domingo, maio 10, 2015

MATERNIDADE NADA CONVENCIONAL E MÃE ÚNICA E SINGULAR


Por esses dias, amigos leitores e escritores têm postado justas homenagens às suas mães, e mães amigas fazem melífluas e verdadeiras declarações de amor aos filhos. Algumas, com humor característico, postam sugestões do que não dar de presente, ou do que se deve presentear, às mães, nesse dia criado por uma filha agradecida (Ana Jarvis), e assumido por um comércio esfomeado como sendo imprescindível.

Tenho um relacionamento um tanto ambíguo com o Dia das Mães. Sou imensamente grata ao Senhor Jesus pela mãe piedosa que me levou a Cristo, me educou na Palavra, me amou até o fim de sua vida na terra. Não tenho palavras para expressar a alegria de ter me tornado mãe de dois homens e uma mulher de Deus, de vê-los crescer, florescer e multiplicar na graça e paz, mesmo quando em lutas e batalhas concedidas a poucos bravos e fortes guereiros. Assumi também a maternidade às noras e genro, ainda que cada um tenha mãe cristã de presença e caráter, não para usurpá-las, mas tomando posse do carinho que essas filhas e filho conforme a lei são para mim desde que começaram a amar os meus filhos. Mas não sou mãe sozinha. Sem Wadislau, fisicamente eu não seria mãe, quanto mais não o seria moral e eticamente. Somos um casal mãe-e-pai. E sem o Pai Celeste, de quem toma o nome todo que crê em Jesus Cristo como Salvador e Rei, não poderia orar “Pai Nosso” – nem mesmo poderia viver ou transmitir vida a outrem. Ser mãe lembra a declaração de Jesus “Sem mim nada podeis fazer”. Não cremos em geração espontânea nem em criação de filhos sem ser por uma equipe depelo menos o Senhor que nos ajuda, e preferivelmente mais equilibrada com a presença e o apoio do companheiro de vida. Pela dúbia declaração politicamente correta de que “leva toda uma vila para criar um filho”, temos de concordar que o auxílio de muitos na “vila”—,  ou melhor, na família da fé e nos familiares de sangue, enriquecem, dão conhecimento e sabedoria, e multiplicam para a eternidade as bênçãos da maternidade.

Minha ambiguidade vem dos muitos dizeres que equiparam ser mãe com “padecer no paraíso” ou “ser mãe acima de tudo mais”. Já edifiquei meus ídolos, os quais o Senhor derribou, e hoje vejo a maternidade, emprestando uma expressão inglesa, “com um grão de sal” – temperada, salgada, provada, conservada pelo Reino do qual somos apenas sal da terra e luz do mundo.

Ao ler relatos bíblicos, lembro-me de mães que fogem às convenções. Joquebede, ama seca do próprio filho Moisés, que o entregou ao Nilo, donde ele foi “tirado das águas” ao entregá-lo ao Deus Criador de todo o Universo. Deborah, mulher de Lapidote, de quem não é mencionado filho algum, que foi mãe em Israel ao conduzir todo um exército para a vitória, mesmo que os comandantes estivessem acovardados (Juízes 4 e 5). Rute, uma viúva moabita que se tornou verdadeira “ídische momma”ao se refugiar sob as Asas do Senhor de Boaz, que veio a ser avó do rei Davi e antepassada do Rei dos Reis. Ester ganhou o concurso de beleza de Miss Pérsia e tornou-se rainha. Nenhum filho é mencionado no drama da bela Hadassah, mas ela veio, “quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha” e com jejum, oração, coragem e sagacidade diante de Assuero, salvou do genocídio todos os judeus habitantes da região que hoje é o Irã (Ester 4-10). Mães improváveis todas aquelas que eram estéreis, a  quem Deus concedeu maternidade: Sara, Rebeca, Raquel, Ana, Isabel – mães de valorosos servos do Senhor. Improvável a jovem mãe de Jesus – “como será isto, pois não tenho relação com homem algum?”— que acedeu, dizendo “Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra”(Lucas 1-2.38).

Mães-pais improváveis – o discípulo amado que se inclinara ao peito de Jesus no jantar de Pesach horas antes que ele fosse crucificado, e assumiu papel de filho mais velho ante a cruz para a mãe de Jesus (João 19.26-27), passou toda uma vida e uma velhice transmitindo amor aos “Filhinhos...” e afirmando que “não tenho maior alegria do que esta: de saber que meus filhos andam na verdade”. O apóstolo Paulo, por quem “sofro de novo as dores do parto, até ser Cristo formado em vós” (Gálatas 4.19).

Embora sempre nos refiramos a Deus no masculino, o salmista usa uma figura maternal para o Senhor da Criação: “Qual criança desmamada se aquieta no colo de sua mãe, assim se acalma minh’alma nos teus braços...” Mãe só tem uma, mas são inúmeras as metáforas de mãe no Tabernáculo de Deus.

Ao ler a vida de minhas irmãs em Cristo, tenho de prestar tributo a algumas que não são mães na carne nem por adoção, mas se enquadram na descrição paulina de “mestras do bem” que são mães para muitos no Israel de Deus:

- Kellen, pediatra e hebiatra, que tem tratado e apoiado centenas de crianças e jovens que chegam à sua vida e saem curadas e transformadas;

- Alina, quarenta e cinco anos de ministério em educação cristã, em que ensina a Palavra Viva e a Palavra Escrita a crianças do Brasil e além-mar;

- Junia, assistente social que serviu o povo de Deus e o povo de São Paulo com arte, sabedoria e carinho maternal;

- Alice, enfermeira aposentada, que jamais teve filhos mas “maternou” irmãos, sobrinhos e estranhos, durante toda sua vida;

- Ingrid Neuman que não se casou e mesmo na paraplegia deu à luz trabalho e capacitação para muitos portadores de deficiência, demonstrando em sua vida a sempre suficiência de Jesus Cristo para todos;

- Stella, médica do trabalho, que trabalha incansável na evangelização de pacientes e profissionais de saúde, demonstrando fome e sede de justiça.

