domingo, setembro 14, 2014

RESENHA: CORAÇÃO E SEXUALIDADE



Allen Ribeiro Porto
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 



Gomes, Wadislau Martins. Coração e sexualidade: entendendo Deus, a si mesmo e o outro. Brasília, DF: Refúgio, 1999. 108 p.
.:A Bíblia, o Jornal e a Caneta:. – Observando o mundo com as lentes das |Escrituras
http://allenporto.wordpress.com/2012/03/19/livros-bjc-coracao-e-sexualidade/
Livros BJC: Coração e sexualidade – Posted on march 19, 2012

Desde que comecei a ler materiais do CCEF, do tipo Paul Tripp e Ed Welch, tenho apreciado demais esta proposta de aconselhamento, bem como ficado surpreendido com a fidelidade à Escritura. O encanto com o “material de fora” é bom: Tripp, Welch, Lane, etc., são ótimos autores, e  as editoras que os publicam estão de parabéns. Mas há coisa do mesmo nível publicada originalmente em nossa língua, como esta obra do Rev. Wadislau Gomes.

O autor é um dos pastores da Igreja Presbiteriana Paulistana (IPP), e professor visitante do Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ). É doutor em ministério [pelo Reformed Theological Seminary (Jackson, Mississipi, EUA) e Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (S. Paulo)]. É também fundador do Ministério Refúgio, que trabalha na área de aconselhamento bíblico. Fico especialmente impressionado com sua escrita poética e criativa, demonstrada na obra em questão, e regularmente no seu blog, o Coramdeo Comentário.

O Rev. Wadislau usa um tema instigante para tratar um ainda mais profundo. O título pode enganar os desavisados – apenas um livro sobre sexo? Desde o início vem a resposta:

Este é um livro sobre a identidade humana. A sexualidade humana é uma forma de conhecer a unicidade e a pluralidade de Deus, a fim de refletir Sua imagem e semelhança. Sexualidade é mais que o ato sexual. É ser homem, ser mulher, descobrir a si mesmo com único e ao outro como igual na humanidade. É contemplar a Deus revelado na glória de sua graça e refleti-lo em fé até transbordar do seu amor. (p.7)

Mais do que sexo, o livro aborda uma interpretação do homem e suas nuances relacionais a partir do ponto de referência bíblico. Trata-se de uma ressignificação ou releitura do assunto, agora com novas lentes, que trabalham melhor as complexidades do tema e do ser humano sem cair nos reducionismos psicologizados.

O Rev. Wadislau usa a estrutura Trinitária para nos apresentar a questão do um e do múltiplo solucionada. As lutas com individualidade e pluralidade são resolvidas na percepção adequada de Deus e sua consequente ação no mundo. Deste modo é que o sexo é definido como “o relacionamento íntimo entre um homem e uma mulher casados cuja finalidade é unir as diferenças e recompensar o amor” (p.15).


Cada capítulo envolve exemplos e histórias criativamente delineadas para levantar discussões e apontar para uma resposta bíblica. Tal resposta entra em conflito direto com as propostas terapêuticas levantadas, pois, segundo o autor, a Escritura não pretende ser assim primeiramente, mas essencialmente redentiva – “promovendo não a solução dos problemas, mas o conhecimento de Deus que justifica e santifica com resultados de transformação e cura” (p.18).

Aqui repousa o desafio. Um casal em crise deseja um comprimido que resolva imediatamente o problema, enquanto é-nos apresentada uma proposta melhor do que “tapar os buracos criados pela chuva no asfalto”: um recapeamento completo, promovido em longo prazo e envolvendo o paciente e doloroso processo de retirar as imperfeições da pista.

O autor dialoga com quem pensou o homem e sua sexualidade. Nomes conhecidos como Freud, Rogers, Frankl e Skinner são mencionados, e têm suas propostas, ainda que brevemente, observadas e destacadas em seus acertos e erros. Uma boa surpresa é encontrar Herman Dooyeweerd, filósofo cristão holandês nesta obra, escrita em 1999. Isso indica que o Rev. Wadislau estava utilizando categorias do fundador do pensamento reformacional há bastante tempo.

Categorias importantes usadas por Gomes no material são as de perceber o homem como receptivamente criativo e ativamente redentivo, conceito [de Van Til] também utilizado na obra “aconselhamento redentivo”, de 2004.

Deus nos fez receptivamente criativos e ativamente redentivos a fim de que reconhecêssemos aquilo que há em comum em toda a natureza e, ao mesmo tempo, nos reconhecêssemos diferentes no relacionamento que temos em referência Ele e ao mundo. (Coração e sexualidade, p.28)

Somos criados receptivamente criativos (habitação) e ativamente redentivos (imaginação). A Escritura revela que nós experimentamos o mundo a partir das afeições do coração – fé, esperança e amor – e que essas afeições se expressam por meio da habitação no conhecimento, da imaginação desse mesmo conhecimento e da operação do conhecimento. Assim, a fé, que inclui crenças e valores, e a esperança, que inclui os modos formais para a solução de problemas, propõem-nos uma base paradigmática motivacional para os atos humanos.
Esse ponto de partida paradigmático nos oferece uma definição da experiência humana quanto à elaboração do conhecimento. A principal motivação dos seres humanos reside no coração com seus afetos em relação a Deus, quer sob sua graça quer sob sua ira. Assim, a imaginação, vista biblicamente, é holística, mola (como oposto a molecular), objetiva/subjetiva, genética/tácita e socialmente condicionada, cognitiva, volitiva e emocional. (Aconselhamento redentivo, p.117) 

A compreensão do homem, na perspectiva do autor, também passa pelas categorias de Criação, Queda e Redenção. Nesta seção do livro, conceitos como o de integração e individuação são apresentados e nos ajudam bastante na jornada. Compreender a integridade da criação, e a fragmentação gerada pela Queda histórica nos ajuda a lidar com as dificuldades individuais e relacionais. A Redenção é o que fornece esperança e graça para transformações verdadeiras e significativas. A obra completa de Jesus na cruz é uma janela na história que promove impactante virada.

O Pr. Wadislau descreve com profundidade e singular compreensão os movimentos do coração, e revela como perceber tal ponto fornece base para nosso trato com os indivíduos, casais e comunidades.

Somos caídos, e todos os nossos esforços para conseguir a individuação (integridade: integração ou unidade com o propósito de Deus, inteiração ou unidade interior, e interação ou unidade social) terminam em alienação da Fonte da vida, em desintegração interior, e em separação exterior (relacionamentos interpessoais). Não conseguimos explicar como amor e ira funcionam e vivemos vencidos pelas contradições do nosso comportamento. Queremos amar, entregar, olhar o outro primeiro, mas  sentimento de que alguma injustiça foi cometida (ira) nos assalta e vence. É a luta entre o amor que se entrega e o medo que protege a pessoa de se descaracterizar na entrega. (Coração e sexualidade, p.45).

Na vida sexual, os movimentos do coração se conturbam em busca de uma resposta. Ha o apelo do prazer físico, há a luta pelo poder, há o desejo de ser conhecido e amado, há a tendência para a entrega e o medo da descaracterização, todas essas coisas lutando dentro da pessoa e se reproduzindo em cada relacionamento. (p.49)

É aqui que os ídolos do coração aparecem, e promovem separação, em vez de integração/individuação. Aspecto importante do trabalho de Gomes, é destacar o amor como compromisso (p.51). Sua percepção foge dos lugares-comuns influenciados pela escola do romantismo, nos quais o amor é visto como um sentimento. Deste modo, é o compromisso que cria bons sentimentos, como descreve (eu diria que o amor e a graça alimentam os sentimentos, e acredito que o Rev. Wadislau concordaria com isso).

