terça-feira, outubro 22, 2013

REFORMA PROTESTANTE -- UMA LIÇÃO DE HISTÓRIA



Atente ao salmista: Elevo os olhos para os montes: de onde me  o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra (Sl 121.1-2). Observe que socorro não vem dos montes, mas do seu Criador! Não é uma declaração ultramontana? No entanto, está tão perto como um punhado de terra úmida na concha da mão. É exatamente disso que precisamos para entender o papel da Reforma Protestante do séc. XVI e a razão de sua permanência. Ela se alça como bandeira fincada em um ponto histórico da escalada. Entretanto, do outeiro de onde observamos a sua elevação e consequências na formação do atual pensamento moral, metafísico e epistemológico, muitas vezes, incorremos no erro de considerá-la como o monte de onde nos viria o socorro. É como quem, olhando de uma colina, vê o pico mais próximo como se fosse o mais alto, esquecido do que há no início e ao longo de toda uma cordilheira. Nada melhor do que o tempo passado e os efeitos observados para uma visão ampla e mais alta da história.

A fim de bem avaliar as perspectivas, a história maior, escrita por Deus, terá de ser vista de perto e de longe (“Acaso, sou Deus apenas de perto, diz o Senhor, e não também de longe?” – Jr 23.23). Para isso, será preciso levar em conta, pelo menos, três aspectos dessa visada (Vant Til, Frame, Poythress):

Original de John Frame com base em argumento de Van Til,
utilizado por Vern Poythress e adaptado por WMG
(1) há uma tríade de soberania – o Senhor é quem cria e sustém a história, sempre em controle de toda a verdade, sempre presente em amor, e sempre com suprema autoridade sobre todas as suas obras (At 4.8; 17.24-27);
(2) há um aspecto normativo central – Deus revela a si mesmo e a sua vontade por meio da Bíblia, a qual é suficiente para o conhecimento e para a prática de vida; e, à sua luz,
(3) há uma tríade de dependência:
(a) um aspecto descritivo, significando que a pregação e recepção da Palavra de Deus, e a observação e constatação do homem, dependem da sua fidelidade à Palavra original;
(b) um aspecto situacional, significando que nada ocorre no vazio e de súbito, e que os fatos históricos atendem aos propósitos de Deus de criar um novo homem e uma nova humanidade (Ef 1.11; 2.10-22; 3.10-11); e
(c) um aspecto existencial, significando que os tempos e espaços entre ocorrências principais também estão cheios de significado para o homem interior (Ec 3.1-11; Rm 8.18-29; 2Co 4.16; Ef 3.16; 1Pd 3.4).

Bem viu Isaias, quando registrou a voz de Deus: “Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito” (Isaías 57.15). O profeta olhava para o Senhor dos montes e antevia o ponto mais alto da história. Apontava para Deus e “o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.9-10). A ele “pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” – diz o salmista, perguntando: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem há de permanecer no seu santo lugar?” (Sl 24.1-3). E a Palavra responde: “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas” (Ef 4.10).
Bem viram os reformadores, mais de mil e quinhentos anos depois do cumprimento profético, quando escalaram o “monte” da Reforma. Seus braços estendidos não declaravam outro socorro que não o do Senhor. Apontavam para um monte superior, para o Senhor e referência de todas as coisas. Ele é a revelação de Deus na história, a própria História, de quem Paulo disse “para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.2-3). E Jesus mesmo resumiu o princípio da história apontada pelos reformadores: “Vim do Pai e entrei no mundo; todavia, deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16.28).

Aspecto normativo. “Quem me vê a mim vê o Pai” – disse Jesus (Jo 14.9), sobre quem João declarou: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, completando que ele é a razão e o propósito da criação, a vida e a luz dos homens (Jo 1.1; ver 2-5). Isso também Jesus explicou: “porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste” (Jo 17.8). Assim, Jesus Cristo é a Palavra viva, “o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser [de Deus], sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, [que] depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas (Hb 1.3). Portanto, a base normativa da totalidade e do ápice da história da primeira Reforma do séc. I AD é o próprio Senhor Jesus Cristo e sua Palavra Escrita. Sobre a Palavra, Pedro testifica: “que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pd 1.20-21). E Paulo reafirma a necessidade de permanecer nela a fim de obter sabedoria para a salvação pela fé em Cristo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (ver 2Tm 3.14-17).

Aspecto descritivo. O apóstolo Paulo reafirmou o aspecto normativo ao dizer que havia recebido o evangelho “não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl 1.1). Falou também de outro aspecto, descritivo, a que pessoas como nós, que não viram e ouviram diretamente o Cristo ressurreto, deveríamos nos ater, isto é, o evangelho pregado (Gl 1.8, 9). A segunda reforma, do século XVI, cumpriu exatamente essa orientação apostólica, como Calvino disse: “Nossa fé nele não será firme se não compreendermos seu divino poder (...) assim, não devemos receber friamente o fato de que ele veio de Deus, e também entender por que razão e propósito ele veio – para que nos fosse sabedoria, e santificação, e justiça, e redenção” (Calvin’s Commentary, John 16.28).

Aspecto situacional – refere-se aos montes dos quais se avista o monte do Senhor. Assim como muitos montes figuram o monte do Senhor – Sião, Oliveiras, Gólgota, etc., – assim também muitos “montes” da história marcaram muitas reformas. O apóstolo Paulo, com respeito à primeira Reforma, usa o argumento de Abraão para mostrar como a perfeita e boa Lei de Deus atua em relação à situação decaída dos homens, e como Cristo sofreu a maldição da lei em nosso lugar: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão” (Gálatas 3.8). E argumenta (Gl. 4.22-31) que Abraão teve dois filhos, um da mulher escrava, nascido escravo, e outro, da livre, nascido da promessa. “Estas coisas são alegóricas; porque estas mulheres são duas alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão”. Agar, ele diz, figura ambos, o monte Sinai e Jerusalém escrava de legalismo; “mas a Jerusalém lá de cima é livre”. Em outra situação, o diálogo de Jesus com a mulher samaritana é elucidativo: ela disse: “Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.” E Jesus respondeu: “...podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus” (Jo 4.20-22). Portanto, o que se depreende é que tanto a Reforma do séc. XVI quanto todas as reformas necessárias ao longo da história, para serem coerentes com o aspecto normativo e asseguradas no aspecto descritivo, têm manter em mente um aspecto situacional: que a verdadeira lei de Deus, em Cristo e em sua Palavra, apresentam duas perspectivas excludentes: ou vemos a graça de Deus em todo esplendor da verdade em amor, ou olhamos para miragens de lutas inglórias, carnais e escravizantes. No primeiro caso, fica a admoestação de Pedro:
... santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal. 1 Pd (3.15-17).

