maravilhas...”; “comunidade e culto relevante à audiência!”

Tudo isso tem algum mérito, certamente, mas onde é que está o antigo e sempre novo conteúdo do Evangelho? O que é feito daquele antigo e sempre relevante evangelho implosivo? Aquele de que Paulo disse: tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós (1Co 14.25). Essa é que é pólvora da boa!

As razões pelas quais houve mudanças de orientação no rumo da missão da igreja – dos meios providos por Deus, para os do mundo – não são muitas nem tão difíceis de serem percebidas. Basta considerar as regras chave da estratégia bíblica, e saber que são os motivos do coração que fazem operar os braços e as pernas: onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração e ninguém pode servir a dois senhores (Mt 6.21,24). Em outras palavras, meu comportamento denuncia aquilo em que eu realmente creio. Daí, essa confusão toda de evangélico, evangelical, evangeliquês, soltando traque e achando que é rojão.

Uma das bombinhas de um real o grama é a do tradicionalismo caseiro, que impede que andemos... em novidade de vida (Rm 6.4). Outra é pouco mais cara porque solta faíscas coloridas de planos e doutrinas fátuas e que, geralmente, sai na frente, orando para que Jesus venha atrás; essa atropela o passo porque anda no ritmo das últimas novidades (At 17.21).

Geralmente, os grupos de fogueteiros têm atitudes similares; ambos desejam ganhar almas e propõem o alvo de fazer a igreja crescer. No entanto, a maioria das vezes, isso fica tão à frente do quadro da missão da igreja que perdemos de vista os meios de graça que Deus ordenou para a evangelização – a saber, a pregação para expor os motivos do coração, do eleito para a salvação e, do réprobo, para condenação. A pregação correta do evangelho atinge o coração da pessoa. Destrói ou confirma a rebelião contra Deus; provoca o arrependimento ou faz recrudescer a reversão do pensamento contra os pensamentos de Deus; e fornece uma perspectiva da centralidade de Deus em vez da centralidade da própria pessoa.

Sem isso, não há evangelização. O mundo aí fora não crê na pregação do evangelho porque a comunhão com Cristo e com os irmãos exteriormente exibidas na ceia do Senhor e no batismo não concordam com o restante do que dizemos e fazemos na “vida real”. Perdendo de vista o poder e a eficácia dos meios de graça, geralmente escolhemos um ou mais raios da roda do evangelho e o tornamos o eixo central. Se isso acontece, sai de perto, porque, aí, a roda de fogos fica louca e espalha brasa para todo lado, queimando crentes “impossíveis” e possíveis. No entanto, dá para saber se a foguetada é ou não de confiança.

Entre os primeiros estão os buscapés do misticismo que se apresentam de diferentes formas. O Deus transcendente e imanente (no sentido de que é a essência da criação) ora é visto como o “Deus de longe” ora como o “Deus de perto”, atraído ou apreendido em êxtase ou contemplações, e liberado em termos de sinais e maravilhas. Certamente Deus é Deus de perto e de longe (o corinho está errado) e fica-lhe bem o louvor, mas o louvor não salva – quem salva é Cristo, aquele que liberta o louvor (Hb 13.15).

Depois, vêm as salveiras religiosas: igrejas tradicionais, do tipo que promove campanhas de despertamento, convites para o culto etc., e igrejas modernas, do tipo amigável ou de propósito ou de sucesso (não tenho nada contra o propósito de glorificar a Deus, mas sim, contra o propósito de só ter propósito). Com efeito, a igreja reunida dá testemunho da fé, o culto é evangelizador, e Deus quer que a igreja cresça, mas não é o poder da igreja que anuncia a Cristo; antes, a igreja é que tem de anunciar o poder de Cristo (Mt 28.18-19).

Então, vêm as baterias de técnicas de evangelização. Missões se tornaram rojões de um só tiro, um fim em si mesmo. O “ide” substitui o “indo” do texto original da Grande Comissão. Vale mais “ir” do que “como ir” de modo digno da vocação (Ef 4.1). “Plantação de igreja” segue o padrão de um só missionário modelando igreja para culturas que sequer discernem fogos de artifício de queimada no mato. O bom método de igrejas modelando igrejas cedeu lugar para espoleta “missionária”. Do ponto de vista individual, as reduções do evangelho a formas sintéticas (quatro leis, testemunho pessoal, etc.) deveriam ter um conteúdo substancial mínimo do conhecimento da Palavra: quem é Deus; qual é o fim principal do homem; qual seu problema; qual é vontade divina revelada na Bíblia; quem é Jesus e qual é a totalidade da sua obra – encarnação, vida de obediência, morte, ressurreição e ascensão – qual é a obra do Espírito Santo e qual é o papel da igreja na adoração de Deus e sua glorificação diante do mundo. Mas, mesmo assim, o cumprimento da Grande Comissão, com toda a sua importância, ainda não é o ponto central.