Eu poderia citar inúmeras outras mães no Corpo de Cristo—mulheres e mesmo homens, que dão de si mesmo para fortalecer, educar, edificar ao próximo. Essa qualidade de Mãe e Pai não é exclusiva do sexo feminino, mas exclui qualquer jactãncia, exibição ou auto-justiça, dependendo unica e exclusivamente de Deus, que nos chamou, transformou, capacitou e levou a termo filhos no novo nascimento.
Elizabeth Gomes

quinta-feira, abril 30, 2015

O DIA QUE MINHA FILHA QUIS IR EMBORA DE CASA


Sou grata a Deus pelos  nossos filhos que  hoje são pessoas equilibradas, sensatas e tementes a Deus, que criam os seus filhos com sabedoria. Tenho de confessar,  no entanto, que eu nem sempre fui mãe exemplar—pelo contrário, teve uma ocasião que quase botei tudo a perder.

Era jovem esposa de pastor, mãe de dois meninos com uma menina no meio de sanduíche. Eu queria ser esposa ideal,  super mãe, mulher maravilha, fazer tudo que esperavam de mim e agradar a todos em minha casa, igreja, e na sociede em geral. Acima de tudo, queria ser bem-sucedida e não cometer os erros que meus pais cometeram na minha criação. Estava focada no meu desempenho, cumprindo a lei de  Deus e as muitas leis de homens e mulheres  que confundem fé e legalismo.

Como sempre, eu estava atarefada. “Que nem barata tonta,” meu marido às vezes dizia. Era o programa usual de domingo, com mais alguns pormenores de dia especial. No domingo pela manhã, eu consegui sair antes da hora com Wadislau e nossos três, que estavam prontos para ir à escola dominical, onde tudo transcorreu de maneira normal. O ensaio do coral depois da EBD estava bem mais demorado, porque teríamos um evento especial com todas as igrejas da nossa denominação logo à tarde. Nós estaríamos  apresentando junto a um grande coral da cidade (os diversos corais haviam ensaiado, cada um em sua própria igreja, e cantariam juntos na hora desse culto da Reforma. Chegando em casa, era só esquentar a carne que eu preparara no dia anterior (ainda bem) e fazer o macarrão, mas assim mesmo seria difícil colocar o almoço na mesa antes das treze horas—e o encontro das igrejas em um grande ginásio de esportes estava marcado para as quinze horas. Ainda na escola dominical, descobri que a missionaria vinda da África estaria se hospedando em nossa casa, e lembrei que naquela manhã não deu tempo de arrumar as camas e tirar as roupas do chão do banheiro antes de ela chegar e nós apresentarmo-la ao nosso lindo lar. Com certeza ela entenderia—não era possível que uma moça criada em Angola cheio de guerras ficasse perturbada com um pouco de desordem de uma casa com três crianças, de oito, cinco e três anos de idade.

Acomodamos Dalia Maria no quarto que seria dela nos próximos dias, indicamos onde colocar a mala e lavar as  mãos, e demos as mãos para agradecer o alimento sobre nossa mesa. Não sei se queimei o molho do macarrão ou o que—o almoço ficou desfalcado e acrescentamos pãozinho à carne. Eu orei para que o caçula não sujasse a única camisa limpa e Deborah parasse de mexer na comida sem comer. Eu estava animada com nossa visitante, que havia sido locutora de rádio em Luanda antes dos portugueses serem expulsos e sua cidade virar caos total. Conversava, perguntava, e lembrei a todos de comer a sobremesa depressa porque deveríamos estar no Grande Culto de Celebração dentro de meia hora.

Deborah saiu da mesa e voltou para a sala com a frasqueira verde em mãos. Eu trouxera a maleta anos atrás quando vim ao Brasil ao encontro daquele que seria meu marido. Minha linda menina lançou a bomba:

--Vou embora desta casa. Não quero mais morar com vocês. Já peguei  a mala...

Querendo dizer algo que fizesse ela entender, e sem saber o que, dizer, disse:

-- Então eu vou junto.

Ela desceu a escada para o térreo, saiu pelo portão murmurando algo como “ninguém liga pra mim aqui em casa”,  e eu saí atrás dela, querendo saber até onde iria a pantomima. Deborah desde pequena era decidida e expressava seus sentimentos com  dramaticidade. Ela foi andando a passos largos, atravessou a rua e eu a segui, atravessando logo atrás. Fui perguntando:

-- Para onde você vai?

-- Qualquer lugar sem vocês!

Pensei em modificar um pouco a tática e apontei para uma casa uns cinco metros adiante:

-- Quer ver se a mamãe dessa casa fica com você?

-- Não! Só quero ficar longe! Ela apressava o passo para a frente da próxima casa, e eu perguntei:

-- E essa casa? Acha que vai ser bom  morar com eles?

Ela resmungou que não. Apontei para a casa seguinte.  Ela já estava chorando, e corria mais  depressa.  Atrás  dela eu a seguia e chorava. Será que minha filhinha estava tão triste comigo que preferia se aventurar a uma casa estranha do que nosso lar cristão?