Aspecto existencial. Certamente há nos montes da terra um elemento de luta e de dor. Jesus, Filho de Deus e Filho do homem, enfrentou essas coisas ao entrar no mundo. Dele, que é a verdade e o amor, a justiça e a bondade, foi dito: “Eis que este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel e para ser alvo de contradição (também uma espada traspassará a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lc 2.34-35). Dominava-lhe a graça e a ira do Pai, como disse João: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14) e “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (3.16). Paulo também diz o mesmo, em outras palavras: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento (Rm 2.4)? E: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça (1.18). Paulo ainda reflete esse sentimento em moldes humanos, quando diz: “lutas por fora, temores por dentro” (2Co 7.5). Certamente os reformadores do séc. XVI refletiram essa tensão. Em uma carta a Falais, Calvino escreveu:
No presente estado de coisas, reconheço a intenção de nosso Deus de privar-nos de um Evangelho triunfante, a fim de nos constranger a lutar sob a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Contentemo-nos com o fato de que ele reitera seu método de lidar de maneira miraculosa com a preservação da igreja, por seu próprio poder e sem ajuda de arma carnal (Library of Geneva. Vol. 106, July 1517).

No momento em que entendermos que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne” (Ef 6.12) e derivarmos da primeira Reforma do séc. I a importância de nosso momento, então, reconheceremos os benefícios da Reforma do séc. XVI.


Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, outubro 10, 2013

FALSAS EMOÇÕES

 

Um dos rótulos comuns que as pessoas “colam” sobre nós, mulheres, é que somos exageradamente emocionais – enquanto o gênero masculino se caracterizaria por uma racionalidade límpida e clara. Sempre resisti a esse juízo, embora tenha de admitir que me emociono à toa. Lau zombava de mim porque, quando recém casada, ao assistir a um filme em desenho animado (Peter Pan), eu chorei com os dizeres de Wendy sobre o que é uma mãe. Estava felicíssima por meu estado civil, não tinha saudade do tempo em que estava debaixo da asa da mamãe, e a perspectiva de que eu mesma em breve seria mãe animava meu coração. Mas chorei. Às vezes choro até hoje com livros ou filmes melosos e superficiais. Choro com músicas tocantes, com fotos que falam mais que mil palavras. Meus sentimentos se movem com coisas belas, coisas feias, coisas tristes, coisas alegres. Manteiga derretida sou eu, seja na frustração de observar minhas crescentes limitações, sejam nas vitórias e derrotas que – meninas, eu vi! – ou de observar na vida de pessoas amadas.
 
Além da emoção que brota de sentimentos misturados, característicos de minha humanidade criada à “imagem de Deus, mas decaída”, existem também falsas emoções que sobrevem quando as pessoas rebaixam uma as outras com formas de linguagem que ocultam o sentimento verdadeiro, e não nos deixam plenamente cônscios da diferença entre o que é verdade e o que é falso. É o exemplo do kitsch – uma obra de arte que não vem como resposta ao mundo real, mas é uma fabricação projetada para substituí-lo. Vemos muito evangelho kitsch nos dias atuais – apresentações bonitas, sanitizadas do que seja atraente no evangelho de Jesus Cristo, mas que negam o poder e a glória da cruz e da ressurreição. Tanto o produtor (escritor, pregador, promotor, pensador superficial) quanto o consumidor (nós ouvintes, leitores, curtidores) conspiram para persuadir um ao outro de que o que sentem nessa obra kitsch de escrita, postagem, pregação, compartilhamento – seja algo profundo, importante e verdadeiro. A ênfase na comunicação mudou, do conteúdo do que se diz para o poder que fala por meio dele – não obstante a verdade ou inverdade do que é e pode ser.
 
Reconheço diferenças culturais e de gênero, algumas mais de educação do que biológicas, outras, do ensino bíblico transmitido de geração em geração – e lembro que desde Eva, uma sensibilidade para com os relacionamentos caracterizaria nossa persona (Gn 3.16) enquanto Adão procuraria desbravar, vencer espinhos e multiplicar o rumo que tinha pela frente (Gn 3.17-19). Mas ambos tinham o mandato cultural de cultivar e guardar, de cuidar, preservar e alargar os limites. Ambos também são compostos de raciocínios segundo a imagem de Deus junto a sentimentos segundo o coração do Senhor da Criação, que desde seu princípio fez tudo muito bom, um jardim de delícias e de criatividade multiplicadora.
 
No âmbito da cultura atual, constatamos a falsidade reinante e cada vez mais crescente, e chegamos a perguntar se não seria possível continuar indo com as ondas como nesse rio caudaloso que quer nos dominar e afogar. Não seria possível continuar na falsidade das emoções esdrúxulas? Isso não seria preferível às vidas autênticas e sinceras em que as paixões humanas florescem sem controle, muitas vezes em plenitude de maldade? Quem sabe o destino da cultura seja induzir a todos para um sonho de Disneyland sempre que a perigosa cobiça por realidade nos assoberba. Afinal, quando se olha as instituições culturais nas democracias hodiernas, podemos achar que seu propósito é de falsear, e que isso se faz para o bem e para a ignorante felicidade de todos.
 
Dick Keyes, em Seeing through Cynicism, disse: “A fé cristã partilha, pelo menos parcialmente, de certos diagnósticos comuns de juízos cínicos... não existem cantos escondidos de inocência neste nosso mundo. Existe neste mundo o sofrimento aparentemente sem propósito, sem sentido, de desperdício; existe, misturado ao amor, beleza, paz, prosperidade e validade – ódio, caos, pobreza e morte. Tais realidades não são distribuídas conforme alguma aparente igualdade ou justiça. A maioria dos observadores honestos poderá ver junto ao Pregador de Eclesiastes: ‘Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio, pois o tempo e o acaso afetam a todos’ Ec 9.11)”.
 
Quero trazer às minhas emoções e ao meu raciocínio dois princípios:
               
a) Quanto às emoções:
 
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.5-11).
               
E b) quanto ao raciocínio:
 
Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade,porque dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz. A ti, ó Deus de meus pais, eu te rendo graças e te louvo, porque me deste sabedoria e poder (Dn 2.20-23).
 
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1-2).
 
...antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal. (1Pe 3.15-17).
 
A razão e a sensibilidade estão juntas sob a esfera da vida no Espírito. Porque no fim, nossa emoção e nossa razão têm de andar juntos sob o senhorio de Jesus Cristo!
 