Outras questões são contempladas nesse processo de reflexão sobre a sexualidade e a identidade humana. O ensino bíblico sobre homossexualidade, questões genéticas, racismo, masturbação e a intimidade exagerada no namoro. Como lidar com os conflitos percebidos e os dilemas do coração humano? Um ponto básico é lançado: “a graça do Senhor é nossa fonte de prazer” (p.58). Gomes aplica, então, o quadro de referência da Criação-Queda-Redenção à leitura do problema, e com tais lentes observa e trata a questão.

Em lidar com “o outro”, Gomes fala do casamento e seu lugar no projeto Divino. Aqui há um extenso e interessante diálogo com Cornelius Van Til, pastor, teólogo e apologeta. O destaque central é a analogia da família com a Trindade, e do casamento com a relação entre Jesus e a Igreja. Três movimentos no contato com o outro são identificados: o de controlar, agradar e dominar, e um interessante diagrama facilita a compreensão do assunto, mas novamente a ênfase repousa sobre a redenção, e sobre a adoção como a resposta para o problema da luta de poder: “Na redenção dos relacionamentos, o casal vive a adoção, trazendo para o próprio coração o coração do outro; pondo na própria conta o débito um do outro e refrescando-lhe o coração. (p. 70)”

Finalmente, Gomes menciona o conceito de Teorreferência (à época, Teo-referência): “Na verdade, não há outra forma de compreender a existência senão que Deus existe, e nós somos seu reflexo. Somos análogos – Sua imagem e semelhança. Somos teo-referentes. (p.73)”, e usa Cantares e Efésios 6 para nos dar perspectivas de relacionamentos saudáveis, e aponta para Jesus e o evangelho como a fonte de satisfação e saúde individual e coletiva.

Esta ênfase nos movimentos e caminhos do coração demonstra uma apreciação mais completa do homem, por não observar apenas comportamentos e tentar transformar ambientes, mas lidar com os elementos mais íntimos do ser, e buscar uma transformação que não pode ser operada por homem algum.

Recomendo fortemente o livro a homens e mulheres em busca de uma masculinidade/feminilidade sadia, casais em direção ao casamento, casais casados, e líderes que de alguma forma se envolvem no aconselhamento.
 
Allen Porto

segunda-feira, setembro 08, 2014

BOA COMIDA




Estávamos de volta ao Brasil depois de quase sete anos nos Estados Unidos, e eu me alegrava com receber em casa os jovens da Igreja Presbiteriana Nacional, para o estudo bíblico. Chegando ao fim do estudo, notei certo desconforto—uns dois ou três chegaram a ir até a cozinha para “dar uma olhadinha”—mas não atinei com a razão. Só depois, em outra casa que recebia a turma para estudar a Bíblia, foi que entendi a inquietação que ocorrera lá em casa. A anfitriã tinha uma mesa farta de salgadinhos e refrigerantes para oferecer. Eu não oferecera nem um suquinho. Tinha cometido a gafe de não incluir comida na reunião. Muitos jovens vinham direto da escola ou do trabalho, e eu não fui sensível à expectativa de saciar a fome simultaneamente à ingestão da Palavra de Deus! Espero que eles tenham me perdoado (muitos deles são hoje profissionais bem sucedidos e pais de família que postam fotografias dos lindos filhos que crescem na Palavra) — eu ainda fico remoendo por que eu não preparara um bom lanche para aquela noite.

Na verdade, comida é assunto importante para todo mundo. Guerras são travadas e paz é proclamada com divisores alimentares. De a antiguidade, a comida tem influência sobre indivíduos e povos. Na Bíblia, começando com a atração de Eva pelo único fruto proibido em todo o jardim com a desculpa de que era boa para comer, deleite aos olhos e desejável para aumentar sua sabedoria – até o banquete a que estão convidados todos os salvos nas Bodas do Cordeiro descritas no Apocalipse – comida faz parte da vida de gentios, judeus e cristãos. Apesar de alguns gnósticos modernos afirmarem que se alimentam apenas de luz, nós seres humanos não podemos viver sem comida, e sua escassez ou fartura formam e deformam os indivíduos e as nações. Desde as tolas guerras de comida travadas por adolescentes nas mesas de acampamento até as insanas batalhas por fome de terras e bens travadas diante de acordos mal-fechados e tratados de paz desfeitos, a comida sempre faz parte da briga. Uma mãe preocupada leva o menino gorducho (subentende-se obeso) ao pediatra para indagar sobre a necessidade de uma re-educação alimentar; consagrados pais crentes ficam chocados ao saber que a filha de dezesseis anos quase morreu por anorexia nervosa; um pastor bem sucedido ouve a sentença: se não mudar seus alimentos, a diabetes e aterosclerose vão lhe matar!

Prever e apresentar uma solução prática à grande fome prestes a avassalar toda a terra tirou José do cárcere para a posição de governador do Egito, e essa mesma fome levou as setenta pessoas que formavam o povo de Canaã à fartura de Gósen, até que quatrocentos anos depois, voltassem a se libertar do cativeiro e rumassem novamente à Terra Prometida que mana leite e mel (Gênesis 40-50). Nos intricados quarenta anos que vaguearam pelo deserto (viagem que poderiam ter feito em duas semanas) toda uma geração morreu por causa da murmuração quanto à comida (ah! quem dera comer das cebolas, alhos e melões do Egito!) e contra a liderança de seu libertador  (Êxodo 12.37; Deuteronômio 34). Quando faltou comida, Deus proveu diariamente pão do céu (O que é isso?—Ma ná?—perguntaram) e churrasco de codornizes, e fez jorrar água viva da rocha seca.

Referindo-se ao maná, o poeta diz: “Comeu cada qual o pão dos anjos; enviou-lhes ele comida a fartar” (Sl 78.24-25).
 
Juntamente às leis de adorar somente a Deus e amar o próximo, detalhadamente escritas e implementadas, Deus deu leis a respeito de alimentos, o que é kosher e o que é treyfe, e grande parte da vida do povo de Deus se resumia no que comer ou sequer tocar. Até hoje, muitos judeus crêem que a vida se resume em guardar essas detalhadas leis dietéticas.

Poderíamos atravessar toda a Bíblia por meio das referências à comida. No cativeiro, Daniel e seus amigos príncipes hebreus aprenderam tudo da cultura pagã em que estavam forçosamente inseridos, e não se importaram de receber nomes babilônicos ou exercer cargos administrativos ou políticos sob domínio de imperadores pagãos. Mas pediram para manter uma alimentação judaica saudável e não ser forçados a comer as iguarias da terra dominante.

Jacó trapaçeou seu pai roubando a bênção do direito de primogenitura do irmão gêmeo Esaú, preparando um saboroso guisado de cabrito e lentilhas (Gênesis 27) em lugar da caça que Isaque pedira ao mais velho. O salmista fala do Senhor  e Grande Pastor de Israel como de quem “nada me faltará”, e depois de falar de pastos verdes e águas calmas menciona que “preparas uma mesa diante de mim na presença de meus inimigos”! Ele é quem dá alimento a toda carne, porque a sua misericórdia dura para sempre (Sl 136.25; 145.15-16). Não apenas alimenta a gente, como também as aves e os animais (ex. corvos—Jó 38.41—“Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus pintainhos gritam a Deus e andam vagueando, por não terem que comer?...”—Jesus no Sermão do Monte se referiu a isso, Mt 6.23-33, dizendo “Vosso pai sabe que precisais de todas essas coisas”).

