quinta-feira, maio 26, 2011

EVANGELHO IMPLOSIVO & ESTALOS DE SALÃO


Evangelho explosivo é coisa boa. Especialmente com os sons e as cores da glória de Deus! É uma festa de genuína alegria do Senhor! Experimentei isso quando o Senhor Jesus “me pegou de assalto – cheguei a ver estrelas”, de dia. O problema é que, hoje, muito dessa explosão parece arte de terrorismo evangélico. Quase sempre, acaba em chabu teológico. Depois que a fumaça abaixa, sobram igreja dividida, crente mal passado, pastor frustrado, e muitos que nem querem ouvir falar de igreja. Do jeito que está, parece que isso acontece porque a comemoração vem antes da vitória: “assim como existem leis físicas, existem leis espirituais...”; “se o último avivamento provocou louvor, então é só louvar...!”; “sinais e maravilhas...”; “comunidade e culto relevante à audiência!”

Tudo isso tem algum mérito, certamente, mas onde é que está o antigo e sempre novo conteúdo do Evangelho? O que é feito daquele antigo e sempre relevante evangelho implosivo? Aquele de que Paulo disse: tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós (1Co 14.25). Essa é que é pólvora da boa!

As razões pelas quais houve mudanças de orientação no rumo da missão da igreja – dos meios providos por Deus, para os do mundo – não são muitas nem tão difíceis de serem percebidas. Basta considerar as regras chave da estratégia bíblica, e saber que são os motivos do coração que fazem operar os braços e as pernas: onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração e ninguém pode servir a dois senhores (Mt 6.21,24). Em outras palavras, meu comportamento denuncia aquilo em que eu realmente creio. Daí, essa confusão toda de evangélico, evangelical, evangeliquês, soltando traque e achando que é rojão.

Uma das bombinhas de um real o grama é a do tradicionalismo caseiro, que impede que andemos... em novidade de vida (Rm 6.4). Outra é pouco mais cara porque solta faíscas coloridas de planos e doutrinas fátuas e que, geralmente, sai na frente, orando para que Jesus venha atrás; essa atropela o passo porque anda no ritmo das últimas novidades (At 17.21).

Geralmente, os grupos de fogueteiros têm atitudes similares; ambos desejam ganhar almas e propõem o alvo de fazer a igreja crescer. No entanto, a maioria das vezes, isso fica tão à frente do quadro da missão da igreja que perdemos de vista os meios de graça que Deus ordenou para a evangelização – a saber, a pregação para expor os motivos do coração, do eleito para a salvação e, do réprobo, para condenação. A pregação correta do evangelho atinge o coração da pessoa. Destrói ou confirma a rebelião contra Deus; provoca o arrependimento ou faz recrudescer a reversão do pensamento contra os pensamentos de Deus; e fornece uma perspectiva da centralidade de Deus em vez da centralidade da própria pessoa.

Sem isso, não há evangelização. O mundo aí fora não crê na pregação do evangelho porque a comunhão com Cristo e com os irmãos exteriormente exibidas na ceia do Senhor e no batismo não concordam com o restante do que dizemos e fazemos na “vida real”. Perdendo de vista o poder e a eficácia dos meios de graça, geralmente escolhemos um ou mais raios da roda do evangelho e o tornamos o eixo central. Se isso acontece, sai de perto, porque, aí, a roda de fogos fica louca e espalha brasa para todo lado, queimando crentes “impossíveis” e possíveis. No entanto, dá para saber se a foguetada é ou não de confiança.

Entre os primeiros estão os buscapés do misticismo que se apresentam de diferentes formas. O Deus transcendente e imanente (no sentido de que é a essência da criação) ora é visto como o “Deus de longe” ora como o “Deus de perto”, atraído ou apreendido em êxtase ou contemplações, e liberado em termos de sinais e maravilhas. Certamente Deus é Deus de perto e de longe (o corinho está errado) e fica-lhe bem o louvor, mas o louvor não salva – quem salva é Cristo, aquele que liberta o louvor (Hb 13.15).

Depois, vêm as salveiras religiosas: igrejas tradicionais, do tipo que promove campanhas de despertamento, convites para o culto etc., e igrejas modernas, do tipo amigável ou de propósito ou de sucesso (não tenho nada contra o propósito de glorificar a Deus, mas sim, contra o propósito de só ter propósito). Com efeito, a igreja reunida dá testemunho da fé, o culto é evangelizador, e Deus quer que a igreja cresça, mas não é o poder da igreja que anuncia a Cristo; antes, a igreja é que tem de anunciar o poder de Cristo (Mt 28.18-19).

Então, vêm as baterias de técnicas de evangelização. Missões se tornaram rojões de um só tiro, um fim em si mesmo. O “ide” substitui o “indo” do texto original da Grande Comissão. Vale mais “ir” do que “como ir” de modo digno da vocação (Ef 4.1). “Plantação de igreja” segue o padrão de um só missionário modelando igreja para culturas que sequer discernem fogos de artifício de queimada no mato. O bom método de igrejas modelando igrejas cedeu lugar para espoleta “missionária”. Do ponto de vista individual, as reduções do evangelho a formas sintéticas (quatro leis, testemunho pessoal, etc.) deveriam ter um conteúdo substancial mínimo do conhecimento da Palavra: quem é Deus; qual é o fim principal do homem; qual seu problema; qual é vontade divina revelada na Bíblia; quem é Jesus e qual é a totalidade da sua obra – encarnação, vida de obediência, morte, ressurreição e ascensão – qual é a obra do Espírito Santo e qual é o papel da igreja na adoração de Deus e sua glorificação diante do mundo. Mas, mesmo assim, o cumprimento da Grande Comissão, com toda a sua importância, ainda não é o ponto central.

Com efeito, há um espetáculo (1Co 4.9) que inclui todos os bons artefatos pirotécnicos, e sem explosões de vaidades. Essa é a apresentação do evangelho que vivemos de modo coerente com o evangelho que pregamos; é o programa da igreja que é a própria vida da igreja. O evangelho que as igrejas reformadas deveriam guardar e anunciar é um de Verbo e Vida, Cristo, traduzido em nossas palavras e vidas. Ele tem o elemento sobrenatural, o Deus de longe e de perto, Senhor e Pai, a quem adoramos em espírito e em verdade; tem uma apresentação da igreja em adoração no culto familiar e público, com hinos e cânticos espirituais, pregação da Palavra e comunicação de graça; e tem um aspecto do esforço obediente para “indo” de modo digno da vocação, pregar o evangelho de Cristo a todos os homens, fazer discípulos dos que são chamados para seguir a Cristo, batizá-los na fé e na comunhão dos santos, treinando-os aqui e agora para viver a vida eterna na terra e para os céus.

Todos os fogos juntos são o meio para a pregação e para o crescimento na fé e da fé. O começo e o fim estão em Deus. De nada adiantará ser bom pregador evangelista, de púlpito, de televisão, de estádios e daí em diante. De nada adiantará também orar como quem tem de convencer Deus a salvar o pecador. Foi ele quem os amou e criou e chamou; quem nos amou; e quem convence, persuade e constrange o coração. Foi Cristo que morreu e ressuscitou; e nós somos seus embaixadores, cartas vivas, bom perfume, brilho celeste.

Aqueles a quem vamos com o evangelho – por mais que se mostrem entusiasmados com sinais e maravilhas, e se encantem com o acolhimento na igreja e com a exuberância das bênçãos que reluzem no testemunho pessoal – precisam ver a Cristo. Ele se revela em sua Palavra para despertamento da fé, para justificação e santificação. Se o Espírito não traduzir a pregação do Evangelho, ninguém entenderá nossas estratégias e técnicas; e se o Espírito não operar em nossa fala e vida (discurso e comportamento), ninguém nos ouvirá sinceramente nem desejará ser o que dizemos que somos.

Concluindo, somente o evangelho de “Cristo em nós” e “nós em Cristo” poderá atingir a rebeldia do coração que se opõe a Deus, a reversão dos pensamentos humanistas que trocam a verdade pela injustiça, e a inversão dos papéis em que o homem é o centro da religião e, Deus, um mero atributo. Esse é realmente um evangelho implosivo.

Wadislau Martins Gomes

sábado, maio 14, 2011

BRAVO COM O QUE ESTÁ ACONTECENDO POR AÍ?


A morte do Osama, a revitalização do Obama, os passaportes dos Silva, a radiação no Japão, a relação do álcool e da gasolina, a imoralidade das minorias políticas e sociais, a inação da maioria, os destemperos naturais, o pecado de crentes e de incrédulos, e o meu próprio – tudo isso estava me deixando brabo. Até que, como disse o Drummond, em Caso Pluvioso, sobre uma chuva chamada maria: “e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, maria! - e ela parou”. E paro eu, não de ficar bravo nem de lutar, mas de permitir que as coisas me irritem e me impeçam de achar graça na vida.

