sexta-feira, agosto 22, 2014

MISSÃO DE MÃE


 


.... com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas) (...) preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso (1Tm 2.9-15).

Uma amiga trouxe o filhinho recém-nascido para que o conhecêssemos, e um filho meu, criança, desapareceu por um pouco e voltou com seu cachorrinho recém-nascido ao colo. Provavelmente soubesse da diferença colossal entre o filho e o filhotes, mas para ele, a “irmandade” de ter como seu uma nova vida – fofinha, linda, incrivelmente perfeita em sua total dependência – era algo que ele entendia nos limites de sua experiência. Tempo depois, ele viu nascer os filhotes de sua hamster e correu para nós, pulando de alegria: “Viva! Sou pai!”
Entre os itens mais compartilhados nas redes sociais estão notícias de gravidez ou nascimento de filhos e netos. Costumo “curtir” até mesmo quando não conheço bem o casal ou a pessoa que deu a notícia, porque amo tudo que diz respeito a geração e parição. Percebo que meus escritos são muitas vezes prenhes de referências a nascimentos e assuntos ligadas a geração, reprodução, criação e educação de filhos. Os mais altos momentos da vida, os que fizeram com que eu me sentisse simultaneamente vazia e realizada, foram do nascimento de meus três filhos. Pais, mães e avós falam de boca cheia sobre os feitos e desfeitos dos filhos e netos. Os afetos são incrivelmente fortes e insuportavelmente sofridos quando as pessoas se referem a filhos.
Não são somente os compartilhamentos alegres que marcam a vida das pessoas. Lembro-me bem de um casal amigo que carregou o filho no ventre por nove meses. A criança nasceu com problema de coração, e por melhor que fossem as tentativas da medicina de salvá-la, morreu. Outros tiveram filhos natimortos. Ainda semana passada, quatro amigas compartilharam a tristeza de gravidez frustrada em aborto espontâneo – sentimento que eu mesma experimentei. Tenho conhecimento de outras mulheres que cuidam com carinho das crianças dos outros (uma de que penso particularmente é pediatra muito amorosa e habilidosa com os pacientes a ponto de, às vezes, levar seus pacientes-mirins para sua própria casa)—e não têm filhos do ventre nem se atrevem a adotar filhos do coração. Parece que o sonho de maternidade é, para elas, ilusório em seu alcance.
Maternidade e missão andam juntas. No momento, estou revivendo os repuxões do coração ao observar mais uma saída de mais um filho para uma vida missionária—o maior sonho de uma mãe cristã. Criamos os filhos para Deus—eles não são nossos, mas tesouros a nós cedidos por poucos anos para que sejam formados, burilados, e às vezes reformados, para uma missão muito maior do que nós possamos ter ou imaginar. A frase poética do Vinicius de Morais: “Filhos... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-lo?”, aponta a complexidade da experiência paternal. Como mãe cristã, encho-me de alegria ao pensar nos filhos,  e esvazio-me de qualquer orgulho vão: eles são prova viva da fidelidade de Deus e da vaidade de meu próprio pensamento. Cada um é singular e único—todos eles são amados como se fossem só eles, conquanto façam parte de uma multidão sem conta de gente irmanada pelo mesmo Salvador.  Criamos os filhos para Deus que os envia ao mundo. Não são nossos também no sentido que deverão andar com as próprias pernas e voar com as próprias asas, refletindo eles mesmos a glória de Deus e testemunhando essa diferença no mundo em que vivem—não no nosso mundinho limitado, mas na expansão em que eles atuam e em que, amadurecidos, produzem transformações no ambiente em que se encontram. Eles nasceram para propósitos eternos, mesmo sendo falíveis mortais (uma mãe amarga a falibilidade e quer se esquecer da mortalidade dos filhos, mas não pode negar essa verdade). Criamos os filhos para outros. Percebo cada vez mais nos filhos que eles nunca foram meus – são de seus cônjuges, de seus próprios filhos, suas congregações, seu próprio círculo de amizades, seus trabalhos de vocação e convocação, do próximo, e não nossos. Criamos os filhos para ser quem devem ser em Cristo. Nunca são o que queríamos que fossem – mesmo quando ultrapassaram todo sonho que eu tivesse, não são, e não podem ser considerados, aquilo que eu queria moldar e formar à minha imagem. Não são ídolos para serem adorados ou para cumprir a nossa vontade, e, muitas vezes, os seus caminhos, embora tendo o bom e firme fundamento e baseados na mesma fé, serão peregrinações diferentes da minha. Tenho de respeitar essas multiformes diferenças e honrá-las pelo que são.
O trecho bíblico que despertou essa reflexão me intriga e perturba, porque Paulo escreve a seu próprio filho na fé, Timóteo, (1.2) referindo-se à primeira mãe da vida humana, Eva, como “segunda” em formação, enquanto “primeira” a ser enganada--e ser essa a razão pela qual as mulheres não devam exercer domínio sobre os homens (2.11-12). Hoje muitos teólogos, especialmente as feministas pós-modernas, descartam como prova do machismo antiquado e retrógrado de Paulo que deve ser descartado por qualquer ser pensante de bom senso (suas Bíblias estão esfarapadas pelas múltiplas escolhas humanas de “isso não se aplica mais” ou “isso é irrelevante”) Mas Paulo (nem outro autor bíblico qualquer) não é misógino quando se lembra de outros trechos dele que se referem, por exemplo, ao papel de ensino de mãe e avó piedosas (2Tm 1.5; 2.15), à valorização do papel de ensino de Priscila junto com Aquila (At 2.18; 18.18; Rm 16.3) e referência a inúmeras mulheres piedosas em todas as suas cartas. Aliás, ele destaca o bom senso junto à modéstia e boas obras das mulheres piedosas, para concluir que “será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé e amor e santificação com bom senso”. Ainda vou estudar o assunto mais a fundo, mas de relance, a ambiguidade da maternidade é algo constante, e me perturba. Esse é o homem cuja sensibilidade empresta da mulher a expressão mais profunda, sofrida e realizadora: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto...” o faz “até ser Cristo formado em vós”. E eu empresto esse senso de maternidade paulina a minha visão missionária: até Cristo ser formado em vós.
Desde os doze anos de idade, quis ser missionária e valorizei a missão de Deus em Cristo em mim para depois de formada, transbordar em missão ao mundo em minha Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra (Mt 28.19-20). Namorei missões em campos distantes – com a leitura de biografias de Hudson Taylor, Isobel Kuhn, Amy Carmichael, Betty Scott Stam, Catherine Booth, Corrie Ten Boom, Elisabeth Eliot—e próximos, de missionários que conhecia e que desconhecia totalmente – encantei-me com missões entre o povo de Deus (fomos missionários por três anos entre os judeus, em Belo Horizonte e São Paulo) e de todas as tribos, povos e nações do Brasil e do mundo (implantamos igrejas nos Estados Unidos). Hoje sou esposa de pastor e mãe de filhos adultos que não dependem mais do ensino da casa pater-materna – eles próprios ensinam a outros, começando pelos próprios filhos e se estendendo por todo o mundo em que vivem. Temos nós tesouro em vasos de barro (2Co 4.7) e esse vaso aqui está mais que rachado – já se quebrou muito antes que o Senhor o remodelasse e refizesse, e ainda hoje acaba mostrando trincas e rachaduras que têm de ser tratadas. Não tem jeito – deste lado do Paraíso, continuarei sendo vaso inacabado, até Cristo ser formado em mim (Gl 4.19) e eu ser promovida para a Presença do Trono. Mas ele está presente – no passado, hoje e no futuro – e tem me presenteado com graça e misericórdia em todos os momentos da vida. É como mãe imperfeita que vou vivendo a maternidade às vezes fracassada às vezes profundamente realizada, como tantas mulheres cristãs que assim podem e devem exercer uma “missão de mãe” – mães de muitos filhos, mães de muitas querências frustradas, de ventre ou de berço vazios, mães que adotaram filhos para a eternidade. Essa missão não trata de mim nem mesmo de meus mais preciosos amados: marido, filhos e netos. Cumprir a missão de mãe é entender a missão de Deus. Empresto aqui outra expressão paulina: “... Conhecer a riqueza deste mistério: Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo; para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim” (Cl 1.27-29).
 
Elizabeth Gomes

terça-feira, julho 29, 2014

"LANÇA TEU PÃO SOBRE AS ÁGUAS"


 
Lança o teu pão sobre as águas...

