segunda-feira, fevereiro 26, 2007

AVC, FAISCA E AFOGAMENTO SOB O CONTROLE, A PRESENÇA E A AUTORIDADE DE DEUS

Ocorre-nos que a vida é a maior manifestação da graça. A Bíblia nos diz que, antes, a graça é maior que a vida!

Dia de sol quente, jogávamos conversa fora, na varanda da frente da casa. O tema das crianças competia com a fresca. De repente, quando Beth falava com Adriana sobre as crianças, as palavras lhe saíram como que enroladas na língua. Sua boca estava contorcida e o olhar, surpreso. Eu não queria estar certo quanto ao que pensei. De imediato, chamei Davi, que estava na área de trás da casa, e disse: “Olhe o rosto da mamãe!” Tendo visto, suas palavras confirmaram minha primeira impressão: “Direto para o hospital!”

Lá fomos, depressa, sem muita conversa, e, enquanto Beth apresentava sinais de melhora e de piora, nossas certezas e incertezas igualmente flutuavam. No hospital, a plantonista diagnosticou qualquer coisa como “infecção do nervo da face”. Qualquer leigo poderia ter dito isso, e até leigo saberia que não era. “Vamos para casa”, eu disse. Quem seria louco de entregar a esposa ao trato de tal diagnóstico?

Em casa, Beth apontou para um quadro pintado pela irmã da Adriana, e disse: “Andréa pintou este quadro há trinta anos." “Trinta? Então, que idade ela teria na época?” “Trinta não”, tornou Beth... “cento e cinqüenta... não... setenta e cinco... menos onze...” A partir daí, trocou refresco por panela, bolsa por sofá, e a boca ficou mais torcida.

Pequeno acidente vascular cerebral. Foram cinco dias de cuidados e exames, ultra-som da carótida, eletrocardiograma, sangue etc. Depois, mais exames, ressonância magnética, eletro encefalograma e angiografia cerebral. Os exames mostraram que Beth já havia sofrido uma isquemia anteriormente, no lado esquerdo, numa área bem no interior do cérebro. A isquemia atual, no lado direito de cérebro, não atingiu área extensa nem causou seqüelas insuperáveis. O problema é que exames recentes mostraram que, desde o AVC, houve outras diminutas ocorrências, as quais implicam continuação da busca das causas. Tudo isso aconteceu no último mês. No meio de tais correrias e sobe-e-desce emocional, recebemos muitas visitas e reunimos quase toda a família (Deborah veio com o filho mais novo; Davi, logo após a angiografia, viajou para os EEUU, a serviço).

Há cinco dias, quando nos assentamos à mesa da sala de jantar para o lanche da tarde o céu escureceu rapidamente. Raios e trovões e muita água despencaram, mas, como de costume, tocamos a vida. Quando o telefone soou, três de nós reagimos mecanicamente, fazendo menção de levantar da cadeira: “Eu atendo”, soaram três vozes. Ganhou quem levantou. Daniel foi ao telefone e, quando disse "alô", houve um estalo e tudo o que vimos foi seu corpo arremessado contra a parede e resvalando para o chão.

No meio da confusão formada, debrucei sobre ele, meu coração aos pulos sobre o dele parado. Gritei: “Ai meu Deus!” em profundo rogo. Soquei seu peito, calquei com força uma, duas, três vezes, até arrancar-lhe o grito sufocado. “Ele está movendo os olhos”, gritou Debby. Sem controle do braço e da perna esquerdos, e a mão direita rígida e retorcida, Daniel estava aturdido e não conseguia se comunicar. Márcia, ao telefone, buscava ajuda. Foi então que Daniel começou a reagir. Pouco a pouco retomou a quase normalidade.

Nos comentários posteriores, Davizinho, o filho mais velho do Daniel, de seis anos, exprimiu susto e medo. Tia Adriana e tia Debby o sossegaram: “Deus está em controle”.

Algumas das causas prováveis do AVC foram eliminadas, deixando questões sobre as causas daquilo que continua acontecendo. Beth, agora, deverá passar aos cuidados do cardiologista. Daniel foi ao médico e constatou, no coração, sinais da violência do ocorrido.

Somos, todos, meninos assustados e com medo, mas Deus nos diz que ele mesmo está em controle, presente e em autoridade, dando-nos força para caminhar com a companheira e para dar murro no peito do filho. Seria isso, tudo? Teriam passado as tempestades de dentro e de fora?