Para que você me siga enquanto penso, deixe-me ilustrar com dois causos. Primeiro um da minha irmã que, pouco mais que menina, ensaiava a mocidade no vai e vem da praça do interior. Um moço desceu da lambreta, calças rancheira, saltos carrapeta, cabelo à Elvis, veio até ela, e disse: “Qual sua graça?” A pobre perdeu a graça, olhos no chão, e murmurou: “Eu não fiz graça nenhuma”. Depois, ô desgraça, percebeu a falta de jeito e desabalou para casa. Tempo depois, ela achou graça da história. É isso aí: graça é beleza que atrai, arte de se dar a conhecer, padrão de transparência de verdade em amor – e alegria autêntica!

O segundo é da minha infância. A panela sobre o fogão a carvão, sofrida do abrasamento da chama e do pó de arear, em um dado momento aprendia a assoviar, aos psius. Minha mãe, então, levantava a dita contra a luz para ver se o furo “dava conserto”. Muitas vezes, eu, olhando estrelas, pensava se o céu não seria o fundo sujo de fuligem de uma panela em que furos de estrelas deixavam passar fios de luz. É mais isso: a glória de Deus, varando a treva desta vida pouca, em réstias de graça, revela a beleza do Criador, sua verdade, seu amor, sua alegria. A cada clarão, eu digo: “Eu não mereço”. Então, tem mais essa: graça é isso: é o movimento de Deus na direção do homem a fim de lhe transmitir sua própria natureza.

Gente adulta, quando a noite chega, só pensa em conforto de luz elétrica e treme com medo de apagão; vive analgesia de televisão e ânsias de notícia ruim (terrorismos, guerras, violência urbana, abuso de toda sorte...); de dia, lida para ter abastança e sofre desmaios de impostos. Entra ano e sai ano, alimenta expectação de melhoria e frustração de trancos políticos e econômicos. Só de pensar, alguns se mordem de ira e, outros, parecendo calmos, acalentam desesperos românticos – “pra frente Brasil”, “um passo a mais (!)”, “agora é real”, “é a vez do trabalhador”, e até parece que a Nação descobriu a máquina do tempo: “o País do futuro”! Isso é de dar azia até em sal de fruta!

Nessa hora é que é preciso pensar na ira e na graça de Deus. Na graça irada de Deus. É isso mesmo, ira tem graça! Se não tiver graça, a dominação da ira será como insônia e pavor noturno. Sem ira, será como dormir a poder de remédio – mais dopado do que rolha de garrafa de pinga. Não entendeu? Vai outro caso. Caído da escada, braço quebrado, perguntei ao meu pai: “A dor não passa?” “A dor é boa, filho” – ele respondeu –, “é um sinal para nos proteger de sofrer mais; só é ruim quando é maior do que a gente”. Assim é a ira; em si mesma, ela é boa; serve para indicar que uma injustiça foi cometida. Só é ruim quando extravasa e fere pessoas ou, internalizada, machuca a gente e contamina a muitos.

O vídeo de suas excelências, nobres parlamentares, entre tapas e beijos freudianos, só não escandaliza mais porque já ficamos muito sem-vergonha. De cara lavada, as exegeses da mídia batem na fuça da gente: a face esquerda grita homofobia e a direita responde heterofobia. O que fazer? Contar piada? Disse o sábio que “Como quem se despe num dia de frio e como vinagre sobre feridas, assim é o que entoa canções junto ao coração aflito” (Pv 25.20). Pelado, vinagre na ferida? Nem pensar. No entanto, tem de haver uma roupa quente nesse frio despudor, uma canção nesse grito de sangue, uma réstia de luz nessa sombra desumana. Certamente tem, tal como o sábio continuou:

Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber, porque assim amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça, e o Senhor te retribuirá. O vento norte traz chuva, e a língua fingida, o rosto irado. Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa. Como água fria para o sedento, tais são as boas-novas vindas de um país remoto. Como fonte que foi turvada e manancial corrupto, assim é o justo que cede ao perverso. Comer muito mel não é bom; assim, procurar a própria honra não é honra. Como cidade derribada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio. (Pv. 25.21-28.)

A exegese do apóstolo Paulo aponta o caminho. Em Rm 12.9-21, ele diz que o “amor seja sem hipocrisia”, isto é, de cara limpa, em que seja visto o desgosto pelo mal e o apego ao bem (v. 9). Fala também de amor cordial, fraterno, “preferindo-vos em honra uns aos outros” (v. 10). Isso, é claro, só poderá ser exibido por quem é nascido de novo e tem o poder de Espírito para refletir a face de Cristo (cf. 2Co 4.1-18); não podemos esperar isso de pessoas que pretendem viver sem Deus, pois quem tem flores dá flores, quem não as tem não as pode dar. Mas quanto a nós que, pecadores como eles, fomos redimidos por meio da pessoa e obra de Jesus Cristo, Paulo continua:

No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes; compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade; abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. (Rm 12. 11-16.)

A chave para o relacionamento adequado entre o cristão irado/gracioso e essa situação de ira perversa do mundo em que vivemos vem nos versículos que seguem.

Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. (Rm 12. 17-21.)

Essas coisas, certamente, apagarão os “vídeos” de nossa vida em que a ira incontida cobre de lava e cinza todo o testemunho e beleza da glória de Deus. Ficarão aqueles em que a graça recebida é dada de graça a todos os homens, “sem ver a quem”, mas de olhos abertos para o mal que está aí que tem de ser combatido. Para isso, será preciso lembrar o que Paulo também disse: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4.26-27).

Para ser graciosa, a ira jamais poderá ser manifestada contra outras pessoas ou guardada no peito, sem exteriorização: ela terá de ser dirigida contra o problema! Como? Imagine que a patroa venha pedindo a tempos que você conserte “aquela” porta. Um dia você não pode, outro não quer, até que a coisa “pega”. Então, você faz com cara de mau, agarra prego e martelo, e desconta na porta. Findado o trabalho, rostos plenos de graça, você sente: “Que magnífico carpinteiro o mundo perdeu quando...”

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, maio 06, 2011

CRER E CRER: PROMULGADA A LEI DE DEUS SOBRE O HOMOSSEXUALISMO!

 

O crente crê; o incrédulo crê; o teísta crê; o ateu crê; o cientista crê; e o inculto também crê. É crença que não acaba mais. O crente em Jesus Cristo crê na Bíblia. O incrédulo crê que nada crê. O teísta crê que existe um Deus. O ateu crê que Deus não existe. O cientista crê que há alguma coisa aí para ser crida. O certo é que não há nenhuma outra base para qualquer conhecimento, a não ser a fé. A menos que você prefira dizer como o cara que viu o camelo, no zoológico: “Esse bicho não existe!”

Fé é mesmo coisa difícil de tragar. Até a descrição do conceito, de início, parece complicada: a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem (Hb 11.1). Como é que pode haver certeza do que é esperado e convicção do que não é visto? Valha-me Deus! E ele vale. Pense assim: se alguém não sabe coisa alguma sobre o que procura, nem se achar, saberá o que é. Se há alguma coisa sendo tratada, certamente algo é sabido e esperado, mesmo que não seja visto – ainda. Um exemplo disso é a Tabela Periódica dos elementos. Ela permanece tal como foi proposta, boa e genial. À época, foram calculadamente deixados em branco os espaços necessários para colocar elementos sabidamente existentes, mas desconhecidos. Havia fé em que, um dia, os elementos faltantes se encaixariam.

É algo como isso que está faltando, não na fé revelada, mas na evangelização do nosso povo. Sabe por que é que tanta gente não aceita ou abandona ou “muda” a fé cristã histórica a fim de acomodar a fé insossa? É que muitos que receberam o evangelho em fé não repensaram suas vidas em arrependimento – não reviram conceitos e comportamentos próprios da vida anterior nem se preparam para testemunhar o evangelho por meio de palavras e vidas coerentes. Assim, ficam na mente e no coração alguns espaços vazios que tornam difícil a digestão da fé. Tomando emprestada a figura de João, a fé é amarga no “estômago, mas... na... boca, doce como mel” (Ap 10.9). Mas como desejamos mel na boca ainda que com o estômago cheio de abelhas, os que creem que não creem e os que dizemos crer nem sempre estamos dispostos à coerência que a fé exige.