Com efeito, há um espetáculo (1Co 4.9) que inclui todos os bons artefatos pirotécnicos, e sem explosões de vaidades. Essa é a apresentação do evangelho que vivemos de modo coerente com o evangelho que pregamos; é o programa da igreja que é a própria vida da igreja. O evangelho que as igrejas reformadas deveriam guardar e anunciar é um de Verbo e Vida, Cristo, traduzido em nossas palavras e vidas. Ele tem o elemento sobrenatural, o Deus de longe e de perto, Senhor e Pai, a quem adoramos em espírito e em verdade; tem uma apresentação da igreja em adoração no culto familiar e público, com hinos e cânticos espirituais, pregação da Palavra e comunicação de graça; e tem um aspecto do esforço obediente para “indo” de modo digno da vocação, pregar o evangelho de Cristo a todos os homens, fazer discípulos dos que são chamados para seguir a Cristo, batizá-los na fé e na comunhão dos santos, treinando-os aqui e agora para viver a vida eterna na terra e para os céus.

Todos os fogos juntos são o meio para a pregação e para o crescimento na fé e da fé. O começo e o fim estão em Deus. De nada adiantará ser bom pregador evangelista, de púlpito, de televisão, de estádios e daí em diante. De nada adiantará também orar como quem tem de convencer Deus a salvar o pecador. Foi ele quem os amou e criou e chamou; quem nos amou; e quem convence, persuade e constrange o coração. Foi Cristo que morreu e ressuscitou; e nós somos seus embaixadores, cartas vivas, bom perfume, brilho celeste.

Aqueles a quem vamos com o evangelho – por mais que se mostrem entusiasmados com sinais e maravilhas, e se encantem com o acolhimento na igreja e com a exuberância das bênçãos que reluzem no testemunho pessoal – precisam ver a Cristo. Ele se revela em sua Palavra para despertamento da fé, para justificação e santificação. Se o Espírito não traduzir a pregação do Evangelho, ninguém entenderá nossas estratégias e técnicas; e se o Espírito não operar em nossa fala e vida (discurso e comportamento), ninguém nos ouvirá sinceramente nem desejará ser o que dizemos que somos.

Concluindo, somente o evangelho de “Cristo em nós” e “nós em Cristo” poderá atingir a rebeldia do coração que se opõe a Deus, a reversão dos pensamentos humanistas que trocam a verdade pela injustiça, e a inversão dos papéis em que o homem é o centro da religião e, Deus, um mero atributo. Esse é realmente um evangelho implosivo.

Wadislau Martins Gomes

sábado, maio 14, 2011

BRAVO COM O QUE ESTÁ ACONTECENDO POR AÍ?


A morte do Osama, a revitalização do Obama, os passaportes dos Silva, a radiação no Japão, a relação do álcool e da gasolina, a imoralidade das minorias políticas e sociais, a inação da maioria, os destemperos naturais, o pecado de crentes e de incrédulos, e o meu próprio – tudo isso estava me deixando brabo. Até que, como disse o Drummond, em Caso Pluvioso, sobre uma chuva chamada maria: “e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, maria! - e ela parou”. E paro eu, não de ficar bravo nem de lutar, mas de permitir que as coisas me irritem e me impeçam de achar graça na vida.

Para que você me siga enquanto penso, deixe-me ilustrar com dois causos. Primeiro um da minha irmã que, pouco mais que menina, ensaiava a mocidade no vai e vem da praça do interior. Um moço desceu da lambreta, calças rancheira, saltos carrapeta, cabelo à Elvis, veio até ela, e disse: “Qual sua graça?” A pobre perdeu a graça, olhos no chão, e murmurou: “Eu não fiz graça nenhuma”. Depois, ô desgraça, percebeu a falta de jeito e desabalou para casa. Tempo depois, ela achou graça da história. É isso aí: graça é beleza que atrai, arte de se dar a conhecer, padrão de transparência de verdade em amor – e alegria autêntica!

O segundo é da minha infância. A panela sobre o fogão a carvão, sofrida do abrasamento da chama e do pó de arear, em um dado momento aprendia a assoviar, aos psius. Minha mãe, então, levantava a dita contra a luz para ver se o furo “dava conserto”. Muitas vezes, eu, olhando estrelas, pensava se o céu não seria o fundo sujo de fuligem de uma panela em que furos de estrelas deixavam passar fios de luz. É mais isso: a glória de Deus, varando a treva desta vida pouca, em réstias de graça, revela a beleza do Criador, sua verdade, seu amor, sua alegria. A cada clarão, eu digo: “Eu não mereço”. Então, tem mais essa: graça é isso: é o movimento de Deus na direção do homem a fim de lhe transmitir sua própria natureza.

Gente adulta, quando a noite chega, só pensa em conforto de luz elétrica e treme com medo de apagão; vive analgesia de televisão e ânsias de notícia ruim (terrorismos, guerras, violência urbana, abuso de toda sorte...); de dia, lida para ter abastança e sofre desmaios de impostos. Entra ano e sai ano, alimenta expectação de melhoria e frustração de trancos políticos e econômicos. Só de pensar, alguns se mordem de ira e, outros, parecendo calmos, acalentam desesperos românticos – “pra frente Brasil”, “um passo a mais (!)”, “agora é real”, “é a vez do trabalhador”, e até parece que a Nação descobriu a máquina do tempo: “o País do futuro”! Isso é de dar azia até em sal de fruta!