Quando meus pais voltaram para os Estados Unidos, após 17 anos de Brasil, deixaram livros e pertences que pretendiam recuperar quando voltassem. Papai voltou sozinho para meu casamento, e deixou mamãe sem casamento, ela e minha irmã adolescente sozinhas em terra estranha. Foi finalmente decidido que Lau e e ficássemos com os pertences, pois seria muito caro transportar para os States—mas descobrimos que quase tudo já tinha sido vendido ou desfeito. Restaram os livros, (ninguém dá dinheiro para livro velho) – esses deram continuidade a nossa biblioteca missionária. Um dia, porém, depois que já tinham passado uns dez anos em casa, papai chegou e disse que ia pegar de volta os livros – só que não tinha para onde levá-los, e acabou deixando para nós aquilo que nos dava horas de estudo e apontava para enriquecimento de nosso ministério da Palavra. As outras coisas se foram.

Entre os diversos tesouros bibliófilos, havia livros de partituras da minha mãe, que tivera treinamento e talento musical, além de ser psicóloga com mestrado em educação cristã. Eu os apreciava, mas meu instrumento de preferência sempre fora a voz, e não estudei piano com afinco – só para tocar em casa, acompanhar ou dar incentivo aos meninos no culto doméstico.  Amava cantar no coral, naquela época na Igreja Presbiteriana Ebenezer, sob a regência criativa e habilidosa de Mary Cleme.

Uma jovem da igreja, a quem amamos muito (mais tarde Wadislau realizou seu casamento com um jovem pastor também estudante do IBPV), entre os diversos que foram para a Palavra da Vida naquela época, estava se destacando como pianista-organista, e eu lhe emprestei um livro de partituras para orgão, que tinha sido de mamãe. Com o passar dos anos, ela e seu marido se mudaram, Wadislau e eu nos mudamos (muitas vezes nesses últimos mais de quarenta anos!), e perdemos o contato. De vez em quando soubemos notícias: ele em ministério pastoral, ela como ajudadora idônea e destacando-se ao treinar outras pessoas no louvor e adoração pela música enquanto criavam a família na Palavra de Deus.

... porque depois de muitos dias o reencontrarás (Ec 11.1).

Reencontramo-nos nas redes sociais, eu e meu marido não mais jovens, ela e o marido também não tão jovens, cada casal continuando no serviço do Senhor e vendo os filhos repetir, eles mesmos, as lutas e glórias pelas quais nós passamos anos antes. Recentemente ela comunicou comigo ter encontrado um livro que eu lhe emprestara nos anos setentas, e que iria devolvê-lo. Eu sequer me lembrava do livro ou de tê-lo emprestado. Tantos livros já desapareceram no correr dos anos...

Fiquei surpresa quando abri o grande pacote enviado por SEDEX de Londrina para Mogi das Cruzes. Ela nos mandara de volta um tesouro sem preço: o volume de prelúdios e fugas das obras completas para órgão de Johann Sebastian Bach, compiladas pelo médico, missionário e músico Dr. Albert Schweitzer, publicado em (1912) 1940! Eu nem me lembrava que mamãe tinha essas partituras com sugestões para a interpretação das composições. Sem capa, mas com apenas um rasgo na última página – isso com certeza já tinha acontecido antes dele vir às mãos de Nali, que cuidou com carinho e lembrou de devolver o que no meu coração já tinha sido dado.

Mandei fazer uma cópia xerografada, não para pirataria, mas para proteção. O original, encadernação com capa dura, e, a cópia, encadernação em espiral para fácil manuseio. A duplicata vai para as mãos de minha nora musicista, Adriana. A encadernada fica na Biblioteca Refúgio até que eu e meu marido formos promovidos para o grande coral celeste e os bens da terra sejam compartilhados com os descendentes que estiverem mais envolvidos com música para a glória de Deus.

Apliquei o versículo que citei do Koheleth de Israel de forma ampla ao que aconteceu com Nali e comigo, com as partituras e a música, com a fidelidade de Deus e decorrente fidelidade de uma irmã em Cristo. Os judeus até o dia de hoje usam esse versículo no início do ano novo (Rosh Hashanah) ao tomar literalmente migalhas e pedaços de pão e jogar nos rios e córregos e se envolver em obras filantrópicas e de misericórdia, na certeza de que o bem que fizerem “voltará a eles depois de muitos dias”. Como cristãos, nossas obras não são meio de salvação nem meio de garantir que nós também sejamos bem tratados no final—mas fruto, resultado para o qual Cristo nos resgatou. Mas porque somos feitura dele, criados em Cristo para as boas obras (Ef 2.8-10), nossos irmãos muitas vezes nos presenteiam com graça de forma criativa, harmoniosa e inusitada.  Achei bem mais que migalhas – encontrei Pão da Vida. E tenho certeza que Nali e Lauril, como Beth e Lau, têm encontrado graça e misericórdia enquanto espalham a beleza de Cristo na Palavra, na música, e na vida.

Elizabeth Gomes

sexta-feira, junho 27, 2014

COMPARAÇÕES E CONTRASTES


 
Vitórias, incertezas e temores são presenças constantes em nosso cotidiano. Mais que nunca. Fico lembrando as afirmativas triunfalistas de alguns amigos que querem nos animar: “Vai dar tudo certo”; “Deus já ordenou a cura, em nome de Jesus”; “Vocês são uma bênção e serão vitoriosos em tudo que fizerem”.

Por outro lado, lembro de recentes perdas dos amigos: um amigo da minha idade, que cuidava de sua saúde tinha excelentes hábitos alimentares e invejável estilo de vida, morreu de ataque cardíaco a menos de um mês; outra amiga, mais jovem do que nós, está acometida de câncer e tem poucas perspectivas de ver crescer os filhos pequenos; outra amiga que queria servir ao Senhor em seu lar e sua vida, é abandonada e fica só apesar do marido, líder cristão, ter prometido uma vida inteira de envolvimento no Reino de Deus. Nem tudo é vitória humana na luta da fé – o capítulo onze de Hebreus já dizia isso quando afirmava que pela fé tantos tiveram perdas permanentes quanto viram resultados mais felizes.

Atualmente estou traduzindo um livro de Paul Tripp sobre os sentimentos de perda na meia idade, e traduzi há mais de um ano outro de Michael Horton sobre aquilo que era “bom demais para ser verdade”— ambos demonstrando a lucidez do realismo com esperança que só uma perspectiva bíblica da vida podem nos dar. Tenho comprovado tal perspectiva na vida de pessoas que me cercam, e quero assumi-la pessoalmente e de modo crescente cada dia que passo, mas confesso que sou fraca e minhas decisões são inconstantes. Lembro da frase constante de uma mestra do bem: “Seja equilibrada” – e no equilíbrio/desequilíbrio de uma vida andando com o Senhor, continuo aprendendo e precisando aprender mais e melhor o que Deus tem para fazer em mim e comigo. Primeiro, porque jamais poderei dizer que já cheguei lá, que consigo viver pela fé, que vivo na dependência de Deus cada dia e posso ser exemplo dos fiéis. Passos que eu julgava serem certeiros tomo ainda incerta do rumo e até mesmo do compasso em que deverei marchar. Para tanto, digo com santos mais experientes: “Não sei o que de mal ou bem é destinado a mim, se maus ou áureos dias vêm até da vida o fim – mas eu sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar o meu tesouro até ao dia final” (Hinário Novo Cântico, # 105). Sou relembrada, pelo velho apóstolo, que “perto está o Senhor”, e por isso nossa, minha equidade deverá ser notória a todas as pessoas (Fp 4.5). Com ele, “não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Aprendi isso do meu pastor e companheiro de vida, Wadislau, que hoje enfrenta uma doença que enfraquece os músculos (muito perigoso quando esses músculos são coração e diafragma e não apenas das pálpebras e face), embora mantenha a fé fortalecida. Com ele aprendo a não estar inquieta por coisa alguma; antes, nossas “petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças”.

Sou velha demais para aprender? Não. Estou aprendendo, a passos cambaleantes de criancinha de um ano, com um velho preso, “a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece”. É visível o fato de que não sou exemplo nem modelo para a vida cristã. Não temos a empáfia de pregar, ainda que sejamos cartas vivas.

