sexta-feira, novembro 28, 2014

DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS, UMA VIDA DE GRATIDÃO


Ao redor da mesa, comemorando um dia de ação de graças, dei uma dessas tiradas miserável de espírito: “a ceia está do peru”. Antes de terminar a frase, eu já antecipei reação de misericórdia – só não esperava que o caçula estatelasse os olhos e dissesse, de soluço: “ele falou do peru!” Sei lá em que ele pensou... mas eu, deixei a imaginação curtir a primariedade da minha peruada. A expressão “do peru” tem origem incerta, em referência ao país ou à ave, e é de uso dúplice, com tons de admiração ou de ironia. Por sua vez, o sentido do Dia de Ação de Graças, originado na tradição americana dos peregrinos, ação de graças, nativos, peru etc., aqui na terrinha tem cheiro e gosto de influência bradesca e de esquema comercial – mas, vá lá, se de alguma forma Deus é louvado.

Cá para nós, mais do que bom sentimento ou adorno pessoal, gratidão significa conformação com a vontade de Deus. De fato, ela é compreendida e exercitada na deliciosa e diligente comunhão com Deus e manifestada no reflexo da glória de Cristo por meio dos afetos do coração e da beleza do caráter. A gratidão, em termos bíblicos, é o exercício da fé gerada e motivada mediante o testemunho interno do Espírito Santo e baseada e praticada mediante a bênção da graça de Deus. Em suma, essa gratidão brota do tronco da fidelidade de Deus e frutifica nos ramos da nossa decorrente fidelidade. Foi assim que Paulo tratou o tema:

Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda forma de mal. O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará (1Tessalonicenses 5.17-24).

Do mesmo modo, a gratidão que provém da graça mediante a fé é o vínculo vital da criatura com o Criador e a virtude formadora do caráter cristão. Por meio dela a pessoa conhece a divindade de Deus, a quem não vê, mas que é revelada na Escritura e em Cristo, e reconhece seu controle, presença e autoridade sobre todas as obras de suas mãos. Tais conhecimento e compreensão respondem às questões essenciais do coração humano: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Assim, fomos criados para espelhar a glória de Deus, estamos aqui para usufruir toda sorte de bênção advinda dessa glória, e vamos para a realização da glorificação final.

Quando compreendido em gratidão e a despeito de possuirmos “este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”, a presença do reflexo da “glória de Deus, na face de Cristo” (cf. 2Coríntios 4.6-7) estabelece a identidade e o desenvolvimento da personalidade do salvo. Para os não salvos, e para os salvos que os modelam, a ausência do reflexo da glória de Deus e da gratidão torna-os faltos em seus pensamentos e insensatos em seus corações – perdem a prórpia identidade! Foi assim também que Paulo o colocou:

Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis (Romanos 1.20-23).

Portanto, gratidão é mais do que “uma coisa do peru”. Gratidão é habitar em Deus mediante a comunhão pessoal e a habitação da sua Palavra em nós de maneira que nossa expressão verbal para com ele e para com seus filhos e nossos irmãos em Cristo seja rica de graça, e nossa ação, rica da operosidade da fé (cf. Colossenses 3.18-17). Gratidão é uma ação do Espírito de Deus no nosso espírito, inspiração de graça, respiração da alma, motivação de vida. Foi assim que o salmista praticou e cantou a gratidão ao Senhor:

Bom é render graças ao Senhor e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo, anunciar de manhã a tua misericórdia e, durante as noites, a tua fidelidade (...) Pois me alegraste, Senhor, com os teus feitos; exultarei nas obras das tuas mãos. Quão grandes, Senhor, são as tuas obras! Os teus pensamentos, que profundos! O inepto não compreende, e o estulto não percebe isto (...) O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o Senhor é reto (cf. Salmos 92.1-15).

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, novembro 27, 2014

THANKSGIVING - Dia de Ação de Graças


 
 
Em tudo, dai graças, porque esta é
a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.

In every thing give thanks: for this is
the will of God in Christ Jesus concerning you.

1Tessalonicenses 5.18

 
Está chegando o dia “oficial” de ações de graça, e eu, nessa gangorra de pensamentos interculturais, fico cutucando a musa. Nos Estados Unidos, é um feriado nacional que relembra quando os peregrinos (inicialmente esses colonos do novo mundo eram reformados calvinistas que fugiam de perseguições religiosas em seus países de origem) celebraram um culto de ações de graças porque depois de terem sofrido dois invernos devastadores que dizimaram seu povo. Tinham agora uma colheita farta daquilo que plantaram e estariam guardando para os próximos meses de escassez. Para o banquete, convidaram os americanos nativos (lê-se índios) que os haviam socorrido nas suas aflições, dando sementes para o plantio, ensinado a pescar, caçar e colher os frutos da terra. Os convidados se viam não como quem tivesse carta branca para se empanturrar, mas como honrados e dignos colaboradores; trouxeram também suas comidas para compartilhar com esses claros e desajeitados colonos de um Deus único, linguagem complicada e muitos estranhos costumes.

O Brasil, copycat, não implantou muito bem esse dia. Apesar de ter havido esforço desde o empenho do Bradesco dos anos sessentas, de celebrar o Dia Nacional de Ação de Graças, o Brasil se copiou mais o comercializado Black Friday dos shoppings e sites. Somos bombardeados por ofertas de “80% OFF” de objetos de consumo que não necessitamos, num frenesi de compra, compra, gaste, gaste, eu quero, eu preciso—e esquecemos de dar graças pelas grandes bênçãos e pequenas vitórias em que vivemos e nos movemos.

Verdade é que muitos na América do Norte também se esqueceram de sua história de fé e enxergam o dia como dia de comer peru, assistir o jogo de football (o americano, não o nosso esporte nacional que eles denominam de soccer), juntar parentes que só se comunicam uma vez por ano. Por que peru? Porque para debelar a fome, os índios ensinaram a caçar a ave “in the wild”.

Eu já comprei meu peru da Sadia, que vou assar e oferecer aos cerca de cinquenta jovens de variadas idades da nossa igreja (IPP) que vêm em casa no sítio no sábado (porque aqui em nosso estado não tem feriado na quinta-feira) para um almoço comunitário. Espero que os outros quarenta e nove também tragam comida e bebida, porque um peru é pouco para tanta gente! O Senhor Jesus estará presente, sim, mas na presente era não esbanja o milagre da multiplicação dos pães e peixes do Novo Testamento sobre crentes da posmodernidade, que deverão aprender a trabalhar pelo pão nosso de cada dia enquanto simultaneamente descansam no Senhor da Vida que tudo provê. Mais um dos pensamentos e fatos que precisamos aprender a pesar, equilibrar, compartilhar e fazer multiplicar.

Lembro um Thanksgiving de alguns anos atrás em Philadelphia, quando convidamos meu tio Philip Stowell para nossa mesa. Eu fiz uma abóbora recheada de camarão, à moda brasileira, e ele nos presenteou com a historia de quando, no Navy  na segunda guerra mundial, ele era ajudante de cozinheiro, e prepararam peru recheado de “oyster dressing”—recheio de ostras—para centenas ou milhares de soldados gringos com saudades de um verdadeiro banquete de ações de graças. A propósito, tínhamos nesse almoço em Philly também um ‘stuffed turkey” cuja ave foi presente de nossa amiga (minha boss no trabalho e esposa de pastor da igreja que frequentávamos in exilio, Nina) e os fixings de cranberry sauce, corn, creamed onions, outros vegetais e cornbread. Uma mistureba internacional!

Sei que o nosso almoço não chegava aos pés daquele que Uncle Phil descreveu, mas estávamos e éramos gratos pelas misericórdias e providência de Deus em nossos tempos de escassez como também nos banquetes que Ele sempre nos oferece. E pudemos, nós “estrangeiros, esquisitos, de costumes diferentes” compartilhar com meu tio “all-American New Englander” desde os tempos de Cotton Mather e Pocahontas, um pouco da alegria de Jesus. Como milhões de idosos norte ou sul-americanos, ele estava extremamente sozinho, e nós esbanjávamos família.