Elizabeth Gomes

terça-feira, outubro 01, 2013

A REFORMA E O BOI DE BRIGA



As excelentes aproximações de cristãos que conhecem a Reforma Protestante e reconhecem suas bases na Escritura Sagradas são como festas de louvor e ação de graças. São festas santas em que a obra de Cristo é exaltada, como disse Calvino citando Oséias: “‘Tira a iniqüidade’, diz ele – eis a remissão dos pecados! ‘E ofereceremos como novilhos os sacrifícios de nossos lábios’ – eis a satisfação!”

Contudo, no contraponto, há figurações de outros que seguem o passo sem saber para onde. Parece mais festa de circo ou parque de diversões no arraial: rojões, banda ou violeiros, corrida do boi, e os inevitáveis rasga roupas. “Dou um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair dela” – diz o cabra macho. Nas ruas, isso parece até coisa bonita quando o boi não investe e dá uma carreira no matuto.

É claro que, desde o início da Reforma, havia os que davam marradas, e Calvino não fugiu à luta, pegando os bois pelos chifres. Sadoleto, Servetus e outros sentiram a doma do reformador. O próprio apóstolo Paulo deu nome aos bois: por exemplo, Demas, Alexandre, o latoeiro, etc. Judas, “servo de Cristo e irmão de Tiago”, que também não tinha medo de boi matreiro, exortou-nos a batalhar “diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. Mas ainda que condenasse os homens ímpios que transformavam a graça de Deus em libertinagem, brutos sem razão, ele também advertiu: “Contudo, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a proferir juízo infamatório contra ele; pelo contrário, disse: O Senhor te repreenda!” (Judas 9.)

Adversários são herança da fé, como o Senhor Jesus preveniu: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (João 15.20).  Mas lembre-se do que ele também disse: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mateus 5.44-45).

Calvino (Institutas 3.7.6) diz:

O Senhor preceitua que se deve fazer o bem a todos em geral, os quais em grande parte são muitíssimo indignos, se forem estimados em seu próprio mérito. Mas aqui a Escritura nos apresenta uma excelente razão, quando ensina que não se deve atentar para o que os homens mereçam em si próprios, pelo contrário, deve-se levar em conta a imagem de Deus em todos, à qual devemos toda honra e amor. Entretanto, essa mesma imagem deve ser mais diligentemente observada nos domésticos da fé [Gl 6.10], até onde foi ela renovada e restaurada pelo Espírito de Cristo.

E em outro lugar, cita Agostinho: “É de admirar-se”, diz ele, “a paciência de Cristo, porque admitiu a Judas ao banquete no qual instituiu a figura de seu corpo e sangue e deu aos discípulos”. (Institutas 4.17.21).

A diferença do trato bíblico e do trato ímpio é que o servo de Cristo enfrenta cara a cara os repreensíveis e os inimigos da fé, como Paulo fez com Pedro e a Elimas, o mágico.  Não se faz calar alguém com a força do pensamento à distância nem com a de argumentos, pois o coração rebelde só vê o que está presente e próximo. Quando houver necessidade de que, como disse Van Til,  uma voz se levante “em defesa das pequenas ovelhas de Jesus”, será bem que haja um contato pessoal, por carta ou telefone (lembrando sempre de que cartas são documentos e telefonemas são vazios de testemunho). No caso de a pessoa repreendida ser um irmão, poderá se arrepender e ter a paz restaurada; caso contrário, deverá ser denunciada à igreja para disciplina. No caso de ser um impenitente, então será preciso que seja exposto para vergonha sua e proteção dos irmãos. No entanto, isso deverá ser feito com o respeito devido a todo ser humano, por causa da imagem de Deus, nele deformada e, em nós, reformada à imagem de Cristo.

Paulo coloca bem isso em 2Coríntios 10.1-18, quando roga, invocando a “mansidão e benignidade de Cristo”, que não tivesse de ser ousado quando presente com os crentes daquela igreja. Ele preferia ser humilde em presença e ousado para servi-los à distância.

Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo.

Mas, se preciso fosse, queria que todos os crentes estivessem prontos, como ele estava disposto, “para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão”. E diz ainda: “para que não pareça ser meu intuito intimidar-vos por meio de cartas” e “Considere o tal isto: que o que somos na palavra por cartas, estando ausentes, tal seremos em atos, quando presentes”. Sobretudo, a preocupação do apóstolo não é com sua própria figura ou apresentação, nem com sua “missão”, mas com a medida da glória de Cristo. Não temia ultrapassar os seus limites, uma vez que ele mesmo havia pregado o evangelho aos coríntios, considerando-os dentro de sua esfera de ação juntamente com a tarefa de ir além das fronteiras. Entretanto, tinha um cuidado com o equilíbrio da ousadia e da humildade. A chave? “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, e sim aquele a quem o Senhor louva”.

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, setembro 10, 2013

SUPERABUNDANTE GENEROSIDADE


"Generosidade de Deus" -- ao lado de nossa casa (foto de Tércio Garófalo).

Uma amiga que trouxe à nossa casa bandejas de guloseimas da festa de natal de sua empresa, quando um missionário e professor querido chegou para ser hospedado em nossa casa e nossa dispensa e geladeira estavam vazias. Um irmão que poupou as críticas e nos encorajou na caminhada com Cristo em um momento especialmente difícil de nossa vida. Uma judia que eu conheci em um encontro para futuros escritores e convidou a seis de nós colegas para comer (a suas expensas) em um restaurante fino de Philadelphia, simplesmente porque “recebi uma herança generosa e quero compartilhar com outras pessoas”. Um casal que, sendo Wadislau seu pastor anos antes, quando batalhava por cada centavo que recebiam como faxineiros, agora, financeiramente prósperos, ao contemplar uma viagem de sonhos para Israel, deu-nos passagens e ainda um dinheiro para eventuais despesas, “por simples gratidão”. Uma irmã em Cristo de grandes posses, sabendo que eu não tinha ajudante e estávamos prestes a hospedar um grupo de pessoas em nossa casa/Refúgio para um curso, veio com três faxineiras e suas próprias mãos e “deu uma geral” de cima a baixo em tudo, das janelas aos banheiros ao chão, por amor. Irmãs que compartilham sacolas de roupas, acessórios, sapatos e bolsas (às vezes ainda com etiquetas da loja de origem) para missionárias e velhas amigas como eu, multiplicando o compartilhamento com muitas outras servas do Senhor. Minha ajudante de uma vez por semana que faz questão de me presentear carinhosamente com trufas e artesanatos produto de suas mãos. Uma irmã que ao comprar cremes e maquiagens de griffe faz questão de mandar algo muito especial a outra irmã que não tem recursos para gastar em “superficialidades” que fazem tanto bem e perfumam a vida.