Jesus deixou de comer para oferecer água viva à mulher samaritana, e quando interrogado pelos discípulos, disse: “minha comida consiste em fazer a vontade de meu Pai”, João 4.31-34. Multiplicou o lanche magro de um garoto para saciar a fome de mais de 5000 pessoas, sobrando ainda doze cestos cheios (Mt 14.14-22). Disse, ao que vai cumprir a missão do reino, para repartir o que tem (Lc 3.11) e ainda afirmou ser ele mesmo o pão da vida (Jo 6.27, 48-55) verdadeira comida. O seder celebrado por Jesus antes de sua prisão, tortura, morte e ressurreição tratava de comida e expandiu a idéia além de matzo e vinho e cordeiro compartilhado (MT 26.17-23, Mc 14.12-25, Lc 22.7-20, 1Co 11.17-34). Depois de sofrer risco de morte e naufrágio no mar Adriático, Paulo imitou o Senhor tomando um pão, deu graças a Deus na presença de todos e, depois de o partir, começou a comer (At 27.35-38).

Os apóstolos falavam a seus discípulos sobre comida sacrificada a ídolos (1Co 8.4,9,13), pessoas que julgavam as outras por hábitos alimentares diferentes das delas (Cl 2.16-17, 23; Rm 14.15-1); diferentes alimentos para estágios diferentes da vida (leite para infantes, 1Pe 2.2-3, Hb 5.12-14, grãos, carne, frutos e verduras para os que podem digeri-los) com a ressalva de que 1) comida não é tudo na vida: “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” e 2) Deus é quem “dá semente ao que semeia e pão para alimento e também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos”.

Há alguns anos tenho um projeto que ainda não consegui realizar: escrever um livro de receitas de comidas criadas e provadas da cozinha de Refúgio. Não quero fazer apenas um compêndio de boas dicas, mas entremear as receitas com histórias que nutram o coração das pessoas enquanto preparam comida que sacie a fome. Tenho observado gente do mundo todo que dá receitas criativas sobre culinária, desde as mais simples até as mais gourmets (curto Jamie Oliver, Bela Gil e dezenas de outros), mas meu projeto terá que ser refletivo de um estilo de vida em que “minha comida consiste em fazer a vontade de Deus”.

Ano passado, li um livro escrito por uma jornalista americana casada com jornalista de origem árabe, que passaram a lua de mel reportando a guerra em Bagdá. Ela entremeia considerações sobre ataques e bombas entre Bagdá e Beirute com a preparação de comida no Oriente Médio (Annia Ciezadio, Dias de Mel, São Paulo, Paz e Terra, 2011). Deu água na boca, lembrar comidas preparadas por dona Hyripsemé Daghlian ou Da. Lídia Atique e imaginar usar boas receitas para semear paz e promover crescimento espiritual a gente faminta! Alguns meses depois, deparei com um livro escrito por um pastor episcopal em que o “Jantar do Cordeiro” é tema para reflexões culinárias sobre a Bíblia e a boa comida (Robert Farrar Capon: The Supper of the Lamb, New York, Modern Library Food, 2002).

Este pequeno blog talvez abra seu apetite para pensar em comida — como obter, preparar e servir, o que faz bem, torna consistente ou deve ser descartado, como reduzir, multiplicar e compartilhar com família, amigos e até mesmo na presença de inimigos. Este ano ainda vou preparar o livro. Enquanto não sair do forno de idéias e palavras, convido você a comer conosco o convite que Isaías pôs em pergaminho e Deus colocou no curacao:

Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.  2 Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares.  3 Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi (Isaías 55.1-3).


Elizabeth Gomes

sexta-feira, agosto 22, 2014

MISSÃO DE MÃE


 


.... com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas) (...) preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso (1Tm 2.9-15).

Uma amiga trouxe o filhinho recém-nascido para que o conhecêssemos, e um filho meu, criança, desapareceu por um pouco e voltou com seu cachorrinho recém-nascido ao colo. Provavelmente soubesse da diferença colossal entre o filho e o filhotes, mas para ele, a “irmandade” de ter como seu uma nova vida – fofinha, linda, incrivelmente perfeita em sua total dependência – era algo que ele entendia nos limites de sua experiência. Tempo depois, ele viu nascer os filhotes de sua hamster e correu para nós, pulando de alegria: “Viva! Sou pai!”
Entre os itens mais compartilhados nas redes sociais estão notícias de gravidez ou nascimento de filhos e netos. Costumo “curtir” até mesmo quando não conheço bem o casal ou a pessoa que deu a notícia, porque amo tudo que diz respeito a geração e parição. Percebo que meus escritos são muitas vezes prenhes de referências a nascimentos e assuntos ligadas a geração, reprodução, criação e educação de filhos. Os mais altos momentos da vida, os que fizeram com que eu me sentisse simultaneamente vazia e realizada, foram do nascimento de meus três filhos. Pais, mães e avós falam de boca cheia sobre os feitos e desfeitos dos filhos e netos. Os afetos são incrivelmente fortes e insuportavelmente sofridos quando as pessoas se referem a filhos.
Não são somente os compartilhamentos alegres que marcam a vida das pessoas. Lembro-me bem de um casal amigo que carregou o filho no ventre por nove meses. A criança nasceu com problema de coração, e por melhor que fossem as tentativas da medicina de salvá-la, morreu. Outros tiveram filhos natimortos. Ainda semana passada, quatro amigas compartilharam a tristeza de gravidez frustrada em aborto espontâneo – sentimento que eu mesma experimentei. Tenho conhecimento de outras mulheres que cuidam com carinho das crianças dos outros (uma de que penso particularmente é pediatra muito amorosa e habilidosa com os pacientes a ponto de, às vezes, levar seus pacientes-mirins para sua própria casa)—e não têm filhos do ventre nem se atrevem a adotar filhos do coração. Parece que o sonho de maternidade é, para elas, ilusório em seu alcance.
Maternidade e missão andam juntas. No momento, estou revivendo os repuxões do coração ao observar mais uma saída de mais um filho para uma vida missionária—o maior sonho de uma mãe cristã. Criamos os filhos para Deus—eles não são nossos, mas tesouros a nós cedidos por poucos anos para que sejam formados, burilados, e às vezes reformados, para uma missão muito maior do que nós possamos ter ou imaginar. A frase poética do Vinicius de Morais: “Filhos... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-lo?”, aponta a complexidade da experiência paternal. Como mãe cristã, encho-me de alegria ao pensar nos filhos,  e esvazio-me de qualquer orgulho vão: eles são prova viva da fidelidade de Deus e da vaidade de meu próprio pensamento. Cada um é singular e único—todos eles são amados como se fossem só eles, conquanto façam parte de uma multidão sem conta de gente irmanada pelo mesmo Salvador.  Criamos os filhos para Deus que os envia ao mundo. Não são nossos também no sentido que deverão andar com as próprias pernas e voar com as próprias asas, refletindo eles mesmos a glória de Deus e testemunhando essa diferença no mundo em que vivem—não no nosso mundinho limitado, mas na expansão em que eles atuam e em que, amadurecidos, produzem transformações no ambiente em que se encontram. Eles nasceram para propósitos eternos, mesmo sendo falíveis mortais (uma mãe amarga a falibilidade e quer se esquecer da mortalidade dos filhos, mas não pode negar essa verdade). Criamos os filhos para outros. Percebo cada vez mais nos filhos que eles nunca foram meus – são de seus cônjuges, de seus próprios filhos, suas congregações, seu próprio círculo de amizades, seus trabalhos de vocação e convocação, do próximo, e não nossos. Criamos os filhos para ser quem devem ser em Cristo. Nunca são o que queríamos que fossem – mesmo quando ultrapassaram todo sonho que eu tivesse, não são, e não podem ser considerados, aquilo que eu queria moldar e formar à minha imagem. Não são ídolos para serem adorados ou para cumprir a nossa vontade, e, muitas vezes, os seus caminhos, embora tendo o bom e firme fundamento e baseados na mesma fé, serão peregrinações diferentes da minha. Tenho de respeitar essas multiformes diferenças e honrá-las pelo que são.
O trecho bíblico que despertou essa reflexão me intriga e perturba, porque Paulo escreve a seu próprio filho na fé, Timóteo, (1.2) referindo-se à primeira mãe da vida humana, Eva, como “segunda” em formação, enquanto “primeira” a ser enganada--e ser essa a razão pela qual as mulheres não devam exercer domínio sobre os homens (2.11-12). Hoje muitos teólogos, especialmente as feministas pós-modernas, descartam como prova do machismo antiquado e retrógrado de Paulo que deve ser descartado por qualquer ser pensante de bom senso (suas Bíblias estão esfarapadas pelas múltiplas escolhas humanas de “isso não se aplica mais” ou “isso é irrelevante”) Mas Paulo (nem outro autor bíblico qualquer) não é misógino quando se lembra de outros trechos dele que se referem, por exemplo, ao papel de ensino de mãe e avó piedosas (2Tm 1.5; 2.15), à valorização do papel de ensino de Priscila junto com Aquila (At 2.18; 18.18; Rm 16.3) e referência a inúmeras mulheres piedosas em todas as suas cartas. Aliás, ele destaca o bom senso junto à modéstia e boas obras das mulheres piedosas, para concluir que “será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé e amor e santificação com bom senso”. Ainda vou estudar o assunto mais a fundo, mas de relance, a ambiguidade da maternidade é algo constante, e me perturba. Esse é o homem cuja sensibilidade empresta da mulher a expressão mais profunda, sofrida e realizadora: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto...” o faz “até ser Cristo formado em vós”. E eu empresto esse senso de maternidade paulina a minha visão missionária: até Cristo ser formado em vós.
Desde os doze anos de idade, quis ser missionária e valorizei a missão de Deus em Cristo em mim para depois de formada, transbordar em missão ao mundo em minha Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra (Mt 28.19-20). Namorei missões em campos distantes – com a leitura de biografias de Hudson Taylor, Isobel Kuhn, Amy Carmichael, Betty Scott Stam, Catherine Booth, Corrie Ten Boom, Elisabeth Eliot—e próximos, de missionários que conhecia e que desconhecia totalmente – encantei-me com missões entre o povo de Deus (fomos missionários por três anos entre os judeus, em Belo Horizonte e São Paulo) e de todas as tribos, povos e nações do Brasil e do mundo (implantamos igrejas nos Estados Unidos). Hoje sou esposa de pastor e mãe de filhos adultos que não dependem mais do ensino da casa pater-materna – eles próprios ensinam a outros, começando pelos próprios filhos e se estendendo por todo o mundo em que vivem. Temos nós tesouro em vasos de barro (2Co 4.7) e esse vaso aqui está mais que rachado – já se quebrou muito antes que o Senhor o remodelasse e refizesse, e ainda hoje acaba mostrando trincas e rachaduras que têm de ser tratadas. Não tem jeito – deste lado do Paraíso, continuarei sendo vaso inacabado, até Cristo ser formado em mim (Gl 4.19) e eu ser promovida para a Presença do Trono. Mas ele está presente – no passado, hoje e no futuro – e tem me presenteado com graça e misericórdia em todos os momentos da vida. É como mãe imperfeita que vou vivendo a maternidade às vezes fracassada às vezes profundamente realizada, como tantas mulheres cristãs que assim podem e devem exercer uma “missão de mãe” – mães de muitos filhos, mães de muitas querências frustradas, de ventre ou de berço vazios, mães que adotaram filhos para a eternidade. Essa missão não trata de mim nem mesmo de meus mais preciosos amados: marido, filhos e netos. Cumprir a missão de mãe é entender a missão de Deus. Empresto aqui outra expressão paulina: “... Conhecer a riqueza deste mistério: Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo; para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim” (Cl 1.27-29).
 