Moro numa cidade fundada por bandeirantes de origem portuguesa que fincaram raízes em Mogi das Cruzes há mais de 450 anos. Lau é descendente dentre os quais um bandeirante deles com a ameríndia Bartira. Eu estou relembrando antepassados que atravessaram o oceano Atlântico em barcos pequeninos e construíram a machado, pá e toscos instrumentos, primeiramente a igreja e escola, para depois edificar seus lares em que tinham muito poucos bens—mas liam, e conheciam a Bíblia, e a compartilhavam. Lembro da relação de David Brainerd com os índios menos de cem anos depois daquela primeira colonização, e vejo a sombra de gente moldada pela Palavra, com o coração inflamado por missões, firmados na Rocha e que, por mais que lhes faltassem os bens “essenciais”, sempre tinham fé no Deus que os elegeu para serem seu povo.

 Passo um fast-forward ao vídeo deste final de semana e procuro equilibrar minhas divagações sobre comida, receber os amigos, dar e receber, agradecer em tudo e por tudo, com as histórias do primeiro Thanksgiving no Novo Mundo e as ações de graça do povo hebreu no deserto, em que, apesar das murmurações características do povo de Deus de antanho e de agora, havia fartura de codornizes em vez de perus selvagens, maná em vez de cornbread, água jorrando da rocha no meio do deserto, em vez dos abundantes rios e lagos da América. Depois, na terra de Israel conquistada, habitada, consolidada, invadida, depredada, re-edificada--quando encarnou o Pão da Vida e a Água Viva. Depois da sua morte e ressurreição, enquanto Pedro e companhia limitada resolveram voltar a pescar e nada conseguiram, Jesus ficou na pedregosa praia e preparou um café da manhã de peixes na brasa e pão, para falar-lhes sobre o amor e o pastoreio do rebanho de Deus (João 21.3-24). Antes de sua morte Jesus multiplicara o lanche de um menino e alimentara mais de cinco mil famigerados ouvintes; agora ele mesmo preparou peixe para pescadores mal-sucedidos, tornando-os em homens que edificariam a igreja, virariam o mundo de cabeça para baixo, e marcariam a história do cristianismo até os confins da terra. João o evangelista termina a sua narrativa dizendo que “Se todas as coisas que Jesus fez fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos”— essas eram as boas novas pelas quais discípulos, apóstolos, toscos pescadores e cultos teólogos, gente de todo tipo, desde o berço da civilização antiga até o ocaso da civilização moderna, têm motivo de agradecer.

Um dia faremos parte de uma grande turma que não vão mais render ações de graça locais, nem como costume nacional, tradicional ou emprestado de outra cultura, nem descendentes de ingleses e holandeses, de portugueses degredados, escravos ou senhores escravizadores –

grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas (...), todos os anjos (...) os anciãos e os quatro seres viventes (...) adoraram a Deus, dizendo: O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Apocalipse 7.9-12 - ARA)

Aguardo nosso almoço de Thanksgiving seja ele sábado, quinta feira ou qualquer dia que nos ajuntarmos para festejar. Mas aguardo mais ainda um banquete de casamento do Cordeiro em que os convivas serão dos mais variados, e o Dono da Festa, único Senhor. Você está convidado!

Elizabeth Gomes

segunda-feira, novembro 10, 2014

OS FILHOS DA ALIANÇA E O ARCO-ÍRIS


Porei nas nuvens o meu arco; será por sinal da aliança entre mim e a terra. Sucederá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e nelas aparecer o arco, então, me lembrarei da minha aliança, firmada entre mim e vós e todos os seres viventes de toda carne; e as águas não mais se tornarão em dilúvio para destruir toda carne. O arco estará nas nuvens; vê-lo-ei e me lembrarei da aliança eterna entre Deus e todos os seres viventes de toda carne que há sobre a terra Gênesis 9.13-16

Como o aspecto do arco que aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o resplendor em redor. Esta era a aparência da glória do SENHOR; vendo isto, caí com o rosto em terra e ouvi a voz de quem falava. Ezequiel 1.28

Quando Wadislau e outros iniciaram a congregação da New Life Fellowship em Boston, foram pintadas as cores do arco-íris para indicar a aliança que Deus fez com seu povo. Na época, eu trabalhava prestando assistência a pessoas portadores do vírus HIV, muitas delas envolvidas em homossexualidade. A todos falei de Cristo e demonstrei o amor de Deus na prática, sem abrir mão da fé no único Senhor e sua Palavra. Isso fez com que muitos da comunidade gay estranhassem uma atuação cristã que age com crença na Palavra Santa de Deus. Achavam que eu tinha de defender a causa GLS e desprezavam a Bíblia que eu procurava compartilhar—mas vinham a nossa casa para jantar conosco, contavam conosco para ajudá-los quando estavam doentes ou precisavam recursos para sobreviver na selva de Boston e arredores.

Um dia, um cliente disse: “Passei de carro em frente à sua igreja e vi o arco-íris. Gostei. Vocês aceitam a gente...” Pensei com meus botões: Ele acha que o arco-íris é aprovação da “causa gay”. Essa jamais foi nossa intenção! Como é comum a distorção de tantas coisas pela imitação barata e profana, foi roubado o símbolo multicolorido da graça de um Deus eterno, que fez aliança com toda a terra. Hoje em dia uma congregação presbiteriana ortodoxa não escolhe mais o arco-íris como um logo identificador da comunidade! Pensei em como é tênue a linha entre amar e acolher o próximo, pecador como eu, e aceitar a perversão e o pecado do que persiste num estilo de vida longe de Deus.

Aquele “John” jamais entrou em nossa igreja. Mas “José” veio—não atraído por suposta inclusão, mas pela promessa de que “o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede... Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6.35-40). José creu em Cristo como seu Salvador; arrependeu-se de seus pecados; deixou seu parceiro homoafetivo e seu modo de vida confuso; Wadislau o batizou e quando José professou a fé, não foi feita nenhuma menção de homossexualidade passada—somente inclusão como todo e qualquer irmão arrependido, chamado para participar da família de Deus. Ao lembrar a morte desse irmão em Cristo, penso na certeza de que José está na presença do Senhor com “vestiduras brancas” porque lavado pelo sangue de Jesus.

Hoje vemos muita celeuma nas redes sociais com respeito a homossexualidade—mais do que qualquer outro pecado, este leva a espadas e tapumes entre os evangélicos brasileiros. Infelizmente, crescem os casos que pessoas que desprezam a Palavra de Deus e “assumem” comportamentos dos quais a Bíblia afirma: não entrarão no reino dos céus os que tais coisas praticam. Conto na mão casos de amigas queridas cujos companheiros (até líderes na igreja) abandonaram o casamento e foram atrás do amor pérfido com outros homens. Alguns desses não chegaram a se casar com mulher, mas foram “pegos”, denunciados, e expulsos de nosso meio. Entre esses, alguns foram restaurados, mas restaram falatório constante e cicatrizes profundas.

Parece que outros pecados, tão sérios quanto este, não recebem a mesma importância. Uma das tristes constatações que meu marido comentava quando conselheiro de pastores era a grande incidência de adultérios e casamentos desfeitos em função de infidelidade de parte daqueles que foram chamados, treinados e atuavam pastores do rebanho de Deus. Você e eu os conhecemos, e lamentamos: “Como foi que tal e tal caiu?” Esposas, maridos indo atrás de outros, amores distorcidos! E, muitas vezes, as igrejas fazem vista grossa, porque fulano é muito bem preparado, ou bem quisto, ou bem situado...