O parágrafo acima podia se estender por páginas para descrever alguns dos atos de generosidade com os quais fui contemplada. Contudo, por natureza, tenho de admitir que me esqueço rapidamente de favores recebidos, lembrando com muita presteza aquilo que fizeram de ruim ou não fizeram de bom por mim. Isso ocorre embora eu tenha sido agraciada com muitas coisas boas. Desde menina, testemunhei e fui e alvo de grandes e pequenos e gestos de generosidade.

Quanto ao assunto da generosidade, a Palavra de Deus é muito clara. Quero destacar dois aspectos: 1) A generosidade de Deus e 2) Deus deseja que o imitemos, e em nossas limitações humanas, desenvolvamos coração, mãos e vidas generosas.

Se procurarmos na chave bíblica o vocábulo “generosidade”, depararemos com algumas situações descritas como “generosidade” de reis que não exemplificam a bondade cristã e sim a abundância de presentes como forma de garantir favores ou estabelecer alianças. Mesmo o patriarca Jacó, queria comprar o perdão de seu irmão mandando bandos de camelos e gado, presentes afirmando que “agora sou próspero e quero garantir um acordo pacífico” (Gn 32); Esaú, que trocou seu direito de primogenitura por um guisado de lentilhas, foi mais nobre que seu irmão e generosamente o perdoou (Gn 33.4). Muitas vezes, nossa própria generosidade é motivada por um secularismo profano de “levar vantagem” ou assegurar acordos como nos acordos entre nações atuais.

Mas a generosidade de Deus é diferente. Benignidade e bondade são reveladas por Deus em todos os seus feitos. Ele é longânimo e assaz benigno (Sl 103.8) em todas as suas obras (Sl 145.17) – até mesmo com os ingratos (Lc 6.35). É o que nos conduz ao arrependimento (Rm 2.4) e, por sua generosidade, Deus nos perdoa segundo a abundância de sua misericórdia (Ne 13.22). A provisão de Deus é prova de sua bondosa generosidade (Sl 68.10) e por generosa bondade Deus nos consola (Sl 119.76). Na verdade, o Senhor nos dá tudo de que precisamos para a vida e a piedade (2 Pe 1.3-11).

Deus requer de seus servos essa mesma espécie de generosidade de forma geral (Pv 11.25;  Pv 22.9; Zc 7.9) como também especificamente – porque é o sentimento semelhante ao de Cristo (Fp 2.2; 5; 3.15; Rm 15.5; 2 Tm 6.18).

Ao estudar esse tema da generosidade, fiquei tocada pelo exemplo da igreja de Corinto, cuja generosidade em angariar oferta para os crentes da igreja perseguida de Jerusalém foi além do imaginável para gente cuja cultura gentílica era anteriormente egoísta. Eis aí, algumas de suas características marcantes (2 Co 8.2-15):

a) no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria;
b) na profunda pobreza deles superabundou grande riqueza da sua generosidade;
c) na medida de suas posses—e mesmo acima de suas posses—se mostraram voluntários;
d) imploraram a graça de participarem da assistência aos santos;
e) deram a si mesmos primeiro ao Senhor, e em seguida, “a nós”; e
f) demonstraram suberabundância  na fé, na palavra, no saber, em todo cuidado, no amor mútuo.

De maneira totalmente contrária à do “evangelho da prosperidade”, Paulo não ordena aos crentes de Corinto, mas recomenda, como consequência da vida em Cristo, que provem “pela diligência de outros a sinceridade do vosso amor”, completando a obra começada “segundo vossas posses”. Ele ainda enfatiza que Deus aceita nossa oferta generosa quando de boa vontade conforme o que a pessoa tem – não segundo o que não tem, com a motivação de outros terem alívio e quem foi generoso não ficar sobrecarregado! O alvo dessa generosidade: para que haja igualdade entre os irmãos (vv 13, 14), para que a presente abundância supra a presente escassez deles, para que a abundância deles venha a suprir vossa falta, e assim, haja igualdade.

Fiquei impressionada com o reforço da repetição de termos contrastantes, como abundância/escassez, riqueza/pobreza. Em vez de destacar o lucro quando somos generosos, Paulo joga com palavras lembrando que Jesus, sendo rico se fez pobre por amor de nós, para, por sua pobreza, nos tornar ricos! Ele Jesus, sendo Senhor do universo, esvaziou-se, tomou forma de servo até a morte, e morte de cruz – para nos enriquecer com toda sorte de bênção espiritual nos lugares celestiais! Isso não é questão de “torta no céu”, mas sim, no passado e para o presente e o futuro. Viver baseado na obra de Cristo, aprendendo a “estar contente em toda e qualquer situação... humilhado, exaltado, tendo tudo, nada tendo...”, experimentando sempre “O que muito colheu não teve demais e o que pouco colheu não teve falta”, é uma lição de generoso céu.


Você e eu, quer sejamos agentes quer receptores da generosidade, podemos, sim, devemos ser ambos – agindo por bondade em abundante graça na vida de dar e receber! Não me lembro o autor, mas lembro desde menina de cantar:
 
 
Que te darei meu Mestre,
            Meu tudo é nada em si
            E se eu te der o quanto eu tiver
            Serei devedor a ti.
                     Cristo, meu tudo é nada diante da imensidão
                     De tua graça demonstrada em nossa salvação.
                     Mas o meu nada é tudo se posto a teu dispor.
                     Haja o que houver, e venha o que vier, sou todo teu, Senhor!

Elizabeth Gomes
 
 
(Veja ainda, de Elizabeth Gomes, “Generosidade e gratidão”, Ética (nas pequenas coisas); São Paulo: Editora Vida, 2010, p. 126).

sexta-feira, agosto 23, 2013

PREGUIÇA, ATIVISMO VAZIO, OU TRABALHO DINÂMICO DE FRUTOS ETERNOS


 
Quando os filhos eram pequenos e no culto doméstico estudávamos o livro de Provérbios, Wadislau sugeriu que fizéssemos um concurso de corinhos para ajudar a gravar algum conceito importante. Um corinho criado foi baseado em Provérbios 6.6-11 e muitas vezes depois, cantávamos em ronda: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio!” Para uma turminha que tinha de levantar cedo e preparar café da manhã, cuidar de animais ou horta, ou caminhar um bom trecho antes de pegar a condução para a escola em madrugadas quando chegava a gear, a lembrança podia impulsionar, animar ou irritar – às vezes, simultaneamente. Pai, mãe e três filhos não tinham como “comer o pão da preguiça” (Pv 31.27), e aqueles que se encontravam conosco entravam no mesmo ritmo com maior ou menor empenho.

