sexta-feira, abril 29, 2011

O HEREGE E A VITIMIZAÇÃO


Vitimização é um problemão danado; nem o dicionário aceita. O sentimento é indescritível. O que é possível fazer para dar uma ideia, é imaginar. Você entra em um banco por aquela porta gerativa de ansiedade. De repente, a respeitável anciã ao lado se lança contra a parede, estatela olhos e boca em desafino, dedo em riste em sua direção: “Não, por favor, não!” O bem treinado vigilante se lança ao chão, a senhora da mesinha do fundo se levanta brava como gerente, e todos os olhares convergem para a cena.

Quando cada participante da peça chega em casa e conta o caso, todo mundo acaba sendo vítima. Seu sentimento, no entanto, será o pior. “Se pelo menos não fosse uma velhinha, ela ia ver”. Vitimização tem disso: o fraco abate o forte exagerando fraqueza ante uma pretensa ameaça. Você sabe: o menor infrator pego em fragrante, o cônjuge que abusa o outro, o motociclista depois da cortada e do acidente, e o atacante que errou o golpe e acertou a parede.

Com tudo que havia para me incomodar na entrevista do Gondim, na Carta Capital de 27 de abril, fiquei engasgado com uma expressão: “Fui eleito o herege da vez”, como o destempero da velhinha vitimizada, gritando um “Deus me livre de um Brasil evangélico”. Na verdade, lá no banco, você poderia ter respondido: “Claro, senhora, como posso ajudá-la?” Mas nas páginas da imprensa giratória, ouve-se o grito e deixa-se pra lá. No entanto, não quero levar para casa o sentimento de que fui vítima do golpe da velhinha, não quero deixar de ajudar aos que veem a lição de vitimização; nem quero discutir opiniões, segundo diz 1Tm 4.7. Talvez, em benefício da alma da velhinha e dos circunstantes que ainda confiam nas instituições da fé verdadeira, eu diria o seguinte.

Deus me livre? Que deus? Um que não tem controle, não está sempre presente nem tem autoridade para livrar sua criação de acidentes e incidentes? O Brasil evangélico é mais poderoso do que esse deus. Claro que eu vejo esse Brasil evangélico com apreensão, mas, em vez de atacar a fé, ataco o pecado da rebelião que é descrença, da reversão mental que é infidelidade e da inversão da referência homem/Deus. A verdadeira igreja de Cristo, por disposição da graça de Deus, está aí, no meio da igreja brasileira. Somos pecadores, não menos do que todos os homens, e se nos alcança a graça salvadora, somos justificados pelo Deus que justifica o ímpio. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

Aborto, homossexualismo e influência islâmica? Esclareça-me algumas coisas: aborto é livre; mas, e se iniciássemos um movimento de aborto de papagaios e baleias? Homossexualismo é opção natural de identidade sexual, mas desordens de personalidades devem ser psicológica ou psiquiatricamente tratadas? Influência islâmica no mundo faz parte da ordem da história, mas proibição legal e ilegal da pregação cristã nos países islâmicos é de boa ordem? Ora, ora, esses temas não estão na agenda do cristianismo mais do que outras, e só entram em pauta por causa da efervescência do nosso tempo.

Tem mais: a cosmovisão anticristã é certa; a cristã é errada? No Brasil do futebol, é sabido que o jogo tem dois times, dois gols e regras próprias, e que o acerto pluralista (“eclético, ecumênico”) que seja bom para os dois lados é infração. Aqui também, ora, há duas cosmovisões possíveis: a do regenerado e a do não regenerado. Um tem seu ponto de referência em Deus; o outro, no homem. “Nós nos revoltamos quando um político abre a porta para o apadrinhado”. Nós também. Mas também incomoda quando o raciocínio é: se é assim comigo (ele), “Por que seria diferente com Deus?” Com efeito, é porque Deus não imita o homem, mas chama o homem para espelhar seu caráter.

“Se para ter sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então minha mensagem está fragilizada”. Aí, eu concordo, mas não com a maneira intencionada. A mensagem da vitimização, aí vista, sim, é frágil. Não da fragilidade humana que, como a erva, de manhã nasce e logo seca, pois essa é bíblica (Sl 90; Is 40; Tg 1; 1Pd 1; ver Mt 6; Lc 12). Antes, é fraca por causa da falta da transcendência que permite que nos comuniquemos (transcendência pessoal) e que permite que nos comuniquemos com Deus; sobretudo, que nos permite a eternidade (Ec 3.11). Nisso sim, há fraqueza doentia, moralmente má, eticamente perversa, que leva o homem a chamar ao soberano Deus da Bíblia de títere (marionete, pelego, bufão). “Vivemos como se Deus não existisse porque só assim nos humanizamos...”. Isso é que é se jogar contra a parede, gritando: sou vítima de Deus, enquanto o ataca. Mas não tem nada não; não há como reprimir a glória de Deus. Ele está no controle, presente e em autoridade.  Como disse Gamaliel: porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele (At 5.38-39).

Wadislau Martins Gomes

sábado, abril 16, 2011

DE ALMA E DE ARMAS



OU: FOCINHO DE PORCO NÃO É TOMADA

“O que esse pessoal não prova em nada é a relação entre as armas legais e os índices de violência. A nova tentativa de tirar as armas legais de circulação só vai expor o cidadão comum aos delinquentes, criminosos e lunáticos armados ilegalmente” (Leonardo Bruno, 13 Abril 2011, http://www.midiasemmascara.org/).

Inspirado no artigo citado acima, segue uma contribuição cristã para a solução do problema da violência.

Algumas figuras são tão boas que se encaixam na cabeça como plugue macho em tomada elétrica. Nessa linha, a imagem de Pv 11.22 é uma preciosidade: Como jóia de ouro em focinho de porco, assim é a mulher formosa que não tem discrição. À primeira vista, nós, homens, concordamos, levantamos o nariz, e mostramos o texto para a namorada ou esposa. Contudo, não confunda esse focinho de porco com tomada, pois a comparação aplica-se ao homem e à mulher, como vem no versículo seguinte: O desejo dos justos tende somente para o bem, mas a expectação dos perversos redunda em ira (v. 23). Em outras palavras: o desejo de justiça é uma jóia, mas quando injustamente reivindicada, revela nosso focinho de porco.

Essa definição é significante especialmente quando (i) uma violência geral e incontrolada toma conta de um número crescente de indivíduos e de grupos; (ii) a sociedade fica paralisada e entorpecida à espera de uma ação efetiva do governo; e (iii) o governo exibe inabilidade para discernir uma política correta e incapacidade para lidar com o problema. Creia nisto: homens tomados de ira maligna e cultores de violência só poderão ser combatidos por homens de ira santa, cultores da paz de Deus.

A ira, ao contrário da ideia comum, é primariamente uma virtude (cf. Rm 1.18 e Ef 4.26). Será correto, até mesmo, dizer que a ira é o diamante das jóias entre as virtudes morais. De fato, ela é o sentimento que nos sensibiliza a fim de reconhecermos uma injustiça cometida. A ira está para o senso moral assim como a dor está para o senso de integridade física. Não é verdade que, se o porco tivesse a expectação do abate, não se deliciaria tanto com o processo da engorda? A ira torna-se pecaminosa e destrutiva quando a reação contra a injustiça é feita com base na mesma injustiça. Por isso é a que Jesus também disse que, se nosso senso de justiça não for distinto e maior do que qualquer injustiça recebida, jamais apreenderemos a justiça do seu reino (Mt 5.20) e: todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento (v. 22).