Quando Paulo escreveu sua primeira carta a uma igreja cheia de dons e igualmente abarrotada de pecado, disse que os injustos não herdam o reino de Deus:

Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros (a versão ACFiel diz devassos), nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus. 1Coríntios 6.9-11

Parece que além dos alardeados pecados sexuais também estão na lista os idólatras, avarentos, ladrões, bêbados, maldizentes e roubadores. Se pensarmos bem, nenhum de nós escapa! O realismo com esperança, característica do ensino paulino, continua afirmando: “Tais fostes alguns de vós, mas vos lavastes, fostes santificados, fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus”...

Oh glória! E esta não é uma expressão de evangeliquês sem significado, mas a esperança que lembra a glória do Senhor presenciada por Ezequiel (1.28) e por João apóstolo, que nos faz cair com rosto em terra e adorar diante do trono o único digno de receber glória.

Como alguém que deseja viver a teologia bíblica na prática, não posso deixar de me compadecer das pessoas que, em vez de viver nas garras do Leão Cordeiro, andam pelas tramas trapaceadoras e tropeçantes deste mundo tenebroso. Debaixo do arco-íris da aliança do Deus que não pode mentir, das promessas de quem firmou o pacto com sangue na cruz e provou a verdade com o túmulo vazio, não posso ceder a falatórios quanto aos pecados de meus irmãos—tenho de me revestir da justiça de Jesus Cristo e permanecer firme, sabedora de que somente em Cristo temos condições de viver dignamente.

Elizabeth Gomes

segunda-feira, novembro 03, 2014

EXCELÊNCIA, DEFICIÊNCIA E SUFICIÊNCIA


 
De Gênesis ao Apocalipse a Palavra de Deus fala sobre a excelência: de Deus, de suas obras e seus feitos, de sua misericórdia sem fim. Descreve também a excelência de caráter de alguns de seus servos. Isso percorre a história da Igreja cristã desde os primórdios patriarcais, nas grandes lutas de pensamento e da ação cristã dos pais da igreja, dos Reformadores, dos renovadores, dos missionários—e vai ser assim até o fim dos tempos. No momento, estou traduzindo a biografia de John Owen; fico maravilhada pela excelência de sua vida acadêmica, ministerial e pessoal. Vi semelhante excelência nas vidas de Agostinho de Hipona, Martinho Lutero, João Calvino e Jonathan Edwards: unido a um intelecto privilegiado, havia disciplina e discernimento em todos os aspectos da vida. As pessoas dotadas de excelência não se orgulhavam de suas habilidades, mas humildes, as atribuíam ao Senhor a quem serviam. O apóstolo Paulo, por exemplo, afirmou: “Não que tenha obtido a perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo pelo qual fui conquistado por Cristo Jesus (...) prossigo para o alvo: o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.12-14).
A excelência de Deus no ser humano que o serve não é sinônimo de perfeição—aliás, os grandes e excelentes conheciam sua imperfeição e deficiência, e atribuíam a Deus aquilo que os tornava singulares. Por exemplo:

• José, de quem o narrador conta que “O Senhor era com ele” (Gn 39.2-5; 21-23)—no meio de grandes adversidades, em que ele foi traído, preso, acusado falsamente.

• Moisés (Dt. 34. 10-12; At 7.20-42; Hb 11.23-29) foi criado como príncipe no Egito

• Bezalel e Aiolabe (Ex 30.2-6)

• Débora (Jz 4.4-5)

• Jó, “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (1.1) reconhecia ser indigno, mas no meio de todas as suas adversidades, recebeu a mensagem de Deus: “Cinge agora os lombos como homem... Orna-te, pois, de excelência e grandeza, veste-te de majestade e de glória (Jó 40.7-10)

• Daniel (Dn 1.4,17; “sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus... Ora, a estes quatro jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria; mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos” (Dn 6.3 ); “havia nele um espírito excelente”; e assim ele viveu no cativeiro desde o reinado babilônico de Nabucodonosor, passando por Belsazar, o medo Dario até o persa Ciro.

O apóstolo Paulo teve uma educação privilegiada. Judeu que estudou aos pés do maior rabino de sua época, vivia na diáspora como cidadão romano e movia-se com tranquilidade de Tarsis e Damasco até o deserto Arábia, Jerusalém, Antioquia, Creta, toda a região hoje conhecida com Turquia, toda a Grécia e finalmente, Roma, com intuito de prosseguir até a Espanha. Poliglota, conhecia o melhor da cultura de cada grupo étnico com que conviveu, e era hábil para apresentar o evangelho a reis como também a escravos, a mulheres como as empreendedoras piedosas Priscila e Lídia, a capitães e governantes, a jovens seminaristas convertidos do paganismo e do judaísmo, até a escrava de quem livrara do demônio de adivinhação-- a sábios e a tolos que receberam a sabedoria do evangelho. Disse ele que desejava que os filipenses aumentassem em amor no “pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo (Fp 1.9-11). Aos coríntios explicou que a excelência do poder é “de Deus e não de nós”, porque “[Deus] resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo—mas este tesouro habita “em vasos de barro” (2Coríntios 4.6,7).

O ideário de perfeição se mostra na predileção de Israel por líderes sem nenhum defeito físico. A escolha do primeiro rei, Saul, “moço e tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele; desde os ombros para cima, sobressaía a todo o povo” (1Sm 9.2) e na divisão depois de Davi com Absalão (“Não havia, porém, em todo o Israel homem tão celebrado por sua beleza como Absalão; da planta do pé ao alto da cabeça, não havia nele defeito algum (...) e ele furtava o coração dos homens de Israel (2Sm 14.25; 15.6). Salomão elogia a amada: “Tu és toda formosa, querida minha, e em ti não há defeito (Ct 4.7) e até hoje jovens, crentes tanto quanto incrédulos, tendem a fazer escolhas com base na beleza física—descobrindo, às vezes tarde demais, que “enganosa é a graça e vã a formosura” (Pv 31.30).

 Isso nos leva a considerar o quanto nossas deficiências estão ligadas a excelência que Deus requer. Os sacrifícios ao Senhor tinham de ser de animais sem defeito, e no tabernáculo e templo de Israel era necessário que só se apresentassem vítimas perfeitas. Mas quando Jesus veio ao mundo, disse que o Espírito do Senhor o “ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19; cf. Is 61.1-3). Com isso ele voltou sua atenção aos não-incluídos, os portadores de deficiências, trazendo visão aos cegos, andar aos coxos, libertação aos demonizados e aos de espírito oprimido, dando perdão, purificação e liberdade a todos quantos, chamados por ele, a ele viessem. As boas novas de que ninguém seria excluído com base em raça, habilidade ou deficiência passaram a ser proclamadas e vividas! Hoje a igreja é composta de gente de todas as tribos, povos e raças, “vós que não éreis povo”, nós que não tínhamos esperança, que éramos pecadores e inimigos de Deus. No corpo de Cristo, segundo diz Efésios 4 e 1Coríntios 12, os membros trabalham todos em conjunto e mútua dependência.  Fomo amados e tornados “sem defeito” por Cristo: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito (Ef 5.25-27).

Até hoje, muitos são insensíveis aos portadores de deficiências, e quando não enxergam o milagre da cura, perguntam como fizeram quanto ao cego no caminho de Jericó a dois mil anos: “Quem pecou para que ele fosse cego: ele ou seus pais?” (Jo 9.2). No livro Ética nas pequenas coisas (São Paulo: Vida, pp 226-227), lemos:

Dentro das igrejas, persistem os mesmos problemas que fora delas. Poucas igrejas levam em conta a necessidade de rampas ou elevadores para os que têm dificuldade para andar, espaço para o cego “ver” e o surdo “ouvir” em sua própria “língua”. Apessar de todas as dificuldades que enfrenta, o portador de deficiência, como filho e servo de Cristo e irmão dos irmãos, encontra suficiência em Cristo. Poderá ser grandemente abençoado por seus irmãos quando estes abrirem os olhos para ver o que podem fazer para facilitar sua vida. Nem sempre ele precisará (ou desejará) ajuda, mas, sempre que solicitar, deveremos estender a mão, certificando-nos de que o ambiente da igreja lhe seja propício. Ele não é um coitado, maldito, tampouco um desgraçado—poderá ser mais abençoado e abençoar de forma singular seus irmãos.