Comparações? Não com pessoas que passam a vida em manso lago azul, nem com as que vivem sobre turbulento mar, mas com “isso que vivo hoje diante das glórias que estão por vir” – só posso ser grata e dizer “não mereço, mas ele pagou o preço”! Lutas e glória – tema que perpassa o Livro desde Gênesis até o Apocalipse. Não quero, nem tenho direito “passar sermão” – quero apenas afirmar que a graça de Deus tem bastado para nós, renovando as forças e dando ao cansado alento constante.

Muitos são os amigos que enviam mensagem de força e nos desafiam a permanecer inabalados. Quisera conseguir fazer mais: cuidar melhor do Lau em sua enfermidade, da casa, das refeições e atenções aos que demonstram carinho de tantas formas, manter em dia meu trabalho escrito (Editora Fiel e Cultura Cristã que tenham paciência comigo! Vou terminar o trabalho com acuidade, ainda que com atraso!).

Mesmo tempo ininterrupto para ler vai ficando mais escasso a cada dia. Pelo menos temos a memória do que nos dá esperança, e aquilo que guardamos no coração há muito tempo tem aflorado à mente e boca quando nos faltam minutos para uma hora formal com a Palavra. Por isso os lábios que se esqueceram do batom e o rosto que não viu o creme hidratante conseguem destilar graça – não a minha nem a nossa, mas a do Senhor da minha, sua, nossa vida, de nosso ser e até mesmo daquilo que não conseguimos fazer ou ser. Engraçado favor imerecido quando só merecíamos ira; graciosa benignidade generosamente derramada.

Invejo pessoas que têm tempo de sobra para escrever – quem tem idéias de sobra e tempo em falta sofre com o entupimento de veias e veículos de circulação e não aplica a preciosa riqueza do espairecimento e espaçamento do repouso e lazer sobre aquilo que se pensa e produz. O contraste é também patente entre os tesouros e a perícia do lapidador que não dispõe de tempo para burilar a pedra bruta, e acaba apresentando jóia com menos facetas que ressaltem o brilho, mais arestas não polidas a esconder o fogo do interior da pedra.

O salmista adverte que não tenhamos inveja de quem prospera no caminho – e tenho de me curvar ao Eterno que está dentro, fora, acima, por baixo, envolto e independe do tempo em nosso planeta ou qualquer outro desse universo. Sou dele, e se existe uma única mensagem que quero compartilhar com meus irmãos de caminhada, é esta: Dele, por meio dele, e para ele são todas as coisas. A glória, pois, a ele eternamente (Rm 11.36).

Nada se compara a essa vida. Conhecer Jesus é incomparavelmente melhor! Conflitos quanto aos contrastes e as incongruências e inadequações da vida aqui e agora diante de um passado de “até aqui nos ajudou o Senhor” até um futuro que “está em suas mãos” é uma ventura que eu não trocaria por nada nesta vida nem na eternidade.

Elizabeth Gomes

segunda-feira, maio 12, 2014

A FILHA DO REI E O SERVO SOFREDOR


"Filha" - disse Aslam - "contolhe a sua história, não a dela. Não conto a alguém senão a sua própria história"
 
Meu Pai é juiz e governador
dos reinos do mundo é supremo Senhor!
O seu magno império é mais vasto que o mar,
Meu Pai é um Rei, seu poder é sem par.
                Eu sou filha de um Rei
                Sou filha do Rei,
                Herdeira com Cristo, sim sou filha do Rei!

Cantávamos em harmonioso trio: mãe Carolyn, e filhas Kathryn e Elizabeth. Acho que era um dos hinos mais “assinatura” de nosso repertório. Tinha prazer em minha identidade real. Não era questão de genética nem de genealogia, que minha avó dizia ser traçada até o rei Ricardo, Coração de Leão (hoje minha irmã retificou a pesquisa de origens até o rei plantagenete Geoffrey), mas acredito que de desconhecido sangue azul ou origem chula todo nós temos um pouco. Considero muito mais importante que Deus tenha nos tornado seus filhos por adoção, escolhidos desde antes da fundação do mundo para sermos seu povo de propriedade exclusiva – e essa identidade não é porque merecemos, mas pela identidade do Deus que é, era e há de ser Senhor. Anos mais tarde, publiquei um artigo testemunhando a “Filha do Rei” na revista Evangelizing Today’s Child, da Child Evangelism Fellowship USA. Sempre considerei missões, evangelismo e educação cristã como imprescindíveis e inseparáveis para quem toma o nome de cristão, desde os pequeninos até os de “mais velha idade”.

Hoje, fico pensando na tensão entre o conceito do tesouro que é nossa filiação ao Rei Eterno, experimentamos ao ser herdeiros com Cristo (Rm 8.17; Hb 6. 17; Tg 2.5; 1Pd 3.7) e em Cristo:

De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra (...) em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (...) com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo (...) em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa (...) o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória (Ef 1.10-14).

– enquanto, ao mesmo tempo, o Rei dos Reis, nossa razão de ser filhos e herdeiros, ter se esvaziado de toda sua glória celestial (Fp 2.7) para vir a um mundo que o crucificou e o rejeitou:

Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53.3-5).

Lembro-me, novinha ainda, de pessoas que se gabavam de suas orígens como se isso as tornasse melhores e merecedoras de serem paparicação e de serviço. A figura do Servo Sofredor não parece nada com as caricaturas de príncipes e princesinhas que o evangelho barato quer apresentar como nossa herança! Sim, somos filhos e filhas da promessa, filhos do Rei Eterno, e temos valor infinito – não por nosso próprio mérito, mas porque ele é Criador soberano, Redentor perfeito, Restaurador de sua imagem em nós, e nele “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.3). Não somos filhos do Rei para andar com carro do último tipo, refestelados de jóias caras e roupas de grife. Nada há de errado em ter bens e posses adquiridos honestamente pelo trabalho de nossas mãos, mas é muito errado fazer ídolos de quaisquer desses valores terrenos, porque disse Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam... porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt 6.19-21). Se somos filhos do Rei, temos um tesouro, somos um tesouro – “em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” (2Co 4.7). Fico estarrecida com a inversão de valores que tantos irmãos fazem, achando que nós é que somos grande coisa, nós é que temos méritos, e nós temos de ordenar (até mesmo decretar a Deus o que queremos assumir!), sermos servidos e recebidos com honra porque nos achamos “grande coisa”. Cadê o entendimento como o do cântico: “de Jesus Cristo eu nada mereço, mas ele morreu foi por mim (...) Eu não mereço, mas ele comprou-me... seu sangue lavou-me” Nosso Senhor Jesus Cristo (...) morreu por nós, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com ele” (1Ts 5.10;1Pe 3.18). E não estou apontando o dedo! O pior é que eu mesmo já incorri nesse erro de achar que autoafirmação, autocentrismo, podederia, às vezes, ser um comportamento aceitável para uma pessoa autenticamente cristã! Nossa tendência egoísta é sempre endeusar a nós mesmos – o Novo Testamento tem de repetir diversas vezes a advertência “Fugi da idolatria”, porque a princesinha que quer levantar a cabeça ainda que redimida – não morreu!

Em vez da coroa de glória e do cetro de sua soberania, constato que sua coroa na terra foi confeccionada de espinhos (Mt 27.29), coroa que marcou com sangue a sua fronte. O autor de Hebreus lembra que Jesus foi “coroado de glória e de honra (...) por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” ( Hb 2.9). Quando vier o Supremo Pastor, Deus promete que nós também “alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1Pe 5.4). Olho para o futuro glorioso do povo que Deus redimiu para si e adotou como filhos, e com João o apóstolo, olhamos “eis assentado sobre a nuvem um semelhante ao Filho do homem, que tinha sobre a sua cabeça uma coroa de ouro, e na sua mão uma foice aguda” (Ap 14.14). Paro para pensar, e regozijo-me na coroa – quero me esquecer da foice de ceifa que ele tem na mão! Mas todas as referências à glória do Rei Jesus, bem como da nossa identificação como seus filhos, estão ligados ao seu supremo sofrimento! A promessa é que em meio a essa identificação com o Servo Sofredor, “O Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém” (1Pe 5.10-11).

Sou Filha do Rei?

E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8.17-20).

Elizabeth Gomes

quarta-feira, abril 30, 2014

FRACO? QUEM? EU?