Confrontadas quanto à ira pecaminosa, geralmente as pessoas negam ou justificam o sentimento: “Eu, irado? Não!” Ou: “Mas também, veja o que me foi feito!” Poucos reconhecem a natureza do sentimento. Entretanto, não há como esconder, e a ira injusta revela nosso focinho de porco. Homens e mulheres, ao se queixarem de maridos, esposas, filhos, patrões, empregados, colegas etc., estejam certos ou errados, sempre exibem humores irados. De um, a raiva intestina explode como espirro; de outro, a amargura azeda e escorre; e em ambos os casos, revela-se o focinho de porco (cf. Hb 12.14-17). Só há uma maneira justa para lidar com a ira: Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (Rm 12.21). E daí, se meu irmão foi mais aceito? Se meus pais erraram? Se meu trabalho não foi reconhecido? É Deus quem julga o homem; por que, então, eu tento acusá-los, e a outros (Cf. Rm 8.33)? Não seria o caso de atentarmos ao próprio rabo antes que bata a porta? Como disse Tiago, quem conhece a Palavra e não considera sua verdade é como quem olha no espelho e, depois, vai embora esquecido (Tg 1.23-25) do próprio focinho.

A Bíblia diz que a estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o Senhor que o seu coração se ira (Pv 19.3). Por que é que nossa rebeldia é sempre contra a “religião”? Ateus e crentes amargurados sempre se voltam contra Deus. Ele é sempre a causa da sua miséria. No entanto, no fundo, não queremos enfrentar a verdade porque ela é luz que denuncia nossa cara suja do último bocado de pecado. Sob essa luz, olhando no espelho, posso até imaginar a cara do Caim, filho do Adão e da Eva Silva-Éden (assassino do irmão) quando Deus lhe perguntou: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante (Gn 4.6)? A autojustiça de Caim brilhava em seu rosto como jóia em focinho de porco. O rapaz teria ouvido dos pais a história do coração a respeito de um tempo bom, na Criação, em que a vida tinha sentido, em que dignidade pessoal e aceitação amorosa regiam os relacionamentos. Entretanto, sua experiência era uma de difícil digestão: por que seus pais fizeram o que fizeram e por que ele é que deveria ter saudade do jardim que não conhecera e ainda ter de aguentar as pendengas da família? “Eu não estava lá; e nem pedi para nascer!” Deus ainda perguntou, retoricamente: Se procederes bem, não é certo que serás aceito (Gn 47)? No fundo, a ira de Caim era contra o que ele julgava ser uma injustiça de Deus – que não o aceitara.

Sei que não é fácil assumir que o focinho no espelho é o nosso próprio. Fica bem mais fácil se nosso irmão, nossos pais, ou o povo, forem causas da desgraça. No entanto, é nosso semblante que se encontra descaído, e é nossa a ira amargurada que cria nossa mesma história do coração. Deus não disse: “se os pais ou o irmão procederem acertadamente, alguém será aceito”. Se quisermos viver bem a nossa vida, teremos de vivê-la nós mesmos diante de Deus, pela graça e mediante a fé. Ansiamos por uma vida de independência e autonomia, mas levamos uma existência de escravos, presos pelas correntes da transferência de culpa. A culpa é da religião, a culpa é do governo, a culpa é da sociedade... de quem mais? “Minha é que não é”, diz alguém. É minha, eu digo, quando não entendo a ira

Deus concedeu ao mundo dois ministérios de homens: (i) o da pregação da paz com Deus e entre os homens, em Cristo e no poder do Espírito, e (ii) o da disciplina da paz, sob responsabilidade do governo, ao qual deu o poder da espada. Ambos os poderes, a fim de manter fidelidade a Deus, deveriam saber lutar com suas próprias armas. De nossa parte, deveríamos saber esgrimir com a palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas (2Co 6.7). O governo deveria brandir com maestria a espada da lei, assegurando proteção ao indivíduo e à sociedade, tanto na coibição e punição da violência quanto na garantia ao indivíduo de proteger a si mesmo e à parte da sociedade em que vive. Para isso, teríamos de ter consciência de quatro coisas: (i) o governo não é a sociedade, mas é formado de grupos de membros chamados para agir em benefício da sociedade; (ii) o governo não é todo presente e poderoso para agir sem o necessário concurso dos cidadãos de bem; (iii) assim como a Palavra de Deus é instrumento de ação do ministro, mas deveria ser usada por todos os homens, também o uso da espada da justiça não é restrito ao governo; portanto, (iv) todo homem de bem é “governo” de sua própria vida e membro de governo de outras esferas tais como família, vizinhança, escola etc., com a missão de proteger o próximo.

Sobretudo, individual e corporativamente, deveríamos saber lidar com a ira. Retirando a boa ira, perderemos noção da justiça; inativos contra a má ira, incitaremos a injustiça. A escolha é essa: onde por a jóia – no focinho do porco ou no rosto da mulher bela?

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, abril 08, 2011

PERSEGUINDO UMA POLÍTICA CRISTÃ (2)


CONFISSÃO DA CULPA NACIONAL

Wellington Meneses de Oliveira assassinou onze e feriu treze crianças, e matou um pouco mais a alma moribunda do povo brasileiro. Atroz o crime, enorme a culpa do indivíduo e da sociedade.

Cubra-se de vergonha a Pátria que mata seus filhos – e confesse sua culpa. Confesso eu, que não tenho gritado até a voz rouca contra tanta miséria e covardia nem tenho sofrido até o sangue pelos meus irmãos de solo. Confesse o sistema revolucionário brasileiro que planta a violência e espera que o povo cultive flores. Confessem governantes e legisladores cujos exemplos de imoralidades não cuidadas destroem a moral da Nação. Confessem juízes e advogados, rápidos para emitir opiniões e morosos para fazer valer a justiça e o direito. Confessem os educadores que não mais ensinam nobreza e dignidade, mas estimulam a mediocridade. Confessem os servidores públicos que abusam da posição e passam ao largo da praça do povo. Confessem os industriais e comerciantes que atravessam a Terra em busca de ouro e deixam atrás um rasto fétido de caras inutilidades. Confessem as minorias iradas e as maiorias omissas. Confessem os pais que ainda não perdemos nossos filhos e que, por isso, amanhã esqueceremos a tragédia. Confessem as religiões idólatras que pregam o diabo a quatro. Confesse a igreja evangélica que abandonou a pregação profética em nome de novidades caducas. Confesse aquele que é rebelde contra Deus e que só pensa nele quando tem de ter alguém para botar a culpa.

Perdoem-nos, ó pais e irmãos, por permitirmos que as coisas continuem desse jeito. Perdoem-nos o soluço tardio e a ira inoperante.

Perdoe-nos, ó Deus, porque vivemos no país do carnaval, desfilando fantasias de grandezas em pleno dia de cinzas!

Wadislau Martins Gomes

quinta-feira, abril 07, 2011

PERSEGUINDO UMA POLÍTICA CRISTÃ


O cristianismo sofre ataques de todo lado, principalmente de bocas que se julgam defensoras de liberdades e direitos. Por exemplo, a “boca rica” das comunicações, a rede de TV Globo, que (des)faz a cabeça do país, e em que bocas pobres de discernimento mastigam insensatez. Se o comentário é sobre a queima do Alcorão em uma pequena igreja que almeja o show, lá vem um que diz, fora de contexto: A ciência já provou que a humanidade nasceu na África. Eu pergunto: em que laboratório a experiência foi realizada, testada e repetida, e qual é o enunciado do fato científico do nascimento da humanidade, em qualquer lugar? O cristianismo, pelo menos, tem respaldo em documentos históricos revelados por Deus. A notícia de que o Brasil foi elevado à categoria BBB na confiança do investimento internacional vem na mesma panela do Big Brother Brazsil e do último quadro da criminalidade, cozida ao molho cínico do comentário: Já houve aquela do aborto na campanha da Presidente e, agora, ainda querem botar mais religião na política? O cristianismo, por sua vez, tem a companhia da boa moral e ética.