De fato, esse alheamento da fé faz parte do conhecimento natural do Deus desconhecido (At 17.22-31). O que quer que professemos, acabamos adorando algum tipo de deus. No entanto, só um é o verdadeiro. Ele é o Criador de todas as coisas e o próprio ambiente do homem, diante de quem teremos de prestar contas dos atos do nosso corpo. Vem, daí, uma questão: Como é que ficamos diante de duas declarações de fé, a do regenerado e a do não regenerado?

De um lado, o supremo e soberano Deus promulgou um termo de justiça, primeiro exarado na lei (Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação; Lv 18.22) e, depois, arrazoado no Novo Testamento. De outro lado, os supremos juízes da nossa terra passam julgado sobre os méritos do homossexualismo, com argumentos tais como: “a família é a base da sociedade, não o casamento” (Ministro Ayres Britto, considerando inconstitucional o artigo do Código Civil que trata a união estável usando os termos "homem e mulher"); ou "Desde que duas pessoas, somente" (Ministro Cézar Peluso, sem explicar a razão da restrição); ou "A união homoafetiva deve ser reconhecida como união estável para efeitos de proteção do Estado" (Ministro Luiz Fux). Todos eles, cuidando da causa, sequer chegam à questão do âmago do indivíduo – o vazio que só poderá ser ocupado pela adoração de Deus.

Com base na fé e na justiça (Rm 1.16-17) e movido por gracioso débito de amor para com todos os homens, crentes e incrédulos (vv. 13-15), Paulo faz um arrazoado mais profundo (1.18.32): a humanidade de agora não é a mesma como foi criada, mas experimenta uma separação interna e externa. No entanto, algumas coisas são certas e esperadas.

(i) Há uma dissociação com a essência da identidade humana, Deus, que é o ambiente de todo homem (vv. 18-20; 3.23; cf. At 17.24-29; Cl 1.15-17; Jo 1.1-4). O traço de personalidade que permanece havendo é a certeza de Deus está aí; a Bíblia diz que, de uma ou outra forma, todo mundo tem consciência do Deus verdadeiro, ainda que muitos a reprimam (cf. Rm 2.14-15).

(ii) Há uma crise de identidade psicológica em que racionalidade e irracionalidade geridas pela vontade decaída, equilibram-se e desequilibram-se em um turbilhão emocional (Rm 1.21-22; cf. 7.13-20).

(iii) Há uma dissociação da identidade humana com a natureza criada, que faz o homem não se diferenciar do mundo material e animal. Conquanto todos tenhamos certeza de não sermos deuses, ainda assim, tentamos assumir o papel. Na verdade, a própria tentativa – de controlar o mundo e as pessoas, de desejar justiça ou de reconhecer a injustiça, e de querer redimir o que está errado – é uma admissão do conhecimento de Deus. E é também uma admissão do pecado humano; pelo menos, de não querer reconhecer o Criador e Redentor de todas as coisas (Rm 8.22).

(iv) Há uma crise de identidade sexual (Rm 1.24-32). Negando o Criador, a criatura perde as dimensões de individualidade e coletividade, de igualdade e pluralidade, e de propósito e finalidade. Assim é que pares sem ovários e leite e pares sem testículos e sêmen pretendem uma vida sexual (lat., seco, “divisão da raça”) e muitos anseiam filhos.

(v) Há a convicção do testemunho de Deus, em Cristo e pelo seu Espírito, que ilumina a todo homem, externa e internamente, sobre a verdade e sobre o pecado (Jo 1.9-11; 16.7-11).

Certamente, este último item vem prenhe de esperança. Paulo mesmo disse que todos nós caímos em um ou outro pecado e, assim somos réus de todos eles (Rm 3.10). Em outro lugar, ele disse que não deveríamos nos enganar, pois nenhum impuro, idólatra, adúltero, efeminado ou homossexual, ladrão, avarento, bêbado, maldizente ou caluniador, ou corrupto apreenderia o código de fé e justiça do reino dos céus: Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus (1Co 6.8-11). De um lado, Deus não discrimina um grupo como o de homossexuais, mas a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos (Rm 11.32; cf. 2.11); de outro, sua Palavra não esconde os resultados da injustiça e dos desvios da fé. Sobretudo, ela diz:

Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão [Jesus Cristo] que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos (At 17.30-31).

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, abril 29, 2011

O HEREGE E A VITIMIZAÇÃO


Vitimização é um problemão danado; nem o dicionário aceita. O sentimento é indescritível. O que é possível fazer para dar uma ideia, é imaginar. Você entra em um banco por aquela porta gerativa de ansiedade. De repente, a respeitável anciã ao lado se lança contra a parede, estatela olhos e boca em desafino, dedo em riste em sua direção: “Não, por favor, não!” O bem treinado vigilante se lança ao chão, a senhora da mesinha do fundo se levanta brava como gerente, e todos os olhares convergem para a cena.

Quando cada participante da peça chega em casa e conta o caso, todo mundo acaba sendo vítima. Seu sentimento, no entanto, será o pior. “Se pelo menos não fosse uma velhinha, ela ia ver”. Vitimização tem disso: o fraco abate o forte exagerando fraqueza ante uma pretensa ameaça. Você sabe: o menor infrator pego em fragrante, o cônjuge que abusa o outro, o motociclista depois da cortada e do acidente, e o atacante que errou o golpe e acertou a parede.

Com tudo que havia para me incomodar na entrevista do Gondim, na Carta Capital de 27 de abril, fiquei engasgado com uma expressão: “Fui eleito o herege da vez”, como o destempero da velhinha vitimizada, gritando um “Deus me livre de um Brasil evangélico”. Na verdade, lá no banco, você poderia ter respondido: “Claro, senhora, como posso ajudá-la?” Mas nas páginas da imprensa giratória, ouve-se o grito e deixa-se pra lá. No entanto, não quero levar para casa o sentimento de que fui vítima do golpe da velhinha, não quero deixar de ajudar aos que veem a lição de vitimização; nem quero discutir opiniões, segundo diz 1Tm 4.7. Talvez, em benefício da alma da velhinha e dos circunstantes que ainda confiam nas instituições da fé verdadeira, eu diria o seguinte.

Deus me livre? Que deus? Um que não tem controle, não está sempre presente nem tem autoridade para livrar sua criação de acidentes e incidentes? O Brasil evangélico é mais poderoso do que esse deus. Claro que eu vejo esse Brasil evangélico com apreensão, mas, em vez de atacar a fé, ataco o pecado da rebelião que é descrença, da reversão mental que é infidelidade e da inversão da referência homem/Deus. A verdadeira igreja de Cristo, por disposição da graça de Deus, está aí, no meio da igreja brasileira. Somos pecadores, não menos do que todos os homens, e se nos alcança a graça salvadora, somos justificados pelo Deus que justifica o ímpio. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

Aborto, homossexualismo e influência islâmica? Esclareça-me algumas coisas: aborto é livre; mas, e se iniciássemos um movimento de aborto de papagaios e baleias? Homossexualismo é opção natural de identidade sexual, mas desordens de personalidades devem ser psicológica ou psiquiatricamente tratadas? Influência islâmica no mundo faz parte da ordem da história, mas proibição legal e ilegal da pregação cristã nos países islâmicos é de boa ordem? Ora, ora, esses temas não estão na agenda do cristianismo mais do que outras, e só entram em pauta por causa da efervescência do nosso tempo.

Tem mais: a cosmovisão anticristã é certa; a cristã é errada? No Brasil do futebol, é sabido que o jogo tem dois times, dois gols e regras próprias, e que o acerto pluralista (“eclético, ecumênico”) que seja bom para os dois lados é infração. Aqui também, ora, há duas cosmovisões possíveis: a do regenerado e a do não regenerado. Um tem seu ponto de referência em Deus; o outro, no homem. “Nós nos revoltamos quando um político abre a porta para o apadrinhado”. Nós também. Mas também incomoda quando o raciocínio é: se é assim comigo (ele), “Por que seria diferente com Deus?” Com efeito, é porque Deus não imita o homem, mas chama o homem para espelhar seu caráter.

“Se para ter sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então minha mensagem está fragilizada”. Aí, eu concordo, mas não com a maneira intencionada. A mensagem da vitimização, aí vista, sim, é frágil. Não da fragilidade humana que, como a erva, de manhã nasce e logo seca, pois essa é bíblica (Sl 90; Is 40; Tg 1; 1Pd 1; ver Mt 6; Lc 12). Antes, é fraca por causa da falta da transcendência que permite que nos comuniquemos (transcendência pessoal) e que permite que nos comuniquemos com Deus; sobretudo, que nos permite a eternidade (Ec 3.11). Nisso sim, há fraqueza doentia, moralmente má, eticamente perversa, que leva o homem a chamar ao soberano Deus da Bíblia de títere (marionete, pelego, bufão). “Vivemos como se Deus não existisse porque só assim nos humanizamos...”. Isso é que é se jogar contra a parede, gritando: sou vítima de Deus, enquanto o ataca. Mas não tem nada não; não há como reprimir a glória de Deus. Ele está no controle, presente e em autoridade.  Como disse Gamaliel: porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele (At 5.38-39).