Hoje em dia, confesso que me irrito quanto vejo gente que diz servir a Deus, mas demonstra preguiça básica na obra. Lembro do rapaz que disse que queria ser pastor porque “tem respeito, ganha bem, e só prega aos domingos e no culto de quarta-feira”. Qualquer pastor que conheço certamente contestará esse conceito equivocado, mas ainda se encontram muitos que se esqueceram totalmente do hino “Mãos ao trabalho jovens”, e preferem achar um jeito de mandar outros fazer o que tem de ser feito. Não apenas pastores – muitas pessoas que professam ser cristãs vindas de todas as áreas da vida insistem mais em seu “direito” de descanso sem que tenham trabalhado, do que desempenhar um trabalho digno que reflita a ética protestante do trabalho.

Ética protestante do trabalho—o que é isso?!  Nossa visão ética do trabalho não começou com a Reforma protestante, ainda que tenha sido desenvolvido na produtiva Genebra de Calvino bem como no castelo de intensa atividade laboral que foi Wartenburgo de Lutero. Jesus, que mandou que observássemos os lírios do campo e as aves do céu para não andarmos ansiosos pelo que haveríamos de comer ou vestir (Mt 6.28), também disse aos judeus que o criticaram por curar no sábado que “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). A Lei de Deus previa e ordenava o trabalho por seis dias da semana, e incluía o descanso semanal como parte integrante da vida de todo trabalhador, desde o maior até o mais modesto (Ex 20.9 e muitas outras referências).

Hoje em dia muitos cristãos que dizem pautar a vida pela Palavra de Deus estão mais preocupados com férias, dias de folga e descanso remunerado do que com a dignidade de fazer um trabalho bem feito—quer como sapateiro quer como cirurgião de cérebro! Reclamam das longas horas de trabalho sem se lembrar de agradecer o privilégio de ter um emprego em que podem trabalhar e gozar de seus frutos no fim de cada mês. Vivem sonhando com o dia da aposentadoria quando poderão ficar de papo pro ar—ainda que outros queiram desenvolver novo trabalho, uma segunda carreira, renovada fonte de renda ou de deleite pessoal.

Um blog não é lugar para longos discursos sobre filosofia ou pragmática do trabalho. Atualmente estou traduzindo um livro sobre estar demasiadamente ocupado para fazer o que realmente é importante, e me vejo constantemente advertida pelo Senhor quanto a minha motivação em questões de trabalho, descanso, ativismo constante ou produtividade contida. Quando ficamos com cabelos brancos não podemos deixar de observar que não é mais possível manter o mesmo ritmo de atividades que antigamente. Assim, quero apenas destacar algumas dicas que vão além de qualquer idade ou atividade que tenhamos.

Quanto à preguiça, ela é sempre nociva e contrária à noção de descanso em Deus. A preguiça faz cair em profundo sono, e o ocioso vem a padecer fome, diz Provérbios (19.15). Deus descansou de sua obra depois de haver criado todo o universo (Gn 2.1-2) – não por estar cansado, mas por ter completado toda a fase inicial da criação. Criados à imagem de Deus, nós humanos devemos compreender a importância do descanso para a fundamentação de tudo que fazemos. Tendo a Jesus a nos pastorear, somos levados às águas de descanso mesmo quando andamos no vale da sombra da morte! (Sl 23) Interessante observar que o autor de Hebreus fala sobre entrar no descanso de Deus (o mesmo descanso que Isaías e Jeremias comentaram negativamente quanto ao povo da aliança): “Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas. Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4.9-11) no contexto imediato da eficiente espada que nos adestra para a batalha, discernindo entre alma e espírito, juntas e medulas (v.12).

Quanto ao trabalho, ele não é maldição e sim bênção. A maldição estava no trabalho ser frustrado por fadigas, suor e espinhos (Gn 3.17-19) – a promessa para a pessoa que teme ao Senhor é que “do trabalho de tuas mãos comerás...” (Sl 128.2) e o próprio Deus trabalha para aquele que nele espera (Is 64.4). Paulo, que pela graça de Deus pôde afirmar “Sou o que sou... trabalhei muito mais que todos... não eu mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10) dá palavras de ânimo aos coríntios quando enfrentavam questões de vida e de morte, dizendo: “sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1Co 15.58). “Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos. Desejamos, porém, continue cada um de vós mostrando, até ao fim, a mesma diligência para a plena certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas”(Hb 6.10-12). Lembro-me do hino “Os seus intentos cumpre Deus no decorrer dos anos” que afirma: “Nosso trabalho vão será se Deus não for presente/ Só ele o esforço aqui bendiz e é quem nutre a semente” quando a glória de Deus há de o mundo inundar como as águas cobrem o mar (Novo Cântico 316).

Qualquer e todo trabalho que eu fizer não poderá ser apenas por pão, manutenção ou diversão. Meus valores trabalhísticos são eternos e não pecuniários. O trabalhador é digno de receber por seu trabalho (2 Tm 2.6) e somos exortados “a progredirdes cada vez mais e a diligenciardes por viver tranquilamente, cuidar do que é vosso e trabalhar com as próprias mãos, como vos ordenamos; de modo que vos porteis com dignidade para com os de fora e de nada venhais a precisar” (1Ts 4.10-12 – e isso ele fala, mais uma vez, no contexto de gente que enfrentava questões de vida e morte!). Mas eu trabalho para Deus; quem me sustenta em tudo que faço é meu Senhor (Cl 3.23-24)! Esse conceito possibilita até mesmo viver sob injustiças e em tempos aflitivos.