O blogueiro Reinaldo Azevedo fisgou o nervo do dente da questão (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-religiao-verdadeiramente-perseguida-no-mundo-hoje-e-o-cristianismo-ou-de-corajosos-e-covardes/; 04/04/11). De onde vem a sanha, essa baba raivosa, essa perseguição canina? Por que ninguém ataca o noel nem o saci? Certamente, essa ira procede de uma rebelião contra tudo que se chama Deus, que reverte a mente e inverte o ponto referencial das coisas (cf. Rm 1.18-32). Como disse o poeta que amaldiçoou a própria alma: “terra maior que os céus, homem maior que Deus” (Bilac). Assim, perdidas as noções de distinção e proporção, só podem falar em termos que sequer são surreais. Como também já foi dito: nem estão errados, pois para isso teriam de ter estado certos.

No entanto, esse negócio de cristão na boca do leão é coisa antiga. Em um sentido, faz parte da luta contra o mal, e, em outro, opera sabedoria (ver Tg 1). É certo que o crente não deveria sofrer por ser transgressor da lei nem por burrice. Muita perseguição seria mais bem enfrentada e muita poderia ser evitada mediante a obtenção de uma boa cosmovisão cristã. Todo cristão deveria entender biblicamente a questão política. Tem cristão de esquerda, de direita, de centro, de cima (caindo de paraquedas), de baixo (do pano) e tem quem invoque a separação entre igreja e estado. Está certo, mas não confunda essa separação sadia com a enfermiça separação entre fé e política. Falta fé na política porque falta muita fé, na política; falta política centrada em Cristo e eleitor cristão consciente da própria fé.

O que o cristianismo crê, é que, primeiro Deus criou um homem e, depois, uma mulher, diferentes na individualidade e iguais na humanidade. Estão aí, assim, duas esferas de atuação humana – a individual e a social. São duas esferas com domínios próprios (autárquicas, isto é, soberanas sob a soberania de Deus) cujas interações formam uma terceira esfera subalterna, a do governo. Indivíduo tem cara, nome e domicílio, e sua atuação compreende três movimentos: para cima (Deus), para dentro (ser interior) e para fora (o próximo e o mundo); sociedade é associação tácita de indivíduos que realizam esses movimentos por meio de deveres e direitos afins.

Governo, por sua vez, não tem realidade em si mesmo, mas sua existência está implícita na relação de indivíduos com a sociedade. Sua preeminência existe não por causa do poder próprio, mas da delegação do Deus que chamou indivíduos para que fossem seus ministros civis com vista ao cuidado da sociedade. Lembra do que Deus disse à mulher, logo após o pecado? O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará (Gn 3.16). Essa não foi uma lei, mas uma constatação da triste realidade política de um mundo decaído. Não é importante, aqui, que tenha dito à mulher ou ao homem. O fato é que a política decaída é baseada, de uma parte, em desejos a serem satisfeitos por pessoas insatisfeitas, e, de outra, na dominação de pessoas tendentes a jogos de poder.

Quando é assumido por indivíduos ou partidos que agem como se fossem deuses – mesmo que o discurso seja um de democracia, justiça social, erguimento financeiro econômico da nação e excelência administrativa – o governo se torna déspota e sujeito a corrupção. Por quê? Porque não ministra sob a vontade de Deus nem se sujeita à prevalência dos indivíduos que o elegem, nem cumpre seu papel de protetor do bom cidadão e juiz do homem mau. Antes, entrega-se à luta pela obtenção e manutenção do poder a qualquer custo – muitos, agindo como homens maus.

Para cumprir o papel de ministro civil de Deus, o governo precisaria respeitar e implementar as esferas individuais e sociais, e todos os círculos de autonomia a esses vinculados de diferentes maneiras nos particulares seguimentos da vida. No entanto, ele estará incapacitado para essa tarefa, se assumir que o próprio governo seja a sociedade. Por exemplo, a família é uma esfera em que a preeminência do governo só existe quando a respeita. No entanto, o governo chamado “social” pretende ser chefe de família, pai e mãe – esquecido de que não tem o aparato necessário para gerar ou criar filhos! Dizendo-se povo, arvora-se em legislador da consciência do indivíduo. Assim, fica clara a esterilidade desse tipo de governo. Outros exemplos, como a educação, o comércio, a igreja, são círculos de autonomia dentro das encapsuladas esferas individuais e sociais. Essas esferas deveriam ser livres. Quando pretende ser mestre, proprietário ou papa, o governo excede sua autoridade e anula sua efetividade.

            Como disse o blogueiro, a questão é uma de coragem ou covardia. Quando é que nós, de natureza idólatra, deixaremos de nos curvar ante os deuses deste tempo, ante a ignorância dos sábios segundo o mundo e ante as próprias necessidades, para adorar o Deus da Bíblia? Quando é que aprenderemos a votar em quem sabe o que é governo e sabe fazer política segundo a Palavra de Deus? Certamente quando amarmos mais o estudo da Bíblia como regra de fé e prática (incluindo política) e, entre outras coisas, aprendermos a não escolher políticos pelo rótulo, mas pelo conteúdo. Aí, sim, seremos realmente cristãos em termos de abençoar o mundo ao redor.

            Quando isso acontecer, não teremos medo de perseguição. Será preciso que não sejamos perseguidos como déspotas, corruptos, falseadores da verdade, odiosos de Deus; nem como quem se omite da luta contra o mal ou da defesa da fé. Mas se formos perseguidos por causa da justiça, que Deus nos fortaleça a boca e os dentes.

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, março 29, 2011

DUAS PÍLULAS PARA CARECA



CALVINISMO É COISA QUE DÁ NA CABEÇA DA GENTE

Eu me vergo. Foi mal, o trocadilho. Contudo, atente bem a essa parábola da careca: Quando os cabelos do homem lhe caírem da cabeça, é calva; contudo, está limpo. Se lhe caírem na frente da cabeça, é antecalva; contudo, está limpo.  Porém, se, na calva ou na antecalva, houver praga branca, que tira a vermelho, é lepra (Lv 13.40-42).

É que, às vezes, a confusão existe até para quem “está careca de saber”. Passa o tempo, e o brilho da cabeça do antigo mestre vai recebendo tantos chapéus – pré-Dort, pós-Dort, neo, novo e de novo – que, uma hora, ninguém mais sabe o que é que eles cobrem. Arminianismo vira estilo de corte, tulip vira flor enroscada na orelha e calvinismo vira espelho de vaidades. Sem ofensa – você não vê que até eu ouso meter a cara nessa conversa?

No entanto, há luzes e reflexos de glória que valem a pena de ser citados e repetidos. As perspectivas de Abraham Kuyper, por exemplo, são de fazer a gente tirar o chapéu para tanta simplicidade. Não o simplismo de definições de barbearia tocadas a tesoura e pente, mas a simplicidade própria dos mestres que penetram as complexidades da cabeça. Tomado do gênio de Calvino, Kuyper levou a sério a soberania de Deus sobre todas as áreas da vida e, literalmente, “fez” escola e política calvinistas. Ele foi o fundador da Universidade Livre de Amsterdam e Primeiro Ministro da Holanda (1901-1905). Suas Stone Lectures são valiosas. Correndo risco de mostrar mais ondas de cabelo do que dobras de cérebro, arrisco uns volteios inspirados na apresentação do neo-calvinista holandês.

