Aos domingos, entre o estudo bíblico e o culto, trocamos amizade em torno de um café. A IPP (Igreja Presbiteriana Paulistana) tem gosto nesse encontro de irmãos com riso largo e os “como vai” e “onde é que dói” com a sinceridade de quem espera uma resposta. Mão na mão, e braço estendido ao visitante, desejamos que o amor e a comunicação sejam reflexos autênticos e genuínos do amor e da comunicação de Deus. Outro costume da IPP é o do tempo para perguntas após o sermão—esperando sempre comunicação em amor. No último domingo, um visitante, trazido “pela internet”, fez algumas perguntas. Bengalês, falador pobre no português, hábil no inglês, afável adivinhando afetação, deixou saber que coletava material para um livro sobre o “misticismo das religiões”.
A mensagem seguia a Ep. aos Efésios (Uma
herança transmitida pelo Filho, 1.6-12)
em que o contexto mostra uma ação da Trindade. Esse aspecto, apenas mencionado,
suscitou uma questão de um irmão: “A Bíblia não é definitiva sobre a doutrina
da Trindade e o shemá judaico (Dt. 6.4 ) diz que Deus é um. Tenho
para mim que Cristo e o Espírito sejam manifestações de Deus”. Já que voltaríamos
o assunto em breve, e nem todos os presentes estavam prontos para seguir a
conversa de maneira frutífera, procurei uma resposta simples que realçasse o
valor da questão.
A doutrina da Trindade é discutida ao longo da história da igreja, sobressaindo
três heresias: (1) o Modalismo (Deus é um e apenas manifesta-se nos diferentes
modos do Filho e do Espírito); (2) o Arianismo (de Arius, que diz que o Filho seria
mais uma criação de Deus Pai, condenada no Concílio de Nicéia, em 325 AD); e (3)
o Triteísmo (três deuses), menos difundido, mas impressionando a mente de
muitos crentes (evidentes nas tentativas limitantes de ilustrações como “partes
de um ovo”, “estados da água”, “membros de uma família”, etc.). Esses desvios
levantam perguntas retóricas. É Deus somente o Um, singular, e Cristo e o
Espírito seriam apenas modos de sua manifestação (modalismo)? Nesse caso, quando
Jesus Cristo, o Deus encarnado, morreu na cruz para nossa redenção, o Deus
único e imortal também morreu? Quando Jesus Cristo, o Filho, comunicava amor ao
Pai, em oração, estaria ele apenas encenando com fins didáticos? Esse recurso
comunicaria a verdade em amor? Se Deus for um e não muitos, haverá um imanentismo
(Deus está em tudo) e, nesse caso, restará uma expectativa de sermos absorvidos
pelo tudo, acabando em nada. Se Deus
for muitos e não um, haverá um panteísmo (tudo é deus), e a nós sobrará a sina terminal
de toda a natureza. A existência seria ora um barulho ensurdecedor ora um
silêncio terrível. Ao contrário, a sabedoria bíblica declara que Deus é, ao
mesmo tempo, Um e Muitos, singular e
plural. Ele criou todas as coisas fora de sua própria essência (transcendência),
mantidas coesas na comunicação do seu amor. Certamente, para quem tem o
Espírito e, assim, o entendimento da Palavra, essa breve argumentação seria
suficiente.
Aproveitando a deixa, o visitante passou a debater— e este caso era
diferente. À medida que desalinhavava os seus pontos, reconheci um ranço
muçulmano no contato com a história, o material, e os termos mais comuns na
literatura do cristianismo. Sua voz e atitude traíam uma motivação noturna. Ele
juntava linhas sem nós, sequer atentando às respostas. Uma visão crítica
anticristã tornava a crença na Trindade um acréscimo espúrio tardio ao evangelho.