-- Não quero! Não vou. Eu quero você, mesmo quando cê não tem tempo pra mim. Quero o papai. O Davi caçoa de mim, mas quero ele de irmão mais velho. E o Daninho... O choro agora saía em torrentes e eu a tomei nos braços, chorando tanto quanto minha princesinha independente de cinco anos. Voltamos  para casa, bem abraçadinhas. Chegando até lá, fui preparar-lhe um Nescau, que ela tomou ainda de cara molhada. Lavei meu rosto na pia do banheiro, e o dela com uma toalha umedecida. Escovei seu cabelo, dei-lhe uma roupa linda para vestir. Acabamos de nos aprontar e fomos para o carro. Quando tomamos nossos lugares, Wadislau notou que ela e eu tínhamos chorado, e perguntou:

-- Tudo bem, querida?

-- Tudo bem.

Do banco de trás ouvimos a declaração de Deborah, expremida entre Davi e Dália Maria, que segurava Daniel ao colo:

-- Minha casa é o melhor lugar do mundo. Eu amo todo mundo de vocês! Nunca, mas nunca mais vou fugir de casa.
Na conferência, era comovente o cântico coral. Mais de duzentas vozes cantando “Castelo Forte é nosso Deus, Espada e bom Refúgio, Com seu poder defende os seus Em todo transe agudo. Com fúria pertinaz..” Passara a fúria, acabara o transe agudo. Agora eu estava louca para chegar em casa e sentar no beliche de baixo do quarto dos meninos, bem juntinho da Deborah, para contar mais uma história para o meu trio predileto. Não me lembro onde nossa visita dormiu. Para mim e para a Deborah, não havia melhor refúgio que junto à nossa família.

Elizabeth Gomes

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

POR FALAR EM CASAMENTO, COMO VAI O SEU AMOR?



Lendo e traduzindo biografias de grandes homens na história da igreja, fiquei preocupada com alguns aspectos de suas e nossas vidas. John Wesley, grande avivalista fundador do metodismo, que transformou a face evangélica nos Estados Unidos e na Inglaterra, teve uma vida matrimonial conturbada. A saga de seu casamento é uma história de cautela que deveria ressoar nos dias de hoje para qualquer casal envolvido na vida da igreja—ou com um ídolo—a ponto de não dar espaço um cônjuge para o outro. Nathan Busenitz, cita a Biografia de Wesley, de Stephen Tomkins, dizendo:

“Wesley e Mary Vazeille, viúva rica e mãe de quatro filhos, casaram-se em 1751. Até 1758 ela o havia abandonado— dizem que não aguentou lidar com a competição por seu tempo e devoção ante o sempre crescente movimento metodista. Molly (seu apelido) voltaria para ele e o deixaria de novo, diversas vezes, antes de sua separação final (....) Com as constantes viagens de Wesley, Molly se sentia negligenciada, enciumada e suspeitosa dos muitos relacionamentos de amizade que ele mantinha com várias mulheres que faziam parte do movimento. Wesley pouco fez para acalmar os seus temores.”

Alguns episódios relatados:

- Ao ir para uma turné na Irlanda em 1758, diz Molly que seu marido afirmou: “Espero não mais ver seu rosto malígno”. (p. 155)

- Reunidos na Inglaterra, tiveram violentos atritos—Wesley recusou mudar seu hábito de mandar cartas repletas  de afeto a outras mulheres e Molly acusou-o de adultério e chamou sobre ele, nas suas próprias palavras, ‘todas as maldições de Gênesis ao Apocalipse.’” (p. 155)

- Quase o único documento que sobreviveu a esse casamento, do lado de Molly, é de dezembro de 1760, quando ela disse que Wesley saiu cedo de uma reunião com uma tal de Betty Disine e foi visto ainda com ela na manhã seguinte. Molly “disse-lhe com modo amável que ele desistisse de correr atrás de mulheres estranhas porque seu caráter está em jogo” (p. 159).

Busenitz adverte:“Você pode perder o ministério e manter seu casamento, mas não conseguirá perder seu casamento e manter intacto o seu ministério.”

Na verdade, o fracassado casamento de John Wesley permanece como sóbria advertência para os que são tentados a confundir as prioridades dadas por Deus, e deverá despertar e sacudir poderosamente qualquer que queira ser pastor, presbítero ou líder na igreja. A Palavra de Deus coloca um alto padrão, e essas qualificações são imprescindíveis e incluem a vida conjugal e familiar do presbítero.

É só ler (nas entrelinhas) as notícias sobre pastores, missionários e gente de projeção na igreja cristã, que constatamos um triste fato: todo ano, pastores no mundo inteiro “ganham almas” enquanto perdem suas famílias. Referindo-me a dois axiomas da Palavra de Deus. “O que ganha almas é sábio” e “De que adianta o homem ganhar o mundo e perder a sua alma” a primeira afirmativa deste parágrafo é uma declaração perigosa.

Quando meu marido era Secretário de Apoio Pastoral da IPB, constatou a disciplina e desistência de doze pastores da denominação por causa de casamentos desfeitos, em um só ano. Casamentos desairosos, deficientes, desfeitos de modo vergonhoso, já causaram males que não se limitaram ao casal, mas abalaram as vidas de filhos, amigos, parentes, igrejas e a sociedade em que as pessoas estavam inseridas. Alguns, mesmo pastores, não eram hereges, teologicamente despreparados, nem gente de mau caráter. Muitos figuravam entre os melhores, os doutores e mestres da igreja, os que eram exemplos no conhecimento e ortodoxos na doutrina. Começaram a vida ministerial e matrimonial apaixonados por Deus e pela mulher que ele lhe deu. Terminaram fragmentados em mil pedaços e destroços do vazio, do desamor, da total incompreensão.