Vivemos sempre a tensão entre nossas deficiências, a excelência de Deus e a suficiência que ele nos outorga. Talvez referindo a um tempo antes de existir um povo escolhido, ou seja, pré Abraâmico, um dos amigos de Jó, Zofar, descreveu a situação do ímpio que prospera: “Na plenitude da sua abastança (na sua super-suficiência), ver-se-á angustiado; toda a força da miséria virá sobre ele”—ou seja, tendo mais que suficiente de tudo, terá sobre ele toda a força da miséria! No sermão da Montanha, Jesus disse que basta ao dia o mal (Mt 6.34) – o mal é suficiente (arketos) a cada dia -- mas ao apóstolo que sofria com o “espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte” que pediu ao Senhor que o afastasse dele, O Senhor Jesus respondeu: “A minha graça te basta (arkeo, é suficiente, satisfaz), porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”(2Co 12.9)

Em relação à luta, ao perfume do conhecimento de Deus, Paulo declara: “Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida [e pergunta:] Quem, porém, é suficiente para estas coisas? (2Co 2.16 14-15). Para expandir mais ainda as metáforas, Paulo afirma: “Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações. E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. (2Co 3.2-6) e ao referir-se à generosidade de uma igreja pobre de gentios convertidos, agora abençoando os pobres judeus cristãos de Jerusalém, disse: “Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra” 2Co 9.8.

Muitas vezes tenho sentido na pele a luta entre o desejo por excelência, a realidade de minhas limitações e deficiências, e a provisão de Deus de sua suficiência para cada dia. Não tenho ilusões de perfeição—todo dia me deparo com o quanto sou carente pecadora. Mas estou aprendendo que, ao entregar tudo ao Senhor, ele me prepara para viver tudo em nome do Senhor: “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17).

Elizabeth Gomes

domingo, outubro 26, 2014

POLÍTICAS & POLÍTIKAS


Três firmas concorrem a uma licitação para consertar uma janela de edifício público da Capital. A primeira, do DF, depois de acurados estudos, dá um lance de R$ 25.000,00: 30% de lucro, 15% de projeto e suporte técnico, 15% de material; 15% de mão de obra, 5% de garantia, e 20% de “eventuais”. A segunda, de São Paulo, baseada em sua larga experiência com janelas políticas e depois de intermináveis conversas com técnicos e assessores, coloca R$ 250.000,00: 50% de lucro, 25% de projeto e mão de obra, e 25% de “eventuais”. A terceira, de Alagoas, sem nenhum pudor, adianta: R$ 2.500.000,00. Vence a última: 50% para o partido, 49% para a contratada, e 1% para pagar a firma de Brasília para consertar a janela.

Da janela da praça, a visão dos palácios políticos parece meio nublada, como piada de mau gosto. Em vez de descortinar horizontes ensolarados, edifícios claros de luz e de moral, e homens de bem no cumprimento da missão política, nosso povo, impassível, espera passar o trem da alegria “só pra ver se sobra algum”. Ali e lá, as margens plácidas ouvem gritos de libertação que soam mais como a sororoca da morte. São vozes que se perdem em meio ao ruído dos últimos jargões políticos criadas pelos mais recentes arquitetos do poder. Assim, a política – que deveria ser a ciência e arte de amparar as diversas esferas de soberania: do indivíduo, da vizinhança, da escola, do comércio, do estado etc. – virou sinônimo de propaganda manipulativa. Começa com o horário político obrigatório e acaba no numerário político conveniente.

E a gente? Como é possível começar a pensar em termos de uma política biblicamente correta?

Primeiro havemos de discernir o pensamento do homem não-regenerado, do pensamento do homem regenerado. Isto, Paulo faz em Efésios 2.1-4, considerando que Deus nos deu vida em virtude da sua misericórdia e do grande amor com que nos amou. Como todos, estávamos mortos em delitos e pecados, andando segundo o curso deste mundo, em plena rebelião contra Deus (cf. Romanos 1.18-32). Não entretínhamos pensamentos de verdadeira lógica nem de precisão “científica”, mas prosseguíamos no curso deste mundo após o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência. De fato, seguíamos, como alguns cristãos desavisados ainda seguem, as inclinações da carne e dos pensamentos que resultavam de uma ira pecaminosa contra Deus. A origem desse estado de coisas não nos é desconhecida; é mais velha do que a última visão do lado de dentro do Éden.

A serpente sugeriu que, em vez da oposição excludente do bem (cuja existência é real, pois Deus é o bem) em relação ao mal (cuja realidade é contingente ao rompimento com o bem), haveria uma síntese inclusiva: Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal (Genesis 3.5). Desde então, o desvio cresceu e permeou toda a cultura. Adam Smith, quando deu forma ao pensamento capitalista, não fugiu aos cenários do motivo grego da separação entre graça e natureza. Tomando a ética de trabalho e produção dos comerciantes cristãos permitida pela graça divina, Smith elaborou um sistema em que a natureza nobre do labor seria mostra suficiente da graça. Aberta a porta, a sanha individualista do pecado assumiu o controle da estrada. Esse é o caminho, também, de Platão/Sócrates e Aristóteles a Hegel/Marx e Rosa Luxemburg, e de decadência da velha esquerda após a frustração da do “destino inexorável” da deusa História em meio aos jogos revolucionários da nova esquerda e do moderno liberalismo.

Mesmo depois da Queda, a mão de Deus não desamparou a humanidade. As maldições do cap. 3 de Gênesis implicam punição, mas não dispensam a graça do Criador. Primeiro, há a promessa de redenção – Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar – Gênesis 3.15 – de acordo com o propósito eterno. Como diz Efésios 1.6-10, Deus nos concedeu gratuitamente o Amado para que refletíssemos o louvor da glória de sua graça. Não sem obra fomos remidos, mas pelo trabalho produtivo do único Criador, Vida e Luz dos homens (cf. João 1.1-14); e não sem revolução, mas com o preço do único sangue derramado possível de fazer a justiça e de vencer a morte, segundo a riqueza de sua graça. Assim, em Cristo convergem todas as coisas, tanto as do céu como as da terra.

Segundo, há as maldições, de Gênesis 3, como indicadores de uma nova ordem decaída, recebidas por uns como uma maldade de Deus e, por outros, como graciosas placas de advertência ou lombadas protetoras no curso do caminho. A primeira e básica advertência é: o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará (v. 16b); e dela se deriva o entendimento das demais, especialmente, para o nosso caso: E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida (v. 17). A partir daí, duas forças, igualmente “humanistas”, ignoraram a promessa da previdência divina da redenção: a da perspectiva de injustiça notada nos caminhos do lado de fora do Éden e a perspectiva do trabalho e da produção humana como impossíveis redentores.

O ponto é que, sendo regenerados em Cristo Jesus, temos como certa a operação do seu Espírito em toda e cada área da vida, como também disse o apóstolo Paulo (Efésios 2.13-22): estávamos longe de Deus, separados dele e, por decorrência, uns dos outros, mas fomos aproximados pelo sangue de Cristo. Sua proposta não é apenas uma idéia etérea, mas algo concreto em termos de política, mais acertadamente, da política do reino de Deus manifestado em Cristo. Ele é nossa paz mediante a qual somos unidos ao Pai e uns aos outros. Ele derribou a parede de separação, a inimizade, abolindo a lei dos mandamentos que forçam as obras da carne, tanto as de trabalho e produção individualistas quanto as de revolução e homogeneização social. A exemplo da unidade evangélica – retratada no chamado de Abraão para abençoar a terra por meio de ser o meio para o nascimento do Messias Jesus e, nele, para ser o sal da terra e luz do mundo – os verdadeiros filhos de Abraão (cf. Gálatas 3), isto é, os remidos do Senhor, evangelizamos a paz. E novamente, não será por meio de uma lei de trabalho e produção nem de uma lei de revolução e equidade que salgaremos e iluminaremos a terra, mas por meio da pregação da verdade Deus em amor demonstrada na vida da igreja pautada na política do reino (cf. Mateus 5 e 6). Se a igreja viver o fato de que já não somos estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e a própria família de Deus, e se Cristo for a pedra angular, no qual todo edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, então o mundo será iluminado e a terra, salgada. Os escolhidos verão a igreja como farol indicador do porto seguro, e os habitantes da terra serão abençoados com o sal restaurador.