 
Velho é sempre quem tem, pelo menos, dez anos a mais do que eu. Sobre alguns deles, ouço do Dr. Shedd, do Pastor Reimer, do Dr. Schalkwijk, do Rev. Campos (o Álvaro, meu cunhado), dos meus primos todos, e invejo a experiência de vida e o vigor que eles exibem – mas também (ah!) regozijo-me na minha relativa mocidade! De outros nem comento, pois já foram revestidos de juventude eterna! Ouço também de irmãos e amigos – mais novos e, às vezes, mais maduros do que eu, que enfrentam lutas com doenças graves, como o Dr. Powlison, o Rev. Deaton (o John, meu genro), o Rev. Freitas (meu irmão amigo, Dídimo), o Presb. Portela, o Dr. Carlos Osvaldo Pinto, e tantos outros – e sinto que não deveria me pronunciar a respeito de pequenas fortes fraquezas que experimento. Ocorre que, recentemente, fui premiado com uma condição física, miastenia gravis (no que conto com a solidariedade da Maria Izabel), que me rouba a força física e que limita meu campo de ação. Não é nada tão grave, pois o gravis diz respeito à lei da gravidade, mas incomoda muito porque a debilidade do corpo passa uma ideia de fraqueza da alma. Às vezes, eu digo às minhas pernas, pleno de alma: “Mais rápido!”, mas tudo o que ouço de volta é: “besta!” Não obstante as voltas e contravoltas do tema, vai lá: estou terminando de escrever um livro, Personalidade centrada em Deus, e tratando das razões para o enfrentamento de fraquezas, escrevi:

Não poucas vezes, a Escritura nos ensina a louvar o poder de Deus em contraste com a fraqueza humana. O salmista louva ao Senhor e insta que não confiemos nos fracos “filhos dos homens”, mas que depositemos nossa esperança no Deus criador e redentor (cf. Salmos 146). O apóstolo Paulo diz que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Coríntios 1.25) e que Cristo “foi crucificado em fraqueza; contudo, vive pelo poder de Deus. Porque nós também somos fracos nele, mas viveremos, com ele, para vós outros pelo poder de Deus” (2Coríntinos 13.4); de fato, ele disse que se gloriava nas próprias fraquezas, não dele mesmo, mas na verdade, bastando-lhe a graça de Deus, “porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo”. Certamente, o apóstolo Paulo falava de fraquezas sem dolo, isto é, de espinhos na carne e de perseguições que lhe quebravam o orgulho e exaltavam a grandeza de Deus. Sobre fraquezas pecaminosas, ele disse: “Não vos louvo” (cf. 1Coríntios 11.2,17), e, em outro lugar recomenda que nos examinemos a nós mesmos, se estamos na fé, não apenas parecendo aprovados, mas realmente fazendo o bem “Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade” (cf. 2Coríntios 13.5-8). Em todos os casos, virtuosos ou viciosos, devem sempre prevalecer a glória e a graça de Deus – se houver virtude louvado seja o único Autor de todo o bem e (Tiago 1.17,18; Filemom 1.6) e, se houver pecado, louvado seja o único Autor da nossa redenção que nos concede todas as bênçãos para o arrependimento e para o livramento das paixões que há no mundo a fim de que participemos de sua santidade (cf. Romanos 4.6; 2Pedro 1.4). A conclusão a somos levados, nessa linha de pensamento, é que este padrão de “obras mortas” abre portas para o aperfeiçoamento de nosso caráter, como disse o apóstolo Pedro: “Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém!” (1Pedro 5.10-1).

Se eu digo à minha fraqueza: “Animo!”, ouço de volta um forte: “besta!” Quando, porém, digo aminha alma: “suspira e desfalece pelos átrios do Senhor”, então, “o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo” (Salmo 84.2)!

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, abril 22, 2014

JÓIAS, BIJOUTERIAS E TESOURO ETERNO

Esta semana uma amiga me mandou uma caixa de tesouro – certamente seu conteúdo não qualificaria como as jóias da coroa nem mesmo seriam classificadas de jóias preciosas, mas foi um daqueles presentes surpresa que indicam carinho, trabalho artesanal, investimento de tempo e algum dinheiro, e amor à arte, beleza e criatividade próprias dos filhos de Deus e irmãos na fé. Sou privilegiada por ter algumas irmãs que se caracterizam por essas qualidades, e pelo menos quatro delas periodicamente me presenteiam com o fruto de suas hábeis mãos. Essas artesãs foram treinadas em outras áreas: minha presenteadora atual é formada em letras e trabalha com livros, outra é arquiteta de grandes projetos, mas está sempre criando pequenas bijuterias que multiplicam a alegria das suas amigas; uma é formada em artes plásticas; suas criações do Rio, São Paulo e Brasília estão pelo Brasil e mundo afora, enquanto outra (bancária aposentada antropóloga, psicóloga e cantora encantadora!) certa vez dividiu comigo os enfeites de alguns anos de presentes.

Acho que minha apreciação de bijuteria começou quando eu contava uns seis anos e minha tia Cynthia confeccionou coroas de rainha para minha irmã Kitty e para mim, a partir de “jóias” quebradas e brincos dispares, vasculhando ainda um velho baú de roupas de bailarina que tinham sido dela e de suas irmãs (uma das quais minha mãe!) quando elas eram meninas. Temos uma foto daquele dia de faz de conta em que a artista plástica formada pelo Pratt Institute transformou suas sobrinhas vindas do Brasil em ricas princesas e fadas mágicas dos contos de Anderson e Grimm.

Alguns anos atrás, trabalhei como secretária de uma pessoa em cujo escritório ficava o estoque de um comprador de espólios e heranças, e tive oportunidade de comprar “a preço de custo” diversas sacolas de materiais para confecção de colares e enfeites artesanais. Por três anos seguidos, fiz meu dinheiro de “alfinetes” com a venda de colares que eu confeccionava, e meu presente coringa para mãe, irmã, parentes e amigas, natal e aniversários todos, era tosca obra de minhas mãos.

Quando fizemos quarenta anos de casados, Lau deu-me um conjunto de brincos e colar de rubi. Três anos antes, ele dera um conjunto semelhante de água-marinha. Meu anel de pérola foi um presente dado quando decidimos nos casar, e os brincos que o acompanhavam, vieram quando nosso primeiro filho nasceu. Eu tinha umas duas pulseiras e brincos-argolas de ouro e algumas peças preciosas herdadas da sogra, da mãe e da avó (um anel de opala e brilhantes era especialmente belo), mas jamais podia ser considerada rica em jóias. A advertência de Jesus em Mateus 6.19 não tinha muito significado para mim, pois não podia dizer que acumulasse tesouros na terra – até que um dia um ladrão entrou em nosso sítio e saqueou nosso closet, levando algumas armas dos homens defensores de nosso pedaço de chão, as poucas jóias que eu possuía, e as variegadas bijuterias que acumulara com o passar dos anos. Dias depois, ainda encontrava uma trilha de brincos de plástico e colares insignificantes no caminho que ele fez ao fugir.

Certa vez, escrevi um artigo para uma revista da Assembléia de Deus e, conforme pediram, mandei-lhes minha foto. A editora atenciosamente pediu permissão para eliminar, no photoshop, meu colar e brincos da fotografia “para não causar escândalo para o irmãozinhos que tenham usos e costumes mais rígidos”. Claro! Tirar os brincos e colar da foto não tem nada demais. Quando, anos antes, pertencia a uma igreja que exigia eliminar maquiagem, jóias, calça comprida e saia curta da vida da moça cristã, eu aderi sem titubear à cara lavada e enfeites vetados de minhas irmãs. 