Sou grata a Deus pelo meu casamento e diariamente fico maravilhada por Deus ter dado como companheiro um homem que ama a Deus acima de tudo e todos, e demonstra amor por mim “como Cristo amou a igreja”. Isso é pela misericórdia e graça de Deus. Eu mesma sou filha de um casal envolvido no ministério que tinha tudo para ser sucesso, e naufragou—cada um ficando à deriva, perdido na vida (não perdendo a salvação, mas perdendo a alegria de viver), tentando catar os pedaços e remendar cisternas rotas que não tinham como conter água.

Quando digo que foi pela misericórdia de Deus, tenho de admitir que mesmo os desastres de vida de que falo são ecos da graça divina—e nenhum de nós pode dizer “eu jamais faria isso”; “estou acima de tais problemas”; “meu casamento é blindado pelo Espírito Santo e jamais cairei”! Fato é que todos nós somos pecadores, passíveis de imaginar e cometer grandes e pequenos pecados. Por mais envolvidos que estejamos na obra do Senhor, nós que fomos chamados para ser santos—não apenas líderes na igreja de Deus, mas qualquer crente em Jesus Cristo, do mais sábio ao mais estulto—vivemos a ambiguidade de sermos santos pecadores.

Um livro de ajuda para casais cristãos com uma perspectiva realista com esperança é Quando pecadores dizem sim, de Dave Harvey (Editora Fiel). Problema é quando pessoas pecadoras, salvas por Jesus, acham que estão acima das vicissitudes da vida comum e enxergam o outro como inferiores ou indignos de seu amor. Geralmente o desvio, a desonestidade e a desonra  no casamento começam com “pequenas” incoerências, cedendo a concupiscência—seja ela da carne, dos olhos ou soberba da vida 1Jo 2.16, com orgulho em vez da humildade própria de quem veio do pó da terra—o conceito bíblico de “preferir em honra uns aos outros”. Em um blog de duas páginas não podemos começar a enumerar as mil e uma razões por que um casamento “não deu certo”, nem ter a prepotência de achar que entendemos e que estamos isentos de culpa. Porém, podemos delinear algumas diretrizes para andar “de modo digno da vocação a que fomos chamados”.

1.       Tenha sempre em mente as PRIORIDADES certas. Quer você seja pastor famoso, missionário em campos distantes, ou crente sem títulos ou atribuições ministeriais—lembrando que todo cristão é sacerdote e tem um ministério, um serviço cristão: Deus em primeiro lugar (Mt 5.33); cônjuge em seguida (1Tm 3.4); filhos (se os tiver); trabalho (temos de obter bom testemunho dos de fora); sociedade em que vive; igreja  e  todas as outras coisas. Note que Deus está em primeiro lugar, mas nosso papel na igreja vem depois da família, do trabalho e do lugar em que vivemos, porque se alguém não cuida dos de sua casa, como pode cuidar das coisas de Deus? Um estudo simples e mais detalhado está em Força para a Família..., (Ed. Monergismo), p. 76-77, do Wadislau, e no meu livro Esposa pela graça mediante a fé, capítulo 3.

2.       Guarde na mente e no coração os AFETOS certos. Se sou casada, meu melhor amigo tem de ser meu marido—tenho de ter prazer e pensar sobre ele. Até o amor aos filhos está subordinado ao amor do casal—o melhor presente que os pais podem dar aos filhos é a segurança de saber que eles são unidos em amor.

3.       Entenda bem quais os MOTIVOS por trás do que fazemos ou não fazemos. Em Força para a família na crise moderna, Wadislau delineia três motivos bíblicos por expressão: 1) Motivação da fé; 2) Motivação da esperança e 3) Motivação do amor. Esses estão em contraposição a motivações por necessidade: idolatrias (“Eu preciso disso para ser feliz”, “Isso é mais importante que tudo para mim”), pecado (“Eu sou mais eu; se não cuidar de mim ninguém mais vai fazê-lo”- Gl 5.13-21) e culpa que nos faz esconder de nós mesmos (“Não quero nem saber”), do outro (“ele/ela teve a coragem de...)” e de Deus (“Foi a mulher que TU me deste”), produzindo medo e atribuindo a outro o erro.

Existem N fatores que impedem a harmonia do casal, mas suponho que, se começarmos a consertar nossas prioridades, afetos e motivações, poderemos iniciar (ou retomar e consertar) saudável uma caminhada a dois, que acrescentará descendentes impactados positiva ou negativamente por nossa vida. Influirá sobre vizinhos, amigos, parentes, colegas...

Com certeza você já ouviu fofocas sobre pessoas que cometeram deslizes—é provável que você já tenha participado de maldizeres no face ou outros meios, disseminando contendas em vez de guardar a boca. Muitas pessoas que possuem o dom da palavra são igualmente hábeis no vício de usar palavras para ferir, abalar e destruir o caráter do próximo. Há algo, sim, em que nós somos totalmente responsáveis para cuidar:

Sobre tudo que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida. Desvia de ti a falsidade da boca e perversidade dos lábios; os teus olhos olhem direito, tuas pálpebras diretamente (...) pondera a vereda dos teus pés, e todos os teus caminhos sejam retos (...) retira o teu pé do mal (Pv 4.23-27).

Elizabeth Gomes

segunda-feira, janeiro 05, 2015

DOENÇA ESPIRITUAL OU DOENÇA FÍSICA?