 (1) os temas de “Calvino” e “calvinismo” se diferenciam tal como cabeça e cabelo. O primeiro fornece o pensamento teológico apologético para a prática cristã, o segundo, o desdobramento prático dessa teoria. Aquele declara a experiência com os princípios da Palavra de Deus; este promove a experiência da vida calcada nesses princípios. Calvino instituiu sobre fé e prática cristã; o calvinismo vem desenvolvendo essa instrução nas diversas áreas da vida.

(2) Há, pelos menos, três aspectos do calvinismo a serem considerados (como cuidado com a higiene e saúde do cabelo). (i) O aspecto confessional, o qual dificilmente poderá superar o tratamento fornecido pelos documentos da reforma e pós-reforma, tais como confissões de fé e catecismos, sempre atuais na medida em que são fiéis à Bíblia. (ii) O aspecto de movimento, como rótulo denominacional, amado ou odiado em diferentes círculos, o qual não deveria ser elemento de base nem alvo de transformação. Finalmente, (iii) o calvinismo que considera a soberania de Deus sobre todas e cada área da vida e que promove a fé receptora da graça especial na ação da igreja e a da graça comum na atuação no mundo.

(3) Esse último, sim, é uma experiência de novidade de vida calcada na obra imutável de Cristo (cf. Rm 6.4). Nesse sentido, o calvinismo apresenta uma reforma religiosa sempre renovada. Como estilos de penteado. Poderíamos até chamar de aspecto hermenêutico: Deus apresenta na Bíblia a hermenêutica do seu próprio pensamento, utilizando a hermenêutica de homens divinamente inspirados, para que procedamos à hermenêutica de sua hermenêutica em nosso tempo e lugar, a fim de que em tudo e para todos seja manifesta a glória de sua graça.

Complicado, não é? Mas não desanime: vá desembaraçando esse emaranhado com o pente da Palavra, o óleo do Espírito, os movimentos das mãos em oração, vá batendo cabeça com os irmãos na unidade de Cristo, o cabeça da igreja, e você vai ver como logo a face do evangelho se ilumina. Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós (2Co 4.6-7).


CARECA BONITA É UMA ARTE, É UMA ARTE, É UMA ARTE

Ele não disse que careca era coisa bonita, mas o bom Calvino considerou, sim, que a arte é ingênita ao conhecimento humano, tão universal que não tem limites na mente e na natureza senão o reflexo da graça de Deus. A isso aponho à guisa de ilustração: como calva na cabeça; nem todos têm completa, bela, brilhante, mas todos têm ideia da graciosidade dos cabelos e da falta engraçada que eles fazem. Se meu jeito de dizer a coisa foi demais para tanta cabeça, leia o próprio reformador:

A esse reconhecimento o próprio Criador de nossa natureza amplamente nos desperta
enquanto cria os imbecis, nos quais põe à mostra de que dotes a alma do homem
excele quando não inundada de sua luz, luz que em todos, tão natural subsiste, que
a cada um é dádiva inteiramente graciosa de sua beneficência... Com efeito, a invenção ou o ensino sistemático das próprias artes, ou seu conhecimento mais íntimo e mais eminente, que é próprio de poucos, por certo que não é sólida prova da perspicácia universal. Contudo, porque atinge indistintamente a piedosos e a ímpios, com razão se conta entre os dons naturais (Institutas 2.14).

“Pegou”? Arte é dom gratuito, comum a todos os homens. Não há como definir arte em termos cristãos ou seculares. O que existe é arte boa, que louva a glória da graça de Deus (Ef 1.6), ou arte má, que louva a rebeldia humana contra a beleza da santidade do Senhor (Sl 96.9). E veja que não estou falando de coisas bonitinhas e feinhas. Quando a Bíblia canta ou pinta a natureza criada, ela o faz para glória do Criador. Quando declara a feiura da queda, em verso ou prosa, revela a beleza da redenção. Quando pinta um quadro à luz da verdade, ilumina a tristeza da mentira e a alegria da justificação. Tudo isso não é teoria evangelical, mas graça comum a que todo joelho tem de se dobrar e confessar: Jesus Cristo é Senhor!

Além da subida santidade de Deus e da maravilha que ele permite ao coração humano, o tema da arte tem reflexos em questões tão terrenas quanto nossa calva saudosa de cabelo. Explico: nosso conceito pessoal de arte não é motivado pelo belo de Deus, mas por nossas vaidades – seja da basta cabeleira seja da careca, de que, como disse o poeta, “uns são comensais e outros, adversos”. Por isso, dividimos, a nosso gosto, as artes sacras e as seculares. Permitimos, até mesmo, o “cântico” medíocre na forma musical e na letra antibíblica, e proibimos a música “secular”, mesmo que seja bonita e verdadeira naquilo que comunica.

E não é só. Arte é coisa que se estende além dos sentidos, à atuação humana. Francis Schaeffer já falava da “beleza da verdade e beleza do amor”. Na verdade, o amor humano – amor que é dado e não requerido – é uma arte que brota do conhecimento do amor de Deus em Cristo. Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz (Hb 13.15-16).

Calvinismo também é uma arte. Arte que não veio de Calvino, mas do Espírito, por meio de Paulo: Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões... Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente .... e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá  (Rm 14.1,5; Fp 3.15).

Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, março 23, 2011

QUE ESPERANÇA?


Na terrinha que me viu crescer havia uma expressão: “Que esperança.” Era um desespero! “Vamos lá?” “Que esperança.” “Posso?” “Que esperança”. Criança que ouvisse dessa (des)esperança podia tirar o cavalo da chuva. Eu não entendia muito bem essa coisa de cavalo na chuva, mas que esperança? Parece que ninguém também sabia. Um dia, caipira emprestado, eu selei o zaino e, na porteira do curral, esperei pelos filhos que ainda apertavam os arreios dos animais. Um chuvisco de molhar bobo começava a incomodar, e eu chamei: “Vamos lá?” Mas que esperança? Quando puxei o cavalo para debaixo do telheiro, foi que atentei: perdida a esperança, só resta tirar o cavalo da chuva.

A questão é que esperança não é coisa que se perca; ou tem ou não tem e, se tem, não perde. Ninguém pode perder o que não tem. Num destes dias, esperando a patroa, na calçada em frente de um armarinho, senti os primeiros pingos da chuva anunciada e resolvi entrar no carro. É claro que, quanto a ela, não tenho jamais de tirar o carro da chuva. Depois de 45 anos, a confiança em que ela cuida de não demorar (é um pé lá outro aqui) é maior do que minha paciência. Foi ela mesma que me ensinou, certa vez, quando me ouviu dizer “estou perdendo a paciência”: “Você não pode perder o que não tem”. Você entendeu? (Não vá dizer “que esperança”.) Esperança que é esperança é feita de certeza, confiança, paciência, tudo bem ajustado como deveriam ser arreio de montaria ou mecânica de carro.