Elizabeth Gomes

terça-feira, julho 29, 2014

"LANÇA TEU PÃO SOBRE AS ÁGUAS"


 
Lança o teu pão sobre as águas...

Quando meus pais voltaram para os Estados Unidos, após 17 anos de Brasil, deixaram livros e pertences que pretendiam recuperar quando voltassem. Papai voltou sozinho para meu casamento, e deixou mamãe sem casamento, ela e minha irmã adolescente sozinhas em terra estranha. Foi finalmente decidido que Lau e e ficássemos com os pertences, pois seria muito caro transportar para os States—mas descobrimos que quase tudo já tinha sido vendido ou desfeito. Restaram os livros, (ninguém dá dinheiro para livro velho) – esses deram continuidade a nossa biblioteca missionária. Um dia, porém, depois que já tinham passado uns dez anos em casa, papai chegou e disse que ia pegar de volta os livros – só que não tinha para onde levá-los, e acabou deixando para nós aquilo que nos dava horas de estudo e apontava para enriquecimento de nosso ministério da Palavra. As outras coisas se foram.

Entre os diversos tesouros bibliófilos, havia livros de partituras da minha mãe, que tivera treinamento e talento musical, além de ser psicóloga com mestrado em educação cristã. Eu os apreciava, mas meu instrumento de preferência sempre fora a voz, e não estudei piano com afinco – só para tocar em casa, acompanhar ou dar incentivo aos meninos no culto doméstico.  Amava cantar no coral, naquela época na Igreja Presbiteriana Ebenezer, sob a regência criativa e habilidosa de Mary Cleme.

Uma jovem da igreja, a quem amamos muito (mais tarde Wadislau realizou seu casamento com um jovem pastor também estudante do IBPV), entre os diversos que foram para a Palavra da Vida naquela época, estava se destacando como pianista-organista, e eu lhe emprestei um livro de partituras para orgão, que tinha sido de mamãe. Com o passar dos anos, ela e seu marido se mudaram, Wadislau e eu nos mudamos (muitas vezes nesses últimos mais de quarenta anos!), e perdemos o contato. De vez em quando soubemos notícias: ele em ministério pastoral, ela como ajudadora idônea e destacando-se ao treinar outras pessoas no louvor e adoração pela música enquanto criavam a família na Palavra de Deus.

... porque depois de muitos dias o reencontrarás (Ec 11.1).

Reencontramo-nos nas redes sociais, eu e meu marido não mais jovens, ela e o marido também não tão jovens, cada casal continuando no serviço do Senhor e vendo os filhos repetir, eles mesmos, as lutas e glórias pelas quais nós passamos anos antes. Recentemente ela comunicou comigo ter encontrado um livro que eu lhe emprestara nos anos setentas, e que iria devolvê-lo. Eu sequer me lembrava do livro ou de tê-lo emprestado. Tantos livros já desapareceram no correr dos anos...

Fiquei surpresa quando abri o grande pacote enviado por SEDEX de Londrina para Mogi das Cruzes. Ela nos mandara de volta um tesouro sem preço: o volume de prelúdios e fugas das obras completas para órgão de Johann Sebastian Bach, compiladas pelo médico, missionário e músico Dr. Albert Schweitzer, publicado em (1912) 1940! Eu nem me lembrava que mamãe tinha essas partituras com sugestões para a interpretação das composições. Sem capa, mas com apenas um rasgo na última página – isso com certeza já tinha acontecido antes dele vir às mãos de Nali, que cuidou com carinho e lembrou de devolver o que no meu coração já tinha sido dado.

Mandei fazer uma cópia xerografada, não para pirataria, mas para proteção. O original, encadernação com capa dura, e, a cópia, encadernação em espiral para fácil manuseio. A duplicata vai para as mãos de minha nora musicista, Adriana. A encadernada fica na Biblioteca Refúgio até que eu e meu marido formos promovidos para o grande coral celeste e os bens da terra sejam compartilhados com os descendentes que estiverem mais envolvidos com música para a glória de Deus.