Em Prática de Aconselhamento redentivo, escrevi que nossas emoções são como “pele” do atoestrutura (totalidade do ser) e, dado que todos os atos ocorrem no corpo, o conselheiro deverá levar em conta os aspectos físicos do aconselhado. Aspectos físicos jamais deveriam determinar a escolha espiritual, como disse Paulo: “Não reine o pecado em vosso corpo mortal de maneira que obedeçais às suas paixões” (Rm 6.12).

O conselheiro bíblico, isto é, todo crente maduro e especialmente um pastor, deverá se alertar para o fato de que os processos não físicos têm a mesma realidade dos processos físicos nos quais se finalizam. Isto, para não incorrer em uma falha muito comum entre profissionais e paraprofissionais das áreas de ajuda humana. Muitos deles, desejando estabelecer uma posição “científica” para o exercício da psicologia, sociologia, serviços sociais, e, até mesmo, medicina e outras especialidades, são pegos expressando pareceres que negam a própria reivindicação. Isto, por, pelo menos, duas razões. Primeiro não levam em conta que ciência, como disciplina, implica em um método de estudo – observação, experiência, comprovação, repetição e formulação – e não em uma alquímica pedra de toque que transforme crenças perspectivas em coisa provada. Segundo, permitem que uma noção materialista generalizada oriente suas cosmovisões, até mesmo quando se declaram “espiritualistas”. Para muito, o corpo seria coisa objetiva sujeita a leis determináveis e controláveis, e, a psique, algo subjetivo meio constatável e parcialmente controlável. Alguma coisa assim como os conceitos de realidade e virtualidade da moderna informática. Testemunhei, até mesmo, uma ocasião em que um profissional da área da saúde, depois de ter conversado com um paciente diagnosticado como portador de miastenia, voltou-se de modo bem paternalista para seus visitantes, com ar astuto e dedo às rodas junto da cabeça: “É psicológico”. (Eu deveria ter falado: Ah! Graças a Deus! Não é real. É autoengano, é fingimento! Viva!) O conselheiro cristão, pelo contrário, qualquer que seja a área da ajuda – pastoral, psicológica, social, e outras – deverá se conscientizar da realidade dos movimentos internos e sua interagência com os movimentos externos da pessoa.

Tais diferenciação e relação dos processos matérias e imateriais do atoestrutura humano requerem que o conselheiro cristão tenha em mente uma teoria bíblica bem formada para a prática do aconselhamento. Posto que os pensamentos do presente século – há quem tenha dúvidas sobre o uso do termo “secular” no sentido de pensamento anticristão, mas a expressão é usada na Bíblia com bastante precisão; cf. Rm 12.2; 1 Co 1.20; 2.6,8; 3.18; 2Co 4.4; 2Tm 4.10 – repousam sobre a ideia de causas e consequências em um universo aberto, ao acaso e no vazio, será preciso que o conselheiro refaça seu pensamento em termos bíblico-teológicos.  Quais são as causas das depressões, das compulsões, das fobias? Para responder a estas e outra questões pertinentes, os comentários de Ed Welch são suficientemente esclarecedores. Ele diz, sobre as implicação da intergência alma/corpo, por exemplo, que “a visão bíblica é específica quanto a que saúde e vida, e doença e morte, são, em última instância, resultado de escolhas morais, e não de estresse”. Diz também que o pecado, a estultícia (vida sem a sabedoria de Deus, baseada em “sabedoria” privada), e a culpa podem conduzir à enfermidade, e, por outro lado, a retidão, a paz e a alegria do Senhor na vida cristã podem conduzir à saúde. Nenhuma dessas condições, porém, asseguram uma relação de causa e consequência. Esta falha de pensamento ocorre em muitas das propostas de “cursos” para vida cristã, pois, na tentativa de elaborar um sistema de progresso de santificação, elas acabam caindo no pecado do legalismo – “apertando este botão, obtém esta bênção”. Existe, sim, a possibilidade destas conexões, pois esta é a intenção da promessa e da exortação, mas Deus também usa de sabedoria conforme lhe apraz, usando graça tanto ao não levar imediatamente em conta o pecado quanto ao dispor a provação. Sobre isso a Bíblia diz: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1Co 10.13), e “É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?” (Hb 12.7).

A Escritura inteira (a) fornece diretrizes baseadas no caráter normativo da revelação, (b) aplica a Palavra de Deus às diversas situações da vida, e (c) dá atenção aos sentimentos humanos. O Livro dos Salmos, atentando especialmente ao aspecto existencial da vida humana, abre um campo de visão para a nossa apreciação da relação alma/corpo. Veja o caso do rei Davi, no salmo oração composto “quando o profeta Natã veio ter com ele, depois de haver ele possuído Bate-Seba” (Sl 51.1; cf. vv. 1-19). O rei exibe sua compreensão do conhecimento de Deus e, baseado nele, do conhecimento de si mesmo. Ele se posta em adoração diante de Deus, sabedor de que em sua glória está a essência do seu próprio ser. Deus é bom – ele diz – seu coração é sensível ao coração humano, sua graça compreende justiça e amor, sempre pleno de poder criador e redentor. Ante esta santidade, Davi considera sua condição desesperada e declara sua esperança na disposição divina: “conheço as minhas transgressões”, mas eis “que te comprazes da verdade” e “me fazes conhecer sabedoria”. Nesta verdade e nesta sabedoria é que o rei Davi, então, fala de seu nascimento físico e da maneira como o pecado afetou sua carne (“ossos”) como fala também de sua interioridade e de seu coração espiritual; fala de seu espírito compungido e restaurado como fala também do testemunho e do louvor de sua boca. É nessa mesma linha que Jesus diferenciou conceitos matérias e imateriais ao mesmo tempo em que mostrava a relação alma/corpo: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3.6). O apóstolo Paulo faz a mesma coisa: “Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm10.10).