Se me perguntassem o que considero ser o aspecto mais sensível do processo de aconselhamento bíblico, eu diria: a esperança. Davi, no Salmo 20, encorajando o coração atribulado, falou da segurança e do socorro de Deus, da aceitação que sempre achamos nele, e da esperança da realização dos nossos desígnios segundo sua vontade. Ele disse: Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do Senhor, nosso Deus. Eles se encurvam e caem; nós, porém, nos levantamos e nos mantemos de pé (vv. 7-8). O que pode ser percebido, aí, é que a esperança, entre a certeza da fé e a atuação do amor, é o elemento que fortalece o coração para as transformações que Deus intenta para nosso caráter (“nos gloriamos em o nome do Senhor”).

Isso é tratado por Paulo, em Romanos 5.1-5. Uma vez seguros no socorro provido na justificação em Cristo, temos paz com Deus (aceitação) e, pela fé, certeza do acesso a essa graça. Assim, gloriamo-nos na esperança da glória de Deus (v. 2c). Os conceitos de glória e gloriar devem ser bem entendidos. O Antigo Testamento usa palavras que os associam ao “peso do Senhor” e “brilho do Senhor” e “beleza do Senhor”; o Novo Testamento emprega palavras que falam do “brilho do Senhor”, “iluminação do Senhor”, e virtude do Senhor comunicada aos que são chamados a participar de sua própria natureza (cf. 2Pd 3-7). Paulo continua, dizendo que, na tribulação, o processo de reflexão do caráter de Deus é exercitado na perseverança (em obedecer à sua vontade revelada), realizado na experiência (aplicação dos seus mandamentos e promessas) – tudo motivado pela esperança que não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo (v. 5; cf. Rm 15.4).

Tem muita gente querendo tirar o cavalo da chuva. Dizem: meu marido, minha esposa, meu filho, meus pais, minha igreja, meu problema, meu pecado: “que esperança!” Uns dizem que acabou o amor que jamais acaba (1Co 13.8), outros, que está chegando ao fim a paciência que jamais tiveram, e outros ainda, que não conseguem perseverar no bom caminho ou vencer tentação ou provação. O que esse povo precisa é de uma experiência com a bondade de Deus que o leve a obter da sua Palavra o motivo de uma esperança realista (cf. 1Pd 2.1-5). Uma esperança de sol e chuva: de glória que brilha mais do que o sol do meio dia e que cai em graça como chuva na sede da terra.

A Bíblia diz: Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar. Portanto, meus amados, fugi da idolatria (1Co 10.13-14). Ora, Deus é quem socorre, liberta, transforma, capacita, fornece recursos e dá força – crer menos do que isso configurará idolatria.

Uns confiam que o pecado lhes proporcionará a recompensa que esperam, que o divórcio lhes trará a liberdade que desejam, que o conselho dos ímpios os levará a bom termo, que a própria vontade os conduzirá à vitória; outros, que não haverá poder que os ampare ou que os transforme ou que controle a situação. Tudo isso é idolatria de quem pensa menos de Deus e muito do homem. Só há uma maneira para vencer essa idolatria, e essa é uma de desesperar da esperança, quer otimista quer pessimista, para esperar no Deus dos céus contra toda esperança da evidência terrena (cf. Rm 4.18).

Lembre-se sempre desta declaração de Paulo: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6); e disto: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus; e disto: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. Essa esperança certamente nos ensinará e capacitará para a lida com cavalos e carros e com as pessoas e o nosso próprio coração.

Wadislau Martins Gomes.

sexta-feira, março 18, 2011

TERREMOTO, TSUNAMI E DESASTRE NUCLEAR, NO CORAÇÃO




Gilgamesh, irado contra a injustiça, apela ao deus Shamash
 
Desta vez, terremoto e tsunami não causaram tanta devastação nas almas já prevenidas com as escoras da autojustiça. Tal como o Japão é louvado pelas soluções empregadas em edificações com vistas à proteção desses “atos de Deus”, assim há quem se previna da ação de Deus, fundamentando ataques e defesas na própria consciência (cf. Rm 2.15). Aqui, no soco firme dos brasis, alguns trataram de abalar a imutabilidade de Deus a fim de explicar tremores do mal e inundações de dor que assolam a alma (Pv 4.1-27). Poderá ser até que não dê em nada; mas, pelo menos, acha o estulto, a mão erguida contra o céu é prova da insatisfação com tudo isso que está aí fora!

Ao ler coisa escrita por quem, um dia, disse crer na soberania e na bondade de Deus e, hoje, muda sua interpretação da Palavra revelada, fico pensando que o terremoto e o tsunami conseguiram chegar aqui. Vai ver que é por que a crença não era a de uma fé em Deus, mas fé na fé. Isso, porque nossa crença básica (a que realmente entretemos no fundo do coração e que controla nosso comportamento) é a base com que interpretamos o mundo e seus eventos. Sem os óculos da graça de Deus, tudo o que o homem vê é desgraça.

Quando atrita com as camadas superficiais da insegurança humana, essa (des)crença profunda abala a esperança. Essa ira, muitas vezes, provoca explosões que derramam lavas ferventes e montanhas de água fria sobre a fé. Outras vezes, como se fossem acidentes nucleares, liberam radiações de falsa piedade, que consomem a mente e o coração do povo machucado pela conturbação da natureza decaída e da alma ferida pela carência da glória de Deus.

Não desejo argumentar com aquele que pretenda mudar a natureza do Deus eterno em função de uma incompreensão da realidade presente. Com esse, se ele quiser, poderemos conversar em privado, a fim de que as sujidades do coração não aflorem publicamente, expostas pelos cataclismos existenciais. Quero, sim, falar aos cristãos que possam se abalar com as palavras de falsos repórteres observadores das fronteiras entre o divino e o humano.

Aos verdadeiros adoradores de Deus, digo que o mal não tem existência própria, mas é o bem quebrado na catástrofe do Éden. Quando Deus perfeito criou o mundo fora de si mesmo, criou algo bom por natureza, mas menos que perfeito, pois só ele é Deus. No entanto, em seu desígnio eterno, decretou que, na própria essência dessa criação – o Filho, o Verbo – um dia, nós, menos que perfeitos, seriamos feitos permanentemente bons por meio da obra redentora de Cristo: encarnação, vida de obediência, morte vicária, ressurreição e ascensão. Hoje, o bem quebrado mostra uma face avassaladora e sua nuvem radioativa impede que o bem de Deus seja visto. Mas, para aquele a quem a Luz do mundo afasta as trevas da descrença, todo mal é coberto de graça consoladora e promove o bem dos que são chamados à fé.

O verdadeiro crente não teme o homem e o mundo, mas é tomado da sabedoria do temor do Senhor. Humilde, ante as forças pujantes da natureza decaída e a sobrepujante graça do Criador e Redentor, o verdadeiro crente adora o Deus da Criação, em vez de adorar a criação, temendo-a e reinterpretando Deus à sua falsa luz. Deixa-se transformar pela ação do Espírito de Deus, em vez de pretender mudar o Deus que age, e sempre com justiça e bondade.

Certamente, dói na alma a dor que dói concreta na vida do meu irmão de carne e sangue. Entretanto, dói mais ver que essa dor é capaz de abalar a fé do meu irmão no sangue de Jesus Cristo e na unidade do Espírito. Dói ver a desesperança inundando e levando de roldão a casa mal fundada no coração em que deveria estar a casa na Rocha. Dói ver o amor do coração humano destruído e incapaz de anunciar com efetividade a segurança e confiança em um Deus que é o único movedor imóvel e transformador imutável.

Esse diz com os filhos de Corá:

Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam. Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; jamais será abalada; Deus a ajudará desde antemanhã (Salmo 46:1-5).