Nessa hora é que é preciso pensar na ira e na graça de Deus. Na graça irada de Deus. É isso mesmo, ira tem graça! Se não tiver graça, a dominação da ira será como insônia e pavor noturno. Sem ira, será como dormir a poder de remédio – mais dopado do que rolha de garrafa de pinga. Não entendeu? Vai outro caso. Caído da escada, braço quebrado, perguntei ao meu pai: “A dor não passa?” “A dor é boa, filho” – ele respondeu –, “é um sinal para nos proteger de sofrer mais; só é ruim quando é maior do que a gente”. Assim é a ira; em si mesma, ela é boa; serve para indicar que uma injustiça foi cometida. Só é ruim quando extravasa e fere pessoas ou, internalizada, machuca a gente e contamina a muitos.

O vídeo de suas excelências, nobres parlamentares, entre tapas e beijos freudianos, só não escandaliza mais porque já ficamos muito sem-vergonha. De cara lavada, as exegeses da mídia batem na fuça da gente: a face esquerda grita homofobia e a direita responde heterofobia. O que fazer? Contar piada? Disse o sábio que “Como quem se despe num dia de frio e como vinagre sobre feridas, assim é o que entoa canções junto ao coração aflito” (Pv 25.20). Pelado, vinagre na ferida? Nem pensar. No entanto, tem de haver uma roupa quente nesse frio despudor, uma canção nesse grito de sangue, uma réstia de luz nessa sombra desumana. Certamente tem, tal como o sábio continuou:

Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber, porque assim amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça, e o Senhor te retribuirá. O vento norte traz chuva, e a língua fingida, o rosto irado. Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa. Como água fria para o sedento, tais são as boas-novas vindas de um país remoto. Como fonte que foi turvada e manancial corrupto, assim é o justo que cede ao perverso. Comer muito mel não é bom; assim, procurar a própria honra não é honra. Como cidade derribada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio. (Pv. 25.21-28.)

A exegese do apóstolo Paulo aponta o caminho. Em Rm 12.9-21, ele diz que o “amor seja sem hipocrisia”, isto é, de cara limpa, em que seja visto o desgosto pelo mal e o apego ao bem (v. 9). Fala também de amor cordial, fraterno, “preferindo-vos em honra uns aos outros” (v. 10). Isso, é claro, só poderá ser exibido por quem é nascido de novo e tem o poder de Espírito para refletir a face de Cristo (cf. 2Co 4.1-18); não podemos esperar isso de pessoas que pretendem viver sem Deus, pois quem tem flores dá flores, quem não as tem não as pode dar. Mas quanto a nós que, pecadores como eles, fomos redimidos por meio da pessoa e obra de Jesus Cristo, Paulo continua:

No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes; compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade; abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. (Rm 12. 11-16.)

A chave para o relacionamento adequado entre o cristão irado/gracioso e essa situação de ira perversa do mundo em que vivemos vem nos versículos que seguem.

Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. (Rm 12. 17-21.)

Essas coisas, certamente, apagarão os “vídeos” de nossa vida em que a ira incontida cobre de lava e cinza todo o testemunho e beleza da glória de Deus. Ficarão aqueles em que a graça recebida é dada de graça a todos os homens, “sem ver a quem”, mas de olhos abertos para o mal que está aí que tem de ser combatido. Para isso, será preciso lembrar o que Paulo também disse: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4.26-27).

Para ser graciosa, a ira jamais poderá ser manifestada contra outras pessoas ou guardada no peito, sem exteriorização: ela terá de ser dirigida contra o problema! Como? Imagine que a patroa venha pedindo a tempos que você conserte “aquela” porta. Um dia você não pode, outro não quer, até que a coisa “pega”. Então, você faz com cara de mau, agarra prego e martelo, e desconta na porta. Findado o trabalho, rostos plenos de graça, você sente: “Que magnífico carpinteiro o mundo perdeu quando...”

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, maio 06, 2011

CRER E CRER: PROMULGADA A LEI DE DEUS SOBRE O HOMOSSEXUALISMO!

 

O crente crê; o incrédulo crê; o teísta crê; o ateu crê; o cientista crê; e o inculto também crê. É crença que não acaba mais. O crente em Jesus Cristo crê na Bíblia. O incrédulo crê que nada crê. O teísta crê que existe um Deus. O ateu crê que Deus não existe. O cientista crê que há alguma coisa aí para ser crida. O certo é que não há nenhuma outra base para qualquer conhecimento, a não ser a fé. A menos que você prefira dizer como o cara que viu o camelo, no zoológico: “Esse bicho não existe!”

Fé é mesmo coisa difícil de tragar. Até a descrição do conceito, de início, parece complicada: a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem (Hb 11.1). Como é que pode haver certeza do que é esperado e convicção do que não é visto? Valha-me Deus! E ele vale. Pense assim: se alguém não sabe coisa alguma sobre o que procura, nem se achar, saberá o que é. Se há alguma coisa sendo tratada, certamente algo é sabido e esperado, mesmo que não seja visto – ainda. Um exemplo disso é a Tabela Periódica dos elementos. Ela permanece tal como foi proposta, boa e genial. À época, foram calculadamente deixados em branco os espaços necessários para colocar elementos sabidamente existentes, mas desconhecidos. Havia fé em que, um dia, os elementos faltantes se encaixariam.