As gerações atuais terão dificuldade para ver desta janela, pois as mudanças das paisagens ao longo do caminho tomaram novas formas à medida que o discurso mudou a cada colisão com as lombadas da maldição. Capitalismo e socialismo tornaram-se, cada qual, a serpente do jardim do outro. Para uns, Deus seria o mal da humanidade e, para outros, em nome de Deus o mal seria praticado. Com toda certeza também, alguém encontrará pontos de verdade na hermenêutica do mundo em ambas as perspectivas, dado que as duas visões não poderiam evitar a graça de Deus. Contudo, a rebelião do pecado levou os homens a suprimir a verdade de Deus e a falsificar suas próprias “verdades” (Romanos 1.18-32). Assim, o problema que temos hoje não é o de uma oposição entre capitalismo e socialismo, mas uma perversão da missão original do indivíduo e o papel da sociedade na tarefa de reproduzir a glória de Deus tal como grafada nos Dez Mandamentos, especialmente no resumo do Senhor: ...e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Romanos 13.9).

Se tudo aquilo que vimos se trata de uma velha disposição pecaminosa revestida de palavras novas, talvez seja bem que coloquemos isto em outras palavras mais adequadas. Em vez de usar direita e esquerda (que não diz nada em relação a nada) uso as palavras destra e canhota. Destra é apenas uma mão mais bem treinada para a maior parte dos serviços e, canhota, uma mão treinada para alguns serviços. É certo que tem gente ambidestra, mas ilustração é ilustração... Se considerarmos a missão do homem segundo os termos dos estudos bíblicos teológicos utilizados por Abraham Kyper, Herman Dooyeweerd e Cornelius Van Til, teremos que o homem é um ser religioso, atuante, receptivamente criativo e ativamente redentivo, cuja missão é reproduzir a relação com Deus na relação entre os homens. O homem é um ser religioso, e sequer Adam Smith ou Karl Marx puderam escapar a isso. Eles foram tão religiosos quanto nós, diferenciados apenas pelo objeto da fé. Historicamente, ambos cresceram em um ambiente judaico cristão, sendo que Marx se rebelou contra o deísmo e Smith valorizou um tipo de tradicionalismo. No entanto, não puderam se evadir à teorreferência – todo homem é um ser religioso cuja referência é Deus, quer para adorá-lo que para falsificá-lo em termos de ídolos (ver Atos 17.22). Da mesma forma, o homem é um ser atuante, criado para glorificar a Deus na obediência à sua verdade e na expressão do seu amor, ambas as atuações calcadas na ordem para “guardar e cultivar” as obras das mãos de Deus. Devido à Queda, porém, e seguindo o caminho de Caim, Marx, idolatrou a história e a dialética hegeliana e, Smith, o trabalho e a produção. Ora, o homem é um ser receptivamente criativo e sua atuação jamais será autônoma, autocontida ou suficiente. Tudo vem do alto, de Deus que criou todas as coisas e que as mantém na força do seu poder. É exatamente essa dependência de Deus que torna possível a convivência entre os homens em face da luta pelo pão de cada dia e, até mesmo, pelo ar que respiramos (ver At 17.25-28). E, finalmente, o homem é um ser ativamente redentivo. Conforme o modelo do Criador, o homem anseia consertar o que está quebrado. Há injustiça? Que haja equidade! Há necessidade? Que haja trabalho e produção! Mas Marx o quis por meio de revolução, e Smith o desejou por meio de obras – meios impossíveis para redimir o homem. Um valorizou a sociedade como se fosse uma personalidade e, o outro, valorizou o indivíduo e suas competitividades, não levando em conta, a canhota e a destra, que, sem a paz de Deus e a unidade do Espírito em Cristo Jesus, o homem se destrói e a sociedade fica sem seu elemento formador.

O certo é que, assim como um quadro não será belo se cada pincelada não for bonita, assim também uma sociedade não será bela se os indivíduos que a compõem não forem bonitos. Bonitos, digo, da beleza do reflexo da glória de Deus. No caso, aqui, as tendências políticas humanas apenas revelam a feiúra da nossa cara e a maldade das nossas mãos. A destra buscando riquezas terrenas em detrimento das riquezas espirituais, e, a canhota, desferindo murros contra Deus e acertando a própria cara. Pelo menos, a destra admite que a adoração de Deus seja servida, mas, a canhota, levanta-se contra tudo que se chame Deus, exceto a mão do partido que pretende reger a sociedade.

Em uma análise realista, tanto a destra quanto a canhota são religiosas e teorreferentes, quer cultuando ao Deus verdadeiro quer cultuando a ídolos de reposição. Ambas são igualmente atuantes em termos da sua ação sobre a realidade percebida. As duas são, da mesma forma, receptivamente criativas, pois Deus é quem lhes concede a graça comum sem a qual nada poderia ser feito. E são também ativamente redentivas no sentido de notar os erros e tentar consertá-los, cada uma a sua maneira. Entretanto, a fim de serem bem sucedidas, não lhes basta seguir uma forma de lei sem atentar ao princípio da lei de Deus. Não lhes basta uma lei natural, a qual, como diz Vern Poythress, “é realmente a lei de Deus, imperfeita e aproximadamente descrita por investigadores humanos” (Poythress, Vern Sheridan. Redeeming Sociology, Wheaton, Il: Crossway, 2011, p. 75). De fato, precisariam conhecer o princípio da lei, o próprio Senhor Jesus Cristo, sua Palavra e sua obra redentora. Além disso, precisariam ter uma noção de sociologia e de economia sob uma hermenêutica bíblica.
Wadislau Martins Gomes

sábado, outubro 11, 2014

MULHER VIRTUOSA EM UM MUNDO VIRTUAL


 
 
A MULHER DE PROVÉRBIOS 31
E OS DESAFIOS DA POSMODERNIDADE

 
 Ouvimos falar e estamos cercados de afirmativas e denúncias quanto à posmodernidadade, mas muita gente tem dificuldade para dizer exatamente o que é. Eu havia estudado a matéria do ponto de vista do cristianismo, no CPAJ, mas meu marido apontou-me um livro que esclareceu e provocou mais considerações sobre o assunto.  Peter Leithart, em Solomon among the Postmoderns, define posmodenidade como em “conjunto surpreendente de mudanças culturais e políticas não relacionadas que marcaram as últimas décadas do seculo XX e a primeira década do século XXI”. Diz ele que o colapso da política bipolar da guerra fria, a globalização das transações, o estabelecimento de uma ditadura cultural política, a explosão do fundamentalismo islâmico, “a descoberta tardia do domínio do cristianismo no hemisfério sul, e a dissolução das barreiras denominacionais entre igrejas pós-reformadas”, a rápida disseminação de tecnologias de informação; a imposição de propaganda, entretenimento e cultura pop como sendo a cultura, novas tendências na imigração e urbanização, as mudanças a elas relacionadas, tais como se referem os teóricos “sobre conhecimento e linguagem, o EU (self) e o poder...”