Wadislau Martins Gomes

sábado, abril 16, 2011

DE ALMA E DE ARMAS



OU: FOCINHO DE PORCO NÃO É TOMADA

“O que esse pessoal não prova em nada é a relação entre as armas legais e os índices de violência. A nova tentativa de tirar as armas legais de circulação só vai expor o cidadão comum aos delinquentes, criminosos e lunáticos armados ilegalmente” (Leonardo Bruno, 13 Abril 2011, http://www.midiasemmascara.org/).

Inspirado no artigo citado acima, segue uma contribuição cristã para a solução do problema da violência.

Algumas figuras são tão boas que se encaixam na cabeça como plugue macho em tomada elétrica. Nessa linha, a imagem de Pv 11.22 é uma preciosidade: Como jóia de ouro em focinho de porco, assim é a mulher formosa que não tem discrição. À primeira vista, nós, homens, concordamos, levantamos o nariz, e mostramos o texto para a namorada ou esposa. Contudo, não confunda esse focinho de porco com tomada, pois a comparação aplica-se ao homem e à mulher, como vem no versículo seguinte: O desejo dos justos tende somente para o bem, mas a expectação dos perversos redunda em ira (v. 23). Em outras palavras: o desejo de justiça é uma jóia, mas quando injustamente reivindicada, revela nosso focinho de porco.

Essa definição é significante especialmente quando (i) uma violência geral e incontrolada toma conta de um número crescente de indivíduos e de grupos; (ii) a sociedade fica paralisada e entorpecida à espera de uma ação efetiva do governo; e (iii) o governo exibe inabilidade para discernir uma política correta e incapacidade para lidar com o problema. Creia nisto: homens tomados de ira maligna e cultores de violência só poderão ser combatidos por homens de ira santa, cultores da paz de Deus.

A ira, ao contrário da ideia comum, é primariamente uma virtude (cf. Rm 1.18 e Ef 4.26). Será correto, até mesmo, dizer que a ira é o diamante das jóias entre as virtudes morais. De fato, ela é o sentimento que nos sensibiliza a fim de reconhecermos uma injustiça cometida. A ira está para o senso moral assim como a dor está para o senso de integridade física. Não é verdade que, se o porco tivesse a expectação do abate, não se deliciaria tanto com o processo da engorda? A ira torna-se pecaminosa e destrutiva quando a reação contra a injustiça é feita com base na mesma injustiça. Por isso é a que Jesus também disse que, se nosso senso de justiça não for distinto e maior do que qualquer injustiça recebida, jamais apreenderemos a justiça do seu reino (Mt 5.20) e: todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento (v. 22).

Confrontadas quanto à ira pecaminosa, geralmente as pessoas negam ou justificam o sentimento: “Eu, irado? Não!” Ou: “Mas também, veja o que me foi feito!” Poucos reconhecem a natureza do sentimento. Entretanto, não há como esconder, e a ira injusta revela nosso focinho de porco. Homens e mulheres, ao se queixarem de maridos, esposas, filhos, patrões, empregados, colegas etc., estejam certos ou errados, sempre exibem humores irados. De um, a raiva intestina explode como espirro; de outro, a amargura azeda e escorre; e em ambos os casos, revela-se o focinho de porco (cf. Hb 12.14-17). Só há uma maneira justa para lidar com a ira: Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (Rm 12.21). E daí, se meu irmão foi mais aceito? Se meus pais erraram? Se meu trabalho não foi reconhecido? É Deus quem julga o homem; por que, então, eu tento acusá-los, e a outros (Cf. Rm 8.33)? Não seria o caso de atentarmos ao próprio rabo antes que bata a porta? Como disse Tiago, quem conhece a Palavra e não considera sua verdade é como quem olha no espelho e, depois, vai embora esquecido (Tg 1.23-25) do próprio focinho.

A Bíblia diz que a estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o Senhor que o seu coração se ira (Pv 19.3). Por que é que nossa rebeldia é sempre contra a “religião”? Ateus e crentes amargurados sempre se voltam contra Deus. Ele é sempre a causa da sua miséria. No entanto, no fundo, não queremos enfrentar a verdade porque ela é luz que denuncia nossa cara suja do último bocado de pecado. Sob essa luz, olhando no espelho, posso até imaginar a cara do Caim, filho do Adão e da Eva Silva-Éden (assassino do irmão) quando Deus lhe perguntou: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante (Gn 4.6)? A autojustiça de Caim brilhava em seu rosto como jóia em focinho de porco. O rapaz teria ouvido dos pais a história do coração a respeito de um tempo bom, na Criação, em que a vida tinha sentido, em que dignidade pessoal e aceitação amorosa regiam os relacionamentos. Entretanto, sua experiência era uma de difícil digestão: por que seus pais fizeram o que fizeram e por que ele é que deveria ter saudade do jardim que não conhecera e ainda ter de aguentar as pendengas da família? “Eu não estava lá; e nem pedi para nascer!” Deus ainda perguntou, retoricamente: Se procederes bem, não é certo que serás aceito (Gn 47)? No fundo, a ira de Caim era contra o que ele julgava ser uma injustiça de Deus – que não o aceitara.

Sei que não é fácil assumir que o focinho no espelho é o nosso próprio. Fica bem mais fácil se nosso irmão, nossos pais, ou o povo, forem causas da desgraça. No entanto, é nosso semblante que se encontra descaído, e é nossa a ira amargurada que cria nossa mesma história do coração. Deus não disse: “se os pais ou o irmão procederem acertadamente, alguém será aceito”. Se quisermos viver bem a nossa vida, teremos de vivê-la nós mesmos diante de Deus, pela graça e mediante a fé. Ansiamos por uma vida de independência e autonomia, mas levamos uma existência de escravos, presos pelas correntes da transferência de culpa. A culpa é da religião, a culpa é do governo, a culpa é da sociedade... de quem mais? “Minha é que não é”, diz alguém. É minha, eu digo, quando não entendo a ira

Deus concedeu ao mundo dois ministérios de homens: (i) o da pregação da paz com Deus e entre os homens, em Cristo e no poder do Espírito, e (ii) o da disciplina da paz, sob responsabilidade do governo, ao qual deu o poder da espada. Ambos os poderes, a fim de manter fidelidade a Deus, deveriam saber lutar com suas próprias armas. De nossa parte, deveríamos saber esgrimir com a palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas (2Co 6.7). O governo deveria brandir com maestria a espada da lei, assegurando proteção ao indivíduo e à sociedade, tanto na coibição e punição da violência quanto na garantia ao indivíduo de proteger a si mesmo e à parte da sociedade em que vive. Para isso, teríamos de ter consciência de quatro coisas: (i) o governo não é a sociedade, mas é formado de grupos de membros chamados para agir em benefício da sociedade; (ii) o governo não é todo presente e poderoso para agir sem o necessário concurso dos cidadãos de bem; (iii) assim como a Palavra de Deus é instrumento de ação do ministro, mas deveria ser usada por todos os homens, também o uso da espada da justiça não é restrito ao governo; portanto, (iv) todo homem de bem é “governo” de sua própria vida e membro de governo de outras esferas tais como família, vizinhança, escola etc., com a missão de proteger o próximo.

Sobretudo, individual e corporativamente, deveríamos saber lidar com a ira. Retirando a boa ira, perderemos noção da justiça; inativos contra a má ira, incitaremos a injustiça. A escolha é essa: onde por a jóia – no focinho do porco ou no rosto da mulher bela?

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, abril 08, 2011

PERSEGUINDO UMA POLÍTICA CRISTÃ (2)


CONFISSÃO DA CULPA NACIONAL

Wellington Meneses de Oliveira assassinou onze e feriu treze crianças, e matou um pouco mais a alma moribunda do povo brasileiro. Atroz o crime, enorme a culpa do indivíduo e da sociedade.