É algo como isso que está faltando, não na fé revelada, mas na evangelização do nosso povo. Sabe por que é que tanta gente não aceita ou abandona ou “muda” a fé cristã histórica a fim de acomodar a fé insossa? É que muitos que receberam o evangelho em fé não repensaram suas vidas em arrependimento – não reviram conceitos e comportamentos próprios da vida anterior nem se preparam para testemunhar o evangelho por meio de palavras e vidas coerentes. Assim, ficam na mente e no coração alguns espaços vazios que tornam difícil a digestão da fé. Tomando emprestada a figura de João, a fé é amarga no “estômago, mas... na... boca, doce como mel” (Ap 10.9). Mas como desejamos mel na boca ainda que com o estômago cheio de abelhas, os que creem que não creem e os que dizemos crer nem sempre estamos dispostos à coerência que a fé exige.

De fato, esse alheamento da fé faz parte do conhecimento natural do Deus desconhecido (At 17.22-31). O que quer que professemos, acabamos adorando algum tipo de deus. No entanto, só um é o verdadeiro. Ele é o Criador de todas as coisas e o próprio ambiente do homem, diante de quem teremos de prestar contas dos atos do nosso corpo. Vem, daí, uma questão: Como é que ficamos diante de duas declarações de fé, a do regenerado e a do não regenerado?

De um lado, o supremo e soberano Deus promulgou um termo de justiça, primeiro exarado na lei (Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação; Lv 18.22) e, depois, arrazoado no Novo Testamento. De outro lado, os supremos juízes da nossa terra passam julgado sobre os méritos do homossexualismo, com argumentos tais como: “a família é a base da sociedade, não o casamento” (Ministro Ayres Britto, considerando inconstitucional o artigo do Código Civil que trata a união estável usando os termos "homem e mulher"); ou "Desde que duas pessoas, somente" (Ministro Cézar Peluso, sem explicar a razão da restrição); ou "A união homoafetiva deve ser reconhecida como união estável para efeitos de proteção do Estado" (Ministro Luiz Fux). Todos eles, cuidando da causa, sequer chegam à questão do âmago do indivíduo – o vazio que só poderá ser ocupado pela adoração de Deus.

Com base na fé e na justiça (Rm 1.16-17) e movido por gracioso débito de amor para com todos os homens, crentes e incrédulos (vv. 13-15), Paulo faz um arrazoado mais profundo (1.18.32): a humanidade de agora não é a mesma como foi criada, mas experimenta uma separação interna e externa. No entanto, algumas coisas são certas e esperadas.

(i) Há uma dissociação com a essência da identidade humana, Deus, que é o ambiente de todo homem (vv. 18-20; 3.23; cf. At 17.24-29; Cl 1.15-17; Jo 1.1-4). O traço de personalidade que permanece havendo é a certeza de Deus está aí; a Bíblia diz que, de uma ou outra forma, todo mundo tem consciência do Deus verdadeiro, ainda que muitos a reprimam (cf. Rm 2.14-15).

(ii) Há uma crise de identidade psicológica em que racionalidade e irracionalidade geridas pela vontade decaída, equilibram-se e desequilibram-se em um turbilhão emocional (Rm 1.21-22; cf. 7.13-20).

(iii) Há uma dissociação da identidade humana com a natureza criada, que faz o homem não se diferenciar do mundo material e animal. Conquanto todos tenhamos certeza de não sermos deuses, ainda assim, tentamos assumir o papel. Na verdade, a própria tentativa – de controlar o mundo e as pessoas, de desejar justiça ou de reconhecer a injustiça, e de querer redimir o que está errado – é uma admissão do conhecimento de Deus. E é também uma admissão do pecado humano; pelo menos, de não querer reconhecer o Criador e Redentor de todas as coisas (Rm 8.22).

(iv) Há uma crise de identidade sexual (Rm 1.24-32). Negando o Criador, a criatura perde as dimensões de individualidade e coletividade, de igualdade e pluralidade, e de propósito e finalidade. Assim é que pares sem ovários e leite e pares sem testículos e sêmen pretendem uma vida sexual (lat., seco, “divisão da raça”) e muitos anseiam filhos.

(v) Há a convicção do testemunho de Deus, em Cristo e pelo seu Espírito, que ilumina a todo homem, externa e internamente, sobre a verdade e sobre o pecado (Jo 1.9-11; 16.7-11).

Certamente, este último item vem prenhe de esperança. Paulo mesmo disse que todos nós caímos em um ou outro pecado e, assim somos réus de todos eles (Rm 3.10). Em outro lugar, ele disse que não deveríamos nos enganar, pois nenhum impuro, idólatra, adúltero, efeminado ou homossexual, ladrão, avarento, bêbado, maldizente ou caluniador, ou corrupto apreenderia o código de fé e justiça do reino dos céus: Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus (1Co 6.8-11). De um lado, Deus não discrimina um grupo como o de homossexuais, mas a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos (Rm 11.32; cf. 2.11); de outro, sua Palavra não esconde os resultados da injustiça e dos desvios da fé. Sobretudo, ela diz:

Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão [Jesus Cristo] que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos (At 17.30-31).