Esta semana, estive traduzindo um livro de devocionais de D. Martyn Lloyd-Jones, em que algumas leituras tratam dos enfeites dos israelitas. O ato de “despojar os egípcios”, que o povo de Deus assumiu ao deixar o cativeiro e seguir pelo deserto até a Terra Prometida, teve seu valor. Muitos dos artefatos do Tabernáculo foram forjados do ouro e pedras preciosas provenientes dos egípcios. A começar com os patriarcas, a riqueza era contada por rebanhos e minérios (Abraão era muito rico em gado, prata e ouro – Gn 12.2), a nação escolhida de Deus, até os dias atuais, tornou-se hábil no manejo e comércio de jóias, especialmente por concentrar grandes valores em pequenos objetos – o que, em tempos de exílio e perseguição por pogroms, holocaustos e restrições racistas, fez com que tivessem com o que sobreviver, mudar de localidade e restabelecer suas vidas dilaceradas. Um pequeno diamante pode valer mais que uma ampla casa, e são muitas as histórias de vidas salvas mediante o uso sensato desses bens. A entrega dos adereços e jóias para prover para a casa do Senhor é histórica (Êx 35.22-36.5) e repetido – a ponto de proibir mais doações, de tantas riquezas coligidas. Também se repetem simulacros históricos (“ouro para o bem do Brasil”, por exemplo, onde muitos deram até seus próprios anéis e alianças sem ver resultados permanentes). Voltando ao despojo dos egípcios, alguns conselheiros e professores cristãos usam a válida metáfora para falar da necessidade do cristão utilizar os recursos que obtém do mundo para fins bíblicos. A própria família do Deus encarnado usufruiu os tesouros de mirra, incenso e ouro (presentes dados pelos magos ao Profeta, Sacerdote e Rei). Jesus frequentemente usou metáforas ligadas a jóias (por exemplo, a pérola de grande preço, que é o reino dos céus, de Mt 13.45,46).

Os próprios bens que os israelitas tomaram, aproveitaram, investiram e usaram, entretanto, também podem ser e foram usados para a formação de ídolos (Êx 32.2-5). Enquanto Moisés tardava em descer do Monte Sinai, Arão convocou o povo para contribuir ouro para confeccionar o bezerro e atribuir aos ídolos a libertação do povo – “São estes, ó Israel, os teus deuses que te tiraram do Egito!” Um dos mais graves problemas do evangelho da prosperidade é atribuir às coisas, aos bens, aos tesouros que Deus outorga por sua bondade, a própria salvação. “Vim para a Igreja X e, agora, sou empresário bem sucedido, tenho carro do ano, casa, etc.” “Dou o dízimo em primeiro lugar e Deus faz isto, aquilo e mais aquilo outro por mim – sou abençoado porque sou bom”! Isto é idolatria tão crassa quanto a que Arão, sacerdote escolhido por Deus e portavoz da redenção do povo de Israel, incitou o povo a fazer. Além de atribuir a esses ídolos o que só Deus faz, usam a estapafúrdia de justificativas que sequer enganam a si mesmos. Arão “explicou” a Moisés: “Então, eu lhes disse: quem tem ouro, tire-o. Deram-mo; e eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro.” Mágica. Milagre. Busca de dons e rejeição do Doador Supremo.

Lembro-me de uma mãe que trabalhava como faxineira, dizendo ter assumido outro emprego durante a noite “para poder comprar um anel de brilhante de presente de quinze anos para minha filha”. Estava adorando um bezerro de ouro, e privando a filha de educá-la na justiça, verdade e bondade que vem de valores eternos em vez de valorizar um anel de brilhante a ponto de sacrificar a sua presença junto à filha e a saúde de seu corpo (bem como a saúde mental e emocional da menina mimada).

Especialmente depois de ver nosso quarto invadido e minhas coisas todas espalhadas – desde roupas velhas até bijuterias sem valor passando a jóias insubstituíveis – tenho ficado mais cônscia de que o acúmulo de coisas é pura vaidade. Claro que ainda gosto de estar apresentável, vestir-me adequadamente, e de usar enfeites que ressaltam a cor, o corte e a textura do que visto. Faz-me bem, lembrar do adágio de Tia Maria Fraga, falando às moças do Seminário Bíblico Palavra da Vida: “Seja simples e sensata. Se estiver bem calçada e com as mãos em ordem, sempre estará elegante”. Ela não propunha um acúmulo de sapatos – apenas “bem calçada” (não posso deixar de pensar em “Calçar os pés com a preparação do evangelho da paz” (Ef 6.15). Não eram mãos cheias de anéis e unhas trabalhadas por manicure – era mais o ser limpo de mãos e puro de coração (Salmo 24.4). Uso com prazer as bijuterias que minhas amigas deram para substituir o que foi roubado, e hoje estou perto da situação de Moisés, dizendo ao povo para deixar de contribuir, pois já era demais.

Lembro de um colar feito por indígenas de Roraima, dado por minha amiga Edith que já é missionária ali desde que nos formamos há 46 anos. Sempre que o usava, lembrava de orar por missões em tribos nativas. Aprecio a engenhosidade de pessoas que pegam capim dourado e o transformam em pulseira, brincos e outros enfeites com a leveza da erva que seca e o peso da promessa (perdi o par do brinco, mas tenho a pulseira; ainda vou comprar outro brinco de capim porque me lembra: “Seca-se a erva, cai a sua flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre” – Is 40.8). Tenho alguns enfeites de crochê e tricô que lembram mãos hábeis que os fizeram. Acumulei muitos lenços coloridos e esbanjo seu uso. Mas tenho sempre em mente a advertência de Pedro que meu adorno principal jamais seja o que é externo, mas o “homem interior do coração” – e isto vale para mulheres e homens, jovens, velhos e crianças em Cristo. 

Quando me casei, o vestido era emprestado (de uma filha de dois dos meus professores); os sapatos e as luvas, emprestadas de Déia, (filha da mencionada Tia Maria). Nada era meu senão o amor vindo de Deus e experimentado no amor fraterno. Na verdade, havia algo de pertencimento e de propriedade: no Senhor, somos chamados sacerdotes (como outra vez Pedro me lembra), raça eleita, sacerdócio santo, povo de propriedade exclusiva de Deus. E ele mesmo promete que “comereis as riquezas das nações e na sua glória vos gloriareis (...) a minha alma se alegra no meu Deus; porque me cobriu de vestes de salvação e me envolveu com o manto de justiça (...) como noiva que se enfeita com as suas jóias (...) o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor perante todas as nações (Is 61.6-11). Especialmente, como parte da Noiva do Senhor, vou bem trajada de brancas vestes para o banquete de bodas: Alegremo-nos (...) pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos (Ap 19.7 e 8).
 
Elizabeth Gomes

quinta-feira, abril 10, 2014

ACORDANDO PARA UMA SOLUÇÃO



 
Uma menina de onze anos acompanhou seu pai em visita pastoral à Santa Casa de Misericórdia de Goiânia, e mudou para sempre a vida de muita gente. Eu sabia que minha amiga Carol Ewing tinha duas irmãs adotadas, mas não conhecia a história, que ouvi semana passada pelo facebook, sobre como aconteceu há 57 anos.

Nina relata que, ao sair do hospital, seu pai viu um menino de uns dez anos com grande curativo no joelho, mancando, e seu pai ofereceu carona ao garoto. Chegando ao local, Nina e o pastor José Woody viram que essa família (pai, quatro crianças pequenas e minúsculas gêmeas, bebezinhos) moravam em casebre de pau a pique com alguns blocos de cimento, e cozinhavam sobre dois tijolos no chão de barro. A mãe morrera no parto e as gêmeas quase morriam de fome.

O missionário e a filha levaram comida a essa família em penúria (Nina acha que a Liga Juvenil ajudou a coletar alimentos) e a junta diaconal foi acionada, ajudando-os a mudar para uma casinha de adobe com telhado e porta. Um dia, quando Nina foi com seu pai para visitá-los, o viúvo estava à porta com as gêmeas nos braços e lágrimas nos olhos, e disse:

– Reverendo, leva essas meninas. Estão morrendo.

Nina levou as duas esquálidas meninas no colo, no carro, e foram direto para o hospital. Um médico as examinou, receitou medicamentos, e disse-lhes que não via muita esperança. Assim, eles as levaram para sua casa.
(O pobre pai e seus outros filhos, mais tarde, mudaram-se para a Fazenda Experimental, em que um presbítero arranjou-lhe emprego e escola para os filhos.)

Nina acha que sua família só cuidou delas por volta de uma semana. Da. Dina, sua mãe, tinha medo de deixá-las sozinhas porque estavam tão doentes que temia que morressem a qualquer instante.

Minha amiga Nina costumava visitar outra amiga americana, Carol Ewing, filha única, que uma vez lhe dissera que os pais queriam adotar uma filha, uma irmã para ela. Certa noite, enquanto as gêmeas estavam ainda na casa dos missionários Woody, Nina acordou às três da manhã com pensamento nítido: “Os Ewing adotarão essas menininhas." Acordou sua mãe e seu pai, e contou seu pensamento da madrugada. Nina lembra ouvir sua mãe dizer:

– Nina, não é tão simples assim.