Apliquei o versículo que citei do Koheleth de Israel de forma ampla ao que aconteceu com Nali e comigo, com as partituras e a música, com a fidelidade de Deus e decorrente fidelidade de uma irmã em Cristo. Os judeus até o dia de hoje usam esse versículo no início do ano novo (Rosh Hashanah) ao tomar literalmente migalhas e pedaços de pão e jogar nos rios e córregos e se envolver em obras filantrópicas e de misericórdia, na certeza de que o bem que fizerem “voltará a eles depois de muitos dias”. Como cristãos, nossas obras não são meio de salvação nem meio de garantir que nós também sejamos bem tratados no final—mas fruto, resultado para o qual Cristo nos resgatou. Mas porque somos feitura dele, criados em Cristo para as boas obras (Ef 2.8-10), nossos irmãos muitas vezes nos presenteiam com graça de forma criativa, harmoniosa e inusitada.  Achei bem mais que migalhas – encontrei Pão da Vida. E tenho certeza que Nali e Lauril, como Beth e Lau, têm encontrado graça e misericórdia enquanto espalham a beleza de Cristo na Palavra, na música, e na vida.

Elizabeth Gomes

sexta-feira, junho 27, 2014

COMPARAÇÕES E CONTRASTES


 
Vitórias, incertezas e temores são presenças constantes em nosso cotidiano. Mais que nunca. Fico lembrando as afirmativas triunfalistas de alguns amigos que querem nos animar: “Vai dar tudo certo”; “Deus já ordenou a cura, em nome de Jesus”; “Vocês são uma bênção e serão vitoriosos em tudo que fizerem”.

Por outro lado, lembro de recentes perdas dos amigos: um amigo da minha idade, que cuidava de sua saúde tinha excelentes hábitos alimentares e invejável estilo de vida, morreu de ataque cardíaco a menos de um mês; outra amiga, mais jovem do que nós, está acometida de câncer e tem poucas perspectivas de ver crescer os filhos pequenos; outra amiga que queria servir ao Senhor em seu lar e sua vida, é abandonada e fica só apesar do marido, líder cristão, ter prometido uma vida inteira de envolvimento no Reino de Deus. Nem tudo é vitória humana na luta da fé – o capítulo onze de Hebreus já dizia isso quando afirmava que pela fé tantos tiveram perdas permanentes quanto viram resultados mais felizes.

Atualmente estou traduzindo um livro de Paul Tripp sobre os sentimentos de perda na meia idade, e traduzi há mais de um ano outro de Michael Horton sobre aquilo que era “bom demais para ser verdade”— ambos demonstrando a lucidez do realismo com esperança que só uma perspectiva bíblica da vida podem nos dar. Tenho comprovado tal perspectiva na vida de pessoas que me cercam, e quero assumi-la pessoalmente e de modo crescente cada dia que passo, mas confesso que sou fraca e minhas decisões são inconstantes. Lembro da frase constante de uma mestra do bem: “Seja equilibrada” – e no equilíbrio/desequilíbrio de uma vida andando com o Senhor, continuo aprendendo e precisando aprender mais e melhor o que Deus tem para fazer em mim e comigo. Primeiro, porque jamais poderei dizer que já cheguei lá, que consigo viver pela fé, que vivo na dependência de Deus cada dia e posso ser exemplo dos fiéis. Passos que eu julgava serem certeiros tomo ainda incerta do rumo e até mesmo do compasso em que deverei marchar. Para tanto, digo com santos mais experientes: “Não sei o que de mal ou bem é destinado a mim, se maus ou áureos dias vêm até da vida o fim – mas eu sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar o meu tesouro até ao dia final” (Hinário Novo Cântico, # 105). Sou relembrada, pelo velho apóstolo, que “perto está o Senhor”, e por isso nossa, minha equidade deverá ser notória a todas as pessoas (Fp 4.5). Com ele, “não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Aprendi isso do meu pastor e companheiro de vida, Wadislau, que hoje enfrenta uma doença que enfraquece os músculos (muito perigoso quando esses músculos são coração e diafragma e não apenas das pálpebras e face), embora mantenha a fé fortalecida. Com ele aprendo a não estar inquieta por coisa alguma; antes, nossas “petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças”.

Sou velha demais para aprender? Não. Estou aprendendo, a passos cambaleantes de criancinha de um ano, com um velho preso, “a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece”. É visível o fato de que não sou exemplo nem modelo para a vida cristã. Não temos a empáfia de pregar, ainda que sejamos cartas vivas.

Comparações? Não com pessoas que passam a vida em manso lago azul, nem com as que vivem sobre turbulento mar, mas com “isso que vivo hoje diante das glórias que estão por vir” – só posso ser grata e dizer “não mereço, mas ele pagou o preço”! Lutas e glória – tema que perpassa o Livro desde Gênesis até o Apocalipse. Não quero, nem tenho direito “passar sermão” – quero apenas afirmar que a graça de Deus tem bastado para nós, renovando as forças e dando ao cansado alento constante.

Muitos são os amigos que enviam mensagem de força e nos desafiam a permanecer inabalados. Quisera conseguir fazer mais: cuidar melhor do Lau em sua enfermidade, da casa, das refeições e atenções aos que demonstram carinho de tantas formas, manter em dia meu trabalho escrito (Editora Fiel e Cultura Cristã que tenham paciência comigo! Vou terminar o trabalho com acuidade, ainda que com atraso!).

Mesmo tempo ininterrupto para ler vai ficando mais escasso a cada dia. Pelo menos temos a memória do que nos dá esperança, e aquilo que guardamos no coração há muito tempo tem aflorado à mente e boca quando nos faltam minutos para uma hora formal com a Palavra. Por isso os lábios que se esqueceram do batom e o rosto que não viu o creme hidratante conseguem destilar graça – não a minha nem a nossa, mas a do Senhor da minha, sua, nossa vida, de nosso ser e até mesmo daquilo que não conseguimos fazer ou ser. Engraçado favor imerecido quando só merecíamos ira; graciosa benignidade generosamente derramada.

Invejo pessoas que têm tempo de sobra para escrever – quem tem idéias de sobra e tempo em falta sofre com o entupimento de veias e veículos de circulação e não aplica a preciosa riqueza do espairecimento e espaçamento do repouso e lazer sobre aquilo que se pensa e produz. O contraste é também patente entre os tesouros e a perícia do lapidador que não dispõe de tempo para burilar a pedra bruta, e acaba apresentando jóia com menos facetas que ressaltem o brilho, mais arestas não polidas a esconder o fogo do interior da pedra.

O salmista adverte que não tenhamos inveja de quem prospera no caminho – e tenho de me curvar ao Eterno que está dentro, fora, acima, por baixo, envolto e independe do tempo em nosso planeta ou qualquer outro desse universo. Sou dele, e se existe uma única mensagem que quero compartilhar com meus irmãos de caminhada, é esta: Dele, por meio dele, e para ele são todas as coisas. A glória, pois, a ele eternamente (Rm 11.36).

Nada se compara a essa vida. Conhecer Jesus é incomparavelmente melhor! Conflitos quanto aos contrastes e as incongruências e inadequações da vida aqui e agora diante de um passado de “até aqui nos ajudou o Senhor” até um futuro que “está em suas mãos” é uma ventura que eu não trocaria por nada nesta vida nem na eternidade.

Elizabeth Gomes

segunda-feira, maio 12, 2014

A FILHA DO REI E O SERVO SOFREDOR


"Filha" - disse Aslam - "contolhe a sua história, não a dela. Não conto a alguém senão a sua própria história"
 
Meu Pai é juiz e governador
dos reinos do mundo é supremo Senhor!
O seu magno império é mais vasto que o mar,
Meu Pai é um Rei, seu poder é sem par.
                Eu sou filha de um Rei
                Sou filha do Rei,
                Herdeira com Cristo, sim sou filha do Rei!