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, abril 29, 2011

O HEREGE E A VITIMIZAÇÃO


Vitimização é um problemão danado; nem o dicionário aceita. O sentimento é indescritível. O que é possível fazer para dar uma ideia, é imaginar. Você entra em um banco por aquela porta gerativa de ansiedade. De repente, a respeitável anciã ao lado se lança contra a parede, estatela olhos e boca em desafino, dedo em riste em sua direção: “Não, por favor, não!” O bem treinado vigilante se lança ao chão, a senhora da mesinha do fundo se levanta brava como gerente, e todos os olhares convergem para a cena.

Quando cada participante da peça chega em casa e conta o caso, todo mundo acaba sendo vítima. Seu sentimento, no entanto, será o pior. “Se pelo menos não fosse uma velhinha, ela ia ver”. Vitimização tem disso: o fraco abate o forte exagerando fraqueza ante uma pretensa ameaça. Você sabe: o menor infrator pego em fragrante, o cônjuge que abusa o outro, o motociclista depois da cortada e do acidente, e o atacante que errou o golpe e acertou a parede.

Com tudo que havia para me incomodar na entrevista do Gondim, na Carta Capital de 27 de abril, fiquei engasgado com uma expressão: “Fui eleito o herege da vez”, como o destempero da velhinha vitimizada, gritando um “Deus me livre de um Brasil evangélico”. Na verdade, lá no banco, você poderia ter respondido: “Claro, senhora, como posso ajudá-la?” Mas nas páginas da imprensa giratória, ouve-se o grito e deixa-se pra lá. No entanto, não quero levar para casa o sentimento de que fui vítima do golpe da velhinha, não quero deixar de ajudar aos que veem a lição de vitimização; nem quero discutir opiniões, segundo diz 1Tm 4.7. Talvez, em benefício da alma da velhinha e dos circunstantes que ainda confiam nas instituições da fé verdadeira, eu diria o seguinte.

Deus me livre? Que deus? Um que não tem controle, não está sempre presente nem tem autoridade para livrar sua criação de acidentes e incidentes? O Brasil evangélico é mais poderoso do que esse deus. Claro que eu vejo esse Brasil evangélico com apreensão, mas, em vez de atacar a fé, ataco o pecado da rebelião que é descrença, da reversão mental que é infidelidade e da inversão da referência homem/Deus. A verdadeira igreja de Cristo, por disposição da graça de Deus, está aí, no meio da igreja brasileira. Somos pecadores, não menos do que todos os homens, e se nos alcança a graça salvadora, somos justificados pelo Deus que justifica o ímpio. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

Aborto, homossexualismo e influência islâmica? Esclareça-me algumas coisas: aborto é livre; mas, e se iniciássemos um movimento de aborto de papagaios e baleias? Homossexualismo é opção natural de identidade sexual, mas desordens de personalidades devem ser psicológica ou psiquiatricamente tratadas? Influência islâmica no mundo faz parte da ordem da história, mas proibição legal e ilegal da pregação cristã nos países islâmicos é de boa ordem? Ora, ora, esses temas não estão na agenda do cristianismo mais do que outras, e só entram em pauta por causa da efervescência do nosso tempo.

Tem mais: a cosmovisão anticristã é certa; a cristã é errada? No Brasil do futebol, é sabido que o jogo tem dois times, dois gols e regras próprias, e que o acerto pluralista (“eclético, ecumênico”) que seja bom para os dois lados é infração. Aqui também, ora, há duas cosmovisões possíveis: a do regenerado e a do não regenerado. Um tem seu ponto de referência em Deus; o outro, no homem. “Nós nos revoltamos quando um político abre a porta para o apadrinhado”. Nós também. Mas também incomoda quando o raciocínio é: se é assim comigo (ele), “Por que seria diferente com Deus?” Com efeito, é porque Deus não imita o homem, mas chama o homem para espelhar seu caráter.

“Se para ter sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então minha mensagem está fragilizada”. Aí, eu concordo, mas não com a maneira intencionada. A mensagem da vitimização, aí vista, sim, é frágil. Não da fragilidade humana que, como a erva, de manhã nasce e logo seca, pois essa é bíblica (Sl 90; Is 40; Tg 1; 1Pd 1; ver Mt 6; Lc 12). Antes, é fraca por causa da falta da transcendência que permite que nos comuniquemos (transcendência pessoal) e que permite que nos comuniquemos com Deus; sobretudo, que nos permite a eternidade (Ec 3.11). Nisso sim, há fraqueza doentia, moralmente má, eticamente perversa, que leva o homem a chamar ao soberano Deus da Bíblia de títere (marionete, pelego, bufão). “Vivemos como se Deus não existisse porque só assim nos humanizamos...”. Isso é que é se jogar contra a parede, gritando: sou vítima de Deus, enquanto o ataca. Mas não tem nada não; não há como reprimir a glória de Deus. Ele está no controle, presente e em autoridade.  Como disse Gamaliel: porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele (At 5.38-39).

Wadislau Martins Gomes

sábado, abril 16, 2011

DE ALMA E DE ARMAS



OU: FOCINHO DE PORCO NÃO É TOMADA

“O que esse pessoal não prova em nada é a relação entre as armas legais e os índices de violência. A nova tentativa de tirar as armas legais de circulação só vai expor o cidadão comum aos delinquentes, criminosos e lunáticos armados ilegalmente” (Leonardo Bruno, 13 Abril 2011, http://www.midiasemmascara.org/).