Cubra-se de vergonha a Pátria que mata seus filhos – e confesse sua culpa. Confesso eu, que não tenho gritado até a voz rouca contra tanta miséria e covardia nem tenho sofrido até o sangue pelos meus irmãos de solo. Confesse o sistema revolucionário brasileiro que planta a violência e espera que o povo cultive flores. Confessem governantes e legisladores cujos exemplos de imoralidades não cuidadas destroem a moral da Nação. Confessem juízes e advogados, rápidos para emitir opiniões e morosos para fazer valer a justiça e o direito. Confessem os educadores que não mais ensinam nobreza e dignidade, mas estimulam a mediocridade. Confessem os servidores públicos que abusam da posição e passam ao largo da praça do povo. Confessem os industriais e comerciantes que atravessam a Terra em busca de ouro e deixam atrás um rasto fétido de caras inutilidades. Confessem as minorias iradas e as maiorias omissas. Confessem os pais que ainda não perdemos nossos filhos e que, por isso, amanhã esqueceremos a tragédia. Confessem as religiões idólatras que pregam o diabo a quatro. Confesse a igreja evangélica que abandonou a pregação profética em nome de novidades caducas. Confesse aquele que é rebelde contra Deus e que só pensa nele quando tem de ter alguém para botar a culpa.

Perdoem-nos, ó pais e irmãos, por permitirmos que as coisas continuem desse jeito. Perdoem-nos o soluço tardio e a ira inoperante.

Perdoe-nos, ó Deus, porque vivemos no país do carnaval, desfilando fantasias de grandezas em pleno dia de cinzas!

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, abril 07, 2011

PERSEGUINDO UMA POLÍTICA CRISTÃ


O cristianismo sofre ataques de todo lado, principalmente de bocas que se julgam defensoras de liberdades e direitos. Por exemplo, a “boca rica” das comunicações, a rede de TV Globo, que (des)faz a cabeça do país, e em que bocas pobres de discernimento mastigam insensatez. Se o comentário é sobre a queima do Alcorão em uma pequena igreja que almeja o show, lá vem um que diz, fora de contexto: A ciência já provou que a humanidade nasceu na África. Eu pergunto: em que laboratório a experiência foi realizada, testada e repetida, e qual é o enunciado do fato científico do nascimento da humanidade, em qualquer lugar? O cristianismo, pelo menos, tem respaldo em documentos históricos revelados por Deus. A notícia de que o Brasil foi elevado à categoria BBB na confiança do investimento internacional vem na mesma panela do Big Brother Brazsil e do último quadro da criminalidade, cozida ao molho cínico do comentário: Já houve aquela do aborto na campanha da Presidente e, agora, ainda querem botar mais religião na política? O cristianismo, por sua vez, tem a companhia da boa moral e ética.

O blogueiro Reinaldo Azevedo fisgou o nervo do dente da questão (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-religiao-verdadeiramente-perseguida-no-mundo-hoje-e-o-cristianismo-ou-de-corajosos-e-covardes/; 04/04/11). De onde vem a sanha, essa baba raivosa, essa perseguição canina? Por que ninguém ataca o noel nem o saci? Certamente, essa ira procede de uma rebelião contra tudo que se chama Deus, que reverte a mente e inverte o ponto referencial das coisas (cf. Rm 1.18-32). Como disse o poeta que amaldiçoou a própria alma: “terra maior que os céus, homem maior que Deus” (Bilac). Assim, perdidas as noções de distinção e proporção, só podem falar em termos que sequer são surreais. Como também já foi dito: nem estão errados, pois para isso teriam de ter estado certos.

No entanto, esse negócio de cristão na boca do leão é coisa antiga. Em um sentido, faz parte da luta contra o mal, e, em outro, opera sabedoria (ver Tg 1). É certo que o crente não deveria sofrer por ser transgressor da lei nem por burrice. Muita perseguição seria mais bem enfrentada e muita poderia ser evitada mediante a obtenção de uma boa cosmovisão cristã. Todo cristão deveria entender biblicamente a questão política. Tem cristão de esquerda, de direita, de centro, de cima (caindo de paraquedas), de baixo (do pano) e tem quem invoque a separação entre igreja e estado. Está certo, mas não confunda essa separação sadia com a enfermiça separação entre fé e política. Falta fé na política porque falta muita fé, na política; falta política centrada em Cristo e eleitor cristão consciente da própria fé.

O que o cristianismo crê, é que, primeiro Deus criou um homem e, depois, uma mulher, diferentes na individualidade e iguais na humanidade. Estão aí, assim, duas esferas de atuação humana – a individual e a social. São duas esferas com domínios próprios (autárquicas, isto é, soberanas sob a soberania de Deus) cujas interações formam uma terceira esfera subalterna, a do governo. Indivíduo tem cara, nome e domicílio, e sua atuação compreende três movimentos: para cima (Deus), para dentro (ser interior) e para fora (o próximo e o mundo); sociedade é associação tácita de indivíduos que realizam esses movimentos por meio de deveres e direitos afins.

Governo, por sua vez, não tem realidade em si mesmo, mas sua existência está implícita na relação de indivíduos com a sociedade. Sua preeminência existe não por causa do poder próprio, mas da delegação do Deus que chamou indivíduos para que fossem seus ministros civis com vista ao cuidado da sociedade. Lembra do que Deus disse à mulher, logo após o pecado? O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará (Gn 3.16). Essa não foi uma lei, mas uma constatação da triste realidade política de um mundo decaído. Não é importante, aqui, que tenha dito à mulher ou ao homem. O fato é que a política decaída é baseada, de uma parte, em desejos a serem satisfeitos por pessoas insatisfeitas, e, de outra, na dominação de pessoas tendentes a jogos de poder.

Quando é assumido por indivíduos ou partidos que agem como se fossem deuses – mesmo que o discurso seja um de democracia, justiça social, erguimento financeiro econômico da nação e excelência administrativa – o governo se torna déspota e sujeito a corrupção. Por quê? Porque não ministra sob a vontade de Deus nem se sujeita à prevalência dos indivíduos que o elegem, nem cumpre seu papel de protetor do bom cidadão e juiz do homem mau. Antes, entrega-se à luta pela obtenção e manutenção do poder a qualquer custo – muitos, agindo como homens maus.

Para cumprir o papel de ministro civil de Deus, o governo precisaria respeitar e implementar as esferas individuais e sociais, e todos os círculos de autonomia a esses vinculados de diferentes maneiras nos particulares seguimentos da vida. No entanto, ele estará incapacitado para essa tarefa, se assumir que o próprio governo seja a sociedade. Por exemplo, a família é uma esfera em que a preeminência do governo só existe quando a respeita. No entanto, o governo chamado “social” pretende ser chefe de família, pai e mãe – esquecido de que não tem o aparato necessário para gerar ou criar filhos! Dizendo-se povo, arvora-se em legislador da consciência do indivíduo. Assim, fica clara a esterilidade desse tipo de governo. Outros exemplos, como a educação, o comércio, a igreja, são círculos de autonomia dentro das encapsuladas esferas individuais e sociais. Essas esferas deveriam ser livres. Quando pretende ser mestre, proprietário ou papa, o governo excede sua autoridade e anula sua efetividade.

            Como disse o blogueiro, a questão é uma de coragem ou covardia. Quando é que nós, de natureza idólatra, deixaremos de nos curvar ante os deuses deste tempo, ante a ignorância dos sábios segundo o mundo e ante as próprias necessidades, para adorar o Deus da Bíblia? Quando é que aprenderemos a votar em quem sabe o que é governo e sabe fazer política segundo a Palavra de Deus? Certamente quando amarmos mais o estudo da Bíblia como regra de fé e prática (incluindo política) e, entre outras coisas, aprendermos a não escolher políticos pelo rótulo, mas pelo conteúdo. Aí, sim, seremos realmente cristãos em termos de abençoar o mundo ao redor.

            Quando isso acontecer, não teremos medo de perseguição. Será preciso que não sejamos perseguidos como déspotas, corruptos, falseadores da verdade, odiosos de Deus; nem como quem se omite da luta contra o mal ou da defesa da fé. Mas se formos perseguidos por causa da justiça, que Deus nos fortaleça a boca e os dentes.

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, março 29, 2011

DUAS PÍLULAS PARA CARECA



CALVINISMO É COISA QUE DÁ NA CABEÇA DA GENTE

Eu me vergo. Foi mal, o trocadilho. Contudo, atente bem a essa parábola da careca: Quando os cabelos do homem lhe caírem da cabeça, é calva; contudo, está limpo. Se lhe caírem na frente da cabeça, é antecalva; contudo, está limpo.  Porém, se, na calva ou na antecalva, houver praga branca, que tira a vermelho, é lepra (Lv 13.40-42).