“A doutrina da Trindade foi formulada depois do ano 300” , disse ele. Teria sido
assim mesmo!? Ou a Trindade era tida como certa em todos os escritos bíblicos,
e as dúvidas e correções é que foram formalizadas em Nicéia? Assim, pedindo a
Deus que me abençoasse com a coerência da palavra e do trato, reafirmei a
convicção de que a doutrina da Trindade é basilar a qualquer aproximação
hermenêutica saudável da teologia cristã. Conforme escrevi em outro lugar (por
exemplo, Sal da Terra em Terras do Brasis,
Ed. Monergismo):
A doutrina em que cremos, isto
é, o trinitarismo ortodoxo histórico—ao qual confessaram Atanásio, Basílio,
Gregório de Nissa, Gregório de Nizanzus, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, e
outros—ensina que Deus é perfeitamente unificado e simples. Ele tem uma
essência única, assumida em comum pelo Pai, Filho, e Espírito Santo. São três
pessoas consubstanciadas, coerentes, coiguais, e coeternas. Como diz a
Confissão de Fé de Westminster: “O Pai não é de ninguém—não é gerado nem
procedente; o Filho é ternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente
procedente do Pai e do Filho”.
Nas linhas do Credo de Atanásio, cultuamos a um Deus na Trindade em
unidade sem misturar as suas pessoas nem dividir a sua essência. Mas, de que
adiantaria uma aula de teologia? A doutrina da Trindade é uma das revelações do
mistério de Deus agora “dado aos santos”. Os regenerados apreendem esse
conhecimento com toda sabedoria e prudência, pois o Deus concedeu-nos a benção
da participação de sua própria natureza (cf. 2Pd 1.4), da adoção em Cristo, e
da vivificação por meio da ação do Espírito de Deus e do Filho (cf. Jo 1.12; Rm
8.16). O crente tem a mente de Cristo—e, mesmo assim, tem de enfrentar o fato
de que um conhecimento infinito não pode entrar na mente finita. O não regenerado,
por sua vez, não entende as coisas de Deus, considerando-as loucura, e tratando-as
com inimizade (1Co 2.12-16). A maneira de transmitir graça ao não regenerado é
por meio de uma amorosa comunicação do evangelho, de modo claro e com
suficiente conteúdo. Ao receber a luz do evangelho, ele será confrontado com o
próprio Deus na cruz de Cristo—no qual todos os homens morrem, uns para a ressurreição
eterna, outros, para a morte eterna. Todos nós, crentes e incrédulos,
precisamos saber que essa é a comunicação da verdade de Deus, no amor de Deus.
Essa é a ação verbal e viva que todos podem entender, isto é, a pregação do
Evangelho, para a qual temos a promessa da ação do Espírito Santo.
Francis Schaeffer diz (The complete works of Francis A. Schaeffer, Vol.
2,, 12–14; 1982. Westchester, IL: Crossway) que somente a Trindade pode explicar a
presença da comunicação e do amor. Essas graças são aspiradas por escritores, pintores,
atores, e cientistas, sem que eles saibam de onde vêm nem experimentem comunicação
efetiva e amor perene. A Bíblia fala da comunicação e do amor como estando
presentes antes da criação. “Antes de Gn 1.1, amor e comunicação eram
intrínsecos ao que veio a ser” criado. Esse fato bíblico é revelador quanto à
natureza de Deus, especialmente, sobre a Trindade. Em Gn 1.26, lemos: Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Também, depois da
queda, Deus disse: o homem se tornou como
um de nós (cf. Gn 3.22; Is 6.8). O ensino da Trindade é enfatizado em Jo
1.1-3. “De fato, o conceito tem especial força porque toma a primeira frase de
Gênesis e torna-a ... um termo técnico”: No princípio já era o Verbo, e o Verbo
já estava com Deus, e o Verbo já era Deus (o imperfeito grego, era, aqui, é mais bem traduzido como já era). Tudo foi feito por ele, e sem ele nada se fez. Adiante, aprendemos
quem é a personalidade chamada o Verbo (Logos). Jo 1.14, 15 deixa claro: O Verbo se fez carne e habitou entre nós,
e João Batista deu testemunho dele, dizendo:
... o que vem depois de mim tem,
contudo, a primazia, porquanto já existia antes de mim.