Inspirado no artigo citado acima, segue uma contribuição cristã para a solução do problema da violência.

Algumas figuras são tão boas que se encaixam na cabeça como plugue macho em tomada elétrica. Nessa linha, a imagem de Pv 11.22 é uma preciosidade: Como jóia de ouro em focinho de porco, assim é a mulher formosa que não tem discrição. À primeira vista, nós, homens, concordamos, levantamos o nariz, e mostramos o texto para a namorada ou esposa. Contudo, não confunda esse focinho de porco com tomada, pois a comparação aplica-se ao homem e à mulher, como vem no versículo seguinte: O desejo dos justos tende somente para o bem, mas a expectação dos perversos redunda em ira (v. 23). Em outras palavras: o desejo de justiça é uma jóia, mas quando injustamente reivindicada, revela nosso focinho de porco.

Essa definição é significante especialmente quando (i) uma violência geral e incontrolada toma conta de um número crescente de indivíduos e de grupos; (ii) a sociedade fica paralisada e entorpecida à espera de uma ação efetiva do governo; e (iii) o governo exibe inabilidade para discernir uma política correta e incapacidade para lidar com o problema. Creia nisto: homens tomados de ira maligna e cultores de violência só poderão ser combatidos por homens de ira santa, cultores da paz de Deus.

A ira, ao contrário da ideia comum, é primariamente uma virtude (cf. Rm 1.18 e Ef 4.26). Será correto, até mesmo, dizer que a ira é o diamante das jóias entre as virtudes morais. De fato, ela é o sentimento que nos sensibiliza a fim de reconhecermos uma injustiça cometida. A ira está para o senso moral assim como a dor está para o senso de integridade física. Não é verdade que, se o porco tivesse a expectação do abate, não se deliciaria tanto com o processo da engorda? A ira torna-se pecaminosa e destrutiva quando a reação contra a injustiça é feita com base na mesma injustiça. Por isso é a que Jesus também disse que, se nosso senso de justiça não for distinto e maior do que qualquer injustiça recebida, jamais apreenderemos a justiça do seu reino (Mt 5.20) e: todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento (v. 22).

Confrontadas quanto à ira pecaminosa, geralmente as pessoas negam ou justificam o sentimento: “Eu, irado? Não!” Ou: “Mas também, veja o que me foi feito!” Poucos reconhecem a natureza do sentimento. Entretanto, não há como esconder, e a ira injusta revela nosso focinho de porco. Homens e mulheres, ao se queixarem de maridos, esposas, filhos, patrões, empregados, colegas etc., estejam certos ou errados, sempre exibem humores irados. De um, a raiva intestina explode como espirro; de outro, a amargura azeda e escorre; e em ambos os casos, revela-se o focinho de porco (cf. Hb 12.14-17). Só há uma maneira justa para lidar com a ira: Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (Rm 12.21). E daí, se meu irmão foi mais aceito? Se meus pais erraram? Se meu trabalho não foi reconhecido? É Deus quem julga o homem; por que, então, eu tento acusá-los, e a outros (Cf. Rm 8.33)? Não seria o caso de atentarmos ao próprio rabo antes que bata a porta? Como disse Tiago, quem conhece a Palavra e não considera sua verdade é como quem olha no espelho e, depois, vai embora esquecido (Tg 1.23-25) do próprio focinho.

A Bíblia diz que a estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o Senhor que o seu coração se ira (Pv 19.3). Por que é que nossa rebeldia é sempre contra a “religião”? Ateus e crentes amargurados sempre se voltam contra Deus. Ele é sempre a causa da sua miséria. No entanto, no fundo, não queremos enfrentar a verdade porque ela é luz que denuncia nossa cara suja do último bocado de pecado. Sob essa luz, olhando no espelho, posso até imaginar a cara do Caim, filho do Adão e da Eva Silva-Éden (assassino do irmão) quando Deus lhe perguntou: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante (Gn 4.6)? A autojustiça de Caim brilhava em seu rosto como jóia em focinho de porco. O rapaz teria ouvido dos pais a história do coração a respeito de um tempo bom, na Criação, em que a vida tinha sentido, em que dignidade pessoal e aceitação amorosa regiam os relacionamentos. Entretanto, sua experiência era uma de difícil digestão: por que seus pais fizeram o que fizeram e por que ele é que deveria ter saudade do jardim que não conhecera e ainda ter de aguentar as pendengas da família? “Eu não estava lá; e nem pedi para nascer!” Deus ainda perguntou, retoricamente: Se procederes bem, não é certo que serás aceito (Gn 47)? No fundo, a ira de Caim era contra o que ele julgava ser uma injustiça de Deus – que não o aceitara.