É que, às vezes, a confusão existe até para quem “está careca de saber”. Passa o tempo, e o brilho da cabeça do antigo mestre vai recebendo tantos chapéus – pré-Dort, pós-Dort, neo, novo e de novo – que, uma hora, ninguém mais sabe o que é que eles cobrem. Arminianismo vira estilo de corte, tulip vira flor enroscada na orelha e calvinismo vira espelho de vaidades. Sem ofensa – você não vê que até eu ouso meter a cara nessa conversa?

No entanto, há luzes e reflexos de glória que valem a pena de ser citados e repetidos. As perspectivas de Abraham Kuyper, por exemplo, são de fazer a gente tirar o chapéu para tanta simplicidade. Não o simplismo de definições de barbearia tocadas a tesoura e pente, mas a simplicidade própria dos mestres que penetram as complexidades da cabeça. Tomado do gênio de Calvino, Kuyper levou a sério a soberania de Deus sobre todas as áreas da vida e, literalmente, “fez” escola e política calvinistas. Ele foi o fundador da Universidade Livre de Amsterdam e Primeiro Ministro da Holanda (1901-1905). Suas Stone Lectures são valiosas. Correndo risco de mostrar mais ondas de cabelo do que dobras de cérebro, arrisco uns volteios inspirados na apresentação do neo-calvinista holandês.

 (1) os temas de “Calvino” e “calvinismo” se diferenciam tal como cabeça e cabelo. O primeiro fornece o pensamento teológico apologético para a prática cristã, o segundo, o desdobramento prático dessa teoria. Aquele declara a experiência com os princípios da Palavra de Deus; este promove a experiência da vida calcada nesses princípios. Calvino instituiu sobre fé e prática cristã; o calvinismo vem desenvolvendo essa instrução nas diversas áreas da vida.

(2) Há, pelos menos, três aspectos do calvinismo a serem considerados (como cuidado com a higiene e saúde do cabelo). (i) O aspecto confessional, o qual dificilmente poderá superar o tratamento fornecido pelos documentos da reforma e pós-reforma, tais como confissões de fé e catecismos, sempre atuais na medida em que são fiéis à Bíblia. (ii) O aspecto de movimento, como rótulo denominacional, amado ou odiado em diferentes círculos, o qual não deveria ser elemento de base nem alvo de transformação. Finalmente, (iii) o calvinismo que considera a soberania de Deus sobre todas e cada área da vida e que promove a fé receptora da graça especial na ação da igreja e a da graça comum na atuação no mundo.

(3) Esse último, sim, é uma experiência de novidade de vida calcada na obra imutável de Cristo (cf. Rm 6.4). Nesse sentido, o calvinismo apresenta uma reforma religiosa sempre renovada. Como estilos de penteado. Poderíamos até chamar de aspecto hermenêutico: Deus apresenta na Bíblia a hermenêutica do seu próprio pensamento, utilizando a hermenêutica de homens divinamente inspirados, para que procedamos à hermenêutica de sua hermenêutica em nosso tempo e lugar, a fim de que em tudo e para todos seja manifesta a glória de sua graça.

Complicado, não é? Mas não desanime: vá desembaraçando esse emaranhado com o pente da Palavra, o óleo do Espírito, os movimentos das mãos em oração, vá batendo cabeça com os irmãos na unidade de Cristo, o cabeça da igreja, e você vai ver como logo a face do evangelho se ilumina. Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós (2Co 4.6-7).


CARECA BONITA É UMA ARTE, É UMA ARTE, É UMA ARTE

Ele não disse que careca era coisa bonita, mas o bom Calvino considerou, sim, que a arte é ingênita ao conhecimento humano, tão universal que não tem limites na mente e na natureza senão o reflexo da graça de Deus. A isso aponho à guisa de ilustração: como calva na cabeça; nem todos têm completa, bela, brilhante, mas todos têm ideia da graciosidade dos cabelos e da falta engraçada que eles fazem. Se meu jeito de dizer a coisa foi demais para tanta cabeça, leia o próprio reformador:

A esse reconhecimento o próprio Criador de nossa natureza amplamente nos desperta
enquanto cria os imbecis, nos quais põe à mostra de que dotes a alma do homem
excele quando não inundada de sua luz, luz que em todos, tão natural subsiste, que
a cada um é dádiva inteiramente graciosa de sua beneficência... Com efeito, a invenção ou o ensino sistemático das próprias artes, ou seu conhecimento mais íntimo e mais eminente, que é próprio de poucos, por certo que não é sólida prova da perspicácia universal. Contudo, porque atinge indistintamente a piedosos e a ímpios, com razão se conta entre os dons naturais (Institutas 2.14).

“Pegou”? Arte é dom gratuito, comum a todos os homens. Não há como definir arte em termos cristãos ou seculares. O que existe é arte boa, que louva a glória da graça de Deus (Ef 1.6), ou arte má, que louva a rebeldia humana contra a beleza da santidade do Senhor (Sl 96.9). E veja que não estou falando de coisas bonitinhas e feinhas. Quando a Bíblia canta ou pinta a natureza criada, ela o faz para glória do Criador. Quando declara a feiura da queda, em verso ou prosa, revela a beleza da redenção. Quando pinta um quadro à luz da verdade, ilumina a tristeza da mentira e a alegria da justificação. Tudo isso não é teoria evangelical, mas graça comum a que todo joelho tem de se dobrar e confessar: Jesus Cristo é Senhor!

Além da subida santidade de Deus e da maravilha que ele permite ao coração humano, o tema da arte tem reflexos em questões tão terrenas quanto nossa calva saudosa de cabelo. Explico: nosso conceito pessoal de arte não é motivado pelo belo de Deus, mas por nossas vaidades – seja da basta cabeleira seja da careca, de que, como disse o poeta, “uns são comensais e outros, adversos”. Por isso, dividimos, a nosso gosto, as artes sacras e as seculares. Permitimos, até mesmo, o “cântico” medíocre na forma musical e na letra antibíblica, e proibimos a música “secular”, mesmo que seja bonita e verdadeira naquilo que comunica.

E não é só. Arte é coisa que se estende além dos sentidos, à atuação humana. Francis Schaeffer já falava da “beleza da verdade e beleza do amor”. Na verdade, o amor humano – amor que é dado e não requerido – é uma arte que brota do conhecimento do amor de Deus em Cristo. Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz (Hb 13.15-16).

Calvinismo também é uma arte. Arte que não veio de Calvino, mas do Espírito, por meio de Paulo: Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões... Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente .... e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá  (Rm 14.1,5; Fp 3.15).

Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, março 23, 2011

QUE ESPERANÇA?


Na terrinha que me viu crescer havia uma expressão: “Que esperança.” Era um desespero! “Vamos lá?” “Que esperança.” “Posso?” “Que esperança”. Criança que ouvisse dessa (des)esperança podia tirar o cavalo da chuva. Eu não entendia muito bem essa coisa de cavalo na chuva, mas que esperança? Parece que ninguém também sabia. Um dia, caipira emprestado, eu selei o zaino e, na porteira do curral, esperei pelos filhos que ainda apertavam os arreios dos animais. Um chuvisco de molhar bobo começava a incomodar, e eu chamei: “Vamos lá?” Mas que esperança? Quando puxei o cavalo para debaixo do telheiro, foi que atentei: perdida a esperança, só resta tirar o cavalo da chuva.

A questão é que esperança não é coisa que se perca; ou tem ou não tem e, se tem, não perde. Ninguém pode perder o que não tem. Num destes dias, esperando a patroa, na calçada em frente de um armarinho, senti os primeiros pingos da chuva anunciada e resolvi entrar no carro. É claro que, quanto a ela, não tenho jamais de tirar o carro da chuva. Depois de 45 anos, a confiança em que ela cuida de não demorar (é um pé lá outro aqui) é maior do que minha paciência. Foi ela mesma que me ensinou, certa vez, quando me ouviu dizer “estou perdendo a paciência”: “Você não pode perder o que não tem”. Você entendeu? (Não vá dizer “que esperança”.) Esperança que é esperança é feita de certeza, confiança, paciência, tudo bem ajustado como deveriam ser arreio de montaria ou mecânica de carro.

Se me perguntassem o que considero ser o aspecto mais sensível do processo de aconselhamento bíblico, eu diria: a esperança. Davi, no Salmo 20, encorajando o coração atribulado, falou da segurança e do socorro de Deus, da aceitação que sempre achamos nele, e da esperança da realização dos nossos desígnios segundo sua vontade. Ele disse: Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do Senhor, nosso Deus. Eles se encurvam e caem; nós, porém, nos levantamos e nos mantemos de pé (vv. 7-8). O que pode ser percebido, aí, é que a esperança, entre a certeza da fé e a atuação do amor, é o elemento que fortalece o coração para as transformações que Deus intenta para nosso caráter (“nos gloriamos em o nome do Senhor”).