Esse diz, como verdadeiro profeta: Creio, meu Criador, Redentor e Senhor, que estás no controle, presente e em autoridade sobre toda a terra e toda massa de grande águas, Ouvi-te na voz da tua justiça e meu íntimo se comoveu, entendi a podridão dos meus ossos e que em silêncio, devo esperar o dia da angústia. O filho de Deus considera a justiça de todos os atos de Deus quando considera seu próprio coração. Ainda que o terremoto seja de 8.9 e que venham os tsunamis e que a ameaça nuclear me bafeje o rosto, e os homens se rebelem contra ti e me acusem de ingenuidade ou obscuridade, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza. (Cf. Habacuque 3.15-9).

Wadislau Martins Gomes

quarta-feira, março 09, 2011

O FILHO DO TECELÃO*

O Tecelão -- Van Gogh

- Papai! - a voz de Andros soou estridente - De onde vêm os teares?

Em meio à modernidade da viscose e da microfibra, um artesão preservava como herança de família, o gosto e a lida na tecelagem manual. Para muitos, coisa para turistas. Para ele, opção de vida. Pouco dinheiro, muita satisfação. O filho talvez até tomasse gosto e mantivesse a tradição. À frente, no tear de pisos, o ritmo dos liçaróis cruzando os fios da teia tensos no órgão e no cilindro soava como pulsação de vida. Pé no pedal e mãos no pente e na lançadeira, o tecelão entretecia, coração, músculos e nervos na confecção da trama. Havia uma antecipação de tecido na urdidura, uma expectação de vida como teia de desígnio, trama de propósito, tapeçaria de história - quando tecelão e tecedura se encontravam na obra criativa.

O filho do tecelão, menino, desejava reatar a amizade com o pai. Não sabia sequer por que a atração pelo trabalho a que o pai dedicava o dia inteiro, a vida inteira. Sobe, lança, desce, ajusta... Os fios partidos naquela manhã já haviam sido arrematados. Só lhe restavam culpa e admiração - o pai consertava fios partidos.

- Sei lá. Este já foi do meu pai, e antes dele, do pai do meu pai... Parece que esteve aí o tempo todo...

- O tempo todo? Então o tear é “que nem” Deus.
O tecelão não gostava de conversar com o filho sobre Deus. “Sabe lá se ele existe?” Houve um tempo em que ele mesmo tinha crido. Foi quando ele ainda era menino, e o pai ameaçava, dizendo:

- Olha que Deus está vendo. Qualquer coisa errada, ele pá!

Pá deveria ser alguma coisa terrível. Assim como se Deus estivesse pronto para abater a vítima incauta. Depois, percebeu que Deus não estaria sempre atento. Havia coisas que ele não via, ou que talvez deixasse passar. E nesse caso, o pá não era tão pronto. Mais tarde, achou que Deus talvez nem mesmo existisse.

- Não, o tear não é Deus. Não vê que eu preciso operar o tear. Se ele fosse Deus, ele é quem me operaria. Se eu não trabalhar nele, o tear não faz nada.

A conversa estava indo para fora de controle. Quem conhece menino sabe que não se pode dar trela.

- Então, quem fez o tear?

- Não sei, menino. Apareceu aí.

O menino guardou a noite toda a figura de um imenso tear, o primeiro de todos os teares, que se fez presente aí – seria por acaso? Talvez um vento cósmico, como aqueles da aula de ciências, que tenha trazido para cá moléculas promissoras de teares? Tempos sem conta teriam passado para que elas se juntassem num tear? Mas como saberiam disso, antes que fossem? Que sentido? Que desígnio as juntaria e entreteceria? Que propósito? Coisa demais para uma cabeça adolescente.

– Talvez, fosse mesmo Deus, que criou todas as coisas, aquele que criou o tear.

– Eu fiz a terra e criei nela o homem; as minhas mãos estenderam os céus (Isaías 45.12) – segredou-lhe o Espírito, mas Andros não estava pronto para ouvir.

Na manhã seguinte, o pai exibiu, orgulhoso, a obra acabada. Fio a fio juntado sob sua autoridade de tecelão. Uma torcida aqui, um arremate ali, uma trançada, um aperto, cores vivas nas formas centrais, cores esmaecidas no fundo, pareciam ter sido despertadas da matéria. Madeira, algodão, ferro e mãos haviam despertado qualidades estéticas e emoções inusitadas.

- Não artesanato - ele disse -, obra de arte!

Mais tarde, o filho voltou ao pai que admirava a tapeçaria estendida sobre a mesa, e perguntou:

- Pai, eu nasci ou sempre estive aí?

Vinte anos se passaram. Com o filho do tecelão cresceram também as perspectivas, as expectativas, os erros, as preocupações, as perguntas.

- De onde a motivação para urdir a vida e imaginar o homem? - indagou, homem feito.

- Do sempre... do nada... do acaso - responde o século.

- Qual o sentido?

- Nenhum...

- Então, qual o propósito?

- Existir? Viver?

- Um tear tecendo tapetes sem chão, tapeçarias sem parede, gente sem origem e sem destino...

Durante os anos, o filho do tecelão viu muitos fios rompidos. Desobediências, mentiras, desafetos. Pequenos erros na urdidura da vida, muitos dos quais ficaram ali, despercebidos, e tantos outros que o pai ajudara a consertar. “Será que Deus existe?”, substituiu a questão: “Será que Deus sabe?”

- Melhor com Deus? Melhor sem Deus? Como o reatamento? Onde a rematação? - pergunta o filho do tecelão.

- Sem Deus. Ao acaso. Da melhor maneira. Impossível de saber - responde o século, impaciente.

- E eu? Apareci aqui?

Se vista apenas como um tear surgido de um estado impessoal e inconsciente - que, de maneira inusitada, processa qualidades estéticas, éticas, morais, e que consegue indagar a respeito de sua própria natureza - a personalidade humana separada de Deus parece um conceito bem perverso. O pensamento secular precisou atribuir fixidez à personalidade humana porque acredita que o mundo exista ao acaso, sem desígnio ou propósito. Reduziu tudo a carne e sangue. Entretanto, esse reducionismo não satisfaz a ânsia de ser, de conhecer, de pertencer. Tal como os liçaróis, abrindo, cruzando e prendendo a trama, a alma anseia movimentos de vida.

– Deve haver algo mais para que seja vida. Algo além de mim mesmo, algo dentro de mim, algo que se estenda para o mundo; um sentimento, um tremor de vida – murmurou Andros.

– Deus não existe – declarou o século, rabugento.

Soltos, sem as amarras da crença, os fios da imaginação não apreendem o sentido do tecido. Antes, promovem a rebeldia da descrença que dá à luz a autonomia; nutrem a reversão insidiosa da infidelidade que faz crescer a solidão; e estabelecem a inversão da origem e da finalidade do ser na descrença de tudo. A despersonalização secular do ser humano, sua carência de um referencial além da própria humanidade, acaba sendo aborrecida e irada, pois não oferece explicação para a pessoalidade que perpassa tudo quanto existe.

Certamente, somos todos tecelões de vida no tear de Deus. Jamais explicaremos o tear nem os fios nem a urdidura, mas seguimos pela vida criando cenas e desempenhando papéis, rompendo fios que em vão tentamos remendar. Sobretudo, não nos deixam as laçadas das indagações existenciais, o desejo de reatamento, e a expectação de um arremate final. O desespero solitário e impotente do homem sem Deus tece explicações avessas, imagina pontos e nós para modificar o sentido das cenas.