Deus preparou as obras para que andássemos nelas porque somos feitura sua! Fui criada sob orientação de bom desempenho, que chamavam de performance-oriented. Esse peso era uma canga legalista que muitos crentes salvos pela graça de Jesus carregam, achando que santidade é ação, produção, realização. Interpretam mal o conceito de galardão, contando os pontinhos e as estrelinhas e fazendo comparações destrutivas com irmãos de fé e de caminhada. Mas o jugo que Jesus nos ordena a tomar é “suave” (Mt 11.29) e o apóstolo Paulo repreende quem se submete novamente ao “jugo da escravidão” da lei (Gl 5.1). “Mãos ao trabalho” não pode ser por necessidade de provar ser melhor do que outros, ou necessidade de cumprir obrigações “porque senão Deus não age” (lembro de uma irmã arminiana que lastimou alguém que não convidou alguém para a igreja, comentando: “Assim, Deus não pôde salvá-lo”!). Fomos salvos não por obras, mas pela graça (Ef 2.8). Nosso louvor, bem como toda obra que Deus nos dá para fazer, “é fruto de lábios que confessam o teu nome” (Hb 13.15). Assim, tenho de re-aprender o que seja graça, e trabalhar não para alcançar alguma coisa, mas porque fui alcançada pelo Deus infinito que entrou em minha finitude para transmitir sua graça e verdade. Não vou ser preguiçosa, mas viver a operosidade da fé em meu trabalho, em meu cansaço, ociosidade ou descanso, produzindo frutos como uma planta enxertada na Videira. Quero mesmo na maturidade, “florescer como a palmeira, crescer como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do SENHOR, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça” Salmo 92.12-15.

Elizabeth Gomes

segunda-feira, julho 15, 2013

ESQUERDA DIREITA, ESQUERDA, DIREITA


 
A cantiga ia assim: “Marcha soldado, cabeça de papel...” Tem crente, agora, cantando assim: “Marcha cristão, cabeça de papel; quem não for à parada também não vai pro céu”. Parece coisa de criança – e é! Em um contexto que parece diferente, mas que de fato tem tudo a ver com a política dos homens e a política Deus, Paulo disse: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino” (1Co 13.11). Tem tudo a ver, digo, porque os crentes corintianos estavam travando disputas políticas segundo a visão dos homens. Os temas da correspondência de Paulo batem nos mais diversos pontos: sabedoria vs. poder, pecado e punição vs. disciplina bíblica (isto é, ensino, correção, repreensão e reeducação – ou corte), marido vs. esposa, sexo no casamento vs. satisfação carnal, cerimônia de comunhão com Cristo vs. sociabilidade degenerada, e princípios de fé, verdade e amor vs. jogos de palavras.

O evangelicalismo de agora (diferente da teologia reformada) confunde muito fé e obras, justificação e santificação com reivindicação de justiça humana por meio de virtudes e leis humanas, e missão de Deus com missão da igreja. Isso ocorre em quase todos os termos da experiência cristã, da esfera da política governamental à esfera da política eclesiástica. Só como exemplo, quando menino ouvi que eu não podia dançar porque era protestante. Depois, aprendi que os missionários vindos do leste norte-americano tinham a dança como pecado, ao passo que, os do oeste, não podendo ceder à menção bíblica à dança correta como expressão da alegria do Senhor, fizeram um conchavo político e “inventaram” as brincadeiras de mocidade. Para dentro e para fora, É ladrão, sim, é ladrão, e a portuguesa Comadre, ó minha comadre, aí eu gosto da sua pequena (os mais jovens que me perdoem o anacronismo), tudo isso era dança de quadrilha.

De carona na dança, lendo e ouvindo falar do “dois pra lá, dois pra cá” do bolero político da esquerda e direita, um cristão honesto poderá se sentir como velho no meio do salão tentando mimicar coisa moderna. E olha que a figura não sugere centro, não, exceto que, com os braços descontrolados e os quadris torcidos desmentindo o acerto do movimento deixa-o como que desnudo no meio do salão.

Sem jeito, meio perdidos nos salões políticos do século, muitos cristãos se apaixonam, uns pelos destros, outros pelos canhotos, e seguem na contramão das paradas populares. Isso é relevante, especialmente hoje com a “descoberta” da manifestação popular, uma vez que, quer queira quer não, o crente não é um circunstante neutro na arena política. Como sal da terra e luz do mundo, ele precisa ter uma cosmovisão bíblica e uma palavra profética.

Primeiro a gente tem de entender a origem dos termos. Na Revolução Francesa, 1789, a Assembleia Nacional se dividiu entre apoiadores do rei à direita e os da revolução à esquerda. Hoje, popularizados, os termos pretendem descrever a esquerda como sendo formada de pessoas favoráveis ao “movimento” e, a direita, os defensores da “ordem”. Grosso modo, a direita seria composta de conservadores, meritocratas, capitalistas. A esquerda seria de progressistas, liberais, comunistas etc., e o centro, de moderados (sambando ora com a direita ora com a esquerda). É dislexia política mesmo! Sabe? É como o moço, no banco de trás do carro, dando direções ao motorista: “Vira pra lá”. “Pra lá onde?” “Direita” (ou esquerda); quando o carro ameaça a um dos lados, ele corrige: “A outra direita” (ou esquerda), e o motorista irritado, “Vê se fica centrado, meu!” Já viu isso? Esquerda ou direita de onde? Centro de quê?

É o seguinte: (1) o cristão crê que todas as coisas tem seu ponto de referência em Deus (teo-referência, segundo Davi Charles Gomes) de quem deriva toda autoridade; (2) em todas as coisas o cristão deve ser, pensar e agir de modo cristocêntrico, pois o Senhor está sempre presente em todos os afazeres dos homens; e (3) o cristão deve viver sob o controle do Espírito que aplica a Bíblia ao coração para testemunho da glória de Deus ao mundo. O princípio bíblico da oposição (luz é luz e treva é treva ou mal é mal e bem é bem) foi abandonado por nossos primeiros pais em função da síntese do pecado (mal com bem dá “bal” ou “mem”), e trouxe à baila o princípio da maldição, uma política de luta de poder: “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16). Nesse sentido, políticas de direita, esquerda e centro referem-se a posições opostas à referência em Deus, à centralidade de Cristo e à direção do Espírito na Palavra. Veja o texto bíblico:

Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nele com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam (Salmos 2.1-12). 

Segundo, a gente tem de entender o nosso momento. O mundo que viu a guerra fria vê agora uma coisa que não é fria nem quente. Certo que tanto a “direita” quanto a “esquerda”, sendo políticas humanistas, sempre colocaram o capital e o social como porta-estandartes, mudando somente o samba enredo. O que deu foi um Samba do crioulo doido: “Foi em Diamantina, / Onde nasceu JK, / Que a princesa Leopoldina / Arresolveu se casá / Mas Chica da Silva / Tinha outros pretendentes / E obrigou a princesa / A se casá com Tiradentes” – e termina: “O trem tá atrasado ou já passou” (Sergio Porto; Demônios da Garoa). Hoje, por força da incongruência do método dialético hegeliano – sempre há uma situação, a tese, que sofre a ação de forças opostas, a antítese, que gera uma condição melhor que a anterior, a síntese – imposta à quase totalidade do pensamento moderno, a direita capitalista incorporou doutrinas socialistas e o socialismo foi levado a se utilizar do capitalismo. Não tinha outro jeito. No entanto, não se engane, pois, como dizem patriotas ou companheiros, a luta continua, e o povo na estação nem se dá conta dos trens que prosseguem em trilhos e direções diferentes: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6) e “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo” (Ef 2.1-2).