Cantávamos em harmonioso trio: mãe Carolyn, e filhas Kathryn e Elizabeth. Acho que era um dos hinos mais “assinatura” de nosso repertório. Tinha prazer em minha identidade real. Não era questão de genética nem de genealogia, que minha avó dizia ser traçada até o rei Ricardo, Coração de Leão (hoje minha irmã retificou a pesquisa de origens até o rei plantagenete Geoffrey), mas acredito que de desconhecido sangue azul ou origem chula todo nós temos um pouco. Considero muito mais importante que Deus tenha nos tornado seus filhos por adoção, escolhidos desde antes da fundação do mundo para sermos seu povo de propriedade exclusiva – e essa identidade não é porque merecemos, mas pela identidade do Deus que é, era e há de ser Senhor. Anos mais tarde, publiquei um artigo testemunhando a “Filha do Rei” na revista Evangelizing Today’s Child, da Child Evangelism Fellowship USA. Sempre considerei missões, evangelismo e educação cristã como imprescindíveis e inseparáveis para quem toma o nome de cristão, desde os pequeninos até os de “mais velha idade”.

Hoje, fico pensando na tensão entre o conceito do tesouro que é nossa filiação ao Rei Eterno, experimentamos ao ser herdeiros com Cristo (Rm 8.17; Hb 6. 17; Tg 2.5; 1Pd 3.7) e em Cristo:

De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra (...) em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (...) com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo (...) em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa (...) o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória (Ef 1.10-14).

– enquanto, ao mesmo tempo, o Rei dos Reis, nossa razão de ser filhos e herdeiros, ter se esvaziado de toda sua glória celestial (Fp 2.7) para vir a um mundo que o crucificou e o rejeitou:

Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53.3-5).

Lembro-me, novinha ainda, de pessoas que se gabavam de suas orígens como se isso as tornasse melhores e merecedoras de serem paparicação e de serviço. A figura do Servo Sofredor não parece nada com as caricaturas de príncipes e princesinhas que o evangelho barato quer apresentar como nossa herança! Sim, somos filhos e filhas da promessa, filhos do Rei Eterno, e temos valor infinito – não por nosso próprio mérito, mas porque ele é Criador soberano, Redentor perfeito, Restaurador de sua imagem em nós, e nele “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.3). Não somos filhos do Rei para andar com carro do último tipo, refestelados de jóias caras e roupas de grife. Nada há de errado em ter bens e posses adquiridos honestamente pelo trabalho de nossas mãos, mas é muito errado fazer ídolos de quaisquer desses valores terrenos, porque disse Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam... porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt 6.19-21). Se somos filhos do Rei, temos um tesouro, somos um tesouro – “em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” (2Co 4.7). Fico estarrecida com a inversão de valores que tantos irmãos fazem, achando que nós é que somos grande coisa, nós é que temos méritos, e nós temos de ordenar (até mesmo decretar a Deus o que queremos assumir!), sermos servidos e recebidos com honra porque nos achamos “grande coisa”. Cadê o entendimento como o do cântico: “de Jesus Cristo eu nada mereço, mas ele morreu foi por mim (...) Eu não mereço, mas ele comprou-me... seu sangue lavou-me” Nosso Senhor Jesus Cristo (...) morreu por nós, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com ele” (1Ts 5.10;1Pe 3.18). E não estou apontando o dedo! O pior é que eu mesmo já incorri nesse erro de achar que autoafirmação, autocentrismo, podederia, às vezes, ser um comportamento aceitável para uma pessoa autenticamente cristã! Nossa tendência egoísta é sempre endeusar a nós mesmos – o Novo Testamento tem de repetir diversas vezes a advertência “Fugi da idolatria”, porque a princesinha que quer levantar a cabeça ainda que redimida – não morreu!

Em vez da coroa de glória e do cetro de sua soberania, constato que sua coroa na terra foi confeccionada de espinhos (Mt 27.29), coroa que marcou com sangue a sua fronte. O autor de Hebreus lembra que Jesus foi “coroado de glória e de honra (...) por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” ( Hb 2.9). Quando vier o Supremo Pastor, Deus promete que nós também “alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1Pe 5.4). Olho para o futuro glorioso do povo que Deus redimiu para si e adotou como filhos, e com João o apóstolo, olhamos “eis assentado sobre a nuvem um semelhante ao Filho do homem, que tinha sobre a sua cabeça uma coroa de ouro, e na sua mão uma foice aguda” (Ap 14.14). Paro para pensar, e regozijo-me na coroa – quero me esquecer da foice de ceifa que ele tem na mão! Mas todas as referências à glória do Rei Jesus, bem como da nossa identificação como seus filhos, estão ligados ao seu supremo sofrimento! A promessa é que em meio a essa identificação com o Servo Sofredor, “O Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém” (1Pe 5.10-11).

Sou Filha do Rei?

E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8.17-20).

Elizabeth Gomes

quarta-feira, abril 30, 2014

FRACO? QUEM? EU?


 
Velho é sempre quem tem, pelo menos, dez anos a mais do que eu. Sobre alguns deles, ouço do Dr. Shedd, do Pastor Reimer, do Dr. Schalkwijk, do Rev. Campos (o Álvaro, meu cunhado), dos meus primos todos, e invejo a experiência de vida e o vigor que eles exibem – mas também (ah!) regozijo-me na minha relativa mocidade! De outros nem comento, pois já foram revestidos de juventude eterna! Ouço também de irmãos e amigos – mais novos e, às vezes, mais maduros do que eu, que enfrentam lutas com doenças graves, como o Dr. Powlison, o Rev. Deaton (o John, meu genro), o Rev. Freitas (meu irmão amigo, Dídimo), o Presb. Portela, o Dr. Carlos Osvaldo Pinto, e tantos outros – e sinto que não deveria me pronunciar a respeito de pequenas fortes fraquezas que experimento. Ocorre que, recentemente, fui premiado com uma condição física, miastenia gravis (no que conto com a solidariedade da Maria Izabel), que me rouba a força física e que limita meu campo de ação. Não é nada tão grave, pois o gravis diz respeito à lei da gravidade, mas incomoda muito porque a debilidade do corpo passa uma ideia de fraqueza da alma. Às vezes, eu digo às minhas pernas, pleno de alma: “Mais rápido!”, mas tudo o que ouço de volta é: “Té besta!” Não obstante as voltas e contravoltas do tema, vai lá: estou terminando de escrever um livro, Personalidade centrada em Deus, e tratando das razões para o enfrentamento de fraquezas, escrevi:

Não poucas vezes, a Escritura nos ensina a louvar o poder de Deus em contraste com a fraqueza humana. O salmista louva ao Senhor e insta que não confiemos nos fracos “filhos dos homens”, mas que depositemos nossa esperança no Deus criador e redentor (cf. Salmos 146). O apóstolo Paulo diz que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Coríntios 1.25) e que Cristo “foi crucificado em fraqueza; contudo, vive pelo poder de Deus. Porque nós também somos fracos nele, mas viveremos, com ele, para vós outros pelo poder de Deus” (2Coríntinos 13.4); de fato, ele disse que se gloriava nas próprias fraquezas, não dele mesmo, mas na verdade, bastando-lhe a graça de Deus, “porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo”. Certamente, o apóstolo Paulo falava de fraquezas sem dolo, isto é, de espinhos na carne e de perseguições que lhe quebravam o orgulho e exaltavam a grandeza de Deus. Sobre fraquezas pecaminosas, ele disse: “Não vos louvo” (cf. 1Coríntios 11.2,17), e, em outro lugar recomenda que nos examinemos a nós mesmos, se estamos na fé, não apenas parecendo aprovados, mas realmente fazendo o bem “Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade” (cf. 2Coríntios 13.5-8). Em todos os casos, virtuosos ou viciosos, devem sempre prevalecer a glória e a graça de Deus – se houver virtude louvado seja o único Autor de todo o bem e (Tiago 1.17,18; Filemom 1.6) e, se houver pecado, louvado seja o único Autor da nossa redenção que nos concede todas as bênçãos para o arrependimento e para o livramento das paixões que há no mundo a fim de que participemos de sua santidade (cf. Romanos 4.6; 2Pedro 1.4). A conclusão a somos levados, nessa linha de pensamento, é que este padrão de “obras mortas” abre portas para o aperfeiçoamento de nosso caráter, como disse o apóstolo Pedro: “Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém!” (1Pedro 5.10-1).