A ideia do quadro abaixo – utilizado por Ed Welch em sala de aula e cuja explicação foi feita em dois de seus livros de diferentes maneiras e diferentes ilustrações (Edward T. Welch, Counselor´s Guide to the Brain and its Diƨorderƨ, pp. 45-51; Blame It on the Brain?, pp. 56-61.) – foi adaptado para este estudo e aponta quatro linhas mestras para a consideração da interação alma/corpo:
 


— problemas da alma podem afetar o corpo;
— problemas do corpo podem afetar a alma;
— problemas da alma podem não afetar o corpo; e
— problemas do corpo podem não afetar a alma.

Em qualquer dos casos, o aconselhamento cristão trabalha com o coração da pessoa na confluência das interagências alma/corpo.

Para tanto, o conselheiro terá de conhecer alguma coisa sobre o funcionamento do corpo, bastante para reconhecer as diversas influências e para entender as perspectivas médicas. A linguagem popular comum às várias áreas de ajuda refere-se a algumas condições psíquicas manifestadas no corpo como sendo de ordem psicossomática (gr., psyque/alma + soma/corpo). O termo é acurado, mas, para o nosso caso, teríamos de cunhar outra palavra, como somatopsíquico, uma vez que há possibilidade de ocorrer múltiplas afetações, em ambos os sentidos. Em um sentido, há bastante proximidade de termos e significados na linguagem do aconselhamento cristão e das psicologias seculares, especialmente daquelas mais tendentes a uma visão médica de diagnósticos e prognósticos. Uma das razões desta proximidade é que o objeto observado é o mesmo e a linguagem é comum a ambas as visões. O que muda e faz toda a diferença na própria conceituação é que a perspectiva cristã leva em conta o espírito humano e a perspectiva secular ignora essa dimensão da alma (cf. 1Co 2.1-16). Sobre isto, o que o conselheiro cristão terá de considerar é que a espiritualidade humana não pode ser separada da materialidade humana. O aspecto espiritual não é uma área, às vezes clara às vezes nebulosa, que usa o corpo como uma habitação para o “fantasma dentro da máquina”. Antes, é a totalidade do atoestrutura humano no exercício dos dons e vocação comunicados ao ser humano segundo a riqueza da graça de Deus “desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele (...) todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Efésios 1:9-10; realce meu).

Resumindo, quando a Bíblia se refere à unidade alma/corpo usando termos identificados ao aspecto físico – coração, fígado, rins, intestinos, nervos, músculos, sangue, água, membros, boca, ouvidos, e daí em diante – não está simplesmente utilizando um recurso de linguagem, mas estabelecendo uma relação. Nesta relação, diz Ed Welch, o conselheiro terá distinguir entre aspectos essenciais e aspectos assecionais (acessórios).

Wadislau Martins Gomes
 

quarta-feira, dezembro 24, 2014

O VERBO SE FEZ CARNE

 

 
E o Verbo se fez carne
e habitou entre nós,
cheio de graça e de verdade,
e vimos a sua glória,
glória como do unigênito do Pai.
 
Onde foi?

— Beit-leham, casa de pão, se torna local do nascimento do Pão da Vida

“E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade (Mq 5.2). “José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2.4-7) e “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes...” (Mt 2.1). “Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo... Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.33;35).

Com quem aconteceu?
 
— Yousef ben Yacob (José)

“Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles. Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (Isaías 7.14 -- que quer dizer: Deus conosco). Despertado José do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu sua mulher. Contudo, não a conheceu, enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus” (Mt 1.20-25)

— Miriam bat David (Maria)

“Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim (Lc 1.30-12).

— Yeshua ha Meshiach (Jesus)

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isto” (Is 9.6-7)

Há melhor lugar para um Cordeiro recém-nascido do que uma mangedoura em estábulo?

“... e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2.7-14). “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29)

Quem seriam os primeiros a saudar o nascimento do Cordeiro de Deus?

Pastores guardando os rebanhos como o antepassado rei-pastor Davi

“Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite... e ficaram tomados de grande temor...”

Um anjo – multidões de anjos

“E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam...”

* pessoal, – não temais
* à comunidade, – vos trago boa nova de grande alegria
*a todos os povos – que o será para todo o povo:

“é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura (...) e a glória do Senhor brilhou ao redor deles (...) subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”.

O que fizeram os pastores?

“E, ausentando-se deles os anjos para o céu, diziam os pastores uns aos outros:

Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer.
Foram apressadamente e
acharam Maria e José e a criança deitada na manjedoura.
Vendo-o, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino”!

O que fizeram os que ouviram e os que proclamaram?

“Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores... Voltaram, então, os pastores glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado (v.20).

Sábios do Oriente:

“Eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo... eis que a estrela que viram no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, alegraram-se com grande e intenso júbilo. Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra” (Mt 2.1;9-11).

Simeão

“Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão; homem este justo e piedoso que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele... Simeão o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo:

Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo,
segundo a tua palavra;
porque os meus olhos já viram a tua salvação,
 a qual preparaste diante de todos os povos:
 luz para revelação aos gentios,
e para glória do teu povo de Israel...
Simeão os abençoou e disse a Maria...
Eis que este menino está destinado tanto para ruína
como para levantamento de muitos em Israel
e para ser alvo de contradição
        (também uma espada traspassará a tua própria alma),
para que se manifestem os pensamentos de muitos corações    (Lc 2.25-35).

e Ana, viúva de oitenta e quatro anos: “Chegando naquela hora, dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (v 38).