Terceiro, a gente tem de entender que o sistema da fé cristã tem perspectivas claras de justiça, política, relações individuais e sociais, economia, transformação e daí em diante – e esse sistema, sendo uma cosmovisão após a visão de Deus, isto é, de uma consciência divinamente despertada e iluminada, jamais é de esquerda, direita ou centro, mas vem do alto. O conceito geral dessa política do alto, com certeza, continuará deixando o cristão em uma posição desconfortável. Ele é nascido de novo pela ação transformadora do Espírito e sua vida é uma de transformação. Na verdade, se ele se conformar com este mundo, não provará a boa, perfeita e agradável vontade de Deus nem verá a si mesmo e à sociedade tal como Deus quer que ele veja (ver Rm 12.1-4ss). Entretanto, essa inconformidade não poderá ser manifestada como revolução, “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar” (1Sm 15.23). Em outras palavras, a revolução é uma tentativa “mágica” para mudar o mundo por meio de abandonar a confiança no controle, presença e autoridade de Deus, adorando e servindo a poderes humanos para obter transformação. Como, então, viver a justiça de Deus em um mundo decaído? Como viver em um mundo do qual fomos chamados e ao qual fomos enviados para proclamar a redenção por meio da proclamação verbal e do testemunho da vida? Como ser sal da terra e luz do mundo? O próprio Senhor instrui quanto à prioridade do caráter cristão como base para a ação política no mundo, em Mateus 5.1-18: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo”:

1. V. 3: Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus. (Os princípios da política do reino de Deus somente são vistos e seguidos quando vêm de Deus e são recebidos na Palavra como vindos do alto e não procedentes da “sabedoria humana”.)

2. V. 4: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. (O cristão é sensível às necessidades humanas e espera somente em Deus para satisfação de seus desejos e necessidades.)

3. V. 5: Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. (Mansidão não significa fraqueza, mas a força de caráter que espera no poder de Deus para viver o reino de Deus na terra. Implica em viver o cumprimento dos próprios deveres e lutar pelos direitos do próximo.)

4. V. 6: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. (Revoltas não satisfazem a alma, pois a ira é como um saco sem fundo que sempre quer mais; no entanto, o cristão anseia todo o bem que há em Cristo como bênção também para a vida que é agora; ver Fm 1.6.)

5. V. 7: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (Toda ação cristã deve de ser motivada pelo coração de Deus, e não pela revolta humana, a fim de produzir resultados segundo o coração de Deus.)

6. V. 8: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. (A única maneira de conseguir a transformação necessária para viver e pregar a justiça e o direito de Deus é por meio da confissão feita em fé diante de Deus mediante a obra de Cristo que nos purifica e habilita para cumprir a missão de Deus entre os homens.)

7. V. 9: Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. (O mundo só nos verá como filhos de Deus se nossa vida e palavra forem de paz e não de guerra.)

8. V.10-12: Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (A disposição do cristão não é uma de ser aceito pelo mundo quando luta em seu favor, mas de aceitar a posição de Cristo, de ser alvo de contradição – ver Lc 2.34 – certo de que a recompensa está no céu.)

9. Vv. 13-16: Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (A meta do cristão é refletir a glória de Deus em seu caráter, como sal da terra e luz do mundo; não é uma ação opcional, mas sim fruto do Espírito que abençoa o lugar em que sua árvore está plantada; ver Sl 1.)

10. V. 17,18: Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. (Assim como o Senhor Jesus Cristo cumpriu plenamente a lei em nosso lugar e em nosso favor, assim também o cristão, habilitado pelo Espírito, obedece graciosamente a Palavra de Deus para que sua vida e suas palavras sejam vistas e ouvidas como testemunhos de uma verdade que não passa. Os movimentos humanistas de direita, esquerda e centro podem passar, mas o ponto de referência em Deus, a centralidade de Cristo e o selo do Espírito Santo no homem interior e em suas relações com o próximo e o mundo, estes sempre terão valor eterno.

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, junho 20, 2013

GRATA MEMÓRIA


Nossa cultura inunda-nos constantemente com novas informações, contudo, nosso cérebro consegue captar muito pouco delas. Antigamente, lembrar era tudo na vida. Conta uma lenda que no Quinto século AC, um terremoto destruiu o lugar em que o poeta Simonides banqueteava com centenas de convivas. Ele sobreviveu, tendo saído instantes antes do palácio, e consolou os familiares tomando pela mão a cada parente entutado e levando-o ao exato local onde seu morto, momentos antes, estivera conversando. Sua lembrança foi detalhada e confortadora.[1]

A história do mundo, das idéias, das pessoas, era transmitida oralmente, de pai a filho, de mãe a filha, de mestre a aluno. Apesar de termos indícios do uso da escrita desde antes da época de Hamurabi (contemporâneo de Abraão), grande parte do conhecimento era passado através de memórias compartilhadas. Uma geração falava à outra, e era bom que os ouvintes prestassem atenção, porque, por sua vez, teriam de passar adiante aos filhos e netos as lembranças do povo quando seus antepassados já não existissem.

Moisés foi instruído em toda a ciência do Egito (At 7.22), mas teve a memória da identidade de seu povo inculcada por sua mãe, paga pela filha do Faraó para cuidar dele. Ao escrever a Torá, já homem maduro, começa lembrando quem é Deus e o que ele fez, e repete constantemente a admoestação de lembrar a história passada, os grandes feitos do Senhor bem como a terrível escravidão de onde o povo foi retirado, dando os detalhes do tabernáculo e da lei, passando os mandamentos e as promessas para a próxima geração: “guarda-te, para que não esqueças o Senhor, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão”.

Toda essa memória inicia com uma declaração teológica que norteia a vida toda: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”. Ela é afetiva (estarão no teu coração, v 6), diretiva (tu as inculcarás a teus filhos, v 7), constante e em todo lugar (delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te; visível em tudo que fazem, no modo como enxergam, na habitação entrando, saindo ou ficando. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” (vv. 7-9).