Se eu digo à minha fraqueza: “Animo!”, ouço de volta um forte: “Té besta!” Quando, porém, digo aminha alma: “suspira e desfalece pelos átrios do Senhor”, então, “o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo” (Salmo 84.2)!

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, abril 22, 2014

JÓIAS, BIJOUTERIAS E TESOURO ETERNO

Esta semana uma amiga me mandou uma caixa de tesouro – certamente seu conteúdo não qualificaria como as jóias da coroa nem mesmo seriam classificadas de jóias preciosas, mas foi um daqueles presentes surpresa que indicam carinho, trabalho artesanal, investimento de tempo e algum dinheiro, e amor à arte, beleza e criatividade próprias dos filhos de Deus e irmãos na fé. Sou privilegiada por ter algumas irmãs que se caracterizam por essas qualidades, e pelo menos quatro delas periodicamente me presenteiam com o fruto de suas hábeis mãos. Essas artesãs foram treinadas em outras áreas: minha presenteadora atual é formada em letras e trabalha com livros, outra é arquiteta de grandes projetos, mas está sempre criando pequenas bijuterias que multiplicam a alegria das suas amigas; uma é formada em artes plásticas; suas criações do Rio, São Paulo e Brasília estão pelo Brasil e mundo afora, enquanto outra (bancária aposentada antropóloga, psicóloga e cantora encantadora!) certa vez dividiu comigo os enfeites de alguns anos de presentes.

Acho que minha apreciação de bijuteria começou quando eu contava uns seis anos e minha tia Cynthia confeccionou coroas de rainha para minha irmã Kitty e para mim, a partir de “jóias” quebradas e brincos dispares, vasculhando ainda um velho baú de roupas de bailarina que tinham sido dela e de suas irmãs (uma das quais minha mãe!) quando elas eram meninas. Temos uma foto daquele dia de faz de conta em que a artista plástica formada pelo Pratt Institute transformou suas sobrinhas vindas do Brasil em ricas princesas e fadas mágicas dos contos de Anderson e Grimm.

Alguns anos atrás, trabalhei como secretária de uma pessoa em cujo escritório ficava o estoque de um comprador de espólios e heranças, e tive oportunidade de comprar “a preço de custo” diversas sacolas de materiais para confecção de colares e enfeites artesanais. Por três anos seguidos, fiz meu dinheiro de “alfinetes” com a venda de colares que eu confeccionava, e meu presente coringa para mãe, irmã, parentes e amigas, natal e aniversários todos, era tosca obra de minhas mãos.

Quando fizemos quarenta anos de casados, Lau deu-me um conjunto de brincos e colar de rubi. Três anos antes, ele dera um conjunto semelhante de água-marinha. Meu anel de pérola foi um presente dado quando decidimos nos casar, e os brincos que o acompanhavam, vieram quando nosso primeiro filho nasceu. Eu tinha umas duas pulseiras e brincos-argolas de ouro e algumas peças preciosas herdadas da sogra, da mãe e da avó (um anel de opala e brilhantes era especialmente belo), mas jamais podia ser considerada rica em jóias. A advertência de Jesus em Mateus 6.19 não tinha muito significado para mim, pois não podia dizer que acumulasse tesouros na terra – até que um dia um ladrão entrou em nosso sítio e saqueou nosso closet, levando algumas armas dos homens defensores de nosso pedaço de chão, as poucas jóias que eu possuía, e as variegadas bijuterias que acumulara com o passar dos anos. Dias depois, ainda encontrava uma trilha de brincos de plástico e colares insignificantes no caminho que ele fez ao fugir.

Certa vez, escrevi um artigo para uma revista da Assembléia de Deus e, conforme pediram, mandei-lhes minha foto. A editora atenciosamente pediu permissão para eliminar, no photoshop, meu colar e brincos da fotografia “para não causar escândalo para o irmãozinhos que tenham usos e costumes mais rígidos”. Claro! Tirar os brincos e colar da foto não tem nada demais. Quando, anos antes, pertencia a uma igreja que exigia eliminar maquiagem, jóias, calça comprida e saia curta da vida da moça cristã, eu aderi sem titubear à cara lavada e enfeites vetados de minhas irmãs. 

Esta semana, estive traduzindo um livro de devocionais de D. Martyn Lloyd-Jones, em que algumas leituras tratam dos enfeites dos israelitas. O ato de “despojar os egípcios”, que o povo de Deus assumiu ao deixar o cativeiro e seguir pelo deserto até a Terra Prometida, teve seu valor. Muitos dos artefatos do Tabernáculo foram forjados do ouro e pedras preciosas provenientes dos egípcios. A começar com os patriarcas, a riqueza era contada por rebanhos e minérios (Abraão era muito rico em gado, prata e ouro – Gn 12.2), a nação escolhida de Deus, até os dias atuais, tornou-se hábil no manejo e comércio de jóias, especialmente por concentrar grandes valores em pequenos objetos – o que, em tempos de exílio e perseguição por pogroms, holocaustos e restrições racistas, fez com que tivessem com o que sobreviver, mudar de localidade e restabelecer suas vidas dilaceradas. Um pequeno diamante pode valer mais que uma ampla casa, e são muitas as histórias de vidas salvas mediante o uso sensato desses bens. A entrega dos adereços e jóias para prover para a casa do Senhor é histórica (Êx 35.22-36.5) e repetido – a ponto de proibir mais doações, de tantas riquezas coligidas. Também se repetem simulacros históricos (“ouro para o bem do Brasil”, por exemplo, onde muitos deram até seus próprios anéis e alianças sem ver resultados permanentes). Voltando ao despojo dos egípcios, alguns conselheiros e professores cristãos usam a válida metáfora para falar da necessidade do cristão utilizar os recursos que obtém do mundo para fins bíblicos. A própria família do Deus encarnado usufruiu os tesouros de mirra, incenso e ouro (presentes dados pelos magos ao Profeta, Sacerdote e Rei). Jesus frequentemente usou metáforas ligadas a jóias (por exemplo, a pérola de grande preço, que é o reino dos céus, de Mt 13.45,46).

Os próprios bens que os israelitas tomaram, aproveitaram, investiram e usaram, entretanto, também podem ser e foram usados para a formação de ídolos (Êx 32.2-5). Enquanto Moisés tardava em descer do Monte Sinai, Arão convocou o povo para contribuir ouro para confeccionar o bezerro e atribuir aos ídolos a libertação do povo – “São estes, ó Israel, os teus deuses que te tiraram do Egito!” Um dos mais graves problemas do evangelho da prosperidade é atribuir às coisas, aos bens, aos tesouros que Deus outorga por sua bondade, a própria salvação. “Vim para a Igreja X e, agora, sou empresário bem sucedido, tenho carro do ano, casa, etc.” “Dou o dízimo em primeiro lugar e Deus faz isto, aquilo e mais aquilo outro por mim – sou abençoado porque sou bom”! Isto é idolatria tão crassa quanto a que Arão, sacerdote escolhido por Deus e portavoz da redenção do povo de Israel, incitou o povo a fazer. Além de atribuir a esses ídolos o que só Deus faz, usam a estapafúrdia de justificativas que sequer enganam a si mesmos. Arão “explicou” a Moisés: “Então, eu lhes disse: quem tem ouro, tire-o. Deram-mo; e eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro.” Mágica. Milagre. Busca de dons e rejeição do Doador Supremo.