Sei que não é fácil assumir que o focinho no espelho é o nosso próprio. Fica bem mais fácil se nosso irmão, nossos pais, ou o povo, forem causas da desgraça. No entanto, é nosso semblante que se encontra descaído, e é nossa a ira amargurada que cria nossa mesma história do coração. Deus não disse: “se os pais ou o irmão procederem acertadamente, alguém será aceito”. Se quisermos viver bem a nossa vida, teremos de vivê-la nós mesmos diante de Deus, pela graça e mediante a fé. Ansiamos por uma vida de independência e autonomia, mas levamos uma existência de escravos, presos pelas correntes da transferência de culpa. A culpa é da religião, a culpa é do governo, a culpa é da sociedade... de quem mais? “Minha é que não é”, diz alguém. É minha, eu digo, quando não entendo a ira

Deus concedeu ao mundo dois ministérios de homens: (i) o da pregação da paz com Deus e entre os homens, em Cristo e no poder do Espírito, e (ii) o da disciplina da paz, sob responsabilidade do governo, ao qual deu o poder da espada. Ambos os poderes, a fim de manter fidelidade a Deus, deveriam saber lutar com suas próprias armas. De nossa parte, deveríamos saber esgrimir com a palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas (2Co 6.7). O governo deveria brandir com maestria a espada da lei, assegurando proteção ao indivíduo e à sociedade, tanto na coibição e punição da violência quanto na garantia ao indivíduo de proteger a si mesmo e à parte da sociedade em que vive. Para isso, teríamos de ter consciência de quatro coisas: (i) o governo não é a sociedade, mas é formado de grupos de membros chamados para agir em benefício da sociedade; (ii) o governo não é todo presente e poderoso para agir sem o necessário concurso dos cidadãos de bem; (iii) assim como a Palavra de Deus é instrumento de ação do ministro, mas deveria ser usada por todos os homens, também o uso da espada da justiça não é restrito ao governo; portanto, (iv) todo homem de bem é “governo” de sua própria vida e membro de governo de outras esferas tais como família, vizinhança, escola etc., com a missão de proteger o próximo.

Sobretudo, individual e corporativamente, deveríamos saber lidar com a ira. Retirando a boa ira, perderemos noção da justiça; inativos contra a má ira, incitaremos a injustiça. A escolha é essa: onde por a jóia – no focinho do porco ou no rosto da mulher bela?

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, abril 08, 2011

PERSEGUINDO UMA POLÍTICA CRISTÃ (2)


CONFISSÃO DA CULPA NACIONAL

Wellington Meneses de Oliveira assassinou onze e feriu treze crianças, e matou um pouco mais a alma moribunda do povo brasileiro. Atroz o crime, enorme a culpa do indivíduo e da sociedade.

Cubra-se de vergonha a Pátria que mata seus filhos – e confesse sua culpa. Confesso eu, que não tenho gritado até a voz rouca contra tanta miséria e covardia nem tenho sofrido até o sangue pelos meus irmãos de solo. Confesse o sistema revolucionário brasileiro que planta a violência e espera que o povo cultive flores. Confessem governantes e legisladores cujos exemplos de imoralidades não cuidadas destroem a moral da Nação. Confessem juízes e advogados, rápidos para emitir opiniões e morosos para fazer valer a justiça e o direito. Confessem os educadores que não mais ensinam nobreza e dignidade, mas estimulam a mediocridade. Confessem os servidores públicos que abusam da posição e passam ao largo da praça do povo. Confessem os industriais e comerciantes que atravessam a Terra em busca de ouro e deixam atrás um rasto fétido de caras inutilidades. Confessem as minorias iradas e as maiorias omissas. Confessem os pais que ainda não perdemos nossos filhos e que, por isso, amanhã esqueceremos a tragédia. Confessem as religiões idólatras que pregam o diabo a quatro. Confesse a igreja evangélica que abandonou a pregação profética em nome de novidades caducas. Confesse aquele que é rebelde contra Deus e que só pensa nele quando tem de ter alguém para botar a culpa.

Perdoem-nos, ó pais e irmãos, por permitirmos que as coisas continuem desse jeito. Perdoem-nos o soluço tardio e a ira inoperante.

Perdoe-nos, ó Deus, porque vivemos no país do carnaval, desfilando fantasias de grandezas em pleno dia de cinzas!

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, abril 07, 2011

PERSEGUINDO UMA POLÍTICA CRISTÃ


O cristianismo sofre ataques de todo lado, principalmente de bocas que se julgam defensoras de liberdades e direitos. Por exemplo, a “boca rica” das comunicações, a rede de TV Globo, que (des)faz a cabeça do país, e em que bocas pobres de discernimento mastigam insensatez. Se o comentário é sobre a queima do Alcorão em uma pequena igreja que almeja o show, lá vem um que diz, fora de contexto: A ciência já provou que a humanidade nasceu na África. Eu pergunto: em que laboratório a experiência foi realizada, testada e repetida, e qual é o enunciado do fato científico do nascimento da humanidade, em qualquer lugar? O cristianismo, pelo menos, tem respaldo em documentos históricos revelados por Deus. A notícia de que o Brasil foi elevado à categoria BBB na confiança do investimento internacional vem na mesma panela do Big Brother Brazsil e do último quadro da criminalidade, cozida ao molho cínico do comentário: Já houve aquela do aborto na campanha da Presidente e, agora, ainda querem botar mais religião na política? O cristianismo, por sua vez, tem a companhia da boa moral e ética.