Davi, no Salmo 139.19-22, expôs a frustração de sua alma em relação àqueles que desconhecem o controle, a presença e autoridade de Deus. Pediu a Deus que desse cabo do homem que perverte a verdade em mentira por causa da rebelião insidiosa que movem contra o Senhor de todas as coisas. Suas respostas às indagações mais prementes do ser aborreciam a sua alma. Os inimigos de Deus eram os seus inimigos. Por quê? Porque ele conhecia ao Deus de sua criação e sustentador da sua vida, e ao poder da sua comunhão, e sabia que, sem ele, não há expectativa de vida, de reatamento de arremate feliz.

Quanto a ele mesmo, Davi revelou entendimento sobre o tema da pessoalidade e de sua referência divina. Sabia-se conhecido e sondado por Deus. Seus motivos e comportamentos estavam à mostra diante daquele que penetra os pensamentos. O rei Davi entendia a linguagem difusa na criação, a revelação do próprio Criador. Antes que a palavra lhe chegasse à língua, Deus já a conhecia. O Deus que criou o mundo por meio de sua palavra cujo poder agora o cercava por trás e por diante e por cima com mão criadora e mantenedora. Ele sabia que Deus é o ambiente do homem e que está no completo controle de todas as coisas e seres. Não conhecia o pastor de ovelhas a palavra de Deus? Não sabia pela revelação da Escritura que o Deus de seus pais - de Abrão, de Isaque e de Jacó, o Deus pessoal - havia criado o mundo segundo sua pessoalidade e como um ambiente próprio para a pessoalidade humana? Uma linguagem tácita o cercava por todos os lados, revelando um conhecimento que, ainda que não pudesse ser exaustivamente conhecido, não poderia também ser evitado. Para onde fugir do conhecimento de Deus? Sua presença lhe era patente em todas as dimensões. Seu controle estava na mecânica dos dias e na física da luz e das trevas. Especialmente, era-lhe evidente a sua autoridade. Deus era o seu Criador pessoal.

Pois tu formaste o meu interior tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. Tais pensamentos eram preciosos para o rei, grande e incontáveis (Salmo 139.1-18, 23-24).

O Tecelão da vida havia formado e tecido o salmista no ventre de sua mãe com fios e padrões ósseos e celulares, e o próprio código genético, de modo “assombrosamente maravilhoso”. Ele sabia acerca da extensão da soberania do seu Criador e da profundidade da pessoalidade impressa na sua obra de criação, especialmente, na criação da pessoa humana. Sabia que o Senhor e Criador da complexidade de cada um dos seus dias, tem autoridade sobre a vida do homem para escrever a sua história e para pedir contas dela.

Wadislau Martins Gomes

* Do livro de W. M. G., Personalidade centrada em Deus, em preparo.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

MISSÕES, A “MENINA DOS OLHOS” DE DEUS?


A frase soa bonita, a despeito do lugar comum. Mas será verdadeira? (Sou a favor da missão da igreja!) A questão é que, quando “missões” são compartimentadas, a missão da igreja perde o vigor que Jesus imprimiu na Grande Comissão. Isso ocorre, quando o geral é tomado pelo particular e vice versa. O geral, nesse caso, é a igreja (Porque a porção do Senhor é o seu povo... a menina dos olhos; Dt 32.9a-10c) e o particular a missão da igreja. A visão (pós)moderna de missões copiou o critério de um tipo de sociologia e de antropologia que se opõe a Deus para interpretar sua Palavra. Isso, acrescido de zelo virtuoso e de licença poética, mas não fiel ao texto, que, aproveitando-se de um lapso de tradução, enalteceu o “ide” a ponto de idolatrá-lo. (Se alguém, como neste caso, disser o que direi, certamente perderá a comunhão à pecha de incrédulo, e sem direito  a ser assistido pelo ministério missionário!). Em Mt 28.18-20, o Senhor disse: Indo... fazei discípulos... batizai-os... ensinai-os... Assim, tão importante como ir, é a maneira como o missionário vai sob a autoridade do Senhor; e ele vai com o tríplice propósito de fazer seguidores de Cristo, inseri-los na igreja visível e ensiná-los a obedecer a Palavra de Deus. (Ver meu livro: Em terras dos brasis, Brasília, Refúgio, 1999.)

O problema com o modelo hoje apresentado é que ele, geralmente, torna-se paraeclesiástico, mesmo dentro de igrejas (às vezes, em função de má percepção do texto bíblico, outras, como “estratégia” de mercado). Como poderíamos levantar nossos olhos para os horizontes do mundo que Deus descortina para a missão da igreja? Serei honesto no meu coração para mudar, se necessário, tal como desejo que os corações sejam transformados, mundo afora? O que fazer com a liderança que já conquistei nessa área? Como proceder, se já estou no campo? Lembre disto: barco parado não poder ser guiado (...assim que as plantas dos pés dos sacerdotes... pousem nas águas do Jordão, serão elas cortadas; Js 3.13). Nenhum de nós será perfeito, mas Deus corrige nossos rumos – e isso mesmo é que a igreja e o mundo precisam ver. Pelo menos, meu desejo sincero é pensar após os pensamentos de Deus.

A primeira coisa a pensar é: A igreja é a agência missionária de Deus e sua missão é de testemunhar o evangelho daquele que é a cabeça da igreja. Ora, o corpo da igreja só tem duas dimensões, isto é, a igreja invisível, de todos os tempos, e a igreja local (todos os concílios são de igrejas locais reunidas para fins administrativos e de viabilização da obra). Esse corpo, do qual os membros individuais são inseparáveis do conjunto, é que recebeu o mandado missionário. Isso altera a totalidade do modelo; remove do cenário os franco-atiradores. Muitos desses, pensando calçar as sandálias de Paulo, passam ao largo das reuniões conciliares, em Jerusalém, e das muitas reuniões de orações que foram concluídas com separação e envio de missionários (At 13.1-4). Certamente, ocorrerá o pensamento: “Mas é minha igreja que está ‘fazendo’ missões”. É bem verdade que as igrejas estão fazendo um esforço sansônico, gideônico e paulino para honrar a ordem do Senhor. Mas esse esforço é baseado em fé ou em obras? As obras pretendem conquistar números e apresentar bons relatórios (o que é bom, se não for princípio diretivo). A fé deseja cumprir a missão segundo o modelo bíblico e, só assim, obterá os frutos prometidos (Jo 15).

A segunda coisa a pensar, então, é: como será possível cumprir a vontade de Deus, sem cair no modelo que considera uma ou outra parte do corpo como se fosse “a menina dos olhos” de Deus? A resposta a essa questão é exatamente o ponto funcional da Grande Comissão: discípulos são confirmados nas igrejas (At 18.18- esp. 23), batizados nas igrejas (1Co 12.13) e ensinados nas igrejas (Ef 4.11-12). Note que eu não refiro à casa em que a igreja se reúne, mas ao corpo de Cristo em algum lugar. Vem daí, então, que a única maneira de realizar a missão da igreja será por meio do crescimento da igreja local na unidade de Cristo, na obediência à Palavra e na verdade em amor entre os irmãos. Essa é a plataforma da qual o verdadeiro evangelho será ouvido de modo convincente. A expansão, então, se dará, quando, dessa plataforma, vidas coerentes com as palavras do testemunho, apresentarem uma mensagem pura, um compromisso de lealdade ao Senhor quanto à comunhão dos santos, e uma disposição para mudanças de coração e de comportamento. Serão vidas transformadas, respaldando a palavra anunciada. Em um mundo de comunicação, as coisas têm nome a fim de serem reconhecidas. Como poderíamos chamar isso? Transplante de igreja? Multiplicação de igrejas?