José, Maria e o bebê Jesus:

“E estavam o pai e a mãe do menino admirados do que dele se dizia” (Lc 2.33)

 “Tendo eles partido, eis que apareceu um anjo do Senhor a José, em sonho, e disse: Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e permanece lá até que eu te avise; porque Herodes há de procurar o menino para o matar. Dispondo-se ele, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito; e lá ficou até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito chamei o meu Filho”.

“Tendo Herodes morrido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito Dispôs-se ele, tomou o menino e sua mãe e regressou para a terra de Israel. Tendo, porém, ouvido que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; e, por divina advertência prevenido em sonho, retirou-se para as regiões da Galiléia. E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele será chamado Nazareno” (Mt 2.19-23).

Herodes

“Enfureceu-se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos. Então, se cumpriu o que fora dito por intermédio do profeta Jeremias: Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto, choro e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsolável porque não mais existem” (Mt 2.16-18).

Jesus?

“Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele,
 e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens.
 A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1.2-5).
“... a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1.17).

E Maria?

“Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração” (v.19; v. 51).

E nós?

“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.11-13).

Que recebamos a Jesus Cristo, Deus Conosco, não apenas neste Natal, a cada dia, porque nele vivemos e existimos – para a glória e paz de Deus e a verdade e alegria entre os homens.

Elizabeth Gomes

segunda-feira, dezembro 01, 2014

NÃO QUERO BÊNÇÃOS QUE NÃO VENHAM DE DEUS!




Assentados à mesa após a janta, Vito e Léa (nomes fictícios), hóspedes em O Refúgio, Clóvis, amigo que revíamos depois de mais de quinze anos, e a nossa família, falávamos sobre fé, oração, ação de Deus e coisas como essas. A certa altura, Vito, apelou para um testemunho que o casal achava incontestável: “Minha filha tinha uma problema no joelho; depois de mal sucedidas andanças por consultórios, nós a levamos para Minas, para uma operação espiritual com o Dr. Fritz – temos duas radiografias, antes e depois, para mostrar que ela foi curada”. Eu já me preparava para um uma incursão no esquema doutrinário bíblico, quando Clóvis atalhou: “Não quero bênçãos que não venham do meu Deus”. Boa, Clóvis! Valeu! A coisa é essa mesma.

Efésios 1.3 diz que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus, “nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, e 2Pedro 1.3 reitera, dizendo que “nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude”. A questão é que somos tomados de dúvida em relação à palavra de Deus, e, consumidos por diversas ansiedades, vivemos à cata de bênçãos. Queremos uma segunda, terceira, e mais e mais “bênçãos” que jamais saciam a sede de santidade instantânea e indolor e de poder espiritual sem obediência e dependência da vontade de Deus. Parodiando a vai a canção: “e se Deus não der, eu vou me danar, e chega”.

Em uma das ocasiões em que a Beth esteve bem doente, uma senhora de uma das igrejas que servi falou ao telefone: “Pastor, por que você não leva a Beth para receber a oração do pastor ‘tal e tal’; ele orou por mim, e eu estou curada de um câncer”. “Obrigado pelo cuidado, irmã” – iniciei a resposta com maior cuidado – “mas o Francisco, o zelador da igreja, já orou comigo, diversas vezes, assim como os presbíteros e outros irmãos...” Antes do click do telefone desligando, ouvi um resto de frase: “O sr. é mau, pastor”. A irmã morreu um mês depois, e a Beth, pela mesma graça que levou a irmã para o céu, ainda sofre as dores deste mundo e experimenta o contentamento do Senhor.

Se creio na oração? Com toda certeza, pois é ordem do Senhor. Se creio no poder da oração, aí depende do conceito. Se poder da oração for uma figura do poder de Deus para responder orações como bênção concedida pela graça mediante a fé em Cristo Jesus, então, estou dentro para rogar, interceder, jejuar e, especialmente, para receber a bênção de obter o pedido ou para obter a bênção de sabê-lo negado. Isto, porque sei também que o instrumento da oração não foi concedido por Deus que nós o usássemos para forçar Deus a “liberar a bênçãos”. Não há como forçar o braço do Todopoderoso Soberano. A oração é uma bênção para implementar o conhecimento da vontade de Deus no coração e nas mãos do crente. Por meio dela, o crente aprende a comunhão com Deus e, nele, a comunhão com os irmãos. Na comunhão em oração, os crentes exercitam, individual e coletivamente, o conhecimento dos mandamentos e promessas do Senhor, confiantes de que suas vidas estão nas mãos dele, “que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” (Efésios 3.20).