Minimizamos essas mudanças porque em todos os momentos da história sempre houve mudança, e quase sempre é possível encontrar algum precedente para o presente no passado. A posmodernidade é Babel, uma confusão de línguas que segue inevitavelmente a tentativa da  modernidade de construir uma torre universal que eleve ao céu. Na babel posmoderna, estamos sempre nos chocando com estranhos que não falam nossa língua, não partilham nossa história ou cultura. A maioria das mensagens que recebemos implica esforços tanto para comunicar informação quanto para excitar, empolgar, e reduzir a felicidade a um ramo da indústria de diversão. Tudo é anônimo, tudo é manipulação, e todos os esforços egoístas nos tornam para uma direção qualquer.  Temos a aspiração de manter o controle, vencendo o tempo com imagens supervelozes vencer – quando, gnosticamente, não o negamos. Lidamos com bens “soft” de software, valorizamos bens culturais e serviços, shows onde limites são contestados e/ou ignorados e, ao transpor e aniquilar todas as barreiras, encontramo-nos sem chão em que firmar, sem limites que nos protejam, em um não lugar em que tudo é relativo e nada é real. Ao mesmo tempo, exageramos as mudanças porque estamos falando de nossa vida, e queremos que isso seja importante ou tenha significado. Precisamos de algum equilíbrio histórico: embora sempre estejamos vivendo “tempos de transição,” alguns tempos são, na verdade, de maior transição que outros. Parece que estamos em um desses tempos.

A pósmodernidade é a vingança do vapor, o reconhecimento do fracasso da modernidade que abraça a fragmentação e dissolução da política, da linguagem, da vida, e do próprio ser. É um nó de incrementos culturais, filosóficos e sociais, surgidos de intensificações, inversões, desmascaramentos da modernidade, que desafiam, duvidam e rejeitam a trindade moderna de controle, libertação e progresso, tentando “esculpir” neblina mutável do mundo.

Escrito quase mil anos antes da era cristã, o livro de Eclesiastes descreve bem esses conceitos da posmodernidade. Isso não surpreenderia a Salomão, que veria nosso senso de desorientação e frustrada falta de controle, não como o “fim da realidade”, mas um despertamento para a realidade como ela sempre foi. Seu tema poderia ser chamado “A insustentável leveza do ser”—titulo de uma obra de autor posmoderno atual—mas Eclesiastes 1.1-3 e 12.8 falam da  vaidade (hebel) como “vapor” e “sopro” (ver Pv 21.6; Sl 39.4-11; Jó 7.16). É a efemeridade da existência humana. No Novo Testamento, Tiago afirma: “Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tg 4.14)

Voemos até Provérbios 31.10-31 (também compilado por Salomão). O Koheleth, o rei-pensador mais sábio sobre a face da terra, deixou-se perder pela idolatria de suas múltiplas mulheres. Quando escreveu o acróstico da mulher virtuosa, em que cada versículo segue a ordem do alefbeit hebraico, ele fala do padrão de força, diligência, organização e compaixão de uma mulher singular, a mulher segundo o coração de Deus, que teme ao Senhor, e por isso será louvada. Isso foi dito também com respeito a Rute (3.11): “Meu povo sabe que és virtuosa”. E Provérbios 12.4 afirma que a mulher virtuosa é coroa do marido. Aqui, não temos tempo de fazer estudo detalhado das características da mulher excelente, mas ressalto que ela é louvada pelo que é, pelo que faz, e que permanece em um mundo onde tudo é mutante e desvanecente. Ela teme ao Senhor—portanto, não tem nada a temer dos homens (ou de outras mulheres).

A mulher geradora, provocadora e proporcionadora de relacionamentos no macro e no microcosmo em que está inserida, perdeu, com a Queda cataclísmica, o jardim, o relacionamento consigo mesma, com o próximo, e com Deus. Tem em sua tessitura forte fibra, flexível espinha dorsal, entretecida de existência efêmera, leve e transitória. Para não se caracterizar pelo que é virtual, descrito como “redes e laços, cujas mãos são grilhões” (Ec 7.26), ela tem de se revestir de virtude eterna (cf. 1Pe 1.3-5; Fp 4.8), lembrando sempre que tem este tesouro “em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2Co 4.7).

Como viver de maneira virtuosa em um mundo virtual? Para uma resposta sábia, os cristãos precisam examinar com mais cuidado o que realmente está acontecendo ao redor. Precisamos de conhecimento, discernimento e firme resistência. Foi essa a oração do compilador dos livros de sabedoria: “Dá, pois, ao teu servo coração compreensivo para julgar a teu povo”. Pedro escreveu a crentes que foram expulsos de seus lares, e eram forasteiros em um mundo em transição, espalhados por toda a terra, entristecidos por diversas provações. Lembrou-lhes as palavras de Isaías sobre essa condição passageira: “Seca-se a erva, e cai a sua flor, a palavra do Senhor, porém, permanece eternamente” (Is 40.6-9; 1Pe 1.23-25). E em sua segunda epístola, ele diz que pelo poder de Deus todas as coisas que conduzem à vida e à piedade nos foram doadas pelo pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude (2Pe 1.3-10). Em um mundo virtual, eu quero a realidade da virtude que nos torna coparticipantes da natureza divina!
 
Elizabeth Gomes

domingo, setembro 14, 2014

RESENHA: CORAÇÃO E SEXUALIDADE



Allen Ribeiro Porto
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 



Gomes, Wadislau Martins. Coração e sexualidade: entendendo Deus, a si mesmo e o outro. Brasília, DF: Refúgio, 1999. 108 p.
.:A Bíblia, o Jornal e a Caneta:. – Observando o mundo com as lentes das |Escrituras
http://allenporto.wordpress.com/2012/03/19/livros-bjc-coracao-e-sexualidade/
Livros BJC: Coração e sexualidade – Posted on march 19, 2012

Desde que comecei a ler materiais do CCEF, do tipo Paul Tripp e Ed Welch, tenho apreciado demais esta proposta de aconselhamento, bem como ficado surpreendido com a fidelidade à Escritura. O encanto com o “material de fora” é bom: Tripp, Welch, Lane, etc., são ótimos autores, e  as editoras que os publicam estão de parabéns. Mas há coisa do mesmo nível publicada originalmente em nossa língua, como esta obra do Rev. Wadislau Gomes.

O autor é um dos pastores da Igreja Presbiteriana Paulistana (IPP), e professor visitante do Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ). É doutor em ministério [pelo Reformed Theological Seminary (Jackson, Mississipi, EUA) e Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (S. Paulo)]. É também fundador do Ministério Refúgio, que trabalha na área de aconselhamento bíblico. Fico especialmente impressionado com sua escrita poética e criativa, demonstrada na obra em questão, e regularmente no seu blog, o Coramdeo Comentário.

O Rev. Wadislau usa um tema instigante para tratar um ainda mais profundo. O título pode enganar os desavisados – apenas um livro sobre sexo? Desde o início vem a resposta:

Este é um livro sobre a identidade humana. A sexualidade humana é uma forma de conhecer a unicidade e a pluralidade de Deus, a fim de refletir Sua imagem e semelhança. Sexualidade é mais que o ato sexual. É ser homem, ser mulher, descobrir a si mesmo com único e ao outro como igual na humanidade. É contemplar a Deus revelado na glória de sua graça e refleti-lo em fé até transbordar do seu amor. (p.7)

Mais do que sexo, o livro aborda uma interpretação do homem e suas nuances relacionais a partir do ponto de referência bíblico. Trata-se de uma ressignificação ou releitura do assunto, agora com novas lentes, que trabalham melhor as complexidades do tema e do ser humano sem cair nos reducionismos psicologizados.

O Rev. Wadislau usa a estrutura Trinitária para nos apresentar a questão do um e do múltiplo solucionada. As lutas com individualidade e pluralidade são resolvidas na percepção adequada de Deus e sua consequente ação no mundo. Deste modo é que o sexo é definido como “o relacionamento íntimo entre um homem e uma mulher casados cuja finalidade é unir as diferenças e recompensar o amor” (p.15).