Jonathan, um ano e meio, filho da Deborah, estava à mesa, no café da manhã. Eu, desde as quatro da manhã no trabalho, havia reservado agrados de chocolate para os netos. Dei um para o pequenino. “What do you say, baby?” E ele: “More, please”. Depois disso, voltei ao escritório. As costas sentindo a tensão das semanas passadas, o trabalho se arrastava dolorido. Desci para medir a pressão arterial: alta. Encostei o corpo num sofá para fugir à preocupação da família, sem sucesso. Deborah, com Jonathan do lado, veio para perguntar: “Tudo bem, papai? Precisa de ajuda?” E a conversa vai entre tudo-bens e é-só-cansaço, quando, então, ela pede: “Um minutinho, pai, deixa-me ver o Jonathan, que ele anda sapequinha”. Onde o Jonathan? Não na sala, não no quarto, não na cozinha. Na piscina. Então, os gritos, as corridas, e minha filha, na água, põe o corpo inerte do neto na borda. “Oh Deus! Salva meu neto!” Boca-a-boca, gritos, pressão do tórax frágil, terror e oração e, de repente, a vida. Vômito e fôlego, ações prontas, o resgate encaminha o ferido e os atônitos para o hospital.

Ele está lá, agora. Luta bravamente para vencer as dificuldades respiratória e cerebral. Revezamo-nos no acompanhamento, na UTI. Neste momento, a mãe está lá, ao lado do leito, cercada de nosso apoio, mas visivelmente só. O pai, John, conseguiu aprontar a documentação para viagem, e chega amanhã. Davi conseguiu rápido transporte, da Califórnia, e veio juntar à fraqueza, a força da graça. Jonathan e Debby estão feridos. Nós estamos feridos. Beth, filhos, noras, genro e netos assumiram seus postos na porta dos céus e na roda da terra. Nosso coração pulsa no ritmo da paz de Deus, certo das dores e das glórias de Cristo.

Certamente a graça é maior que a vida!

Wadislau

quinta-feira, abril 13, 2006

IGREJA DESABA E MATA SEUS MEMBROS!

Se o 'âncora' do jornal da TV anunciasse, entre grave e cínico, o desabamento de um templo religioso, mostrando os destroços e o empenho das pessoas no socorro dos feridos, provavelmente não produziria mais sentimento aos nossos olhos e ouvidos do que as notícias de carros bombas, de suicidas e de desastres catastróficos do nosso dia-a-dia. Talvez, por isso mesmo, o "grande desastre evangélico" (título de um livro de Francis Schaeffer) não tenha causado o impacto necessário para acordar muitos de nós que "dormimos" durante o sermão. A igreja caiu e ninguém viu.

Nunca o evangelho esteve tão em moda. Catedrais imponentes, enormes galpões adaptados, salas de hotéis e aparelhos de televisão, tudo vira igreja contemporânea. A palavra de ordem ora é "missões" ora é "movimento de crescimento de igreja" ora "estratégia" ora "propósito" como se fossem marcas de cimento. Pastores viram mestres de obras, líderes viram pedreiros, todos trabalhando ao som do ultimo "cântico espiritual" composto após uma reunião de bênção "para viagem".
Na verdade, nada tenho contra coisas novas. O que não gosto é de correr atrás de novidades, tendo de abandonar coisas boas e eternas. Já fui pastor de igrejas que tinham prédios velhos e novos, bonitos e feios, clássicos e improvisados; já participei de igrejas que cresceram e já fui missionário (continuo sendo); penso também em estratégias e propósitos. Mas ao ouvir falar do grande desastre evangélico, não quero tapar meus ouvidos e fechar os olhos enquanto a casa cai. Mais que nunca, creio que é preciso reformar a igreja.
Pense um pouco nisto: Cristo é a pedra angular da igreja; nós plantamos e regamos, mas Deus é quem dá o crescimento; o Espírito do Senhor é quem lidera a pregação e o louvor. Será que estávamos no templo certo quando a casa caiu?
Talvez, se a competição entre os pastores para ver quem tem mais sucesso (medido pelo estrago feito no desabamento?) ou pelo "pastorado" de uma igreja ou pelo lugar de destaque no próximo "encontro" fosse chamado de inveja, ciúme e cobiça... Talvez, se a competição entre pregação e louvor nas igrejas ou a competição entre modelos missionários e relatórios missionários (como é que se mede isso: distância, fundos, números?) fosse chamado de ativismo e culto de si mesmo... Talvez, se a competição entre pastores e presbíteros/diáconos, homens e mulheres, jovens e ultrapassados, fosse chamado de obras da carne... então talvez nos arrependêssemos e voltássemos para a Pedra, para o canteiro de obras, para a habitação de Deus no meio do seu povo.
Não sou pessimista. Se o fosse, não estaria aqui, dando murro em ponta de faca. Sou realista com esperança. Estou certo de que a casa verdadeira não cairá jamais. Estou disposto a continuar a pregação da Palavra, disposto a prosseguir na missão, disposto à oração e à comunhão, disposto à pureza da verdade e à beleza do amor mas na casa certa! Na casa que não cai. E tal missão, tal pregação, tal oração e tal comunhão exigem que eu grite: "Tem casa caindo! Tem gente dormindo! Tem mentira que vira verdade e pecado que vira espiritualidade! Quem edifica veja como edifica, quem prega pregue a Palavra de Deus, quem ora, ore ao Deus verdadeiro, quem vive, viva pela graça de Deus".
Wadislau M. Gomes