A ideia é uma de exibir, por vida e por palavra, o evangelho da solidão de Cristo na cruz do Gólgota e a unidade da Trindade na sua ressurreição. Isso só poderá ser feito por meio do seu poder exercido sobre pessoas que ele chamou à comunhão de sua morte e ao poder da ressurreição. Ninguém, sozinho, exibe unidade, comunhão e amor. Além disso, sem que alguém seja membro do corpo, amadurecido, experimentado no exercício dos dons conferidos à igreja, não poderá testemunhar os frutos que atestam a fé. Tudo o que poderemos fazer, individualmente, será “jurar por Deus” que existe uma igreja que obedece a Cristo. Mas teremos de nos desculpar que não deu para trazê-la porque... havia outras coisas mais importantes para fazer.

Trocando em miúdos, o diferencial da riqueza do modelo de missão da igreja, neste terceiro ponto, está nesse transplante de igreja (não é só rótulo novo, não). A proposta é uma de os missionários não precisarem levantar sustento, mas serem enviados por uma ou mais igrejas ou denominações cuja disposição para cumprir a missão não se limita a dar dinheiro para a “menina dos olhos” mais bonita. A missão da igreja é fazer discípulos, batizar e ensinar – e expansão é parte dessa missão. Logo, a igreja tem a missão de manter missionários que não precisem levantar fundos para a tal menina.

Outra parte da proposta é que, para transplantar igreja, nenhum missionário vá sozinho, portando fotos da congregação assentada nos bancos do lugar de reunião. Hoje em dia, com “fotochope”, todo mundo duvida da prova; é como comprar carro usado por correspondência. Para testemunhar a ação de Deus na igreja, só uma igreja. Assim, poderia ser que duas ou três famílias de dispusessem a se mudar com o missionário para um local determinado, para viver como igreja. Além da mostra nas reuniões desse pequeno grupo, há o valor do testemunho de profissionais, que dará suporte à palavra pregada. Nesse ponto, a questão logo apontada é: “Missionário até que é fácil arranjar, mas profissionais... é outra história. Que história? Que Deus só chama missionários profissionais e não profissionais missionários? Deixe-me ser franco (com educação): aquela coisa de uns contribuem e outros vão só dá certo quando os corações estão empenhados. Dinheiro sem coração é corrupção. E aquela coisa de consagração, visão missionária, ação de Deus? Só na vida de alguns. Eu sei que há gente das mais diversas áreas –saúde, construção, direito, magistério, comércio, serviços e mais – que só não vão por causa da mentalidade individualista e sacerdotalista que grassa a igreja.  Reúna a igreja ou parte dela (presbíteros, diáconos, homens ou mulheres) e aguarde, em jejum e oração, que o Espírito separe os escolhidos. Só mantenha em mente que jejum significa a disposição de depender de Deus e, oração, a disposição de obedecer à vontade dele.

A terceira coisa é a logística. O missionário pastor terá de treinar os profissionais missionários no conhecimento experimental de Deus e da sua Palavra. O tempo que isso leva será o tempo para que a igreja e ou igrejas (as denominações terão de concentrar esforços na igreja local) formem a visão do projeto missionário. Não bastará realizar um curso bíblico, por melhor que seja, mas terá de haver tanto uma aplicação e implementação desses estudos na vida pessoal e familiar, quanto um entendimento do desempenho profissional dentro de uma cosmovisão bíblica. O profissional não ajudará em nada se não discernir seu trabalho como área teológica. Mecânico cristão? Sim. Mas isso não é coisa neutra? É? Leve seu carro no mecânico que arrebentou o meu e veja só; quase que me arrebento. Além da honestidade, da precisão do serviço e da beleza do tratamento, existe toda uma estrutura que suporta as profissões: disposições do trabalho/descanso e recompensa, doutrina bíblica do corpo e da alma, direito bíblico, motivo econômico financeiro, forma e criatividade, conceito e prática da educação, funções operações domésticas (posso parar?).

A quarta coisa é o alvo missionário. Nos meus dias de neófito, missões indígenas estavam na crista da onda. Depois, vieram as vagas das portas abertas para além das cortinas de ferro, de bambu, da resistência do povo da Bíblia (que foi a minha praia); então, do primeiro mundo (porque o Brasil já podia exportar). Fechadas as portas por causa do marasmo dos contribuintes, veio a janela aberta para os maremotos dos mais difíceis e dos não alcançados. Tudo de conformidade com o poder de Deus que nos usa, mas que não depende de nós e realiza a obra a despeito de nós. Agora, chegamos a um ponto mais abrangente. Muitos perceberam que plantar igreja dá mais resultado do que eucalipto em proximidade de fábrica de papel. O problema é que uma igreja de papel, sujeita às oscilações do mercado, não tem a fibra necessária para ser leal ao Senhor da igreja. A proposta é: permanecer sensível diante de Deus para o que ele considera ser o campo alvo; permanecer em oração, sensível à orientação do Espírito para o lugar e a época adequados; obter conhecimento do lugar e de pessoas onde e com quem serão formados os laços de afeto que propiciam, pela ação do Espírito, a pregação e a recepção do evangelho de Jesus.

Quem faz essas coisas? O missionário (e presta relatório)? O grupo a ser enviado (e volta para entusiasmar a igreja)? A liderança (e volta para determinar a ação)? Sim, mas leva a igreja toda. Não digo todos todos, mas aqueles a quem o Espírito puser no coração o desejo espiritual de se envolverem na obra. Aí, sim, é hora de lançar mão do arado e só olhar para trás quando parar um pouco, só para ver quem vem vindo. Isso é necessário, pois a igreja deverá fazer daquele campo um lugar de férias ou projetos de trabalho (enquanto descansa, carrega pedra). Haverá muito para ser feito, de visitação e labuta no pesado, até lazer, ouvindo e contando “causos” regados a moda de viola ou Vila Lobos.

Finalmente, a nova igreja tem de dar o testemunho de adoção da terra e povo que pretende abençoar com o evangelho. Senão, quem irá acreditar que Jesus Cristo é o Verbo que habitou entre nós. Outro dia, conversando com Davi (Charles Gomes, meu filho), fiquei mais crente e comecei a sonhar com lugares que poderiam ser transformados no contacto com crentes operosos. Lembrei de uns moços (ei! agora, vocês são velhos) que resolveram se preparar para servir a Deus dessa maneira. Eram de três áreas profissionais planejadas para facilitar o testemunho que dariam. Dez anos depois, ainda os encontrei em Santa Catarina, concluindo mestrado e doutorado, firmes no propósito inicial. Em Boston (nos “estadunidos”), junto com o projeto da Igreja New Life, Davi e eu participamos de outro projeto chamado Boston Venture, de cooperativas baseadas na igreja. Hoje, estamos pelejando com a Igreja Presbiteriana Paulistana, junto com os santos Heber e Alderi (com todo respeito, doutores) e um grupo de profissionais, multiplicando uma igreja. Virá o dia em que teremos nosso centro de recursos para a igreja e a comunidade, fornecendo aconselhamento bíblico para áreas como do homem interior (não é só problemas não), saúde, direito e daí em diante. Bem que você poderia pensar em uma cidade no ineriorzão ou na África ou no fim do mundo... (só não que eu mesmo não posso ir, porque estamos fazendo uma obra de peso, aqui!).

Wadislau Martins Gomes