Cada capítulo envolve exemplos e histórias criativamente delineadas para levantar discussões e apontar para uma resposta bíblica. Tal resposta entra em conflito direto com as propostas terapêuticas levantadas, pois, segundo o autor, a Escritura não pretende ser assim primeiramente, mas essencialmente redentiva – “promovendo não a solução dos problemas, mas o conhecimento de Deus que justifica e santifica com resultados de transformação e cura” (p.18).

Aqui repousa o desafio. Um casal em crise deseja um comprimido que resolva imediatamente o problema, enquanto é-nos apresentada uma proposta melhor do que “tapar os buracos criados pela chuva no asfalto”: um recapeamento completo, promovido em longo prazo e envolvendo o paciente e doloroso processo de retirar as imperfeições da pista.

O autor dialoga com quem pensou o homem e sua sexualidade. Nomes conhecidos como Freud, Rogers, Frankl e Skinner são mencionados, e têm suas propostas, ainda que brevemente, observadas e destacadas em seus acertos e erros. Uma boa surpresa é encontrar Herman Dooyeweerd, filósofo cristão holandês nesta obra, escrita em 1999. Isso indica que o Rev. Wadislau estava utilizando categorias do fundador do pensamento reformacional há bastante tempo.

Categorias importantes usadas por Gomes no material são as de perceber o homem como receptivamente criativo e ativamente redentivo, conceito [de Van Til] também utilizado na obra “aconselhamento redentivo”, de 2004.

Deus nos fez receptivamente criativos e ativamente redentivos a fim de que reconhecêssemos aquilo que há em comum em toda a natureza e, ao mesmo tempo, nos reconhecêssemos diferentes no relacionamento que temos em referência Ele e ao mundo. (Coração e sexualidade, p.28)

Somos criados receptivamente criativos (habitação) e ativamente redentivos (imaginação). A Escritura revela que nós experimentamos o mundo a partir das afeições do coração – fé, esperança e amor – e que essas afeições se expressam por meio da habitação no conhecimento, da imaginação desse mesmo conhecimento e da operação do conhecimento. Assim, a fé, que inclui crenças e valores, e a esperança, que inclui os modos formais para a solução de problemas, propõem-nos uma base paradigmática motivacional para os atos humanos.
Esse ponto de partida paradigmático nos oferece uma definição da experiência humana quanto à elaboração do conhecimento. A principal motivação dos seres humanos reside no coração com seus afetos em relação a Deus, quer sob sua graça quer sob sua ira. Assim, a imaginação, vista biblicamente, é holística, mola (como oposto a molecular), objetiva/subjetiva, genética/tácita e socialmente condicionada, cognitiva, volitiva e emocional. (Aconselhamento redentivo, p.117) 

A compreensão do homem, na perspectiva do autor, também passa pelas categorias de Criação, Queda e Redenção. Nesta seção do livro, conceitos como o de integração e individuação são apresentados e nos ajudam bastante na jornada. Compreender a integridade da criação, e a fragmentação gerada pela Queda histórica nos ajuda a lidar com as dificuldades individuais e relacionais. A Redenção é o que fornece esperança e graça para transformações verdadeiras e significativas. A obra completa de Jesus na cruz é uma janela na história que promove impactante virada.

O Pr. Wadislau descreve com profundidade e singular compreensão os movimentos do coração, e revela como perceber tal ponto fornece base para nosso trato com os indivíduos, casais e comunidades.

Somos caídos, e todos os nossos esforços para conseguir a individuação (integridade: integração ou unidade com o propósito de Deus, inteiração ou unidade interior, e interação ou unidade social) terminam em alienação da Fonte da vida, em desintegração interior, e em separação exterior (relacionamentos interpessoais). Não conseguimos explicar como amor e ira funcionam e vivemos vencidos pelas contradições do nosso comportamento. Queremos amar, entregar, olhar o outro primeiro, mas  sentimento de que alguma injustiça foi cometida (ira) nos assalta e vence. É a luta entre o amor que se entrega e o medo que protege a pessoa de se descaracterizar na entrega. (Coração e sexualidade, p.45).

Na vida sexual, os movimentos do coração se conturbam em busca de uma resposta. Ha o apelo do prazer físico, há a luta pelo poder, há o desejo de ser conhecido e amado, há a tendência para a entrega e o medo da descaracterização, todas essas coisas lutando dentro da pessoa e se reproduzindo em cada relacionamento. (p.49)

É aqui que os ídolos do coração aparecem, e promovem separação, em vez de integração/individuação. Aspecto importante do trabalho de Gomes, é destacar o amor como compromisso (p.51). Sua percepção foge dos lugares-comuns influenciados pela escola do romantismo, nos quais o amor é visto como um sentimento. Deste modo, é o compromisso que cria bons sentimentos, como descreve (eu diria que o amor e a graça alimentam os sentimentos, e acredito que o Rev. Wadislau concordaria com isso).

Outras questões são contempladas nesse processo de reflexão sobre a sexualidade e a identidade humana. O ensino bíblico sobre homossexualidade, questões genéticas, racismo, masturbação e a intimidade exagerada no namoro. Como lidar com os conflitos percebidos e os dilemas do coração humano? Um ponto básico é lançado: “a graça do Senhor é nossa fonte de prazer” (p.58). Gomes aplica, então, o quadro de referência da Criação-Queda-Redenção à leitura do problema, e com tais lentes observa e trata a questão.

Em lidar com “o outro”, Gomes fala do casamento e seu lugar no projeto Divino. Aqui há um extenso e interessante diálogo com Cornelius Van Til, pastor, teólogo e apologeta. O destaque central é a analogia da família com a Trindade, e do casamento com a relação entre Jesus e a Igreja. Três movimentos no contato com o outro são identificados: o de controlar, agradar e dominar, e um interessante diagrama facilita a compreensão do assunto, mas novamente a ênfase repousa sobre a redenção, e sobre a adoção como a resposta para o problema da luta de poder: “Na redenção dos relacionamentos, o casal vive a adoção, trazendo para o próprio coração o coração do outro; pondo na própria conta o débito um do outro e refrescando-lhe o coração. (p. 70)”

Finalmente, Gomes menciona o conceito de Teorreferência (à época, Teo-referência): “Na verdade, não há outra forma de compreender a existência senão que Deus existe, e nós somos seu reflexo. Somos análogos – Sua imagem e semelhança. Somos teo-referentes. (p.73)”, e usa Cantares e Efésios 6 para nos dar perspectivas de relacionamentos saudáveis, e aponta para Jesus e o evangelho como a fonte de satisfação e saúde individual e coletiva.

Esta ênfase nos movimentos e caminhos do coração demonstra uma apreciação mais completa do homem, por não observar apenas comportamentos e tentar transformar ambientes, mas lidar com os elementos mais íntimos do ser, e buscar uma transformação que não pode ser operada por homem algum.

Recomendo fortemente o livro a homens e mulheres em busca de uma masculinidade/feminilidade sadia, casais em direção ao casamento, casais casados, e líderes que de alguma forma se envolvem no aconselhamento.
 
Allen Porto

segunda-feira, setembro 08, 2014

BOA COMIDA




Estávamos de volta ao Brasil depois de quase sete anos nos Estados Unidos, e eu me alegrava com receber em casa os jovens da Igreja Presbiteriana Nacional, para o estudo bíblico. Chegando ao fim do estudo, notei certo desconforto—uns dois ou três chegaram a ir até a cozinha para “dar uma olhadinha”—mas não atinei com a razão. Só depois, em outra casa que recebia a turma para estudar a Bíblia, foi que entendi a inquietação que ocorrera lá em casa. A anfitriã tinha uma mesa farta de salgadinhos e refrigerantes para oferecer. Eu não oferecera nem um suquinho. Tinha cometido a gafe de não incluir comida na reunião. Muitos jovens vinham direto da escola ou do trabalho, e eu não fui sensível à expectativa de saciar a fome simultaneamente à ingestão da Palavra de Deus! Espero que eles tenham me perdoado (muitos deles são hoje profissionais bem sucedidos e pais de família que postam fotografias dos lindos filhos que crescem na Palavra) — eu ainda fico remoendo por que eu não preparara um bom lanche para aquela noite.