A instrução bíblica desde o Antigo Testamento e perpassando o Novo trata de guardar a Palavra de Deus na mente e no coração. O jovem aprendia a Lei do Senhor memorizando – tinha de ser praticada em cada detalhe de sua vida. Quando chegava ao Bar Mitzvá, o rapaz não só sabia ler a Escritura (tarefa que exigia bastante do leitor, pois o texto se encontrava em pesado rolo de escrita corrente, sem pontuação, pausas e marcações vocálicas). Assim, junto à leitura criteriosa, tinha de haver uma memória prodigiosa para lembrar exatamente como ler o que se lia. Isso não se limitava aos homens. O Magnificat de Maria mostra que ela tinha na memória o cântico de Ana (1 Samuel 2.1-10) e a promessa a toda mulher em Israel que poderia abrigar no ventre seu próprio Salvador!

A memória entre o povo judeu nasceu com as primeiras histórias narradas em Gênesis, e continuou se desenvolvendo em toda a história do povo de Deus. Quando o povo se esquecia da Palavra de Deus e corria após outros deuses, os profetas tinham a tarefa de lembrar aquilo que eles haviam esquecido – e isso muitas vezes ficava marcado pelo sofrimento e disciplina do Senhor. Quando Deus restaurava a sorte de Sião, era por sua lei que isso ocorria (Sl 19.7). O relato da restauração do templo iniciada por Esdras está pontilhada de comentários tais como “assim está escrito na Lei de Moisés”. A Palavra, e a lembrança do que ela ensinava, era a tônica para toda a ação corporativa bem como individual diante de Deus.

De “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança... Grande é a tua fidelidade” (Lm 3.21-23) até “Conheço as tuas obras... Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.2-5) a Palavra estimula, adverte e promete quanto à lembranças. “Me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia. Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti” (2Tm 1.3-5).

A tentação de Jesus começa com o diabo citando as Escrituras – e Jesus refutando a tentação também citando a Palavra, dentro do contexto e sob o Senhorio certo: ao Senhor adorarás e só a ele darás culto. Quando Jesus prometeu o Consolador, disse que “esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Minha chave bíblica[2] tem 107 entradas para “lembrar”, 7 para “lembrança”, 3 para “lembrado”, 22 para “memória”, 7 para “memorial”. Nem começo a mencionar outros “lembretes bíblicos” relacionados a estes.

A memória era forma de edificar o caráter da pessoa, desenvolvendo as virtudes cardeais da prudência e da ética. Somente pela memória é que o pensamento seria incorporado à mente e seus valores seriam absorvidos. O ensino de tudo era baseado em memória, e muitas vezes as pessoas decoravam fatos, nomes, conceitos, números sem relacioná-los ao quadro geral da realidade. Não havia concordâncias Bíblicas até a Idade Média, não havia acesso a enciclopédias e dicionário. Com o advento da imprensa, o livro ficou mais acessível, mas mesmo assim, as únicas pessoas que possuíam modesta biblioteca eram as pessoas mais abastadas e cultas. Os leitors valorizavam o pouco que tinham para ler, e guardavam no pensamento e no coração aquilo a que tinham acesso. Hoje um menino semi-alfabetizado é incentivado a “fazer pesquisa” copiando do Google – seu conhecimento fica ainda menor que o da memória de rotina que seu avô era obrigado a armazenar e papaguear para “passar no exame”. E quando se pensa no uso da memória para desenvolvimento da vida cristã, a história é ainda mais patética. Ouvimos falar de cristãos que, em época de perseguição e escassez de Bíblias, memorizavam livros inteiros para ajudar a si e seus irmãos. Meu marido conta que conheceu na Igreja Batista Russa um senhor que era “Gálatas”– memorizou essa carta paulina, enquanto outros decoraram outras epístolas, para a edificação de uma igreja que só possuía uma Bíblia. Hoje temos dez, vinte edições da Bíblia em nossas estantes – mas tem gente que não sabe onde fica o banquete da Sabedoria nem a história de Ló ou quem era Jeremias – e quer achar Ezequias 12.2 ou Filemon 4.4 em suas rígidas, polidas e desconhecidas bíblias “da mulher”, “do vencedor”, do “guerreiro”, “da menina” e outras versões esdrúxulas.

Lembro-me da moça em Goiânia que decorou “uma ilha é pedaço de terra cercada de água por todos os lados” e quando minha mãe disse que ia para a ilha de Manhattan, perguntou-lhe: “Fica pra lá de Corumbá?” Nem o que é ilha, nem distâncias e proximidades em cidades, países e continentes eram entendidas. Aliás, ainda hoje o senso de história e geografia aniquilado pela falta de memória escolar primária é gritante – mesmo entre gente que tem diploma de faculdade! Deixamos de decoreba, mas deixamos de aprender o mais básico da base.

Pouco antes de um grande servo de Deus morrer em idade avançada, ele, que havia sido médico, missionário, músico, administrador e homem de oração, comentou com meu marido: “Com o passar da idade, o meu esquecedor vai se aprimorando cada vez mais”. Lembrei de outro idoso que disse: “Quando meu pai chegou aos oitenta anos, lembrou que se não fizesse alguma coisa para melhorar a memória, ia ficar gagá. Então, começou a memorizar Fausto de Goethe”. E eu – estou deixando meu “esquecedor” dominar minha vida – ou exercitando minha memória para lembrar o passado, firmar o presente e enriquecer o futuro (meu e das gerações que me seguirão) para a glória de Deus?

Quisera aprender o mínimo necessário para conhecer o mundo em que vivemos, o ambiente em que estamos inseridos, e simultaneamente, desenvolver memória que traga esperança e nos leve a reconhecer o Deus da história e da eternidade. Isso não se aprende por frases feitas: é estudando o pensamento, o mundo psicológico, político e ideítico atual através de bons livros, lembrando o passado para que vislumbremos um futuro sadio. Acima de tudo, é estudando – guardando no coração, meditando nela dia e noite, tornando-a alimento e respiração sem o qual não sobrevivemos – a Palavra de Deus “para não pecar contra ti”... Esse estudo tem de começar com a criança para que se diga dela “desde a infância sabes...” em vez de dar à sua memória impressionável imagens nefastas e cantigas tolas daqueles que desprezam a sabedoria de Deus. É certo  que “decorar sem entender” não vale nada.  Mas só entendemos aquilo que aprendemos, e aprendemos para sempre aquilo que memorizamos. Acima de tudo, nessa questão de memória, lembro o hino: “Nunca meu Mestre cessarão meus lábios/ de bendizer-te, de cantar-te glória/ Pois eu conservo de teu bem imenso/ grata memória...”

Elizabeth Gomes



[1] Brainwalking with Einstein, Joshua Foeer, Nova York: Penguin Books, 2011.
[2] Lembrando que esta não inclui todos os vocábulos do original quanto à memória.