O blogueiro Reinaldo Azevedo fisgou o nervo do dente da questão (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-religiao-verdadeiramente-perseguida-no-mundo-hoje-e-o-cristianismo-ou-de-corajosos-e-covardes/; 04/04/11). De onde vem a sanha, essa baba raivosa, essa perseguição canina? Por que ninguém ataca o noel nem o saci? Certamente, essa ira procede de uma rebelião contra tudo que se chama Deus, que reverte a mente e inverte o ponto referencial das coisas (cf. Rm 1.18-32). Como disse o poeta que amaldiçoou a própria alma: “terra maior que os céus, homem maior que Deus” (Bilac). Assim, perdidas as noções de distinção e proporção, só podem falar em termos que sequer são surreais. Como também já foi dito: nem estão errados, pois para isso teriam de ter estado certos.

No entanto, esse negócio de cristão na boca do leão é coisa antiga. Em um sentido, faz parte da luta contra o mal, e, em outro, opera sabedoria (ver Tg 1). É certo que o crente não deveria sofrer por ser transgressor da lei nem por burrice. Muita perseguição seria mais bem enfrentada e muita poderia ser evitada mediante a obtenção de uma boa cosmovisão cristã. Todo cristão deveria entender biblicamente a questão política. Tem cristão de esquerda, de direita, de centro, de cima (caindo de paraquedas), de baixo (do pano) e tem quem invoque a separação entre igreja e estado. Está certo, mas não confunda essa separação sadia com a enfermiça separação entre fé e política. Falta fé na política porque falta muita fé, na política; falta política centrada em Cristo e eleitor cristão consciente da própria fé.

O que o cristianismo crê, é que, primeiro Deus criou um homem e, depois, uma mulher, diferentes na individualidade e iguais na humanidade. Estão aí, assim, duas esferas de atuação humana – a individual e a social. São duas esferas com domínios próprios (autárquicas, isto é, soberanas sob a soberania de Deus) cujas interações formam uma terceira esfera subalterna, a do governo. Indivíduo tem cara, nome e domicílio, e sua atuação compreende três movimentos: para cima (Deus), para dentro (ser interior) e para fora (o próximo e o mundo); sociedade é associação tácita de indivíduos que realizam esses movimentos por meio de deveres e direitos afins.

Governo, por sua vez, não tem realidade em si mesmo, mas sua existência está implícita na relação de indivíduos com a sociedade. Sua preeminência existe não por causa do poder próprio, mas da delegação do Deus que chamou indivíduos para que fossem seus ministros civis com vista ao cuidado da sociedade. Lembra do que Deus disse à mulher, logo após o pecado? O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará (Gn 3.16). Essa não foi uma lei, mas uma constatação da triste realidade política de um mundo decaído. Não é importante, aqui, que tenha dito à mulher ou ao homem. O fato é que a política decaída é baseada, de uma parte, em desejos a serem satisfeitos por pessoas insatisfeitas, e, de outra, na dominação de pessoas tendentes a jogos de poder.

Quando é assumido por indivíduos ou partidos que agem como se fossem deuses – mesmo que o discurso seja um de democracia, justiça social, erguimento financeiro econômico da nação e excelência administrativa – o governo se torna déspota e sujeito a corrupção. Por quê? Porque não ministra sob a vontade de Deus nem se sujeita à prevalência dos indivíduos que o elegem, nem cumpre seu papel de protetor do bom cidadão e juiz do homem mau. Antes, entrega-se à luta pela obtenção e manutenção do poder a qualquer custo – muitos, agindo como homens maus.

Para cumprir o papel de ministro civil de Deus, o governo precisaria respeitar e implementar as esferas individuais e sociais, e todos os círculos de autonomia a esses vinculados de diferentes maneiras nos particulares seguimentos da vida. No entanto, ele estará incapacitado para essa tarefa, se assumir que o próprio governo seja a sociedade. Por exemplo, a família é uma esfera em que a preeminência do governo só existe quando a respeita. No entanto, o governo chamado “social” pretende ser chefe de família, pai e mãe – esquecido de que não tem o aparato necessário para gerar ou criar filhos! Dizendo-se povo, arvora-se em legislador da consciência do indivíduo. Assim, fica clara a esterilidade desse tipo de governo. Outros exemplos, como a educação, o comércio, a igreja, são círculos de autonomia dentro das encapsuladas esferas individuais e sociais. Essas esferas deveriam ser livres. Quando pretende ser mestre, proprietário ou papa, o governo excede sua autoridade e anula sua efetividade.

            Como disse o blogueiro, a questão é uma de coragem ou covardia. Quando é que nós, de natureza idólatra, deixaremos de nos curvar ante os deuses deste tempo, ante a ignorância dos sábios segundo o mundo e ante as próprias necessidades, para adorar o Deus da Bíblia? Quando é que aprenderemos a votar em quem sabe o que é governo e sabe fazer política segundo a Palavra de Deus? Certamente quando amarmos mais o estudo da Bíblia como regra de fé e prática (incluindo política) e, entre outras coisas, aprendermos a não escolher políticos pelo rótulo, mas pelo conteúdo. Aí, sim, seremos realmente cristãos em termos de abençoar o mundo ao redor.

            Quando isso acontecer, não teremos medo de perseguição. Será preciso que não sejamos perseguidos como déspotas, corruptos, falseadores da verdade, odiosos de Deus; nem como quem se omite da luta contra o mal ou da defesa da fé. Mas se formos perseguidos por causa da justiça, que Deus nos fortaleça a boca e os dentes.

Wadislau Martins Gomes