A persistente Nina sabia que sua mãe estava acostumada com seus esquemas malucos. Contudo, no dia seguinte, sua mãe – relata Nina – foi visitar os Ewings,e... encurtando a longa história, eles adotaram as pequeninas, que hoje são Ruth e Betty, na casa dos 50 anos, irmãs de Carol Ewing McQuistan! Ambas retornaram ao Brazil para visitas anos atrás.

Descobri velhas amizades por meio das redes sociais, e a de Nina é uma das mais assíduas. Pensei em “blogar” sobre o rico tema bíblico de teologia e vida de adoção, assunto precioso que tenho visto na vida de amigos e parentes desde que me conheço por gente. Mas quando li a história contada por uma menina cristã que acompanhava e ajudava seus pais a viver aquilo em que cria, as lágrimas só pararam ao pensar em compartilhar com vocês. Só uma garota? É a maravilhosa, estrondosa misericórdia do Senhor dos Exércitos que entrou na nossa humanidade e pequenez. Obrigada Nina, Carol, Ruth e Betty, obrigada “dinossauros missionários do passado” – que aprendamos e os imitemos!
Elizabeth Gomes

sábado, março 08, 2014

MÚSICA PARA OUVIDOS, MENTE E CORAÇÃO
 
 
 
 

 

            Quando iniciamos o serviço cristão nos idos 1965, ainda no SBPV, Lau e eu decidimos jamais pedir ofertas aos outros e sustento para nosso ministério. Ficamos estarrecidos com os muitos colegas que diziam “de Ti somente o meu sustento virá” e dependiam de cartas missionárias, “trabalho de deputação”, telefonemas ou boletins estratégicos, campanhas para angariar fundos e “uma palavrinha com a igreja, ou com fulano de tal”. Não temos direito de julgar os outros, mas sabemos que este nunca seria nosso caminho. Em quase cinquenta anos de trabalho juntos, muitos dos quais, sem vínculo empregatício, Deus jamais nos desamparou, e nas ocasiões de abastança como também em tempos de “vacas magras”, tivemos em mente que quem nos sustenta é Deus -- e aprendemos a viver contentes em toda situação. Houve ocasião em que não sabíamos de onde viria a próxima refeição, como também a luxuosa oportunidade de viajar para Israel, ou mesmo para o norte e nordeste brasileiro, com regalias que amigos ricos não possuem.

            Pensei muito antes de postar nas redes sociais o pedido de informações sobre uma trompa para o neto Davi. Queria muito dar-lhe esse presente, cujo custo era maior do que aquilo que sempre compartilhamos com filhos e netos e estava acima de nosso orçamento. Não era para nós nem para nós esbanjarmos em nossos próprios prazeres. Fiquei tranquila por compartilhar com amigos, muitos dos quais músicos, outros de orçamentos restritos e igualmente dependentes de Deus, sabendo que talvez alguém pudesse dar alguma sugestão para realizar o sonho de um garoto que nasceu no carnaval de 2000 em um lar cristão que desde antes de sua existência desejava servir a Jesus com integridade e singeleza de coração.

            Todos os nossos netos são surpreendentemente maravilhosos e cada um deles é individual e singularmente especial – você que lê isso enxerga a inegável corujice de avó e pode até dizer: nem tanto assim – mas hoje dou apenas exemplo de um dos seis meninos (e uma menina) que crescem em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens.

Leitor voraz desde que alfabetizado, Davizinho ainda não tinha chegado ao segundo ano fundamental quando leu (e ficou impactado com) o livro Piloto das Selvas. Escreveu à Missão Asas de Socorro dizendo que queria ser piloto missionário quando crescesse. O representante da Missão foi extremamente gentil e escreveu-lhe uma carta de estímulo e apreço, que seus pais guardam até hoje. Davi foi sempre assim, trabalhando calado, sonhando e realizando com coração e cabeça igualmente cristãos. Em 2011 começou a estudar música num projeto de pequenos músicos de Mogi das Cruzes, ensaiando e se dedicando muito – mas sem instrumento próprio, só nas aulas. Estivemos com ele em Campos de Jordão no festival de Música de Inverno em 2013, e encantado com o que viu e ouviu, ele disse a um maestro: Espero que daqui um tempo eu venha aqui como músico. O Sr. vai ver... E nos falou que qualquer que seja sua profissão futura, ele quer também ser músico.

Ao mesmo tempo, em casa sempre estava tocando flauta doce e gaita. “Tirava” durante a semana os hinos e cânticos que cantávamos na igreja aos domingos. Sonha em tocar na igreja. Surgiu a oportunidade de tocar na banda municipal – mas só para quem possui seu próprio instrumento.

Pesquisamos e descobrimos que existiam instrumentos usados com preço desde R$990 até novos profissionais de R$ 22,000,00. Mesmo os instrumentos que estavam por volta de mil estavam acima das posses dele, de seus pais pastor e missionários, e de seus avós também pastor e missionária.

Quando coloquei na rede, fiquei enternecida pela reação dos faceamigos de todo o Brasil. Uma amiga de Curitiba comunicou com o filho em Belo Horizonte para que o professor de música dos seus filhos indicasse o que fazer. Amigos de Brasília e de São Paulo postaram em seus próprios sites e vários indicaram que além de orar, estariam contribuindo um pouco para tornar em realidade o sonho do Davi. Um amigo de João Pessoa escreveu: “quero ajudar nessa compra, mas procure em Mogi um instrumento novo”. Um pastor amigo no Rio de Janeiro indicou outro amigo instrumentista e luthier, e entramos em contato para considerar a possibilidade de comprar ali e mandar de longe. Encontramos em Mogi das Cruzes a trompa que Deus nos indicou – novinha, belíssima, em estojo perfeito, de um músico cristão para outro jovem músico cristão. Davizinho lembrou do shofar de seu tio Davi, e ganhou de aniversário um livro que queria, uma vara de pescar, facão e apetrechos, e... uma trompa cujo som doce e forte, de sonido certeiro, lembra sempre a bondade de Jesus Cristo a quem, nós jovens, velhos e crianças, servimos.

Elizabeth Gomes

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

ACABOU




Outro dia um irmão em Cristo colocou uma fotografia dele com dois filhos e uma mensagem profundamente dolorosa e sucinta: “O casamento acabou. Estamos muito tristes”. Confesso que me choquei e lágrimas brotaram em meus olhos apesar de não conhecer bem a pessoa nem as circunstâncias daquele que transmitiu a nova.

Muitas vezes, as redes sociais são utilizadas para dar notícias de viagens, promoções, doenças, felicitações por noivados, casamentos, nascimentos e até a perda de entes queridos pela morte, e alguns usam o facebook para zoar das idéias ou atividades de outras pessoas, mas eu nunca tinha visto uma mensagem tão esmagadoramente triste quanto essa – ainda que soubesse particularmente de alguns relacionamentos estremecidos ou desfeitos entre amigos, até mesmo amigos que fazem parte, ambos os lados, de nosso círculo de conhecidos. Lembrei do hino que menciona “Quantos que corriam bem de ti longe agora vão! Outros seguem, mas, também, sem fervor vivendo estão” quando lembro de colegas do tempo de seminário, ou membros de igrejas em que eu participei, que mudaram radicalmente seu status, sua situação. Alguns pastores colegas de meu marido deixaram totalmente tudo o que pregavam, enquanto outros foram deixando espinhos crescer em sua vida de forma a abafar sua dedicação e distorcer sua confissão de fé. No casamento é especialmente dolorido observar essas mudanças em nossos amigos que começaram juntos a jornada. Menciono casamento junto a questões de fé crença e confiança porque no fim, o que se crê e a vida que se vive, tem tudo a ver um com o outro. No caso de lares desfeitos, geralmente o esfriamento da fé e o distanciamento das pessoas no relacionamento são consequentes e subsequentes.

Tenho algumas amigas (e um ou outro amigo) cujo fim do casamento se deu por morte – e é claro que nesses casos o desfecho não foi desejado, nem resultado de algum distanciamento de Deus. Outras pessoas continuaram fiéis ao Senhor Jesus, e seus ex-cônjuges continuam bem vivos, mas seus matrimônios foram estremecidos pelo pecado da outra pessoa. Mulheres e homens que continuam amando e servindo a Deus tiveram a dor da traição, da rejeição – algumas até mesmo da violência – a dominar suas vidas. Houve separação legítima ou ilegítima, e suas vidas jamais foram as mesmas que antes.