Isso é tratado por Paulo, em Romanos 5.1-5. Uma vez seguros no socorro provido na justificação em Cristo, temos paz com Deus (aceitação) e, pela fé, certeza do acesso a essa graça. Assim, gloriamo-nos na esperança da glória de Deus (v. 2c). Os conceitos de glória e gloriar devem ser bem entendidos. O Antigo Testamento usa palavras que os associam ao “peso do Senhor” e “brilho do Senhor” e “beleza do Senhor”; o Novo Testamento emprega palavras que falam do “brilho do Senhor”, “iluminação do Senhor”, e virtude do Senhor comunicada aos que são chamados a participar de sua própria natureza (cf. 2Pd 3-7). Paulo continua, dizendo que, na tribulação, o processo de reflexão do caráter de Deus é exercitado na perseverança (em obedecer à sua vontade revelada), realizado na experiência (aplicação dos seus mandamentos e promessas) – tudo motivado pela esperança que não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo (v. 5; cf. Rm 15.4).

Tem muita gente querendo tirar o cavalo da chuva. Dizem: meu marido, minha esposa, meu filho, meus pais, minha igreja, meu problema, meu pecado: “que esperança!” Uns dizem que acabou o amor que jamais acaba (1Co 13.8), outros, que está chegando ao fim a paciência que jamais tiveram, e outros ainda, que não conseguem perseverar no bom caminho ou vencer tentação ou provação. O que esse povo precisa é de uma experiência com a bondade de Deus que o leve a obter da sua Palavra o motivo de uma esperança realista (cf. 1Pd 2.1-5). Uma esperança de sol e chuva: de glória que brilha mais do que o sol do meio dia e que cai em graça como chuva na sede da terra.

A Bíblia diz: Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar. Portanto, meus amados, fugi da idolatria (1Co 10.13-14). Ora, Deus é quem socorre, liberta, transforma, capacita, fornece recursos e dá força – crer menos do que isso configurará idolatria.

Uns confiam que o pecado lhes proporcionará a recompensa que esperam, que o divórcio lhes trará a liberdade que desejam, que o conselho dos ímpios os levará a bom termo, que a própria vontade os conduzirá à vitória; outros, que não haverá poder que os ampare ou que os transforme ou que controle a situação. Tudo isso é idolatria de quem pensa menos de Deus e muito do homem. Só há uma maneira para vencer essa idolatria, e essa é uma de desesperar da esperança, quer otimista quer pessimista, para esperar no Deus dos céus contra toda esperança da evidência terrena (cf. Rm 4.18).

Lembre-se sempre desta declaração de Paulo: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6); e disto: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus; e disto: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. Essa esperança certamente nos ensinará e capacitará para a lida com cavalos e carros e com as pessoas e o nosso próprio coração.

Wadislau Martins Gomes.

sexta-feira, março 18, 2011

TERREMOTO, TSUNAMI E DESASTRE NUCLEAR, NO CORAÇÃO




Gilgamesh, irado contra a injustiça, apela ao deus Shamash
 
Desta vez, terremoto e tsunami não causaram tanta devastação nas almas já prevenidas com as escoras da autojustiça. Tal como o Japão é louvado pelas soluções empregadas em edificações com vistas à proteção desses “atos de Deus”, assim há quem se previna da ação de Deus, fundamentando ataques e defesas na própria consciência (cf. Rm 2.15). Aqui, no soco firme dos brasis, alguns trataram de abalar a imutabilidade de Deus a fim de explicar tremores do mal e inundações de dor que assolam a alma (Pv 4.1-27). Poderá ser até que não dê em nada; mas, pelo menos, acha o estulto, a mão erguida contra o céu é prova da insatisfação com tudo isso que está aí fora!

Ao ler coisa escrita por quem, um dia, disse crer na soberania e na bondade de Deus e, hoje, muda sua interpretação da Palavra revelada, fico pensando que o terremoto e o tsunami conseguiram chegar aqui. Vai ver que é por que a crença não era a de uma fé em Deus, mas fé na fé. Isso, porque nossa crença básica (a que realmente entretemos no fundo do coração e que controla nosso comportamento) é a base com que interpretamos o mundo e seus eventos. Sem os óculos da graça de Deus, tudo o que o homem vê é desgraça.

Quando atrita com as camadas superficiais da insegurança humana, essa (des)crença profunda abala a esperança. Essa ira, muitas vezes, provoca explosões que derramam lavas ferventes e montanhas de água fria sobre a fé. Outras vezes, como se fossem acidentes nucleares, liberam radiações de falsa piedade, que consomem a mente e o coração do povo machucado pela conturbação da natureza decaída e da alma ferida pela carência da glória de Deus.

Não desejo argumentar com aquele que pretenda mudar a natureza do Deus eterno em função de uma incompreensão da realidade presente. Com esse, se ele quiser, poderemos conversar em privado, a fim de que as sujidades do coração não aflorem publicamente, expostas pelos cataclismos existenciais. Quero, sim, falar aos cristãos que possam se abalar com as palavras de falsos repórteres observadores das fronteiras entre o divino e o humano.

Aos verdadeiros adoradores de Deus, digo que o mal não tem existência própria, mas é o bem quebrado na catástrofe do Éden. Quando Deus perfeito criou o mundo fora de si mesmo, criou algo bom por natureza, mas menos que perfeito, pois só ele é Deus. No entanto, em seu desígnio eterno, decretou que, na própria essência dessa criação – o Filho, o Verbo – um dia, nós, menos que perfeitos, seriamos feitos permanentemente bons por meio da obra redentora de Cristo: encarnação, vida de obediência, morte vicária, ressurreição e ascensão. Hoje, o bem quebrado mostra uma face avassaladora e sua nuvem radioativa impede que o bem de Deus seja visto. Mas, para aquele a quem a Luz do mundo afasta as trevas da descrença, todo mal é coberto de graça consoladora e promove o bem dos que são chamados à fé.

O verdadeiro crente não teme o homem e o mundo, mas é tomado da sabedoria do temor do Senhor. Humilde, ante as forças pujantes da natureza decaída e a sobrepujante graça do Criador e Redentor, o verdadeiro crente adora o Deus da Criação, em vez de adorar a criação, temendo-a e reinterpretando Deus à sua falsa luz. Deixa-se transformar pela ação do Espírito de Deus, em vez de pretender mudar o Deus que age, e sempre com justiça e bondade.

Certamente, dói na alma a dor que dói concreta na vida do meu irmão de carne e sangue. Entretanto, dói mais ver que essa dor é capaz de abalar a fé do meu irmão no sangue de Jesus Cristo e na unidade do Espírito. Dói ver a desesperança inundando e levando de roldão a casa mal fundada no coração em que deveria estar a casa na Rocha. Dói ver o amor do coração humano destruído e incapaz de anunciar com efetividade a segurança e confiança em um Deus que é o único movedor imóvel e transformador imutável.

Esse diz com os filhos de Corá:

Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam. Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; jamais será abalada; Deus a ajudará desde antemanhã (Salmo 46:1-5).

Esse diz, como verdadeiro profeta: Creio, meu Criador, Redentor e Senhor, que estás no controle, presente e em autoridade sobre toda a terra e toda massa de grande águas, Ouvi-te na voz da tua justiça e meu íntimo se comoveu, entendi a podridão dos meus ossos e que em silêncio, devo esperar o dia da angústia. O filho de Deus considera a justiça de todos os atos de Deus quando considera seu próprio coração. Ainda que o terremoto seja de 8.9 e que venham os tsunamis e que a ameaça nuclear me bafeje o rosto, e os homens se rebelem contra ti e me acusem de ingenuidade ou obscuridade, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza. (Cf. Habacuque 3.15-9).

Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, março 09, 2011

O FILHO DO TECELÃO*

O Tecelão -- Van Gogh

- Papai! - a voz de Andros soou estridente - De onde vêm os teares?

Em meio à modernidade da viscose e da microfibra, um artesão preservava como herança de família, o gosto e a lida na tecelagem manual. Para muitos, coisa para turistas. Para ele, opção de vida. Pouco dinheiro, muita satisfação. O filho talvez até tomasse gosto e mantivesse a tradição. À frente, no tear de pisos, o ritmo dos liçaróis cruzando os fios da teia tensos no órgão e no cilindro soava como pulsação de vida. Pé no pedal e mãos no pente e na lançadeira, o tecelão entretecia, coração, músculos e nervos na confecção da trama. Havia uma antecipação de tecido na urdidura, uma expectação de vida como teia de desígnio, trama de propósito, tapeçaria de história - quando tecelão e tecedura se encontravam na obra criativa.