A expressão no princípio,
repetida em Hb 1.10 e Jo 1,1-13, enfatiza que Cristo já era antes da criação e foi ativo na criação. A mesma expressão
ou a mesma ideia, Schaeffer prossegue, é repetida em Cl 1.16, 17, em que Paulo diz:
nele, foram criadas todas as coisas, nos
céus e sobre a terra ... Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes
de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ainda, em 1Co 8.6 , “Paulo aponta
a um paralelo entre Deus criando e o Filho criando: para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem
existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós
também, por ele”. Assim, estabelecida a relação do Pai e do Filho com a
Criação, Schaeffer argumenta sobre a relação com o Espírito. Gn 2 deixa claro: e o Espírito de Deus pairava por sobre as
águas. É certo que o entendimento da expressão “Espírito do Senhor”, nesse
texto, tem levantado questões, mas é verdadeiro que a Bíblia, Antigo e Novo Testamento,
ressalta a presença da Trindade no processo criador. “No princípio” determina o
fato de que nesse ponto houve a sequência de uma criação ex nihilo (a partir do
nada) por meio da Palavra ou Verbo de Deus. Antes do “princípio”, Deus era—eterno, infinito, soberano—e havia a
existência pessoal de amor e de comunicação. Amor e comunicação eram
intrínsecos à Trindade, diz Schaeffer.
O Antigo Testamento fala de um Filho Deus eterno e de um Espírito Deus
pessoal eterno? Considere Pv 30.4, em que, depois de uma série de perguntas sobre
o Santo criador da terra, Agur indaga: Qual
é o seu nome, e qual é o nome de seu filho, se é que o sabes? Ainda mais,
em Is 9.6, numa clara referência a Jesus Cristo e ao Espírito, o profeta diz: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos
deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso
Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Adiante, em
11.1-5, Isaías descreve o Cristo Jeová Forte e Pai da Eternidade, dizendo que ele
nasceria do tronco de Jessé e da raiz de Davi, um renovo sobre quem repousaria
o Espírito do Senhor (cf. Pv 8). Novamente,
em Is 48.16-17, o profeta diz: ... não
falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo,
tenho estado lá. Agora, o Senhor Deus me enviou a mim e o seu Espírito. Assim
diz o Senhor, o teu Redentor, o Santo de Israel. Mais ainda, o próprio shemá, utilizado para defender a
natureza unitária de Deus, traz: Ouve, Israel, Jeová (aquele que É), nosso Elohim
(pl., deuses) é o único Jeová (cf. Dt 6.4). Também, Jesus interpreta o texto de
Sl 110:1—Disse o Senhor [Jeová] ao meu Senhor [Adonai], do seguinte modo:
Como, pois, Davi, pelo Espírito, chama-lhe
Senhor ... Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é ele seu filho (cf. Mt 22.42-45)?
Em Jo 14—16, Jesus fala dele mesmo, o Filho, e do Pai, e do Espírito, como pessoas
coeternas e coiguais numa Triunidade!
Por que, então, a teologia judaica não afirmou a existência da Trindade,
no AT? A resposta é pronta: a doutrina da Trindade pertence à teologia cristã
em razão do propósito divino da redenção dos escolhidos. Todos os que foram
salvos nos tempos do AT, não poderiam compreender a Trindade e sua atuação na
redenção (cf. Ef 1.3-14) porque teriam de aguardar a revelação de Cristo. Ele
falou com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o
Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda
glorificado (Jo 7.39). Quando prometeu enviar o Consolador para habitar conosco,
Jesus explicitou: o Espírito da verdade,
que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis,
porque ele habita convosco e estará em vós (Jo 14.16-17). Até então, era um
mistério a ser revelado, segundo o bom propósito de Deus: Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram,
contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a
nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados (Hb
11.39-40). E Paulo diz: podeis compreender
o meu discernimento do mistério de Cristo, o qual, em outras gerações, não foi
dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus
santos apóstolos e profetas, no Espírito (Ef 3.4-5).
Concluindo, a essência da comunicação em amor ocorre no seio da
Trindade, é manifestada no Pacto eterno, e é revelada em Jesus Cristo (cf. Jo
1.5-18). Somente os que recebem a revelação do mistério da redenção, mistério de Cristo ou mistério de Cristo e a igreja, podem aceitar que há somente um corpo e um Espírito, como
também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma
só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por
meio de todos e está em todos (Ef 4.4-6).
Wadislau Martin Gomes
Um comentário:
Parabéns pelo texto claro. A doutrina da Trindade não é um assunto muito falado nas Igrejas Reformadas. O motivo não sei. "Deleitar na Trindade", creio, deveria se algo normal e desejado pelos Cristãos. Infelizmente, não o é.Hoje vejo cristãos frequentadores de Igrejas evangélicas fazendo promessas e valorizando relíquias. Obrigada mais uma vez. Que o Altíssimo continue lhe dando sabedoria
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