Quando Lau e eu nos alegramos pelo fato de que nosso amor já dure a quase cinquenta anos, não o fazemos por orgulho. Não merecemos as bênçãos que recebemos em nossa vida a dois. Não fosse a misericórdia do Senhor, só teríamos trapos e trapaças no currículo. Só estamos de pé pela graça de Deus – a mesma graça que mantém alguns de nossos amigos em pé quando suas vidas familiares e conjugais há muito desmoronaram. Assim, os comentários que faço nesta postagem não resultam de alguma suposta santidade, habilidade, mérito ou capacidade de jogo de corpo. Muitas foram as vezes em que nós vacilamos, duvidamos, pecamos mesmo contra o Senhor e nisso, um contra o outro. Mas Deus nos sustentou – e fortaleceu a fé nele, junto com o amor um pelo outro. Portanto, não veja esse comentário como proveniente de alguém que chegou lá, que tem todas as respostas, que vive de vitória em vitória. Ainda não chegamos. Não temos todas as respostas. Convivemos também com derrotas que nos abalam.

O coração, contudo, condói-se por amigos de muito tempo, com quem já comemos muitos quilos de sal, cujo saldo esteja sempre negativo quando consideram o casamento, ou a vida dos filhos, ou os relacionamentos na igreja, ou ainda pior, o relacionamento com Deus.

Não são apenas os casamentos desfeitos que preocupam. Há muitos entre o povo de Deus que se acomodaram a casamentos carregados de tédio, mediocridade e mesmice. Perderam o élan da vida a dois, e vivem lado a lado, cada qual em seu canto independente, carente e solitário – do mesmo jeito que persistem em sua vida com Deus. As palavras de Deus em Gênesis: “não é bom que o ser humano esteja só – farei uma ajudadora idônea” são um diagnóstico como também a solução. E lembro do que Davi disse sobre quem é ajudador para quem não tem ninguém a quem recorrer: “Eis que Deus é meu ajudador, o Senhor é quem me sustenta a vida”  (Sl 54.4).

Um “acabou” pode dar lugar a um “acabamento” em que crescimento e aperfeiçoamento são presentes e atuantes – quando entregamos ao Criador de nossa vida nosso passado ferido, nosso presente questionado, e nosso futuro, de incerto para acerto! Ele efetua em nós o querer, como também o realizar, segundo sua soberana vontade!
Elizabeth Gomes

quinta-feira, janeiro 23, 2014

AMOR DÓI, MAS DÁ UM BEIJINHO QUE PASSA




Amigos são benefícios do Senhor – além de tudo o que se pode contar. Somam forças, multiplicam afetos, dividem alegrias e sofrimentos e, de sobra, dá gosto de ver o resultado. Amigos como esses têm valor (Provérbios 27.10); são como óleo e perfume para o coração e seus conselhos são doces (Pv 27.9) e, até mesmo, o seu olhar nos faz bem (Pv 15.30). Quando preciso, desafiam-nos como o ferro afia o ferro – e isso dói, mas, até aí, é ferida de amor (Pv 27.5-6). Eles estão aí a todo tempo (Pv 17.17), na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença (cf. Pv 19.4). 

Na aritmética bíblica, no entanto, o “homem que tem muitos amigos sai perdendo”, valendo mais os poucos amigos (e eles existem!) quando são mais chegados “do que um irmão” (Pv 18.24). 

O modelo perfeito desse tipo de amigo é o Senhor Jesus Cristo, que disse:

Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer (João 15.13-15). 


Neste mundo, tem amigo de todo tipo. De amigos de casa, têm de sala e de cozinha. Tem amigo da casa ao lado, amigo de “bom dia” e de “como vai?”, com ou sem intenção de resposta. E tem Amigo da Onça. Lembra dessa criação de Péricles, inspirada na piada?

“Dois caçadores conversam:
- O que você faria se uma onça aparecesse?
- Ora, dava um tiro nela.
- Mas se não tivesse nenhuma arma?
- Então eu usava meu facão.
- E se estivesse sem facão?
- Subiria na árvore mais próxima!
- E se não tivesse nenhuma árvore?
- Sairia correndo.
- E se você estivesse paralisado?
Então o outro retruca:
- Mas você é meu amigo ou amigo da onça?”


Amigos, muitas vezes, doem. Uns doem dor como de parto e dão à luz a misericórdia (cf. Hebreus 2.17-18). Outros há que doem como piruá na cava do dente. De fato, alguns se sentem íntimos somente quando criticam, e conseguem pegar no nervo do dente. Há outros que nem é bom lembrar. Quando estamos em pé, apoiam-se nos nossos ombros, mas, se tropeçamos, alegram-se e se reúnem contra nós (Sl 35.14-15). Assim, para não incorrer no pecado da ira ou da amargura, talvez, melhor, será trazer o sentimento mencionado na Bíblia: “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Salmos 41.9) e “Com efeito, não é inimigo que me afronta; se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta contra mim, pois dele eu me esconderia; mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo” (Sl 55.12-13).


Em relação aos primeiros, não resta dúvida: havemos de ter o mesmo ânimo, ser compadecidos, ser amigos fraternos, com toda misericórdia e humildade; retribuir sempre o mal com o bem, e ter sempre uma palavra de bendição, para estes e destes para os outros (1 Pedro 3.8-11). O que fazer, porém, com os amigos da onça? 

Ora, se o Senhor mandou amar os inimigos, por que não amar também aos que são mais amigos do bicho? Ele, o perfeito Amigo, sabendo que seus inimigos o afligiriam com acusações maldosas, que os seus amigos o abandonariam, que um seu amigo o negaria, ainda assim e sobre tudo, “sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (João 13.1).


Esse tipo de amor é extremamente libertador. Um dia, procurado por alguns homens com respeito a dificuldades na relação com um pastor, respondi que o certo seria amá-lo e honrá-lo, a que ouvi: “Mas eu não gosto dele”. “Amar não é gostar (se bem que o amor acaba produzindo esse gosto)”, respondi; “amar é fazer o bem.” 

Uma jovem que havia sido abusada pelo pai, declarou: “Nem quero pensar sobre ele”. A cada manhã e a cada passo, porém, ela nutria na boca e na alma o gosto ruim de fel e ferro, perpetuando uma escravidão amarga. “Sabe”, falei, “Deus quer que você ame e honre a seu pai. Dado que ele é um abusador, Deus não requer que você tenha prazer em sua presença nem fique perto dele. Mas amar e honrar, isto é, fazer-lhe o bem e não maldizê-lo, é algo de que você precisa, a fim de experimentar a libertação que há na obra de Cristo". 


O amor à semelhança do Perfeito Amor, Jesus, pela graça mediante a fé, apega-se à verdade e confessa toda injustiça e, porque tudo crê, tudo perdoa (cf. 1 Coríntios 13.6, 7). Sei que para nós, que ainda vivemos em nossa carne decaída, esse tipo de amor parece nos quebrar os dentes e estraçalhar o coração. Parece reviver a dor que mais desejamos evitar. Não é assim, porém, antes, o exercício desse amor restaura a alma.

A despeito de toda a ânsia quase incontida de sermos amados – alvo impossível de ser sempre atingido e mantido – no fundo no fundo o de que precisamos é amar. Deus nos criou em seu amor, para amá-lo sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, e, se não tivermos seu amor para dar, jamais seremos satisfeitos.

O coração deseja amar o amigo, o pai, o colega. Quando, porém, não somos correspondidos nesses afetos, vingamo-nos, negando-lhe o nosso amor. “Você não gosta de mim? Eu não gosto de você primeiro!” O amor de Cristo, porém, ama primeiro, a despeito e antes de tudo. Certamente, muitas vezes, pecaremos tanto por não amar quanto por sofrermos ao não ser amados. Nessas horas e situações é que a lição do apóstolo Paulo, pelo Espírito Santo, vem em nosso socorro: “Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma. Se mais vos amo, serei menos amado?” Ou, como diz outra versão, “ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Coríntios 12:15). 

Essa é a aplicação da grande verdade do amor do Pai: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8). Afinal, não é essa a nossa vocação: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro” (Romanos 8.35-36).  