O filho do tecelão, menino, desejava reatar a amizade com o pai. Não sabia sequer por que a atração pelo trabalho a que o pai dedicava o dia inteiro, a vida inteira. Sobe, lança, desce, ajusta... Os fios partidos naquela manhã já haviam sido arrematados. Só lhe restavam culpa e admiração - o pai consertava fios partidos.

- Sei lá. Este já foi do meu pai, e antes dele, do pai do meu pai... Parece que esteve aí o tempo todo...

- O tempo todo? Então o tear é “que nem” Deus.
O tecelão não gostava de conversar com o filho sobre Deus. “Sabe lá se ele existe?” Houve um tempo em que ele mesmo tinha crido. Foi quando ele ainda era menino, e o pai ameaçava, dizendo:

- Olha que Deus está vendo. Qualquer coisa errada, ele !

deveria ser alguma coisa terrível. Assim como se Deus estivesse pronto para abater a vítima incauta. Depois, percebeu que Deus não estaria sempre atento. Havia coisas que ele não via, ou que talvez deixasse passar. E nesse caso, o não era tão pronto. Mais tarde, achou que Deus talvez nem mesmo existisse.

- Não, o tear não é Deus. Não vê que eu preciso operar o tear. Se ele fosse Deus, ele é quem me operaria. Se eu não trabalhar nele, o tear não faz nada.

A conversa estava indo para fora de controle. Quem conhece menino sabe que não se pode dar trela.

- Então, quem fez o tear?

- Não sei, menino. Apareceu aí.

O menino guardou a noite toda a figura de um imenso tear, o primeiro de todos os teares, que se fez presente aí – seria por acaso? Talvez um vento cósmico, como aqueles da aula de ciências, que tenha trazido para cá moléculas promissoras de teares? Tempos sem conta teriam passado para que elas se juntassem num tear? Mas como saberiam disso, antes que fossem? Que sentido? Que desígnio as juntaria e entreteceria? Que propósito? Coisa demais para uma cabeça adolescente.

– Talvez, fosse mesmo Deus, que criou todas as coisas, aquele que criou o tear.

Eu fiz a terra e criei nela o homem; as minhas mãos estenderam os céus (Isaías 45.12) – segredou-lhe o Espírito, mas Andros não estava pronto para ouvir.

Na manhã seguinte, o pai exibiu, orgulhoso, a obra acabada. Fio a fio juntado sob sua autoridade de tecelão. Uma torcida aqui, um arremate ali, uma trançada, um aperto, cores vivas nas formas centrais, cores esmaecidas no fundo, pareciam ter sido despertadas da matéria. Madeira, algodão, ferro e mãos haviam despertado qualidades estéticas e emoções inusitadas.

- Não artesanato - ele disse -, obra de arte!

Mais tarde, o filho voltou ao pai que admirava a tapeçaria estendida sobre a mesa, e perguntou:

- Pai, eu nasci ou sempre estive aí?

Vinte anos se passaram. Com o filho do tecelão cresceram também as perspectivas, as expectativas, os erros, as preocupações, as perguntas.

- De onde a motivação para urdir a vida e imaginar o homem? - indagou, homem feito.

- Do sempre... do nada... do acaso - responde o século.

- Qual o sentido?

- Nenhum...

- Então, qual o propósito?

- Existir? Viver?

- Um tear tecendo tapetes sem chão, tapeçarias sem parede, gente sem origem e sem destino...

Durante os anos, o filho do tecelão viu muitos fios rompidos. Desobediências, mentiras, desafetos. Pequenos erros na urdidura da vida, muitos dos quais ficaram ali, despercebidos, e tantos outros que o pai ajudara a consertar. “Será que Deus existe?”, substituiu a questão: “Será que Deus sabe?”

- Melhor com Deus? Melhor sem Deus? Como o reatamento? Onde a rematação? - pergunta o filho do tecelão.

- Sem Deus. Ao acaso. Da melhor maneira. Impossível de saber - responde o século, impaciente.

- E eu? Apareci aqui?

Se vista apenas como um tear surgido de um estado impessoal e inconsciente - que, de maneira inusitada, processa qualidades estéticas, éticas, morais, e que consegue indagar a respeito de sua própria natureza - a personalidade humana separada de Deus parece um conceito bem perverso. O pensamento secular precisou atribuir fixidez à personalidade humana porque acredita que o mundo exista ao acaso, sem desígnio ou propósito. Reduziu tudo a carne e sangue. Entretanto, esse reducionismo não satisfaz a ânsia de ser, de conhecer, de pertencer. Tal como os liçaróis, abrindo, cruzando e prendendo a trama, a alma anseia movimentos de vida.

– Deve haver algo mais para que seja vida. Algo além de mim mesmo, algo dentro de mim, algo que se estenda para o mundo; um sentimento, um tremor de vida – murmurou Andros.

– Deus não existe – declarou o século, rabugento.

Soltos, sem as amarras da crença, os fios da imaginação não apreendem o sentido do tecido. Antes, promovem a rebeldia da descrença que dá à luz a autonomia; nutrem a reversão insidiosa da infidelidade que faz crescer a solidão; e estabelecem a inversão da origem e da finalidade do ser na descrença de tudo. A despersonalização secular do ser humano, sua carência de um referencial além da própria humanidade, acaba sendo aborrecida e irada, pois não oferece explicação para a pessoalidade que perpassa tudo quanto existe.

Certamente, somos todos tecelões de vida no tear de Deus. Jamais explicaremos o tear nem os fios nem a urdidura, mas seguimos pela vida criando cenas e desempenhando papéis, rompendo fios que em vão tentamos remendar. Sobretudo, não nos deixam as laçadas das indagações existenciais, o desejo de reatamento, e a expectação de um arremate final. O desespero solitário e impotente do homem sem Deus tece explicações avessas, imagina pontos e nós para modificar o sentido das cenas.

Davi, no Salmo 139.19-22, expôs a frustração de sua alma em relação àqueles que desconhecem o controle, a presença e autoridade de Deus. Pediu a Deus que desse cabo do homem que perverte a verdade em mentira por causa da rebelião insidiosa que movem contra o Senhor de todas as coisas. Suas respostas às indagações mais prementes do ser aborreciam a sua alma. Os inimigos de Deus eram os seus inimigos. Por quê? Porque ele conhecia ao Deus de sua criação e sustentador da sua vida, e ao poder da sua comunhão, e sabia que, sem ele, não há expectativa de vida, de reatamento de arremate feliz.

Quanto a ele mesmo, Davi revelou entendimento sobre o tema da pessoalidade e de sua referência divina. Sabia-se conhecido e sondado por Deus. Seus motivos e comportamentos estavam à mostra diante daquele que penetra os pensamentos. O rei Davi entendia a linguagem difusa na criação, a revelação do próprio Criador. Antes que a palavra lhe chegasse à língua, Deus já a conhecia. O Deus que criou o mundo por meio de sua palavra cujo poder agora o cercava por trás e por diante e por cima com mão criadora e mantenedora. Ele sabia que Deus é o ambiente do homem e que está no completo controle de todas as coisas e seres. Não conhecia o pastor de ovelhas a palavra de Deus? Não sabia pela revelação da Escritura que o Deus de seus pais - de Abrão, de Isaque e de Jacó, o Deus pessoal - havia criado o mundo segundo sua pessoalidade e como um ambiente próprio para a pessoalidade humana? Uma linguagem tácita o cercava por todos os lados, revelando um conhecimento que, ainda que não pudesse ser exaustivamente conhecido, não poderia também ser evitado. Para onde fugir do conhecimento de Deus? Sua presença lhe era patente em todas as dimensões. Seu controle estava na mecânica dos dias e na física da luz e das trevas. Especialmente, era-lhe evidente a sua autoridade. Deus era o seu Criador pessoal.

Pois tu formaste o meu interior tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. Tais pensamentos eram preciosos para o rei, grande e incontáveis (Salmo 139.1-18, 23-24).

O Tecelão da vida havia formado e tecido o salmista no ventre de sua mãe com fios e padrões ósseos e celulares, e o próprio código genético, de modo “assombrosamente maravilhoso”. Ele sabia acerca da extensão da soberania do seu Criador e da profundidade da pessoalidade impressa na sua obra de criação, especialmente, na criação da pessoa humana. Sabia que o Senhor e Criador da complexidade de cada um dos seus dias, tem autoridade sobre a vida do homem para escrever a sua história e para pedir contas dela.

Wadislau Martins Gomes

* Do livro de W. M. G., Personalidade centrada em Deus, em preparo.