Lembro-me de uma mãe que trabalhava como faxineira, dizendo ter assumido outro emprego durante a noite “para poder comprar um anel de brilhante de presente de quinze anos para minha filha”. Estava adorando um bezerro de ouro, e privando a filha de educá-la na justiça, verdade e bondade que vem de valores eternos em vez de valorizar um anel de brilhante a ponto de sacrificar a sua presença junto à filha e a saúde de seu corpo (bem como a saúde mental e emocional da menina mimada).

Especialmente depois de ver nosso quarto invadido e minhas coisas todas espalhadas – desde roupas velhas até bijuterias sem valor passando a jóias insubstituíveis – tenho ficado mais cônscia de que o acúmulo de coisas é pura vaidade. Claro que ainda gosto de estar apresentável, vestir-me adequadamente, e de usar enfeites que ressaltam a cor, o corte e a textura do que visto. Faz-me bem, lembrar do adágio de Tia Maria Fraga, falando às moças do Seminário Bíblico Palavra da Vida: “Seja simples e sensata. Se estiver bem calçada e com as mãos em ordem, sempre estará elegante”. Ela não propunha um acúmulo de sapatos – apenas “bem calçada” (não posso deixar de pensar em “Calçar os pés com a preparação do evangelho da paz” (Ef 6.15). Não eram mãos cheias de anéis e unhas trabalhadas por manicure – era mais o ser limpo de mãos e puro de coração (Salmo 24.4). Uso com prazer as bijuterias que minhas amigas deram para substituir o que foi roubado, e hoje estou perto da situação de Moisés, dizendo ao povo para deixar de contribuir, pois já era demais.

Lembro de um colar feito por indígenas de Roraima, dado por minha amiga Edith que já é missionária ali desde que nos formamos há 46 anos. Sempre que o usava, lembrava de orar por missões em tribos nativas. Aprecio a engenhosidade de pessoas que pegam capim dourado e o transformam em pulseira, brincos e outros enfeites com a leveza da erva que seca e o peso da promessa (perdi o par do brinco, mas tenho a pulseira; ainda vou comprar outro brinco de capim porque me lembra: “Seca-se a erva, cai a sua flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre” – Is 40.8). Tenho alguns enfeites de crochê e tricô que lembram mãos hábeis que os fizeram. Acumulei muitos lenços coloridos e esbanjo seu uso. Mas tenho sempre em mente a advertência de Pedro que meu adorno principal jamais seja o que é externo, mas o “homem interior do coração” – e isto vale para mulheres e homens, jovens, velhos e crianças em Cristo. 

Quando me casei, o vestido era emprestado (de uma filha de dois dos meus professores); os sapatos e as luvas, emprestadas de Déia, (filha da mencionada Tia Maria). Nada era meu senão o amor vindo de Deus e experimentado no amor fraterno. Na verdade, havia algo de pertencimento e de propriedade: no Senhor, somos chamados sacerdotes (como outra vez Pedro me lembra), raça eleita, sacerdócio santo, povo de propriedade exclusiva de Deus. E ele mesmo promete que “comereis as riquezas das nações e na sua glória vos gloriareis (...) a minha alma se alegra no meu Deus; porque me cobriu de vestes de salvação e me envolveu com o manto de justiça (...) como noiva que se enfeita com as suas jóias (...) o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor perante todas as nações (Is 61.6-11). Especialmente, como parte da Noiva do Senhor, vou bem trajada de brancas vestes para o banquete de bodas: Alegremo-nos (...) pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos (Ap 19.7 e 8).
 
Elizabeth Gomes

quinta-feira, abril 10, 2014

ACORDANDO PARA UMA SOLUÇÃO



 
Uma menina de onze anos acompanhou seu pai em visita pastoral à Santa Casa de Misericórdia de Goiânia, e mudou para sempre a vida de muita gente. Eu sabia que minha amiga Carol Ewing tinha duas irmãs adotadas, mas não conhecia a história, que ouvi semana passada pelo facebook, sobre como aconteceu há 57 anos.

Nina relata que, ao sair do hospital, seu pai viu um menino de uns dez anos com grande curativo no joelho, mancando, e seu pai ofereceu carona ao garoto. Chegando ao local, Nina e o pastor José Woody viram que essa família (pai, quatro crianças pequenas e minúsculas gêmeas, bebezinhos) moravam em casebre de pau a pique com alguns blocos de cimento, e cozinhavam sobre dois tijolos no chão de barro. A mãe morrera no parto e as gêmeas quase morriam de fome.

O missionário e a filha levaram comida a essa família em penúria (Nina acha que a Liga Juvenil ajudou a coletar alimentos) e a junta diaconal foi acionada, ajudando-os a mudar para uma casinha de adobe com telhado e porta. Um dia, quando Nina foi com seu pai para visitá-los, o viúvo estava à porta com as gêmeas nos braços e lágrimas nos olhos, e disse:

– Reverendo, leva essas meninas. Estão morrendo.

Nina levou as duas esquálidas meninas no colo, no carro, e foram direto para o hospital. Um médico as examinou, receitou medicamentos, e disse-lhes que não via muita esperança. Assim, eles as levaram para sua casa.
(O pobre pai e seus outros filhos, mais tarde, mudaram-se para a Fazenda Experimental, em que um presbítero arranjou-lhe emprego e escola para os filhos.)

Nina acha que sua família só cuidou delas por volta de uma semana. Da. Dina, sua mãe, tinha medo de deixá-las sozinhas porque estavam tão doentes que temia que morressem a qualquer instante.

Minha amiga Nina costumava visitar outra amiga americana, Carol Ewing, filha única, que uma vez lhe dissera que os pais queriam adotar uma filha, uma irmã para ela. Certa noite, enquanto as gêmeas estavam ainda na casa dos missionários Woody, Nina acordou às três da manhã com pensamento nítido: “Os Ewing adotarão essas menininhas." Acordou sua mãe e seu pai, e contou seu pensamento da madrugada. Nina lembra ouvir sua mãe dizer:

– Nina, não é tão simples assim.

A persistente Nina sabia que sua mãe estava acostumada com seus esquemas malucos. Contudo, no dia seguinte, sua mãe – relata Nina – foi visitar os Ewings,e... encurtando a longa história, eles adotaram as pequeninas, que hoje são Ruth e Betty, na casa dos 50 anos, irmãs de Carol Ewing McQuistan! Ambas retornaram ao Brazil para visitas anos atrás.

Descobri velhas amizades por meio das redes sociais, e a de Nina é uma das mais assíduas. Pensei em “blogar” sobre o rico tema bíblico de teologia e vida de adoção, assunto precioso que tenho visto na vida de amigos e parentes desde que me conheço por gente. Mas quando li a história contada por uma menina cristã que acompanhava e ajudava seus pais a viver aquilo em que cria, as lágrimas só pararam ao pensar em compartilhar com vocês. Só uma garota? É a maravilhosa, estrondosa misericórdia do Senhor dos Exércitos que entrou na nossa humanidade e pequenez. Obrigada Nina, Carol, Ruth e Betty, obrigada “dinossauros missionários do passado” – que aprendamos e os imitemos!
Elizabeth Gomes