Ao falar de oração em tempos de perseguição, doença ou outras aflições, Tiago (5.10-20) inicia, dizendo: “Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais falaram em nome do Senhor”. Infelizmente, muitas vezes, nós tomamos o modelo de curandeiros “evangélicos” que declaradamente adoram a oração que fazem, e não ao Senhor da oração que a atende. Tiago diz também que tudo o que falamos deve ser definido, tanto o sim quanto o não, e, para isto, usa a ilustração da unção com óleo. A unção é a bênção para o usufruto dos mandamentos e promessas do Senhor. A unção para o cumprimento de um chamado especial, como no caso de Samuel e Davi, era marcada com o óleo derramando por um profeta do Senhor sobre a cabeça do agraciada. Significava que a autoridade não residia no profeta nem no rei ungido, mas provinha da graça de Deus a ser recebida mediante a fé. Não será por meio da oração dos adoradores de Baal, ou dos adoradores da prosperidade que não permanecem no pacto em que Deus é o rei soberano e, nós, seus príncipes vassalos, que veremo0s a verdadeira bênção que procede do Pai. No caso da oração para a cura a ser feita por presbíteros, a unção com óleo demonstra que o poder da cura não está no carisma de quem ora nem na força da fé do objeto da oração – mas procede da graça de Deus. Na verdade, a fé pequena e fraca, mas poderoso é o Senhor que a concede e faz aumentar. Sim, eu creio no Deus poderoso que atende minha fraca oração, tal como foi sua resposta à oração de Paulo: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Neste caso, a oração tece efeito completo, como é visto no comentário feito: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2Coríntios 12.9). No exemplo de Tiago, Elias era homem sujeito a paixões e fraquezas; ele, um dia, orou ao Senhor, dizendo que haviam matado os profetas e que, agora, ele estava sozinho e com a vida em risco – o Senhor respondeu que havia ainda sete mil fiéis “que não dobraram os joelhos diante de Baal” (Romanos 11:4). Este homem fraco “como nós”, também orou a Deus pedindo chuva, e choveu!

As grandes experiências do conhecimento e da comunhão com Deus notadas no exercício da oração são realmente grandiosas, maravilhosas, terríveis, e deliciosas, mas proclamam a glória de Deus e não a ilusória glória de homens. Nossos olhos deveriam fitar o Senhor de todas as bênçãos e os nossos pés e mãos deveriam seguir seus caminhos e suas obras. A verdadeira graça não mede homens e sempre os faz crescer; a verdadeira fé não é medida segundo o poder de homens, mas cresce no acato à vontade do Senhor. Deus sempre responde as orações dos seus filhos, sempre transformando o caráter deles quer para receber a bênção pedida quer para entender a sua negação.

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, novembro 28, 2014

DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS, UMA VIDA DE GRATIDÃO


Ao redor da mesa, comemorando um dia de ação de graças, dei uma dessas tiradas miserável de espírito: “a ceia está do peru”. Antes de terminar a frase, eu já antecipei reação de misericórdia – só não esperava que o caçula estatelasse os olhos e dissesse, de soluço: “ele falou do peru!” Sei lá em que ele pensou... mas eu, deixei a imaginação curtir a primariedade da minha peruada. A expressão “do peru” tem origem incerta, em referência ao país ou à ave, e é de uso dúplice, com tons de admiração ou de ironia. Por sua vez, o sentido do Dia de Ação de Graças, originado na tradição americana dos peregrinos, ação de graças, nativos, peru etc., aqui na terrinha tem cheiro e gosto de influência bradesca e de esquema comercial – mas, vá lá, se de alguma forma Deus é louvado.

Cá para nós, mais do que bom sentimento ou adorno pessoal, gratidão significa conformação com a vontade de Deus. De fato, ela é compreendida e exercitada na deliciosa e diligente comunhão com Deus e manifestada no reflexo da glória de Cristo por meio dos afetos do coração e da beleza do caráter. A gratidão, em termos bíblicos, é o exercício da fé gerada e motivada mediante o testemunho interno do Espírito Santo e baseada e praticada mediante a bênção da graça de Deus. Em suma, essa gratidão brota do tronco da fidelidade de Deus e frutifica nos ramos da nossa decorrente fidelidade. Foi assim que Paulo tratou o tema:

Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda forma de mal. O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará (1Tessalonicenses 5.17-24).

Do mesmo modo, a gratidão que provém da graça mediante a fé é o vínculo vital da criatura com o Criador e a virtude formadora do caráter cristão. Por meio dela a pessoa conhece a divindade de Deus, a quem não vê, mas que é revelada na Escritura e em Cristo, e reconhece seu controle, presença e autoridade sobre todas as obras de suas mãos. Tais conhecimento e compreensão respondem às questões essenciais do coração humano: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Assim, fomos criados para espelhar a glória de Deus, estamos aqui para usufruir toda sorte de bênção advinda dessa glória, e vamos para a realização da glorificação final.

Quando compreendido em gratidão e a despeito de possuirmos “este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”, a presença do reflexo da “glória de Deus, na face de Cristo” (cf. 2Coríntios 4.6-7) estabelece a identidade e o desenvolvimento da personalidade do salvo. Para os não salvos, e para os salvos que os modelam, a ausência do reflexo da glória de Deus e da gratidão torna-os faltos em seus pensamentos e insensatos em seus corações – perdem a prórpia identidade! Foi assim também que Paulo o colocou:

Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis (Romanos 1.20-23).

Portanto, gratidão é mais do que “uma coisa do peru”. Gratidão é habitar em Deus mediante a comunhão pessoal e a habitação da sua Palavra em nós de maneira que nossa expressão verbal para com ele e para com seus filhos e nossos irmãos em Cristo seja rica de graça, e nossa ação, rica da operosidade da fé (cf. Colossenses 3.18-17). Gratidão é uma ação do Espírito de Deus no nosso espírito, inspiração de graça, respiração da alma, motivação de vida. Foi assim que o salmista praticou e cantou a gratidão ao Senhor:

Bom é render graças ao Senhor e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo, anunciar de manhã a tua misericórdia e, durante as noites, a tua fidelidade (...) Pois me alegraste, Senhor, com os teus feitos; exultarei nas obras das tuas mãos. Quão grandes, Senhor, são as tuas obras! Os teus pensamentos, que profundos! O inepto não compreende, e o estulto não percebe isto (...) O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o Senhor é reto (cf. Salmos 92.1-15).

Wadislau Martins Gomes