Na verdade, comida é assunto importante para todo mundo. Guerras são travadas e paz é proclamada com divisores alimentares. De a antiguidade, a comida tem influência sobre indivíduos e povos. Na Bíblia, começando com a atração de Eva pelo único fruto proibido em todo o jardim com a desculpa de que era boa para comer, deleite aos olhos e desejável para aumentar sua sabedoria – até o banquete a que estão convidados todos os salvos nas Bodas do Cordeiro descritas no Apocalipse – comida faz parte da vida de gentios, judeus e cristãos. Apesar de alguns gnósticos modernos afirmarem que se alimentam apenas de luz, nós seres humanos não podemos viver sem comida, e sua escassez ou fartura formam e deformam os indivíduos e as nações. Desde as tolas guerras de comida travadas por adolescentes nas mesas de acampamento até as insanas batalhas por fome de terras e bens travadas diante de acordos mal-fechados e tratados de paz desfeitos, a comida sempre faz parte da briga. Uma mãe preocupada leva o menino gorducho (subentende-se obeso) ao pediatra para indagar sobre a necessidade de uma re-educação alimentar; consagrados pais crentes ficam chocados ao saber que a filha de dezesseis anos quase morreu por anorexia nervosa; um pastor bem sucedido ouve a sentença: se não mudar seus alimentos, a diabetes e aterosclerose vão lhe matar!

Prever e apresentar uma solução prática à grande fome prestes a avassalar toda a terra tirou José do cárcere para a posição de governador do Egito, e essa mesma fome levou as setenta pessoas que formavam o povo de Canaã à fartura de Gósen, até que quatrocentos anos depois, voltassem a se libertar do cativeiro e rumassem novamente à Terra Prometida que mana leite e mel (Gênesis 40-50). Nos intricados quarenta anos que vaguearam pelo deserto (viagem que poderiam ter feito em duas semanas) toda uma geração morreu por causa da murmuração quanto à comida (ah! quem dera comer das cebolas, alhos e melões do Egito!) e contra a liderança de seu libertador  (Êxodo 12.37; Deuteronômio 34). Quando faltou comida, Deus proveu diariamente pão do céu (O que é isso?—Ma ná?—perguntaram) e churrasco de codornizes, e fez jorrar água viva da rocha seca.

Referindo-se ao maná, o poeta diz: “Comeu cada qual o pão dos anjos; enviou-lhes ele comida a fartar” (Sl 78.24-25).
 
Juntamente às leis de adorar somente a Deus e amar o próximo, detalhadamente escritas e implementadas, Deus deu leis a respeito de alimentos, o que é kosher e o que é treyfe, e grande parte da vida do povo de Deus se resumia no que comer ou sequer tocar. Até hoje, muitos judeus crêem que a vida se resume em guardar essas detalhadas leis dietéticas.

Poderíamos atravessar toda a Bíblia por meio das referências à comida. No cativeiro, Daniel e seus amigos príncipes hebreus aprenderam tudo da cultura pagã em que estavam forçosamente inseridos, e não se importaram de receber nomes babilônicos ou exercer cargos administrativos ou políticos sob domínio de imperadores pagãos. Mas pediram para manter uma alimentação judaica saudável e não ser forçados a comer as iguarias da terra dominante.

Jacó trapaçeou seu pai roubando a bênção do direito de primogenitura do irmão gêmeo Esaú, preparando um saboroso guisado de cabrito e lentilhas (Gênesis 27) em lugar da caça que Isaque pedira ao mais velho. O salmista fala do Senhor  e Grande Pastor de Israel como de quem “nada me faltará”, e depois de falar de pastos verdes e águas calmas menciona que “preparas uma mesa diante de mim na presença de meus inimigos”! Ele é quem dá alimento a toda carne, porque a sua misericórdia dura para sempre (Sl 136.25; 145.15-16). Não apenas alimenta a gente, como também as aves e os animais (ex. corvos—Jó 38.41—“Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus pintainhos gritam a Deus e andam vagueando, por não terem que comer?...”—Jesus no Sermão do Monte se referiu a isso, Mt 6.23-33, dizendo “Vosso pai sabe que precisais de todas essas coisas”).

Jesus deixou de comer para oferecer água viva à mulher samaritana, e quando interrogado pelos discípulos, disse: “minha comida consiste em fazer a vontade de meu Pai”, João 4.31-34. Multiplicou o lanche magro de um garoto para saciar a fome de mais de 5000 pessoas, sobrando ainda doze cestos cheios (Mt 14.14-22). Disse, ao que vai cumprir a missão do reino, para repartir o que tem (Lc 3.11) e ainda afirmou ser ele mesmo o pão da vida (Jo 6.27, 48-55) verdadeira comida. O seder celebrado por Jesus antes de sua prisão, tortura, morte e ressurreição tratava de comida e expandiu a idéia além de matzo e vinho e cordeiro compartilhado (MT 26.17-23, Mc 14.12-25, Lc 22.7-20, 1Co 11.17-34). Depois de sofrer risco de morte e naufrágio no mar Adriático, Paulo imitou o Senhor tomando um pão, deu graças a Deus na presença de todos e, depois de o partir, começou a comer (At 27.35-38).

Os apóstolos falavam a seus discípulos sobre comida sacrificada a ídolos (1Co 8.4,9,13), pessoas que julgavam as outras por hábitos alimentares diferentes das delas (Cl 2.16-17, 23; Rm 14.15-1); diferentes alimentos para estágios diferentes da vida (leite para infantes, 1Pe 2.2-3, Hb 5.12-14, grãos, carne, frutos e verduras para os que podem digeri-los) com a ressalva de que 1) comida não é tudo na vida: “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” e 2) Deus é quem “dá semente ao que semeia e pão para alimento e também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos”.

Há alguns anos tenho um projeto que ainda não consegui realizar: escrever um livro de receitas de comidas criadas e provadas da cozinha de Refúgio. Não quero fazer apenas um compêndio de boas dicas, mas entremear as receitas com histórias que nutram o coração das pessoas enquanto preparam comida que sacie a fome. Tenho observado gente do mundo todo que dá receitas criativas sobre culinária, desde as mais simples até as mais gourmets (curto Jamie Oliver, Bela Gil e dezenas de outros), mas meu projeto terá que ser refletivo de um estilo de vida em que “minha comida consiste em fazer a vontade de Deus”.

Ano passado, li um livro escrito por uma jornalista americana casada com jornalista de origem árabe, que passaram a lua de mel reportando a guerra em Bagdá. Ela entremeia considerações sobre ataques e bombas entre Bagdá e Beirute com a preparação de comida no Oriente Médio (Annia Ciezadio, Dias de Mel, São Paulo, Paz e Terra, 2011). Deu água na boca, lembrar comidas preparadas por dona Hyripsemé Daghlian ou Da. Lídia Atique e imaginar usar boas receitas para semear paz e promover crescimento espiritual a gente faminta! Alguns meses depois, deparei com um livro escrito por um pastor episcopal em que o “Jantar do Cordeiro” é tema para reflexões culinárias sobre a Bíblia e a boa comida (Robert Farrar Capon: The Supper of the Lamb, New York, Modern Library Food, 2002).

Este pequeno blog talvez abra seu apetite para pensar em comida — como obter, preparar e servir, o que faz bem, torna consistente ou deve ser descartado, como reduzir, multiplicar e compartilhar com família, amigos e até mesmo na presença de inimigos. Este ano ainda vou preparar o livro. Enquanto não sair do forno de idéias e palavras, convido você a comer conosco o convite que Isaías pôs em pergaminho e Deus colocou no curacao:

Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.  2 Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares.  3 Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi (Isaías 55.1-3).


Elizabeth Gomes