Wadislau Martins Gomes

DE LEIS E LEGALISMO

 

Talvez um dia necessite dos serviços de um; tenho amigos e amigas advogados, e admiro os que abraçam essa ingrata profissão com cristianismo e autenticidade, mas aqui não falo de jurisprudência, nem mesmo de prudência de juízo. Estou me referindo àquelas coloridas guirlandas de flores tradicionalmente oferecidas pelos habitantes do Havaí aos que chegam de longe: leis. Anos atrás, quando o quinquagésimo Estado dos Estados Unidos foi acrescentado, as leis estavam em alta, assim como foram acrescentados ao nosso vocabulário doces e perfumadas palavras hula e luau. Lembravam as guirlandas que, pouco mais tarde, enfeitariam as cabeças das flower children. E eu, sintonizada ao vocabulário bíblico desde a infância, lembrava de Provérbios:Não te desamparem a benignidade e a fidelidade; ata-as ao pescoço; escreve-as na tábua do teu coração e acharás graça e boa compreensão diante de Deus e dos homens” (Pv 3.3-4). O presentear das leis e do ensino não seriam apenas oferecidos de maneira graciosa, como também deveria ser lavrado de forma permanente (nas tábuas do coração) para que se encontrasse graça e boa compreensão diante de Deus e dos homens (aquilo que Lucas descreveu como característica do menino Jesus (Lc 2.40).

Aqui, faço trocadilho com a lei de Deus e leis dos homens, e as leis, os colares de flores com que se premiam aqueles que possuem benignidade e fidelidade como modus vivendi. Reflito sobre o que comunicamos ao próximo—aos familiares, aos colegas de labutas e de lazer, de ministério ou magistério ou cemitério, aos irmãos na fé e aos ermanos de fé com quem nos irritamos ou discordamos. A esses, quer os chamemos de primos quer demos toda gama de nomes zombeteiros, simpáticos, antipáticos ou apáticos—acabamos comunicando que nos consideramos melhores do que eles, ou mais inteligentes, ou mais espirituais, ou menos xiitas, ou mais humanizados, ou menos preconceituosos—qualquer coisa mais ou menos). Confesso que no desejo de comunicar com exatidão, eu também tenho a tendência de aplicar rótulos a tudo e todos em vez de oferecer leis de graça e beleza.

Fui criada de maneira legalista, apesar de conviver com pessoas que eram pródigas do amor de Cristo e tiravam a própria camisa para dar a quem carecia de vestes e comida de nossa mesa a quem tinha fome. Meus pais dariam a vida para ver pessoas salvas e seguras em Cristo. Nenhum esforço era poupado. Muitas vezes, vi em casa a atitude do apóstolo Paulo de “me gastarei e ainda me deixarei gastar” em prol das almas, não só dos antigos pastores, missionários, evangelistas e professores, como também imitado por crianças, jovens, mulheres e homens maduros, bem como idosos. Mas, como muitas vezes eu mesmo já fiz e ainda faço, ai de quem me perturba o sono por bobagem, ou incomoda minhas horas de folga ou meu espaço particular! Especialmente quando eles estão errados! Essa questão de rótulos, por exemplo. Tenho por certo que Romanos 12.3 deveria nortear a vida dos filhos de Deus: “... não pense de si mesmo além do que convém, antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um”.
                Tive uma educação cristã presbiteriana tradicional até os doze anos de idade, quando passei com minha família para uma igreja batista renovada cheia do espírito de incontáveis “usos e costumes” e severas críticas à “geladeira morta” da qual havíamos saído. Aos treze anos, eu desejava mais de Cristo, maior espiritualidade, maior poder, e, em Porto Alegre, lembro-me de ter perguntado a um pastor conferencista como eu poderia ter o dom de línguas, já que eu lera tudo e dera todos os passos necessários. Ele disse para eu simplesmente abrir a boca e balbuciar “de início, sons e palavras sem sentido, mas repeti-las em oração até que o Espírito ponha em sua boca as suas palavras e você receba o dom”!
Na mesma época, comecei a frequentar o acampamento Palavra da Vida e buscar um crescimento espiritual baseado na Palavra de Deus. Em 1965 fui da primeira turma do Instituto Bíblico Palavra da Vida, onde ainda jovem, aprendi a examinar e manejar bem as Escrituras, aquecer o coração com evangelismo e missões, e adquiri uma visão fortemente dispensacionalista da história da igreja. Indo aos Estados Unidos por um ano e meio, frequentei Southeastern Bible College que tinha basicamente a mesma posição doutrinária que Palavra da Vida—mas em Birmingham, Alabama de 1965-66, fiquei chocada pela maneira como o preconceito racial e a total falta de amor cristão para com os que “não são dos nossos” convivia e dominava o “cinturão bíblico”. Voltei ao Brasil e à escola que deu rumo bíblico à minha fé, ao amor da minha vida que sempre me pastoreou com visão e entrega, e casando, continuei estudando e me preparando (e gestando o primeiro filho) enquanto levantávamos sustento e antevíamos um ministério de ensino e evangelismo.
Os primeiros anos de missionária eram regados igualmente pelo desejo de mãezinha e dona de casa, cantando e contando histórias de vida apesar de minha própria vida ainda ser tão jovem. Estabilidade e mudanças se alternavam; fomos a São Paulo, passamos a integrar o quadro de missionários da própria escola da qual nos formamos. Eu assumia os papéis que me eram impostos: esposa de pastor, mãe de crianças pequenas e muito ativas, sempre disposta a dar aulas, cantar, falar, servir – trabalhava sem cessar e estava sempre cansada. Enfim, na trajetória doutrinária, aprendi com meu marido e professor a ver com olhos reformados e assumi uma cosmovisão que parece vir de encontro aos anseios de piedade bíblica.
Mas não comecei este artigo querendo relatar uma biografia pessoal. Comecei comentando a dádiva de leis-guirlandas, para então compará-las com o legalismo que atravanca tanto a vida dos cristãos que conheço. Nós conhecemos a Verdade e esta nos libertou, mas nada disso vem de nosso mérito—é tudo pela graça, de graça e para o louvor da glória de Jesus. Podemos ter origens até mesmo farisaicas (como Saulo de Tarso, acusador do primeiro mártir da era cristã, cf. At 7). Mas não precisamos ter atitudes de quem é dono da verdade—temos de conduzir-nos como servos, como Cristo, que aturou perguntas tolas e lavou os pés poeirentos dos discípulos, despindo-se como um escravo. Aquele que se despiu da glória de sua divindade para assumir carne e osso da humanidade, sem deixar de ser Deus Conosco, tornou-se Cristo em Vós.
Tenho amigos gloriosos e impactantes no cenário cristão atual, alguns famosos, embora nem todos sejam conhecidos e admirados publicamente. Aquela irmã humilde que ora incessantemente pelos filhos e pelo Reino carrega o mesmo peso de glória que o querido Billy Graham que pregou a tantos milhares e hoje espera apenas ser promovido com “muito bem, servo bom e fiel”. O jovem crente que venceu o maligno e vive em humildade testemunhando em seu local de trabalho e entre amigos, a ocupada mulher cristã de carreira que cuida sozinha de seus filhos e de seus pais idosos e ainda sonha com um companheiro, o casal de pastor-mestre e esposa ajudadora que enfrentam a infertilidade pessoal enquanto diariamente ganhem pessoas para Cristo, o já-avô-mas-ainda-não-aposentado que vive o “já mas ainda não” da vida cristã em todos os seus níveis—todos, e cada um de nós, temos uma leve e momentânea tribulação a enfrentar. Como é que queremos fazer comparações, designar rótulos, dar notas de mérito ou desmerecimento uns aos outros? Ora, as coisas que se vêem são temporais—vamos para o que importa: o que é eterno. Existe apenas uma coisa que deve nos constranger, nos perturbar, nos diferenciar, enquanto ao mesmo tempo nos iguala: o amor de Cristo (2 Co 5.14).
Tenho uma amiga de face que oferece flores a cada dia, e hoje, ofereço a cada amigo, leis de flores coloridas e perfumadas. Não aprovo a incredulidade, ilegalidade e antinomianismo de alguns irmãos que querem solapar os fundamentos da fé. Mas desejo que o constrangedor amor de Cristo substitua nossos julgamentos tolos e nossos legalismos para que edifiquemos e cresçamos o Corpo bem-ajustado e consolidado!
Elizabeth Gomes